21 de novembro de 2018

ESTRUME DO DIABO



Um coirmão italiano que foi ecónomo provincial costumava dizer que o dinheiro era «estrume do diabo». Esta definição pode revelar uma visão disfuncional dos bens, um bem-me-queres, mal-me-queres de uma realidade que é parte integrante da nossa vida de consagrados, do nosso voto de pobreza.

A economia e a finança captaram a atenção de duas congregações vaticanas este ano.

O Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Integral e a Congregação da Doutrina da Fé publicaram a 17 de maio de 2018 uma reflexão conjunta sobre as questões económicas e financeiras, propondo uma economia humanizada, com coração, que se preocupa com o bem-estar e o bem comum.

As questões económicas e financeiras quer introduzir a ética, a antropologia relacional e o conceito do bem comum no sistema económico-financeiro contra o individualismo e consumismo.

O documento defende também um consumo ético: não devemos comprar aquilo que sabemos que foi produzido sem respeitar os direitos dos produtores e o meio ambiente.

As considerações fazem todo o sentido, sobretudo hoje! Oito homens sozinhos detêm tanta riqueza como a metade mais pobre da humanidade junta.

A maioria faz o dinheiro nas tecnologias da informação e comunicação no âmbito do digital. Seis são americanos. Os outros dois são um mexicano (nas telecomunicações) e um espanhol (dono da Zara).

A Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica publicou a 6 de janeiro de 2018 umas Orientações sobre Economia ao serviço do carisma e da missão.

O documento diz que «o cristão, portanto, é chamado a ser ecónomo, administrador da multiforme graça» (nº 1) e «os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica são chamados a ser bons administradores dos carismas recebidos do Espírito, também na gestão e administração dos bens» (nº 2).

Somos administradores de bens – Jesus quer-nos  administradores fiéis e prudentes (Lucas 12, 42) – que não nos pertencem, mas que são eclesiais por natureza e, por isso, devem ser partilhados com os empobrecidos e com os institutos mais necessitados através de uma «economia evangélica de partilha e comunhão» (nº 16).

O documento fala da necessidade de as conferências de superioras e superiores maiores constituírem «comissões formadas por consagradas, consagrados e leigos especializados em matéria económica» (nº 95).

Somos nativos da cultura do consumo e somos tentados pelo consumismo. Neste âmbito, as Orientações recordam que o Papa Francisco «faz o elogio da sobriedade» (nº 8) caraterizada pela alegria de ter pouco e pela sobriedade, através de «uma austeridade responsável», «humildade sadia e uma austeridade feliz» para escutar «o grito dos pobres, dos pobres de sempre e os novos pobres» (Nº 51).

Ao refletir sobre as questões da economia, carisma e missão temos que fazer memória de Jesus Cristo, que «sendo rico, fez-Se pobre, para nos enriquecer na sua pobreza» (2 Coríntios 8,9).

Este é o paradoxo da vida económica: enriquecemos os outros através da «pobreza amorosa [que] é solidariedade, partilha e caridade» e «se manifesta na sobriedade, na busca da justiça e na alegria do essencial» (nº 14).

Como o papa escreveu na sua mensagem para o segundo Dia Mundial dos Pobres, que celebrámos a 18 de novembro, «os pobres evangelizam-nos, ajudando-nos a descobrir cada dia a beleza do Evangelho.»

«Não deixemos cair em saco roto esta oportunidade de graça», desafia Francisco.

16 de novembro de 2018

Sudão do Sul: LADRÕES MATAM MISSIONÁRIO


Homens armados assassinaram um missionário estrangeiro no Sudão do Sul.

A Província do Leste de África dos Jesuítas confirmou a morte do companheiro Victor-Luke Odhiambo, um padre queniano da Companhia de Jesus, «com tristeza e choque profundos.»

O P. Odhiambo foi assassinado na noite de quarta para quinta-feira, 15 de novembro, por homens armados que atacaram a Residência Jesuíta Daniel Comboni em Cueibet, junto à estrada que liga Juba a Wau.

O missionário queniano tinha 62 anos.

Era director da escola de formação de professores de Cueibet, fundada pelo comboniano Dom César Mazolari, bispo de Rumbek falecido há sete anos.

O P. Odhiambo trabalhava no Sudão do Sul há uma dezena de anos.

Estava na sala de televisão quando a residência foi assaltada.

Os outros quatro membros da comunidade, incluindo uma visita, estavam já nos seus quartos.

Quando ouviram os disparos acionaram o alarme e os ladrões puseram-se me fuga.

«Estão em estado de choque», os Jesuítas da província do Leste de África escrevem na sua página na rede digital.

Entretanto, John Madol Panther, Ministro da Informação do estado sul-sudanês de Gok, anunciou que três dos quatro suspeitos do homicídio do P. Odhiambo já estão presos.

O ministro disse que os detidos confessaram o envolvimento no assassinato do jesuíta queniano.

Definiu os homicidas como «criminosos armados da área.»

O P. Odhiambo vai ser sepultado em Rumbek, a capital do estado de Gok e sede da diocese.

O Sudão do Sul vive num turbilhão de violência desde 15 de dezembro de 2013 que os sucessivos acordos de paz não conseguem parar.

5 de novembro de 2018

ADEUS NYALA, ADEUS DARFUR




A festa de São Daniel Comboni celebra-se a 10 de Outubro, dia da sua morte, em 1881, em Cartum, no Sudão.Em Nyala, no Dardur, foi celebrada dois dias depois por razões práticas e pastorais: a sexta-feira é o dia de descanso nacional e assim os fiéis puderam participar com muito mais facilidade.

A festa de São Daniel Comboni, este ano, trouxe uma grande mudança à paróquia de Nyala. A partir de hoje, a responsabilidade da paróquia passou dos combonianos para as mãos do clero local da diocese de El Obeid. Esta mudança não foi surpresa para os fiéis: foram preparados com tempo para este evento.

O novo pároco, padre Anthony Ernest Laa, sudanês, foi instalado hoje, 12 de Outubro, durante a celebração da Eucaristia presidida pelo Vigário Episcopal, padre Edward Inyasio, que leu, para o efeito, o documento oficial de D. Yunan Tombe Trille Kuku, bispo da diocese de El Obeid.

Além do padre Feliz Martins, foram concelebrantes os padres Ayoub Kudri, pároco de El Fasher, e Jervas Mawut, da comunidade comboniana de Massalma, Omdurman.

Na homilia, o padre Edward recordou a figura de São Daniel Comboni que, na sua juventude, ouviu a chamada de Jesus Cristo, Bom Pastor, e seguiu-o.

Falou com arrojo e ousadia ao convidar a juventude a abrir-se e ouvir a voz de Cristo que chama também hoje de entre os rapazes e as raparigas desta paróquia de Nyala para dar cumprimento ao lema de Comboni: «Salvar a África por meio dos africanos».

Ao mesmo tempo, o padre Edward, incluiu o seu próprio testemunho de como o Senhor o chamou para estar ao serviço dele e da Igreja.

Começou por ser catequista em Kabkabia, no Norte do Darfur e, depois de quatro anos, ingressou no seminário com a firme resolução de ser padre.

O padre Anthony fazer a profissão de fé através da recitação do Credo.

Imediatamente depois, os presentes testemunharam também o simples mas muito significativo ritual simbolizado através de duas velas.

A primeira vela, que o padre Feliz segurava acesa na mão, foi passada ao novo pároco, o padre Anthony.

A segunda passou da mão do padre Jervas para a do líder da juventude da paróquia: a fé deve continuar viva e acesa no movimento da juventude e em todos os outros movimentos pastorais e litúrgicos de Nyala.

Terminada a Missa, todos foram convidados a permanecerem no adro da igreja para o fatur, o almoço que tinha sido preparado até altas horas da noite anterior.

Foi uma refeição que veio da iniciativa e generosidade dos paroquianos, pelo qual estavam todos muito orgulhosos.

«E eu sinto-me muito contente por ser contado entre aqueles que ajudaram na zebeh, na matança dos dois kharuf, os cordeiros, ontem à noite», comentou um dos jovens, enquanto a sinia, a travessa gigante da comida, era trazida.

«Sim, todos nós sabemos que sem o sangue a jorrar da zabiha, isto é, do animal a ser degolado, a celebração não seria bonita nem aceitável», concluiu um dos anciãos.

Depois do almoço, pouco a pouco, a gente começou a acomodar-se, ocupando todo o lugar do átrio da igreja, prontos para a tarde recreativa.

No palco houve bons ritmos, canções e algumas representações teatrais.

Naquela mesma plataforma ecoaram as palavras de agradecimento e encorajamento por parte do Vigário Episcopal e do padre Jervas, representante do Superior Provincial dos Missionários Combonianos.

Além disso, foi muito lindo o gesto dos paroquianos que, com amor e agradecimento, quiseram homenagear o antigo pároco, padre Lorenzo Baccin, e o seu assistente, padre Feliz, com alguns presentes simbólicos.

O P. Lorenzo não pôde estar presente, porque o visto de residência no Darfur caducou e teve que viajar para Cartum dias antes.

Aliás, os combonianos trocaram Nyala por El Obeid pela dificuldade de conseguir vistos de residência para o Darfur.

Havia alegria no ar e nos rostos de toda a gente.

Ficámos muito felizes por ver também alguns amigos e professores muçulmanos das nossas Escolas Comboni que quiseram unir-se aos cristãos nessa grande festividade que teve fim somente ao pôr-do-sol.
P. Feliz da Costa Martins

3 de novembro de 2018

VENTOS DE MUDANÇA

Presidente etíope Sahle-Work Zewde com o primeiro-ministro Abiy Ahmed 

Em África sopram ventos novos.

Há catorze meses, o ex-ministro da Defesa, João Lourenço, sucedeu a José Eduardo dos Santos ao fim de trinta e oito anos na presidência de Angola. E com palavras novas, logo na tomada de posse: «A corrupção e a impunidade têm um impacto negativo directo na capacidade de o Estado e os seus agentes executarem qualquer programa de governação. Exorto, por isso, todo o nosso povo a trabalhar em conjunto para extirpar esse mal que ameaça seriamente os alicerces da nossa sociedade.»

Não foi um discurso de circunstância! Um ano depois, o presidente Lourenço libertou a economia angolana das garras da família dos Santos: exonerou Isabel da presidência da Sonangol, a petrolífera estatal, e o irmão José Filomeno da presidência do fundo soberano do país e desfez alguns contratos lucrativos que o seu antecessor tinha assinado a favor da sua prole. Entretanto, em fins de Setembro, dá-se o inimaginável: Filomeno é detido preventivamente, acusado pelo Ministério Público de associação criminosa, falsificação, tráfico de influências, burla, peculato e branqueamento de capitais.

Pepetela, o escritor angolano recentemente homenageado na Escritaria, o festival literário de Penafiel, disse que o presidente Lourenço surpreendeu, «porque fez mais do que muita gente esperava».

Também na Etiópia sopram ventos de mudança. Em Fevereiro de 2018, o primeiro-ministro, Hailemariam Desalegn, demitiu-se depois de uma onda sangrenta de protestos de oromos e amaras ateada pelos planos de expansão da capital para terrenos agrícolas oromos. A coligação que detém o poder desde 1991 chamou, em Abril, Abiy Ahmed, ex-militar doutorado em paz e segurança, para chefiar o Governo.

Ahmed é o primeiro oromo – o maior grupo étnico etíope com cerca de 40 milhões de membros – a chefiar o Governo do país. Houve alguns oromos na presidência da República, mas o cargo é cerimonial.

O novo primeiro-ministro, filho de mãe copta e pai muçulmano, levantou o estado de emergência, soltou os presos políticos, permitiu o regresso dos exilados, desbloqueou a Internet e prometeu abrir o negócio das telecomunicações à iniciativa privada.

Mais, fez as pazes com a Eritreia – Asmara e Adis-Abeba envolveram-se numa guerra fronteiriça entre 1998 e 2000 –, visitou Asmara e celebrou o novo ano copto (a 11 de Setembro) com o dirigente eritreu Isaias Afwerki na fronteira reaberta. A Eritreia, por seu turno, refez as relações com a Somália e o Jibuti.

A emergência de Ahmed na cena política etíope foi saudada como «milagre de Deus» pela população cansada dos desgovernos em Adis-Abeba e nos nove Estados da federação.

Omar al-Bashir, o presidente sudanês com mandado de captura do Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra e contra a humanidade no Darfur, trocou as penas de falcão pelas de pomba da paz ao apadrinhar acordos de cessação de hostilidades entre Salva Kiir e Riek Machar, no Sudão do Sul, e as milícias anti-Balaka e Seleka que se gladiam na República Centro-Africana.

Ventos novos que geram expectativas de mudanças maiores sobretudo na Eritreia, que o regime de Afwerki transformou em campo de concentração. Sem inimigos, já não pode justificar o serviço militar obrigatório até aos 50 anos e manter o país a ferro e fogo.

17 de outubro de 2018

Pedro Nascimento, LMC: OBRIGADO




Queridos amigos e amigas, 

Hoje, de um modo especial, uma palavra inunda o meu coração: obrigado!

Obrigado a Deus pelo grande amor que me tem, pelo Seu perdão constante e pela Sua grande paciência para com as minhas fragilidades!

Obrigado à minha família simplesmente pelo que são para mim, pelo que fizeram de mim, por tanto amor recebido! Diz-nos Saint Exupéry: «foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a tornou tão importante para ti». Foi o tempo que me dedicaram que vos torna tão importantes para mim. Peço ao Senhor que vos fortaleça e rogo à Mãe do Céu que vos acolha no seu regaço, vos proteja e vos dê a paz de coração! Não estão sós, nem eu irei só. Acompanhar-nos-á o Senhor e o Seu Amor, acompanhar-nos-á o amor que me têm e o amor que vos tenho. Nunca tenham medo. Como nos dizia São Daniel Comboni, «não podemos temer nunca quando temos uma mãe poderosa e amorosa que roga por nós.»

Obrigado à minha paróquia, aqui representada pelo pároco, mestre e amigo, cónego Júlio Rodrigues. Foi nesta comunidade que recebi o Baptismo, a Eucaristia e a Confirmação. Foi aqui que fui catequizado, que dei os primeiros passos na fé, que aprendi os valores do Reino. Posso afirmar que a minha partida para a Etiópia é consequência desta comunidade, que me tornou filho de Deus, me ajudou a sentir-me Igreja e a viver em Igreja. Que São Barnabé acompanhe este seu filho, que o venera!

Estendo este agradecimento às comunidades de Figueira e Barros, Fronteira, Vale de Maceiras e Vale de Seda. Obrigado por tudo o que partilhámos e vivemos juntos, pelo que rezámos, pelas tantas vezes que louvámos o Senhor, pela amizade fraterna. Todos somos missão e a vossa presença aqui é uma presença missionária!

Obrigado Senhor Arcebispo, meu pastor, pela presença amiga. Obrigado por ser um bispo missionário, que desde o início convocou Évora para a missão. Consigo, também eu digo: «Não é a Igreja que faz a missão, é a missão que faz a Igreja.»

Obrigado, queridos amigos. Cada um de vós é uma graça para mim, sois dons que Deus me tem dado. Obrigado pela vossa presença que é sinal de Amor e que tanto me enternece o coração. «Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós; deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.»

Obrigado à família comboniana por tudo o que tem feito por mim, por me ajudar a perceber a vocação de Deus na minha vida, por tudo o que me ajudou a viver, pelas experiências de fé fantásticas que me proporcionou. Que o Senhor nos ajude a viver a missão segundo o carisma de São Daniel Comboni, que possamos ser as mil vidas que Comboni queria dedicar à missão. Obrigado especial aos Leigos Missionários Combonianos, movimento ao qual pertenço e com o qual caminho na vivência da minha vocação laical, missionária e comboniana. Que o Senhor nos ajude a ser santos e capazes, tal como nos pedia Comboni. Queridos LMC, sendo fracos, é na graça de Deus que somos fortes, santos e capazes.

Queridos amigos e amigas, a missão faz-se com os pés dos que partem, os joelhos dos que rezam, as mãos dos que repartem e com a generosidade das comunidades que enviam.

Para mim, o mais importante da missão é a oração e a leitura da Palavra de Deus. Sem oração não há missão. Por isso vos peço: rezem por mim! Rezem pela minha fragilidade, pela minha pequenez. Peçam ao Senhor que me acompanhe, me fortaleça e me ajude a amar com gestos e, se necessário com palavras, o povo para onde me envia, que eu saiba amar e tenha compaixão das pessoas, que eu não tenha medo de me enlamear e de me ferir, por amor às pessoas que passarão a ser a minha comunidade. Agradeço a vossa generosidade!

Etiópia é o destino para onde Deus me envia. Sabem porque parto? Acredito e confio que essa seja a vontade de Deus para mim.

Às várias questões que me colocam: porque vais? Porquê agora? Não gostas do que fazes? Porque deixas a advocacia – curiosamente faz hoje três anos que fiz a minha agregação? A todas elas tenho uma só resposta: Sei em quem pus a minha confiança! A decisão que tomei é a resposta às várias inquietações que Deus colocou no meu coração. Depois de muito discernimento, de muita luta interior, de muitas dúvidas e medos, decidi abrir o meu coração e seguir a Sua vontade. Digo-lhe como o profeta Isaías: «eis-me aqui Senhor, envia-me!». E porque sei em quem pus a minha confiança, também sei que, tal como aconteceu com os profetas de Emaús, o Senhor caminhará comigo a meu lado, será o meu Deus e eu serei o seu filho muito amado. Quando me perguntam se vou sozinho de Portugal, digo sempre que não! Se Deus está comigo, se eu sou templo do Espírito Santo, como poderei ir só?

Tenho consciência de que esta partida terá várias dificuldades: a língua, nova cultura, os medos, a saudade…. Mas, também nesta comunidade, tive exemplos fantásticos de amor, de entrega e de fidelidade na dificuldade que muito me ensinaram e prepararam para agora. Recordo-me, em especial, de um membro desta comunidade. Seu nome era Fausto. Um homem de uma fidelidade a Deus incrível. Apesar das dores, dos problemas de saúde, nunca deixou de participar na Eucaristia. Caiu muitas vezes ao chão no caminho, aleijou-se… Mas sempre foi fiel a Deus e sempre quis viver Deus. Nunca o ouvi queixar-se de dores e era impossível não as ter… Não havia um único dia em que não rezasse o terço. Não sabia ler nem escrever, mas sabia mais de Deus do que eu algum dia saberei… As suas dificuldades eram muitas, mas a sua fidelidade e amor a Deus eram maiores!

Por isso, peço ao Senhor que me ajude a ser fiel ao caminho que escolheu para mim pois, como dizia o Pe. Ivo Martins, missionário comboniano, «a grandeza da missão não está naquilo que fazemos mas naqu’Ele que nos envia.»
Pedro Nascimento, LMC

16 de outubro de 2018

PÃO PARA TODOS



Hoje celebra-se o Dia Mundial da Alimentação, uma boa ocasião para tomarmos consciência da realidade de hoje em termos de comida e da falta dela.

Uma em cada 11 pessoas passa fome: 815 milhões numa população de 7,6 mil milhões. Os dados são das Nações Unidas.

Mas não tem necessariamente de ser assim: a Terra produz alimentos suficientes para todos.

A FAO diz que uma pessoa para viver precisa de cerca de 2500 quilocalorias (kcal) por dia e o mundo produz uma média de 2790 kcal por dia por pessoa.

Se o que a terra produz em termos de comida é mais do que o necessário, então porque é que há fome no mundo?

As razões são variadas: distribuição inadequada de recursos, perda de alimentos devido a armazenamento e transporte deficientes (cerca de um terço), desperdício de comida (mais um terço é estragada), uso de culturas para a produção de energia (os chamados combustíveis vedes), açambarcamentos de terras, insegurança, mudanças climáticas, etc.

O papa assinala-o na encíclica Laudato si’: «O aquecimento causado pelo enorme consumo de alguns países ricos tem repercussões nos lugares mais pobres da terra, especialmente na África, onde o aumento da temperatura, juntamente com a seca, tem efeitos desastrosos no rendimento das cultivações» (LS 51).

As grandes multinacionais agroindustriais proclamam os organismos geneticamente modificados (OGM) e transgénicos como o milagre para aumentar a produção alimentar e resolver o problema da fome.

É verdade? É pura propaganda.

As sementes transgénicas que colocam no mercado são híbridas e não dão para semear segunda vez. O que eles querem controlar é o mercado mundial das sementes. Depois, ainda não se sabe dos efeitos dos OGM na biologia e no organismo humano.

Jesus propõe-nos a partilha do que temos como princípio de solução do problema da fome. O milagre da multiplicação dos pães ensina isso (Marcos 6, 38-44).

Jesus ensinou os discípulos – e cada um de nós – a pedir «o pão nosso de cada dia nos dai hoje» (Mateus 6, 11; Lucas 11, 3).

É importante notar que Jesus não ensinou: dá-me o pão meu de cada dia; ele usa o plural: «dá-nos o nosso pão de cada dia.»

Quanto rezamos o pai-nosso estamos a pedir o pão de todos, a responsabilizar-nos pela alimentação de todos, incluindo os 815 milhões que passam fome.

Vivemos essa responsabilidade através da partilha do que temos, através de uma sobriedade feliz de vida, combatendo o desperdício e a obesidade.

Rezemos para que não falte a ninguém o pão necessário. Que a quem mais tem, menos lhe baste, e a quem menos tem, mais se lhe acrescente.

15 de outubro de 2018

BENI CHORA: MASSACRES E EBOLA


Quero ante de mais apresentar as minhas saudações na confiança no Amor criador e redentor. O mundo de hoje e particularmente a RDC (República Democrática do Congo) apresenta-nos a injustiça e a corrupção como algo de normal. Um mundo onde os intelectuais são confundidos com os ignorantes, um planeta onde o PODER em exercício não tem ideais, um presidente que não se preocupa do seu povo, mas apenas se aproveita das riquezas do país em benefício próprio, deixando o povo abandonado à sua triste sorte. Assiste-se a um mundo humano sem humanidade, onde reina o poder do mais forte e o pequeno é espezinhado e massacrado. É a expressão da animalidade privada da racionalidade.


O que é que se pode dizer dos últimos massacres, roubos, violações em Ruvenzori, Beni, Oicha, etc.?
Gostaria de salientar aqui as últimas incursões dos presumíveis rebeldes e as suas atrocidades antes de vos apresentar a epidemia do Ébola. Não há praticamente nenhum dia em que não haja vítimas de massacres. No entanto aqueles que mais nos chocaram são os que aconteceram do 03/09/2018 até ao 15/09/2018 que causaram mais de 40 mortes e a debandada da população.

Do 16/09/2018 ao 30/09/2018 foi atacado o centro da cidade de Beni, onde se encontram uma guarnição de tropas congolesas e a MONUSCO (os soldados das Nações unidas no Congo). Os atacantes depois de ter matado duas pessoas raptaram 15 crianças cujas idades variavam de 0 aos 17 anos, incluindo uma criança de três meses.

Durante esses massacres, um suposto rebelde foi morto. Este não tinha qualquer identidade, a não ser a de militar. Tudo leva a crer que era um membro de uma guarnição militar do Congo. Isso até prova em contrário deixa-nos perplexos a ponto de não sabermos quem são realmente os supostos rebeldes que matam os seus compatriotas inocentes e por quê? Fontes locais em Beni confirmam que são os mesmos soldados congoleses mandados pelo governo.

Nas últimas semanas, nenhuma atividade escolar se realizou em Beni. Assim a greve prolonga-se de semana a semana, devido aos contínuos massacres que espalham o terror e a morte.

Em virtude de nossa fé em Jesus, nosso Libertador, não pararemos de gritar. É uma lâmpada que ilumina o mundo, mesmo que o mundo não o queira.

Certamente, com o salmista, podemos dizer que o inimigo agora está a rir-se de nós, mas temos uma palavra de convicção de que nada escapa aos olhos de Deus: quem mata pela espadada, com a espada perecerá. Quem quer que seja que pratique a injustiça e a violência receberá o fruto da mesma. É hora de não cruzarmos os braços, mas de agir como pacificadores, mesmo se desta exija o sacrifício supremo. Que o mundo congolês se atenha a ele. É hora de testemunhar e tirar a vida das mãos do mau pastor que está matando suas ovelhas.

Então queria dizer-te: este caso também é teu. Como poderíamos ficar em silêncio sobre tais situações? As consequências são sérias: mortes repetidas, a taxa de pobreza aumenta de dia para dia nas famílias, o número de crianças marginalizadas, traumatizadas, viuvez e escola fechadas, aldeias desertas, ninguém desta geração pode ficar indiferente ao sofrimento deste povo. Não é esta situação de pobreza e de miséria que está na base de epidemias como ébola e a outras doenças?


Ebola em Beni

A região de Beni na RDC, foi a segunda a ser confirmada como zona afetada pelo Ebola este ano, depois de ter sido erradicada de Bikoro. Esta epidemia não foi e não é um mito. É real. Ela causou a perda de várias pessoas. De acordo com uma fonte no local de Mangina, uma comunidade rural cerca de 30 km de Beni, em Maio de 2018 esta epidemia provocou várias mortes. Dada a precariedade das condições foi necessário esperar até agosto para que esta epidemia fosse detetada.

Apesar do Ministério da Saúde implantar rapidamente o seu equipamento para tratamento do Ebola, continuam a aparecer novos casos, isto porque há uma resistência por parte das pessoas e também por causa de uma dimensão política e comercial no procedimento do Ministério da Saúde. Como consequência, dos 80 mortos confirmados poderíamos adicionar muitos outros casos, que não foram publicados.

O Ebola veio reforçar ainda mais o enfraquecimento da região a todos os níveis. Apresenta-se como um dos maiores meios não só de isolar esta região, mas também de seu despovoamento. É necessário que a população local continue a observar as medidas preventivas disponibizadas pelos serviços de saúde para limitar os danos ao mínimo possível. Mas como fazê-lo em plena ameaça de guerras?

Em conclusão: na República Democrática do Congo, todos os meios são permitidos para que o PODER atual continue e a vida dos cidadãos é ignorada, como se a única realidade fosse as riquezas naturais do Congo, esquecendo que a verdadeira riqueza são as pessoas. A luta ainda é um longo caminho a percorrer. Qual pastor pode ficar em silêncio quando suas ovelhas estão sendo comidas?

Testemunho de um postulante comboniano de Beni