17 de fevereiro de 2017

TRÊS OLHARES PARA UM JUBILEU


Na Carta por ocasião do 150.º aniversário do Instituto Comboniano o Conselho Geral (CG) propõe-nos três olhares:
  1. Um olhar sobre o passado: recordando os primeiros passos;
  2. Um olhar realista sobre o presente: chamados a testemunhar o Reino de Deus;
  3. Um olhar de esperança para o futuro.
Três formas do verbo olhar que nos dão uma panorâmica geral do Instituto que nasceu qual um grão de mostarda, cresceu e hoje abriga nos seus ramos (Mt 13, 31-32) pessoas mais que pássaros.


1. Recordando os primeiros passos: um olhar sobre o passado

1. Comboni foi pai à força: o Plano para a Regeneração da África previa o concerto das forças eclesiais em favor da África Central. Só os Camilianos e as Irmãs francesas de São José da Aparição e alguns leigos aderiram a essa sinergia.

O Cardeal Barnabó foi taxativo: «Meu caro Comboni, de duas uma: ou me garantes por escrito que vais viver por mais 35 anos, ou me estabeleces solidamente esse colégio de Verona, de modo que dê bons missionários para a África. Tanto num como noutro caso, tens possibilidade de desenvolver uma grande actividade missionária na África Central. Porém, se não me não organizas e pões em andamento o colégio de Verona ou se te acontece algum acidente que te leve para o outro mundo, talvez a tua bela obra acabe por se desfazer em fumo!» (E 2568).

2. Nigrícia: o organismo fundado a 1 de junho de 1867 em Verona chamava-se Instituto para as Missões da Nigrícia. A 1 de janeiro de 1872 funda o Instituto das Pias Madres da Nigrícia.

Comboni usa Nigrícia em vez de África: mais que uma geografia é uma antropologia – «os povos mais abandonados e infelizes do universo» como Comboni descreve os habitantes da África interior (E 2591).

Ligar o Instituto exclusivamente à África – como queriam alguns missionários da África oriental no Capítulo de 2003 com a junção do ad nigriziam aos outros ad – é redutor da visão de Comboni. Os mais abandonados e infelizes são os destinatários do Instituto (a RV 5 fala da inseparabilidade do Instituto com a África. Eu prefiro falar da «vínculo inseparável» com os «mais necessitados e abandonados»).

Um cuidado a ter ao falou-se das situações de nigrícia como o lugar carismático dos combonianos: alguns confrades e consorores africanas levaram a mal tal linguagem: com razão.

3. Na origem do Instituto há o encontro: a vocação missionária de Comboni começa no encontro com os Mártires do Japão (via Santo Afonso Mª de Ligório) aos 15 anos; dois anos mais tarde encontra o Sudão do Sul através do P. Ângelo Vinco, missionário de Don Mazza (o Don Congo) entre os Baris de Gondokoro, à frente da Juba de hoje: «Foi em Janeiro de 1849, quando, sendo estudante de Filosofia, jurei aos pés do meu venerado superior, P. Nicolau Mazza, consagrar toda a minha vida ao apostolado da África Central – juramento a que, graças a Deus, nunca faltei nas mais variadas circunstâncias – e desde aquele momento só pensei em preparar-me para tão santa empresa. Assim, em 1857, quando estava no auge o primeiro período da missão, fui enviado com outros companheiros sacerdotes a Cartum e às estações do Nilo Branco, onde entre as mais duras provas me encontrei mais de uma vez à beira do túmulo» (E 4083).

Comboni recorda a origem da sua vocação «nigriciana» 27 anos depois no Relatório Geral sobre o Vicariato Apostólico da África Central ao cardeal Alexandre Franchi, escrito em Roma a 15 de Abril de 1876.

A 1ª experiência missionária entre os Kich ou Ciec (um subgrupo dinca) de Santa Cruz (em Yirol Este de hoje) durou apenas 11 meses (fora as viagens de ida e volta). Um fracasso que Comboni transforma numa nova visão para a evangelização da África – o Plano.

Recordamos o início da homilia de 11 de maio de 1873 em Cartum: «Estou muito contente de finalmente me encontrar de novo entre vós, depois de tantas vicissitudes penosas e de tantos ansiosos suspiros. O primeiro amor da minha juventude foi para a infeliz Nigrícia e, deixando tudo o que me era mais querido no mundo, vim, faz agora dezasseis anos, a estas terras para oferecer o meu trabalho como alívio para as suas seculares desgraças. Depois, a obediência fez-me voltar para a Europa, dada a minha enfraquecida saúde, que os miasmas do Nilo Branco em Santa Cruz e em Gondokoro tinham incapacitado para a acção apostólica. Parti para obedecer; porém, entre vós deixei o meu coração e, tendo-me recomposto como Deus quis, os meus pensamentos e os meus actos foram sempre para convosco».

Este é o primeiro olhar: «Esta sua experiência recorda-nos a importância de manter-nos fiéis a um ideal, lembrando que como os marinheiros se deixavam guiar pelas estrelas se queriam chegar ao porto, nós temos de deixar-nos guiar pelos ensinamentos do Evangelho se queremos ser pessoas coerentes e fiéis. A vocação missionária e a pertença a uma família missionária são um dom, não são mérito nosso. Somos missionários porque Deus foi bom e quis servir-se de nós para mostrar o seu rosto paterno a tantos irmãos e irmãs que ainda não o conhecem», escreve o CG.


2. Olhamos com realismo o presente: chamados a testemunhar o Reino de Deus
Quando Comboni morreu o Instituto estava muito reduzido. A mahdia deu-lhe mais uma machadada. Século e meio depois continuamos a ser um instituto pequeno e a diminuir. Vamos desanimar e deitar a toalha no chão? Acho que não. A história do Instituto empurra-nos para a frente, para a missão e não para a sobrevivência do homo combonianus!

A Síntese Temática para Discernimento preparada pela Comissão Pré-capitular dizia no n.º 92: «Esta diminuição faz-nos tomar consciência de que a reorganização do Instituto é necessária sobretudo em vista de um serviço de qualidade à missão. O desafio maior é viver esta situação não como sinal de declínio, mas como uma experiência de debilidade evangélica (kenosis) e uma chamada do Espírito para uma requalificação essencial e criativa, sob o signo da alegria».

Esta é uma visão de fé que «deve estimular-nos a ser testemunhas fiéis da bondade e da misericórdia de Deus entre os últimos, aqueles que a sociedade esqueceu» fazendo memória dos missionários, «“parábolas existenciais”, pontos de referência nas diversas actividades que desempenhamos» (DC’ 15, 14).

O que nos leva ao «versículo perdido» que fecha a evocação de Elias no livro de Ben Sira: «Felizes os que te viram e os que morreram no amor; pois, nós também viveremos certamente» (48, 11).

É fundamental fazer memória dessas «parábolas existenciais»: os processos de beatificação do P. Ezequiel Ramin e do Ir. Josué dei Cás juntamente com os dos padres Bernardo Sartori e Giuseppe Ambrosoli, do bispo Antonio Maria Roveggio e da irmã Giuseppina Scàndola (que deu a vida para salvar o P. Giuseppe Beduschi) recordam-nos que vivemos por eles.

O CG desafia-nos a «a ser testemunhas do Reino de Deus onde quer que somos mandados. Por isso é necessário ser sempre fiéis à Palavra e seguir um programa sério de uma renovação contínua no nosso caminho de discipulado» baseado na conversão – metanóia (ir além da mente, da razão até ao coração de Deus). Um convite à conversão que está sempre connosco! Não somos obra-prima acabada, somos peças em construção. Sempre!

As cruzes – o viveiro das obras de Deus – são os sinais de Deus ao longo do caminho: «Eu sou feliz na cruz, que levada de boa vontade por amor de Deus gera o triunfo e a vida eterna» (E 7246). Isto não é uma visão pietista das dificuldades, mas uma mística missionária muito forte.

As dificuldades – e a falta de trabalhadores – levaram Comboni a descobrir a força da intercongregacionalidade, a necessidade de trabalhar em rede como resposta à mentalidade fradesca… Este é outro caminho indicado pelo Capítulo (DC ’15, 46.5).


3. Olhamos para o futuro com esperança

«Coragem para o presente e sobretudo para o futuro!». O desafio de Comboni no leito de morte é-o hoje no leito da vida eterna!

Mudança precisa-se – passar do fazer missão ao ser missão: «Devemos “tornar-nos missão” anunciando a alegria do Evangelho em solidariedade com os povos, fazendo-nos promotores de reconciliação e de diálogo, redescobrindo a espiritualidade das relações a nível pessoal, institucional, social e ambiental (DC ’15, n.º 20)».

Este é um roteiro missionário exigente: tornar-se missão é alegria, solidariedade, promoção de diálogo e reconciliação através da mística do encontro com Deus, com as pessoas, com a natureza e connosco próprios…

Vivemos em tempos de grande recessão e depressão vocacional. Temos duas alternativas: recitar o Nunc demittis e reclinar-nos placidamente no leito da morte ou continuar a viver a nossa vocação de discípulos missionários combonianos chamados a viver a alegria do Evangelho no Portugal de hoje segunda as forças e as capacidades de cada um. A idade média dos missionários combonianos em Portugal é de 67,74 anos...

Comboni descreveu o Instituto como opus dei (obra de Deus)  muito antes de o P. Josemaría Escrivá de Balaguer se apossar do termo: «Creio que é obra de Deus e que nela está verdadeiramente a mão de Deus» (E 1567)! Mais tarde acrescenta: «A nossa santa obra é obra de Deus, embora se realize entre aflições, angústias e espinhos. Os caminhos da divina Providência são surpreendentes, mas salutares, sobretudo quando se trata da salvação das almas e do chamamento à fé» (E 5308). Deixemos que Deus faça a sua parte. Nós temos que fazer a nossa: «Ai de mim se eu não evangelizar» (1Cor 9, 16)!

O desafio definitivo: viver o ano jubilar «como uma oportunidade para aprofundar e estender as nossas raízes, revigorar o nosso tronco e continuar a ser uma árvore que dá bons frutos, frutos de justiça, de paz e de caridade, para contribuir para o crescimento do Reino de Deus» (Carta do CG).

7 de fevereiro de 2017

CELEBRAR GRATIDÃO


Celebrar o 150.º aniversário da fundação do Instituto por S. Daniel Comboni é muito pessoal. É a celebração de uma graça muito diversificada que me acompanhou desde os meus primeiros anos, e que eu fui aprendendo a apreciar e entender profundamente ao longo dos acontecimentos e diferentes fases da minha caminhada missionária. Para mim, esta celebração é gratidão, em especial a minha gratidão para com S. Daniel Comboni, pelas maneiras como o Instituto conformou profundamente e enriqueceu a minha vida. Gostaria de partilhar somente três entre muitas razões para esta minha gratidão.


Experiência de Deus e fé

No seu Plano para a Regeneração da África, Daniel Comboni deixa bem claro que vive a sua missão, incluindo todas as iniciativas que a missão o leva a assumir, como um compartilhar da única missão de Deus.

Refletindo e rezando a sua primeira e profundamente difícil experiência de missão na África Central, descobre que lá, circundado pela perda e desastre aparente, ele acabou de facto conhecendo o Deus vivo, um Deus-em-comunidade e um Deus em missão, um Deus que sai até aos confins da terra, levando-nos com Ele, se o deixarmos. É por isto mesmo que, quando Comboni funda o seu Instituto, imagina-o como um «pequeno Cenáculo», Pentecostes atual, um lugar onde os humanos somos introduzidos no mistério missionário da Trindade.

É esta a razão porque a verdadeira vida deste Instituto é uma vida no Espírito, e pela qual um modo adequado de celebrar os 150 anos significa que o melhor ainda está para vir. É esta a razão pela qual pode muito bem acontecer que a fragilidade e limites atuais do Instituto, em vez de constituírem obstáculo à missão, podem ser a forma de descobrir onde e como o Espírito nos está conduzindo em direção ao futuro. Por outras palavras, esta celebração é tanto do futuro como é do passado.


Esta obra é católica

Eu nasci na Índia, de mãe Irlandesa e pai Escocês, e assim penso que não é estranho eu ser especialmente grato pelo facto de S. Daniel Comboni, logo de início, querer que o seu Instituto fosse internacional, ou «Católico», como ele gostava de dizer. O Deus que ele descobriu e experimentou era um Deus para o mundo inteiro, envolvendo a toda a Igreja numa missão dirigida a todos os continentes, nações, línguas e culturas. Somente sendo aberto a membros de todas as nações é que este Instituto podia – Comboni sentiu e entendeu com clareza – ser testemunha efetiva e credível da missão de Deus no mundo.

Este caminho nunca foi, nem será fácil para nós Missionários Combonianos, e já tivemos as nossas lutas e falhas ao longo da história. Há, no entanto, algo muito belo pois, algumas vezes apesar de nós mesmos, sempre acabámos voltando atrás, de regresso ao desejo e intuição do nosso fundador. No fundo dos nossos corações, sabemos que somos chamados a ser uma pequena semente no mundo daquela família pela qual o Pai anseia e deseja.

Como é evidente, eu estou profundamente agradecido a muitos missionários combonianos. Foi-me dada a graça e a oportunidade de pertencer a este Instituto, as quais eu devo, sem dúvida alguma, à intuição e visão do Fundador.


Uma missão para todo o discípulo
Ao celebrarmos 150 anos desde que Daniel Comboni teve a coragem de fundar o seu Instituto, somente podemos admirar-nos ante a vastidão, vitalidade e acuidade da sua visão. De novo, logo desde o início, ele foi claro, tanto no pensar com no agir, em como Deus tinha partilhado a sua missão com a igreja inteira, com todos e cada um dos batizados e apesar das muitas dificuldades que encontrou, manteve-se sempre firme no seu propósito e visão.

Cada bispo, sublinhou, foi chamado e ordenado para aceitar a responsabilidade pela evangelização do mundo inteiro e não somente pela sua diocese. Foi, pois, ao Concílio Vaticano I, para convencer disto os bispos. O seu Instituto não devia ser constituído somente por padres, mas também por leigos totalmente dedicados à missão. Os Irmãos que tiveram uma contribuição tão rica durante estes 150 anos, sem os quais este Instituto não seria comboniano.

Dentro da mesma dinâmica, Daniel Comboni envolveu também mulheres na missão desde o início e fundou o Instituto das suas Irmãs. Os dois institutos são dois pulmões do mesmo corpo e o conjunto somente pode respirar e viver bem quando esta verdade é vivida na prática diária da missão de comboniana. O Fundador lançou mão de leigos, mulheres e homens, de outros Institutos missionários e grupos, comunidades de Irmãs contemplativas; antes de ser teoria, esta foi para Comboni a realidade da missão, uma realidade que continua a desafiar e provocar.

Nesta linha de pensamento, um aspeto particularmente belo e evocativo da fundação do nosso Instituto por S. Daniel Comboni são os relacionamentos e as amizades. Ele conviveu com tantas figuras de grandes missionários do seu tempo: S. João Bosco, S. Arnold Jansen, fundador dos Missionários do Verbo Divino, com o Pe. Jules Chevalier, fundador dos Missionários do Sagrado Coração, etc. Também nisto a celebração dos 150 anos nos desafia e nos orienta para o futuro.


Obrigado e Sim

Tal com o Papa Francisco diz, ao início de A alegria do Evangelho, a alegria do evangelizador sempre brilha contra o pano de fundo da memória agradecida (EG 13). É esta alegria e este tipo de memória que me enche e me entusiasma mais ainda hoje do que no dia em que encontrei Daniel Comboni, há muitos anos. De forma simples, estou contente por este santo missionário ter feito o que fez.

P. David Glenday, missionário comboniano

6 de fevereiro de 2017

MANUAL DE JUSTIÇA E PAZ


O Departamento de Justiça e Paz dos Missionários Combonianos no Sudão do Sul publicou um Manual de Justiça e Paz em cinco línguas.

A obra, preparada pelo comboniano brasileiro P. Raimundo Nonato Rocha dos Santos, foi publicada em bari, dinca, nuer, árabe e inglês.

O subtítulo descreve o manual como uma ferramenta para os comités paroquiais de justiça e paz.

O P. Raimundo, coordenador provincial do sector, explica que o manual «é uma instrumento para formação, reflexão e ação.»

Descreve a obra como «uma tentativa para fornecer algumas linhas de ação e de treino para indivíduos, comunidades e comités que estão ou querem envolver-se no ministério de Justiça, Paz e Integridade da Criação (JPIC)». 

O manual pode ser útil para seminaristas, pessoas em casas de formação e outras instituições de ensino e é gratuito.

4 de fevereiro de 2017

SUDÃO DO SUL: ÚLTIMAS NOVIDADES

Deslocados pela guerra em Rimenze (Yambio)

Esse ano começou bem, em relativa paz. Porém, infelizmente nos últimos dez dias, tem havido conflitos armados em algumas regiões. Na semana passada houve confrontos entre as forças do exército e a oposição armada em Malakal, uma das regiões mais afetadas pela guerra. Há informações de que mais de 25 civis foram mortos e o número pode ser bem maior. Não se sabe quantos militares perderam a vida. Muita gente teve que fugir e o acesso para as ajudas humanitárias ficou mais difícil ainda.

Houve conflitos também nos arredores de Wau e tem havido saques nas residências dessa cidade. Durante o dia muita gente vai para suas casas, mas passa a noite acampada nas bases da ONU ou no pátio da catedral. São milhares nestas condições.

Continuam conflitos também na região de Equatória (Yei, Yambio e Kajo-Keji), próximo à fronteira com Uganda e o Congo. A população dessa área continua a deixar o país e se refugiar nos países vizinhos. Muita gente caminha por dias e noites pelo mato por medo do exército e dos rebeldes que bloqueiam as estradas. Tem havido muita morte de civis, mulheres violentadas, saques, roubo de gado e outros bens e casas e povoados queimados. Os mais pessimistas chegam a falar em potencial genocídio.

Em Kajo-Keji temos uma missão comboniana e era um dos lugares mais pacíficos do país com muitas escolas de referência nacional funcionando. Há informações de que os rebeldes estão nessa área. Testemunhas afirmam que na manhã de domingo, dia 21 de janeiro, um grupo de soldados do governo chegou a uma capela onde os cristãos realizavam o culto dominical. Teriam dito que procuravam por rebeldes. O povo assustado saiu da capela e começou a correr. Os militares atiraram e mataram seis pessoas, inclusive o catequista e liderança da comunidade. Eram civis inocentes que estavam rezando.

Isso provocou mais medo e pânico. A população começou a deixar a região num êxodo em massa, cerca de 90% da população de Kajo-Keji se tornou refugiada em Uganda. As escolas fecharam. A agência para refugiados da ONU informa que mais de 52.600 pessoas se refugiaram em Uganda, só em janeiro, chegando a quase 700.000 refugiados, a maioria mulheres e crianças.

A paróquia do Sagrado Coração de Jesus, coordenada pelos combonianos em Kajo-Keji, vai celebrar a missa deste domingo e fechar a igreja porque o povo já deixou a região. Na última missa participaram apenas 21 pessoas, nenhuma mulher ou criança. Os missionários passarão a acompanhar a população refugiada no outro lado da fronteira, na Uganda, oferecendo assistência pastoral.

Juba, a capital, segue em relativa paz. O ambiente está calmo. A cidade conta com um grande contingente de soldados. Os rebeldes não ousariam atacar Juba. No entanto, o povo sofre com a carestia e incerteza sobre o futuro. O governo segue falando em ‘diálogo nacional’ para a paz, mas ainda não se vê resultados positivos. Espera-se que as igrejas possam contribuir no processo de paz e reconciliação, o que, aliás, já estão fazendo.

Há expectativas de uma visita do Papa Francisco ao Sudão do Sul nesse ano e a esperança de que sua presença possa contribuir ainda mais com o processo de paz e reconciliação.

P. Raimundo Rocha, Juba, Sudão do Sul

3 de fevereiro de 2017

MÁSCARAS

© Fernando Sousa

As máscaras são um assunto sério!

Relacionamos máscaras com adereços de Carnaval (para corsos e bailes da quadra) ou disfarce de bandidos, ladrões e forças especiais de segurança. Na África, as máscaras representam uma realidade cultural, social e religiosa tão vasta e variada como o continente. Museu de arte africana que se preze tem de incluir, obrigatoriamente, uma mostra de máscaras.

Os entendidos derivam a palavra «máscara» de dois étimos: masca (palavra latina que significa fantasma) ou maskharah (termo árabe que quer dizer palhaço ou homem disfarçado). Mas o seu significado simbólico na África é muito mais vasto e está relacionado com rituais e cerimónias.

Os Africanos fazem e usam máscaras desde o Paleolítico, há mais de dez mil anos, para assinalarem nascimentos, ritos de iniciação, casamentos e funerais; sementeiras e colheitas; para preparar a guerra e a paz; para pedirem chuva e sorte para a caça; para invocarem a ajuda das divindades, dos antepassados, dos animais protectores da comunidade, os tótemes; para entreter; para ensinar.

Milhares de etnias de norte a sul idealizam e produzem uma variedade imensa de máscaras, com simbologias tão diversas como as circunstâncias e as latitudes em que são usadas.

Fazem-nas de materiais diversos: madeira (o material mais à mão e adequado porque as florestas são a habitação dos espíritos), couro, barro, têxteis, metais (sobretudo cobre e bronze), marfim. Podem ser pintadas, decoradas com dentes de animais, pêlos, erva seca, ossos, cornos, penas, conchas e outros materiais.

Vêm em muitas formas e feitios: algumas cobrem só o rosto do portador, outras a cabeça como um chapéu ou como um capacete; há máscaras que tapam a cabeça e o tronco ou de corpo inteiro em prolongamentos de tecido ou erva seca.

Podem ser realistas ou abstractas e estilizadas, mas o seu significado vai muito além da mera concepção estética desde o grotesco assustador à delicadeza estilizada da beleza feminina. As máscaras africanas influenciaram artistas plásticos como Picasso.

Os artistas-artesãos são na maioria dos casos uma elite prezada porque «ligam» ao sobrenatural. Aprendem a arte com os mais velhos e – como os pintores dos ícones cristãos – têm de passar por rituais de purificação (podem incluir jejum e abstinência) antes de deitar mãos à obra.

Os portadores das máscaras são seleccionados, porque intermedeiam entre a comunidade e a deidade. Durante o transe da dança dizem-se possuídos pelo espírito que a máscara representa. Por vezes, necessitam de tradutores que interpretem os movimentos e os sons que produzem nas danças mascaradas sagradas.

A exibição das máscaras é um evento multimédia: as danças rituais dos mascarados requerem banda sonora com instrumentos tradicionais e cantares, coros. Podem ser políticas (quando o mascarado é um chefe) e pedagógicas (para passar aos mais novos valores da comunidade como a humildade, paciência, sabedoria, conceitos de estética, representar mitos, histórias, etc.).

Uma nota final: na África do Sul, escravos de algumas etnias usavam máscaras com expressões cómicas para – durante o Carnaval – poderem dizer mal dos patrões na própria cara sem serem identificados e punidos. Pois claro: é Carnaval, ninguém leva a mal!

13 de janeiro de 2017

SILÊNCIO


O realizador norte-americano Martin Scorsese transformou Silêncio, a ficção mais aclamada do católico japonês Shusaku Endo, no «filme da sua vida».

Silêncio conta a odisseia física e espiritual de dois jesuítas portugueses: Sebastião Rodrigues e Francisco Garupe.

À volta de 1640 embarcaram para o Japão para assistir os católicos barbaramente perseguidos pelo poder desde 1614, altura em que os missionários foram expulsos do país.

Queriam encontrar o seu mentor, o P. Cristóvão Ferreira. Relatos de comerciantes holandeses contavam que o jesuíta tinha renunciado a fé em vez de receber a coroa gloriosa do martírio.

Os padres Rodrigues e Garupe vão a Goa, passam por Macau e entram clandestinamente no Japão com a ajuda de um guia – Kichijiro – que faz a união entre os diversos blocos do filme.

Scorsese fez de Silêncio um filme tenso, intenso e extenso que prende, questiona, choca, agride, espanta durante duas horas e 41 minutos.

As torturas a que os cristãos foram submetidos para calcar o «fumie» – uma placa metálica de Cristo – e renegar a fé ou aceitar uma morte cruel gritam bem alto que a maldade humana tem requintes brutais infinitos.

A minha mente derivava, ao ver as execuções nas praias japonesas, para as costas da Líbia onde membros do Daesh executaram cristãos com a mesma crueldade.

Endo dizia-se um católico japonês num fato ocidental desajustado.

A sua produção literária é um esforço para apresentar um Cristo aceitável aos nipónicos: impotente, maternal, compassivo e companheiro dos sofredores, com um poder incrível de auto-sacrifício – como explica o P. Adelino Ascenso na sua magistral dissertação doutoral.

O romance, publicado em 1966, questiona o silêncio de Deus perante a tão desesperada situação dos cristãos perseguidos, os mártires do Japão.

O P. Rodrigues acaba por calcar o «fumie» e renegar a fé para salvar alguns cristãos torturados à sua frente.

O Crucificado diz da placa de bronze ao jesuíta português: «Calca, calca. É para ser calcado por ti que estou aqui».

O sistema japonês, sofisticado e requintado, acabou por ser mais forte que o missionário e quebrou-o como tinha quebrado ao P. Ferreira.

O P. Rodrigues casou e passou o resto da vida como budista.

Periodicamente, com a mulher, tinha que pisar a imagem de Cristo e assinar uma confissão de descrença.

Mas o missionário português continua a acreditar no seu íntimo e absolve pela enésima vez Kichijiro – o judas da narrativa que trai a Deus, à família, ao P. Rodrigues.

Continua a pedir e a receber a absolvição para depois negar a Deus até ser apanhado com uma medalha escondida num amuleto.

Kichijiro foi condenado à morte.

Rodrigues morre no fim do filme e vai a cremar como um budista. Com um detalhe: as suas mãos aconchegam o crucifixo artesanal que um cristão lhe ofereceu enquanto as chamas ameaçam o cadáver no interior de uma urna cilíndrica.

Os vizinhos comentam que a viúva não derramou uma única lágrima pelo defunto.

Foi ela que lhe colocou o velho crucifixo na mão?

10 de janeiro de 2017

NATAL, BOMBA OU HUMILDE SEMENTE?


Queridos amigos,

Encontro-me há quatro meses na minha nova comunidade comboniana de Castel d’Azzano (Verona-Itália). Estou bem e contente.

Poderia dizer que este Natal é para mim uma outra ocasião para renascer, dada a nova realidade de condições de vida, de residência, de comunidade, de colegas... Somos cinquenta confrades idosos ou doentes. Quase todos de venerável idade. O P. Efrém é o nosso decano, com quase 97 anos. Eu recuperei uma minha antiga prerrogativa de ser o mais jovem membro da comunidade, a ser adicionada àquela de ser o único doente de E.L.A. no instituto!

A nossa comunidade é uma verdadeira “sala de parto.” Em 2016 deu à luz 10 novos “santos” para o céu. Um bonito um recorde! A este ritmo em cinco anos chegaremos todos ao Paraíso!...

A nossa comunidade é também uma grande “Arca de Noé” missionária, devido à diversidade humana de seus membros; à variada amostra de surdos, cegos, mudos, aleijados, mancos... e de toda a espécie de doenças que existe debaixo do sol; mas especialmente pela diversificada e extraordinária riqueza de experiências de missão.

Vim aqui encontrar velhos amigos, conhecidos durante a minha peregrinação missionária; entre eles alguns colegas de missão, como o P. Luis, famoso pelas suas façanhas de caçador, e o P. Lino, que eu apelidei de Schumacher: guiava a toda a velocidade para “sobrevoar os buracos da estrada”, dizia ele! Nenhum dos dois, no entanto, se recorda que trabalhámos juntos no Gana. A memória, a uma certa idade, prega-nos algumas partidas! Infelizmente, o P. Luis perdeu-a há 23 anos durante uma operação de cirurgia. Desde então, passa a vida vagueando pelos corredores dizendo: “perdi a memória”, mas não pára de buscá-la, dia e noite, remexendo nas gavetas dos nossos quartos... à caça de doces!

Mas vamos ao assunto desta carta: os votos de Natal. Não é fácil falar do Natal neste nosso contexto atual duma sociedade de idosos e de gente cansada, sem crianças, nem mesmo… o menino Jesus, que desapareceu do nosso presépio!

Não obstante o peso dos anos e das canseiras, partimos também nós para Belém. Se o recenseamento é feito “cada qual na sua cidade”, queremos que a nossa seja Belém, a terra de Maria e de José, dos pobres e dos humildes. Não iriamos escolher a Roma pagã e imperial do poder e da riqueza, ou a Atenas dos filósofos e dos inteligentes, nem mesmo a velha Jerusalém do culto formal e farisaico! Queremos que o nosso nome seja registrado em Belém, com o de José e de Maria! Desde Belém, pois, envio o nosso abraço natalício.

Que desejar-vos como mensagem de Natal? Para permanecer em tema de atualidade, espero que o Menino, colocado por Maria e José na manjedoura do vosso coração, seja como… uma BOMBA que exploda em mil estilhaços de amor e de carinho, para atingir toda a vossa existência e a de quantos encontrardes pelos caminhos da vossa vida! Sim, o Menino traz consigo a potência duma ‘bomba nuclear’, capaz de destruir todas as outras bombas criadas pelo egoísmo humano e de cobrir tudo e todos com a sua irradiação de luz e de calor, para que o nosso mundo possa conhecer uma nova era de paz e de fraternidade!

Não me faço, porém, muitas ilusões. Sei que a nossa vida diária, com tantos problemas e preocupações, não pode ser sempre uma explosão de alegria e de otimismo contagiantes. Então gostaria de formular um desejo alternativo: que o Menino, na sua pequenez, seja como uma SEMENTE de ternura lançada em nossos corações. Bem cuidada, com tempo e paciência, vai conseguir o milagre, talvez menos vistoso mas não menos surpreendente, de multiplicar-se com uma fecundidade maravilhosa. Sim, o nosso coração é um campo de sementes; multiplica o que nele é semeado, tanto o trigo como as ervas daninhas! Cada um recolherá do que semeou. Na manjedoura de Belém (em hebraico, “casa do pão”), encontramos o bom trigo de Deus. Recolhamo-lo e espalhemo-lo ao nosso redor, com o sorriso amigo e um gesto concreto de generosidade! E será sempre Natal!

E para o novo ano 2017? Estejam todos os teus desejos diante do Senhor! (Salmo 37, 10). “Se o teu desejo está diante d’Ele, o Pai, que vê em secreto, te escutará. O teu desejo é a tua oração. Se o teu desejo é contínuo, contínua é também a tua oração. Se não quiseres parar de orar, não deixes de desejar “ (Santo Agostinho). Eis, pois, os meus votos para o novo ano: um coração cheio de desejos, desejos realmente grandes!

Com amizade,
P. Manuel João Pereira Correia
Missionários Combonianos - Centro Alfredo Fiorini 
Via Oppio, 29
37060 CASTEL D’AZZANO VR (Itália)
Tel. (0039) 045 8521511 - 3911773617