21 de setembro de 2019

NOTÍCIAS DAS FILIPINAS



 A viagem correu bem, e desde o Dubai até Manila encontrei-me com um comboniano Filipino sem saber! 

O corpo do P. TQ, vindo do Quénia, ia no mesmo avião em que viajei. Conhecia-o muito bem, e tinha sido meu formando…. Morreu muito novo.

Já é o segundo comboniano Filipino na eternidade; o primeiro foi o Abito que morreu há uns anos atrás apenas oito dias depois de ter feito a primeira profissão… os desígnios de Deus são de facto diferente dos nossos. Vou pedir a intercessão destes dois para a reabertura do noviciado aqui.

Estes dias têm sido de readaptação a esta realidade, já conhecida mas também um pouco diferente.

Tenho passado grande parte do tempo a preparar a casa e tudo o resto para a reabertura do noviciado, no dia 10 de Outubro, com a presença do nosso Padre Geral e do P. Alcides.

Os noviços serão três... se não houver mais surpresas: um Filipino e dois Vietnamitas. Outro deveria entrar no noviciado saiu uns dias antes de eu chegar.

Também tive a oportunidade de visitar alguns amigos que se recordam do Manuel Augusto e do Alberto.

Encontrei a casa muito como a deixei há há anos atrás… os colegas que aqui estiveram mudaram pouco! E vim para o mesmo quarto. Encontrei também as coisas que aqui deixei… incluindo um bom número de aviões lindos!

Enfim, já vai longa esta minha saudação; fico por aqui e digo-vos que estou contente e feliz de ter regressado a esta terra, embora não tenha sido fácil despedir-me da minha boa mãe.

Agradeço a Deus os dez anos que passei na província, a vossa amizade e apoio.

Ppeço desculpa pelo que não fiz de bem e continuemos unidos na amizade, na oração e na missão.

Abraço amigo,
Victor Dias 
Manila

2 de setembro de 2019

FESTA DE MESKEL


A Santa Cruz é festa maior na Etiópia e Eritreia.
Os cristãos (ortodoxos e católicos) da Etiópia e Eritreia celebram a Festa de Meskel (Santa Cruz) com grande solenidade a 27 de Setembro, ou 17 de Meskerem – segundo o calendário local, que começa a 1 de Meskerem (11 de Setembro – ou 12, se o ano for bissexto).

A festa, uma das celebrações mais importantes da liturgia cristã etíope e eritreia – juntamente com a Páscoa, Natividade e Baptismo do Senhor, a Assunção (ou Dormição) da Virgem Maria e o Ano Novo – marca a descoberta da cruz de Jesus feita por Santa Helena, mãe de Constantino, o imperador romano que deu cidadania ao Cristianismo.

O comboniano eritreu P.e Habtu Teclai explicou-me o significado desta festividade: «A festa de Meskel é uma das maiores festas da Igreja da Eritreia e da Etiópia. Depois de celebrar a Santa Missa as pessoas saem das igrejas para irem para um lugar público onde uma pira de lenha é preparada para a celebração. Sacerdotes e diáconos, vestidos com roupas litúrgicas, encabeçados pela Cruz, dirigem-se de todas as igrejas para o lugar público. Aí, rezam e abençoam o fogo e acendem a pilha de lenha preparada para a celebração. Esperam que a lenha consumida caia na direcção do leste, o que é um bom sinal para o ano que começa. Então as pessoas pegam em cinza e com ela fazem o sinal da cruz na testa.»

A celebração, que começa na véspera ao fim do dia, continua com os tradicionais comes e bebes e muita dança à mistura.

Em Adis-Abeba, a capital etíope, o lugar do fogo sagrado é Meskel Square, a Praça da Cruz, para onde convergem milhares de fiéis, velados por mantos brancos, juntamente com clérigos com os melhores paramentos de todas as igrejas da cidade para a grande celebração. Nos anos de sangue do comunismo, deram-lhe o novo nome de Praça da Revolução, mas quando o regime caiu, a praça voltou a chamar-se Meskel.

A cruz tem um lugar especial na identidade tanto de Etíopes como de Eritreus. É sinal de uma fé milenária e muito sofrida. Pode ser feita de prata ou mesmo ouro, ferro, bronze, cobre, latão, madeira, pedra, osso ou couro. Pode ser pintada ou bordada. É sempre muito estilizada e intricada, autênticas filigranas de entrelaçados geométricos harmoniosos que evocam a vida eterna. É usada nos brincos, anéis e ao pescoço. E tatuada na testa ou nos pulsos. As cruzes processionais são as mais vistosas pelo tamanho e pelo trabalho artístico. São decoradas com panos ricos e coloridos e levadas na ponta de uma vara por padres ou diáconos.

Os padres ortodoxos trazem sempre no bolso uma pequena cruz de madeira ou de metal para abençoar os fiéis com um gesto muito harmonioso: tocam com a cruz na testa de quem pede a bênção, que, por sua vez, a beija num movimento sincronizado e muito respeitoso. As cruzes de mão normalmente têm um quadrado na base que evoca a Arca da Aliança.

As cruzes etíopes provêm de três escolas artísticas relacionadas com as cidades de Aksum (a cidade santa onde os Etíopes juram ter a Arca da Aliança), Lalibela (famosa pelas onze igrejas escavadas na rocha) e Gondar (que foi capital da Etiópia iniciada pela engenharia militar portuguesa).

Uma cruz etíope é uma peça de arte linda, mas é sobretudo sinal da fé de um povo que aceitou Jesus Cristo como seu Senhor no século IV e tem-se-lhe mantido fiel ao longo dos tempos mesmo conturbados.

29 de agosto de 2019

PRIMEIRO MÊS NO REGRESSO À MISSÃO


Um mês passou, desde que parti de Portugal e cheguei de regresso à Missão na Zâmbia. Tanto e tão pouco! Sentimentos que me invadem…

DIAS FELIZES tenho vivido, dificuldades vão aparecer…

Não há missão Sem CRUZ, ensinou-nos Comboni!

Um Mês é pouco, mas é tempo para muita Alegria, Amor, Renovação…

Dias felizes eu tenho vivido, Graças ao Senhor da Missão e a todos e todas que fazem parte desta missão que partilhamos! Sinto uma vida nova!

Ela tem sido assim:

MISSÃO É PARTIR! Partir eu aceitei. Partir era o meu dever. Partir era a minha vida, vocação e missão. Não parti sozinho, senti isso ao re-partir!

Parti com tantos e tantas no coração. Parti com Aquele que envia!

Parti e recebi o «OLÁ» doce do encontro!

MISSÃO É ENCONTRO! O encontro veio ter comigo. As circunstâncias assim o permitiram.

Havia festa; ordenação, primeira missa, crianças a sorrir. O encontro que ultrapassa o tempo: dez anos de distância pareceram uma semana apenas terminada. No Amor, o encontro vence o tempo. O encontro não tem distâncias.

MISSÃO É AMOR E ALEGRIA! A única verdade é Amar, lembro Raul Follereau proclamar.

A missão é amar, é ser, é partilhar. É encontrar a alegria do Amor que não tem medida.

Dizem-me «Mas não esqueceste Cinyanja». Vem-me natural a resposta: «O que se ama, nunca se esquece!»

Amar traz a alegria no serviço.

MISSÃO É SERVIR! Servir o irmão e irmã, o pobre, a criança ou velho, o doente, o que sofre.

É sentir e experimentar que a minha vida, foi-me dada, não é minha, pertence aos que dela precisam…

MISSÃO É CRUZ…

Fico com o pensamento: «A lua-de-mel» vai passar. A Cruz vai aparecer. Mas o amor no serviço será sempre fonte de alegria e coragem. Planos para o futuro já há. Responsabilidades novas, nunca tidas. Gabei-me de nunca ter embarcado em construções, mas apenas vivido a amizade da fé, na formação, no relacionamento com todos.

Vou ter agora que «construir». Somos uma comunidade nova. Temos um projecto novo! Nele eu acredito!

Por isso, não quero perder a alegria do momento, preparando-me para a responsabilidade que espreita.

Missão é de Deus. Missão sou eu. Missão és tu! Todos somos missão! Juntos viveremos muitos meses de partir, de encontro, de amor e alegria no serviço…com a CRUZ que as obras de Deus comportam!

OBRIGADO SENHOR POR UM MÊS DE MISSÃO! OBRIGADO A TI, AMIGA, AMIGO EM MISSÃO!

CONTINUAMOS JUNTOS, UNIDOS EM MISSÃO!
P. Carlos A. Nunes, mccj 
Zâmbia

26 de agosto de 2019

VENCEMOS! VIVA A DEMOCRACIA!


As conversas cruzavam-se e misturavam-se na fila que se prolongava cada vez mais, até que uma voz se distinguiu claramente. «Hoje, 4 de Agosto, é um dia histórico para o Sudão: está a ser assinado o acordo constitucional pelas duas forças-líderes contendentes do governo, os militares e civis» – disse com voz nobre e segura.

Alguém pegou, espontânea e instintivamente, na palavra que tinha ficado no ar: «Já não é sem tempo, estamos atrasados mais de 30 anos por causa daquele que adulterou o seu próprio nome e tratou os sudaneses sem honra nem dignidade humana. Esse homem – El Bashir, (em árabe significa alegre notícia) – não merece tão lindo e expressivo nome. Por causa dele é que estamos nós a agora aqui a aguentar durante horas para levar um pouco de pão, miserável ração para tantas bocas a quem tenho que dar de comer lá em casa…»

Assim ia a conversa enquanto esperávamos na fila da padaria que ocupava e estorvava boa parte da rua. Eu sei que é inútil olhar para o relógio mas o hábito foi mais forte. E logo ouvi uma voz amigável que me sussurrou: «Khauaja, Estrangeiro, tu que vives neste nosso país, tens que ter paciência, como nós».

Entretanto, tocou o telemóvel: «… Abuna, Padre, temos sorte, tu e nós, pois a missa aqui é só à tardinha; caso contrário, não chegarias cá a tempo; só se eu tivesse que fazer a celebração da Palavra enquanto tu aguentasses aí na fila».

Quem falava era o catequista daquela povoação onde estava previsto eu ir celebrar a Eucaristia.

Inesperadamente, a nossa longa fila do pão foi invadida e um tanto descomposta pelo numeroso grupo de pessoas que vinha avançando. Dançavam de alegria, cantando palavras de ordem conhecidas da revolução, destacando, sobretudo, um refrão pela primeira vez: «Vencemos, viva a democracia! Vencemos, viva a democracia!».

Iam cantarolando e marcando o ritmo com as panelas, tachos e outros utensílios, novos em folha, que iam encontrando e que estavam à venda ao passar na rua do mercado.

Um senhor idoso a quem um jovem ofereceu um lugar mais à frente na fila suspirou: «Foi longa a espera. Suor, sangue e lágrimas misturaram-se em dias sem fim. Não me saem da memória os massacres bárbaros onde caíram tantos nossos mártires. Mas pelo que estamos a ouvir hoje, valeu a pena».

Do outro lado, na fila das mulheres, o eco respondeu: «Tantos sofrimentos para, finalmente, ver hoje o feliz resultado, a assinatura do acordo na constituição do governo. Pelo menos, no papel. É só um começo de outros sacrifícios que nos serão pedidos, aos sudaneses. Mas é muito importante que, desde o início, como hoje, se tente o futuro caminhando juntos».

Não longe de nós, ia aumentando a alegre vozearia. No meio daquela algazarra, uma voz sobressaía entre o cantarolar ritmado pelos utensílios de latas e alumínios: «El hamdu lillah, Graças a Deus, a cerimónia do acordo constitucional, neste momento, está a acontecer em Cartum».

Viam-se algumas pessoas, de facto, que acompanhavam, pelo telemóvel, o tão importante evento. E a mesma voz continuava: «Alf mabruk, Parabéns, caros compatriotas! Coragem, temos futuro!».

Distraído com a marcha da gente inebriada de alegria, vi, finalmente, que a fila das mulheres tinha terminado e a dos homens tinha diminuído bastante. Se tudo correr bem e a farinha não terminar, de aqui a pouco já estarei aviado, pensei com a alma a sorrir. E teremos pão em casa para hoje e amanhã.

Regressando a casa, passei pela bomba de combustível. Embora invisível aos meus olhos, eu sei que na longa e interminável fila dos carros está também o P. Luigi com a velha carrinha Toyota da missão. Mal de mim que se cumprisse na pessoa dele o conhecido provérbio «quem espera desespera». 

Certamente que o colega missionário, além da água e do rosário que sempre leva consigo terá, hoje, incluído também algum livro ou revistas e uma sandes. Porque a experiência é mestra na vida. Mas, para além de tudo disso, o P. Luigi também sabe – e é o mais importante – que «a paciência tudo alcança».
Feliz da Costa Martins
El Obeid, Sudão
4 Agosto 2019

6 de agosto de 2019

INFLUENCIADORA DE DEUS



O Papa publicou em março uma exortação apostólica dirigida aos jovens e a todo o povo de Deus. Chamou-lhe Christus vivit, Cristo vive! E diz aos jovens cristãos: «Ele vive e quer-te vivo». Porque Jesus veio para termos vida e vida em abundância (João 10, 10), vida para partilhar, para vivificar o nosso tempo tão morto de amor.

Francisco dedica meia dúzia de parágrafos a Maria, a jovem de Nazaré. Meio milhar de palavras sobre as quais quero reflectir convosco, porque nos ensinam muito.

O Papa chama Maria de «influenciadora de Deus», recuperando um discurso que fez em janeiro no Panamá durante as Jornadas Mundiais da Juventude.

Na vigília com os jovens disse: «a jovem de Nazaré não aparecia nas «redes sociais» de então; Ela não era um «influenciador» (influencer, em sentido digital) mas, sem querer nem procurá-lo, tornou-Se a mulher que maior influência teve na história».

Os influenciadores digitais são figuras públicas que conseguem influenciar comportamentos e opinião através dos conteúdos originais que publicam nas redes sociais (YouTube, Facebook, Instagram, Twitter…). Usam vídeos, fotos e textos.

As grandes marcas pagam fortunas para os influenciadores recomendarem os seus produtos. Os influenciadores cobrem todas as áreas da vida: da moda à alimentação, da beleza ao desporto, dos jogos digitais à mudança de comportamentos.

Maria, a influenciadora de Deus, não usa a net nem nos impõe padrões de consumo. Antes, ensina-nos o caminho do sim a Deus através dos sins da sua vida.

O Papa continuou com o discurso: «Poderíamos, com confiança de filhos, defini-La: Maria, a influenciadora [às ordens] de Deus. Com poucas palavras, teve a coragem de dizer «sim», confiando no amor, confiando nas promessas de Deus, que é a única força capaz de renovar, de fazer novas todas as coisas».

Nossa Senhora do Sim, ensina-nos a dizer sim ao amor como a força da vida na vontade de servir a todos, sobretudo aos mais necessitados.

Depois, arrematou a reflexão: «Maria embarcou no jogo e, por isso, é forte, é uma “influenciadora”, é a “influenciadora” de Deus! O “sim” e o desejo de servir foram mais fortes do que as dúvidas e dificuldades».

Sandra Amado, uma comboniana brasileira minha amiga, comentou que Maria é influenciadora porque «não teve medo nem reservas de se expor, mostrando a sua fragilidade. Então ficou livre para influenciar todos os que têm medo daquilo que outros pensem de si. É uma mulher de fibra».

O nº 44 da exortação apostólica é uma transcrição deste discurso.

Mas antes Francisco escreveu: «No coração da Igreja resplandece Maria. Ela é o grande modelo para uma Igreja jovem, que quer seguir Cristo com frescura e docilidade. Quando era muito jovem, recebeu o anúncio do anjo e não se coibiu de fazer perguntas. Contudo, tinha uma alma disponível e disse: “Eis a serva do Senhor”» (nº 43).

É esta mulher resplandecente que segue o Filho de Belém até Jerusalém, da manjedoura ao túmulo, e que com os discípulos se entrega à oração na sala de cima depois da Ressurreição, que celebramos e contemplamos para aprendermos também nós a sermos influenciadores dos nossos dias; sermos sal, luz e fermento num mundo que precisa de redenção para não cair no abismo do egoísmo globalizado que mata as pessoas e a natureza, que mata a vida!

A jovem de Nazaré sentiu-se perturbada, colocou questões, tirou dúvidas a limpo, fez perguntas, expressou perplexidades. Mas no fim disse com a força que lhe veio de Deus: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lucas 1, 38).

Maria segue Jesus com frescura e docilidade e coloca-nos nesse caminho se aprendermos dela e com ela a estar sempre prontos para ir ao encontro dos que precisam.

O relato da anunciação – ou da evangelização de Maria como os nossos irmãos ortodoxos lhe gostam de chamar – termina com uma frase breve mas tremenda: «E o anjo retirou-se de junto dela» (Lucas 1, 38).

Outra missionária amiga comentou: «na vocação há uma grande solidão». Há, se ficarmos apartados a gozar a mística do instante. Maria, essa pôs-se a caminho, apressada, fazendo frente aos perigos da montanha, urgente para ajudar Isabel.

A solidão cura-se no encontro com o outro, nas relações interpessoais. «O inferno não são os outros. Eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti», escreveu Valter Hugo Mãe em A Desumanização.

Francisco descreve o percurso de vida da Mãe do Céu num breve parágrafo: «Sem ceder a evasões nem a miragens, “ela soube acompanhar a dor do seu Filho [...], sustentá-lo com o seu olhar, abrigá-lo no coração. Dor essa que sofreu, mas que não a deixou resignada. Foi a mulher forte do ‘sim, que sustém e acompanha, protege e abraça». (nº 45).

Ela ensina-nos a sermos acompanhadores, cuidadores das dores de uns dos outros, lutadores contra a resignação ou a demissão, a dizer sim à vida, às suas alegrias e dificuldades.

E também é a acompanhadora, a cuidadora de cada um de nós «neste vale de lágrimas» que, com o seu abraço e a sua intercessão, se transforma em planície de alegria.

Tudo porque se escancarou ao Espírito Santo que a fecundou com a força do altíssimo. Por isso, Francisco a descreve como «a jovenzinha de olhos iluminados pelo Espírito Santo que contemplava a vida com fé e tudo guardava no seu coração de menina» (nº 46).

É este Espírito consolador que precisamos para fazer face aos dias que correm: aos medos do outro, do diferente que fecha o coração e não nos deixa ser solidários a ponto de menorizar a bondade e criminalizar o resgate de pessoas naufragadas no mar…

E para contemplarmos as maravilhas que Deus continua a fazer, a sua bondade presente na nossa história.

O Papa argentino termina a sua breve mas profunda reflexão sobre o modo como Maria nos influencia nos caminhos de Deus, encomendando-nos à sua protecção.

«Aquela jovenzinha, hoje, é a Mãe que vela pelos filhos, estes filhos que caminhamos pela vida muitas vezes cansados, carentes, mas querendo que a luz da esperança não se apague. É isso o que nós queremos: que a luz da esperança não se apague», escreve no (nº 48).

Sim! Somos filhas e filhos de Maria. Jesus deu-no-la como Mãe através do discípulo amado aos pés da Cruz (João 19, 26-27). Esse discípulo sem nome, que Jesus amava, é cada um de nós.

Neste mundo confuso, agitado, violento podemos estar cansados, carentes, mas queremos continuar a alimentar a luz da esperança que mantém vivo em nós o sonho de Deus de novos céus e nova terra, de um reino de justiça, paz e alegria no Espírito Santo, como Paulo explicou na carta que escreveu aos cristãos de Roma (14, 17).

O Papa remata: «A nossa Mãe olha este povo peregrino, povo de jovens querido por ela, que a procura fazendo silêncio no coração, mesmo que no caminho haja muito ruído, conversas e distrações. Contudo, diante dos olhos da Mãe só cabe o silêncio esperançado. E assim Maria ilumina de novo a nossa juventude».

É este silêncio esperançoso que escancaramos à Mãe de misericórdia que como no casamento de Canã, repete a cada um de nós: «Fazei o que Ele vos disser!» (João 2, 5).

22 de julho de 2019

PODEMOS – E DEVEMOS – ATREVER-NOS



Ultimamente sinto-me Abrão. Explico: o velho caldeu estava a ficar muito preocupado. Há dez anos que sonhava com o filho prometido pelo Senhor, mas não havia maneira de Sara, a esposa, engravidar e o seu herdeiro seria o escravo Eliézer de Damasco.

Neste horizonte de dúvida, o Senhor volta a avocar a promessa de um herdeiro fruto das suas entranhas, primícia de uma descendência incontável como as estrelas do céu e as areias do mar. E renova a aliança com Abraão – que tem que espantar as aves de rapina (para não devorarem as carcaças do sacrifício) enquanto se sente profundamente ensonado, apavorado e deprimido (Génesis 15, 1-12. 17-18).

A estiagem vocacional que nos assola faz-me identificar com o velho Abrão. Não é melhor tirar as botas, calçar os chinelos e sentar-se no sofá a ver o tempo correr? Ou então: por que não tentar uma solução de recurso, fora do âmbito da providência divina, como Sara fez ao pedir ao marido para fazer um filho com Agar, a sua escrava… Deu bronca!

O Papa Francisco lança-nos um repto importante na Exortação Apostólica Cristo Vive que escreveu aos jovens e a todo o povo de Deus.

No nº 274 escreve: «Se partimos da convicção de que o Espírito continua a suscitar vocações para o sacerdócio e para a vida religiosa, podemos “voltar a lançar as redes” em nome do Senhor, com toda a confiança. Podemos atrever-nos, e devemos fazê-lo, a dizer a cada jovem que se interrogue sobre a possibilidade de seguir este caminho».

Temos que afugentar «as aves de rapina» do desânimo e do insucesso, combater a sonolência do cansaço, o pavor e trevas que nos habitam e continuar a insistir com o Senhor da seara que envie mais operários para a sua seara – é esta a primeira tarefa do discípulo missionário – e a apostar na pastoral vocacional juvenil como no-lo recorda o Capítulo de 2015: «As diversas circunscrições serão estimuladas a fazer uma opção mais clara pelos jovens, realizando mesmo um plano pastoral juvenil de rosto comboniano» (Documentos Capitulares 2015, 45.8.)

Este «plano pastoral juvenil de rosto comboniano» pressupõe missionários alegres e felizes na sua entrega ao Senhor ao serviço da Missão de Deus em todas as idades e comunidades que «sejam lugares de acolhimento com uma atitude “em saída”, abertas aos que são atraídos pelo nosso testemunho missionário: isto nos ajudará a viver relações renovadas» (Documentos Capitulares 2015, 48.3.). E não torres de marfim ou covas de urso para hibernar…

Os Documentos Capitulares vão mais além: «abrindo-nos aos jovens e acolhendo-os, promovemos comunidades vocacionais que ao mesmo tempo se renovam na paixão missionária» (Documentos Capitulares 2015, 37).

O testemunho comunitário e pessoal de uma paixão missionária que se mantém viva apesar da contagem imparável dos anos e comunidades de portas abertas, acolhedoras e vocacionais são os elementos mais importantes e o recurso número um para uma pastoral vocacional que dê frutos.

Há que juntar-lhe o respeito pelos jovens como território sagrado do nosso serviço missionário – como recorda Francisco: «O coração de cada jovem deve, portanto, ser considerado “terra sagrada”, portador de sementes de vida divina, diante da qual nos devemos “descalçar” para nos podermos aproximar e penetrar a fundo no Mistério» (Cristo vive, 67).

A avaliação do caminho feito pelo Movimento JIM e a elaboração de um plano estratégico 2020-2025 é parte deste ato de fé na pastoral vocacional juvenil com rosto comboniano e em família comboniana em Portugal.

Abraço-te com carinho e desejo-te umas férias retemperantes e cheias de graças.

19 de julho de 2019

32 ANOS


Hoje faz 32 anos que Dom António Castro Xavier Monteiro, bispo de Lamego, impôs-me as mãos e ordenou-me padre missionário na Igreja paroquial de Cinfães.

Nessa altura, escrevi na estampa-recordação, citando Paulo na 1.ª Carta ao amigo Timóteo: «Dou graças Àquele que me confortou, a Jesus Cristo, nosso Senhor, porque me julgou digno de confiança, chamando-me ao ministério.»

Hoje, esse agradecimento é ainda maior e mais espantoso pelo conforto, pela confiança e pela partilha que Jesus fez comigo em 32 anos de ministério vivido em tantas latitudes e com pessoas tão diferentes e sempre tão lindas.

O Salmo 115 da missa de hoje disse-me o que havia de fazer para celebrar a minha ordenação: «Que poderei retribuir ao Senhor Deus por tudo aquilo que ele fez em meu favor? Elevo o cálice da minha salvação, invocando o nome santo do Senhor.»

Sim, o Senhor fez tanto por mim e para lhe agradecer elevo o cálice da minha vida, faço um brinde ao seu Amor com todas as pessoas que trago no coração. É interessante como num órgão tão pequeno pode caber tanta gente... E há sempre lugar para mais um.

O teólogo Tomas Halik diz que escolheu ser cristão por causa do paradoxo da fé: cabe lá tudo e o seu contrário.

É o que sinto visitando a avenida da memória do meu sacerdócio: há graça e pecado, há luz e trevas, há alegria e lágrimas, há tanta tanta gente que me quer bem e que representa o carinho amoroso que Deus tem por mim!!!

Termino este memorial com uma pequena confissão: o P. Acácio Soares, abade de Cinfães e pessoa de referência para mim, dizia que o dia mais feliz do seu serviço paroquial foi a minha ordenação. Por isso, queria colocar uma lápide de mármore na Igreja para perpetuar a memória da festa.

Eu nunca concordei e ele não a colocou. E porquê? Porque tinha mede de um dia decidir mudar de rumo e talvez casar... Se não o fiz, foi porque o Senhor é fiel e me faz fiel.