4 de abril de 2025

VIAJARES PÚBLICOS

 



A comunidade de Qillenso tem três viaturas ao seu serviço: um Land Cruiser de nove lugares com quase 500 mil quilómetros no corpo; um Land Cruiser de dois lugares e com metade da quilometragem; e um Hilux de cinco lugares ligeiramente menos rodado. 

O primeiro e o último estão na garagem. O maior sofreu um acidente e está à espera do dinheiro para o concerto e o motor do mais pequeno necessita de uma peça nova e estamos a recolher fundos para o poder reparar.

Com um carro para os três missionários a alternativa são os transportes públicos: motorizadas, tuque-tuques, carrinhas de transporte de passageiros e miniautocarros de «primeira classe», como proclamam orgulhosos na carroçaria apesar de muitos terem passado a idade da reforma.

Já os usei a todos. Não gosto das motas, porque me fazem doer a prótese na anca.

Os tuque-tuques são os favoritos. Estão concebidos para transportar o condutor no banco da frente e até três passageiros no de trás. Mas isso é, por estas bandas, manifestamente um subaproveitamento da viatura, um desperdício de espaço. Já me sentei com mais oito e até nove pessoas – condutor incluído – nalguns riquexós motorizados que a Índia deu ao mundo.

Alguns motoristas trazem na pequena bagageira uma tábua para colocar debaixo do seu assento e assim melhor acomodar três pessoas à frente. O banco de trás é para três passageiros, mas como os etíopes são magros, onde cabem três também cabem quatro – eu estrago a equação, mais dois – um de cada lado, de pé, rabos para fora – e entre os joelhos há espaço para mais dois ou três inclinados para a frente. 

O problema maior é o ar condicionado que funciona à temperatura ambiente: quente nas terras baixas e frio e muito arejado nas altas. Já apanhei algumas constipações à sua conta.

E a segurança! Com o condutor «espremido» entre dois passageiros mais alguns sacos de cereais ou outros produtos no chão, a condução é difícil e, às vezes, acidentada. Quando um tuque-tuque se despista lamentavelmente há mortes pela certa. Até porque os pilotos gostam de acelerar os seus bólides de três rodinhas.

Viajar nas carrinhas e camionetas de passageiros é mais quente e protegido, mas também tão apertado como nos tuque-tuques que aqui chamam de Bajaj, mesmo que seja fabricado pela TVS, que é concorrente da Bajaj. No fundo, é fazer a experiência de uma lata de sardinhas onde há sempre espaço para mais uma mesmo com a cabeça de fora.

O facto de a Etiópia ter vindo a experimentar problemas com o abastecimento de combustíveis também nos «empurra» para os transportes públicos quando o nível do gasóleo está demasiado baixo no depósito do todo-o-terreno. 

Não é clara a razão para os problemas com a distribuição de carburantes. O governo defende-se, apontando o dedo ao contrabando de combustíveis. São mais caros nos países vizinhos e os camiões cisternas acabam por lá. Por isso, quer colocar aparelhos identificadores de posicionamento para saber por onde andam e deixar de subsidiar os combustíveis.

Os postos de abastecimento estão em construção por todo o lado – e muitas vezes no meio de nada – mas a falta de gasóleo e gasolina faz-se sentir até em Hawassa, uma grande cidade onde alguns proprietários acabaram na prisão por contrabando.

Há quatro anos, um litro de gasóleo custava 28 birr (menos de 50 cêntimos do euro). Esta semana já passou os 110 (cerca de 85 cêntimos – no ano passado o birr foi desvalorizado para metade). Quando custava 100, antes do último aumento, na cidade vizinha – que não tem nenhum ponto de venda oficial – estava a 125 no mercado negro. A gasolina? Essa custa o dobro! Os tuque-tuques precisam de abastecimento local constante.

Viajar de transportes públicos pode ser arriscado, mas é interessante. As pessoas que não me conhecem geralmente ficam intrigadas por eu falar guji, a sua língua. Costumo explicar que sou guji como eles, mas quando nasci lavaram-me com lixívia e estragaram-me a pele!  Dá para dar uma boa risada – que sempre faz bem em ambientes tão acanhados – e pode ser ponto de partida para outras conversas.

Depois, há condutores que se recusam a aceitar o meu pagamento – aqueles que me conhecem – ou outros passageiros que me pagam o bilhete. Outros, tentam inflacionar a corrida. Da última vez que fui ao banco a Irba Muda, uma viagem de 25 quilómetros, paguei 70 birr pela ida. Na volta, outro condutor queria 150! Chamo-lhe a taxa da pele, que é bastante comum na Etiópia: os estrangeiros pagam mais. Paguei 80.

25 de março de 2025

MULHER BEDUÍNA

 


Conhecemo-la há quase dois anos. Mas só hoje entrámos em sua casa. Uma humilde habitação no deserto da Judeia, feita de chapas, madeira e plástico; frágil ao calor, ao vento e ao frio.

Nas visitas anteriores, recebeu-nos num pequeno canto, no exterior da casa, coberto com lençóis velhos. Estendeu um tapete na areia e aquele espaço transformou-se na sala de estar. 

Hoje não pode ser assim. Está demasiado frio. Nesta altura do ano, a chuva e o vento gelado sopram por todas as frestas. Por isso, convidou-nos a entrar no seu quarto, um pequeno abrigo quase vazio, onde até o ar se infiltra pelas fendas das paredes e pela porta de cobertor.

É uma jovem beduína, mãe de seis filhos, com mãos prodigiosas para bordar. Desde que começámos o curso, em 2023, ela tem sido uma das mais talentosas e empenhadas. No âmbito do projeto «Fios de Paz», as mulheres da aldeia bordam cartões. Ela dá-lhes um toque personalizado. A sua especialidade no bordado são os camelos. 

Durante o verão, destacou-se também como professora pelo seu empenho e criatividade. Generosa, incansável, com um dom natural para organizar e ensinar. Fala inglês fluentemente, oferece-nos bolos deliciosos, sempre impecáveis, como os seus filhos: limpos e bem tratados. 

Numa casa onde a pobreza é evidente, a dignidade é ainda mais evidente.

«Por favor, ela tem seis filhos. Por favor, comprem-lhe bordados e paguem-lhe bem», pede-nos a sogra, intercessora.

A situação é difícil. O marido não consegue arranjar emprego. A filha mais velha está no liceu e é tão inteligente como a mãe. A mais nova, juntamente com os seus irmãos gémeos, é uma das minhas preferidas.

Quanto mais nos aprofundamos na vida das mulheres beduínas, mais admiramos a sua força, a sua fortaleza, a sua resiliência infinita.

Ela despede-se de nós com um sorriso. 

Estava a chover e depois o sol voltou a aparecer. Um pôr-do-sol esplêndido. 

Mulher beduína, bondosa, segurando nos ombros o peso da casa e da esperança. 

Como diz o ditado: «Só as panelas conhecem a fervura dos seus caldos».

Ir. Cecília Sierra,

Missionária Comboniana

19 de março de 2025

CHAGAS MINHAS

Somos humanos:

erramos,

pecamos,

– Confessamos, 

compungidos!

Somos fracos:

chagados,

frágeis,

anjos feridos,

caídos

– Afirmamos, 

contristados!

Dores do meu parto...

Nas suas chagas fomos curados!

São curativos os estigmas meus?

Deixo que o meu pecado

cure para ser curado,

ame para ser perdoado?

A fraqueza faz-se força,

o pecado torna-se graça:

mar de cristal,

fragilidade reparada

com fios de ouro

de vasos nicados

nas mãos amorosas 

do Mestre de Kintsugi 

que me restaura, 

dourado,

que me ama como sou:

com as minhas feridas

e a Sua força,

com as minhas sombras 

Vê a luz que d'Ele vem,

com o meu cair 

e o Seu levantar.

Morro porque vivo, 

vivo porque morro!

18 de março de 2025

A CAMINHO DO MISTÉRIO PASCAL DE JESUS


Gosto de expressar e viver a Quaresma como um retiro em caminho (como um «road movie»), um recolhimento de quarenta dias que as comunidades católica e ortodoxa fazem para se prepararem para celebrar o Mistério Pascal de Jesus, a fonte, o centro e o propósito da nossa vida cristã.

Normalmente, para os exercícios espirituais anuais, vamos para um lugar sossegado e permanecemos em silêncio enquanto meditamos, rezamos e contemplamos a Palavra de Deus, ajudados por um pregador, um diretor ou um livro.

A Quaresma é um caminho de quarenta dias – ou cinquenta e quatro, se se pertence ao Rito Etíope das quatro eparquias do Norte – que nos leva das cinzas à vida nova, à participação nos frutos da ressurreição de Jesus.

O Papa Francisco, na mensagem que preparou para a Quaresma de 2025, sob o tema «Caminhemos juntos na esperança», escreve:

Nesta Quaresma, enriquecida pela graça do Ano Jubilar, gostaria de oferecer algumas reflexões sobre o que significa caminhar juntos na esperança e evidenciar os apelos à conversão que a misericórdia de Deus dirige a todos nós, enquanto indivíduos e comunidades.

Estes são os quatro pontos que gostaria de trabalhar em chave missionária, inspirado na mensagem do Papa, aprofundando os Escritos de São Daniel Comboni: (1) caminhar (2) juntos (3) na esperança e (4) em conversão.

 

CAMINHAR

Francisco escreve que «o lema do Jubileu – “Peregrinos de Esperança” – traz à mente a longa travessia do povo de Israel em direção à Terra Prometida, narrada no livro do Êxodo».

De certa forma, reencenamos anualmente o êxodo israelita através da nossa observância quaresmal: somos chamados a deixar a escravidão do pecado – o nosso Egito – para alcançar a liberdade do Reino de Deus, a terra prometida da justiça, da paz e da alegria (Romanos 14, 7) para aqueles que ressuscitam com Cristo. 

Paulo escreve aos cristãos de Roma:

De facto, se estamos integrados nele por uma morte idêntica à sua, também o estaremos pela sua ressurreição. É isto o que devemos saber: o homem velho que havia em nós foi crucificado com Ele, para que fosse destruído o corpo pertencente ao pecado; e assim não somos mais escravos do pecado. (Romanos 6, 5-6).

Jesus foi guiado pelo Pai no seu êxodo pascal. Na Oração Eucarística que pode ser utilizada nas missas para diversas necessidades, proclamamos: «Pai santo, celebrando o memorial de Cristo, vosso Filho, nosso Salvador, que, pela sua paixão e morte na cruz, fizestes entrar na glória da ressurreição e glorificastes, sentando-O à vossa direita».

Assim, também o nosso caminho quaresmal tem de ter Jesus ao volante. O Papa escreve que o Senhor é o nosso guia neste retiro quaresmal: «a difícil passagem da escravidão para a liberdade, desejada e guiada pelo Senhor, que ama o seu povo e sempre lhe é fiel».

Comboni escreve no Capítulo X das Regras de 1871:

[Os candidatos] fomentarão em si esta disposição essencialíssima, tendo sempre os olhos postos em Jesus Cristo, amando-o ternamente e procurando entender cada vez melhor o que significa um Deus morto na cruz pela salvação das almas. (Escritos 2721).

A Quaresma é uma estação contemplativa. Quando o celebrante impôs as cinzas na testa, disse: «Arrependei-vos e acreditai no Evangelho». Estes são os dois pés do nosso caminho quaresmal: o arrependimento e o Evangelho. 

A segunda leitura do Primeiro Domingo da Quaresma dizia-nos que «é junto de ti que está a palavra: na tua boca e no teu coração» (Romanos 10, 8). Assim, a Quaresma é também uma viagem interior, uma viagem para o nosso próprio coração, onde Deus está e onde nos fala. 

Esta foi também a mensagem que ouvimos na primeira leitura da Quarta-feira de Cinzas: «Mas agora, diz o SENHOR, convertei-vos a mim de todo o vosso coração com jejuns, com lágrimas, com gemidos. Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes» (Joel 2, 12-13).

Para escutar Deus que nos fala ao coração, precisamos de silêncio. Os Gujis têm dois provérbios que sublinham esta necessidade. Dizem: “Cadhiin qaxxamura Waaqaati”, o silêncio atravessa Deus. E ainda: “Cadhiin bobbaa”, o silêncio é descanso.

Nesta viagem em direção à Páscoa, o Papa diz-nos para respondermos a algumas perguntas: «Como me deixo interpelar por esta condição? Estou realmente a caminho ou estou paralisado, estático, com medo e sem esperança, acomodado na minha zona de conforto? Busco caminhos de libertação das situações de pecado e falta de dignidade?»

O medo, a desesperança e a comodidade são três realidades que nos imobilizam e não nos permitem percorrer os caminhos do Senhor. Também podem afetar o nosso serviço missionário e a nossa espiritualidade. Para progredir no nosso compromisso missionário, somos chamados a superar o medo e a desesperança, a sair da nossa zona de conforto pastoral e a experimentar novas formas de viver e pregar a Boa Nova de Jesus. Não podemos viver e anunciar a Boa Nova agarrados a formas velhas.

O Papa convida também os católicos a confrontar a sua vida quotidiana com a dos migrantes e dos estrangeiros «e deixar que ela nos interpele, a fim de descobrir o que Deus pede de nós para sermos melhores viajantes rumo à casa do Pai» – explica. No nosso caso, somos chamados a comparar o nosso estilo de vida com o daqueles que nos rodeiam, especialmente os mais pobres, para podermos fazer causa comum com eles.

 

JUNTOS

A nossa caminhada quaresmal não é um exercício solitário com o meu querido Deus. Atravessamos a Quaresma como povo de Deus, tal como os israelitas atravessaram o seu êxodo. Nos Atos dos Apóstolos, a Igreja é chamada de Via e os cristãos são os da Via (Atos 9, 2). Assim, através do Sínodo sobre a Sinodalidade, o Papa conduziu a Igreja às suas origens, após um longo caminho de mais de dois milénios.

Escreve: «Os cristãos são chamados a percorrer o caminho em conjunto, jamais como viajantes solitários».

O Iluminismo trouxe, através da filosofia cartesiana, a visão individualista do «cogito ergo sum» – penso, logo existo, fechando-nos nos perigosos meandros da nossa racionalidade individualista e egoísta. Nascemos numa cultura de individualismo narcisista globalizado. O que o Presidente Trump está a fazer nos EUA durante os últimos cinquenta dias é uma expressão desta cultura: A América primeiro. Isto não é novo: durante o Derg, o regime comunista na Etiópia, estava escrito em todas as notas do birr “Ethiopia tikdem”, A Etiópia primeiro.

No entanto, somos mais do que uma simples soma de indivíduos. Fazemos parte de um todo; somos o povo de Deus; somos os seus filhos. O princípio africano do «Ubuntu» – sou porque somos – é uma forma muito inculturada de ilustrar este princípio de que pertencemos uns aos outros, de que somos responsáveis uns pelos outros. O provérbio que diz que «sozinhos vamos mais depressa, juntos vamos mais longe» é outra forma de expressar as bênçãos do viver juntos.

Somos filhos do nosso próprio tempo e podemos sentir-nos tentados a ir sozinhos até ao fim. Talvez porque queiramos ser eficazes nas nossas ações. No entanto, é mais produtivo ser afetivo do que eficaz. Comboni escreve que «o missionário e a missionária não podem ir sozinhos para o Paraíso. Sozinhos irão para o Inferno. O missionário e a missionária devem ir para o Céu acompanhados das almas salvas» (Escritos6655).

Neste caminho conjunto, são os últimos – aqueles com quem Jesus se identifica – que marcam o ritmo. Paulo diz aos cristãos de Corinto «esperai uns pelos outros» (1 Coríntios 11, 33) quando se reúnem para a Ceia do Senhor.

O Papa explica o que é caminhar juntos: «Significa caminhar lado a lado, sem pisar ou subjugar o outro, sem alimentar invejas ou hipocrisias, sem deixar que ninguém fique para trás ou se sinta excluído. Sigamos na mesma direção, rumo a uma única meta, ouvindo-nos uns aos outros com amor e paciência».

O Papa – como bom jesuíta – recomenda-nos que, nesta Quaresma, façamos um exame de consciência sobre a forma como vivemos a nossa convivência. Diz ele: «Nesta Quaresma, Deus pede-nos que verifiquemos se nas nossas vidas e famílias, nos locais onde trabalhamos, nas comunidades paroquiais ou religiosas, somos capazes de caminhar com os outros, de ouvir, de vencer a tentação de nos entrincheirarmos na nossa autorreferencialidade e de olharmos apenas para as nossas próprias necessidades».

Na espiritualidade comboniana, caminhar juntos é também fazer causa comum com as pessoas que servimos como missionários e com quem vivemos. Caminhar juntos é viver juntos. A nossa espiritualidade missionária, motor e energia do nosso trabalho quotidiano, deve ser revista também a esta luz. 

Será uma espiritualidade aconchegante, individualista e desligada da vida quotidiana com as suas alegrias e lutas? Para fazermos causa comum com as pessoas com quem vivemos, precisamos de uma espiritualidade assente na realidade local. 

Regra de Vida dos Missionários Combonianos explica que «o missionário sente e vive a sua oração como manifestação do seu empenhamento missionário. Como trabalhador ao serviço do Reino, implora incessantemente “venha a nós o vosso Reino”; solidário com as pessoas, assume os seus desejos e necessidades concretas e reza com elas e em comunhão com toda a Igreja» (Regra de Vida 48). Para isso, temos de cheirar às nossas ovelhas – usando a alegoria do Papa Francisco –, de partilhar as suas vidas, de nos envolver nas suas esperanças e lutas, de celebrar as suas alegrias e realizações.

Temos também de analisar a forma como cooperamos com os outros nas nossas atividades pastorais, rever a forma como praticamos a subsidiariedade, como nos acolhemos uns aos outros, como praticamos a hospitalidade dentro e fora da comunidade.

 

NA ESPERANÇA

O Papa diz que o nosso caminho comum da Quaresma deve ser feito na esperança, ligando o tempo litúrgico ao Ano Santo Jubilar de 2025 que estamos a viver sob o tema «Peregrinos de esperança».

Ele deseja que a mensagem central do Jubileu – a esperança que não engana (cf. Romanos 5, 5) – «seja para nós o horizonte do caminho quaresmal rumo à vitória pascal».

Na Sequência Pascal, proclamamos com Maria Madalena que «ressuscitou Cristo, minha esperança». Viver na esperança significa ultrapassar os medos, as desilusões, os desafios, as dificuldades, para superar a cultura de morte que escurece o nosso horizonte.

Para viver na esperança, para sermos pessoas esperançosas num mundo desesperançado, temos de manter um coração contemplativo fixo em Jesus. O autor da Carta aos Hebreus exorta os seus leitores:

Mantenhamos os olhos fixos em Jesus, que nos conduz na nossa fé e a leva à perfeição: por causa da alegria que o esperava, suportou a cruz, sem se envergonhar dela, e tomou o seu lugar à direita do trono de Deus (Hebreus 12, 2).

O nosso pai e fundador foi um grande missionário da esperança. No seu leito de morte proclamou: «Eu morro, mas a minha obra não morrerá».

Três meses antes de morrer, escreveu de El Obeid, capital do Cordofão, ao P. Giuseppe Sembianti, seu formador em Verona: «Não perca o ânimo nem a confiança; pense que a obra para a qual trabalha é toda de Deus e que o senhor e eu somos apenas uns ineptos, que, sem a divina assistência, cometeríamos mil vezes mais desatinos» (Escritos 6875). 

Comboni sabia que a sua obra era «opus Dei», obra de Deus. Nós sabemos que a nossa missão é «missio Dei», a missão de Deus. Este reconhecimento humilde é a base da nossa esperança. Temos tendência a ser muito possessivos na nossa linguagem, falando da minha missão, do meu povo... No entanto, o ator principal da missão é o Espírito de Deus – como escreveu o Papa São Paulo VI na sua exortação Evangelii nuntiandi. Nós somos apenas os ineptos desatinados de Deus.

 

EM CONVERSÃO

A Quaresma é um apelo à conversão, como o é toda a nossa vida. «Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: arrependei-vos e acreditai no Evangelho» é a Boa Nova de Jesus, que nos foi recordada através da deposição das cinzas.

Metanoia, a palavra grega para conversão, é entendida como deixar de fazer o mal para fazer o bem. O seu significado literal é para lá do conhecimento, para lá da mente. A conversão é uma viagem interior até ao coração, porque na antropologia bíblica pensamos com o coração e amamos com as entranhas.

O Papa Francisco escreve que o apelo à conversão é o apelo «da esperança, da confiança em Deus e na sua grande promessa, a vida eterna».

E provoca-nos com mais algumas perguntas: «Estou convicto de que Deus me perdoa os pecados? Ou comporto-me como se me pudesse salvar sozinho? Aspiro à salvação e peço a ajuda de Deus para a receber? Vivo concretamente a esperança que me ajuda a ler os acontecimentos da história e me impele a um compromisso com a justiça, a fraternidade, o cuidado da casa comum, garantindo que ninguém seja deixado para trás?»

(Podemos trabalhar estas questões durante o espaço de reflexão pessoal e de oração).

Por outro lado, o nosso serviço missionário é em si mesmo um apelo à conversão das gentes e das suas culturas. D. Comboni viu como objetivo do seu trabalho missionário a conversão dos africanos. Escreveu:

Pense que adquirirá muitos méritos e que uma grande multidão de apóstolos, virgens e negros convertidos o acompanharão triunfalmente ao Paraíso; mas, repito, terá que se realizar em nós e cumprir-se o pati, contemni et mori pro te. Teremos que sofrer, ser desprezados, caluniados (o senhor, não; eu, sim), talvez ser condenados e morrer... mas pelo nosso querido Jesus! (Escritos6664).

O Papa Francisco recorda-nos também que a conversão é um voo que nos empurra para fora da nossa zona de conforto, uma viagem com algumas paragens para nos orientarmos. Sublinha: «Um primeiro apelo à conversão, porque todos nós somos peregrinos na vida, mas cada um pode perguntar-se: como me deixo interpelar por esta condição?»

O Cardeal José Tolentino Mendonça, pensador, poeta e místico que muito aprecio, escreveu que «o meu caminho de conversão é também a minha jornada de aceitação».

Nos Evangelhos, há duas passagens que me impressionam: Jesus diz ao paralítico que se levante, pegue na sua enxerga e caminhe (Marcos 2, 9); e o Ressuscitado conserva as marcas das suas chagas, convidando Tomé a colocar nelas o dedo (João 20, 27). Porquê é que o ex-paralítico precisa da enxerga? Porquê é que as feridas de Jesus não desapareceram do seu corpo glorioso? Porque se tornaram sinais de vitória, de libertação.

Thomaz Halik, teólogo checo e voz muito autorizada na Igreja de hoje, escreveu que se o Senhor ressuscitado não tivesse essas chagas, não era o Senhor.

Refletindo sobre o diálogo entre Jesus e Tomé, na sua segunda aparição no Cenáculo, Halik escreveu: «Jesus identificou-se com todos os pequeninos e com aqueles que sofrem – por isso todas as feridas dolorosas, todo o sofrimento do mundo e da humanidade, são as “chagas de Cristo”. Para acreditar em Cristo, para poder dizer “Meu Senhor e meu Deus”, só o posso fazer se tocar nestas feridas, de que o nosso mundo também está cheio, hoje. Caso contrário, só gritarei “Senhor, Senhor!” em vão e sem sentido».

As Escrituras cristãs – citando o livro de Isaías – proclamam: «Pelas suas chagas fostes curados» (1 Pedro2, 24). Fomos curados através das feridas de Jesus. O que fazemos com as nossas feridas e com as das pessoas com quem partilhamos a vida? Todos nós somos pessoas feridas que precisam de cura. Será que nos deixamos curar pelas feridas dos outros? O que é que eu faço com os meus próprios pecados? Confio-os a Deus para que, no seu amor misericordioso, os transforme em graça? Ou varro-os para debaixo do tapete do medo, da vergonha, da autoimagem?

 

Para concluir esta breve reflexão, rezemos com as palavras de Santa Teresa de Ávila – «Teresa la grande», como por vezes lhe chamam – com que o Papa conclui a sua mensagem:

«Espera, espera, 
que não sabes quando virá o dia nem a hora. 
Vela com cuidado, 
que tudo passa com brevidade, 
embora o teu desejo 
faça o certo duvidoso e longo o tempo breve.»

Haro Wato, 15 de março de 2024 – Dia de Recoleção da Zona Guji

4 de março de 2025

JUVENTUDE EM FESTA





Mais de uma centena de jovens disse presente no Festival da Juventude organizado pela primeira vez pela missão de Qillenso na cidade de Adola.

O evento começou na tarde de sexta-feira, 28 de fevereiro, e concluiu com o almoço do domingo, 2 de março.

O programa foi um misto de formação, oração e cânticos. E de convívio festivo entre jovens dos dois centros: Qillenso e Adola.

Os participantes vieram de quase todas as capelas das duas zonas pastorais da missão.

Os atos do festival decorreram na igreja e na Biblioteca pública São Daniel Comboni, sinais maiores da presença católica na cidade que é a capital do povo guji.

O adro estava engalanado com bandeirinhas com a cores da Etiópia: verde, amarelo e vermelho, uma nota de alegria.

Os temas, apresentados pelo coordenador da pastoral juvenil da missão, por um adulto, por duas Missionárias da Caridade e um padre diocesano, versaram sobre a vida de oração, vida cristã, chamada vocacional juvenil, identidade católica juvenil e os seus desafios atuais.

Alguns dos temas foram aprofundados através de trabalhos de grupo.

A celebração da Eucaristia (no sábado de manhãzinha e no domingo – com a comunidade católica de Adola) e uma hora de adoração e confissões (no sábado à tarde) foram os momentos de oração mais intensos.

Na noite de sábado viram a vida de Elias. O filme era em inglês, mas os participantes estiveram atentos e seguiram o enredo da vida do profeta dos profetas.

Os jovens também elegeram o representante para a zona de Qillenso. O eleito, da capela de Chirra, preparou e declamou um poema sobre a vida cristã, inspirado na tradição guji.

Cada capela, trajando as próprias vestimentas, teve vez para apresentar algumas canções e coreografias à assembleia entre as diferentes sessões formativas e de oração. 

O canto entre os gujis é sempre uma explosão de alegria e de energia.

A comida, feita de partos locais, foi preparada na cozinha da Casa de Acolhimento das Missionárias da Caridade. 

Os participantes passavam a noite na biblioteca (meninas) e na igreja (rapazes).

O Festival da Juventude foi o primeiro evento aberto às duas zonas pastorais de Qillenso. 

No passado – e para evitar gastos e deslocações – os encontros eram feitos por zonas. 

O festival correu muito bem. Decerto que a experiência vai ser repetida.

O mentor do evento foi o seminarista Biruk Guirma.

Está a fazer uma experiência de missão de dois anos em Qillenso, depois de ter terminado a formação teológica em Nápoles, Itália. 

Ele é o coordenador da pastoral juvenil da paróquia e organizou o festival com a colaboração dos líderes juvenis de cada capela.

Estão todos de parabéns!

26 de fevereiro de 2025

VIZINHAS NOVAS


 

A paróquia de Qillenso, da diocese de Hawassa, no Sul da Etiópia, conta com um novo grupo de leigas consagradas. As Servas dos Pobres abriram uma comunidade na capela de Gosa a 11 de fevereiro de 2025.

Duas seculares fazem a nova comunidade: Beqelech Gatiso, de 46 anos, professora de profissão (à esquerda na foto); e Berhane Yosefi, enfermeira de 32 anos.

A gente de Gosa recebeu com grande alegria as duas consagradas.

As seculares assumem o funcionamento da escola, com cerca de novecentos alunos do jardim de infância até à oitava classe, e a clínica (que atende cerca de três mil pacientes por ano).

Até à sua chegada as duas instituições eram dirigidas pelo Secretariado Católico da Diocese de Hawassa, com a participação de colabores locais.

A terceira consagrada é esperada dentro em breve.

O novo bispo de Hawassa, D. Merhakristos Gobesayehu, vai abençoar a nova comunidade no dia 8 de março.

Gosa fica a 35 quilómetros a norte do centro da missão de Qillenso. 

Começou por ser uma capela da vizinha missão de Teticha – cerca de sessenta quilómetros a norte – para católicos de etnia sidama que se tinham fixado naquele território guji.

Entretanto, os fiéis sidamas regressaram a casa e o comboniano P. Bruno Lonfernini, que iniciou a missão de Qillenso entre o povo guji em 1981, abriu lá uma capela também.

Gosa, entretanto, tornou-se missão autónoma em 17 de novembro de 1985, fundada pelos jesuítas e pelas Franciscanas Missionárias de Maria. 

Os jesuítas fecharam a comunidade em 1993 após o falecimento de um missionário.

Entretanto, D. Lourenço Ceresolli, o segundo bispo comboniano de Hawassas, transformou Gosa numa capela da missão de Qillenso em 2009.

As FMM fecharam a comunidade em Gosa em junho de 2020 depois de 35 de um serviço excelente nas áreas da saúde, educação e promoção da mulher. Abriram a clínica com laboratório de análises, o jardim de infância, a escola primária da primeira à oitava classe, a biblioteca, e cursos de datilografia e de promoção da mulher.

O Instituto Secular das Servas dos Pobres foi fundado por D. Conrad De Vito, Bispo Capuchinho italiano, na Índia em 1951 com espiritualidade de inspiração franciscana.

A Unidade Etíope do Instituto conta com sete comunidades no país, servidas por uma vintena de consagradas nacionais. 

21 de fevereiro de 2025

DIZER PAZ

 

As crianças beduínas do jardim-de-infância aguardavam com entusiasmo a chegada da professora para a sua primeira aula de hebraico. A professora beduína tinha-os preparado com um «Ahlan wa sahlan!», «Bem-vinda!». 

Quando Nancy, da comunidade messiânica, entrou, os seus olhinhos arregalaram-se de excitação. Para surpresa deles, ela cumprimentou-os em hebraico, e assim aprenderam a sua primeira palavra: «Shalom!», «Paz!».

Durante quase uma hora, aprenderam novas palavras. Nancy contou-lhes uma história sobre o leão e o morango, captando a sua atenção de tal forma que, sem saberem hebraico, compreenderam toda a história. No final, cantaram também uma canção para dizer olá e adeus.

As crianças ficaram felizes, assim como os seus professores, e saíram repetindo a letra. Um deles até disse a outra criança: «Quando chegares a casa, diz-lhes “Shalom!”».

Pouco depois, a professora exclamou, entusiasmada: «Ouçam as mensagens de WhatsApp que vos enviámos!». Nelas, uma das crianças repetia as palavras aprendidas em hebraico. Tinha enviado cinco mensagens, cada uma com uma palavra nova.

Decidimos começar este curso na mesma comunidade onde, há dois anos, os jovens e os pais das crianças estudaram hebraico com a Nancy e o seu marido.  Os beduínos queriam aprender a língua para o seu trabalho. 

Tanto Nancy como nós rezámos a Deus para que nos iluminasse sobre se o curso deveria ter lugar e, através de vários meios, recebemos a confirmação de que aquilo que traz unidade e respeito vem de Deus. 

Este é um projeto-piloto num dos cinco jardins-de-infância para crianças beduínas que coordenamos no Deserto da Judeia, com a esperança de que, se der frutos, possa crescer.

Numa região tão conturbada, com tantas fraturas e dores, esperamos que esta iniciativa ajude os mais pequenos a crescerem com uma visão mais aberta e reconciliadora. 

Ver os seus rostos, hoje, a sua grande emoção e o seu enorme acolhimento, permite-nos esperar que este curso seja uma ponte de encontro e de compreensão, onde as crianças não só aprendam uma língua, mas a descubram como uma ferramenta de diálogo. 

Confiamos que cada palavra que proferirem seja uma semente de unidade e de respeito, um contributo para a paz.

Ir Cecília Sierra

Missionária Comboniana no Deserto da Judeia