A diocese de Bentiu, no Sudão do Sul, celebra o seu segundo aniversário. O bispo, D. Christian Carlasare, oferece uma reflexão sob a forma de relatório, numa chave tomasiana, sobre os dois anos de intensa atividade.
No passado dia 3 de julho, celebrámos o segundo aniversário da ereção da diocese de Bentiu. Dois anos são muito poucos para uma diocese que dá os seus primeiros passos. Revimo-nos em São Tomé, o apóstolo que não consegue acreditar sem ver e sem tocar com as próprias mãos as feridas do Ressuscitado.
No fundo, compreendemos bem Tomé. Também nós, diante das dificuldades, gostaríamos de ter provas tangíveis de que o Senhor está verdadeiramente em ação. Gostaríamos de ver com maior clareza os frutos do nosso trabalho, sentir que o bem cresce mais rapidamente do que o mal. No entanto, o Evangelho lembra-nos que o Ressuscitado continua a mostrar as suas feridas: a vida nova não apaga as cicatrizes do passado, mas transforma-as em lugares onde Deus continua a amar o mundo.
Também a nossa jovem diocese carrega as suas feridas. Cresce dia após dia e veem-se sinais encorajadores, mas muito permanece ainda por concluir. Preocupa-nos, sobretudo, a situação do país. A pobreza continua a marcar profundamente a vida das pessoas e, nos últimos meses, a criminalidade também aumentou: nós, em particular, temos vindo a sofrer roubos repetidos em casa durante a noite, e também alguns assaltos na estrada e no mercado. Quando uma população sofre e não se sente ouvida, a confiança corre o risco de dar lugar ao desespero.
Como diocese, experimentamos o nosso limite. As necessidades são imensas e damos conta de que não podemos responder adequadamente. Mais ainda, somos nós próprios a precisar da solidariedade, da participação e da proximidade de tantas pessoas que partilham esta missão. A Igreja cresce precisamente assim: não graças à força de poucos, mas através da corresponsabilidade de todos.
Entre os sinais de esperança, conta-se o projeto da escola primária São Martinho de Porres. A construção avança bem, embora estejamos ainda apenas nas fundações. As aulas continuam em estruturas provisórias, com cerca de 600 alunos. Isto é possível graças à dedicação dos professores e ao precioso serviço da irmã Anna Marie Reha, das Irmãs Escolásticas de Notre Dame. Continuamos também a projetar a construção de novos blocos de quatro salas de aula nas paróquias maiores, onde a necessidade de educação é particularmente urgente. Educar significa libertar da ignorância que perpetua a injustiça e a pobreza, e dar instrumentos para construir um futuro digno.
O Irmão comboniano Hans Eigner continua o seu trabalho com grande competência. Construiu um bom armazém para a construção civil e uma oficina de carpintaria e mecânica que permitem preparar muitas das estruturas necessárias para os nossos estaleiros. No último mês, acompanhou também a construção de um centro desportivo para os jovens. Para além dos campos de futebol, basquetebol e voleibol, o centro compreenderá salas de reuniões, balneários e instalações sanitárias. Será um lugar onde os jovens se poderão reunir, crescer e experimentar relações positivas.
Simultaneamente, o Ir. Hans está a acompanhar a construção da casa das Missionárias da Caridade de Madre Teresa, que em breve se instalarão em Rubkona. Lá vivem muitas crianças de rua, marcadas por situações de extrema pobreza e degradação. O projeto prevê um centro de acolhimento para as retirar da rua e acompanhá-las num caminho de reabilitação e de esperança.
Os Frades Capuchinhos continuam o seu precioso serviço no campo de deslocados, ao mesmo tempo que consolidam a vida da paróquia de Rubkona, dedicada a Nossa Senhora do Rosário. Iniciaram também uma produção das hóstias para a diocese. O projeto envolve um grupo de mulheres que vive no campo de deslocados. É uma iniciativa simples, mas capaz de promover a dignidade e a participação na vida da comunidade.
Com as mulheres, queremos também criar uma padaria para produzir pão e outros alimentos. Pretende-se que seja um projeto que crie emprego, respondendo às necessidades da comunidade local. Os produtos de padaria podem ser vendidos ou beneficiar quem participa nas atividades da diocese. A padaria poderia ter também um pequeno café adjacente.
Avança também a construção da igreja de São Miguel em Panriang. Além disso, desejo agradecer a todos os que apoiaram o projeto dos poços. Uma empresa está a perfurar catorze novos poços em diversas localidades da diocese, permitindo finalmente a muitas famílias acesso à água potável. Não é difícil compreender que a água é vida: não só mata a sede, mas constrói estabilidade social e preserva a saúde.
Os projetos agrícolas, por outro lado, custam a arrancar. Não tanto por falta de fundos, mas pela escassez de mão de obra e por um contexto que torna difícil olhar com confiança para o futuro. No entanto, não queremos desanimar. Continuo a acreditar que a terra, se cuidada com paciência e respeito, nunca trai. Também isto é um ato de fé e de cuidado da criação num contexto onde o ambiente se encontra degradado.
Prossegue também o nosso empenho pastoral. Continuamos os encontros de formação para os agentes pastorais, dedicando uma atenção particular aos jovens. Promovemos encontros de Justiça e Paz para formar agentes capazes de escuta, reconciliação e construção da paz nas diversas paróquias. Concluímos ainda um percurso de cinco encontros dedicado aos grupos de Compassionate Care, centrado nos cinco sentidos como vias através das quais aprender a encontrar verdadeiramente o outro, sobretudo o mais frágil. É uma iniciativa do Departamento de Saúde da diocese, coordenado por Francesca Montalbetti, que para além das atividades de sensibilização está a promover uma verdadeira cultura de cuidado para com os doentes e as pessoas mais vulneráveis.
Nestes anos, estou a aprender uma lição preciosa. As sociedades mais resilientes não são necessariamente as mais ricas, mas aquelas que souberam guardar a solidariedade, a confiança mútua e o cuidado dos mais fracos. O egoísmo, pelo contrário, empobrece a todos, mesmo aqueles que possuem muito, porque divide as comunidades e apaga a esperança.
Talvez seja precisamente esta a maneira como hoje podemos tocar o Senhor ressuscitado, como fez Tomé: reconhecendo-O nas mãos de quem constrói uma escola, de quem cava um poço, de quem ensina uma criança, de quem cuida de um doente, de quem estende a mão a um jovem ou acolhe uma criança de rua. A ressurreição continua a fazer-se carne sempre que alguém estende a mão ao irmão. Não precisamos de mais coisas, mas de mais fraternidade.
Somos então interpelados pelas palavras do teólogo Christoph Theobald: O cristianismo cresce por hospitalidade. É uma imagem muito bela. A Igreja não se constrói, antes de mais, com grandes meios, mas com corações capazes de dar espaço ao outro. E é isso que, com todos os nossos limites, estamos a tentar viver aqui em Bentiu.
Agradeço-vos de coração, porque também vós vos apropriastes deste caminho. Com a vossa amizade, a oração e o apoio concreto, ajudais-nos a ver, juntamente com Tomé, que o Senhor continua verdadeiramente a dizer à sua Igreja: «A paz esteja convosco» (João 20, 19). E é esta paz, mais forte do que os nossos medos, que nos permite olhar para o futuro com confiança e continuar o caminho, certos de que o bem, mesmo quando cresce lentamente, nunca deixa de dar fruto.
✠ Christian Carlassare, mccj
Bispo de Bentiu (Sudão do Sul)








