8 de maio de 2017

Fátima: NUTRIR A CONVERSÃO MISSIONÁRIA


Os bispos portugueses escreveram na Carta Pastoral no Centenário das Aparições de Nossa Senhora em Fátima que «em sintonia com a piedade do nosso povo e sob a iluminação do Espírito Santo, nós, os bispos, sentimos a responsabilidade de aprofundar o significado deste acontecimento, de destacar a sua atualidade para a nossa vida cristã e de explicitar as suas potencialidades para nutrir a nossa conversão espiritual, pastoral e missionária» (nº 2).


1. O ACONTECIMENTO DE FÁTIMA

As aparições de Nossa Senhora aos três pastorinhos foram preparadas com três aparições do Anjo de Portugal e da Paz em 1916: na primavera na Loca do Cabeço; no verão junto ao Poço do Arneiro numa propriedade dos pais da Lúcia e em outubro de novo na Loca do Cabeço.

Lúcia recorda que o anjo lhes disse na segunda aparição: «Orai, orai muito. Os corações santíssimos de Jesus e de Maria têm sobre vós desígnios de misericórdia».

O anjo ensinou-lhes duas as orações: «Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não creem, não adoram, não esperam e não Vos amam» e «Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores.»

Na última aparição também lhes deu a comunhão.

Nossa Senhora apareceu pela primeira vez a Lúcia (10 anos) e aos manos Francisco (9 anos) e Jacinta (7 anos) a 13 de maio e pediu-lhe que viessem àquele lugar e àquela hora cada dia 13 durante seis meses.

As aparições de Fátima redimiram o número 13: para muitos é o número do azar; agora é número santo, o número da Senhora de Fátima. A Mãe apareceu-lhes a 13 de maio, junho, julho, setembro e outubro. A 13 de agosto as autoridades prenderam os pastorinhos e a Senhora apareceu-lhes nos Valinhos a 19 de agosto.

As aparições deram-se num contexto dramático: em Portugal vivia-se a crise política, religiosa e social profunda da primeira república (1910-1926). A Europa vivia os horrores da primeira grande guerra (1914-1918) com o uso de armas químicas e matanças de soldados em massa. Por isso, a mensagem de Fátima é uma mensagem de misericórdia e de paz.

A última aparição, a 13 de outubro, foi presenciada por cerca de 70 mil pessoas que viram o milagre do sol. Termina com a visão da Sagrada Família a abençoar o mundo.

Através das aparições de Nossa Senhora, Deus faz-se proximidade misericordiosa que quer que todos de salvem num ambiente de angústia e incerteza, do mal e do pecado através do convite à conversão, oração e penitência.

«Fátima impôs-se à Igreja», disse o cardeal Manuel Cerejeira, patriarca de Lisboa.

A primeira capelinha foi construída na Cova da Iria em 1919. Foi dinamitada a 6 de março de 1922 e reconstruída e consagrada a 13 de janeiro de 1923.

Entretanto, Francisco faleceu em 1919 e Jacinta em 1920, ambos vítimas da gripe espanhola. Lúcia iniciou a formação no Instituto das Doroteias em 1921. Testemunhou mais três aparições em Tuy e Pontevedra (Espanha) em 1925, 1926 e 1929. Na última, em Tuy viu escrito ao lado do crucificado as palavras Graça e Misericórdia.

A 13 de outubro de 1930, 13 anos depois da última aparição, o bispo D. José Alves Correia da Silva de Leiria declara as aparições aos pastorinhos dignas de crédito e autoriza o culto de Nossa Senhora do Rosário de Fátima.

A primeira peregrinação nacional deu-se a 13 de maio de 1931: Portugal foi consagrado ao Coração de Maria. A 31 de outubro de 1942, Pio XII consagrou-lhe o mundo.

A basílica da Senhora do Rosário foi consagrada a 7 de outubro de 1953.

A 13 de maio de 1967 Paulo VI visita Fátima no âmbito dos 50 anos das aparições. João Paulo II esteve três vezes em Fátima 12 e 13 de maio de 1982 (um ano após o atentado em São Pedro), 12 e 13 de maio de 1991 (depois da queda do muro de Berlim) e 12-13 de maio de 2000 para beatificar Francisco e Jacinta. Bento XVI esteve em Fátima em maio de 2010. O Papa Francisco está entre nós a 12 e 13 de maio para marcar o centenário e canonizar os dois pastorinhos.



2. DOM E CONVITE DA MENSAGEM


A mensagem do acontecimento de Fátima «é essencialmente um dom inefável de graça, misericórdia, esperança e paz, que nos chama ao acolhimento e ao compromisso. Esta interpelação à Igreja a que responda ao dom misericordioso de Deus está profundamente vinculada aos dramas e tragédias da história do século XX, mas conserva ainda a mesma força e exigência para os crentes do nosso tempo», recordam os bispos portugueses (nº 2), uma espiritualidade militante que nutre «a conversão espiritual, pastoral, missionária» (nº 3).

O nosso coração é grande campo de batalha entre o bem e o mal. Jesus desafia-nos a uma «guerra santa» contra o mal que tende a tomar conta de nós. Vivemos numa cultura que inflaciona o «eu», marcada pelo individualismo globalizado, pelo narcisismo e a autorreferencialidade. Vivemos literalmente dobrados sobre o nosso umbigo.

A Senhora convida-nos à oração (recentrar-nos em Deus), conversão (mudar da mente para o coração, deixar de fazer o mal para fazer o bem) e ao sacrifico (um ato de solidariedade).

Os bispos portugueses recordam que o Coração Imaculado de Maria revela o coração misericordioso da Trindade: «na Virgem Maria, no seu coração materno, transparece a vontade misericordiosa de um Deus Trindade que não é indiferente à situação das suas criaturas, que não abandona o pecador na sua culpa, que não esquece os desgraçados no seu sofrimento, que não ignora as vítimas e os excluídos, que sempre oferece o seu perdão e a sua consolação, que abre sempre a porta da esperança, quando os seres humanos se fecham no seu egoísmo ou na sua inconsciência.» (nº 10).

O Papa João Paulo II referiu que Fátima é um dos sinais dos tempos: um falar de Deus que o revela como pai clemente e compassivo.

Por outro lado, o Papa Bento disse que Fátima é a mais profética das aparições modernas.

É necessário notar que com o afastamento de Deus da vida pública sucederam-se os regimes mais mortíferos: o nazismo, o comunismo e a globalização financeira que fizeram e fazem milhões de vítimas.

O apelo à conversão e à penitência podem ser entendidos hoje como um convite a uma vida mais sóbria, menos consumista para protegermos os mais fracos e o meio ambiente. Fátima convida-nos a regressar à palavra que abre o anúncio de Jesus: CONVERTEI-VOS (Marcos 1, 15) passando da nossa cabeça ao coração de Deus através do bem-fazer.

Fátima convida-nos a colaborar com os desígnios de misericórdia. «Quereis oferecer-vos a Deus?», perguntou Maria aos pastorinhos a 13 de maio. Esta oferta a Deus em ato de reparação desafia-nos a passar de uma perspetiva mais intimista e julgadora a um compromisso com os mais pobres.

«A urgência das necessidades dos outros reclamava a penitência, o sacrifício e a reparação. O sacrifício do cristão só pode ser vivido a partir da oração e como oração», sublinham os bispos no nº 12.

É interessante notar a ligação entre o sacrifício e a oração, o sacrifico como oração, como mergulhar no mistério de Deus que está totalmente separado de si para nos acolher a todos.

Não posso rezar sem ter presente o outro – o mais necessitado – na minha oração. Recordamos que um paralítico foi curado por Jesus porque os seus amigos o levaram e tiveram o trabalho de escavar o teto da casa onde estava Jesus para descerem o amigo (Marcos 2, 1-12).

Lúcia dizia que os pastorinhos não podiam ir para o Céu felizes sozinhos. Por isso os bispos escrevem: «Neste caminho de purificação pessoal para a solidariedade está presente uma espiritualidade que aprofunda as suas raízes no núcleo do mistério cristão. Esta espiritualidade educa-se e concretiza-se em práticas que alimentam a atitude teologal e a identificação com Cristo: na Eucaristia, em que Cristo se faz sacramentalmente presente, e na oração do Rosário, em que Ele se faz narrativamente presente na meditação dos seus mistérios» (nº 12).



3. FUTURO DE FÁTIMA

Fátima é uma mensagem mística e profética que clama conversão e compromisso num mundo marcado pelo conflito e pelo confronto. A espiritualidade da religiosidade popular que carateriza Fátima é caminho para Deus que não é inimigo mas fonte de esperança e humanização.

Vimos a Fátima em peregrinação. «Peregrinar, caminhar juntos, leva-nos a sair de nós próprios e a abrirmo-nos aos outros, escutando-os e partilhando a própria existência, com o espírito missionário e sinodal que se espera hoje da Igreja» escrevem os bispos (nº 13).

Maria não fica indiferente ao nosso peregrinar. «A Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa mãe, sai ao encontro dos seus filhos peregrinos a partir da glória da ressurreição de seu filho Jesus, para lhes oferecer consolação, estímulo e alento», notam os bispos (nº 3).

Por outro lado, Maria é o caminho até Jesus, não o fim da nossa devoção. Há uma dimensão cristológica muito forte em Fátima. Foi Francisco que o expressou: «Do que mais gostei foi de ver a Nosso Senhor, naquela luz que a Nossa Senhora nos meteu no peito. Gosto tanto de Deus» (nº 9).

O verdadeiro milagre de Fátima é que nos sentimos bem nesta «casa maternal» como lhe chamou o Papa Bento onde nos sentimos «acolhidos, compreendidos, consolados, perdoados, reconfortados e renovados. O Santuário de Fátima converteu-se no coração espiritual de Portugal» (nº 4).

Fátima impõe-nos uma tarefa: não cairmos na indiferença diante de tanto sofrimento que nos chega a casa disfarçados como «espetáculo» através das televisões sensacionalistas e que nos cansa.

«O meu Coração Imaculado triunfará» – prometeu a Senhora aos três pequenos. O amor no fim triunfará, diz a cada um de nós.

Não viemos sozinhos a Fátima. Trazemos no coração e nas preocupações tanta gente, tanto sofrimento, tanta esperança, tantas intenções para entregar à Mãe de Deus. Fazemo-lo juntos, porque a Senhora mais branca que o sol que em Fátima apareceu aos pastorinhos é nossa Mãe, é Mãe de todos.

A Senhora de Fátima é modelo para a Igreja, porque segue Jesus até à cruz «atenta às necessidades dos próximos, aos clamores dos distantes» (Nº 14). Confiamos à Mãe de misericórdia as intenções que trazemos connosco e pedimos-lhe pelos povos sofredores do Sudão do Sul, da República Democrática do Congo, da República Centro-africana, da Etiópia, do Iémen, da Somália, do Darfur, dos Montes Nubas. Confiamos-lhe os cristãos perseguidos na Síria, na Líbia, no Egito, na Nigéria…

Maria é modelo do cristão convidado à conversão, isto é: erradicar do coração a tentação do domínio (nº 14), anúncio de misericórdia e de paz desde a aparição do anjo.

«Fiéis ao carisma de Fátima, somos chamados a acolher o convite à promoção e defesa da paz entre os povos, denunciando e opondo-nos aos mecanismos perversos que enfrentam raças e nações: a arrogância racionalista e individualista, o egoísmo indiferente e subjetivista, a economia sem moral ou a política sem compaixão. Fátima ergue-se como palavra profética de denúncia do mal e compromisso com o bem, na promoção da justiça e da paz, na valorização e respeito pela dignidade de cada ser humano», escrevem os bispos portugueses na sua Carta Pastoral (nº 15).

5 de maio de 2017

«MÃE, OS BÁRBAROS ESTÃO À NOSSA PORTA…»

Participantes no Simpósio de Limone 2017 @ APinto

Um grito ressoado muitas vezes através dos séculos na nossa Europa. Chegavam em vagas de terras distantes e selvagens. Chegavam saqueando, apropriando-se de bens e direitos conquistados com esforço e suor noutros tempos e por outras gerações. Falavam línguas desconhecidas, dialectos, vestiam de maneira diferente, rodeados de costumes e odores estrangeiros. Alguns regressavam depois aos lugares de proveniência, graças a Deus, mas outros tinham o atrevimento de querer ficar e viver nas nossas terras, entre nós, connosco, aproveitando-se de nós. Inconcebível! Se voltassem para as suas casas e nos deixassem em paz, de uma vez por todas! Defender-nos-emos deles com todos os meios, não queremos perder ou arriscar o nosso mundo, os nossos bens, a nossa cultura, a nossa igreja, o nosso estilo de vida.

Nos dias passados em Limone reflectindo sobre Migração e missão: uma nova Europa: de migrantes a cidadãos, apercebemo-nos de que, no final de contas, muitos – também hoje, mesmo entre os bons cristãos que encontramos nas nossas igrejas, mesmo no seio do nosso próprio mundo missionário – se identificam com quanto acima está descrito. Idênticos sentimentos, medos, intolerâncias, cansaços, rejeição. Está bem ajudar, partilhar, acolher, mas quando é de mais, é demais.

Também pessoas de envergadura, como S. Agostinho, olharam para as migrações do seu tempo com um sentido de grande receio e rejeição. Mas Agostinho intuirá, ainda antes e mais do que os seus contemporâneos, que as migrações dos povos dentro das fronteiras do Império Romano – migrações que desembocarão na conquista e no saque de Roma em 410 AD – não eram factos acidentais mas um acontecimento epocal, que perturbava o mundo romano desde os fundamentos e inaugurava uma nova era da qual não se podia ainda entrever os contornos mas que era também guiada pela mão providente de Deus.

Foi esta intuição de fundo que nos acompanhou nos trabalhos do Simpósio. As migrações são um facto estrutural, não uma passagem temporária. São um desafio mas também um recurso; não são só uma necessidade e uma urgência, mas são também um convite a ir além das fronteiras e das representações humanas, sociológicas, «cristãs», eclesiais e missionárias que até agora caracterizaram a Europa. Para além dos muros de defesa da «fortaleza Europa».

Os migrantes e as migrações representam um tempo de «crise» em toda a linha e, como em cada crise, mesmo se atormentada e sofrida, abrem-nos a um novo modo de sentir e viver, a criar espaço e contribuir para um rosto novo de sociedade e de igreja (um novo povo), aos necessários processos de reconciliação, a uma redefinição das linguagens e conteúdos antropológicos da integração.

Uma crise que nos obriga a admissões difíceis, a encarar mais o imigrado como um sujeito protagonista e como um dom, a maturar espiritualidade de fronteira, das margens, a empreender caminhos de conversão e diálogo. Mover-nos de uma óptica de caridade a critérios de justiça; de igrejas de rosto monoétnico a igrejas verdadeiramente católicas; do defender com unhas e dentes os nossos direitos adquiridos a uma maior partilha e acolhimento, para descobrir que se pode viver com menos sem viver pior, antes, chegar a um bem-viver.

Nós, o mundo da missão, mais uma vez nos sentimos chamados a fazer ponte, a tornar as diferenças espaços de encontro e de recíproca transformação. Começando por pôr em discussão o nosso estilo actual de vida, os nossos modelos socioculturais e económicos em modos mais radicais e abertos de quanto o têm sido até agora. Limone encorajou-nos nestes caminhos e conscientizações. Queremos partilhá-los com todos vós, em simplicidade e fraternidade.
Missionárias e missionários combonianos no Simpósio de Limone

4 de maio de 2017

INOVAR


Os tempos que habitamos são tempos novos: obrigam-nos a conjugar o verbo inovar em vários modos!

A começar pelo comunicar. A grande maioria dos consagrados pertencemos ao analógico, somos artesãos, trabalhamos com as mãos, damos tempo ao tempo. Para comunicar usamos a gramática, a voz, as cartas, o telefone…

A nova geração é nativa no digital: vive ligada à internet, dia e noite. Não escreve cartas, mas envia emails, sms, imojis, meias palavras, vídeos e fotos. Não usa o carteiro, mas as redes sociais; quer informações e emoções no momento, não tem paciência para grandes leituras, para tempos longos…

A internet e as redes sociais são os novos meios e espaços de comunicação, areópagos com códigos e instrumentos de linguagem próprios. Se queremos partilhar a alegria e a beleza da consagração e o sonho dos nossos carismas temos que frequentar esses espaços, aprender a usar os seus meios de comunicação desde os telefones inteligentes às linguagens do som e da imagem, familiarizamo-nos com a cultura digital.

Não adianta carpir as cebolas do egito da comunicação do passado: temos que emigrar do analógico para o digital e enfrentar os desafios da comunicação presente aprendendo a usar o Facebook, o Twittter, o Instagram, as páginas da internet, o correio electrónico, o vídeo…

A Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica publicou a 6 de Janeiro de 2017 umas orientações intituladas Vinho novo, odres novos – A vida consagrada desde o Concílio Vaticano II e os desafios ainda em aberto.

Vinho novo, odres novos: outra forma de conjugar o verbo inovar.

O documento é um exercício de discernimento prático para «ler práticas inadequadas, indicar processos bloqueados, fazer perguntas concretas, pedir razões das estruturas de relação, de governo e de formação sobre o apoio real dado à forma de vida evangélica das pessoas consagradas» como explica no penúltimo parágrafo da curta introdução.

Esta inovação tem a ver com a atualização histórica dos carismas face às realidades socioculturais que vivemos (as novas pobrezas) e a linguagem (simbolismo) para os comunicarmos às gerações novas.

Duas citações servem para ilustrar esta realidade.

Lemos no nº 7: «As novas pobrezas interpelam a consciência de muitos consagrados e solicitam aos carismas históricos novas formas de resposta generosa frente às novas situações e aos novos descartes da história. Daí o florescimento das novas formas de presença e de serviço nas múltiplas periferias existenciais».

Saltamos para o nº 14: «O cuidado em vista a um crescimento harmonioso entre a dimensão espiritual e a dimensão humana implica uma atenção específica à antropologia das diversas culturas e à sensibilidade própria das novas gerações, com particular referência aos novos contextos de vida. Só um reentendimento profundo do simbolismo que toca verdadeiramente o coração das novas gerações pode evitar o perigo de se contentarem com uma adesão apenas superficial, de tendência e até de moda, onde parece que a busca de sinais exteriores transmite segurança de identidade».

Estas orientações exigem respostas concretas de todos os institutos a começar pelos percursos formativos (os âmbitos trentinos de seminários e noviciados têm que ser substituídos, diz o nº 35), pela própria linguagem («a própria terminologia “superiores” e “súbditos” já não é adequada» lê-se no nº 24), à administração de bens e ao serviço da autoridade («que apele à colaboração e a uma visão comum sobre o estilo da fraternidade», salienta o nº 43).

As orientações têm a força para revolucionar e renovar a vida consagrada se forem seguidas através de uma obediência generosa e criativa!

Esta jornada de formação permanente certamente que nos vai dar algumas intuições concretas para começarmos a conjugar com mais constância e consistência o verbo inovar!

«Agora é tempo de vindima e de vinho novo. […] Chegou o tempo de guardar a novidade com criatividade para que conserve o sabor genuíno da bendita fecundidade de Deus», proclama o documento na conclusão (nº 55).

Vamos a isso, então!

2 de maio de 2017

MÃE ÁFRICA


A poeta angolana Alda Lara (1930-1962) concebeu Mãe Negra, um trecho tenso e intenso excelentemente musicado por Paulo de Carvalho. Fui beber a inspiração a esse poema telúrico, esse pranto profundo que fala de estrada, noite, mãos apertadas, cruzadas no regaço, lágrimas grossas em faces cansadas, voz no vento, saudade, buganvílias e cajueiros.

Mãe negra, mãe África!

A África é a mátria da humanidade, o seio imenso que acolheu o processo de hominização, o salto de qualidade do género humano que depois partiu para os quatro cantos da Terra.

Somos todos África, transportamo-la na herança genética, suspiramos por voltar ao berço de onde viemos. Dizem que quem beber a água do Nilo cedo ou tarde vai ter de regressar. Os Italianos descrevem esta saudade ancestral como «mal d’Africa», a doença de África.

Há uma imagem que se repete em cada mulher-mãe africana: a carregar um bebé às costas e outro no ventre, vergada sob o peso da sobrevivência sobre a terra vermelha a cavar o magro sustento para a família num horizonte aberto e sem fim, terra de riquezas naturais inúmeras, paisagens de cortar a respiração que o nevoeiro espesso da cobiça e da corrupção tenta esconder.

Mas anda no ar a alegria das vozes, dos cantos, dos tambores, das danças no fim do dia, no fim da noite; a solidão dos desertos, a planura da savana, a sinfonia da vida nas florestas tropicais, o esplendor dos picos altaneiros gelados, as costas cálidas de águas serenas, o sol escaldante, a lua feiticeira…

A primeira riqueza da mãe África, a que conta menos para as estatísticas da economia avara, são as pessoas, a riqueza maior do continente: 1,2 mil milhões espalhados por 54 países e nove territórios.

As suas entranhas estão prenhes de ouro, diamantes, crómio, platina; corre-lhe petróleo nas veias; e água, muita água. E as florestas fazem de cabelo – que motosserras assassinas vão cortando sem dó nem piedade, abrindo caminho à desertificação.

O solo vermelho africano está tingido pelo sangue dos escravos (de ontem e de hoje), das guerras pelo poder que autocratas querem perpetuar, das fomes, das secas, das enxurradas, das doenças (estranhas e triviais, mas homicidas na mesma), da morte!

Solo empapado, fertilizado pelas lágrimas grossas de dor e desespero das mães que vêem os filhos morrer, das mulheres e meninas vítimas de abuso pelos exércitos que usam a violação como arma de guerra para punir, humilhar; no Sudão do Sul, República Democrática do Congo…

Apesar da dor e da morte, a mãe África é um poema de vida, um hino à beleza, braços abertos e hospitaleiros que partilham, corpos que dançam e celebram até à exaustão, alegria. Roupas coloridas a esvoaçar na brisa da tarde, pássaros desenhando sonhos no céu imenso de azul.

Um amigo regressou recentemente de uma estada de seis meses em Kinshasa, na República Democrática do Congo. Perguntei-lhe o que trouxe de lá. «A vontade de voltar», respondeu.

Trazemos gravada na carga genética a saudade imensa da África, o nosso seio comum, o berço que nos embalou.

1 de maio de 2017

MENSAGEM PARA OS 30 ANOS DO "CENÁCULOS DE ORAÇÃO MISSIONÁRIA" POR OCASIÃO DO SEU X ENCONTRO NACIONAL

Muito estimada Doutora LILIANE VÉLIA MENDONCA, Coordenadora Nacional

Caríssimos irmãos e irmãs dos "Cenáculos de Oração Missionária"

Saudações em Jesus Cristo Ressuscitado.

Soube com alegria que este movimento de oração missionária celebra, em 2017, os seus 30 anos de vida.

Já passaram 30 anos desde aquele Domingo da Quaresma de 1987, em que às Colaboradoras e Colaboradores Missionários foi dirigido o convite de constituírem pequenos grupos de vizinhos. Estes haviam de conhecer melhor as situações do mundo e a Palavra de Deus, adquirir os sentimentos do Coração de Jesus por aquelas pessoas e países para, assim, colaborarem na evangelização e com os Missionários através da oração missionária em comum.

O convite foi bem acolhido. As Colaboradoras de Lombomeão (Vagos - Aveiro) fundaram logo os primeiros seis "pequenos grupos de oração missionária".

Desde então, muitos outros Cenáculos têm nascido e continuam a formar-se em Portugal e noutros Países. Cumprem a sua missão de, unidos a Maria como pequenos cenáculos de apóstolos, pedir a Deus o Dom do Espírito Santo para a Igreja em saída missionária e para o mundo, atentos às novas circunstâncias e às indicações do Papa.

Na beatificação de D. Daniel Comboni, S. João Paulo ll disse coisas importantes que convém lembrar sempre: os Cenáculos são missionários porque se unem em oração, que é a primeira e indispensável maneira de evangelizar e dão mais força ao vigor missionário das vossas Paróquias.

A Província Portuguesa dos Missionários Combonianos, que este ano celebra os 70 anos de vida e presença comboniana no vosso País, depois de vários anos de observação e trabalho, reconheceu a vossa inspiração no Carisma de S. Daniel Comboni, acolheu-vos como caminho valido de animação e espiritualidade missionária laical e recomendou-vos ao cuidado e empenho das suas Comunidades.

Estou-vos grato pela vossa dedicação à Oração Missionária em comum e pelas outras formas de colaboração e animação missionária que tendes criado. Agradeço também aos Animadores e Animadoras dos vossos Cenáculos, assim como a quantas e quantos vos acompanham e animam, nomeadamente os M. Combonianos, as irmãs M. Combonianas, as M. Seculares Combonianas, os Leigos M. Combonianos, o Instituto das Missionárias Reparadoras do Coração de Jesus.

Peço a Nossa Senhora, no Centenário das Suas aparições em Fátima e ao nosso Fundador São Daniel Comboni que intercedam por vós, vos abençoem e vos impulsionem a uma cada vez mais intensa e criativa santidade missionária nas vossas famílias e ambientes.

Eu também vos acompanho com a minha oração.

Com os parabéns e os melhores cumprimentos meus e dos Assistentes Gerais, abraço-vos em

Cristo Jesus.

P. Tesfaye Tadesse Geberesilasie MCCJ
Padre Geral

30 de abril de 2017

MENSAGEM DO SUPERIOR GERAL PARA OS 70 ANOS DOS COMBONIANOS EM PORTUGAL


Aleluia!
Louvai a Deus em seu Santuário, louvai-o no seu majestoso firmamento!
Louvai-o por seus grandes feitos, louvai-o por sua infinita grandeza!
Louvai-o ao som de trombetas, louvai-o com harpas e cítaras!
Louvai-o com tamborins e danças. Louvai-o com instrumentos de cordas e com flautas!
Louvai-o com o clangor dos címbalos, louvai-o, altissonantes trombetas!
Que todos os seres vivos louvem ao Eterno! Louvado seja o Senhor!
Aleluia!
(Salmo 150)


Sua Excelência Reverendíssima, Dom llídio Pinto Leandro, Bispo de Viseu,

Reverendo P. José da Silva Vieira, Superior Provincial dos Missionários Combonianos, em Portugal,

Prezados confrades combonianos,

Estimadas Irmãs Missionárias Combonianas e Missionárias Seculares Combonianas,

Estimados Leigos Missionários Combonianos,

Estimados sacerdotes, religiosos e religiosas, benfeitores e amigos, familiares dos nossos confrades combonianos, e a todos os aqui presentes,

Vos saudamos com afeto fraterno no nome do Senhor Jesus e do nosso Instituto comboniano.

Tudo quanto queremos, hoje, é que este seja um dia particular de ação de graças. Juntos, queremos agradecer a Deus pelos setenta (70) anos da presença e da vida dos Combonianos em Portugal. Uma efeméride ainda mais notável e jubilosa se a associarmos às celebrações que estão a decorrer, neste ano, para fazermos memoria dos 150 anos da fundação do nosso Instituto Missionário Comboniano.

Sim. Queremos agradecer, de modo especial, a todos os combonianos que, com as suas vidas, a sua participação, a sua contribuição e o seu sacrifício, escreveram as belas paginas da história dos 70 anos de presença comboniana neste País; e que, daqui, partiram para outras paragens de além-mar, de Moçambique ao Brasil, a Macau, e a tantas outras partes do mundo.

Isto significa que, destes 70 anos de história comboniana, em Portugal, fazem parte, também, outras histórias, que ultrapassam as fronteiras portuguesas, e são elas as histórias do Instituto e das Igrejas locais, em outros países e continentes, onde os confrades portugueses trabalharam e deram a vida ao serviço da Missão.

Queremos agradecer aos primeiros confrades que tiveram a inspiração de vir para Portugal para partilhar, com a Igreja e a sociedade portuguesas, o carisma missionário do nosso Pai e Fundador, São Daniel Comboni. Sim, agradecemos aos confrades que deram início a esta presença, tais como os padres Giovanni Cotta, Giorgio Ferrero e Ernesto Calderola, e, depois, a todos os outros que deram continuidade a esta obra maravilhosa, alistando tantas vocações combonianas entre os rapazes e jovens portugueses, que se tornaram uma grande bênção para a Missão e para as Igrejas e os povos para onde foram enviados.

Agradecemos a cada um dos confrades portugueses pelo seu SIM ao Senhor Jesus, pela sua proximidade a São Daniel Comboni e pela sua paixão pela Missão, no seio do Povo de Deus. Os confrades de origem portuguesa serviram o Senhor e o Povo de Deus, no passado e no presente do nosso Instituto, nos mais diversos sectores da pastoral, da formação, da animação missionária e da administração. Estes confrades deram o seu melhor como discípulos missionários nas Igrejas locais, nas comunidades, nas escolas e universidades, nas clínicas, nos hospitais, e nos Meios de Comunicação Social. Estiveram ao serviço da autoridade como superiores provinciais e como membros do Conselho Geral - caso do ex-Superior Geral, P. Manuel Augusto Lopes Ferreira, e do atual Vigário Geral, P. Jeremias dos Santos Martins - e ainda outros confrades que estiveram ou estão ainda empenhados nos serviços da Direção Geral.

Agradecemos também aos confrades de outras nacionalidades, e de modo especial aos italianos e espanhóis, que muito contribuíram para a vida da Província comboniana portuguesa. Do mesmo modo, agradecemos também aos outros confrades das demais circunscrições da Europa, da América, da África e da Ásia, que passaram por Portugal e que, de algum modo, também fizeram parte da história destes 70 anos.

Queremos agradecer ainda ao Senhor da vida pelos catorze (14) confrades portugueses já falecidos, os quais agora, desde a casa do Pai, continuam a exercer a missão de intercessão por cada um de nós e pela vida do Instituto: desde o mais jovem, o escolástico Daniel Fernando Ferreira da Rocha, falecido aos 23 anos de idade, ao mais idoso, o Irmão António Figueiredo da Silva, que partiu para a casa do pai, no ano passado. Agradecemos pelo dom da vida e do testemunho de cada um deles. E permitam-me recordar, em particular, um nome: o P. Ivo Martins do Vale, irmão do P. José Augusto Martins do Vale. Sim, queremos recordar o P. Ivo porque, no nosso país, a Etiópia, ele deu testemunho de um missionário comboniano alegre, de um gentil e dedicado sacerdote de Cristo ao serviço do povo Sidamo.

Recordamos ainda os confrades que abandonaram o Instituto e escolheram outras formas de vida. Para eles, deixamos aqui uma oração de agradecimento, porque também eles fizeram parte destes 70 anos de vida comboniana que agora estamos a celebrar. Obrigado pelo que fostes e fizestes pela vida do nosso Instituto. Na mesma linha de pensamento, lembramos todos os que passaram pelos nossos seminários, os ex-seminaristas combonianos, que, hoje, continuam a ser fermento de uma fé missionária, na sociedade portuguesa. Continuai a apoiar-nos com a vossa proximidade e amizade, e não percais, nunca, o espírito missionário comboniano.

Agradecemos às Irmãs Missionárias Combonianas, pelo facto de, ao longo destes 70 anos de vida, o Senhor nos ter abençoado e nos ter permitido partilhar do mesmo carisma de Comboni e da mesma vocação missionária. Obrigado, combonianas portuguesas, pela colaboração e por termos caminhado juntos todos estes anos de anúncio, de testemunho e de serviço missionário neste território.

Em Portugal, o carisma de São Daniel Comboni, dom do Espírito Santo, atraiu, ao longo destes últimos 70 anos, muitos outros homens e mulheres, leigos e leigas, que se consagraram e dedicaram à missão. Referimo-nos, em particular, às Missionárias Seculares Combonianas e aos Leigos Missionários Combonianos. O nosso sincero obrigado a todos e a todas, Seculares e Leigos, pela colaboração e pelo vosso exemplo e apoio. Obrigado pelo caminho que estamos a percorrer juntos.

O nosso agradecimento carinhoso também aos familiares dos nossos confrades e ainda aos benfeitores, colaboradores e amigos por nos terem apoiado - humana, espiritual e materialmente - no serviço missionário. Obrigado por nos terem proporcionado os meios para as nossas atividades de evangelização e animação missionária. Obrigado por nos terdes acompanhado, com perseverança e abnegação, ao longo destes 70 anos da nossa história em Portugal.

Queremos agradecer à Igreja local deste País, às dioceses e às comunidades paroquiais que nos receberam, nos incentivaram e apoiaram a nossa presença e as nossas atividades. Agradecemos a todos os senhores Bispos - e aqui gostaríamos de mencionar o primeiro, Dom José da Cruz Moreira Pinto, Bispo de Viseu, que nos recebeu e deu as boas-vindas, no dia 23 de Abril de 1947 -, a todos os reverendos párocos e demais agentes de pastoral pela amizade e pelo acolhimento na Igreja de Portugal.

Obrigado pelos sinais particulares de vida e de compromisso ao longo de todos estes anos, tais como, por exemplo: a formação de tantos jovens nos seminários, no Postulantado e no Noviciado; a publicação das revistas Além-Mar e Audácia; a animação e a formação missionária de grupos de jovens - como o JIM (Jovens em missão); os Cenáculos de Oração Missionária; o empenho na pastoral paroquial, dando particular atenção aos mais vulneráveis e aos imigrantes, como é o caso, por exemplo, da nossa presença em Camarate; as atividades realizadas em colaboração com outros Institutos religiosos e missionários e com outras organizações civis e religiosas, empenhadas na promoção da justiça social e ambiental, da paz e da reconciliação, e do dialogo entre as diferentes culturas e religiões. Obrigado por estes e por todos os outros sinais que revelaram e revelam ainda o dinamismo e a criatividade do nosso trabalho, neste País de grande tradição missionária e de grandes missionários.

A celebração dos 70 anos de história comboniana, em Portugal, ajuda-nos a preservar a confiança no Senhor, que continua a incentivar-nos e a realizar coisas belas através da vida de cada um de nós e do nosso Instituto. Esperamos e rezamos para que o Senhor continue a suscitar novas vocações missionárias, na Igreja portuguesa, e continue a chamar jovens, homens e mulheres, para seguirem a Cristo, na esteira de São Daniel Comboni.

Obrigado por tudo. E que São Daniel Comboni, São José e, muito em especial, a Nossa Senhora de Fátima - no centenário da sua visita aos pastorinhos, na Cova da lria -, intercedam por cada um e cada uma de nós!

P. Tesfaye Tadesse, MCCJ
Padre Geral

26 de abril de 2017

MEMÓRIAS DOS BONS «PERAS»


Decorria o ano de 1950 quando conheci os Missionários Combonianos do Coração de Jesus, que tinham vindo de Itália e haviam escolhido a diocese de Viseu, para sede da sua Ordem, três anos antes, em 23 de Abril 1947.

Os meus primeiros contatos com eles, aos meus 11 anos, tiveram lugar em Repeses nas Eucaristias Dominicais. O então meu Pároco, P.e Amadeu Lopes Gonçalves, entregara-lhes a capelania de Repeses a troco das aulas de português que dava no Seminário das Missões. O bom sacristão, o Sr. José «Loirinho», estava já idoso; e eu, desde cedo comecei a ajudar à Missa aos bons «peras» (nome que era dado aos Combonianos dado usarem ou farta barba ou «cavanhaque»). Eram ricas aquelas celebrações, onde as homilias num português meio italianizado, como, por exemplo, «una arranha»(=aranha) tejia una teiia»… Foi nessa altura que conheci os padres Ferrero, Peano, La Salandra, Calderola,Malaspina, Naldi, Sório… Com eles, nas Eucaristias dominicais, os cristãos passaram a ouvir um jovem a ler, em português, as partes que o celebrante, baixando a voz, lia em latim. E estávamos longe do Concílio Vaticano II.

Inicialmente nas suas bicicletas com proteção de rede para não se prenderem as batinas e, mais tarde nas suas «Cociolo» (bicicletas com motor a petróleo, mudanças de manete no quadro e pedais para os auxiliar nas subidas) aí estavam eles, pontualmente, para as eucaristias dominicais (às 8 horas da manhã) ou semanais (por volta das 6).

Os cristãos praticantes de Repeses, a que se juntavam, em maior quantidade, os de Paradinha, tinham pelos «peras» grande respeito e admiração. De igual modo, eram muito queridos pelo povo cigano, que, nessa altura, ainda nómada, acampava ao abrigo da capelinha de Santa Eulália. A prova desse respeito está nas dezenas dos que, quando o P.e Ângelo de La Salandra, com o seu «Cociolo», teve um desastre na curva de Fail ao regressar de um ato litúrgico em Canas de Sabugosa (hoje Canas de Santa Maria), enchiam a enfermaria do Hospital onde ele ficara internado. Uma cristã mais idosa, numa dessas visitas, ao vê-lo de barba a despontar e cheio de chagas disse: «Parece mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo.»

Eu, que sempre os admirei, aproveitava os meus tempos livres para os ir visitar ao Seminário das Missões. Foi ali que vi o trabalho dos Irmãos a tratar das galinhas «ligorne» e de coelhos de raça, que eu nunca vira, e o cuidado numa agricultura aprimorada. Vi também o primeiro trator, a plantação do pomar e da vinha. Nesses trabalhos mais duros, trabalharam alguns sacerdotes.

No Seminário das Missões, os sacerdotes eram, diariamente, procurados para confessarem, já que os cristãos viseenses os encontravam mais disponíveis. Alguns jovens das escolas viseenses (Colégio da Via Sacra, Escola do Magistério Primário, Liceu Nacional de Viseu, Colégio de Santo Agostinho, Colégio Português, Escola Industrial e Comercial de Viseu e os seminaristas do Seminário Maior) também gostavam de aí se confessar..

A porta do Seminário das Missões estava sempre aberta. Depois de aprenderem melhor a língua portuguesa, muitos desses missionários eram solicitados para pregadores nas festas em diversas paróquias da diocese.

Visitei, desde muito jovem, e por várias vezes, a construção do novo Seminário e a sua capela. Foi lá que conheci os Irmãos Eligio Locatelli e Igino Antoniazzi, mestres pedreiro e carpinteiro, respetivamente. O primeiro acabou por ir para as missões no Brasil; o segundo, encontrei-o em Carapira (Moçambique), já com quase 90 anos, deslocando-se diariamente para a carpintaria da Missão na sua já velha motorizada.

As técnicas por eles usadas na construção do Casa e Seminário, nos anos 48, eram mais aperfeiçoadas que as usadas em Viseu.

A primorosa pintura do retábulo do altar-mor da atual Capela do Seminário foi da autoria do P.e Alfredo Bellini, o mesmo sacerdote que mais tarde pintou um lindo quadro de Pedro a lavar os pés a Jesus e fez a decoração total da Igreja de Carapira. Foi um dos sacerdotes de quem fui muito amigo e a quem fiquei a dever muitos favores de amizade e orientação de vida; tal como aconteceu, entre outros, com os italianos padres Tarciso Zoia, Afonso Cigarini, Miguel Celis, Jorge Cosner…

Os anos da minha adolescência e juventude correram. Vieram os anos em que, no Natal e em Viseu, os Combonianos construíram um gigantesco presépio. Nessa altura, Viseu enchia-se de autocarros para visitarem este admirável presépio.



Trabalhando para e com os combonianos…
No ano de 1964 os alunos do Seminário das Missões, em Viseu, eram cerca de 200, vindos das mais diversas localidades de várias dioceses. O ensino era feito, sob a direção do P.e Gino Centis, com apoio e orientação da Telescola e a monitorização de sete professores (entre os quais a minha esposa e eu.

Os aspirantes a Irmãos, chegaram a Viseu vindos de Moncada, para aqui continuaram a sua formação. Formação que foi feita por Irmãos tecnicamente bem preparados, usando máquinas importadas de Itália, que eram ainda pouco conhecidas por cá. Delas destacamos um automóvel, que serrado ao meio, no sentido longitudinal, permitia aos alunos verem e manobrarem todas as peças que o constituíam. Dava gosto vê-los, com suas mãos sempre cheias de óleo, com grande alegria, seguirem as lições dos Irmão João Grazian e Gaspar Cebola. Ao receber como aluno o Irmão Gaspar Cebola, que aí acabou o Curso Industrial, a Escola Industrial e Comercial de Viseu entrava na vida do Seminário das Missões.

Falar do Irmão Gaspar é recordar o tempo em que batemos à porta dos Combonianos para ajudarem uma equipa de que fiz parte, na transformação do velho Asilo da Infância Desvalida no Internato Viseense de Santa Teresinha. Nessa altura, tomou ele conta da secção masculina do Internato, antes dos utentes serem, por favor, aceites no Lar Escola de Santo António. A ele se ficou a dever o evitar que os utentes durante a noite fossem cometer alguns roubos nas lojas da cidade. Os aspirantes a Irmãos foram também importantes na agricultura do quintal daquela casa.



…Após a minha aposentação

A minha ligação com os Combonianos nunca arrefeceu. Nas minhas horas vagas, como voluntário, deslocava-me ao Seminário para tirar dúvidas de Matemática.

Quando em 1996, estando a minha esposa já aposentada, me aposentei, e estando os nossos filhos com a sua vida orientada, dada a falta de professores de Português, fomos convidados pelo P.e Jeremias Martins, então Provincial dos combonianos em Moçambique, a ir em missão, como voluntários, para o Seminário Interdiocesano de Nampula. A vivência que aí tivemos enriqueceu muito as nossas vidas e as de toda a família.

Hoje, a minha esposa e eu pertencemos à Família Comboniana como Leigos Missionários Combonianos.
Prof. Valente