2 de setembro de 2020

VIVO

 


Hiberno com o abandono do urso-polar;
Acordo com a vitalidade do galo madrugador;
Viajo com a tenacidade da borboleta monarca;
Carrego-me com a leveza da libelinha;
Deslizo com a graciosidade do golfinho;
Pairo com o encanto do beija-flor;
Prescruto com a atenção da águia;
Procuro com a persistência do guarda-rios,
Envolvo-me com a tenacidade do picapau;
Recomeço com a determinação do tecedeiro;
Amo com a ternura da rola;
Vivo com a força de Deus!

31 de agosto de 2020

ROUPA USADA


Africa dá segunda vida a roupas descartadas no Norte.

Andava a explorar os arredores do Forte de Jesus, em Mombaça, no Quénia, quando me chamou a atenção um adolescente com uma camisola do Futebol Clube do Porto com as listas finas dos tempos do patrocínio da PT. Noutras latitudes africanas também encontrei alguém com o equipamento alternativo laranja muito desbotado do mesmo clube e uma camisola do Benfica bastante maltratada.

Os equipamentos dos clubes rivais portugueses chegaram aos mercados africanos através do negócio de roupas usadas, que, pelos dados da ONU, movimenta anualmente mais de três mil milhões de euros. A Oxfam calcula que África gasta cerca de 40 milhões de euros por ano na importação de roupa em segunda mão, geralmente artigos de Primavera e Verão. Mas também gorros de lã, sobretudos e outros artigos de Outono e Inverno.

A ditadura da moda obriga muita gente dos países ricos a renovar o guarda-roupa todos os anos e a descartar o que já não se usa. Um americano deita fora em média 37 quilos de roupas por ano. Na última década, os europeus gastaram quatro vezes mais em vestuário. Em Portugal, o desperdício de roupa atinge as 195 mil toneladas anuais.

Quase 80 por cento do vestuário recolhido tem uma segunda vida, sobretudo em África. Vem em grandes fardos, de 45 a 450 quilos, depois de as peças serem seleccionadas e separadas para venda ao quilo. É comum encontrar gente à procura de uma pechincha em grandes montes de vestuário usado em cima de plásticos, no chão, em muitos mercados africanos.

Os mercados de roupa usada são populares, porque o material é barato, de melhor qualidade e com mais variedade do que o que vem da China e do Bangladesh ou da produção local. Depois, em cada mercado há um costureiro que na hora ajusta as peças às medidas do comprador. Os negociantes também ganham: no Zimbábue um fardo de roupa, comprado ao quilo, pode dar um retorno até dez vezes a despesa.

(Um parêntesis: a indústria é responsável por cerca de dez por cento das emissões de carbono. Em Portugal, já há lojas a vender roupas em segunda mão.)

Os governos da Comunidade da África Oriental (EAC na sigla inglesa, que engloba Quénia, Uganda, Tanzânia, Burundi, Ruanda e Sudão do Sul) começaram a taxar a roupa usada em 2016 para em 2019 acabar com a sua importação em nome da dignidade e da promoção da indústria local.

O Governo norte-americano não gostou da opção da EAC e ameaçou acabar com a isenção de taxas do acordo de comércio livre aos países que boicotassem as roupas usadas. Só o Ruanda se manteve firme.

A África – com Mali e Burkina Faso – é um grande produtor de algodão, mas falta mão-de-obra especializada, investimentos e energia contínua para autonomizar o continente no que respeita a têxteis e vestuário.

A pandemia global veio impor alguns entraves à importação de roupa em segunda mão. Os compradores têm medo que os artigos venham infectados com o novo coronavírus apesar de serem fumigados antes da exportação. 

O Quénia impôs em Março uma suspensão da importação dos artigos para combater a pandemia. Entretanto, as indústrias locais estão a produzir equipamentos de protecção individual, incluindo máscaras. 

A covid-19 pode dar um novo fôlego aos fabricantes e estilistas africanos.

20 de agosto de 2020

HUMILDE VIOLETA



LEÓNIA MARTIN é a filha do meio das cinco sobreviventes do casal Zélia e Luís Martin. 

A irmã mais famosa é a benjamim da família: Santa Teresinha do Menino Jesus.

Leónia descreve-se como «o pequeno diabrete». 

Teve uma infância e adolescência difíceis devido à saúde precária e ao seu carácter irreverente e difícil.

As quatro irmãs — Maria, Paulina, Celina e Teresa — entraram no Carmelo de Lisieux. 

Leónia professou nas visitandinas de Caen, seguindo os passos de uma tia.

No mosteiro de Caen, onde tomou o nome der Irmã Francisca Teresa, seguiu a pequena via da infância espiritual que a irmã mais nova plasmou nos seus escritos.

Descreve-a como «o caminho mais curto, o mais acertado para me conduzir à santidade da minha vocação».

Diz-se «humilde violeta». 

É a santa boa e alegre da humildade, da vida escondida, das pessoas simples. Está a caminho dos altares. Uma santa mais próxima de nós, o comum dos mortais.

Sabia que pertencia a uma família de santos e não queria ser o patinho feio: «por isso, não devo ser eu a manchá-la».

A irmã mais nova foi canonizada em 1925 e os pais em 2016.

Nesta obra, o meu «mano» António José Gomes Machado giza o percurso humano e espiritual da serva de Deus desde a infância até à morte, com 78 anos, a influência da sua mana mais nova, o impacte da sua vida.

O livro vem ilustrado com inúmeras fotos.

Pode ser comprado nas Edições Carmelo.

Mais uma leitura agradável para tempo de verão.

17 de agosto de 2020

"PEGAI EM MIM!"


Caros amigos,

Hoje, 15 de agosto, festa da assunção de Nossa Senhora, é o aniversário da minha ordenação sacerdotal, mas sobretudo o 50º aniversário da minha primeira profissão (votos religiosos), em 15 de agosto de 1970, em Valência (Espanha).

Os tempos não são para festejos. Comemoro este aniversário particular com gratidão e ... uma certa saudade. No último momento achei oportuno comunicar-vos este aniversário, para que a comunhão fraterna dê mais glória a Deus.

Então, por favor, dai glória a Deus comigo pela sua paciente e misericordiosa fidelidade ao longo destes 50 anos.

Agradecei à Virgem Maria comigo pelo seu carinho maternal ao longo do caminho da minha vida.

Durante a semana de retiro antes dos votos, fui ter com o meu Padre Mestre (o P. João Batista Bressani, agora doente aqui comigo em Verona), para partilhar com ele, uma vez mais, as minhas dúvidas e temores.

Ele respondeu-me: E tu achas que os teus companheiros não sentem medo? Só que eles fecham os olhos e pulam, e tu os abres, olhas para a frente, não vês com clareza o que te espera e o medo bloqueia-te. Faz como eles: fecha os olhos, confia em Deus e salta também!

E foi o que fiz! O medo voltou outras vezes, mas nunca esqueci o conselho dele!

A estrada ainda não terminou e certamente haverá outros saltos a dar a olhos fechados. Acompanhai-me com a vossa oração. Já que agora estou paralisado no leito da doença, pegai em mim e lançai-me na piscina da Vontade de Deus!

Feliz festa da Assunção, e que a nossa vida seja uma assunção contínua.

Com amizade e gratidão,
P. Manuel João Pereira Correia, mccj 
p.mjoao@gmail.com

16 de agosto de 2020

EXISTÊNCIAS CONFISCADAS


O confinamento, o esforço coletivo para conter o alastrar da pandemia do novo coronavírus e proteger os mais vulneráveis, foi um fechamento difícil e problemático. Mas representou um tempo de criatividade produtivas para escritores, músicos e outros artistas.

José Tolentino Mendonça acaba de publicar a sua própria reflexão sobre o confinamento na obra O que é amar um país - o poder da esperança com a chancela da Quetzal.

O livro abre com o discurso memorável, magistral do Dez de Junho, que dá o título à obra, e um ensaio com o subtítulo do livro.

A terceira parte, Do tempo da calamidade ao tempo da graça, é composta por uma dúzia de textos curtos, uma reflexão criativa, contemplativa, poética, lúcida sobre a pandemia global, os seus desafios imensos e as inúmeras oportunidades que abre.

O Cardeal Mendonça define o confinamento como «confiscação da existência».

Resiliência é, para ele, a palavra-chave que abre a nova normalidade.

«A presente pandemia começou por ser enfrentada como um assunto sanitário, mas evidentemente reclama que a interpretemos de um ponto de vista mais alargado, como uma encruzilhada civilizacional», sublinha.

E pergunta: «A União Europeia terminará como um monumental museu de boas intenções que se afunda ou esta será precisamente a estação do seu relançamento?»

O autor desenvolve muitas pistas de reflexão para o tempo estranho que vivemos globalmente com a lucidez que o caracteriza, um tempo difícil, prenhe de promessas.

Vale a pena remoer o último parágrafo da obra: «Este também é o tempo para descobrir a beleza de que cada um de nós pode ser protagonista: a beleza do cuidado e da compaixão. Este é o tempo em que o coração humano precisa de ser consolado — há tantos corações humanos que precisam de ser consolados! Não pensemos só no nosso coração».

Uma leitura obrigatória para as férias.

12 de agosto de 2020

MEU CORAÇÃO EXULTA NA ETIÓPIA



Queridos amigos e amigas, escrevo agora mais perto de vós, desde a minha santa terra, Ervedal, no Alentejo.

O tempo de quarentena foi um tempo especial, de descanso, oração, de paragem para reflectir sobre a missão e preparação para este tempo em Portugal. 

A casa onde fiquei a fazer a quarentena, casa com todas as condições, por 19 dias, foi cedida totalmente grátis pelo ser missão de alguém que o sente de fazer por inspiração de Nossa Senhora de Fátima.

E os alimentos para esses dias também foram cedidos, principalmente por duas famílias, igualmente generosas no seu ser missionárias. 

Com a graça de Deus, também tive quem se disponibilizasse com transporte para tudo.

Mesmo em quarentena ainda fui mimado com várias visitas que me ajudaram imenso.

Depois de feito o teste à Covid-19, de saber o resultado, negativo, foi tempo de agradecer a Deus Pai e à Nossa Mãe e, depois, viajar para casa e estar com a família.

Entretanto, a mãe foi chamada para realizar uma cirurgia à bexiga, o que já aconteceu e correu bem, graças a Deus e à oração e comunhão de tanta gente. Agora continuarei uns dias por casa, estando com a família.

Espero voltar à Etiópia em Setembro, por mais alguns meses entre o povo Gumuz de quem muito gosto.

Agradeço todas as perguntas que me foram feitas e irei responder pessoalmente a cada um e uma de vós. Para além disso, iremos realizar alguns pequenos vídeos inspirados nessas perguntas para que possa partilhar a experiência missionária com todos aqueles que o desejem.

Antes disso, já preparámos um pequeno vídeo com algumas fotos sobre a missão na Etiópia e que podem visualizar aqui

No vídeo, algumas fotos são sobre o trabalho que realizamos, como o trabalho na biblioteca, as visitas às comunidades e acompanhamento de catequistas, e as actividades com as crianças.

Alguns de vós têm perguntado como poderiam ajudar a missão na Etiópia. Actualmente, das várias actividades, existem dois projectos que carecem de ajuda económica: a biblioteca e os doentes.

A biblioteca continuará com as suas actividades: sala de estudo e consulta de livros, aulas de inglês e de informática. Para isso, precisamos de fundos para continuar a comprar livros e material escolar para serem usados na biblioteca e, por outro lado, a contratação de alguém que possa ser formado e continuar na biblioteca mesmo quando já não estejamos na missão, dando assim continuidade ao projecto.

O projecto dos doentes consiste no acompanhamento das pessoas doentes nas aldeias que visitamos: transportar e acompanhar os adultos e crianças. 

As distâncias são longas, ao centro de saúde ou a um pequeno hospital gerido pelas Irmãs Combonianas, com bom tratamento e preços acessíveis às pessoas. Por vezes, pagamos a medicação das pessoas que não têm possibilidade de o fazer. Tudo isto significa gastos com a gasolina, taxas dos exames médicos, medicamentos e, por vezes, comida para os que pernoitam no recinto da nossa casa.

Assim os que quiserem contribuírem poderão fazê-lo para a Conta dos Leigos Missionários Combonianos (LMC) que é a seguinte: PT50 0036 0131 9910 0030 1166 0 (Banco Montepio).

Pedia por favor, que enviassem um e-mail a referir o destino do dinheiro para o e-mail dos LMC: leigos.combonianos@gmail.com com o conhecimento da ecónoma dos LMC sandrafagundes@gmail.com

A vossa ajuda sempre foi e é importante. A missão faz-se em Igreja, com os que vão e com os que ficam, sempre todos em comunhão. A alegria da missão e do Evangelho não é exclusiva de uns mas de todos nós que pertencemos à Igreja! Tu és Missão!

A ajuda mais preciosa será sempre a vossa oração. Essa oração silenciosa mas profunda que tenho sentido na minha vida missionária e que muito agradeço.

Termino com o Magnificat que escrevi, em Portugal, durante o tempo de quarentena, sobre o tempo vivido na Etiópia:

A minha alma glorifica-Te, Senhor, por tudo o que me permitiste viver na Etiópia.

Glorifico-Te, Deus Santo, por tantos rostos que agora habitam no meu coração.

Louvo-Te, Senhor, pela Tua Palavra que tantas e tantas vezes iluminou a minha vida.

Regozijo-me com tantos sinais da Tua presença no meio daquele povo lindo que amo e tanto bem lhes quero.

Quero dar-Te graças, Jesus, por me teres permitido viver o Teu Amor no meio de tantas pessoas, na biblioteca, nas aulas de inglês e de informática, nos jogos de futebol, nas visitas às comunidades, nos encontros de catequistas, nas visitas às famílias, nas idas aos centros de saúde.

As cruzes não faltaram, o desalento, a dor, as lágrimas… Mas onde abundou a minha fragilidade humana e espiritual, superabundaram a Tua Graça e o Teu Amor que sempre senti no meu íntimo.

Agradeço-Te imenso as dificuldades da língua, compreensão da cultura, clima, doenças, que me obrigaram a ser pequeno junto deste povo lindo.

O dom da pequenez ajudou-me a necessitar de ajuda, a ser humilde, a parar para contemplar, a querer aprender…

Obrigado por me ajudares a ser pequeno. Quanto mais pequeno, mais necessitei de Ti, do Teu Amor, do colo terno de Tua Mãe, do Vosso olhar sobre mim.

O meu coração exulta de alegria sempre que penso na Etiópia.

Meu bom Deus, quero cantar as maravilhas da Missão, dizer como os Apóstolos no momento da Transfiguração: como é bom estar aqui, anunciar o Teu Amor e, se necessário, sofrer por Ti.


Pedro Nascimento, Leigo Missionário Comboniano

6 de agosto de 2020

CHEGUEI!


Finalmente cheguei à missão. A viajem correu bem: foram 24 horas de máscara posta, seja nos aviões seja nos aeroportos, depois… liberdade!

À chegada a Lusaka mediram-me a febre, mas estava mais fresquinho que uma alface. Depois fizeram-me o teste, mas a quarentena faço-a na missão.

Um dia em Lusaka e na sexta viajei de carro: saímos às 5h00 da manhã, parámos em Chipata a fazer umas compras e às 6h30 da tarde já estávamos na missão.

Isto é outro mundo! Higienização? Distância social? Máscara? Quem a não tem põe um pano na boca a fazer de conta, ou simplesmente não põe nada (a maioria)!

Ai se os doutores daí nos vissem!... Se o vírus cá chega, salve-se quem puder!

No domingo à noite fizemos a pizza para celebrar a minha chegada juntamente com os voluntários franceses e austríacos. Éramos 12 “jovens” (uns mais que outros!).

O meu colega de 80 anos é um herói: tem aguentado, mas dá pena vê-lo, está muito magrinho… Oxalá aguente até ao fim de Agosto que é quando pensa ir a casa na Italia.

A missão foi o grande dom que Deus me concedeu e só posso dizer “SIM”.

Permaneçamos unidos em oração.

Um abração do sempre amigo agradecido a cada um de vós.
M. Pinheiro, o carunchoso