31 de dezembro de 2016

A FORÇA DA NÃO-VIOLÊNCIA


O papa repropõe a não-violência como método evangélico para uma «política para a paz» baseado no Sermão da Montanha. Uma proposta ousada e corajosa que nos devolve às origens do cristianismo e responde aos desafios de «uma terrível guerra mundial aos pedaços» em curso.

«Hoje, ser verdadeiro discípulo de Jesus significa aderir também à sua proposta de não-violência», destaca Francisco.

A mensagem do papa para o 50º Dia Mundial da Paz de 2017 – que se celebra a 1 de janeiro – faz uma leitura holística da experiência de todos os dias e revela o fio subtil que nos «cose»: os conflitos que preenchem noticiários e telejornais são os mesmos que enchem o meu coração.

Não há violências maiores e menores, nem violências de estimação. O coração humano é o campo de batalha onde a violência e a paz se defrontam, onde nasce o conflito. Daí que o papa proponha um roteiro cordial para o superar: admitir a violência que cada um carrega no coração e buscar a cura na misericórdia de Deus, através da solidariedade «como estilo para fazer a história e construir a amizade social».

A família é o primeiro laboratório da paz. A não-violência aprende-se de pequenino em casa na forma de lidar com os conflitos e atritos através do diálogo, respeito, busca do bem do outro, misericórdia e perdão.

A paz na família gera a paz entre a família das nações!

O desarmamento começa com palavras gentis, de sorrisos, gestos mínimos de paz e amizade, o pequeno caminho do amor de Teresa de Lisieux, que conduzem ao desarmamento global.

A violência dá sempre mais violência para gáudio e ganho de uns tantos «senhores da guerra» desviando recursos tão urgentes para a grande multidão dos pobres de hoje!

O Papa apela ao desarmamento, à proibição e abolição das armas nucleares juntamente com o fim da violência doméstica e do abuso sobre mulheres e crianças, do descarte das pessoas, dos danos do meio ambiente e do vencer a todo o custo.

«A violência não é o remédio para o nosso mundo dilacerado», afirma com veemência.

António Guterres, secretário-geral designado da ONU, defendeu no discurso de juramento a reforma do sistema de manutenção de paz das Nações Unidas.

Notou que os capacetes azuis muitas vezes são chamados a manter uma paz que não existe e propôs um continuum de paz baseado na prevenção, resolução de conflitos, manutenção e construção da paz e desenvolvimento.

A «ética da fraternidade e da coexistência pacífica» não seria mais efectiva para proteger e manter a paz entre os povos? Resultou na África do Sul e é incomparavelmente mais barata que a solução militar.

22 de dezembro de 2016

COMOVER


São Daniel Comboni e o Papa Francisco conjugam o verbo comover para porem em palavras as experiências pessoais profundas do mistério do natal.

O fundador descreveu aos pais numa longa carta o que sentiu ao visitar Belém em outubro de 1857: «Finalmente, à tardinha chegámos a Belém. Meu Deus! Mas onde quis nascer J. C.? Contudo eu quis nessa mesma tarde descer à afortunada gruta que viu nascer o Criador do mundo. Entrei, e embora o nascimento seja mais alegre que a morte, fiquei mais COMOVIDO que no Calvário ao pensar na complacência de um Deus que se humilhou até ao ponto de nascer num estábulo» (Escritos 111).

Por seu turno, o Papa Francisco anota na exortação pós-sinodal Amoris lætitia (A alegria do amor): «A encarnação do Verbo numa família humana, em Nazaré, COMOVE com a sua novidade a história do mundo» (AL 65).

A Infopédia da Porto Editora define comover como «afetar, causando uma adesão profunda». A raiz etimológica latina commovere indica mobilizar, mover ou mexer-se com.

Hoje, é comum celebrar-se o Natal do Senhor sem o Senhor do Natal. Passou-se do Natal de Jesus ao natal das coisas, da contemplação ao consumo. A estridência das cores, dos tons e dos sabores abafa o murmúrio da melodia mística da glória a Deus e paz na Terra.

Passados tantos natais, a contemplação da encarnação do Senhor ainda te comove? Ou a inércia do suceder dos dias adormeceu o coração? Os magos e os pastores moveram-se com Jesus para a gruta de Belém. Para onde te move Jesus, hoje?

A virgem do Natal, a mãe de Belém convida-nos a (re)viver o Natal com um olhar contemplativo que reordena tudo no coração: «Quanto a Maria, conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração» (Lucas 2, 19).

O mistério da Encarnação é um processo abrangente e largo, que pede um coração grande e um olhar profundo para além do momento!

«Precisamos de mergulhar no mistério do nascimento de Jesus, no sim de Maria ao anúncio do anjo, quando foi concebida a Palavra no seu seio; e ainda no sim de José, que deu o nome a Jesus e cuidou de Maria; na festa dos pastores no presépio; na adoração dos Magos; na fuga para o Egipto, em que Jesus participou no sofrimento do seu povo exilado, perseguido e humilhado; na devota espera de Zacarias e na alegria que acompanhou o nascimento de João Baptista; na promessa que Simeão e Ana viram cumprida no templo; na admiração dos doutores da lei ao escutarem a sabedoria de Jesus adolescente», escreve o papa argentino no nº 65 da Amoris lætitia.

E prossegue: «E, em seguida, penetrar nos trinta longos anos em que Jesus ganhava o pão trabalhando com suas mãos, sussurrando a oração e a tradição crente do seu povo e formando-Se na fé dos seus pais, até fazê-la frutificar no mistério do Reino. Este é o mistério do Natal e o segredo de Nazaré, cheio de perfume a família! É o mistério que tanto fascinou Francisco de Assis, Teresa do Menino Jesus e Charles de Foucauld, e do qual bebem também as famílias cristãs para renovar a sua esperança e alegria».

Comover-se com o mistério da Encarnação, celebrar o natal com emoção é isto: deixar-se mover com Jesus que nasce despojado, fora da cidade «envolto em panos e deitado numa manjedoura» para ser «uma grande alegria para o povo»: «Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor» (Lucas 2, 11).

Só um olhar humilde e contemplativo, vazio de ideias feitas e de categorias mentais e sociais calcificadas, é capaz de ver o Menino de Belém encarnar nos bebés refugiados, traficados, famintos, doentes, ameaçados pelos herodes de hoje. E são tantos…

Como ontem no Campo dos Pastores, em Belém, hoje o anjo diz: «Não temais!» (Lucas 2, 10). O medo amarra, sufoca, mata! E há tantos medos, tantas ameaças no horizonte carregado de populismo extremado de 2017.

Diz-nos o Senhor: «Celebrai dias de alegria, e cantai a sua glória» (Tobite 13, 8b).

Que assim seja no teu natal e em todos os dias do novo ano.

Boas festas!

15 de dezembro de 2016

MENSAGEM DE NATAL


Os meus olhos viram a Salvação (Lc 2, 30)

Caros irmãos em Cristo,

Recebei um abraço fraterno por ocasião da celebração do mistério da Encarnação de Nosso Senhor.

O Natal oferece-nos um tempo propício para contemplar Deus na fragilidade e na esperança de que um mundo novo é possível. Somos chamados a descobrir os sinais da presença de Deus num mundo ofuscado pela violência sem sentido que destrói a humanidade e torna incerto o futuro. Neste último ano seguimos com preocupação a situação da Síria e de alguns países nos quais estamos presentes, Sudão do Sul, República Centro-africana, República Democrática do Congo, Etiópia, Eritreia, Moçambique, México, Colômbia… A presença dos nossos confrades nestas situações é sinal de que estamos convictos de que Deus está também ali, por muito limitada que possa ser a nossa actividade missionária. O Natal é também uma oportunidade para dar vigor à nossa vida fraterna, aprendendo a olhar o outro com os olhos do Pai, caminhando como família que sabe perdoar e aceitando-nos tal como somos.

Os fenómenos migratórios atingiram proporções excepcionais por causa das guerras e das profundas desigualdades económicas. Milhões de pessoas vêem-se obrigadas a sair da segurança das suas casas em busca de uma vida digna. O nosso Instituto está a empenhar-se cada vez mais com esta realidade para ser sinal da presença de Deus que recria a vida e abre o coração à solidariedade numa sociedade cada vez mais fechada em si mesma.

O Natal é semente de esperança porque o próprio Deus se faz história para a transformar e recriar numa nova direcção. Isto compreende-se melhor da parte das vítimas, dos pobres, dos sem-terra e dos sem-tecto. O nosso fundador fez da sua vida um projecto de amor e causa comum com os últimos; toda a sua existência foi configurada pela paixão que brota do Evangelho através de uma relação íntima com o Pai. O nosso Instituto nasce desta experiência fecunda de Daniel Comboni que luta incansavelmente contra a injustiça que os mais abandonados sofrem.

Deus incarnou na fragilidade. Também nós hoje, como Instituto, nos sentimos frágeis, mas é a partir desta fraqueza que somos mais criativos e abertos à acção do Espírito. Sentimos necessidade de escutar, acolher e assumir aquilo que Jesus nos diz neste momento particular, que é também tempo de salvação. Esperamos que a celebração do Natal nos ajude a incarnar o nosso carisma dentro de cada uma das realidades em que nos encontramos para ser presença criativa e sinais do Reino.

O Conselho Geral deseja-vos um Natal de 2016 repleto de bênçãos e um 2017 rico de iniciativas que nos motivem a colaborar com o plano que Deus leva por diante através de nós.

O Conselho Geral


14 de dezembro de 2016

«UM RAMO SAIRÁ DO TRONCO DE JESSÉ, UM REBENTO BROTARÁ DE SUAS RAÍZES»


Citando passagem do profeta Isaías 11, 1, o bispo comboninao dom Odelir Magri de Chapecó presta solidariedade às famílias e aos sobreviventes da tragédia com a Chapecoense.

Irmãos e irmãs
Povo de Deus da Diocese de Chapecó
Familiares das vítimas e dos sobreviventes.

Desde que chegou até nós a notícia deste dramático acidente envolvendo os jogadores da Chape, equipe técnica, Diretoria, profissionais dos meios de comunicação (jornal, TV, rádio); especialmente em Chapecó, temos experimentado e vivido dois tipos de sentimentos. Primeiro, lembrar que no dia 28 de novembro entramos na noite em um clima de alegria, de festa e de muita expectativa com a final da Copa Sul Americana que se aproximava. Já estava entalado na nossa garganta o desejo de poder começar a gritar: É CAMPEÃO.

No dia 29, porém, acordamos ou fomos acordados com a derradeira informação de que o avião que transportava a Chape havia caído na Colômbia. E aos poucos com a confirmação da verdade e as proporções dramáticas do acontecido, um sentimento de tristeza, de perda, de dor e do luto invadiu nossas almas, nossos corações, nossos lares, nossa cidade, nossa torcida, enfim, a família chape.

Foi difícil acreditar. Mas, infelizmente era a mais pura verdade! Confirmados 71 mortos e 6 sobreviventes do trágico acidente com o avião da companhia LaMia.

De repente. Tudo mudou. E algumas perguntas não querem calar. Mas como? Por quê? Para quê? Meu Deus...

E daquele momento em diante passamos a experimentar, sentir, viver a força da solidariedade, da comunhão e da oração. Nesse sentido como não se lembrar do gesto de nossos irmãos Colombianos, representando os mais diversos gestos de compaixão e solidariedade de todos os povos, raças e credos.

E um texto da Palavra de Deus das leituras do dia do acidente, (terça feira dia 28 de novembro, 1ª semana de advento), ficou especialmente para nós de Chapecó, como uma luz, uma resposta de sentido na fé e um sinal de esperança. «Um ramo sairá do tronco de Jessé, um rebento brotará de suas raízes» (Is, 11,1).

A CHAPE representa essa árvore que cresceu, criou raízes, ficou grande, bela e estava no auge de sua colheita. À sua sombra de abrigava e celebrava a Família Chape. Naquela noite essa árvore foi atingida, foi decepada, foi machucada. Mas a árvore não morreu. Do seu tronco nascerá um broto (um rebento) que crescerá, dará muitos frutos e um deles será NOVAS ALEGRIAS. Esta é nossa esperança. EU ACREDITO!

Eu acredito porque o clube Chape representa hoje no Brasil uma experiência humilde e vitoriosa. É uma Equipe ou uma experiência de sucesso alicerçada numa organização e gestão séria de recursos humanos e financeiros. Representa a certeza de que em nosso país ainda existem pessoas e cidadãos do bem, que sonham e lutam por objetivos comuns. A Chape representa a possibilidade do esporte trazer alegrias a um povo sem depender do investimento de bilhões.

Nesse momento histórico que vive o nosso país, tão desacreditado e marcado por exemplos de corporativismo para o mal, com a aprovação de leis que legalizam a morte de inocentes, de corrupção vergonhosa, de falta de ética em todos os níveis e classes, especialmente entre muitos agentes políticos. Eis um pequeno e humilde exemplo a ser seguido, sem achar que tudo está perfeito.

Aos sucessores desse time de guerreiros e campeões, fica a honra, o dever moral e o compromisso de substituí-los à altura, lutando sempre juntos, até a morte se preciso for, pela VITÓRIA da Vida, do Bem comum, da competência e da honestidade.

Então será possível gritar novamente: É CAMPEÃO também ao nosso Brasil!

Portanto, juntos, hoje como família de Deus, como família Chape, sem distinção de credo, de raça ou de nacionalidade... vamos fortalecer nossa corrente de solidariedade e a fé na VIDA.

"Vamos Chape, Chape, Chape..."

Força Família Chape!
Dom Odelir José Magri
Bispo diocesano de Chapecó, SC

8 de dezembro de 2016

OLHAR IMACULADO


O Papa Francisco termina a Carta Apostólica Misericordia et misera na conclusão do jubileu extraordinário da misericórdia com estas palavras: «Sobre nós permanecem pousados os olhos misericordiosos da Santa Mãe de Deus. Ela é a primeira que abre a procissão e nos acompanha no testemunho do amor. A Mãe da Misericórdia reúne a todos sob a protecção do seu manto, como a quis frequentemente representar a arte. Confiemos na sua ajuda materna e sigamos a indicação perene que nos dá de olhar para Jesus, rosto radiante da misericórdia de Deus» (MM 22).

Um parágrafo cheio, redondo e profundo!

Vivemos sob o olhar misericordioso da Imaculada Virgem Maria que abre a procissão, o itinerário santo do amor.

O Cardeal-arcebispo John Njue de Nairobi repete que viemos de longe e vamos para longe. Eu sou mais específico: viemos de Deus e vamos para Deus. Este é o roteiro sagrado, a procissão que Maria abre e em que todos participamos.

Nessa procissão vamos sob o manto protetor de Maria, o pálio que nos protege e resguarda – a todos.

Maria abre o caminho e indica o olhar de Jesus, o «rosto radiante da misericórdia de Deus». «Fazei tudo o que Ele vos disser», repete hoje o que disse ontem aos serventes das bodas de Caná.

Algumas igrejas protestantes criticam a superlativação de Maria, produto de muitas teologias e práticas católicas e ortodoxas, transformando-a numa semidivindade, distante da nossa realidade humana.

Mas Maria é sobretudo mulher, mulher-menina, menina-mãe!

São Paulo diz que «Deus enviou seu Filho, nascido de mulher» (Gálatas 4, 4). Jesus dirige-se por duas vezes à mãe chamando-lhe simplesmente mulher em Caná (João 2, 4) e no Calvário (João 19, 26), no início e no fim da vida pública.

O evangelho da anunciação – os ortodoxos chamam à anunciação a evangelização de Nossa Senhora – apresenta Maria como uma mulher como nós. Uma mulher de Nazaré de onde para Natanael/Bartolomeu não vinha nada de bom (João 1, 46), da Galileia dos gentios, gente mestiçada com pagãos.

Esta é a primeira condição da Senhora da Anunciação: mulher-menina marginalizada e descriminada. Como tantas mulheres-meninas que passam cabisbaixas e apressadas pelos ecrãs das nossas televisões e computadores a fugir da Síria, da Eritreia, do Sudão, do Paquistão, da guerra, da violência, da pobreza, da fome, da morte.

Gabriel chamou-lhe cheia de graça, cheia do amor do amado, e Maria ficou perturbada com tal saudação. Não parecia muito virada para florilégios, não se deixava levar por palavras sumptuosas. Podem fazer bem ao ego, mas não passam disso!

O anjo explicou-lhe que Deus achou-a com graça e escolheu-a para ser a mãe de Jesus, «grande e filho do Altíssimo».

Maria-menina questiona a possibilidade de ser mãe: «Como será isso se não conheço homem?» Estava prometida, era noiva mas ainda não casara, não coabitava.

O relato da anunciação apresenta uma Maria ao nosso nível: que se espanta, perturba, questiona, duvida. Mulher que sente a solidão. O versículo 38 termina com este apontamento que a liturgia deixou de fora: «E o anjo retirou-se de junto dela». No fim da anunciação ficou só!

Esta é a menina-mulher que depois de encontrar as respostas para o espanto e para as dúvidas diz: «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra».

Frederico Lourenço traduz: «Eis a escrava do Senhor. Aconteça-me segundo a sua palavra».

O Mestre Eckhart, místico dominicano alemão do século XIII-XIV escreve no Tratado do discernimento: «Quando o Anjo apareceu a Nossa Senhora: tudo o que ela e ele possam ter conversado, nunca a teria transformado em mãe de Deus; mas assim que ela renunciou à sua vontade, ela tornou-se logo numa verdadeira mãe da palavra eterna e concebeu Deus nesse momento que se tornou no deu filho por natureza».

Maria ao abrir a procissão, aponta para o roteiro sagrado do eu para o tu, o recentramento redentor. Este ícone mariano é muito actual e desafiante para os dias de hoje, marcados pela cultura do selfie, do auto-retrato no centro de tudo, do individualismo globalizado e paralisante.

Esta é Senhora da Conceição que hoje celebramos!

O dogma católico proclama desde 1854 que Maria foi concebida sem pecado original. Um dogma recente mas uma verdade de fé que vem do Concílio de Basileia em 1439.

Para nós portugueses tem um significado especial: Nossa Senhora da Conceição é padroeira e rainha de Portugal desde 1646 quando Dom João IV a coroou no Solar de Vila Viçosa! Desde então os nossos réis e rainhas deixaram de usar a coroa real.

Celebrar a Imaculada Conceição é reconhecer que como Maria somos gratificados por Deus – todos somos cheios de graça, todos somos beneficiários da sua misericórdia.

Mas, como nota o mestre Eckhart, não podemos ficar pela conversa fiada! Na procissão da fé, temos que sair da zona de conforto do eu, recentrar-nos no Tu, deixar-nos encher e preencher por Deus, deixar-nos «cobrir pela força do Altíssimo» para sermos geradores de Jesus-Palavra hoje, «um hino de louvar da sua glória» (Efésios 1, 12).

E esta a graça que peço à Imaculada Conceição para cada um de nós hoje na sua festa.

Ámen.

7 de dezembro de 2016

NÓMADA(S)


Carlos de Foucauld viveu Deus com os nómadas do Sara.

A 1 de Dezembro faz 100 anos que Carlos de Foucauld, o Irmãozinho Carlos de Jesus, foi assassinado em Tamanrasset, no Sul do Sara argelino, ao que parece num momento de pânico de um dos bandidos que o sequestraram.

Carlos nasce em 1858 no seio de uma família aristocrata e muito cristã em Estrasburgo, Leste de França. Órfão de pai e mãe aos seis anos, é criado pelo avô materno, que também perde mais tarde.

Abandona a fé e vive uma vida dissoluta de boémio rico. Em 1876, entra no exército e vai para a Argélia. Entre 1883 e 1884, explora os desertos de Marrocos e da Argélia por conta própria, disfarçado de rabi pobre: percorre 3000 quilómetros em onze meses. Os muçulmanos e judeus impressionam-no com o acolhimento e a prática da fé, reavivando o fogo de Deus no seu coração.

Regressa a França e torna-se explorador de Deus. É monge trapista entre 1890 e 1897 na França e na Síria. Depois muda-se para a Terra Santa: as Clarissas empregaram-no como sacristão e hortelão. «Fixei-me em Nazaré. Abracei aqui a existência humilde e obscura de Deus, operário de Nazaré», explica.

Em 1900, regressa a França para ser ordenado. «Acabo de ser ordenado sacerdote e ando a fazer tudo para ir continuar no Sara “a vida escondida de Jesus em Nazaré”, não para pregar, mas para viver na solidão, a pobreza, o humilde trabalho de Jesus, empenhando-me a fazer o bem às almas não pela palavra, mas pela oração, pela oferta do Santo Sacrifício, pela penitência e pela prática da caridade», explica numa carta.

Em 1901, volta à Argélia e fixa-se em Beni Abbès, perto da fronteira com Marrocos. Cumpre um sonho: «Quero habituar todos os habitantes – cristãos, muçulmanos, judeus, idólatras – a verem em mim um irmão, o irmão universal. Começaram a chamar a esta casa “fraternidade”, e isso é para mim um louvor», explica. A fraternidade torna-se um oásis de amor para escravos, pobres, soldados, doentes, viajantes.

Em 1904, a busca pessoal leva-o a Tamanrasset, no coração do Sara argelino, para viver entre os Tuaregues dos montes Hoggar. Estuda a língua, escreve um dicionário, publica uma recolha de milhares de poemas, traduz os Evangelhos. Vai para o Hoggar sobretudo «para levar o evangelho aos mais abandonados, não pregando, mas vivendo-o».

O Irmãozinho Carlos, o nómada de Deus, encontra-o entre os Tuaregues, os nómadas do deserto. «O meu ermitério está num cume de onde se avista praticamente todo o Hoggar e está no meio de montanhas agrestes. O horizonte, que parece não ter fim, faz pensar na infinidade de Deus», descreve.

Passa o dia a servir as pessoas – «Presto serviços naquilo que posso, esforço-me por mostrar que os amo» – mas anseia pela noite: «Logo que o Sol se põe, há um grande silêncio que é tão gostoso.»

Os Tuaregues acolhem-no como um marabu, um homem de Deus. Moussa, o chefe tuaregue seu amigo, recorda-o como um pobre no meio deles. «O meu apostolado deve ser o da bondade», anota no diário em 1909.

O Irmãozinho Carlos de Jesus, o irmão universal, morreu só e sem seguidores. Bento XVI beatificou-o a 13 de Novembro de 2005. Hoje, uma vintena de famílias espirituais inspiram-se no seu estilo de seguimento escondido de Jesus em Nazaré no trabalho humilde e na contemplação.

6 de dezembro de 2016

MENSAGEM DOS COMBONIANOS DA AMÉRICA E DA ÁSIA ÀS JUVENTUDES

No final do encontro dos superiores novos e atuais das circunscrições combonianas da América e Ásia, que se realizou de 22 a 26 de Novembro, em São Paulo, no Brasil, os 13 missionários escreveram uma mensagem dirigida aos jovens dos dois continentes.

Escrevemos a vocês, jovens.

Vocês têm sede de vida plena e de valores autênticos. Seu desejo nos interpela, nos desafia a partilhar convosco as razões de nossa esperança.

Acreditamos em sua força e vitalidade para cuidarmos juntos desse mundo, conforme o projeto de amor de Deus.

Escrevemos desde as periferias do continente americano e da Ásia. As fronteiras são nossa casa.

Como missionários, tentamos assumir o desafio de Papa Francisco: uma Igreja em saída, que caminha junto aos pobres e aos que não conhecem a alegria do Evangelho.

Uma vida doada a Jesus e a seu povo é uma vida bela. Nas fronteiras do sofrimento humano, experimentamos o «gosto espiritual de estarmos próximos à vida das pessoas» (EG 268). Queremos ser testemunhas e profetas de relações fraternas, fundadas no perdão e na misericórdia.

Estamos inquietos e preocupados pela situação de nossos continentes.

O resultado das eleições nos Estados Unidos reforça, mundo afora, uma onda de intolerância e racismo. Representa a falência da política e da democracia por causa do medo e da hegemonia do poder financeiro. Essa economia saqueia os bens comuns, devasta, corrompe e mata.

Nas zonas onde trabalhamos está aumentando a violência, no campo e nas periferias urbanas. Em América Central e México as 'pandillas' e o tráfico ceifam a vida das juventudes. Os defensores de direitos humanos, dos povos indígenas e da mãe terra são executados para calar a boca aos movimentos sociais e à Igreja, quando se manifesta com profecia. Em Colômbia, apesar do esforço desmedido para promovermos uma cultura de reconciliação, nos surpreendeu o resultado de um referendum que mais uma vez pode adiar os acordos de paz.

Em Ásia, sentimo-nos pequenos frente aos desafios de um imenso continente e à complexidade do diálogo entre as culturas e as religiões. Porém, é esse o caminho para promover o encontro e descobrir Deus vivo na humanidade.

É no coração dessa história que os cristãos se envolvem como comunidade, acompanham, frutificam e festejam! Sem medo, ousando tomar a iniciativa.

Aprendemos muito ao lado das juventudes, trabalhando juntos na solidariedade às vítimas do terremoto no Equador, ou enfrentando a violência nas paróquias de periferia de Lima, em Peru. Rezamos convosco e descobrimos o rosto de Deus em nossas casas de formação. Admiramos sua determinação no Brasil, onde estão ocupando mais de mil escolas em protesto não-violento contra as medidas antipopulares do governo.

Vos pedimos desculpa se não estamos sempre à altura de sua coragem. Queremos abrir mais nossas casas ao encontro convosco, porque vocês renovam nossa paixão missionária.

Caminhemos juntos! Nos ajudem a sonhar e promover a justiça e a paz, a cuidar da mãe terra assim como nosso Pai cuidou de nós até aqui.

Padre Ezequiel Ramin, jovem missionário comboniano que doou a vida junto aos indígenas e às famílias sem terra no Brasil, nos inspire e provoque sempre. Ele nos disse: «Tenham um sonho. Sigam somente um sonho. Uma vida que tem um sonho se renova dia após dia».

São Paulo, Brasil – 25 de novembro de 2016
Os missionários combonianos de América e Ásia

28 de novembro de 2016

SÃO TIAGO DE ANTAS DEDICA IGREJA NOVA


A paróquia de São Tiago de Antas, em Vila Nova de Famalicão, dedicou e inaugurou a nova igreja no primeiro domingo do advento através de uma celebração bem preparada e colorida segundo o ritual da solene sagração e bênção em missa pontifical.

O novo templo em forma oval com a capacidade para sentar 500 pessoas começou a ser construído em dezembro de 2010.

Dom Jorge Ortiga, arcebispo primaz de Braga, presidiu à sagração solene e bênção do novo templo, acompanhado por uma vintena de padres, quatro diáconos e uma grande multidão que enchia a nova igreja, incluindo individualidades locais.

Durante a homilia o arcebispo deu os parabéns à comunidade pela obra levantada e sublinhou a necessidade de continuar a trabalhar para pagar os empréstimos.

Recordou que a forma oval da igreja faz lembrar os braços humanos, o abraço de Jesus à comunidade e o abraço de acolhimento da comunidade às pessoas que procuram o novo templo para se encontrarem com Deus.

A igreja está decorada com alguns anéis exteriores que, no dizer do Arquiteto Hugo Correia – que desenhou a construção – representam a coroa de espinhos.

Dom Jorge recordou que a comunidade tem de sair ao encontro dos coroados de espinhos de hoje.

Frisou que o facto de os Missionários Combonianos estarem à frente da paróquia desde 2009 faz com que a saída seja global, mais para além da comunidade humana da paróquia.

O P. Agostinho Carvalho Alves, missionário comboniano, é o pároco de São Tiago de Antas há sete anos e liderou a construção desde o início.

No discurso de agradecimento sublinhou que «a comunidade cristã de Antas dispõe de espaço amplo, luminoso e cómodo para celebrar a sua fé condignamente e de locais adequados para seus compromissos pastorais.»

A celebração terminou com um verde de honra.

A nova igreja tem dois pisos.

O piso superior é destinado às celebrações litúrgicas, amplo e bem iluminado. Tem como pano de fundo a imagem estilizada do Senhor Ressuscitado sobre uma cruz de luz, ladeada pelos retábulos de São Tiago e da Imaculada Conceição.

O piso inferior contra com salas para a catequese e um salão multiusos para 200 pessoas além de instalações sanitárias e arrumos.

A nova igreja está bem integrada através de um arranjo paisagístico bem conseguido que a relaciona com grande harmonia com a igreja românica do século XIII e com o espaço circundante.

19 de novembro de 2016

Ir. ANTÓNIO SILVA: TRIBUTOS

Ir. ANTÓNIO FIGUEIREDO DA SILVA
Santa Eulália (Seia) 1-5-1936; Viseu 16-11-2016

P. Arlindo Pinto (Itália): Mais um comboniano e amigo a quem o Senhor da Vida decidiu chamar para a Felicidade eterna, na casa do Pai, a morada prometida para cada um dos filhos e filhas de Deus! Com algumas lágrimas, recordo tantos bons momentos passados juntos, sobretudo nas cidades moçambicanas de Maputo e Beira. Que Deus de misericórdia infinita o acolha no seu Amor eterno. O meu último abraço, nesta terra, querido irmão Silva.

P. José Manuel Brites (Brasil):
Rezemos pelo nosso amigo irmão Silva! Foi ele que me acolheu em Moçambique! Agradecer pelo jeito serviçal e alegre de viver! Que contemple a Glória do Pai.

Equipa coordenadora LMC: Em nome dos Leigos Missionários Combonianos, expressamos o nosso profundo pesar pelo falecimento do irmão Silva. Foi um privilégio para muitos de nós ter conhecido, trabalhado e privado com uma pessoa tão bela e dinâmica. Hoje a FC perde um exemplo de dedicação sem medida à Missão e ao seu Instituto. Ganha o céu, que hoje conta com mais uma alma, e que certamente rezará e velará por todos nós. O Senhor já o acolheu junto de Si e goza agora da sua morada eterna.

P. Claudino Gomes (Lisboa):
Exprimo à Província toda e à família de sangue do Ir. António Silva os meus sentimentos. O Irmão deu-se com alma e coração toda a sua vida. Foi uma doação sincera, revestida das características da sua personalidade (como acontece com cada um de nós). Oxalá eu possa ser fiel até ao fim, como ele.

Maria José Martins (LMC-Portugal): Foi uma honra conviver com o Irmão Silva. O céu está em festa para o receber. Obrigada pela pessoa maravilhosa com que nos habituámos a privar. Estamos todos de luto.

Ir. Lurdes Ramos (IMC-Viseu):
Os nossos sentidos pêsames pela partida para a casa do Pai do irmão António Silva de todas as Irmãs da Província Europa e em particular de Portugal. Com certeza que já está a gozar do imenso bem que fez como missionário, seja em Portugal que em Moçambique.

Flávio Soares (LMC-Portugal): Uma notícia que abanou o meu dia e ficará presente. Sinto-me agradecido pelo dom da sua vida, embora as nossas vidas se tenham cruzado pouco. A sua alegria é a prova de uma vida feliz e de amor ao outro. Mais uma estrelinha no céu.

P. José Arieira (RD do Congo): Quero unir-me à Província Portuguesa na oração pelo nosso querido Ir. Silva. Recordo os meus primeiros anos de sacerdote em que tive a alegria trabalhar com ele na animação missionária. O seu zelo missionário e paixão pela missão contagiou-me seja nos encontros de colaboradoras que fizemos juntos, seja nos dias missionários. Que o Senhor o acolha na sua misericórdia.

Mário Breda (LMC-Portugal): Foi uma surpresa que não esperava, apesar de o irmão Silva já se encontrar ultimamente debilitado. Mas aceitava a sua doença com serenidade e paz. Perdemos a sua presença sempre dedicada e o seu sorriso terno, que nos habituámos a ter nos encontros em Viseu. Continua presente nos nossos corações.

P. Bruno Brunelli (Itália): Tenho a certeza que este nosso irmão está a gozar plenamente a vida com Cristo porque deu um bom testemunho e espalhou alegria e verdadeira animação missionária por onde passou. Irmão António, intercede por nós. Obrigado.

P. Feliz Martins (Sudão): O Ir. António Silva foi-se e desapareceu deste mundo. Não foi ao acaso nem se perdeu da sua família nem dos amigos, nem de ninguém. Não se perdeu. Foi para casa, a casa do Pai, a sua casa. Mas sabemos quanto dolorosa é a partida e a separação para nós, sua família religiosa e, mais ainda, a sua família de sangue. Diante da nossa fraqueza e impotência, neste momento de dor, venha de Deus a grande consolação. A Ele peço e rezo na Santa Eucaristia pelo nosso Ir. A. Silva e por toda a sua querida família.

P. José Vieira (Lisboa): O Ir. Silva era conhecido pelo «corredor do Maputo» pela generosidade com que se dedicava ao serviço missionário. Damos graças a Deus pela sua vida, pele seu sorriso e pelo seu zelo missionário. Pedimos a misericórdia do Pai: que o acolha no abraço terno e eterno. Descansa em paz, Mano!

Neuza Francisco (LMC-Portugal):
Como foi bom a partilha da vida com o Irmão Silva. Sim, para mim um exemplo de dedicação de trabalho de ajuda de disponibilidade e amor para com o outro. Como são belos os Dons de Deus, e como Lhe estou grata por ter cruzado o seu caminho... Permanece no coração daqueles que com ele privaram. Juntos em oração...

Ir. Franca Venturi (IMC – Lisboa): Com as Irmãs da comunidade de Lisboa e de toda a nossa Zona de Portugal apresento os nossos sentimentos pelo falecimento do Ir. Silva que recordamos pela sua disponibilidade e dedicação missionária. Em comunhão de fé e oração pela alma do nosso Irmão.

P. António Carlos Ferreira (Filipinas): Os meus profundos sentimentos de dor pelo falecimento do Ir. António Silva. Estou unido à sua família de sangue e família espiritual comboniana em oração para que Deus console a todos, especialmente os que lhe eram mais próximos. Paz à sua alma. Descanse em paz.

P. Manuel dos Anjos (Moçambique): Que o Ir. António Silva descanse em Deus, e reze por nós todos, especialmente os velhotes, ele que foi escolhido como primogénito da Comunidade de Viseu.

Escolásticos Torres José Bonjesse e Mponda Joao Mponda (Peru):
Toca o nosso sentimento de tristeza quando lembramos o seu rosto físico e quando lembramos de tudo que fez por nós. Na comunidade da Beira estavam ele e P. Emílio. Os dois nos acompanharam na nossa caminhada vocacional desde inicio até ao pré-postulantado. O irmão António Silva era como mãe da casa nas catequeses e as viagens que fazíamos era com ele. Sempre disposto para trabalhar, com o rosto sempre entusiasmado. Irmão António Silva era uma pessoa organizada e responsável. Entretanto, queremos agradece-lhe por tudo quanto nos deu, sobretudo o seu afeto que tinha por nós e pelos valores que nos transmitiu. Agradecemos a Deus que lhe deu a vontade e a força de seguir a sua missão.

P. Luis Albuquerque (Moçambique): Estamos unidos a toda a província portuguesa pela morte do Ir. Silva. Por um lado, «a certeza da morte nos entristece, conforta-nos a promessa da imortalidade». Assim dizemos no prefácio da missa de defuntos. Perdemos uma pessoa na terra, mas ganhámos um intercessor no céu, porque apesar das nossas faltas e limites em corresponder à vontade de Deus, sabemos que a sua misericórdia é infinita.

Rufina Garcia (LMC-Portugal): «Os amigos não morrem: andam por aí, entram por nós dentro quando menos se espera e então tudo muda: desarrumam o passado, desarrumam o presente, instalam-se com um sorriso num canto nosso e é como se nunca tivessem partido. É como, não: nunca partiram» (António Lobo Antunes). E, porque o sorriso era uma constante, no Irmão Silva, agradeçamos ao Senhor a passagem deste querido Irmão pela vida de todos nós.

Ir. Aristides Holgado (Granada-Espanha): Ao final foi o Ir. Silva, não pensava eu que estava já para marchar. O vi em Viseu no último encontro que tivemos, mas embora fraquito não me pareceu assim para ir tão cedo aos braços do Pai. Que Deus o tenha na sua gloria. O conheci na Beira em janeiro de 1976. O meu mais sentido pêsame a toda a província portuguesa.

Ir. Alberto Lamana (Conselho geral-Roma): Ayer hemos recordado en la oración al Ir. António Figueiredo da Silva. Estamos cercanos a tu Provincia en el momento de recordar un Hermano que nos deja un bello testimonio de fidelidad y amor a la misión. Que el Señor lo acoja en su seno e interceda por nosotros.

Carolina Fiúza (LMC-Portugal): Ânimo. Haja ânimo pela vida deste nosso irmão que, certamente, está num lugar maior e melhor. Recordo-o com a sua voz e expressões sempre muito doces. Permanece entre nós. Um abraço forte a todos. Estamos juntos.

P. Jeremias Martins (Vigário Geral-Roma): Obrigado pela noticia triste da passagem do Irmão Silva. Foi um grande missionário. Muito zelo e dedicação, sempre pronto a socorrer a todos. Era conhecido como "o correio do Maputo" pelo trabalho que fazia para tantos institutos. Que descanse em paz. O Senhor lhe dará a recompensa de tantos trabalhos e também das grandes lutas que travava sempre que tinha de mudar de comunidade ou província. Rezo por ele e família e também por cada um de vós.

16 de novembro de 2016

PROFECIA DA INTERCONGREGACIONALIDADE


Pertencemos a uma sociedade feita de grandes contrastes: vivemos numa aldeia globalizada, à distância de um clique, cada vez mais ensimesmados, medrosos, inseguros. As campanhas eleitorais para a permanência do Reino Unido na União Europeia e as presidenciais americanas são dois exemplos recentes de como o medo e o egoísmo cortam as asas do sonho e da cidadania.

O Papa Francisco descreve o planeta em que vivemos como um mundo «dilacerado pelas guerras e a violência, ou ferido por um generalizado individualismo que divide os seres humanos e põe-nos uns contra os outros, visando o próprio bem-estar» (EG 99).

Por outro lado, na Carta Apostólica às pessoas consagradas para proclamação do Ano da Vida Consagrada, define a profecia como a especialidade da vida consagrada. «Espero que “desperteis o mundo”, porque a nota característica da vida consagrada é a profecia» (nº 2), diz-nos.

Estas duas citações enquadram bem a dimensão profética da intercongregacionalidade. Num mundo marcado pelo individualismo globalizado as consagradas e consagrados são chamados a despertar a sociedade para a mística do encontro e da convivialidade através de sinais proféticos de comunhão.

A intercongragacionalidade – o trabalho conjunto de congregações diferentes em prol do bem comum – é uma maneira de ser profecia num mundo cada vez mais virado para a imagem. Somos chamados a passar do selfie narcisista da moda ao retrato completo (e complexo) do conjunto.

Não é um sonho novo! Daniel Comboni propô-la como o caminho para «fortalecer» a evangelização da África Central há mais de 150 anos. Explica que o Plano para a Regeneração da África através da África – que escreveu em 1874 – «tende a pôr em jogo em favor da África todos os elementos e forças já existentes do catolicismo e criar mais» (Escritos 1343).

Conseguiu arrolar as Irmãs de São José da Aparição e os Camilianos durante uma dúzia de anos, mas acabou por ter que fundar os dois institutos combonianos para o levar para a frente, insurgindo-se contra a «mentalidade fradesca» que fechava o horizonte dos institutos no umbigo nos próprios interesses.

A intercongrecionalidade é uma maneira prática de usar os recursos humanos dos institutos – a envelhecer e a diminuir – em favor de sonhos comuns, do passar cada um por si e Deus por todos ao todos por um e um por todos, para fazer mais e fazer melhor, sinais concretos de que o Reino já está no meio de nós.

São Paulo diz que os carismas são plural mas partilham a origem comum no Espírito Santo e estão ordenados para o bem comum (1 Coríntios 12, 4-11). A intercongregacionalidade, vivida como gesto profético, não dilui ou anula as inspirações carismáticas históricas de cada instituto, mas celebra a complementaridade e subsidiariedade dos muitos carismas para o bem de todos.

Hoje, há bastantes e lindas experiências de intercongregacionalidade.

A que melhor conheço é Solidariedade com o Sudão do Sul (na foto) que vi nascer: 30 pessoas (17 mulheres e 13 homens de 15 países dos cinco continentes, leigos e consagrados de 17 congregações), apoiadas por 260 congregações a nível de direção geral e umas 30 ONGs formam professores, enfermeiros, obstetras, agricultores e líderes comunitários no país mais jovem do mundo há oito anos, vivendo, trabalhando e celebrando juntos em quatro comunidades.

O Ir. António Nunes, um enfermeiro comboniano, faz parte desse consórcio. «Estou a viver esta nova maneira de ser comboniano: tenho a dizer que tem sido uma agradável surpresa! Os meus receios de viver numa comunidade de freiras e frades de outras congregações foi-se dissipando com o tempo... Afinal de contas o viver em comunidade tem muito a ver com o que nos une: a missão que Jesus nos deixou», atesta.

Na Itália, há pelo menos duas comunidades femininas intercongregacionais dedicadas ao acolhimento dos refugiados e uma comunidade mista que sensibiliza a Igreja e sociedade locais para os acolher.

No Brasil, há muito que noviças e noviços fazem parte do caminho formativo juntos durante sessões temáticas de formação prolongadas.

É interessante notar que o Papa convida os mosteiros de clausura a federarem-se e a «promover casas de formação inicial comuns a vários mosteiros» nas disposições da Constituição Apostólica Vultum Dei quaerere sobre a vida contemplativa feminina de 29 de junho deste ano.

Finalmente, a intercongregacionalidade só faz sentido se for um exercício de comunhão eclesial à volta de uma acção comum. Não pode ser assumida como estratégia de sobrevivência. Quando deixamos de nos preocupar com o carisma e usamos as energias para a autopreservação estamos condenados ao fracasso.

A intercongregacionalidade pode parecer um grande desafio, mas – como escreveu o António – torna-se fácil e dissipa todos os receios se partir do dominador comum que nos une: de Jesus e do seu Evangelho como a Regra de Vida que todos partilhamos.

12 de novembro de 2016

860 PORTUGUESES EM VOLUNTARIADO MISSIONÁRIO


Em 2016, cerca de 860 portugueses envolveram-se em acções de voluntariado missionário a curto, médio e longo prazo no país e no estrangeiro. Quase dois terços são mulheres.

Os números vêm da FEC, a fundação Fé e Cooperação, a ONGD da Conferência Episcopal que dinamiza a Rede do Voluntariado Missionário desde 2002.

341 voluntários portugueses partiram para os espaços lusófonos da África, América Latina e Ásia. Desses, 305 estão envolvidos em projectos de curta duração (de 15 dias a seis meses) e 36 assumiram compromissos de sete meses até dois ou mais anos.

Cabo Verde é o grande destino dos voluntários missionários portugueses: 119. Os restantes estão repartidos por Moçambique (66), São Tomé e Príncipe (64), Angola (40), Guiné-Bissau (25), Timor-Leste (13) e Brasil (12). Dois partiram para a República Centro Africana.

A maioria dos voluntários tem entre 18 e 35 anos, 73 por cento são mulheres e 27 por cento homens.

Setenta são repetentes.

85 por cento são estudantes, recém-licenciados ou pessoas empregadas que usam as férias para se dedicarem ao voluntariado missionário internacional.

14 pessoas deixaram o emprego e nove pediram licença sem vencimento para poderem partir. 

Os voluntários fazem muitas coisas nas missões. Um quarto dedica-se à educação e formação, 15 por cento a actividades de pastoral e 13 por cento à animação sociocultural.

Em Portugal, 519 jovens e adultos realizam ao longo do ano acções de regularidade assegurada que pode ir de uma vez por dia a uma vez por semana ou por mês ou a uma semana por ano.

Lisboa e Vale do Tejo é a zona mais coberta com 126 voluntários em acção. O Minho, Douro Litoral, Beiras e Alentejo em conjunto beneficiam da acção de 298 pessoas.

Dois terços dos voluntários no país desenvolve actividades de animação sociocultural e de trabalho na área da educação com crianças e jovens. O resto assistem idosos e famílias.

Segundo os dados da FEC, desde 2003 4677 pessoas participaram em projectos internacionais de voluntariado missionário, uma média de 334 pessoas por ano.

2014 foi o ano com mais voluntários no estrangeiro: 548 ao todo. 514 desenvolveram projectos de um a seis meses e 34 até dois anos ou mais.

2004 foi o ano recorde em estadas de longa duração: 99 ao todo.

11 de novembro de 2016

ÚLTIMAS DO SUDÃO DO SUL


Daqui a cerca de um mês (15 de dezembro) serão três anos desde que uma crise política desencadeou a guerra civil e crise económica responsáveis por milhares de mortes e por uma crise humanitária sem precedentes no Sudão do Sul.

Infelizmente a situação parece piorar a cada dia. O acordo de paz assinado em agosto de 2015 parece não se sustentar mais. As forças do governo e as forças rebeldes continuam a combater-se. Não são confrontos intensos como antes, mas há violência em várias regiões.

O líder da oposição declarou guerra ao governo, caso o acordo de paz não seja retomado.

Estamos no fim da estação chuvosa. Muita gente acredita que com o aproximar da estação seca, os conflitos vão-se intensificar. As forças combatentes estão a preparar-se para mais ofensivas, ou seja, a guerra continua.

A impressão que se tem é que o governo quer continuar no poder e a oposição quer tirar o governo à força.

Como consequência, muita gente continua a deixar o país. O número de refugiados já passa de um milhão.

Dezenas de milhares continuam sob proteção das Nações Unidas em diversos campos pelo país.

Há ainda muitos deslocados que sobrevivem no mato ou em áreas isoladas por medo de ataques e saques.

A crise económica agravou-se e a inflação chega a 700% ao ano. Há muita gente passando fome e doente.

Além disso, a insegurança tem aumentado. Há muito roubo e assaltos a residências, geralmente com vítimas.

Discurso de ódio e incitação à violência entre as diferentes tribos têm aumentado.

Viajar também ficou perigoso. São constantes os assaltos nas estradas e também com vítimas, inclusive mulheres e crianças.

Os criminosos podem ser bandidos ou rebeldes que promovem ataques e depois fogem.

Ser jornalista aqui passou a ser profissão perigosa. Alguns perderam a vida, outros foram presos e torturados e teve quem se viu obrigado a deixar o país. Rádios já foram fechadas várias vezes. Jornais deixaram de circular.

Os serviços básicos funcionam precariamente. Em tudo a população paga um preço muito alto pela guerra gananciosa mantida pelos (des)governantes.

Protestar é muito perigoso. O povo sofre em silêncio, mas está revoltado.

Há, porém, notícias boas e sinais de vida e esperança.

Recentemente foi inaugurado o «Centro para a Paz Bom Pastor», resultado de muita luta e solidariedade das congregações religiosas. Este centro tem a finalidade de investir na formação de lideranças e promoção da paz e reconciliação. Está em pleno funcionamento.

Além disso, o Papa Francisco convidou o Conselho das Igrejas Cristãs para uma reunião sobre a situação do país. Foi muito boa. O Papa quer visitar o Sudão do Sul e ajudar a resolver a crise.

Por fim, as igrejas continuam a sua presença solidária junto ao povo sofredor, até mesmo em situações de riscos. Isso anima o povo.

Aqui em Juba não tem havido combates, mas sentimos que a situação não está boa.

Continuamos nossas orações e esforços para uma solução pacífica dos conflitos e fim da crise. Contamos com as orações e solidariedade de vocês. Com muita gratidão receba um fraterno abraço e as bênçãos e o axé de Deus.

P. Raimundo Rocha, missionário comboniano em Juba


10 de novembro de 2016

CLEPTOCRATAS


As elites sul-sudanesas fazem fortunas com a guerra civil.

The Sentry, um projecto do actor George Clooney e do activista John Prendergast para desmontar o sistema de financiamento dos conflitos africanos mais letais, publicou em Setembro um relatório-investigação sobre a guerra civil que destrói o país mais jovem do continente intitulado «Crimes de guerra não deviam compensar – para parar o saque e a destruição no Sudão do Sul».

O documento usa umas 30 vezes as palavras «cleptocrata» e «cleptocracia» para descrever as elites sul-sudanesas de ambos os lados da trincheira. O termo vem de «cleptos», vocábulo grego para roubo/roubar. Cleptocrata é um governante ladrão e cleptocracia um governo de ladrões.

Os investigadores estudaram as contas e os bens patrimoniais dos líderes político-militares mais influentes, incluindo o presidente Salva Kiir, o seu opositor Riek Machar (ambos na foto), o chefe do Estado-Maior-General Paul Malong e o seu adjunto para a logística, general Malek Reuben. A conclusão? Todos os actores e familiares directos enriqueceram e muito com a guerra civil por meio de negócios obscuros em violação da lei.

As 66 páginas do relatório indispuseram-me muito. Cobri eventos de alguns dos investigados. Nós, missionários e missionárias da Casa Comboni, jantámos duas vezes com Kiir, nosso vizinho. Presidi a algumas missas na Catedral de Juba com o presidente sentado num sofá da frente e trocámos algumas palavras. Inclusive, no fim de uma conferência de imprensa, dirigiu-se para me saudar, para espanto dos camaradas da informação.

Tinha Kiir por pessoa de bem. Admirei o modo como guiou o Sul até ao referendo de autodeterminação de 2011 apesar das muitas armadilhas montadas pelo Governo de Cartum para descarrilar o processo. Surpreendeu-me a crise política que gerou no início de 2013 numa luta intestina para controlar o poder através da manipulação do partido, ele que dera sinais de não querer concorrer às eleições de 2015. Nunca me ocorreu nas análises mais sombrias que usasse a guerra para consolidar o domínio sobre os vastos recursos e negócios do país.

Kiir durante a guerra construiu um grande rancho em Luri, a 16 quilómetros de Juba, e tem uma mansão de luxo num bairro chique de Nairobi. O relatório diz que ele e membros da família detêm participações em duas dúzias de empresas ligadas ao petróleo, mineração, construção civil, apostas, operações cambiais, telecomunicações, aviação... Um filho de 12 anos é dono de 25 por cento do capital de uma sociedade financeira!

Outros figurões do regime e da oposição também têm grandes propriedades no Quénia, Uganda e Austrália, participações em múltiplas empresas, parentes chegados a viverem em grande luxo fora do país como mostram nas páginas nas redes sociais. O KCB (o Banco Comercial do Quénia) é a instituição de referência para transferências nebulosas.

Entretanto, o cidadão comum sofre violência, fome e morte com casas, gado e cultivos destruídos e mulheres e meninas violadas pelas forças de ambas as partes numa orgia de crueldade. A guerra já matou 300 mil pessoas, deslocou 2,7 milhões e tem 4,8 milhões sob ameaça da fome desde 15 de Dezembro de 2013.

Ban Ki-moon, o secretário-geral da ONU, foi contundente na última assembleia geral, em finais de Setembro: «No Sudão do Sul, os líderes traíram o seu povo.» Traíram, sim, pela ganância e corrupção. Infelizmente o Sudão do Sul não é a única cleptocracia africana.

3 de novembro de 2016

Sudão do Sul: LADRÕES ASSALTAM CENTRO DE PAZ


Ladrões assaltaram à mão armada um centro de paz católico inaugurado há duas semanas perto de Juba, a capital do Sudão do Sul.

Um grupo armado não identificado entrou no Centro de Paz Bom Pastor no domingo à tarde exigindo telemóveis, computadores e carteiras aos presentes.

Alguns os trabalhadores ugandeses foram espancados, mas os religiosos residentes e hóspedes não foram molestados.

O roubo aconteceu pelas 19h30 de domingo em Kit, uma localidade a cerca de 14 quilómetros de Juba na margem direita do Nilo Branco.

Uma fonte missionária disse que os residentes do Centro estão bem.

Depois do roubo os presentes fizeram uma breve oração em conjunto e reportaram o incidente às autoridades locais que enviaram uma força para proteger as instalações.



Disse que os ladrões assediaram os religiosos e leigos que se encontravam no Centro de Paz.

O superior provincial dos Missionários Combonianos no Sudão do Sul Daniel Moschetti divulgou uma nota a negar a notícia.

Qualificou a notícia como um ato de propaganda.

O incidente foi um roubo à mão armada, «uma situação normal em Juba hoje», escreveu.

O P. Moschetti adiantou que o Centro está a funcionar normalmente.

A população local está a pedir uma esquadra da polícia em Kit.

O Centro de Paz Bom Pastor foi construído pela Associação de Religiosos do Sudão do Sul com ajudas do exterior.

O Centro foi inaugurado a 15 de outubro pelo Núncio Apostólico do Quénia e do Sudão do Sul, Arcebispo Charles Daniel Balvo.

O centro é dirigido por uma equipa de três padres, uma irmã e um irmão de cinco nacionalidades e congregações.

Funciona como um centro de espiritualidade e de cura de traumas para religiosos e leigos do Sudão do Sul,

27 de outubro de 2016

PAPA QUER VISITAR SUDÃO DO SUL

O Papa aceitou o convite dos líderes religiosos do Sudão do Sul para visitar o país e respondeu que quer ir ao país mais jovem do mundo destroçado pela guerra civil desde dezembro de 2013.

Francisco convidou ao Vaticano os primazes católico e anglicano e o moderador presbiteriano para o informarem sobre a situação no Sudão do Sul e a acção da Igreja no conflito que já fez mais de 300 mil mortos e 2,6 milhões de deslocados e refugiados.

O encontro entre o Papa Francisco, os arcebispos Paolino Lukudu Loro e Daniel Deng Bol e o moderador Peter Gai Lual decorreu esta manhã.

Uma nota da Rádio Vaticano explicou que os participantes testemunharam a boa colaboração entre as igrejas cristãs e manifestaram a disponibilidade em trabalhar juntos com renovada esperança e com confiança recíproca para responder de maneira efetiva às aspirações profundas daquela população.

No final Dom Paolino, o arcebispo comboniano de Juba, disse à Rádio Vaticano que o Papa afirmou que gostaria de visitar o Sudão do Sul.

Revelou que a delegação sul-sudanesa falou ao Papa da guerra, das matanças, dos refugiados e do medo prevalente.

No final convidaram Francisco a visitar o país.

O papa respondeu dizendo que estava próximo dos sul-sudaneses nos seus sofrimentos e repetiu duas vezes que queria visitar o Sudão do Sul.

O arcebispo Daniel Deng, primaz anglicano, esclareceu que «uma visita do Papa e do Arcebispo de Cantuária significaria unidade. Se os dois líderes dos grupos de fé maiores pudessem vir e pedir a paz, teria um grande impacte no país.»

O arcebispo católico de Juba também pediu ao Papa para enviar um núncio permanente para o Sudão do Sul. Até agora, o núncio no Quénia segue também o país.

O Papa precisa de um convite do presidente da República para visitar o Sudão do Sul.

Salva Kiir, um católico que até há dois anos ia regularmente à missa na Catedral de Juba, encontrou-se com Francisco numa audiência privada em novembro passado em Campala durante a visita papal ao Uganda.

O presidente explicou que deixou de ir à missa em protesto pelos conteúdos políticos das homilias de alguns celebrantes.

A provável visita do Papa ao Sudão do Sul vem na sequência da viagem que fez à República Centro-africana (RCA)  em dezembro passado para parar o conflito etnico-religioso que paralisou o país.

Francisco foi desencorajado a ir à RCA por razões de segurança mas não desistiu. Hoje o país vive dias melhores.

Juba: MORTES, VIOLAÇÕES E SAQUES


A Amnistia Internacional publicou um relatório a documentar a onda de mortes, violações e saques que tomou conta de Juba em julho passado quando as forças do governo e da oposição se defrontaram nas ruas e nos bairros da capital do Sudão do Sul.

O relatório «We did not believe we would survive», «Não acreditámos que sobreviríamos», tem por base 90 entrevistas que a organização internacional para os direitos humanos fez em Juba de julho a setembro a vitimas e testemunhas.

A crise começou a 8 de julho quando guarda-costas do primeiro-vice-presidente Riek Machar e tropas do governo se envolveram num tiroteio feroz junto ao Palácio Presidencial conhecido por J1.

O Presidente Salva Kiir, o primeiro-vice-presidente Riek Machar e o Vice-presidente James Wani Igga estavam no palácio a discutir as tensões crescentes entre as tropas do governo e os menos de 2000 soldados que faziam a guarda do Dr. Machar desde que regressou a Juba em abril.

Não se sabe quem deu o primeiro tiro! Sabe-se que no dia 8 de julho muitos combatentes e alguns civis morreram à volta do J1 e que os combates prosseguiram de 9 a 11 de julho, matando centenas de civis inocentes.

As tropas do governo atacaram a força de Machar com armamento pesado, tanques, helicanhões e deram «caça» aos moradores de etnia nuer, matando homens e violando sistematicamente mulheres.

Machar e menos de um milhar dos seus combatentes fugiram a pé para a República Democrática do Congo.

O relatório detalha os abusos cometidos durante e depois dos combates de julho: matanças deliberadas e desaparecimentos forçados, ataques indiscriminados, violação, saques e destruição de propriedades.

Também passa em revista a resposta inadequada das forças da ONU e analisa as obrigações legais internacionais.

«A luta foi marcada por violações sérias dos direitos humanos internacionais e da lei humanitária. A Amnistia Internacional descobriu que as forças do governo mataram deliberadamente civis e atiraram indiscriminadamente em bairros civis e à volta dos sítios da ONU para proteção de civis», lê-se.

«Colocando tanques e artilharia em áreas densamente povoadas e bombardeando alguns bairros com helicanhões, as forças do governo mostraram um desrespeito apático pela vida humana».

O documento também condena as forças de Machar por se escudarem entre civis nos campos de proteção da ONU, consideram o uso de escudos humanos crime de guerra.

A Amnistia aponta o dedo às forças da ONU que responderam à violência de julho de uma forma inadequada, falhando a missão de proteger civis.

Testemunhas contaram que algumas mulheres nueres foram violadas por soldados à frente de patrulhas dos capacetes azuis.

Por outro lado, as forças de paz recusaram-se a auxiliar agentes humanitários estrangeiros que foram atacados num hotel pelas forças do governo a menos de um quilómetro do quartel da ONU.

Um jornalista nuer foi assassinado a sangue frio no Hotel Terrain e muitas mulheres, algumas norte-americanas, violadas pelos soldados que roubaram tudo o que puderam e destruíram o resto numa orgia de vingança.

A Amnistia responsabiliza os líderes pelos crimes cometidos pelas suas forças e propõe um embargo de armas ao Sudão do Sul e a ativação imediata do Tribunal Híbrido para o Sudão do Sul para julgar os crimes de guerra e contra a humanidade.

«Muitos dos atos detalhados neste relatório, incluindo a morte deliberada de civis, violações e outras formas de violência sexual, e o saque e destruição de casas e negócios civis, são violações sérias destas regras [da lei humanitária internacional] e por isso constituem crimes de guerra», sublinha o relatório.

26 de outubro de 2016

PAPA NOMEIA BISPO COMBONIANO PERUANO


O Papa escolheu um missionário comboniano do Peru para liderar uma diocese no centro desse país andino.

O Papa Francisco nomeou o P. Luis Alberto Barrera Pacheco para bispo de Tarma no Peru, a Santa Sé anunciou ontem.

O P. Lucho é o superior provincial dos Missionários Combonianos no Peru e Chile desde 2011 e vice-presidente da Conferência de Superiores Maiores dos Religiosos do Peru um ano depois.

O bispo-eleito tem 50 anos. Fez a primeira profissão religiosa em 1991 e foi ordenado em 1995 depois do curso de teologia em Lima, a capital do Peru.

O P. Lucho trabalhou na República Centro-africana entre 1996 e 2007 na pastoral e formação de postulantes.

Em 2008 voltou ao Peru como formador no teologado de Lima até 2010.

Com a nomeação do P. Luis, os combonianos bispos são agora 20.

Sudão do Sul: PAPA CONVIDA LÍDERES RELIGIOSOS


O Papa convidou os líderes religiosos do Sudão do Sul ao Vaticano para explicarem a situação em que o país vive.

Os arcebispos Paolino Lukudu Loro, católico, Daniel Deng Bul, anglicano, e Peter Gai, presbiteriano, partiram ontem de Juba para Roma onde vão discutir com o Papa Francisco a situação que vive o país mais jovem do mundo, Rádio Bakhita anunciou.

Dom Paolino explicou aos jornalistas à partida de Juba que o Papa Francisco convidou os líderes religiosos do país para verificar a situação no país e ver o que a Igreja está a fazer.

O Sudão do Sul está em guerra civil desde dezembro de 2013, dois anos e meio após a independência.

1,3 milhões foram deslocados dentro do país, mais de um milhão estão refugidos nos países vizinhos e 300 mil pessoas foram mortas no conflito que opõe o presidente Salva Kiir Mayardit ao ex-presidente Riek Machar Teny.

«O Papa vai escutar-nos e nós vamos escutar o papa», disse Dom Paulino.

«O objetivo é a procura para a nossa paz. E para mostrar que o mundo inteiro está preocupado com a paz neste país, e também a Igreja», explicou o primaz católico do Sudão do Sul.

E acrescentou: «Esperamos que a voz do Papa não seja só para nós mas para o mundo inteiro sensibilizando o mundo para a situação no Sudão do Sul.»

O arcebispo comboniano concluiu que todos querem a paz e a bênção papal.

A audiência do Papa Francisco com os três líderes religiosos do Sudão do Sul acontece dias depois de a Amnistia Internacional apresentar um relatório em que responsabiliza os líderes do país pelos crimes de guerra cometidos por ambas as partes do conflito.

19 de outubro de 2016

MÃE DA MISERICÓRDIA


São sete e meia da tarde. O sol acabou de se esconder. Começa a hora do recolher obrigatório neste conturbado Darfur. Antes de fechar o portão do adro da igreja, paro diante da estátua do nicho de Nossa Senhora que, de facto, se tornou um bom hábito em mim, levando-me, espontaneamente, a puxar pelo terço que trago no bolso. Estamos no mês de outubro, o mês do Rosário.

Avisto um vulto branco do lado de fora do portão ainda aberto. À medida que me vou aproximando, distingo um homem ali parado, olhando numa única direcção dentro do adro, num ponto fixo que lhe terá, porventura, encantado a alma. Um rosário muçulmano de contas volumosas pendia-lhe da mão direita. Inspirava serenidade e paz.

Cheguei-me ao pé daquela figura de jalabia branca, a túnica que os árabes usam no dia-a-dia e sobretudo na sexta-feira, o seu dia santo.

Era um homem já de idade. Inclinei-me para ouvir o que supostamente me queria dizer. Só então os seus olhos deram comigo, ao mesmo tempo que decifrei um pedido na sua roufenha voz: «Ia hajj, meu respeitável senhor, dá-me licença?»

«Faça favor, meu bom homem», - respondi, convidando-o a entrar. Ao mesmo tempo que lhe indicava o zir, a grande bilha de água, e um banco ali mesmo ao lado, disse-lhe: «Beba, sente-se um pouco e descanse, antes de prosseguir caminho.»

Depois de ter bebido, o homem dirigiu-se apressadamente para o nicho. Pela forma resoluta e decidida de agir, faz-me pensar que esta não seria, certamente, a primeira vez que aqui veio. Aí se quedou, olhando fixamente para a Nossa Senhora. De pé. Em silêncio. Imóvel.

Depois de uns bons minutos em contemplação, fez questão de me dizer o seu nome, Mahmude. Não se cansava de agradecer a bela ocasião de ter podido estar com a mãe. Esta palavra, mãe, imediatamente me faz pensar em Maria e seu filho Issa, Jesus, segundo vem escrito no Alcorão. Mas hoje quero aproveitar a ocasião de ouvir o testemunho pessoal de um bom e devoto muçulmano.

Enquanto caminhávamos devagar para o portão de saída, perguntei em tom provocador: «A mãe? A mãe de quem?»

«A mãe de Issa, Jesus, um dos grandes profetas do Alcorão», respondeu.

E ousou acrescentar: «Acho que esse profeta também é uma grande e alta personalidade no vosso livro santo, dos cristãos, não é verdade?»

«Sim, sim, tem toda a razão», confirmei.

Pedi ainda uns minutos de paciência ao bom ancião.

Como missionário, a pessoa de Maria tem estado muito presente na minha relação diária com a minoria de cristãos desta paróquia de Nyala. Mas, falar de religião com os muçulmanos, até mesmo com os amigos mais pessoais, a coisa vai mais devagar. Esta é, pois, uma ocasião providencial para o efeito desejado.

Não o deixei ir embora sem me responder à curiosa e intrigada pergunta: «Ia hajj, meu respeitável senhor: quem é Maria para si? que lugar ocupa ela na sua vida?»

Ele olhou para mim, surpreendido, pela fácil e banal, para não dizer inútil, pergunta.

Como o interesse era todo meu, continuei: «Sim, sim, estou a referir-me a Mariam, à mãe de Issa, Jesus.»

O sábio ancião respondeu prontamente e de boa vontade.

«Deus é Rahman Rahim, Clemente e Misericordioso por excelência, e transmite tudo aquilo que Ele é e possui ao profeta Issa – embora o profeta extraordinário e incomparável, Maomé tenha sempre o primeiro lugar» – certificou.

«O nosso livro Sagrado, o Alcorão, diz-nos que Issa, Jesus, nasceu sem pai na terra e que sua mãe se chamava Mariam. Um grandioso milagre operado pela Misericórdia do Deus Altíssimo! Pode, porventura, alguem pensar no filho e esquecer a mãe? Certamente que não», concluiu.

Depois de ter proferido estas palavras, o rosto do misterioso e simpático amigo adoptou uma expressão majestosa e, ao mesmo tempo, tão doce, capaz de convencer o mais incrédulo dos humanos.

Falou com uma certeza surpreendente: «A rahma, a misericórdia, habita em Deus e em Issa, Jesus, de forma cabal e perfeita.»

Depois, inclinou-se sobre o meu ouvido, não fosse eu perder a essência e preciosidade das suas palavras à causa da sua voz roufenha.

«A conclusão é clara como o sol. Mariam participa da rahma, da misericórdia, de Deus e de Issa. Ela é a mãe, a cheia de rahma, misericórdia. E está sempre pronta a distribui-la e dispensá-la, não só a mim, muçulmano, mas também a ti e todas os seres que vivem à face da terra», disse.

Depois destas palavras tão sábias, o meu amigo Mahmude quedou-se ali, de pé, como que esperando a minha reacção. A verdade é que ele, na sua humildade, temia pela integridade da minha fé como cristão e não queria ofender-me com as palavras que tinha pronunciado. Mas, pelo contrário, tenho, sim, muito que agradecer a Deus pela grande lição de teologia.

Desde o nicho de Nossa Senhora até ao portão de saída, entre contemplação e oração, ouvindo e partilhando lições de teologia da misericórdia, fez-se noite cerrada. O teólogo da jalabia branca despediu-se, acenando com a mão e o grande rosário que lhe fustigava a cara. Hoje, alguém transgrediu a lei vigente do Darfur – o recolher obrigatório – aceitando praticar uma obra de misericórdia para comigo.

Obrigado, meu Deus, porque nos deste Maria, Mãe de misericórdia! Tão de graça o recebeu como tão de graça o dá. A mim, missionário no Darfur, e a todo aquele que abra os braços e o coração a esse grande dom.

Com Maria, missionários da misericórdia!

P. Feliz da Costa Martins
Missionário comboniano no Darfur – Sudão

18 de outubro de 2016

SUDÃO DO SUL: CENTRO DE PAZ ABRE

Arcebispo Charles comissiona equipa do Centro

O Centro de Paz Bom Pastor foi inaugurado a 15 de outubro em Kit, a 15 quilómetros de Juba, na margem direita do Nilo Branco.

O núncio no Quénia e Sudão do Sul, arcebispo Charles Daniel Bravo, presidiu à Eucaristia da inauguração que contou com a presença de alguns bispos, religiosos, autoridades civis, diplomatas, doadores e muitos populares.

O Centro foi construído pela Associação dos Superiores Religiosos do Sudão do Sul para a formação humana, espiritual e pastoral, construção da paz e cura de traumas.

A associação representa 47 congregações e cerca de 400 religiosos e religiosas.

No Sudão do Sul não havia uma estrutura católica para retiros, formação e congressos. A alternativa era ir ao Uganda ou Quénia ou alugar um hotel barato em Juba.

A ideia foi lançada em 2013 e o projeto demorou 17 meses a ser construído – um feito enorme tendo em conta as dimensões do centro e a situação de guerra em que vive o Sudão do Sul.

O centro com 40 quartos duplos e um espaço para jovens, tem salas de conferência, refeitório, uma capela grande e espaços de apoio para pequenos grupos.

O centro cresceu num espaço abandonado durante a guerra civil que pertence a um instituto local, os Irmãos de São Martinho de Porres.

O P. Daniel Moschetti, provincial dos combonianos e presidente da Associação dos Superiores Religiosos do Sudão do Sul, explicou num depoimento que «dado o conflito no país e as dificuldades em trazer materiais de construção e empregar uma força de trabalho capaz, a conclusão do centro dentro do orçamento foi um sucesso completo».

Os construtores, cristãos e muçulmanos, deram um testemunho de harmonia e trabalho conjunto sem incidentes.

O Centro de Paz Bom Pastor conta com cinco membros: uma freira americana, um irmão do Uganda e três padres do Ruanda, Filipinas e Sudão do Sul de cinco congregações diferentes.

O P. Moschetti diz que é «uma equipa que vive a unidade na diversidade. É uma mensagem para o Sudão do Sul de trabalho em conjunto em fraternidade para uma visão comum e futuro».

16 de outubro de 2016

ETIÓPIA EM ESTADO DE EMERGÊNCIA


A Etiópia está sob estado de emergência desde 8 de outubro em resposta a protestos violentos contra o Governo.

O primeiro-ministro Hailemariam Desalegn decretou seis meses de estado de emergência para controlar os protestos antigovernamentais cada vez mais fortes e violentos nas regiões da Oromia e Amara.

«Queremos parar com a destruição contra projectos de infraestrutura, centros de saúde, de administração e edifícios de justiça», explicou o primeiro-ministro na televisão etíope ao anunciar o estado de emergência.

Desalegn disse que a onda de protestos que alastra um pouco por todo o país põe em causa a integridade nacional.

Os protestos começaram em novembro de 2015 quando o Governo anunciou planos para alargar o perímetro urbano de Adis-Abeba, a capital etíope.

Os agricultores oromos manifestaram-se contra a ocupação dos seus terrenos férteis.

Desde então mais de 500 pessoas foram mortas pela polícia e pelos militares em protestos.

A 2 de outubro, 52 pessoas morreram durante um festival oromo em Bishiftu, nos arredores da capital.

Os distúrbios chegaram às zonas mais remotas da Oromia, incluindo Sollamo, a capital do distrito do Uraga, a mais de 500 quilómetros de Adis-Abeba.

Os amaras que contestam a anexação de território tradicionalmente seu ao estado do Tigrai fizeram coro com os oromos, bloquearam as entradas para Adis-Abeba e pararam a cidade turística de Bahr Dar.

A Etiópia é controlada pela elite política do Tigrai desde 1991, quando os rebeldes tigrinos derrotaram o regime comunista com a ajuda dos oromos.

Oromos e amaras fazem cerca de 70 por cento da população etíope.

Os tigrinos quedam-se pelos seis por cento, mas têm-se mantido no poder através de alianças locais.

A elite tigrina controla cerca de 70 por cento de economia etíope e tem feito negócios de terras pouco claros com investidores estrangeiros, expropriando as terras aos agricultores.

Segundo a Constituição etíope, a terra pertence ao Estado, que a concede aos interessados, um entendimento muito diferente dos grupos étnicos que consideram as terras ancestrais como suas.

12 de outubro de 2016

ÁFRICA: COMBONIANOS LOCALIZAM SUPERIORES MAIORES


Doze das 13 circunscrições combonianas na África vão ser governadas por missionários africanos a partir de 1 de janeiro de 2017.

Este é o resultado do processo para a eleição dos superiores de circunscrição nomeados a 10 de outubro de 2016 para o triénio 2017-2019.

Os missionários das 26 províncias e delegações em que os combonianos estão divididos iniciaram o processo de eleição dos superiores de circunscrição e respectivos conselheiros a 1 de maio de 2016.

O processo que inicia com uma sondagem e conclui com a eleição do superior provincial ou delegado e dos seus conselheiros termina a meados de dezembro.

Pela primeira vez todas as províncias e delegações da África vão ter superiores africanos, exceto a Etiópia que escolheu um provincial italiano.

Falta ainda apurar o provincial do Togo-Benim-Gana mas tudo indica que o escolhido será um missionário togolês a trabalhar no Sudão do Sul.

É mais um passo para realizar a intuição de São Daniel Comboni que há mais de 150 anos propôs a salvação da África através dos africanos.

O superior geral dos missionários combonianos é um etíope, o P. Tesfaye Tadesse.

Os resultados na América Latina são ligeiramente diferentes: três das sete circunscrições vão ser dirigidas por missionários europeus: o Brasil por um italiano e a Colômbia e o Peru por espanhóis.

O delegado da Ásia é português.

As cinco províncias europeias são dirigidas por membros radicais.

Os superiores provinciais para serem eleitos devem ter pelo menos 50 por cento dos votos expressos mais um.

Os resultados são confirmados pelo Conselho Geral que nomeia os superiores de circunscrição.

10 de outubro de 2016

COM COMBONI: PASTORES BONS E BELOS


A Igreja confiou aos combonianos uma parte do selfie de Jesus-pastor bom e belo para celebrarmos a solenidade de São Daniel Comboni, nosso pai e fundador.

Este texto faz parte do património espiritual que Daniel Comboni nos legou. Na relação à Sociedade de Colónia, a 15 de fevereiro de 1879, escreveu: «O Sagrado Coração de Jesus palpitou também pelos povos negros da África Central e Jesus Cristo morreu igualmente pelos Africanos. Jesus Cristo, o Bom Pastor, acolherá também a África Central dentro do seu redil» (Escritos 5647).

Neste parágrafo Comboni junta dois ícones cristológicos que combina num só: o Sagrado Coração de Jesus e Jesus Cristo, o Bom Pastor, de que resulta a mística comboniana do Bom Pastor do Coração Trespassado. A Regra de Vida 3.1 indica que se trata de «uma preciosa herança este aspeto relevante do carisma do Fundador», um património a conservar, aprofundar e inculturar.

Na Carta Circular aos participantes no Concílio Vaticano I, a 24 de junho de 1870, Comboni escreveu: «É preciso, pois, fazer todo o esforço para que a Nigrícia se una à Igreja Católica. Pedem-no a honra e a glória de N. S. Jesus Cristo, a cujo império ainda se não submeteu a África Central, depois de tanto tempo e apesar de Ele ter derramado o seu sangue para a sua regeneração. Exige-o a promessa feita por Nosso Senhor à Santa Madre Igreja: “Haverá um só rebanho sob um só pastor” (Jo.10)» (Escritos, 2308).

Para Comboni, Jesus é o «eterno e sumo Pastor» (Escritos, 3780). Chamou Obra do Bom Pastor ao grupo que fundou para apoiar a missão da África Central e Anais do Bom Pastor ao órgão de informação ao serviço da missão, publicado ainda hoje com o título de Nigrizia.

Volvamos o olhar do nosso coração para o ícone que a Igreja nos confia para celebrarmos a solenidade do fundador (João 10, 11-16).

Jesus revela-se como o pastor que é καλός – bom e belo – e põe a vida para a ovelhas ou como diz a tradução portuguesa «dá a vida pelas suas ovelhas».

A mística do Bom e Belo Pastor do Coração Trespassado tem algumas consequências práticas para os discípulos missionários.

Comboni escreveu na quarta edição do Plano para a regeneração da África: «À imitação do Divino Pastor, [os apóstolos] tomarão, dos espinhos em que se encontravam e da opressão em que jaziam, aquelas míseras ovelhas sobre os seus ombros para as levar em triunfo às livres e férteis pastagens da Igreja» (Escritos 2791).

Mais tarde, escreve na Relação histórica e estado do Vicariato da África Central à Sociedade de Colónia em 1877 em ligação com o Islão: «O missionário mergulhado em profunda oração, no meio destas solidões incomensuráveis, julga ouvir a voz do Divino Pastor que busca a ovelha negra perdida» (Escritos 4949).

É uma mística que nos abre a Deus e ao seu povo, a toda a criação.

Jesus compara o pastor com o mercenário: o pastor dá a vida, o mercenário foge para salvar a própria pele do lobo que «arrebata e dispersa» as ovelhas. As ovelhas são do pastor, o mercenário não se preocupa com elas: é um assalariado.

Para dar a vida temos que ser plenamente viventes, completamente vivos. Santo Ireneu de Lião escreveu que «a glória de Deus é o homem vivo e a vida do homem consiste na visão de Deus».

Os Documentos Capitulares 2015 sublinham o preço do pastoreio recordado na vida dos nossos 25 mártires, missionárias e missionários: «para defender a vida das ovelhas temos de enfrentar lobos e ladrões» (DC’ 15, 4).

Comboni já o houvera dito: «O missionário apostólico não pode percorrer senão o caminho da cruz do divino Mestre, semeada de espinhos e fadigas de todo o género. […] Portanto, o verdadeiro apóstolo não deve ter medo de nenhuma dificuldade, nem sequer da morte. A cruz e o martírio são o seu triunfo» (Escritos 5647).

Jesus passa depois para a descrição da relação com o seu rebanho: «conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-me, do mesmo modo que o Pai me conhece e Eu conheço o Pai».

Jesus fala de um conhecimento que ultrapassa a mera acumulação de informação. Trata-se de um conhecimento cordial que é relação, intimidade, comunhão pessoal.

Antoine de Saint-Exupéry escreve em O Principezinho que «só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.»

Voltamos de novos aos documentos do Capítulo: «Característica do discípulo é o encontro pessoal com o Bom Pastor e a escuta da sua voz, saboreando o seu amor e caminhando atrás d’Ele (João 10, 1-21)» (DC’ 15, 2).

Mais à frente lemos: «É necessário manter os olhos fixos em Jesus Cristo que nos introduz na contemplação do mistério de Deus, mas também no mistério do homem, onde o encontramos presente na sua riqueza e diversidade» (DC’ 15, 28).

A relação única, pessoal e comunitária que temos com a Trindade Santíssima é o conhecimento que somos chamados a partilhar no serviço missionário que vamos desenvolver – para não sermos nem mercenários nem vendedores de uma ideologia cristã.

Os capitulares escreveram-nos: «Queremos viver uma relação de comunhão com Deus e partilhá-lo com quem está ao nosso lado» (DC’ 15, 29).

Finalmente, Jesus diz que precisa de reunir outras ovelhas! O discípulo missionário tem que estar disponível para partir para outros rebanhos em estado de missão permanente: o mundo é o seu espaço e o seu limite. A grande tentação é transformar a tenda de pastor em morada do guardador.

A Palavra de Deus é para todos e é uma palavra que congrega: «elas ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor».

Daí o desafio do Capítulo: «Jesus chama-nos a viver e a promover vida plena para todos, conscientes de que trabalhamos num mundo em que forças poderosas levam por diante um plano de morte e destruição» (DC’ 15, 2).

O Pastor Bom e Belo ensina-nos a dar a vida e para isso dá-nos a vida em plenitude (João 10, 10). Um ícone que inspirou Comboni e nos desafia: tendo os olhos fixos em Jesus somos chamados a ser pastores segundo o coração de Deus, inteligentes e sabedores (Jeremias 3,15) na senda do nosso fundador.