17 de outubro de 2017

TODOS À MESA POR UMA MESA PARA TODOS



DECLARAÇÃO CONJUNTA DE DIFERENTES CONFISSÕES RELIGIOSAS

NO DIA MUNDIAL DA ALIMENTAÇÃO

Lisboa, 16 de Outubro de 2017

Por ocasião do Dia Mundial da Alimentação 2017, que tem este ano como tema "Mudar o futuro das Migrações - Investir na Segurança Alimentar e Desenvolvimento Rural", diferentes confissões religiosas reuniram-se à mesma Mesa, em solidariedade com toda a Humanidade e em especial com todos os irmãos que sofrem situações de pobreza e fome.

Sabemos que hoje em dia o planeta produz alimentos suficientes para todos e, no entanto, em 2016, o número de pessoas subnutridas cronicamente no mundo aumentou para 815 milhões, acima de 777 milhões em 2015. Múltiplas formas de desnutrição coexistem, com países que experimentam simultaneamente altas taxas de desnutrição infantil e obesidade adulta. O excesso de peso e a obesidade infantil está a aumentar na maioria das regiões do mundo e em todas as regiões no caso dos adultos.

O agravamento generalizado de conflitos armados, associado ao impacto de desastres naturais e alterações climáticas têm vindo a exacerbar uma realidade que revela causas estruturais de injustiça e exclusão social e territorial. A competição por recursos naturais limitados (especialmente água e terra) sem respeito pelas comunidades locais e o Bem Comum; a mercantilização de bens alimentares, sujeitos a especulação, torna-se neste contexto ainda mais inaceitável, bem como a falha de sistemas de regulação e de proteção social nas zonas de conflito e zonas mais afetadas por desastres naturais.

Este ano o tema do Dia Mundial da Alimentação realça esta realidade: "Mudar o futuro das Migrações - Investir na Segurança Alimentar e no Desenvolvimento Rural". Em 2015, mais de 65 milhões de pessoas viram-se obrigadas a abandonar a sua Terra devido a conflitos. Mais de 19 milhões de pessoas tiveram de deslocar-se depois de sobreviver a desastres naturais. Muitos procedem de zonas rurais: agricultores, pastores e pescadores. Com contornos diferentes, esta é uma realidade que tem marcado também o nosso país, com o terrível flagelo dos incêndios florestais que revelam falhas estruturais graves na gestão justa dos territórios rurais de minifúndio do interior.

A luta contra a fome e a má nutrição vai muito além da produção de alimentos. A fome e a pobreza extremas podem eliminar-se através da implementação de estratégias de segurança alimentar e nutricional baseadas no Direito Humano a uma Alimentação Adequada, assentes no desenvolvimento rural inclusivo e em sistemas alimentares mais justos e sustentáveis.

Todos nós estamos conscientes de que não é suficiente a intenção de assegurar a todos o pão de cada dia, mas é necessário reconhecer que todos têm direito a ele e portanto devem poder desfrutar do mesmo. O que fazer? Como fazer mais e melhor? A Alimentação está no coração da Agenda 2030 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis, uma agenda universal que a todos responsabiliza. Com este encontro queremos começar por nos questionar a nós mesmos, e por pôr em prática os ingredientes que sabemos serem o sal de qualquer negociação e transformação social: os valores da paz, da solidariedade, do diálogo e da partilha no Cuidado da nossa Casa Comum.

Dispomo-nos a colaborar com a FAO na implementação de estratégias locais de nutrição e sistemas alimentares sustentáveis, bem como no esforço de implementação da estratégia de segurança alimentar e nutricional da CPLP.

Dispomo-nos a colaborar com a Comissão Nacional de Combate ao Desperdício Alimentar na implementação de estratégias de sensibilização e educação que entendam pertinentes, potenciando o trabalho que já realizamos quer de mudança de atitudes e comportamentos, quer de canalização de potenciais desperdícios para apoio alimentar.

Dispomo-nos a colaborar com a Secretaria de Estado das Florestas e Desenvolvimento Rural na reflexão e implementação de políticas públicas e estratégias locais que reforcem modelos agroecológicos e a agricultura de pequena escala, favorecendo a estruturação dos pequenos proprietários agroflorestais e sistemas alimentares locais que aproximam consumidores (individuais e coletivos) dos produtores, como fator chave de dinamização e revitalização integrada do território, bem como de educação das novas gerações.

Pedimos que, connosco, assumam hoje o compromisso de dar vida às políticas e estratégias que coordenam, de forma inclusiva e participativa, assente nesta que pode ser uma inspiração para todos: Todos à Mesa por uma Mesa para Todos.

Que as Mesas a que cada um se senta cada dia, seja em casa com a família, seja na Celebração Religiosa, seja na negociação de políticas, tenha como centro as Pessoas e o bem Comum.

10 de outubro de 2017

CORAGEM PARA O FUTURO


Hoje faz 136 anos que faleceu São Daniel Comboni; uma morte com três dezes: às dez da noite de dez de outubro – o mês número dez – de 1881, em Cartum, a capital do Sudão.

Sinto vontade de revisitar o texto do P. João Dichtl, o jovem missionário austríaco que custodiou os últimos momentos de Comboni num relicário, memorial sagrado feito de palavras e sentimentos numa carta ao Cónego João Mitterrutzner de Bressanone um dia depois da morte do nosso Pai e Fundador. É bom ler a história através dos olhos dos seus atores.

Recordemos a narrativa comovida e comovedora que nos envolve e devolve à missão: «Grande Deus! O telégrafo falou. Ontem pelas dez (não sei sequer a hora exata) o grande bispo Comboni, abençoando a sua missão, passou à outra vida. Morreu nos meus braços; sugeri-lhe aos ouvidos os últimos suspiros de amor. Enxuguei-lhe as últimas lágrimas! Oh quanto estou agradecido a Deus por ter-me concedido, missionário inexperiente, ainda sem fazer 24 anos, esta grande graça. Das 10h30 de domingo (9 de outubro) não o deixei um momento. Queria-me junto a si, não podia estar sem mim, e sujeitou-se-me como uma criança. Como agradeço o Senhor e quanto me sinto feliz de ter podido oferecer estes últimos serviços ao meu amadíssimo Pai, aquele que me introduziu no santuário, e de ter gozado a sua confidência última e plena! Ontem de tarde quis que prometesse uma vez mais a fidelidade à missão. Fi-lo. Jurei querer morrer no vicariato. “Ou Nigrícia ou morte!”, dizia-me Comboni. Não se preocupe comigo. Se eu tivesse que seguir imediatamente o meu bispo, fiat! Mas sinto um vigor extraordinário e forças como nunca. Graças sejam dadas a Deus. Pobre missão! Pobres negros! Se os tivesse visto! Mas chega. Receba hoje o último beijo, a última saudação, o último obrigado do seu amigo bispo.»

O P. Dichtl não era nenhum missionário-noviço. Comboni tinha uma grande estima por ele, conseguiu uma dispensa do Vaticano para ser ordenado antes do tempo. E escreveu: «P. João Dichtl e P. José Ohrwalder são uns missionários de primeira ordem, com grande espírito de sacrifício e verdadeiramente santos» (Escritos 6666).

O P. Dichtl era o pároco interino de Cartum à altura da morte do fundador. Escreveu no registo dos óbitos que as febres perniciosas foram a causa da morte do bispo de Cartum.

Quem apanhou a malária sabe por experiência própria do grande desconforto e mal-estar que febre alta, os suores, as tremuras e espasmos causam.

Daniel Comboni não se preocupa com o seu bem-estar. Está agónico, às portas da morte, mas o que o preocupa é a fidelidade dos seus à missão.

Fez jurar a Dichtl um juramento mínimo, o juramento maior expresso em quatro simples palavras: «Ou Nigrícia ou morte!»

A missão era a sua preocupação: «À [missão] consagrei toda a minha alma, o meu corpo, o meu sangue e a minha vida!» (Escritos 5256). Até ao fim derradeiro, até ao último suspiro de amor.

Os Annali della Associazione del Buon Pastore publicaram no fascículo n.º 27 de janeiro de 1882 a primeira biografia de Comboni, um texto não assinado de 45 páginas intitulado Mons. Daniele Comboni, Vic. Ap. Dell’Africa Centrela e le sue opere.

Na introdução, o texto é apresentado como «simples exposição das épocas e das coisas principais que se referem e ele e à missão».

O memorial da vida e obra de São Daniel Comboni regista as palavras-testamento do fundador: «ele próprio recomendo-lhes coragem para o presente acrescentando, muito comovido, “e sobretudo para o futuro”.»

Coragem para o presente, porque os missionários não paravam de morrer… E o seu próprio fim estava por um fio.

E uma comovida coragem sobretudo para o futuro! Será que Comboni já lia no horizonte carregado a grande tormenta mahdista que destruiu todo o seu labor apostólico? Ou deseja essa coragem comovida a nós, os seus filhos e herdeiros, 150 anos depois do Instituto das Missões para a Nigrícia ter sido fundado?

A mesma coragem que a Madre Geral Maria Bollezzoli recomenda às missionárias de Comboni numa carta expedida de Verona com a data de 18 de outubro de 1881: «Filhas caríssimas, coragem! Sede fortes e generosas, não vos deixeis abater; [...] caminhai seguras sobre as pegadas deixadas pelo vosso magnânimo pai.»

Coragem vem do vocábulo latino coraticum que junta a palavra cor (coração) ao sufixo aticum (que indica acção). Etimologicamente quer dizer agir ou fazer com o coração, ser cordial. É também um termo bem comboniano: aparece 113 vezes nos Escritos de S. Daniel Comboni.

A razão diz-nos que vivemos numa sociedade pós-cristã, que os jovens já não se interessam pela nossa (estranha) forma de vida, que a animação missionária é cada vez mais difícil de fazer, que estamos a envelhecer, que estamos a morrer.

Somos tentados a descalçar as sandálias da missão, pôr as pantufas da consagração e esperar tranquilos a irmã morte no sofá da desesperança. E que o último apague a luz e bata a porta antes de partir.

No dizer desconcertador de Blaise Pascal «o coração tem razões que a razão desconhece».

O coração hoje diz-nos para permanecer dedicados à missão de Deus, da qual participamos, onde quer que estejamos, até ao fim. Porque se aqui envelhecemos e diminuímos, na África rejuvenescemos e crescemos. O eurocentrismo prega-nos partidas e tolda-nos o discernimento…

O coração hoje diz-nos que estamos sempre na idade da missão para testemunhar a alegria de sermos discípulos missionários no Portugal de hoje como cenáculo de apóstolos de formas legíveis para as novas gerações.

Viver os nossos dias com a coragem que Comboni nos deseja e dá é meter o coração em tudo o que fazemos; e colocar no Coração trespassado do Bom Pastor tudo o que somos e fazemos através da intercessão do fundador que incessantemente nos desafia: «Ou missão ou morte!»

Fazemo-lo com o coração e em comunhão com os nossos antepassados no Instituto! Pelos quais louvamos o Senhor num momento de silêncio – como no-lo pede o padre geral.

6 de outubro de 2017

CORAÇÃO MISSIONÁRIO


O P.e Tesfaye Tadesse e o Ir. Alberto Lamana escreveram uma mensagem muito fraterna, realista e cordial à província depois da memorável visita oficial de dez dias no início de julho passado. Um texto lindo, cheio de palavras de reconhecimento, encorajamento e também com um desafio: «Parece que a nossa presença tenha perdido aquela força que era característica do nosso passado.»

Por um lado, é normal que tenhamos perdido algum fulgor: os anos não perdoam! Por outro, somos desafiados a reavivar a nossa vocação de discípulos missionários combonianos.

Vêm-me à mente as palavras de Paulo a Timóteo, seu amigo de peito: «Por isso recomendo-te que reacendas o dom de Deus que se encontra em ti, pela imposição das minhas mãos, pois Deus não nos concedeu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e de bom senso» (2 Timóteo 1, 6-7).

Ou o que o Espírito diz à Igreja de Éfeso: «Conheço as tuas obras, as tuas fadigas e a tua constância; […] tens constância, sofreste por causa de mim e não perdeste a coragem. No entanto, tenho uma coisa contra ti: abandonaste o teu primitivo amor. Lembra-te, pois, donde caíste, arrepende-te e torna a proceder como ao princípio» (Apocalipse 2, 2-5).

Estes dois ícones das Escrituras cristãs desafiam-nos a não ter medo face ao futuro, mas a ser fortes, a amar com bom senso e a regressar ao entusiasmo do primeiro amor!

A missiva dos nossos irmãos maiores indica pistas para reavivar o dom e refazer o caminho do primeiro amor.

Uma é a comunidade fraterna «onde as feridas são curadas e onde se vive o perdão e se encontra um novo relançar à missão». E continuam: «a programação provincial e de comunidade é uma boa oportunidade para unir a necessidade missionária concreta e as capacidades de cada um dos confrades.»

Outra é a pastoral vocacional juvenil de rosto comboniano: apesar das dificuldades de comunicação com os mais novos – «Não é fácil chegar aos jovens com os nossos meios e com as estruturas tradicionais» –, recordam que «é necessário arriscar novos caminhos de contacto com uma geração para a qual os meios de comunicação, especialmente os digitais, são parte integrante da sua relação com o mundo.»

Não sei porquê, mas sinto que devo cruzar as palavras do P.e Tesfaye e do Ir. Alberto com a mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Missões, o nosso dia! O Papa argentino deu-lhe o título «A missão no coração da fé cristã» e pergunta: «Qual é o coração da missão?»

A resposta está no poder transformador do Evangelho (n.º 1)! E o Evangelho «é uma Pessoa, que continuamente Se oferece e, a quem A acolhe com fé humilde e operosa, continuamente convida a partilhar a sua vida através duma participação efetiva no seu mistério pascal de morte e ressurreição» (n.º 4).

Chega-se lá «através de uma espiritualidade missionária profunda vivida dia-a-dia e dum esforço constante de formação e animação missionária, envolvem-se adolescentes, jovens, adultos, famílias, sacerdotes, religiosos e religiosas, bispos para que, em cada um, cresça um coração missionário» (n.º 9).

Este coração missionário também tem que continuar a crescer e a bater mais forte no nosso peito – apesar dos anos, das feridas, das fadigas, da inércia, dos maus agoiros, das nuvens negras no nosso horizonte.

Como? São Daniel Comboni continua a inspirar-nos: «Ora bem, ante tão espantosas calamidades, sob o peso de tantas desditas, o ânimo do missionário terá de se encolher e desfalecer?... Nunca! A cruz é o caminho real que conduz ao triunfo. O Coração Sacratíssimo de Jesus palpitou também pelos pobres negros» (Escritos 6381).

Como notou a LMC Élia Gomes no testemunho publicado na Além-Mar de outubro, «a missão não se faz sem amor». Tanto lá como cá!

4 de outubro de 2017

VOTE-SE DE NOVO


Supremo Tribunal queniano ordena repetição das eleições presidenciais.
O Supremo Tribunal de Justiça do Quénia fez História ao declarar nulas as eleições presidenciais de 8 de Agosto em resposta à petição do candidato derrotado que denunciou a manipulação dos resultados finais em favor do presidente em exercício.

O presidente do Supremo, David Maraga, anunciou no dia 1 de Setembro que quatro juízes contra dois declararam o acto eleitoral «nulo, sem efeito e inválido», porque a Comissão Independente das Eleições e Limites «falhou, negligenciou ou recusou conduzir a eleição presidencial de um modo consistente com os ditames da Constituição» através de «ilegalidades e ilegitimidades».

Maraga disse que a eleição presidencial tinha de ser repetida dentro de 60 dias, prometendo um fundamento minucioso sobre a decisão dentro de três semanas.

A deliberação foi bem acolhida pelos apoiantes de Raila Odinga, que manifestaram na rua o seu júbilo. As redes sociais fervilhavam com comentários e partilhas sobre a coragem dos juízes, um acto sem precedentes no país e no continente, sinal da maturidade democrática do poder judicial no Quénia e marco histórico para a África.

Havia também algum receio de que a decisão judicial pudesse sacudir o país com uma onda de violência pós-eleitoral e o caos político. De facto, 28 pessoas foram mortas em confrontos depois de as urnas fecharem.

Uhuru Kennyatta, que fora declarado vencedor pela comissão eleitoral com 54 por cento dos votos, disse acatar a deliberação «política» do tribunal, embora não concordando com ela e apelou à paz. Mas depois virou-se contra os juízes acusando-os de «derrubar a vontade do povo», chamou-lhes vigaristas e prometeu «endireitar» o Supremo se for reeleito.

Raila Odinga, que perdia pela terceira vez a aposta presidencial, declarou a deliberação judicial «um dia histórico para o povo queniano e por arrasto para o de África.»

A transmissão electrónica de dados revelou-se o calcanhar de Aquiles do sistema eleitoral queniano. Custou 20 milhões de euros e foi concebido para combater a fraude eleitoral, vindo a facilitá-la em vez de a limitar. O funcionário que regulava o sistema de voto electrónico foi encontrado morto com sinais evidentes de tortura dias antes de os Quenianos irem às urnas.

Os observadores internacionais foram quem saiu pior da refrega. Apressaram-se a certificar o acto eleitoral declarando-o livre, credível, transparente e justo (apesar de algumas irregularidades), instando Odinga a aceitar a derrota. Os Quenianos dizem-se zangados com o que chamam indústria da observação de eleições: segue a campanha e a votação, mas não acompanha o processo de contagem. Com a validação imediata do voto, os observadores talvez quisessem evitar a violência pós-eleitoral que em 2007 ceifou 1200 vidas e deslocou 600 mil pessoas.

Entretanto, a comissão eleitoral já marcou um novo acto eleitoral para 17 deste mês de Outubro e pediu ao Supremo um acórdão pormenorizado para melhorar o sistema. Desta vez, a escolha limita-se a Kenyatta ou Odinga, adversários históricos, filhos de dois aliados na luta da independência do Quénia. A eleição de Agosto, que custou 420 milhões de euros, foi disputada por oito candidatos.

2 de outubro de 2017

BREVIÁRIO DAS GRANDES PERGUNTAS


O P. José Tolentino Mendonça apresentou hoje o seu livro mais recente – e o primeiro que publica com a chancela da Quetzal: «O pequeno caminho das grandes perguntas».

Trata-se de um conjunto de 155 pequenas reflexões sobre as grandes perguntas que trazemos dentro de nós que o poeta, teólogo, místico e pensador madeirense explora em grande e vibrante profundidade.

Fá-lo em diálogo com 111 pensadores de Alejandro Aravena a Zygmunt Bauman passando pelo Papa Francisco, São Francisco e Simone Weil, os três mais citados.

«Deveríamos dedicar mais tempo a escutar essas perguntas que pulsam no nosso interior, soterradas no atordoamento dos dias, omitidas pelo pragmatismo ou pelo medo, adiadas para um momento ideal que depois nunca é» – termina a segunda reflexão.

A sua escrita faz-me lembrar o conselho de Rainer Maria Rilke ao jovem poeta que o interpela: «Viva as perguntas agora. Talvez, gradualmente, sem perceber, viverá num dia distante na resposta.»

A apresentação foi uma conversa amena e profunda do autor com o teólogo Alfredo Teixeira e o escritor Richard Zimler moderada pela jornalista Maria João Seixas num fim de tarde cálido.

A moderadora classificou a obra como «um livro de horas».

O teólogo explicou que a obra de Tolentino Mendonça é um texto teológico que «passa da gramática de um Deus necessário para a gramática de um Deus desejável.»

O escritor norte-americano radicado em Portugal disse que «este livro vai encorajar outros leitores a assumirem os riscos do seu próprio ser.»

E citou: «Somos analfabetos do silêncio e esse é um dos motivos para não encontrarmos paz».

O autor explicou que o livro –  em prosa poética – revela o carácter unitário da sua obra feita de poesia e ensaio.

«A teologia ganha muito com o diálogo com a vida minúscula», disse.

Os capítulos de «O pequeno caminho das grandes perguntas» são curtos: não passam de uma página. Mas são densos, redondos, alimentam, fazem pensar. Recordam-me a broa de Avintes: um naco de pão dá muito que mastigar.

O P. Tolentino é um dos meus mestres de espiritualidade: faz-me reflectir e rezar com os seus textos em diálogo com as coisas pequenas da vida – que são as grandes questões da existência – e com outros grandes mestres do saber e das artes.

Vale bem a leitura! Mesmo para um retiro – com o livro numa mão e o Livro dos livros na outra.

30 de setembro de 2017

SEM MUROS


A liturgia de hoje oferece-nos um texto muito antigo mas também muito atual. É tirado da profecia de Zacarias, escrita cerca de 500 anos antes de Cristo.

Diz assim: «Jerusalém deverá ficar sem muros, por causa da multidão de homens e animais que haverá nela. E Eu serei para ela – diz o Senhor – uma muralha de fogo à sua volta e no meio dela serei a sua glória» (Zacarias 2, 8-9).

Num tempo em que se fala tanto de construir muros e puxar as fronteiras para longe - as da Europa já chegam às praias da Turquia e da Líbia, de derivas xenófobas, este texto é revelador e desafiante.

Jerusalém, destruída pelos sírios, não precisa de muros novos: é casa de esperança para uma multidão sempre a crescer, um regaço aconchegante, um seio acolhedor, um ponto de encontro multicultural.

As migrações são uma constante histórica: não há raças puras; trazemos nos nossos genes a herança de inúmeros povos andarilhos à procura de sítios e vidas melhores.

Se não temos muros nem fronteiras, se somos um espaço aberto e acolhedor quem nos protege?

Deus é a nossa muralha de fogo! Ele é Pai de todos e faz de nós seus filhos, irmãos uns dos outros… Entre irmãos não há muros sem limites! Há ternura, carinho.

Expulamos Deus da cidade e da vida e, por isso, sentimo-nos inseguros, vulneráveis aos de fora, ao diferente.

«E Eu serei para ela uma muralha de fogo à sua volta e no meio dela serei a sua glória», diz o Senhor.

Ireneu de Lião, um mártir do ano 200, traduz este conceito de uma forma assombrosa: «A glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus.»

23 de setembro de 2017

LATINICES


O Papa Francisco, na peregrinação centenária a 12 e 13 de maio, fez um gesto profético que – parece – passou ao lado dos liturgistas do Santuário de Fátima: celebrou a missa integralmente em português com aquele sotaque latino-americano gostoso.

O Papa quebrou o «protocolo litúrgico» em uso no Santuário que impõe que algumas saudações da missa e a própria consagração sejam feitas em latim.

Pensei que quem de direito tivesse tomado nota do gesto papal.

Enganei-me: o latim continua a ser usado na Eucaristia.

Por volta do santo os acólitos distribuem umas folhinhas brancas com letra e música de algumas partes da oração eucarística em latim…

Talvez por um saudosismo mal resolvido, um revivalismo anacrónico, a ânsia de uma linguagem mistérica... 

Tudo menos liturgia, porque a liturgia literalmente é a energia do/no povo!

Não percebo o alcance da opção.

Se é para chegar a mais gente – já que Fátima é um santuário internacional – então é uma falácia: o latim é uma língua morta e poucos a aprendem e menos ainda a usam…

A consagração em português seria entendida e seguida pela grande maioria dos peregrinos… Em latim nem todos os padres a seguem!

O Papa tem um amor enorme pela liturgia nas línguas vernaculares.

Recentemente publicou um motu próprio a dar mais controlo às conferências episcopais sobre a revisão dos textos litúrgicos em curso.

Antes eram os especialistas que «impunham» a tradução oficial.

A revisão do missal em inglês foi muito traumática: os revisores encartados impuseram uma linguagem litúrgica que tem pouco a ver com o inglês corrente.

A oração comum em Fátima é linda porque é feita em línguas vivas: dá um sentido de universalidade à liturgia e ao lugar.

O latim? Destoa!