2 de abril de 2020

«OFERECEMOS O NOSSO VENTILADOR»


«Nós, os velhos, devemos pensar que a nossa situação é igual à dos outros e se alguma coisa há é a obrigação suplementar de dizer aos outros que isto já aconteceu, que se ultrapassou, que vai ser ultrapassado; que nós, os velhos, temos que ter capacidade de dar exemplo: não sairmos e mais, quando chegarmos ao hospital se for necessário oferecemos o nosso ventilador ao homem que tiver mulher e filhos».

A afirmação é de António Ramalho Eanes em entrevista à Fátima Campos Ferreira no programa «Estado de emergência» ontem à noite na RTP 1 e causou algum sururu nas redes sociais.

A entrevista está disponível na RTP Play e pode ser vista aqui.

O General Eanes faz uma análise de estadista com formação militar, de humanista, uma lição prática para os políticos mais jovens e aspirantes. Deixo aqui um sumário.

O ex-Presidente da República recorda que é urgente voltar a ser humildes e encontrar na intercomunicação autêntica o remédio para a fragilidade. «Perdemos a humildade e o sentido de corresponsabilidade», nota.

Defende que a globalização trouxe mais interdependência e menos solidariedade, que falta solidariedade entre estados.

Aceita que o medo é razoável, mas tem de ser ultrapassado.

Sublinha que «o amor é sempre indispensável».

Diz que na primeira linha de combate ao coronavírus devem estar os políticos e as forças públicas (incluindo os militares que têm de ser mais usados) e na segunda linha os hospitais e o pessoal de saúde.

Sublinha que a Europa é o centro da crise epidémica porque se esqueceu que o futuro exige respostas estratégicas e não se prestou atenção aos avisos da ONU e do Banco Mundial.

Preconiza uma nova reflexão sobre os sistemas políticos e sobre o homem, «porque o homem se tornou tão egoísta»; repensar o estado e as suas funções, não o estado mínimo mas «o estado necessário» que olha para além das eleições.

Recorda que o confinamento é antissocial e pode levar a situações complicadas que necessitam de apoio psiquiátrico e psicológico.

Uma crise é também uma oportunidade: «Estou convencido que esta crise é um momento de silêncio, de reflexão, é um momento de comunhão. E, se não for assim, estamos a perder uma oportunidade única que, ao fim e ao cabo, nos é oferecida com um dramatismo único, com dor, com desgosto».

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