8 de dezembro de 2019

OBRIGADO!


Nestes seis anos de serviço missionário como provincial disse e escrevi muitas palavras. Kalamta ketir, dizem os árabes. Mas há uma que tenho que repetir sem parar: OBRIGADO!

Primeiro, obrigado ao Deus unitrino, porque esteve sempre comigo de tantas formas e através de tantas encarnações. De facto, «de tudo sou capaz naquele que me dá força» (Filipenses 4, 13). Esta frase de Paulo condensa a minha experiência de vida desde os votos perpétuos em maio de 1986 e ganhou novos matizes neste sexénio.

Depois, obrigado a cada um dos coirmãos pela confiança depositada em mim através da eleição para um cargo que não queria, pelos conselheiros que me deram, pela cooperação imensa nestes seis anos de liderança. Foi um serviço sinodal: caminhámos juntos à procura de respostas para os apelos do Espírito, o ator da missão, à Província.

Aceitei a vossa escolha com muita trepidação e em obediência. E vivi seis anos muito interessantes, de crescimento, de descoberta, em saída. Finalmente, tive o tempo que tantas vezes ansiei para ler, pensar, aprofundar, rezar, ser, estar…

Houve horas difíceis, mas também senti solidariedade e preocupação pelo bem comum.

Peço desculpa por nem sempre ter estado à altura da responsabilidade que me confiastes. Sei que nem sempre tive a disponibilidade afectiva para ser um irmão maior presente e próximo e por isso peço a tua misericórdia.

No momento em que escreve este bilhete de agradecimento não sei o que o Conselho Geral me tem reservado. Os irmãos maiores sabem que o meu coração quer voltar à Etiópia e que não gostaria de ir para Roma.

Toca-me muito a palavra do Senhor a Abraão: «Deixa a tua terra, […] e vai para a terra que Eu te indicar. […] Abençoar-te-ei, engrandecerei o teu nome e serás uma fonte de bênçãos» (Génesis 13, 1-2).

Vai e serás abençoado, serás bênção!

Foi assim na Etiópia, no Sudão do Sul e em Portugal. E vai ser assim, com certeza, onde a Trindade Santa me enviar a participar da sua única missão. Mesmo em contraciclo: quando queria ir para o Sudão, mandaram-me para a Etiópia; quando pensava regressar à Etiópia, propuseram-me o sul do Sudão. Fui e não me dei mal!

Por isso, vou acolher com alegria a «obediência» que o Senhor da missão me dá através do Conselho Geral. Primeiro, contudo, tenho que «recauchutar» a anca esquerda. Espero que o processo seja rápido!

Aproveito para te desejar Boas Festas de um Santo Natal e de um 2020 abençoado. Sabias que a manjedoura mais apropriada para o Deus-Menino nascer é o teu coração? Escancara-lho!

Dou os parabéns ao P. Fernando Domingues por ter sido escolhido e nomeado superior provincial a partir de 1 de janeiro de 2020 e peço que o Espírito do Senhor o assista neste novo serviço-chave.

Durante estes anos passei muitas vezes um a um os nomes dos membros da Província em frente ao Santíssimo para agradecer e abençoar. É nesse espírito que invoco a bênção de São Daniel Comboni: «Sempre peço ao Senhor por vós, pela vossa felicidade, pela vossa harmonia, por vossas almas, por vossos corpos. É a prece mais espontânea e sincera que me pode sair do coração» (Escritos 675).

Reza também por mim.

E, já agora faz-me um favor: não deixes que te roubem a alegria de seres missionário comboniano! Hoje e sempre. Amen.

6 de dezembro de 2019

ONDE O BACALHAU É REI



O Natal ainda vem longe mas, aqui e além, ouço dizer que já vem perto, que está mesmo a chegar. É uma quadra do ano em que, por vezes não podemos senão dar espaço à mente e à imaginação em busca de beleza, brilho e contemplação. Lá fora, na rua, apesar do frio, gente pára a admirar os enfeites, as luzes coloridas e as vidraças carregadas de montras. E a neve lá está, real ou imaginária, ao alcance do olhar ou mesmo debaixo dos pés. No aconchego e quentinho de casa, a família deseja reúne-se à volta da mesa tradicional onde o bacalhau é rei e superabundam guloseimas e doces. E uma boa pinga também não poderia faltar. Traz-se o pinheirinho e segue-o, de perto, o pai natal de barbas brancas com o baú das prendas. Por fim, vem a figura singular e exótica dos reis magos que, atravessando o deserto, chegarão a Belém, montados em camelos… Bem, mas, para tal, no país onde me encontro como missionário, o Sudão, nem preciso de imaginação: o deserto e os camelos são cá de casa.

«E o Menino? Um Natal cheio de tudo sem, sequer, O mencionar? Que gralha!» Parece que já estou a ouvir o teu murmúrio. Mas, ainda bem, pois, dessa maneira, puseste-o à vista, o qual era, precisamente, o meu desejo. Entraste, em cheio, no tema. Parabéns! Na verdade, o Nascimento de Jesus é a base de tudo o que, porventura, se venha a dizer ou fazer à volta do Natal. As tradições e os costumes que se criaram ou se vão criando, no tempo e no espaço, contribuem para vivermos as festas natalícias com bom espírito. No entanto, ao que vejo e não vejo, cada vez fico mais convencido de que, com o Natal tão secularizado deste nosso tempo de hoje, há o perigo de andar só pela rama, fazendo excelentes celebrações, acabando por chamar Natal àquilo que, realmente, não é. Porque falta o essencial. Falta o festejado. Falta o Menino Jesus.

Sou apologista da alegria completa e bem festejada. Mas que dizer de um presépio que ostenta, porventura, uma gruta admirável se o Menino não passa de uma frágil estatueta que não impressiona nem mexe com a nossa vida? A propósito, permito-me contar o que há uns anos atrás me aconteceu em Nyala, Darfur, com um grupo de jovens amigas e amigos reunidos à volta do presépio. A um dado momento, abaixei-me, peguei no Menino Jesus e, voltando-me para eles, disse: “nasceu para mim e para ti. Mas Ele não quer que fiquemos encantados e distraídos a olhar para a sua figura. Jesus tem o caminho marcado pelo Pai. Caminhemos com o Menino do Natal. Quanto a mim, foi por isso que eu vim para o Darfur e me encontro aqui hoje no meio de vós.”

Uma jovem, de nome Miriam, simpatizante cristã que, num futuro próximo deseja receber o Baptismo reagiu, confusa. A sua voz soou-me quase como uma repreensão: «Abuna, padre, foi realmente por isso que tu saíste da tua terra? Custa-me crer que, lá no teu país, o Natal não seja muito mais divertido do que aqui, no Sudão». E, quase querendo mostrar o que sabia a respeito te tão sagrado tema, continuou: «Pois deixa que te diga, eu tive ocasião de ver festas de Natal num programa de Televisão… lindo de verdade, coisa impossível de realizar aqui no nosso país. Não tenho bem a certeza, mas parece-me que também havia um Menino Jesus lá nesse show televisivo».

A reacção de alguns do grupo foi evidente: a Miriam estava longe de saber o que significa o verdadeiro Natal cristão. Da minha parte, compreendo que ela, não sendo cristã, tenha falado do seu Natal como um show que encontrara num qualquer canal televisivo. Mas ficaria realmente triste e preocupado se aquelas mesmas palavras viessem da boca de um cristão. Naquele mesmo instante, os meus olhos toparam com Henry, um seminarista de teologia, sudanês. Adivinhei no seu rosto um ar de reflexão, quase preocupante. Não me foi difícil ler o seu pensamento imediato. Conhecia-o como um jovem de fé responsável. Que sentimentos despertaria nele esta festividade cristã tão distintiva? Hesitou um momento mas, por fim, revelou o que lhe ia no coração:

«Quando era ainda catraio, gostava de ouvir os meus pais contar-me a história do nascimento de Jesus com todos os seus pormenores. Era um tema que a minha mãe repetia frequentemente, dando a impressão de que isso era tudo e só o que ela sabia e tinha para me ensinar. Mais tarde, no seminário, soube que a celebração da Páscoa é, sem dúvida alguma, superior à festa do Natal. E também fiquei a saber porquê: é que a Ressurreição é o tope e o máximo da fé cristã. Um dia, contei-lhe esta minha majestosa descoberta. E da sua boca saíram palavras de sabedoria que, até hoje, guardei com carinho. Foi então quando me disse que a Páscoa da Ressurreição é, de facto, a base da nossa fé, mas não podemos, tão-pouco, negar a importância do Natal. Jesus não poderia ter ressuscitado, se não tivesse morrido. E não poderia ter morrido, se não tivesse nascido.»

Os jovens manifestavam interesse em escutar o Henry que, entretanto, concluiu, citando palavras de sua mãe: «Meu filho, celebra o nascimento de Jesus, o Natal, com toda a solenidade, pompa e alegria. Mas nunca percas de vista o Menino de Belém que sua mãe Maria pousou no berço-manjedoura. Acompanha-o sempre nas suas palavras e obras… até ao dia em que irá morrer na cruz e nos conduzirá à Páscoa da Ressurreição. Desculpa se te fiz esperar até hoje para ouvires esta suprema verdade. A minha demora, propositada, sobre este assunto, foi para que fixasses bem na tua mente que Jesus, verdadeiramente, nasceu neste nosso mundo e, como ser humano, se encaminhou para a morte e ressurreição. Porque há pessoas, meu filho, que negam a encarnação de Jesus. Negam a sua humanidade. Negam o Natal.»

Não conheci a mãe do Henry mas revejo-me nas suas palavras. Deus encarnou em Jesus. Humano entre os humanos, Ele caminhará até chegar ao grande dia, aquele domingo, em que a manjedoura se transformou em túmulo. Um túmulo vazio. E, naquele mesmo instante, a Páscoa aconteceu.

Nasceu para mim e para ti. Para todos. Ai de nós, se perdermos de vista o Menino da manjedoura. Caminhemos com Ele para a meta do domingo de Páscoa, onde a Salvação nos espera. É por essa razão que os missionários partem. Para convidar os seus semelhantes a caminhar os caminhos da Salvação que o Natal, junto com a Páscoa, nos oferece. Verdadeiramente, na alegria do Natal já entrevemos e avistamos a alegria da Páscoa.
Feliz da Costa Martins 
Padre missionário comboniano 
El Obeid, Sudão

4 de dezembro de 2019

ADEUS MALÁRIA?


A malária pode ser erradicada se houver boa vontade.

Quando pensamos em animais perigosos, evocamos leões, leopardos, búfalos, hipopótamos, rinocerontes e afins. Contudo, o animal mais feroz é o minúsculo mosquito, responsável pela morte de 725 mil pessoas por ano através da transmissão por picada de doenças como a malária e a dengue.

A malária ameaça 3,4 mil milhões de pessoas em 97 países. A fêmea de cerca de 40 espécies do mosquito anófeles é o vector do parasita plasmódio que leva a malária de pessoas para pessoas por meio da sua picada. O parasita mais agressivo é o plasmódio falciparum, responsável pela maioria dos casos fatais da doença.

Em 2017, a Organização Mundial da Saúde reportou 219 milhões de episódios de malária em 87 países. Faleceram com a doença 435 mil pessoas, a maioria crianças com menos de cinco anos. A malária mata uma a cada dois minutos. Noventa por cento dos casos ocorrem em países africanos e quase três quartos dos episódios estão localizados em dez países a sul do deserto do Sara (Burquina Faso, Camarões, Gana, Mali, Moçambique, Níger, Nigéria, República Democrática do Congo, Tanzânia e Uganda) e na Índia.

Portugal teve malária endémica até 1950, sobretudo nas bacias dos rios Mondego, Sado e Águeda. O aquecimento global pode trazê-la de novo. Em português usamos duas palavras para designar a doença: malária (que vem do italiano e refere-se ao mau ar das águas paradas onde os mosquitos se multiplicam) e paludismo (do latim palude, paul ou pântano). Chama-se sezão (ou sezões) à febre provocada pela malária.

A malária atinge grandemente a economia dos países afectados, porque atinge a força de trabalho e gasta a fatia de leão dos orçamentos para a saúde.

Até 2000, o combate à malária esteve estagnado, porque é uma doença dos países pobres sem grandes recursos económicos. Na viragem do século, os casos de malária começaram a baixar significativamente devido ao financiamento de meios profilácticos. A Fundação Gates tem financiado a investigação. Em 2017, foram registados mais três milhões de casos que no ano anterior.

O combate à malária passa sobretudo pela prevenção. Dois meios importantes: a desinfecção de águas estagnadas com insecticidas (o DDT foi muito usado) e o uso das redes mosquiteiras para proteger as pessoas durante o sono (porque o anófeles é activo sobretudo ao anoitecer e de madrugada). Organizações não-governamentais têm distribuído milhões de redes tratadas com insecticida (que às vezes acabam na pesca).

O parasita tende a ganhar resistência às terapias. Por isso, as vacinas são uma linha fundamental no combate à malária. Neste momento, há organismos (incluindo portugueses) com trabalhos de investigação adiantados em relação a uma vintena de vacinas para prevenção da malária. Gana, Quénia e Maláui já estão a usar a RTS,S, a primeira vacina para crianças.

Outras soluções mais tecnológicas – como a da Microsoft – passam pelo uso de drones com armadilhas para apanhar mosquitos que, aliados à biologia molecular, podem detectar surtos de malária e actuar antes que o problema afecte a saúde pública.

Os odores são outra linha de investigação. Os mosquitos são atraídos pelo cheiro das pessoas afectadas pelo parasita, mas parecem detestar o odor das galinhas que podem ser um repelente natural dos mosquitos.

30 de novembro de 2019

NOVO BEATO COMBONIANO


O Papa Francisco autorizou o Prefeito da Congregação da Causa dos Santos a publicar o decreto sobre o milagre atribuído à intercessão missionário comboniano padre José Ambrosoli.

Na mesma audiência o Cardeal Angelo Becciu apresentou os milagres de um beato e de outro servo de Deus e o martírio de 16 católicos durante a guerra civil de Espanha e de um padre polaco nos anos 40 do século passado.

A publicação do decreto sobre o milagre abre as portas à beatificação do médico da caridade.

José Ambrosoli nasceu em Renago, Itália, e entrou para os combonianos em 1951 depois de frequentar um curso de medicina tropical em Londres.

Foi ordenado em Dezembro de 1955.

Partiu para o Uganda em 1956 com 32 anos, mês e meio depois da ordenação.

Começou por trabalhar em Gulu, no norte do Uganda, entre o povo Acholi.

Em 1961 foi transferido para Kalongo, na mesma região.

Ali fundou o hospital que serviu como médico-cirurgião por mais de 30 anos.

«Deus é amor, há um próximo que sofre e eu sou o seu servo», dizia Ambrosoli.

As pessoas chamavam-lhe «doctor ladit», o grande médico.

Faleceu a 27 de março de 1987, em Lira, depois de os soldados o terem forçado a evacuar o hospital devido à guerra civil.

Tinha 65 anos.

O hospital de Kalongo foi reaberto dois anos depois com o nome de Dr. Ambrosoli Memorial Hospital.

Há mais três combonianos na linha da beatificação: o bispo António Roveggio, sucessor de São Daniel Comboni, os padres Bernardo Sartori e Ezequiel Ramin e o Ir. Josué Dei Cas.

27 de novembro de 2019

BUTEMBO: CIDADE MORTA, PARALISADA


Em Butembo, hoje, é mais um dia de «cidade morta e paralisada».

Trata-se de mais uma acção de protesto marcada por uma associação cívica contra os massacres na cidade-gémea de Beni, que fica a 50 quilómetros de distância, e especialmente contra a presença das tropas das Nações Unidas (MONUSCO) nesta região.

A associação cívica e alguns analistas acusam os capacetes azuis de não agirem com determinação contra os grupos armados que matam e trucidam todos os dias os habitantes das zonas agrícolas da região de Beni (Kivu-Norte, República Democrática do Congo) e da própria cidade de Beni.

Em Beni, as jerarquias militares da ONU dizem duas coisas:
  1. a operação militar «de grande envergadura» proclamada em outubro pelas autoridades militares congolesas foi organizada e executada sem que os militares da MONUSCO tenham sido informados e menos ainda convidados para a planificação e a execução;
  2. há uma campanha de desinformação contra a MONUSCO lançada por indivíduos ou organizações interessados em provocar ainda maiores desastres.
Os militares da MONUSCO são também acusadas de participar na rapina dos minérios estratégicos da República Democrática do Congo (tântalo, cobalto...) e na violação de mulheres, prática trágica de que são responsáveis quer o exército nacional quer os grupos terroristas nacionais e estrangeiros.

Há mais de mil razões para marchas e outras ações de protesto.

Na foto, estou com uma missionária comboniana, em Beni, numa manifestação da Igreja Católica para que a memória das vítimas dos incessantes massacre sacuda o país e o estrangeiro.

Nos braços da Cruz está escrito «Beni-Cidade e Território». Na vertical: «Em memória dos massacrados».

É escandaloso o silêncio do Estado congolês e dos meios de comunicação internacionais...

Entretanto, membros do Governo congolês e comandantes militares convidaram para a cidade de Goma os seus parceiros das Nações Unidas, do Rwanda e do Uganda para combinarem a eliminação dos grupos armados que, deste país, destabilizam os vizinhos.


O Governo de Tshisekedi prepara a repartição país pelos seus vizinhos. A indignação popular é grande.
P. Claudino Gomes 
RD do Congo

21 de novembro de 2019

SIMPLIFICAR É PRECISO



O Papa Francisco escreve na introdução do Motu próprio Communis vita que «a vida em comunidade é um elemento essencial da vida religiosa».

Esta é uma afirmação com que todos estamos de acordo, mesmo que alguns a vivam como uma penitência maior.

Digo mesmo que a vida comum, a vida fraterna é o quarto voto que não é pronunciado mas que é vivido dia após dia e é o mais trabalho nos dá!

Para os nossos fundadores a vida em comum era fundamental. Chamavam-lhes nomes diferentes. O meu, Daniel Comboni, descreveu a comunidade como «cenáculo de apóstolos».

É o modo como vivemos juntos a senhoria de Deus nas nossas vidas que atrai ou repele os jovens da nossa – para muitos estranha – forma de vida.

O que estamos mesmo a precisar é de um «simplex» para avida comum. Deixar de ritualizar o viver juntos e em vez disso humanizar a nossa vida fraterna para nos sentirmos mais humanos e, por conseguinte, mais divinos.

A nossa vida fraterna comum deve ser um Evangelho vivo, um Evangelho aberto para os nossos contemporâneos que sofrem de iliteracia religiosa. Viver o novo céu e a nova terra que todos esperamos na dinâmica do advento que se entrevê.

O P. José Cristo Rey García Paredes escreveu a obra É possível outra comunidade sob a liderança do Espírito.

Propõe-nos transformar a vida em comum na participação da dança eterna da Trindade Santíssima com graça e arte, a dança divina da missão – uma alegoria que arrebatou a minha imaginação.

15 de novembro de 2019

AMAZÓNIA: NOVOS CAMINHOS DE CONVERSÃO



O Papa Francisco surpreendeu ao convocar umo Sínodo Especial para a Amazónia sob o tema «Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral».

O evento decorreu no Vaticano de 6 a 27 de outubro de 2019.

O Documento Final, apresentado pelos padres sinodais ao papa, apresenta os caminhos novos através como conversão em cinco andamentos: da escuta à conversão integral, e novos caminhos de conversão pastoral, cultural, ecológica e sinodal.

O documento tem 120 propostas, curtas e muito práticas, na linha do Instrumento de Trabalho.

O debate pós-sinodal está a centrar-se demasiado sobre as questões da ordenação presbiteral de diáconos permanentes casados e de diaconisas enquanto a grande novidade está na conversão como caminho de renovação eclesial.

A ordenação de homens casados é, a meu ver, uma falsa questão, porque a Igreja latina já tem muitos padres nessas condições. São normalmente padres anglicanos que não quiseram partilhar o altar com mulheres ordenadas e foram recebidos e re-ordenados na Igreja Católica.

Os católicos dos ritos orientais podem escolher entre o sacerdócio solteiro – de onde se elegem os bispos – ou casado como os das comunhões ortodoxas.

Os padres sinodais colocaram a questão na perspectiva correta: é mais importante possibilitar regularmente a Eucaristia e os outros sacramentos às comunidades remotas que têm a visita de um padre uma vez por ano ou a disciplina do celibato? A Eucaristia é a fonte e o cume da vida cristã e um direito de cada baptizado. O celibato – a promessa de ficar solteiro – é uma disciplina na Igreja Romana.

A questão do diaconado feminino continua em aberto à espera de novas reflexões. Não me parece que seja implementado a curto prazo.

Importa sim é reconhecer o papel essencial da mulher leiga e consagrada na vida quotidiana das comunidades sem padre residente. Esta é uma novidade do sínodo: oficializar essa realidade. O documento fala não só do reconhecimento dessas lideranças como da necessidade de as mulheres integrarem os órgãos de decisão e de governo da Igreja.

O documento giza um diagnóstico muito sombrio da situação da Amazónia, um território partilhado por nove países e com quase 34 milhões de habitantes: o «coração biológico» da humanidade está afectado por uma dramática situação de destruição de territórios (já perdeu 17 por cento da floresta) e dos povos, sobretudo os indígenas (nº 10).

Propõe uma conversão integral (nº 18) que parte da relação pessoal com Jesus para mudar as relações interpessoais e com a casa comum e propõe a definição de «pecado ecológico» (nº 82), outra novidade.

O documento dá voz à aspiração de uma Igreja com rosto amazónico, uma igreja indígena audaz com ministérios, ministros e ritual próprios expresso na linguagem local através da encarnação do Evangelho nas culturas autóctones.

Reconhece o lugar das religiosas, religiosos e congregações como equipas missionárias itinerantes que vão fazendo caminho e propõe a passagem da pastoral das visitas à presença mais permanente sobretudo nas zonas onde mais ninguém quer estar (nº 40).

Os consagrados são enviados a proclamar a boa nova no acompanhamento de proximidade aos povos indígenas, aos mais vulneráveis e aos mais distantes a partir de um diálogo e anúncio através de comunidades intercongregacionais, respeitando a cultura e as línguas indígenas para chegar ao coração dos povos (nº 97).

O documento pede uma conversão ecológica para responder à crise socio-ambiental sem precedentes contra a atitude voraz e predatória no uso da Amazónia e das suas riquezas (nº 71).

Há ainda a notar a inversão da pirâmide eclesial. O documento começa por falar da missão dos leigos e religiosos e termina com a dos ministérios ordenados.

O Documento Final fecha com as palavras «uma Igreja de rosto amazónico e em saída missionária».

A saída missionária é apresentada ao longo do documento como a chave para a renovação da Igreja na Amazónia como o é para as Igrejas diocesanas e para a Igreja universal.

As comunidades eclesiais de base – que o documento revalida (nº 36) – são também chamadas «pequenas comunidades eclesiais missionárias que cultivam a fé, escutam a Palavra e celebram juntas a vida do povo» (nº 95).

Espera-se com grande expectativa a Exortação Apostólica pós-sinodal que o Papa prometeu estar pronta até ao Ano Novo.