1 de agosto de 2018

NOTÍCIAS DO CONGO





Caríssimos amigos/as,

Paz e bem em Cristo Missionário do Pai,

Espero que vos encontreis bem.

Neste momento encontro-me em Kinshasa para um encontro dos formadores combonianos a nível da África Francófona, ou seja: do Congo, do Chade, da Rep. Centro Africana, Togo, Benim e Gana.

Várias pessoas me têm perguntado sobre a situação do Congo. Infelizmente a resposta é sempre a mesma: o Congo vive numa grande instabilidade. Há regiões que são continuamente massacradas por ataques de grupos que na maior parte das vezes não se sabe quem os apoia e que deixam atrás deles o terror, a destruição e a morte.

A situação política é cada vez mais preocupante. O país prepara-se para as eleições que se realizarão em dezembro. No entanto há muitas irregularidades que deixam as pessoas perplexas e pessimistas. O atual presidente ainda não manifestou claramente a sua posição, não sabendo se se vai apresentar como candidato ou não. O silêncio preocupa a comunidade internacional. Os partidos da oposição não se metem de acordo entre eles.

Em relação à situação social, o povo está cansado, assistindo a uma grande insegurança: raptos, assassínios, roubos à mão armada. Os governos provinciais em vez de administrar corretamente os orçamentos, desviam parte deles, deixando o povo cada vez mais empobrecido. A educação é cada vez mais baixa. Os salários diminuem cada vez mais e muitas vezes são desviados. As manifestações, mesmo se pacíficas, são reprimidas violentamente. A única voz autorizada neste momento é a Igreja, mas é continuamente ameaçada.

A situação em Kisangani, onde vivo, é relativamente calma, se a compararmos com as regiões do leste do Congo, e outras do Centro do pais, como o Kasai, etc.

No que diz respeito à Maison Comboni, em Kisangani, onde me encontro com dois outros formadores congoleses, dez postulantes terminaram os três anos de formação e neste momento preparam-se para partir para o noviciado. Para o próximo ano teremos 40 postulantes nos três anos.

Este ano construímos uma nova igreja no Postulantado da Maison Comboni (foto), dado que até agora tínhamos apenas uma sala adaptada como capela que tornara-se pequena para acolher todos os postulantes.

Quero agradecer a todos os amigos que contribuíram para a sua construção, seja para os bancos, pinturas, nomeadamente o meu pároco através das paróquias de Outeiro e Perre, a alguns colegas do Seminário de Braga, ao Bispo emérito da diocese de Viana D. José Pedreira e tantas outras pessoas, nomeadamente familiares.

Que o Senhor abençoe a vossa generosidade em favor da formação destes jovens, futuros missionários.

Para todos um abraço amigo e boas férias!
P. Zé Arieira 
Maison Comboni 
B.P. 505 Kisangani 
(Rep. Dem. do Congo)

18 de julho de 2018

MENSAGEM DOS PROVINCIAIS DOS COMBONIANOS NA EUROPA



 “Ante os desafios dos movimentos contemporâneos de migração, a única resposta razoável é de solidariedade e misericórdia.” 
(Papa Francisco, 6 de julho de 2018) 


Nós, os superiores maiores dos Missionários Combonianos na Europa, reunidos na nossa assembleia anual (Sunningdale, 12 a 14 de Julho de 2018): 
  • estamos profundamente perturbados com o facto de a Europa parecer estar a perder o seu espírito humanitário, fechando as portas aos refugiados e migrantes e empurrando as suas fronteiras para as costas africanas, colocando assim as vidas de muitos seres humanos em risco e de escravidão na Líbia, em contravenção com as obrigações do direito internacional humanitário; 
  • condenamos o encerramento de portos europeus a migrantes em perigo no mar; 
  • notamos que a insegurança e a criminalidade na Europa têm as suas raízes principais em problemas locais e não no fenómeno da migração; 
  • apoiamos de todo o coração as vozes e gestos proféticos dos missionários combonianos que estão com os migrantes e refugiados; 
  • seguimos as orientações do Papa Francisco e de outras vozes da Igreja e pedimos aos nossos confrades que sejam a voz dos migrantes e refugiados, “os mais pobres e mais abandonados” no nosso meio, hoje; 
  • exortamos todas as pessoas de boa vontade a denunciarem tais injustiças, particularmente o aumento do racismo e da xenofobia.
Sunningdale, 13 de julho de 2018

17 de julho de 2018

QUATRO PADRES DE OURO




Os padres António Martins, Gregório dos Santos, Manuel Anjos e Manuel Horta celebraram juntos no domingo, 15 de julho, as bodas de ouro sacerdotais no Seminário das Missões em Viseu.

Os quatro foram ordenados padres por Dom José Pedro da Silva, o bispo açoriano de Viseu, a 13 de julho de 1968 na mesma capela, juntamente com mais três colegas: um faleceu e dois casaram.

Na mesma cerimónia foi ordenado diácono o P. Alexandre Ferreira.

A capela foi pequena para a missa jubilar.

Familiares, amigos, benfeitores e vizinhos estiveram presentes na Eucaristia presidida pelo superior provincial.

Durante a homilia, o P. Horta falou em nome dos quatro jubilados.

«Formos chamados pela graça de Deus, escolhidos de Deus para uma missão», disse.

Recordou que um comboniano lhe perguntou na sacristia de Vila Nova de Tazem se queria ser missionário.

Respondeu: «Não sei bem o que é, mas acho que sim.»

Coube ao P. Gregório apresentar os agradecimentos.

«A palavra bem-haja, obrigado brota do nosso coração ao Pai da messe e a todos os que nos ajudaram ao longo deste tempo», disse.

Recordou alguns combonianos já falecidos, benfeitores e amigos.

A Província ofereceu aos quatro jubilados um crucifixo alusivo às bodas de ouro.

A Eucaristia foi solenizada pelo coro dos jovens da Capela.

Cerca de 60 convidados participaram no almoço de confraternização.

Os quatro padres de ouro têm percursos interessantes.

O P. Horta foi missionário em Moçambique, provincial de Portugal, viveu uma década em Roma como secretário-geral da formação e superior da comunidade de Roma. Atualmente é administrador da Editorial Além-Mar.

O P. Gregório, que também foi provincial de Portugal, passou a sua vida missionária ente o Brasil e Portugal. Vive em Lisboa.

O P. Anjos viveu quase sempre em Moçambique: juntou à evangelização o estudo de duas línguas locais. Publicou dicionários e gramáticas. Faz parte do grupo que está a traduzir a Bíblia para cinyungwe, a língua de Tete.

O P. Martins começou o serviço missionário em Portugal. Foi capelão militar em Angola durante dois anos e também trabalhou no Peru (esteve em Cerro de Pasco , a paróquia católica mais alta do mundo, a mais de 4000 metros de altitude) e Brasil. É o capelão da capela da Maia.

A província portuguesa louva Jesus por partilhar o seu único sacerdócio ministerial com estes padres de ouro e agradece-lhes o exemplo da fidelidade e dedicação ao Senhor e à Sua missão.

Que o seu exemplo e alegria de vida atraiam mais jovens para a missão comboniana.

4 de julho de 2018

AFRIBOL

África também é terra de futebol

A Confederação Africana de Futebol (CAF) – que representa 54 federações – tem cinco equipas no Campeonato Mundial de Futebol da Rússia 2018: Egipto, Marrocos, Nigéria, Senegal e Tunísia, do Norte e Oeste do continente. As selecções encontram-se entre a posição 21 (Tunísia) e 48 (Nigéria) da classificação oficial da FIFA, que inclui 211 equipas nacionais. Somália e Eritreia estão no grupo de seis formações que fecham a tabela.

Ainda antes de a bola rolar nos relvados russos, já Marrocos – que faz parte do grupo de Portugal – averbava a primeira derrota: perdeu a organização do mundial de 2026 para a candidatura conjunta do Canadá, Estados Unidos e México. A única vez que o futebol africano se afirmou no panorama mundial foi em 2010, quando a África do Sul organizou o campeonato mundial. Mas a selecção anfitriã não passou da fase de qualificação. Na memória ficou a festa das bubuzelas.

Os africanos amam o futebol: qualquer lugar serve de campo e qualquer coisa dá para fazer de bola. Jogam com paixão e com arte, apesar da falta de meios. Alguns sonham ser o próximo Salah – o jogador egípcio do Liverpool eleito futebolista africano do ano – ou George Weah, o único africano que ganhou a bola de ouro e hoje é presidente da Libéria. E seguem as ligas europeias com muita emoção. Quando vivia em Juba, no Sudão do Sul, cada vez que uma grande equipa europeia marcava um golo – Real Madrid ou Barcelona, Manchester United ou Arsenal, para mencionar alguns – ouvia-se um bruaá que se elevava dos espaços a pagar com TV por cabo e ecoava sob o céu tórrido da cidade.

O futebol africano afirma-se sobretudo através dos seus jogadores nos campeonatos europeus, incluindo Portugal. Em 2015, havia mais de 4000 africanos a jogar fora do continente. Quase 600 eram nigerianos. Em 2017, na Taça Africana das Nações, 64 por cento dos jogadores seleccionados eram emigrantes na Europa; um terço militava nas ligas da França, Inglaterra e Portugal.

O futebol africano sofre de três grandes males: falta de estruturas, organização e investimento. Os relvados são caros e difíceis de manter. Os campos sintéticos podem representar uma alternativa barata e viável. Os Chineses têm construído alguns estádios em troca de matérias-primas.

Quanto à organização, é comum governos ou políticos interferirem nas federações que não dispõem de grandes meios económicos para subsistir. E nem sempre os subsídios acabam na promoção do futebol e dos seus talentos. Na República Democrática do Congo, 89 por cento dos jogadores não têm contratos escritos e no Gana ninguém ganha mais de 900 euros.

Luís Figo apareceu uma vez em Juba, apoiado por uma petrolífera árabe com sede no Luxemburgo, para iniciar uma academia de futebol. Foi recebido com muito entusiasmo. Quando o pó assentou, tudo acabou em nada. Ao que parece, o ministro do Desporto e da Juventude não tinha sido contactado antes e, amuado, boicotou a academia.

Até agora, nenhuma selecção africana passou dos quartos-de-final dos campeonatos mundiais. Será este ano? Torço por eles: Leões de Teranga do Senegal, Faraós do Egipto, Leões do Atlas de Marrocos, Superáguias da Nigéria e Águias de Cartago da Tunísia. Nas alcunhas já ganharam!

25 de junho de 2018

CARTA ÀS COMUNIDADES


Os coordenadores das actividades de Justiça, Paz e Integridade da Criação (JPIC) das circunscrições combonianas europeias – Alemanha, Espanha, Itália, Polónia, e Reino Unido – estiveram reunidos de 18 a 21 de Junho, em Bressanone, Itália, para reflectirem, entre outras coisas, sobre a missão comboniana na Europa de hoje, partindo do princípio de que a JPIC é o eixo transversal da missão e da presença comboniana na Europa, e para pensarem em elaborar um possível programa comum, neste sector de JPIC, a nível do continente. No fim do encontro,enviaram esta carta às comunidades combonianas da Europa.

Estimados confrades,

Paz e bem desde a Assembleia Europeia de Justiça, Paz e Integridade da Criação (JPIC), realizada de 18 a 21 de Junho de 2018, na comunidade de Bressanone, em vista de um projecto europeu de presença missionária que tenha a JPIC como eixo transversal.

Foram três dias de partilha intensa sobre a União Europeia (UE), que hoje, infelizmente, é vítima de uma onda negra de racismo e xenofobia da Hungria à Itália.

Juntos, analisamos a UE, que hoje é um dos pilares de apoio do sistema económico-financeiro mundial, com o enriquecimento de poucos e o empobrecimento de muitos. É por isso que este sistema deve armar-se até aos dentes e fazer guerra para proteger o seu lugar privilegiado e a exploração. Quem paga tudo isto é o ecossistema do Planeta Terra que «sofre e geme as dores do parto». O nosso é um sistema de morte que mata pela fome, pela guerra e destrói o Planeta. A consequência são as migrações de milhões e milhões de homens e mulheres (não é uma emergência, mas estrutural ao sistema) que a Europa rejeita «projectando» as nossas fronteiras na Turquia, na Líbia e no Níger.

Infelizmente, pelo menos 34.361 migrantes perderam a vida no Mediterrâneo (destes, sabemos os nomes, segundo o Guardian). Nós, missionários, não podemos aceitar tudo isso, porque choca com tudo o que acreditamos: o Deus da vida que nos ofereceu Jesus para que todos tenham «vida e vida em abundância», não só no Paraíso, mas já nesta terra. Por isso, nós, missionários, somos constrangidos a denunciar o sistema mundial actual, que a Europa está a incarnar. Para nós, a Europa é terra de missão, uma missão que deve incarnar um compromisso sério com a Justiça, a Paz e a Integridade da Criação. É isto o que o Capítulo nos diz em relação ao nosso ser missionário: «Uma via importante para requalificar a nossa presença missionária é a JPIC» (DC '15 n.º45, 3 e 5). Portanto, esta assembleia enfatiza fortemente que esta deve ser a alma e o coração da nossa missão na Europa.

Mas, em tudo isto, não basta a denúncia da injustiça reinante, dos enormes gastos militares, com sempre novas guerras, e da grave crise ecológica. Nós próprios temos de viver como comunidades alternativas ao sistema e empenhar-nos em fazer surgir comunidades cristãs alternativas ao sistema e comprometidas com a vida.

Como Assembleia europeia, gostaríamos de pedir às comunidades combonianas da Europa de serem:

a) Comunidades que vivem uma vida simples, pobre e sóbria, próximas dos empobrecidos e marginalizados, como o Papa Francisco nos pede.

b) Comunidades prontas para uma avaliação séria no campo financeiro, sobre os bancos onde temos o dinheiro (não podemos ter os nossos depósitos em bancos que investem em armas ou jogam na especulação financeira ou têm os seus lucros em paraísos fiscais).

c) Comunidades comprometidas contra os enormes gastos em armamentos, contra todas as guerras e a favor de uma cultura de não-violência activa.

d) Comunidades a porem em prática a Laudato si’ para salvar o Planeta Terra, incarnando todas as sugestões contidas na Encíclica do Papa Francisco.

e) Comunidades comprometidas, em especial, com os migrantes. Esta Assembleia quer agradecer ao Senhor porque tantas comunidades, especialmente na Itália e na Alemanha, abriram as portas para acolher os imigrantes. A Assembleia é grata ao Senhor porque a London Province assumiu uma paróquia em Roehampton (Londres) para trabalhar com os migrantes e a Província de Portugal pelo compromisso na paróquia de Camarate pela mesma razão. A Assembleia encoraja a Província da Espanha, após o fracasso de uma comunidade inserida em Almería, a procurar outro lugar para realizar este projecto, pensado também como projecto interprovincial.

f) Comunidades a trabalhar com todos os outros Institutos missionários que actuam na sua própria região ou nação, para criar uma antena que dê o seu contributo à Africa-Europe Faith and Justice Network (AEFJN) de Bruxelas.

g) Comunidades que incentivam o nascimento, no seu país, do Sanctuary Movement (Movimento-Santuário) dos Estados Unidos (Igrejas e instituições que reivindicam ser lugares de refúgio e asilo político para imigrantes destinados à expulsão e à morte), como fez a comunidade comboniana de Nuremberga (Alemanha).

h) Comunidades empenhadas em fazer ressoar com mais força a posição dos missionários no debate público sobre o acolhimento de migrantes na Europa.

i) Comunidades que promovem um maior envolvimento dos leigos na sua missão na Europa.

j) Comunidades capazes de caminhar com os movimentos populares em matérias de JPIC.

Finalmente, pedimos a todas as comunidades que apoiem a campanha Welcoming Europe (Europa acolhedora), que terá de recolher mais de um milhão de assinaturas em sete países da UE para serem levadas ao Parlamento Europeu para descriminalizar a solidariedade, passagens seguras para migrantes e protecção das vítimas de abusos (www.weareawelcomingeurope.eu).

Para nós, missionários, este é um momento marcante, um Kairos, um tempo fundamental de grandes mudanças que fará irromper coisas novas!

Mãos à obra para que a vida vença.

Bressanone, 21 de Junho de 2018 
P. Munari Giovanni, provincial encarregado
Ir. Haspinger Bruno
Ir. Soffientini Antonio
P. Akpako Théotime Parfait
P. Arlindo Ferreira Pinto
P. Clark John Robert Anthony
P. Pérez Moreno José Rafael
P. Turyamureeba Roberto
P. Weber Franz
P. Zanotelli Alessandro
P. Zolli Fernando

19 de junho de 2018

REFUGIADOS, MIGRANTES E FRATERNIDADE UNIVERSAL



No início da semana de acção conjunta mundial “Partilhar a Viagem”, entre nós promovida pela Conferência Episcopal Portuguesa e pela Cáritas Portuguesa, e em vésperas da celebração do Dia Mundial do Refugiado, a Comissão Nacional Justiça e Paz, a Comissão Justiça, Paz e Ecologia dos Institutos Religiosos e as Comissões Diocesanas Justiça e Paz de Bragança-Miranda, de Coimbra, de Leiria-Fátima, de Portalegre e Castelo Branco, de Santarém, de Vila Real e de Setúbal, reunidas em Fátima, bem como a Comissão Diocesana de Aveiro, emitem o seguinte comunicado: 

A temática do dever de acolhimento e do respeito pelos direitos dos refugiados e migrantes é recorrente no magistério do Papa Francisco, em consonância com o magistério dos seus antecessores. Nessa linha, a Conferência Episcopal Portuguesa publicou uma nota sobre este tema no passado dia 12 de abril.

Em contraste com esses propósitos, parecem obter cada vez maior adesão, num número cada vez maior de países, correntes de opinião e movimentos políticos de clara hostilidade ao acolhimento de refugiados e migrantes. De modo especial, suscitou nestes dias grande indignação a recusa de acolhimento dos náufragos socorridos no Mediterrâneo pelo barco “Aquarius

Neste contexto, e com a consciência de que não temos a solução para todos os problemas relativos a este tema, queremos salientar o seguinte:

O acolhimento de refugiados e migrantes decorre das exigências do amor cristão e da consciência da fraternidade universal. Afirma o Papa Francisco que para um cristão «a única atitude condigna é colocar-se na pele do irmão que arrisca a vida para dar um futuro aos seus filhos» (Gaudete et Exsultate, 102). E afirmou há dias o cardeal arcebispo de Madrid, Carlos Osoro, que o barco “Aquarius” é «um apelo de Cristo à Europa».

As migrações são, nas sociedades globalizadas de hoje, um fenómeno incontornável. Se forem reguladas com prudência, mas também com abertura e generosidade, podem contribuir para o desenvolvimento económico e social dos países de proveniência e dos países de destino dos migrantes. Demostra-o a história e, de modo especial, também a história do nosso país.

A convivência de pessoas e povos de diferentes culturas pode ser uma ocasião de enriquecimento recíproco se houver uma consciência clara e madura dos valores que definem a identidade de cada um.

Partindo destas ideias, formulamos os votos seguintes:
  • que as correntes de hostilidade ao acolhimento de refugiados e migrantes não tenham expressão no nosso país;
  • que sejam inspiradas pelos princípios do acolhimento e fraternidade universal, e pelo respeito dos direitos humanos, as negociações, a versão final e a implementação dos dois Pactos Globais das Nações Unidas sobre Refugiados e para as Migrações Seguras, Ordenadas e Regulares, na linha do que sugere o manifesto relativo a essa questão do FORCIM (Fórum das Organizações Católicas para a Imigração), a que damos a nossa adesão. 

Fátima, 16 de junho de 2018 

A Comissão Nacional Justiça e Paz, a Comissão Justiça Paz e Ecologia dos Institutos Religiosos e as Comissões Diocesanas Justiça e Paz de Aveiro, de Bragança-Miranda, de Coimbra, de Leiria-Fátima, de Portalegre e Castelo Branco, de Santarém, de Vila Real e de Setúbal

17 de junho de 2018

DIA DA FAMÍLIA COMBONIANA







Vinte e nove membros dos Leigos Missionários Combonianos, Missionárias Seculares Combonianas, Irmãs Missionárias Combonianas e Missionários Combonianos celebraram o Dia da Família Comboniana em Portugal.

O encontro teve lugar a 16 de junho no Santuário de Schoenstatt, em Ílhavo.

Dando as boas-vindas, a Ir. Arlete Santos, coordenadora da Comissão da Família Comboniana, recordou que o encontro só tinha um ponto na agenda: estar uns com os outros e celebrar a herança comum do carisma comboniano sem mais.

Os participantes fizeram uma breve auto-apresentação. Vinte tinham mais de 65 anos, um retracto da presença comboniana em Portugal: as comunidades estão a envelhecer com o regresso de missionárias e missionários idosos ao país.

Seguiu-se um momento de partilha sobre os acontecimentos mais relevantes de cada ramo da Família Comboniana em Portugal durante o ano pastoral corrente na linha da carta das lideranças combonianas que encorajava um maior e melhor conhecimento dos membros da família.

O provincial dos combonianos, P. José Vieira, presidiu à Eucaristia da festa: um momento forte, tranquilo e longo de oração e partilha sobre a palavra de Deus que a liturgia ofereceu e sobre alguns acontecimentos mais relevantes.

A mesa foi posta com os farnéis que cada presente trouxe. O almoço foi um momento de confraternização e de diálogo amigo e descontraído à volta da comida partilhada. Assim, sabe melhor e alimenta mais.

Depois de uma breve visita ao Santuário que acolheu o encontro, os participantes foram para o Museu Marítimo de Ílhavo.

O museu faz memória da pesca do bacalhau na Terra Nova através de um bacalhoeiro e das suas divisões e da exposição diversos utensílios usados na pesca do «fiel amigo». Muitos dos pescadores de bacalhau no Atlântico-Norte eram da zona de Ílhavo.

O espaço é moderno e tem de uma bela colecção de conchas de todo o mundo, de miniaturas de diversos tipos de embarcações e alguns barcos típicos da ria.

A visita termina com a contemplação de um enorme «bacalhário», um aquário cheio de bacalhaus vivos! Afinal, o bacalhau é peixe e morde! Como alguém experimentou quando tentou tocar na cabeça de um gadus morhua, o nome científico do Bacalhau-do-Atlântico.

A celebração do Dia da Família Comboniana terminou com uma merenda para «limpar» os restos do almoço. Um dia de confraternização bem passado!

11 de junho de 2018

Apelo: QUE ITÁLIA ACOLHA MIGRANTES, PRESSIONE EUROPA





Os missionários combonianos italianos dizem-se «chocados e indignados» com a recusa do Ministério do Interior em autorizar o desembarque a um navio cheio de migrantes. Pedem ao governo para continuar no caminho do acolhimento e a Bruxelas para mudar o epicentro das políticas europeias para o Mediterrâneo.

Como cidadãos e cristãos, ficamos chocados e indignados com a decisão do ministro do Interior, Matteo Salvini, que impede que o navio Aquarius traga para os portos italianos 629 migrantes, salvos em águas territoriais líbias.

A recusa em prestar socorro aos migrantes não tem precedentes na nossa história e está em flagrante violação das convenções internacionais, que a Itália também é signatária, que obrigam ao resgate no mar das pessoas em risco de morte.

Entre os migrantes no navio há mais de cem menores desacompanhados e sete mulheres grávidas. Cerca de cinquenta migrantes foram resgatados enquanto corriam risco de afogamento.

Deploramos a decisão de Malta, primeiro destino de desembarque, que se recusou a aceitar a atracagem do navio Aquarius. Assim como o fechamento da França e da Espanha a qualquer possibilidade de acolher os migrantes. Mas é deplorável e vergonhoso que a Itália decida alinhar-se, fazendo assim pagar a pessoas inocentes que precisam de ajuda com o preço de uma diatribe entre os Estados sobre quem deveria assumir a responsabilidade de acolher os migrantes.

Portanto, pedimos que o novo governo italiano reconsidere a decisão tomada pelo ministro Salvini e dê imediatamente autorização ao navio Aquarius para atracar num dos portos italianos mais próximos de onde se encontra.

É verdade que a Itália não pode ser deixada sozinha face ao fenómeno migratório que tem um enorme alcance e implicações internacionais (especialmente na bacia do Mediterrâneo) que põem em causa a atenção e o peso geopolítico da União Europeia. Por conseguinte, é correcto e justo que o Governo italiano faça ouvir a sua voz em Bruxelas, solicitando aos parceiros europeus que tomem parte também eles do dossiê migrante.

Mas, ao mesmo tempo, a Itália não pode escapar ao dever de receber pessoas que, em grande parte, tentam construir uma vida melhor na Europa e que, nalguns casos, fogem de guerras e regimes ditatoriais.

É importante que a Itália mantenha um papel duplo: ser refúgio seguro para os migrantes e, ao mesmo tempo, não parar de pedir à Europa que encontre soluções viáveis (não fundadas simplesmente no controle militar das áreas de trânsito migrantes, como acontece no Níger e Mali), mesmo nos países de partida dos migrantes.

Os parceiros europeus devem ser urgidos a mudar o foco das suas políticas para o Mediterrâneo. É aqui – em particular através da pacificação e estabilização dos estados do Norte da África – que podemos começar a construir novos equilíbrios políticos e económicos.

8 de junho de 2018

CORAÇÃO DE JESUS: MISSÃO PELA COMPAIXÃO




Compadecido, Jesus estendeu a mão, tocou-o e disse: «quero, fica purificado!» (Mc 1,41)


Este simples gesto de Jesus é cheio de significado e exprime com força a sua atitude para com os marginalizados. É também um acto de rebelião contra a injustiça baseada sobre um sistema socio-religioso de exclusão. É assim que o Pai se revela a nós (Col 1, 5), num Filho que, percorrendo os caminhos da Palestina, ousa tocar um leproso para o curar. Marcos, já no primeiro capítulo, revela-nos como seja capaz de amar Cristo, com um coração que extravasa de compaixão, o rosto de Deus visível que o enviou (Mc 1,1).

A devoção ao Coração de Jesus é, desde as origens do nosso Instituto, uma fonte de espiritualidade onde a nossa missão é firmemente radicada. Nela entramos na intimidade da pessoa de Jesus, nas suas atitudes, nos seus desejos e na visão do mundo novo que as Bem-aventuranças anunciam. Assim, a sua contemplação revela-nos o núcleo da nossa vida consagrada: a centralidade do amor de Deus como chave de leitura da História da Salvação. Um amor que incarna e se define como paixão total pela humanidade (DC 2015, n. 22). Para aprofundar este mistério a oração pessoal é um espaço qualificado porque é um encontro íntimo com Jesus em humildade. Torna-se assim uma experiência de perdão, de acolhimento e de gratuidade, que nos transforma e nos modela segundo o seu Coração.

O Coração do Bom Pastor chama-nos ao dom constante de nós mesmos, com tudo aquilo que somos. A missão é a de se oferecer sem esperar nada em troca, de esvaziar a própria vida em favor dos outros. Esta é a nossa consagração: fazer da nossa vida um instrumento da misericórdia do Pai incarnado no carisma dado a Comboni. A nossa história, com todos os seus limites e as suas incoerências, deixa-nos testemunhos indeléveis de confrades que gastaram a sua vida até ao fim por causa do Evangelho. Homens que se deixaram modelar num ciclo de conversão permanente através da experiência de relação com o amor do Pai, tornar-se pão para os famintos e esperança para os desanimados (DC 2015, n. 14).

Marcos fala-nos da vida de um homem que tem como característica principal a compaixão, porque este é o rosto que o Pai quis mostrar-nos. A sua atenção aos mais pobres torna-se assim um elemento constitutivo da missão da Igreja. Um aspecto claramente presente em Comboni (E 2647). A contemplação do Coração de Jesus impele-nos a uma particular proximidade aos excluídos e chama-nos a procurá-los em novos âmbitos, onde a vida é posta de parte. Ao mesmo tempo, o nosso estilo de vida, que pode ser um obstáculo ao dinamismo e à flexibilidade da missão hoje, é posto em discussão. Toda a nossa actividade e reflexão devem partir de baixo, em contacto com a humanidade pregada na cruz. Esta é a expressão mais radical da total doação do Filho e está ainda hoje muito presente em alguns países em que operamos que sofrem a guerra ou outras formas de violência. A nossa presença missionária é sinal do amor que brota do Coração de Jesus (RV 3.3).

Comboni, homem marcado pela experiência religiosa do seu tempo, desenvolveu uma própria dimensão missionária da espiritualidade do Coração de Jesus. O dom total do Pai no Filho é um sinal do amor que nos abre a uma nova esperança. O Reino é um programa de libertação da vida em plenitude (E 3323). Esta profunda convicção levou-o a percorrer milhares de quilómetros através do Nilo e do deserto, pondo em perigo a sua vida porque o Cristo transpassado é também fonte de vida para os mais afastados. A audácia do nosso Fundador em abrir novas fronteiras à evangelização faz parte da nossa espiritualidade e missão. A revisitação da Regra de Vida é também uma oportunidade para crescer na paixão pelo Evangelho à procura dos esquecidos.

Os desafios do mundo de hoje tornam urgente a nossa missão. Vivemos em tempos cheios de expectativas e desejos de novas estruturas políticas, económicas ou sociais. Há uma procura profunda e sincera de sentido, mas que facilmente cai em respostas efémeras que conduzem só à alienação ou ao niilismo. A loucura do Evangelho (1Cor 1, 25) transforma o coração e o mundo; o nosso Instituto continua a ser chamado a caminhar, com a compaixão de Jesus, a tocar os leprosos de hoje.

Que a festa do Sagrado Coração de Jesus nos dê a graça de continuar a crescer no amor.

O Conselho Geral, mccj

4 de junho de 2018

UBUNTU


Palavra-chave de vida social feliz


A palavra banta Ubuntu vai buscar a sua raiz ao provérbio zulu (da África do Sul) que diz que «uma pessoa é pessoa através de outra gente». O dicionário digital define ubuntu como qualidade que inclui as virtudes humanas essenciais: compaixão e humanidade.

O conceito filosófico humanista africano – normalmente traduzido literalmente por «sou porque somos» ou «sou por causa de ti» – encerra uma mundividência essencial de interrelação e interdependência que estamos a perder no Norte do mundo com a cultura do individualismo globalizado, auto-referencial e auto-suficiente a que chamo euísmo, e que ameaça alastrar a outras áreas da aldeia global.

Na África, o conceito de direitos individuais está interrelacionado com os direitos colectivos. A União Africana, por exemplo, tem a Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (com a respectiva Carta) e define os direitos humanos como uma responsabilidade colectiva.

No contexto comunal africano, um indivíduo não é reconhecido nem tem valor isolado em si, mas é importante enquanto parte de um todo. Daí a necessidade de sublinhar o sentido de pertença pelo nome, língua, traje ou marcas no corpo (escarificações), que sublinham a identidade pessoal ligada ao colectivo a que pertence.

Para uma cultura em que o indivíduo e os seus direitos são absolutos, é complicado entender a necessidade de inter-relação para sublinhar a identidade pessoal. Mas nem sempre assim foi. Lembro-me da afirmação de John Donne, pensador inglês do século XVII: «Nenhum homem é uma ilha, inteiro de si mesmo. Todo o homem é um pedaço do continente, uma parte do continente.»

Por trás do conceito de ubuntu está uma ética primordial que aponta para a pertença e solidariedade como base das relações sociais e da própria sobrevivência. O arcebispo sul-africano Desmond Tutu explica que «ubuntu fala da própria essência de ser humano. Quando queremos dar muitos elogios a alguém, dizemos: “Yu, u nobunto”; “Fulano tem ubuntu”. Então é generoso, é hospitaleiro, é simpático e atencioso e compassivo. Partilha o que tem. É dizer: “A minha humanidade está inextricavelmente ligada à tua”.»

O processo de verdade e reconciliação que o arcebispo anglicano encabeçou na África do Sul, no fim do apartheid, é uma expressão dessa filosofia que põe lado a lado práticas como consenso e reconciliação para curar feridas sociais.

Aliás, a justiça tradicional africana é mais restaurativa que retributiva e busca consensos. Normalmente nenhuma das partes envolvidas num caso é totalmente inocente nem totalmente culpada.

Esta filosofia e visão de vida pode ajudar a resgatar a cultura ocidental presa nas enseadas, picos e abismos do individualismo que está a deixar muitas pessoas cada vez mais sozinhas, ensimesmadas e perdidas. A solidão é um dos subprodutos do euísmo que afecta transversalmente todas as faixas etárias a ponto de o Governo do Reino Unido ter de instituir o Ministério da Solidão para responder a essa praga social.

No fundo, temos de voltar a aprender a arte de viver juntos a aventura da vida como expressão de pertença feliz. Não nos bastamos, mas precisamos cada vez mais uns dos outros; precisamos de ubuntu!

3 de junho de 2018

«EU QUERO SEGUIR JESUS»


© AMaravilha 

O noviço italiano Gabriele Messori fez a sua primeira profissão religiosa como irmão missionário no Instituto Comboniano numa celebração alegre e colorida que decorreu no Noviciado Europeu de Santarém, Portugal, na tarde do sábado, 2 de junho de 2018.

A eucaristia, animada pelo grupo do Bairro da Torre, composto por imigrantes africanos da paróquia de Camarate, concelho de Loures, foi uma linda celebração missionária participada por muitos membros da família comboniana, jovens do grupo Fé e Missão-Sul, consagradas dos institutos presentes da diocese de Santarém, noviços e um diácono jesuítas, um padre diocesano, utentes do lar da terceira idade de Gualdim onde o Gabriele passava parte do fim-de-semana, e muitas amigas e amigos.

O P. João Munari, provincial dos combonianos na Itália, presidiu à celebração e recebeu os primeiros votos do Gabriele. Paolo Messori, o pai do neoprofesso, também esteve e acompanhou-o no início da celebração num ato de entrega do filho ao Senhor da Missão.

O P. João recordou ao Gabriele que ser missionário é lavar os pés a quem precisa e deixar que os pobres também lhe lavem os pés.

O novo irmão comboniano explicou antes da fórmula dos votos que «sem mérito, sem dinheiro algum pus-me a caminho e encontrei esta água que sacia para sempre: Cristo Jesus. Quem o encontra descobre o sentido destas Suas palavras: “Eu vim para que tenham vida e a vida em abundância”. Experimentei esta vida abundante e já não pode ficar apenas para mim. A fé é viva quando é partilhada, anunciada testemunhada.»

O grupo africano deu uma dimensão missionária à celebração com a alegria das vozes, danças e ritmos crioulos.

No final da celebração festiva o Gabriele agradeceu aos presentes a presença e a amizade com uma carta que escreveu a todos:

«Caríssimo amigo, amiga: agora, ao chegarmos ao fim desta caminhada, tenho muitas coisas a dizer e para te agradecer.

Teria algo de exprimir mas não sei como, pois há momentos em que as palavras não chegam, não atingem o seu objectivo: comunicar o que a pessoa sente, vive, pensa, e o que se passa na pessoa.

Portanto, peço-te desculpa por esta minha pobreza, de eu não ter palavras adequadas para exprimir o que sinto agora. Podes confiar que estou feliz por ter-te conhecido. Espero que oxalá fique marcado algo mais em nós, nos nossos encontros.

Se calhar, pequenas coisas: um gesto, um olhar, um sorriso, os silêncios, uma incompreensão… enfim, algo assim. Já que a nossa vida passa também por essas coisas. Os encontros sempre nos transformam, dizem algo a respeito de nós e dos outros.

A mim, pessoalmente, o ter tido a oportunidade de te conhecer mudou algo em mim. E, por isso, estou muito agradecido a Deus. Contigo partilhei um longo traço, com outros apenas breves momentos, contigo momentos mais fáceis, outros mais difíceis e complicados. Mas assim construímos o trilho juntos, torna-se possível tudo isto.

Caro amigo, cara amiga, a fé é assim: constrói-se juntos. Por onde é que queremos ir? Eu quero seguir Jesus, podemos ir atrás d’Ele se quiseres. Mas olha: eu não sei por onde esta estrada nos vai levar. Talvez muito longe. Nós sabemos onde ele estará? Temos percebido bem a mensagem, o coração do seu Evangelho?

Às vezes acho que não, às vezes acho que sim. Eu apercebi-me que Jesus se deixa encontrar ali nos lugares mais estranhos. Certo que Ele está perto dos pobres, dos sem voz, os marginalizados da sociedade; Ele está perto dos corações humildes e aborrece a glória e do poder dos homens. Ele está perto dos que trabalham pela justiça e arrepia-se dos iníquos.

Onde está a misericórdia e o perdão Ele aí está. Enfim, Ele é o verdadeiro amor. Querido amigo, ajudemo-nos juntos a percorrer este caminho que, se for feito em serenidade e verdade, levar-nos-á a APRENDER A AMAR.
»

Os participantes partilharam uma refeição volante onde se cruzaram sabores ribatejanos e africanos e muita conversa, alegria e alguma música.

Imenso o comentário que duas utentes do lar de Gualdim trocaram durante o lanche: «O Gabriele foi um anjo que nos apareceu.»

O novo comboniano nasceu na cidade italiana de Reggio Emilia há 34 anos. Tem um título académico em Ciência Política e é diplomado em educação profissional.

Vai continuar a sua formação missionária comboniana no Centro Internacional de Formação de Irmãos em Nairobi, no Quénia. Antes, vai fazer o caminho português de São Tiago de Compostela e tirar umas merecidas férias com a família e amigos em Itália.

Este ano, 41 jovens entraram oficialmente no Instituto Comboniano através da profissão religiosa: 36 são africanos, três latino-americanos, um é asiático e o Gabriele é europeu.

13 de maio de 2018

COMBONIANO ORDENADO PADRE


O Diácono Ricardo Alberto Leite Gomes foi ordenado padre na tarde do dia 12 de Maia, véspera da solenidade da Ascensão do Senhor, na Igreja paroquial de São Martinho de Bougado, Trofa.

A Eucaristia foi presidida por Dom António Augusto Azevedo, bispo auxiliar do Porto, que ordenou o novo sacerdote.

A ampla Igreja paroquial estava linda e cheia de fiéis que quiseram estar com o Padre Ricardo em dia tão especial.

Entre os participantes encontravam-se o Vigário Geral dos Combonianos, P. Jeremias dos Santos Martins, Isabella Dalessandro, Responsável Geral das Missionárias Seculares Combonianas, trinta padres (combonianos na maioria), três diáconos, algumas irmã, irmãos, seculares e leigos missionários combonianos.

Da África do Sul vieram quatro pessoas, três leigas e um comboniano, da missão de Acornhoek, onde o novo padre fez o serviço missionário. Alguns amigos e três combonianos fizeram a viagem da Itália.

O coro, de vozes e instrumentos, animou a celebração e cantou algumas peças originais do pároco de São Tiago de Bougado, P. Bruno Ferreira, que dirigiu.

Dom António disse que a ordenação do Padre Ricardo representa «um dia grande para a Igreja, para os Missionários Combonianos, para a comunidade paroquial e sobretudo para o Ricardo.»

No final da celebração o pároco agradeceu a presença e o trabalho de todos os que quiseram estar presentes em tão bela celebração.

O superior provincial partilhou a alegria da ordenação do Ricardo depois de quase 13 anos sem ordenações e louvou o espírito missionário das duas paróquias da Trofa que já deram três filhos à congregação e têm alguns jovens muito empenhados na pastoral vocacional juvenil comboniana.

O neo-ordenado também teve palavras de agradecimento no final da Eucaristia.

«O meu primeiro agradecimento vai para o Senhor que me chamou a consagrar a minha vida a Ele e à missão. Um especial agradecimento à minha família, aos meu pais, irmã e irmão que sempre estiveram presentes na minha caminhada, souberam dar me conselhos e apoio em todos os momentos», disse.

Falando em inglês, teve uma palavra de apreço para o grupo que veio da missão onde trabalhou: «Eu aprendi o significado real do amor, da generosidade, da amizade.»

O novo sacerdote missionário comboniano tem 29 anos.

Fez o curso de Teologia na Católica do Porto e na faculdade de teologia dos Jesuítas em Nápoles, Itália. Depois, fez o serviço missionário de quase dois anos na África do Sul.

O P. Ricardo faz parte da comunidade de Maia desde janeiro de 2018 e trabalha na pastoral vocacional juvenil.

10 de maio de 2018

SENHORA DA ÁFRICA



A Mãe de Deus é evocada como Nossa Senhora da África.

Bento XVI terminou a exortação apostólica Africae munus – o Serviço da África – com uma oração à Mãe de Deus: «A bem-aventurada Virgem Maria, Mãe do Verbo de Deus e Nossa Senhora da África, continue a acompanhar toda a Igreja com a sua intercessão» (n.º 175).

A devoção africana à Mãe de Jesus perde-se nas brumas da memória cristã. Os frescos das antigas igrejas núbias, no que é hoje o Sudão, são testemunho silencioso desse passado de fé. Os três reinos núbios formaram um enclave cristão entre os séculos VI e XV até serem tragados pelo Islão. A Virgem tem um lugar preeminente nessa iconografia antiga de que hoje restam alguns frescos nos museus de Cartum e Varsóvia.

A devoção etíope a Nossa Senhora é expressão dessa herança. Maria é comummente chamada «Kidane Mehret», literalmente «Aliança de Misericórdia». A Igreja Ortodoxa celebra-a no dia 16 de cada mês. A festa anual é a 16 de Abril. O ícone da Virgem Mãe com o Menino ao colo guardada por dois anjos repete-se por inúmeras igrejas ortodoxas e católicas. A mesma devoção está presente entre os coptas do Egipto.

O título Nossa Senhora da África ou Virgem de África tem marca portuguesa. O infante Dom Henrique ofereceu a imagem por ele assim chamada à cidade de Ceuta em 1421. No século XIX, o culto chegou a Argel, na Argélia. A construção da imponente basílica em estilo neobizantino começou em 1858 numa colina sobre o Mediterrâneo e foi consagrada em 1872. O templo é também frequentado por muçulmanos.

A Basílica de Yamoussoukro, na Costa do Marfim, é outro lugar mariano africano dedicado à Nossa Senhora da Paz. O templo, construído entre 1985 e 1989, é uma cópia da Basílica de São Pedro, mas em maior.

Os países africanos de expressão portuguesa além da língua também herdaram a devoção mariana. A padroeira de Cabo Verde é a Senhora das Graças e a da Guiné-Bissau é a Senhora da Candelária. Angola tem em Muxima um santuário nacional dedicado à Senhora da Conceição, que é padroeira de Moçambique.

África é lugar de aparições marianas: Ngome, na África do Sul, e Kibeho, no Ruanda, são dois centros reconhecidos. Mas a Senhora de Fátima também está presente no continente desde 1942 quando foi inaugurado o Santuário de Namaacha, em Moçambique. O cardeal John Onaiyekan, arcebispo de Abuja (Nigéria), explicou que a mensagem de Fátima é muito importante para África, porque «é um apelo à paz».

Hoje, há pelo menos 57 paróquias dedicadas à Senhora de Fátima no continente. Moçambique está à frente com 16. Angola tem 11. O lugar de culto mais deslumbrante é o altar de Nossa Senhora de Fátima no cume nevado do monte Kilimanjaro, na Tanzânia, a 5895 metros de altitude.

A devoção mariana com rosto africano é sobretudo corporizada na Legião de Maria. A organização nasceu na Irlanda em 1921. Milhares e milhares de mulheres católicas dedicam-se de alma e coração ao serviço das suas comunidades desde o cuidado dos templos e da ordem nas celebrações ao serviço aos mais necessitados inspiradas na Virgem de Nazaré.

6 de maio de 2018

COMBONIANOS IBÉRICOS FAZER RETIRO JUNTOS









As províncias de Espanha e Portugal decidiram fazer em conjunto o retiro anual de 2018 para aprofundarem a comunhão que já vivem através de encontros anuais regulares.

O P. Tesfaye Tadesse pregou o retiro aos 51 participantes (27 da Província de Espanha e 24 da de Portugal) em Salamanca de 29 de abril (à noite) a 5 de maio (de manhã).

«Estamos aqui para nos encontrarmos com o Senhor, para nos deixarmos encher e refrescar de Deus, para celebrar a vida espiritual que está em nós», o P. Tesfaye explicou na introdução ao retiro.

O Padre Geral guiou os participantes num exercício de agradecimento e de louvor pelo dom da vida, da fé, do discipulado, do encontro, da comunidade, da missão, da consagração, da conversão, da vida apostólica e da Mãe.

O retiro decorreu em ambiente de silêncio gozoso e de Pentecostes: o P. Tesfaye usou o italiano enquanto que os participantes rezavam, cantavam e partilhavam em espanhol e português.

Os retirantes sentiram-se particularmente unidos com os católicos da paróquia de Nossa Senhora de Fátima de Bangui (República Centro-Africana). A 1 de maio, enquanto a comunidade celebrava a festa de São José Operário, um grupo radical islâmico atacou a igreja com granadas e balas, matando 16 pessoas. Entre as vítimas conta-se o padre local, que presidia à Eucaristia.

Na adoração do meio-dia rezavam cada dia por um continente diferente e pelas situações mais dramáticas.

O retiro conjunto das províncias ibéricas foi um momento histórico de comunhão e de oração à volta de Jesus, inspirados por São Daniel Comboni e pela Regra de Vida.

As duas províncias combonianas – que entre 1964 e 1969 formaram uma única circunscrição – têm feito um caminho de comunhão interessante: todos os anos organizam um encontro de convívio, os conselhos provinciais reúnem-se uma vez por ano em conjunto e participam nas assembleias provinciais.

As duas províncias além de partilharem um animador do Código Deontológico, estão a explorar maneiras de formarem uma Comissão de Formação Permanente comum e um postulantado ibérico em Granada (Espanha).

2 de maio de 2018

ORAÇÃO POR BANGUI


Senhor Jesus, estamos aqui contigo,
somos tua comunidade.
Em ti e contigo estamos em comunhão
com toda a humanidade neste mundo em que vivemos.
Hoje, aqui e agora, queremos estar em comunhão
especialmente com o continente da nossa querida África.
Oferecemos-te o que somos e fazemos na África,
o nosso desejo de Esperança e de Paz.
Pedimos-te hoje, aqui, o dom da Paz para todos os países
mas especialmente para a República Centro-Africana,
para a capital, Bangui,
para a paróquia de Nossa Senhora de Fátima.
Apresentamos-te, pomos nas tuas mãos e no teu coração
as dezasseis pessoas que foram mortas e os seus familiares em luto
e todos os feridos;
Os que estão a passar por medos e ansiedades devido ao perigo da violência;
a família comboniana aí presente
      Dai-lhes a graça de fortalecerem os que sofrem!
Ámen.
P. Carlos Nunes 
Missionário Comboniano

10 de abril de 2018

COM OS JOVENS NO CORAÇÃO

©BFrutuoso 
A Comissão da Família Comboniana propôs o tema «São Daniel Comboni: desafio para os jovens de hoje» para o ano pastoral de 2017-2018 em sintonia com a Igreja universal que, liderada pelo Papa Francisco, prepara a XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos sobre «Os jovens, a fé e o discernimento vocacional».

O Sínodo dos jovens, que decorre no Vaticano de 3 a 28 de outubro, está a ser preparado de uma maneira inovadora usando o espaço digital.

O Papa Francisco apresentou o Documento Preparatório com uma carta aos jovens, escrita a 13 de janeiro de 2017. «Eu quis que vós estivésseis no centro da atenção, porque vos trago no coração», escreveu logo no início da missiva, convidando os jovens a «saírem» ao jeito de Abraão.

E continuou: «Um mundo melhor constrói-se também graças a vós, ao vosso desejo de mudança e à vossa generosidade. Não tenhais medo de ouvir o Espírito que vos sugere escolhas audazes, não hesiteis quando a consciência vos pedir que arrisqueis para seguir o Mestre. Também a Igreja deseja colocar-se à escuta da vossa voz, da vossa sensibilidade, da vossa fé; até das vossas dúvidas e das vossas críticas. Fazei ouvir o vosso grito, deixai-o ressoar nas comunidades e fazei-o chegar aos pastores.»

O Papa argentino confiou os jovens a Maria de Nazaré, «uma jovem como vós, à qual Deus dirigiu o seu olhar amoroso, a fim de que vos tome pela mão e vos guie para a alegria de um “Eis-me!” pleno e generoso.»

A preparação do Sínodo incluiu dois questionários: um sobre a pastoral vocacional juvenil e outro, na internet, disponível para quem o quiser preencher.

O Papa também organizou uma reunião pré-sinodal com mais de 300 jovens de todo o mundo no Vaticano de 19 a 24 de março que contou com a participação de outros 15 mil jovens em fóruns nas redes sociais.

Que provocações nos coloca o tema «São Daniel Comboni: desafio para os jovens de hoje»?

Os jovens tinham um lugar especial no coração de São Daniel Comboni. A palavra jovens aparece 321 vezes nos Escritos, jovem 191 vezes e juventude 43 vezes. Ao todo são pelo menos 555 registos se o localizador do Word não me trocou as voltas!

E o que escreve Comboni? Muitas e variadas coisas sobre os jovens africanos, os jovens missionários e a sua própria juventude.

Nota que os primeiros convertidos eram quase todos jovens (E 207); alegra-se com o progresso dos jovens (E 450); resgatou cinco jovens Oromos (chama-lhes Galla) no mercado de escravos de Adem (E 597); nota com alegria que as jovens africanas bordaram um paramento valioso para o Papa (E 678, 690); inclui no Plano o trabalho dos jovens catequistas (E 831-835); denuncia o tráfico de jovens africanos (E 865-866); procurou «por todos os meios ganhar o coração dos jovens» (E 871). Encomenda-se à oração das jovens do Instituto (E 1027); e quer que apressem a preparação «de jovens corajosos, habituados a toda a espécie de agruras, mortificações e sacrifícios: tal deve ser o apóstolo da África, o qual deve pôr-se inteiramente nas mãos da Providência» (E 1215).

Comboni também se preocupa com «a libertinagem e corrupção da juventude moderna» (E 140-141, 316), mas escreve: «a juventude está sujeita a certas crises inevitáveis, não nos devemos admirar; chegado o tempo da maturidade, as coisas acalmam-se» (E 783); e proclama: «mas a juventude é sempre juventude» (E 1755).

Sublinho esta mensagem de esperança: «Esta juventude, na qual depositamos as maiores esperanças, representa um conforto para o coração do missionário, que a rodeia de amorosos cuidados» (E 4966).

Tanto Comboni como Francisco trazem a juventude no coração: ambos acreditam nos jovens. Este é o nosso grande desafio: continuar a acreditar nos jovens em tempo de grande carestia vocacional, acolhê-los em casa e no coração e cuidar deles.

Os jovens continuam a ser generosos e a responder às grandes causas ao seu jeito que é diferente do nosso.

Em fevereiro de 2017 havia 745 candidatos ao presbitério diocesano nos pré-seminários, seminários menores, propedêutico, seminários maiores e no ano pastoral. Os dados são da Comissão Episcopal Vocações e Ministérios.

Por outro lado, segundo a FEC, 389 jovens e adultos estão empenhados em projetos de voluntariado missionário de curto, médio e longo prazo no estrangeiro e 1014 desenvolvem atividades de voluntariado/missão em Portugal no ano passado.

A Missão País 2018 contou com cerca de 3000 universitários que participaram em 52 missões organizadas por 43 faculdades durante a semana de férias do Carnaval.

Os testemunhos dos oito jovens do «Fé e Missão» que no verão de 2017 estiveram um mês em Carapira (Moçambique) vão nesta linha: fiquei encantado pelo modo como responderam e continuam a responder aos desafios que a missão lhes coloca.

Resta-nos encher o coração dos jovens, dar-lhes o nosso coração, vez e espaço, e acreditar neles!

E continuar a rezar pelas vocações, a primeira empresa dos enviados de Jesus: «A colheita é muita, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois, ao Senhor da colheita que envie trabalhadores para a sua colheita. Ide» (Lucas 10, 2-3a).

6 de abril de 2018

SURPRESA FELIZ


Depois de quase todo o dia sem horas sem corrente eléctrica, o gerador a pedir refrigeração (trabalhou durante 4 horas seguidas, coitado, para aguentar até ao fim da celebração da missa) e a velinha a suspirar para me dar o último fio de luz. Aqueci o arroz e o ful (favas) que, de passagem se diga, estavam fav(ul)osas e pus-me no pátio à fresca, a apanhar o último pó de areia, ao qual ninguém pôde escapar durante estes três últimos dias. Sem uma pontinha de exagero, digo-te que não vi o Sol durante estes três dias, escondido pela tempestade. São dias avermelhados/amarelados como aqui dizem, mas Deus nos livre porque se fossem dias negros como a noite, literalmente falando, como outras vezes acontece, seria muito pior.

E como ia contando, eis que se fez luz de novo, embora já a altas horas da noite.

Surpresa feliz, embora estivesse já a caminho do vale dos lençóis (passe a expressão, mas na verdade aqui, com os meus 42 e mais graus e a comichão da tempestade de areia não uso tal coisa desde janeiro passado). Uma rápida vista de olhos ao correio electrónico e... achei-me pegado ao teclado, a pensar em ti, em vocês, nesta Páscoa Santa a acontecer, mesmo em cima de nós.

O sono passou, muito embora amanhã vai ser dia de pica-boi. E, para mais, estou sozinho já desde há três semanas. São as tais coisas dos missionários quando a comunidade mínima de três é só de dois: foi quase sempre assim neste meu querido Sudão e, mais querido ainda, Darfur. Antes, fui eu três meses a Portugal e agora é a vez do Lorenzo Baccin (férias, operação aos olhos e ao tornozelo). Que os sequestradores não saibam que estou sozinho porque senão ainda acontecerá como daquela outra vez. Mas, felizmente, caso seja preciso defender-me, espero que o Tong Aketch esteja, de novo, amanhã de manhã, como daquela outra vez, em boa forma, como bom soldado que foi, habituado a usar a espingarda ou a fingir que a tem escondida debaixo da jalabia, isto é nas cerual (ceroulas, literalmente, em árabe correcto).

Mas não haverá azar, in sha Allah. Estou em boa forma e disposição, el hamdu lillah. O pior é que os cobres começam a faltar e estamos em obras nas duas escolas de Jir e Taiba. Quando o material é chinês e não há outra escolha acontece isto, refazer o podre que não aguentou sequer um ano. Talvez cometemos o erro de começar obras sem contar com o que se tem na mão, como diz o Evangelho. Mesmo no banco, que seria a minha solução, não tem dinheiro para me dar, muito menos para me emprestar. Diz-me o meu amigo director do banco que espere uns dias até ver, que vai ver se mo arranja. Há pois que confiar em Deus e no Sr. Director. Isto é que vai uma crise, eh?! A rir digamos mas é a verdade pura. O Sudão, os dois Sudãos, estão mesmo na mesma mó de baixo. Bem, dizem que o humor também faz bem. Assim seja por sempre. Ámen!

A propósito, estou aqui a agradecer as amêndoas da Páscoa que a Província Portuguesa me enviou. Essas, juntas com as de outros amigos/as que também têm a missão do Darfur como apontamento na sua vida de cristãos, vão dando até que o meu amigo do banco arranjar o tal pacote das 20.000 libras sudanesas que me prometeu. Caso contrário, já me vejo na cadeia até pagar o último cêntimo. Mas talvez não será mau de todo pois, pelo menos, sei que lá descansarei das canseiras dos dias de tanto trabalho do lado de fora das grades. Também... pela comida que me darão na prisão – ful e lentilhas, sempre da mesma cor, todos os dias e sempre – seria um tanto ao quanto aborrecido. Embora, a verdade se diga, são das melhores comidas que por aqui encontro.

Obrigado a todos vós da Província Portuguesa pela rica oferta da Páscoa. Deus vos recompense em grande por meio daquilo que Ele melhor do que nós sabe.

Bem, já me levantei três vezes e outras tantas voltei a sentar-me. Mas agora é de vez, a esta hora da manhã, (não te digo que horas são). Deus me ajude a ter força para o pica-boi, amanhã. Pedindo desculpa pela tua paciência, se é que conseguiste ler-me até aqui. O vale dos lençóis, desta vez, com pó comichoso ou não, terei que o aguentar.

Aqui, hoje, Quinta-Feira Santa, tivemos quatro gatos-pingados mas a celebração foi muito boa. Fiquei contente mesmo com os poucos 15 paroquianos. Já muito fazem eles, muito boa gente e de muito boa fé. Embora digam eles que não perdoar aos Janjauides, ao governo de El Bashir e de Salva Kiir não é pecado. Deus que os julgue que eu não posso.

De todos os modos, seria talvez muita coisa esperar que venham a todas as celebrações, sendo a que mais sofre de participantes a Quinta-feira.

Em Outubro estamos para entregar a paróquia à diocese. É uma grande pena mas não se pode aguentar mais sem nos podermos mexer lá por longe no trabalho pelas periferias da imensa paróquia do Sul do Darfur. Quando o pessoal e padres sudaneses (Nubas) podem fazê-lo... O bispo Tombe Trille, Nuba, inteligente, muito bom homem de Deus e sério, não teve senão que aceitar a proposta do Provincial. Dar-nos-á uma paróquia onde nos poderemos mover sem problemas de (maior) perto de El Obeid. Mau... de aí já fui eu expulso em 1994 pelos mesmos motivos, da guerra... Mas Deus lá está, como aqui dizem. Mas uma vez, precisamos da vossa oração. Shukran!

O sono fugiu e ainda não voltou. Deus me ajude de manhazinha na operação pica-boi.

Uma boa e Santa Sexta-Feira Santa a prolongar-se pela Páscoa, a grande Páscoa sem fim! Ámen!
Feliz Martins

5 de abril de 2018

ADEUS, SACOS DE PLÁSTICO



Quénia interdita fabrico e uso de sacos de polietileno.

À terceira foi de vez: depois das falsas partidas em 2007 e 2011, o Quénia baniu o fabrico e uso de sacos de plástico (polietileno) em 28 de Agosto de 2017. A lei, saída do Ministério do Ambiente e dos Recursos Naturais e da Autoridade Nacional da Gestão do Ambiente, é das mais pesadas do globo: fabricantes e comerciantes do artigo proibido ficam sujeitos a uma multa de dois a quatro milhões de xelins (entre 16 mil a 32 milde euros) ou a pena de prisão de dois a quatro anos.

A interdição do uso dos sacos de polietileno foi comunicada via SMS e por meio de anúncios que aconselhavam as pessoas a usarem embalagens próprias ou bolsas recicláveis para levar as compras. Os sacos amontoados em casa tinham de ser entregues em pontos indicados para reciclagem.

O Quénia junta-se a mais de uma dúzia de países africanos que proibiram total ou parcialmente os sacos de plástico leves ou taxam o seu uso como a Eritreia (que os baniu em 2005), Ruanda (fê-lo em 2008), Guiné-Bissau, Cabo Verde, Tunísia, Camarões, Mauritânia, Senegal, Zanzibar, Marrocos, África do Sul, Maláui e Uganda. Namíbia e Tanzânia devem juntar-se-lhes em breve.

A indústria queniana dos sacos de polietileno opôs-se à proibição, que – diz – custa 60 mil postos de trabalho nas 176 fábricas que vão ter de fechar. O Quénia era um dos maiores fabricantes de sacos de plástico na região. Um industrial do ramo está mesmo a exigir em tribunal uma compensação pela perda do investimento.

Lylian Naswa, funcionária pública que mora no Quénia profundo, saudou a medida: «Sacos de plástico? É certo acabar com eles. É uma barafunda total com os sacos de plástico atirados por todo o lado. É o adeus aos sacos de plástico.»

O saco de plástico, além de ser uma fonte enorme de lixo e sujeira nos espaços públicos – fez-me impressão ver as pequenas acácias do antigo aeroporto de Cartum «decoradas» com sacos coloridos levados pelo vento, quais árvores de Natal fora de lugar e de tempo –, entope sistemas de drenagem e provoca inundações.

Sobretudo, afecta seriamente a vida na terra e nos oceanos: um saco de polietileno leva até 1000 anos a decompor-se e, segundo o Programa da ONU para o Meio Ambiente, com sede em Nairobi, só os supermercados distribuem mais de 100 milhões de sacos por ano no Quénia. O país usa 288 milhões de sacos por ano. Muitos animais marinhos confundem o plástico com comida e introduzem-no na cadeia alimentar ou morrem devido à sua ingestão como também acontece a algum gado, sobretudo cabras e vacas.

A interdição já reduziu em 80 por cento o uso de sacos de polietileno, embora continuem a entrar ilegalmente no país através dos vizinhos Uganda e Tanzânia. O braço pesado da lei também já se faz sentir: em Fevereiro, um juiz de Mombaça condenou 29 pessoas a uma multa de 50 mil xelins (cerca de 400 euros) cada ou a um ano de prisão pelo uso do artigo proibido.

Entretanto, enquanto na Europa se tenta reduzir o uso de sacos de plástico leves para 40 unidades por ano por cabeça até 2025, as autoridades quenianas já têm um novo alvo na mira: as garrafas de plástico.

27 de março de 2018

SINAIS DA RESSURREIÇÃO SÃO MAIS ABUNDANTES



Jesus de Nazaré, Homem acreditado por Deus junto de vós, com milagres, prodígios e sinais … vós o matastes, cravando-o na cruz por meio de gente perversa… Foi este Jesus que Deus ressuscitou, e disto nós somos testemunhas (Actos 2, 22ss)

O Conselho Geral, reunido nestes dias de Consulta, quer desejar a cada um de vós uma Santa Páscoa na Alegria e na Paz de Cristo Ressuscitado.

Este ano, mais do que noutros anos, parece que a Páscoa nos chega de modo veloz, rápido, quase inesperado. Parece que o tempo corre mais rápido ou são talvez os acontecimentos que nos surpreendem e nos fazem sentir a urgência da Páscoa, o desejo de celebrá-la como Jesus e com Jesus: «Tenho de receber um baptismo, e que angústias as minhas até que ele se realize!» (Lucas 12, 50).

Celebramos a Páscoa de Jesus, a Páscoa dos apóstolos e de cada um de nós. Celebramos a Páscoa dos povos que sonham um mundo mais justo e fraterno. Celebramos a Páscoa da criação que espera ser renovada e feita nova criatura em Cristo. Na realidade todos nós gememos com gemidos inefáveis, enquanto esperamos a nossa libertação: «Bem sabemos como toda a criação geme e sofre as dores de parto. Não só ela. Também nós, que possuímos as primícias do Espírito» (Rom 8, 22-23).

Desde o início deste ano de 2018 que o Senhor nos fez experimentar de um modo muito concreto o significado desta Festa através da passagem de alguns dos nossos confrades – seis no total – que o Pai chamou a si. Eles celebraram a sua páscoa definitiva. Alguns, de modo inesperado como o P. Rogelio Bustos Juárez, membro do Conselho Geral. A páscoa para ele veio depressa, sem pré-aviso. Para outros, fez-se anunciar deixando espaço para um caminho de purificação, lento e atribulado. Mas em todas as situações, a Páscoa chega através do sofrimento, do despojamento, do perder-se na vontade do Pai: «Meu Pai, se é possível, afaste-se de mim este cálice! No entanto, não seja como eu quero, mas como Tu queres!».

Nas visitas que fizemos este ano, como Conselho Geral, ao Uganda, Sudão do Sul, Togo, Gana, Benim e República Democrática do Congo, tocámos os sinais da paixão de Jesus na vida desses povos. Contudo, são ainda mais abundantes os sinais da Ressurreição revelados nos sonhos dos jovens, na beleza das crianças, na resistência dos adultos. E na vida doada de tantos pastores, dos catequistas e dos nossos missionários, testemunhas da Ressurreição, verdadeiros sinais do facto que Deus continua a ressuscitar Jesus de Nazaré cada dia.

Caros confrades, queremos convidar-vos a viver a Páscoa de modo simples e humilde, convictos de que Jesus venceu verdadeiramente a morte e o sofrimento, nossos e do mundo. Encorajamos-vos a vivê-la como o grão de trigo que morre para dar fruto abundante; como o peregrino que avança na noite da dor e do desespero tendo os olhos fixos na luz que emana do Ressuscitado; como as mulheres diante do sepulcro que «erguendo os olhos, observaram que a pedra tinha sido rolada, apesar de muito grande»; como os apóstolos no cenáculo que, ouvindo as palavras de Jesus «A paz esteja convosco!», se encheram de alegria; como os discípulos de Emaús que se deixaram acompanhar pelo peregrino desconhecido que lhes faz arder o coração ao explicar-lhes as Escrituras e se lhes revela na fracção do Pão; como Comboni, que viveu a missão sob o sinal da Cruz Gloriosa do Ressuscitado: «A cruz é o único conforto verdadeiro, porque é a marca da obra de Deus. À paixão e morte de J. C. seguiu-se a ressurreição. O mesmo sucederá na África Central» (Escritos 5559).

Queremos desejar-vos um tempo de alegria profunda deixando-nos fascinar pela presença gloriosa do Ressuscitado que venceu a morte e continua também hoje a vencer todos os tipos de morte do nosso mundo. Ele inunda-nos com a sua Luz, enche-nos de esperança e abre os nossos olhos à sua Presença inefável!
O Conselho Geral

26 de março de 2018

COLABORAÇÃO: DENOMINADOR COMUM




ENCONTRO CONSELHOS PROVINCIAIS DE PORTUGAL E ESPANHA 
Viseu, 20 de março de 2018 

Queridos irmãos em Cristo das províncias de Espanha e Portugal,

Os conselhos provinciais de Espanha e Portugal, reunidos em Viseu a 20 de março de 2018, queremos agradecer a Deus este tempo de caminho quaresmal que estamos a percorrer e permanecemos à espera da Ressurreição de Jesus, que anima as nossas vidas e dá um sentido novo à missão.

Se a memória não nos falha, já é o quarto ano em que os dois conselhos provinciais nos encontramos para continuar a colaborar entre ambas as províncias em espírito de serenidade e escuta de Deus e dos membros das duas províncias. Antes de mais, damos graças por perceber que não há tensões entre nós e que a colaboração é o denominador comum que nos acompanha para podermos fazer juntos tudo o que seja factível e possível.

Em fins de abril, e pela primeira vez, encontrar-nos-emos em Salamanca para as duas províncias fazerem o Retiro em conjunto acompanhados pelo Padre Geral. Sem dúvida que será para todos nós um momento de graça e de bênção.

Na reunião que tivemos aqui em Viseu, avaliámos os compromissos que fixamos na reunião de Granada no ano passado e seguimos mantendo este espírito de colaboração.

Contudo, desejamos focar a nossa atenção em três sectores que queremos continuar a ter em consideração:
  1. Formação Permanente. Mantemos o nosso compromisso de continuar a trabalhar juntos na medida do possível em encontros interprovinciais como: retiro, encontros com combonianos anciãos, encontro de formação permanente e estudo conjunto do Código Deontológico a partir do momento que a sua redação final esteja aprovada. Tudo isto se concretizaria com a criação de uma só Comissão de Formação Permanente a nível ibérico. 
  2. Proposta para criar um Postulantado Ibérico em Granada e um noviciado europeu, como já acontece em Santarém. 
  3. Proximamente vai realizar-se um encontro conjunto entre Portugal e Espanha para partilhar e analisar trabalhos pastorais nas paróquias onde haja uma presença comboniana. 
Agradecidos a São Daniel Comboni por manter vivo em nós este clima de continentalidade que caraterizou a vida do nosso santo fundador, desejamos continuar a crescer no espírito pascal de Cristo morto e ressuscitado.
Os Conselhos Provinciais de Espanha e Portugal 
Viseu, 2018

21 de março de 2018

RESISTIR É CRIAR – RESISTIR É TRANSFORMAR


Mensagem final dos membros da Família Comboniana
Participantes no Fórum Social Mundial e no Fórum Comboniano 

Ministerialidade e trabalho em rede/colaboração na Família Comboniana
e com as outras organizações 

Salvador da Bahia, 10-19 de Março de 2018 

Nós leigos, irmãs, irmãos e padres missionários combonianos, que participámos no Fórum Social Mundial (FSM) e no Fórum Comboniano (FC), saudamos-vos a partir de Salvador, terra de resistência negra e de culturas afrodescendentes, com um coração cheio de gratidão e de esperança. De 10 a 19 de Março de 2018 vivemos juntos uma experiência forte e única ao participar no FSM, que tinha como tema “Resistir é criar – resistir é transformar” e no VIII FC com o tema “Minsiterialidade e trabalho em rede/colaboração na Família Comboniana e com as outras organizações”. Agradecemos de modo particular aos nossos conselhos gerais que juntos nos escreveram uma mensagem de encorajamento pelo empenho na JPIC e pela nossa participação no FSM como experiência do vivido do nosso carisma nos desafios do mundo de hoje.

A nossa participação foi relevante e numerosa: 53 pessoas provenientes da África, Europa e América. Experimentámos a grande riqueza do nosso carisma na variedade dos nossos empenhos. Pela primeira vez participaram também representantes dos jovens em formação no escolasticado e no CIF com um seu formador. Agradecemos também pelas respostas recebidas de quatro escolásticos ao questionário que o comité central tinha enviado com o objectivo de compreender até que ponto é que os temas da JPIC estão presentes na formação. Reafirmamos o empenho de envolver sempre mais as pessoas em formação e os formadores sobre os temas da JPIC e nas dinâmicas do FSM e do FC.

No FSM apresentámos como Comboni Network quatro workshops: Land grabbing, Extracção minerária, Situação sócio-política da RD. do Congo e do Sudão do Sul, Superação da violência e discriminação de género. Isto permitiu-nos partilhar na metodologia do FSM o nosso empenho como missionários e missionárias por um outro mundo possível. Um stand, preparado por nós, permitiu-nos fazer animação missionária, encontrar e dialogar com muitas pessoas e darmo-nos a conhecer. Entre os numerosos workshops propostos pelo FSM, acompanhámos com interesse Os novos paradigmas, Teologia e libertação, Jovens, Resistência dos povos originários e afrodescendentes, e Migrações. Durante o desenvolvimento do Fórum, participámos também na assembleia mundial das mulheres. O FSM realizou-se em clima de festa, interrompido pela morte de dois activistas dos direitos humanos: Marielle Franco, no Rio de Janeiro, e Sérgio Paulo Almeida do Nascimento, em Barcarena, estado do Pará.

O Fórum Comboniano realizou-se no signo da continuidade com os encontros precedentes. As jornadas foram intercaladas por momentos inculturados de espiritualidade, durante os quais celebrámos a vida, os sofrimentos e as esperanças, em sintonia com as realidades dos Países de proveniência e com aquelas encontradas no Fórum. Interrogámo-nos sobre a necessidade de aprofundar a reflexão acerca dos novos paradigmas da missão, de consolidar esta experiência como família comboniana e de poder dar maior espaço de participação aos leigos e às leigas. Nesta reflexão fomos acompanhados e animados por Marcelo Barros, que partilhou o estado actual da teologia e libertação, e Moema Miranda, que, depois de uma análise da realidade mundial, indicou algumas luzes para o caminho propostas pela Laudato Si’. Perante um neoliberalismo sem limites, o convite lançado foi no sentido de pôr em diálogo os pobres e de consolidar a fé na presença do Espírito de Deus que caminha connosco na história.

Interpelados por aquilo que vivemos, propomos:
  • Publicar um livro que reúna a história e as esperanças destes onze anos de Fórum Comboniano, indicando caminhos para o futuro. 
  • Ampliar a coordenação do Comboni Network para um melhor serviço de sensibilização e formação sobre os temas da JPIC. 
  • Realizar um Fórum Social Comboniano continental para pôr em confronto as diversas realidades nas quais estamos empenhados. 
  • Criar um fundo económico para sustentar as actividades ligadas ao empenho da JPIC. 
  • Consolidar uma plataforma on-line onde recolher e partilhar experiências e material sobre os temas da JPIC. 
Depois desta experiência, sentimos ainda mais consistente a importância de nos reencontrarmos para uma maior colaboração entre nós, para nos confrontarmos como Família Comboniana e como pessoas empenhadas em âmbitos diversos mas unidos no empenho da JPIC para procurar novos caminhos de minsiterialidade e novos paradigmas da missão.

Salvador da Bahia, 19 de Março de 2018
Festa de São José, Operário

20 de março de 2018

«ALARGA O ESPAÇO DA TUA TENDA»




«ALARGA O ESPAÇO DA TUA TENDA» (Is 54, 2) 

Mensagem final da 18ª Assembleia Geral da UCESM 

Snagov (RO), 5-10 de março de 2018 

Durante estes dias tivemos a oportunidade de experimentar a nossa unidade através da diversidade. Reunidos juntos como os religiosos da Europa, ouvimos a chamada de Deus e da Igreja para sairmos para as pessoas necessitadas.

Estamos profundamente comovidos pelo sofrimento de milhões de pessoas deslocadas que migram de todo o mundo e dentro da Europa. Como UCESM (União das Conferências Europeias dos Superiores Maiores), queremos ampliar o espaço da nossa tenda para os acolher.

Inspirados pelo Evangelho de Jesus, movido pelo Espírito Santo e os desafios que ouvimos ao longo do tempo que estivemos juntos, comprometemo-nos a continuar a apoiar a população migrante na Europa. Ao respeitar e defender a dignidade e os direitos humanos de todos os migrantes, esforçar-nos-emos para atender às suas necessidades através do acompanhamento, do serviço e da advocacia.

UCESM, que inclui comunidades interculturais na Igreja na Europa, compromete-se a ficar ao lado dos nossos irmãos e irmãs deslocados em amizade e oração. Nós também apoiamos a todos no seu direito de ter um lar. A nossa esperança é estar abertos a cada um com um coração que escuta.

Todos somos chamados a sair, a encontrar migrantes, a agir como congregação e das nossas comunidades onde estamos. É unindo-nos nesse caminho global de compreensão e ação que seremos um testemunho profético do amor de Deus para todas as pessoas. Amando-nos uns aos outros, incluindo o nosso próximo e o outro, o espaço dos nossos corações será ampliado e nossa «tenda» abrangerá muitos mais.

Snagov, 9 de março de 2018

CARTA ABERTA DE APOIO AO POVO DO BRASIL



«Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus» Mt 5,10).

Nós, leigos, irmãs, irmãos e padres missionários combonianos de 16 países, de 3 continentes diferentes, reunidos em Salvador da Bahia no âmbito do Fórum Comboniano (de 11 a 19 de março) e do Fórum Social Mundial (de 13 a 17 de março) queremos nesta carta aberta manifestar a nossa solidariedade ao povo brasileiro de maneira geral e, em particular, a todas as pessoas de boa vontade que, apesar dos tempos difíceis da atualidade, de golpe e reformas nocivas, de intervenção militar, perseguições, ameaças e assassinatos, mantêm-se firmes no empenho da defesa dos direitos das pessoas e da criação, resistindo contra todas as formas de discriminação de gênero, raça, etnia, religião e ainda de destruição do meio ambiente.

A situação política e social com a qual nos deparamos no Brasil, de modo mais relevante os recentes assassinatos de Marielle Franco, no Rio de Janeiro, e de Sérgio Paulo Almeida do Nascimento, em Barcarena, Pará, causa-nos espanto e atinge-nos como parte da mesma família humana e de toda a criação, na certeza de que tudo está interligado, e impulsiona-nos, inspirados pelo carisma do nosso fundador, São Daniel Comboni, a fortalecer o nosso empenho na defesa de uma vida digna para todas as pessoas, e sobretudo, as mais pobres e abandonadas da sociedade.

Como missionárias e missionários, interpelados pelo testemunho de Jesus Cristo, reafirmamos o nosso compromisso nas várias dimensões da justiça e da paz, unindo-nos a todas e a todos os defensores da dignidade da vida humana e da criação, e auguramos que a força do Ressuscitado nos anime e fortaleça sempre mais na construção de um mundo mais justo e fraterno, nos guie pelos caminhos do Bem-Viver, e nos inspire nas denúncias das violações que ferem estes ideais.

Continuamos unidos e unidas,
Os 53 participantes do Fórum Comboniano 2018.
Salvador da Bahia, 19 de março de 2018
Dia de São José, Operário


16 de março de 2018

S. MIGUEL (AÇORES): ROMARIAS QUARESMAIS






Este ano, mais uma vez, participei nas Romarias Quaresmais da minha terra. Devo confessar que para mim, foi uma das mais penosas; o ideal é ter entre 30 e 50 anos para poder caminhar longas horas com chuva ou com calor. Este ano fomos agraciados com uma semana de tempestade, vento forte, chuva, granizo e… muito frio.

As Romarias (não confundir com as festas que em Portugal se realizam e que usam o mesmo nome), surgiram em meados do século XVI (1522), durante a última grande erupção vulcânica na Lagoa do Fogo, que atravessou a ilha, dividindo-a a meio, destruindo a então capital, Vila Franca do Campo. As pessoas apavoradas percorreram as Igrejas e lugares de culto onde se encontrasse uma imagem da Virgem Maria, procurando a sua intercessão.

O movimento eminentemente laical e só para homens, foi criando raízes e hoje está estruturado do seguinte modo: caminha-se uma semana completa; à frente vai a cruz pendurada ao pescoço de um adolescente. Cruz essa que é beijada à noite e no início do dia seguinte. Os romeiros formam duas filas, ocupando meia faixa de rodagem da estrada. Na parte final do “rancho” caminha o mestre (pessoa escolhida entre os romeiros e confirmada pelo pároco e com plenos poderes durante a caminhada), encerra o cortejo o “arrematador das almas”, nome simpático que se dá àquele que vem no fim do cortejo e cuja função é informar as pessoas sobre o número dos irmãos, proveniência e tomar nota de pedidos de oração (Pai-Nossos, Ave-marias, Glórias…). Ao número dos irmãos acrescenta-se mais três, Jesus, Maria e José. A quem pede uma Ave-maria, cada romeiro rezará uma e a pessoa rezará outra por cada romeiro, está é uma maneira simples de oração de intercessão.

A caminhada inicia-se pelas quatro da manhã e dura todo o dia. Faz-se uma média de 35/40 kms por dia, porque muitas vezes andamos aos ziguezagues entre igrejas capelas e oratórios.

Terminado o dia, o sino da paróquia onde se dorme dá um sinal para que a população venha receber e dar dormida aos romeiros.

Chegados a casa de quem oferece hospedagem, é feita uma oração, toma-se banho, janta-se e vai-se dormir… porque a canseira é grande. Muitas vezes as pessoas oferecem os seus quartos e vão dormir em sítios menos cómodos. Para compensar o romeiro deixa o terço pessoal já rezado para que a família o ofereça pelas suas intenções.

Diferenças entre as Romarias Quaresmais e caminhar a Fátima a pé:

Na romaria todos se tratam por irmãos. Todos os grupos (paroquiais) caminham no sentido dos porteiros do relógio, ficando o mar à esquerda. Raramente se ultrapassam e quando o têm de fazer abre-se alas e depois da saudação deixam-se passar pelo centro. Caminha-se em duas filas e ocupa-se sempre os mesmos lugares na fila. O mestre tem muito poder e é obedecido por todos. A Romaria Quaresmal não é um passeio, mas um tempo de sacrifício, penitência e oração. Ninguém fala enquanto se reza ou caminha, até que seja dada ordem em contrário. Ninguém fica para trás, só excecionalmente e com conhecimento do mestre. Ninguém abandona o grupo, seja pelo motivo que for e caso o tenha de fazer, só o faz com autorização do mestre, acompanha-o outro irmão. O mestre fala pouco; tem uma pequena campainha no bolso e quando toca todos páram, mas a reza continua até que ele diga “seja louvado Nosso Senhor Jesus Cristo”.

Indumentária: Roupa larga, xaile dobrado ao meio, contendo no meio um plástico para abrigo em caso de chuva, um saco de pano que serve de mochila para roupa, comida, produtos de higiene… (convém que pese pouco), lenço para a cabeça que abriga do frio do sol ou da chuva e um bordão que ajuda nas subidas e descidas.

Comida: A paróquia organiza-se e leva-nos uma refeição por dia. A outra, faz-se na casa onde se pernoita. O café é servido também por grupos que se organizam. Regra geral, o álcool não é permitido.

Orações: chegados a uma aldeia, rezamos em voz alta a Ave-maria e o Pai-Nosso; reza-se pelas intenções e necessidades das pessoas que ali vivem. Chegados à Igreja cantam-se as saudações à Virgem. Dentro da Igreja implora-se a proteção de Deus para os romeiros e para a comunidade cristã. O bispo diocesano dá uma lista de intenções para serem rezadas.

Pessoalmente, gosto de caminhar de madrugada em silêncio, tendo como música de fundo a oração dos irmãos. Vou fazendo revisão de vida e rezando por todos aqueles que me pedem. Pena é que a experiência de oração e fraternidade que experimentamos, fique tantas vezes só por aquela semana.

Pe. José Tavares
Missionário Comboniano