23 de junho de 2017

«DEUS AMOU TANTO»


«Deus amou tanto o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna. De facto, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele.» (Jo 3, 16)

Caríssimos confrades,

Saudações e orações.

Boa Festa do Sagrado Coração de Jesus.

Deus nosso Pai mandou o seu único Filho, como sinal do seu amor pela humanidade necessitada e sofredora e consolou-nos a todos nós através do envio do Espírito Santo, dom do seu filho Jesus Cristo, nosso Senhor Crucificado e Ressuscitado. Nós acreditamos que cada discípulo e discípula, sejam chamados e enviados a anunciar, testemunhar e servir este amor de Deus. Nós todos agradecemos ao Senhor porque fez de São Daniel Comboni e de nós, os seus filhos, Missionários Combonianos, mensageiros, testemunhas e servos do seu amor.

Tudo o que o nosso pai Fundador, São Daniel Comboni, compreendeu do grande amor de Deus, levava-o ao Sagrado Coração de Jesus, símbolo do amor de Deus pela humanidade.

«Necessitando extremamente da ajuda do Sagrado Coração de Jesus, soberano da África Central, o qual é a alegria, a esperança, a fortuna e tudo para os seus pobres missionários, dirijo-me a si, amigo… para encomendar e confiar ao S. Coração os interesses mais preciosos da minha laboriosa e difícil missão, à qual consagrei toda a minha alma, o meu corpo, o meu sangue e a minha vida!» (E 5255-5256).

Caríssimos confrades, neste ano em que celebramos os 150 anos do nosso Instituto Missionário, queremos continuar a contemplar e agradecer a Deus, pelo amor vivido na sua vida por São Daniel Comboni e por tantos nossos confrades e pela grande generosidade para com o povo de Deus não obstante as nossas fragilidades, os nossos limites e os nossos pecados.

«Quero partilhar a vossa sorte e o dia mais feliz da minha existência será aquele em que eu possa dar a vida por vós» (E 3159). Sim, Comboni e os nossos confrades deixaram alargar o seu coração para que se assemelhasse um pouco mais ao de Jesus, para fazer causa comum e participar com generosidade na missão de Deus, entre os povos, onde estamos, e sobretudo entre os que sofrem, são marginalizados e empobrecidos.

«Encontro-me sempre com os meus queridos leprosos, falo-lhes da bondade do Senhor, e ensino a palavra de Deus. Tenho a igreja contígua à minha casita, Jesus próximo de Giosuè: quem, mais feliz do que eu? Não é este um pequeno céu? Quanto ao mal que me visitou, oh, eu beijo a mão do Senhor que me presenteou com a lepra; poder sofrer assim; para estas almas, não é uma graça? Eu não tenho senão um desejo: morrer leproso entre os meus leprosos!» (Ir. Giosuè Dei Cas, 1880-1932)

Sim, continuamos a agradecer ao Senhor por cada um dos nossos confrades que fazem causa comum e anunciam Jesus Cristo e o seu Evangelho para construir o Reino de Deus, recordando-nos que alguns pagaram o seu testemunho com a própria vida. «A Cruz é a solidariedade de Deus, que assume o caminho e o sofrimento humano, não para o eternizar mas para o suprimir. A maneira com que quer suprimi-lo não é através da força nem com o domínio, mas pela vida do amor. Cristo pregou e viveu esta nova dimensão. O medo da morte não o fez desistir do seu projecto de amor. O amor é mais forte do que a morte» (P. Ezechiele Ramin, Homilia aos Fiéis, Sexta-feira Santa, Cacoal, 05.04.1985)

Portanto, vivamos esta festa tão cara a todos nós com o olhar fixo no Coração de Jesus, deixando-nos enriquecer com o testemunho daqueles que nos precederam ao longo da história do nosso Instituto e empenhando-nos sempre mais na fidelidade quotidiana aos valores do Evangelho.

Boa Festa do Sagrado Coração!

No ano do 150º aniversário da fundação do nosso Instituto
O Conselho Geral

22 de junho de 2017

«SOLIDÁRIOS COM AS VÍTIMAS DOS INCÊNDIOS»


Bispos de Portugal apelam à solidariedade para com as vítimas dos incêndios que queimaram e mataram no centro do país.


Mensagem da Conferência Episcopal Portuguesa

Reunidos em Fátima, nas Jornadas Pastorais e em Assembleia Plenária extraordinária, nós, os Bispos portugueses, acompanhamos com dor, preocupação solidária e oração a dramática situação dos incêndios que provocaram numerosas vítimas e que estão a causar enorme devastação no país.

Partilhamos, antes de mais, a dor dos que choram os seus familiares e amigos que perderam a vida, pedindo a Deus que os acolha junto de Si. Manifestamos igualmente o nosso reconhecimento e apoio aos bombeiros, às organizações de socorro e aos numerosos voluntários, nacionais e estrangeiros, que envidam todos os esforços para salvar vidas, minorar danos e evitar a perda de pessoas e de bens, mesmo à custa de canseiras e riscos pessoais.

Na sequência do que afirmámos na Nota Pastoral de 27 de abril de 2017 «Cuidar da casa comum – prevenir e evitar os incêndios», estamos conscientes da necessidade de medidas mais preventivas, concretas e concertadas sobre esta calamidade que todos os anos atinge o nosso país. Neste momento, porém, em cada uma das nossas Igrejas diocesanas, sentimo-nos próximos e comprometidos com a situação dramática dos que sofrem. A partir das nossas comunidades cristãs, das Cáritas Diocesanas e da Cáritas Portuguesa, e de outras instituições eclesiais, participamos no esforço de acudir às vítimas, providenciar meios de primeira necessidade e colaborar no ressurgir da esperança, da solidariedade e do alento para reconstruir a vida e o futuro.

Pedimos a todas as comunidades cristãs e a quem deseje associar-se que, além de outras iniciativas solidárias, dediquem a oração, o sufrágio e o ofertório do primeiro domingo de julho a esta finalidade e que enviem o produto desta recolha fraterna para a Cáritas Portuguesa [Conta Cáritas na CGD: 0001 200000 730 - IBAN: PT50 0035 0001 00200000 730 54], a fim de ser encaminhado com brevidade para aqueles que necessitam.

Fátima, 21 de junho de 2017

20 de junho de 2017

Darfur: OPERÁRIO SALVA MISSIONÁRIOS DE SEQUESTRO


P. Feliz com Sr. Tong

Desde que cheguei a Nyala, Darfur, ja vai para 11 anos, há uma palavra que nós missionários ouvimos frequentemente de tanta gente que nos quer bem. Refiro-me especificamente ao alerta e bom conselho a respeito de sequestros e raptos de veículos e de pessoas, especialmente de estrangeiros. Esta é, de facto, uma triste realidade que não parou de existir desde o inicio da guerra/conflito armado do Darfur, em 2003.

De entre os sequestrados ao longo destes últimos anos contam-se também alguns conhecidos e amigos pessoais, incluindo o pároco da comunidade copta-ortodoxa de Nyala que foi raptado a 14 abril de 2016 e ficou em cativeiro durante 42 dias.

Infelizmente, esta maléfica e diabólica atividade continua atual nestas paragens. Na sexta-feira passada, 9 de junho, de manhãzinha, a horas em que as ruas estão praticamente desertas por ser o mês de Ramadão, o sinistro veio bater à porta da missão católica. Mas, graças ao Deus Altíssimo, não levou a melhor.

Eram três homens: um de arma kalashnikov em punho; outro de rosto completamente velado com o turbante; o terceiro sem qualquer distintivo.

Damos graças a Deus que nenhum de nós os dois missionários se encontrava por perto quando s bateram à porta da missão.

Tong, operário da missão que veio do Sudão do Sul, tinha chegado um pouco antes. Foi ele próprio que lidou com o caso e que imediatamente nos veio contar enquanto tomávamos o café da manhã.

Depois do apressado e abreviado «Assalam aleicum», ouvimos da sua boca a narração do que aconteceu.

Os assaltantes perguntaram: «Onde estão os abunas (padres)? Chama-os aqui à porta», ameaçaram.

Porém, Tong foi muito corajoso pela maneira como soube repelir os assaltantes: «Podes apertar o gatilho e disparar, se assim o quiseres; fica certo, porém, que não vou buscar os padres.»

Foi arrojada a resposta de Tong àquele que lhe apontava a arma ao peito. O breve relato do corrupto acidente deixou-nos sem palavras e sem reacção imediata.

Mais tarde, conversando com operário, pressenti que tinha algo a acrescentar à história do rapto falhado daquela manhã.

O portão estava aberto. Tong fez questão de me mostrar, mesmo aí ao lado, o local exacto onde esteve parada a carrinha Toyota, à espera de, em caso de êxito final e missão cumprida, arrancar com os dois padres cativos.

A seguir, num misto de orgulho e humildade, confessou: «Se me ponho a pensar donde me veio tal coragem para responder aos atacantes, não saberia explicar». Ao que eu respondi: «Não é questão de pôr-se a pensar; o que temos é muito que agradecer.»

E é mesmo esta a mensagem que aqui deixo ao enviar estas notícias aos amigos. Nós, os padres Lorenzo Baccin e Feliz Martins da missão católica de Nyala não cessamos de agradecer a Deus que nos livrou das mãos dos raptores.

Ao mesmo tempo, a nossa oração é em favor de todos aqueles que são vítimas de sequestros e raptos, como consequência da desgovernação caótica desta região sudanesa do Darfur.
Feliz C. Martins
Nyala – Sudão

9 de junho de 2017

CARTA AOS CONFRADES DA REPÚBLICA CENTRO AFRICANA


Os participantes no Simpósio dos 150 anos do Instituto dos Missionários Combonianos em Roma escreveram uma carta de apoio e de encorajamento aos Combonianos, Combonianas e Leigos Combonianos que trabalham com o povo centrafricano martirizado. 

«Este Instituto torna-se como que um pequeno cenáculo de Apóstolos para a África, um ponto luminoso que envia em direção do centro da Nigrícia tanto raios quanto os seus Missionários zelosos e virtuoso que saem do seu seio;  estes raios que brilham e, simultaneamente, aquecem, manifestam necessariamente a natureza do Centro de que provêm»
(São Daniel Comboni)


Muito estimado P.e Médard e confrades da República Centro Africana,

reunidos aqui em Roma como Família Missionária Comboniana para o Simpósio dos 150 anos do nosso Instituto, o nosso pensamento e o nosso coração querem unir-se a vós.

O Simpósio é um momento de profunda comunhão com todos os confrades e irmãs que em diferentes missões continuam esta obra que o nosso fundador iniciou há 150 anos.

De um modo todo particular, sobretudo após os acontecimentos de Bangassou, queremos exprimir-vos a nossa solidariedade e a nossa fraternidade e, sobretudo a nossa oração por todos vós: Combonianos, Combonianas, Seculares e Leigos Combonianos, que caminhais com o martirizado povo centro-africano. Dais-nos, uma vez mais, um testemunho de amor e de misericórdia para com todos; um testemunho de fé cristã nesse Deus que nos chama a responder ao mal com o bem.

Com a vossa vida dizeis-nos que ser Missionários Combonianos, apesar de por vezes ser difícil, vale a pena. Obrigado porque estais a semear a boa semente, seguindo os passos de Comboni, com a mesma certeza que «as obras de Deus nascem e crescem aos pés da Cruz».

Concluímos com as palavras pronunciadas pelo Papa Francisco por ocasião da abertura da Porta Santa em Bangui: «Todos pedimos a paz, a misericórdia e a reconciliação, o perdão, o amor, para Bangui, para toda a República Centro-Africana, para o mundo inteiro, para os povos vítimas da guerra, imploramos a paz!».

Que Maria, Rainha da Nigrícia, São Daniel Comboni e todos os confrades e irmãs que nos precederam, intercedam por todos nós.

Roma, 1 de Junho de 2017.

Os participantes ao Simpósio pelos 150 anos do Instituo dos Missionários Combonianos.

8 de junho de 2017

COM GRATIDÃO E ESPERANÇA


Mensagem conclusiva do simpósio aos confrades

Nós, missionários combonianos, provenientes das diversas circunscrições e acompanhados por membros da Família Comboniana, reunimo-nos em Roma para celebrar o aniversário dos 150 anos do nosso instituto. Para todos nós celebrar significa antes de mais fazer memória das nossas origens e da história que o Senhor está a traçar connosco e com os povos que encontramos no nosso caminho. Recordar não é um exercício de arqueologia, mas um processo vivo de agradecimento ao Senhor e entrega confiante do nosso futuro nas suas mãos. Recordar é partir de novo, renovados.


Herança: da gratidão à fidelidade

O nascimento do nosso instituto não aconteceu à mesa, mas foi fruto de um longo processo de vida e missão. Foi um parto doloroso e atormentado num momento de mudança epocal. Nascemos na pobreza, sem apoios eclesiásticos, políticos e económicos particulares. Este evento quase único na história do movimento missionário do século xix deu-nos uma grande liberdade de responder à nossa vocação especial. Embora o percurso de definição jurídica não tenha sido simples, é claro que Comboni desejava uma família de missionários que fossem:

  • ad vitam, ou seja não só dispostos a doar o seu tempo, mas a sua própria vida pela missão;
  • católicos, isto é não prisioneiros de lógicas nacionalistas;
  • apaixonados por Deus e pelos povos, fazendo causa comum com os pobres.

O papa Francisco diz-nos que «a alegria do missionário brilha sempre sobre o fundo de uma memória grata». A gratidão é reconhecer-se amados e, impelidos por este amor, sair para partilhar a experiência com os outros. A gratidão não é estática, mas é um movimento dentro de nós, fora de nós e à frente, é um caminho. Nesta ótica, a reunificação do instituto, a nova regra de vida e a canonização de São Daniel Comboni tornam-se momentos qualificantes da nossa história e ocasiões para partir de novo e continuar o seu percurso com criatividade.

Gratidão significa reconhecer na nossa história a fidelidade de Deus, espelhada na generosa fidelidade de tantos confrades de ontem e de hoje: fidelidade ao Evangelho, a Comboni, à missão árdua, à oração, à pobreza evangélica, ao povo de Deus e à internacionalidade.


Caminhos de regeneração

Hoje temos os instrumentos para estudar e conhecer melhor o fundador e a nossa história, e este simpósio deu o seu contributo a este fim. Estamos conscientes de que cada vez que nos aproximamos de Comboni e da sua graça carismática damos um salto qualitativo.

É necessária uma reconfiguração do nosso instituto. Encontramo-nos perante o desafio de uma missão que não se detém, que está ainda longe das suas metas. O envelhecimento dos membros do nosso instituto, acompanhado de uma quebra de vocações em muitas das nossas circunscrições, os novos paradigmas de missão e a alteração do nosso papel no seio das igrejas locais são alguns dos desafios que acrescentam inquietação ao nosso presente. Esta missão exige um testemunho que vai muito para além das obras e questiona o nosso estilo de vida, e pede-nos a entrega cabal de nós mesmos.

Sentimos que a reconfiguração do nosso instituto passa através de quatro caminhos: a mística, a humildade, a fraternidade e a ministerialidade.

1. Mística. Não é apenas questão de redescobrir o gosto da oração, mas desenvolver uma espiritualidade da presença de Deus na história dos povos e nos rostos das pessoas. A fé e a esperança dos pobres ensinam-nos esta mística, sem a qual corremos o risco de definhar e de perder o sentido do nosso caminho missionário.

2. Humildade. Conscientes dos nossos limites e fragilidades, sentimo-nos chamados a passar do protagonismo ao testemunho. Hoje não conta só «fazer missão», mas antes e sobretudo «ser missão». Não bastam as palavras e a obras, há muitas pessoas capazes de falar e de fazer, por vezes melhor do que nós. O desafio que se nos apresenta é mostrar com a nossa vida o tesouro que guardamos no coração.

3. Fraternidade. Tanto nas intervenções como nos trabalhos de grupo surgiu muitas vezes o desejo de nos amarmos mais uns aos outros. Precisamos de crescer na qualidade das nossas relações comunitárias. Este problema manifesta-se na insuficiência de discernimento e de projetos comunitários e na pouco partilha das nossas vivências. Alguns de nós não se sentem em casa nas nossas comunidades. Ser irmãos entre nós exige momentos de reconciliação, até mesmo sacramentais. Mais fraternidade ajudaria a integrar missão e consagração e a melhorar o nosso discernimento comunitário.

4. Ministerialidade. Os novos contextos sociais convidam-nos a rever com urgência a nossa ministerialidade. Hoje temos necessidade de ser mais bem qualificados nos diversos campos da evangelização, trabalhando em equipa com todos os sujeitos da família comboniana e da igreja local. A missão é ponto de referência de todo o percurso formativo. A ministerialidade não chega se não for fundada sobre a paixão de Cristo pela humanidade.

Deste aniversário partimos como irmãos, conscientes dos desafios e das dificuldades, mas carregados de esperança:

«O missionário não se deixa abater por nenhuma dificuldade. Todas as cruzes são meritórias porque se trabalha somente por Cristo e pela missão» (São Daniel Comboni).

«Que o Espírito faça sobreabundar em vós a esperança» (Papa Francisco).

7 de junho de 2017

MEMORAR


Nós somos povo pascal! Filhos da ressurreição, somos convocados a fazer memória da Páscoa do Senhor, das passagens da Trindade Santa nas nossas vidas, na nossa história transformando-as em vidas e história de salvação.

«Fazei isto em memória de mim», confiou Jesus aos discípulos da primeira Eucaristia, aos discípulos de todas as Eucaristias. Somos povo da memória.

Fazer memória é, primeiro, escancarar a mente e o coração ao Espírito Santo num Pentecostes quotidiano. Sem o Paráclito não há memória! Jesus disse aos discípulos: «O Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, esse é que vos ensinará tudo, e há de recordar-vos tudo» (João 14, 26).

O P.e David Glenday comenta assim esta passagem inspiradora: «Para os discípulos, para nós, recordar é em primeiro lugar não um esforço ou projeto de nós próprios, mas um dom, uma graça, um trabalho do Espírito.»

Memoramos as maravilhas que o Senhor operou pelos Missionários Combonianos, para os Missionários Combonianos, através dos Missionários Combonianos em sete décadas de presença em Viseu e em Portugal.

O Senhor abençoou-nos «porque o seu amor é eterno» (Salmo 136).

Abençoou-nos através do carinho acolhedor da diocese de Viseu, da cidade, da região, do país.

Abençoou-nos através de todas as pessoas que com o seu afeto e amizade tornaram possível esta história singular de 70 anos em Portugal.

Abençoou-nos através das missionárias e missionários que nos precederam nesta peregrinação com o Senhor da Missão. Vivemos porque elas e eles amaram: «Felizes os que morreram no amor; pois, nós também viveremos certamente», recorda a Escritura (Ben Sira 48,11).

Abençoou-nos inspirando há 150 anos o P.e Daniel Comboni a fundar o Instituto Missionário para a Nigrícia.

O fundador escreveu a um amigo: «Lembre-se de mim, que me é grato viver na sua memória» (Escritos 714).

É-nos grato aos combonianos de ontem e de hoje viver na memória acolhedora da Igreja e da sociedade civil de Viseu, de Portugal. E, confiantes na misericórdia do Senhor, pedir humildemente perdão pelos nossos pecados.

Memorar é viver na memória uns dos outros!

Que o Senhor nos abençoe a todos!

3 de junho de 2017

O DALAI LAMA E O ARCEBISPO: ALEGRIA


Dizem-se almas gémeas, irmãos espirituais, mas aparentemente não poderiam ser mais diferentes: Tenzin Gyatso é o 14º Dalai Lama, monge budista e líder do povo do Tibete no exílio. Desmond Tutu é sul-africano, cristão, arcebispo anglicano do Cabo, na África do Sul.

Dois prémios nobel da paz, dois seres humanos especiais que acreditam na bondade inerente de cada pessoa e na esperança e compaixão como elementos fundamentais para o nosso relacionamento, para a nossa felicidade.

Fazem da humanidade partilhada o ponto de partida para o seu diálogo intenso, feito de palavras, de gargalhadas e de gestos durante uma semana, sobre a alegria, a sua natureza verdadeira, obstáculos e pilares.

Os diálogos decorreram em Dharamsala, no exílio indiano do Dalai Lama.

A ocasião que os juntou foi a celebração dos 80 anos do líder espiritual dos tibetanos.

Trocaram ideias, carinhos, brincadeiras, grandes risadas, exploraram juntos as respetivas tradições religiosas.

O Dalai Lama é um monge budista e não bebe álcool. Mas essa tradição não o impediu de comungar do cálice durante a Eucaristia que o arcebispo celebrou para ele. E de dar dois passos de dança – outro interdito dos monges budistas – instigado pelo arcebispo na grande festa de aniversário.

Essa semana única foi registada em vídeo. Douglas Abrams conduziu os debates, fez as perguntas, trabalhou as gravações. E nasceu O livro da alegria – alcançar a felicidade num mundo em mudança.

Dois homens de duas geografias e teologias tão diversas pensam a uma só voz: o que nos separa é de facto muito pouco.

Algumas frases que guardei:

ALEGRIA/DOR: «Tristemente, muitas das coisas que corroem a nossa alegria e a nossa felicidade são criadas por nós próprios. Muitas vezes, resultam das tendências negativas da mente, da reatividade emocional, ou da nossa incapacidade para apreciarmos e utilizarmos os recursos que existem no nosso interior» (Dalai Lama).

CUIDADO/ALEGRIA: «Cuidar dos outros, ajudar os outros, é, em última análise, a forma de descobrir a nossa própria alegria e ter uma vida feliz» (Dalai Lama).

MEDO: ««Na verdade, o medo faz parte da natureza humana; é uma resposta natural que surge face ao perigo. Mas, com coragem, quando de facto surge o perigo, poderão ser mais destemidos, mais realistas. Por outro lado, se deixarem a vossa imaginação à solta, exacerbam a situação, o que gera mais medo» (Dalai Lama).

MEDO/INFERNO: «Muitas pessoas neste planeta preocupam-se por poderem ir para o Inferno, mas isso vale de nada. Não é preciso ter medo. Enquanto estivermos na terra preocupados com o Inferno, com a morte, com as coisas que podem correr mal, teremos imensa ansiedade e nunca encontraremos a alegria e a felicidade. Se tiverem verdadeiramente medo do Inferno, têm que viver a vossa vida com algum propósito, especialmente ajudando os outros» (Dalai Lama).

PERDÃO/LIBERTAÇÃO: «O perdão é a única forma de sararmos e de nos libertarmos do passado» (Desmond Tutu).

EU/SOFRIMENTO TU/FELICIDADE: «Um pensamento demasiado centrado no eu é uma fonte de sofrimento. Um cuidado compassivo pelo bem-estar dos outros é a fonte da felicidade» (Dalai Lama).

CUIDADO/ALEGRIA: «De facto, cuidarmos dos outros, ajudarmos os outros, é a forma derradeira de descobrirmos a nossa própria alegria e ter uma vida feliz» (Dalai Lama).

MAL/BEM: «Sim, somos capazes das mais horrorosas atrocidades. Podemos fazer uma lista. E Deus chora até que surgem aqueles que dizem querer tentar fazer alguma coisa. É bom lembrar também que temos uma fantástica capacidade para praticar o bem» (Desmond Tutu).

BONDADE: «Sabemos que os seres humanos são basicamente bons. Sabemos que é por aí que temos de começar. Que tudo o resto é uma aberração. Tudo o que se desvie daí é uma exceção – mesmo que de vez em quando possa ser muito frustrante. As pessoas são espantosamente, extraordinariamente boas, incríveis na sua generosidade» (Desmond Tutu)

FELICIDADE/AFETO/GENEROSIDADE: «A única coisa que produzirá felicidade é o afeto e a generosidade. Isso traz realmente força interior e autoconfiança, reduz o medo e desenvolve a confiança, e a confiança traz a amizade» (Dalai Lama).

SOLIDÃO/RAIVA/AMIZADE: «Se estiverem repletos de juízos negativos e raiva, então sentir-se-ão separados das outras pessoas. Sentir-se-ão solitários. Mas, se tiverem um coração aberto e estiverem plenos de confiança e amizade, mesmo que estejam fisicamente sós, mesmo levando uma vida de eremita, nunca se sentirão sozinhos» (Dalai Lama).

2 de junho de 2017

ARCO-ÍRIS DESBOTADO


A «nação arco-íris» perde cor.

A África do Sul fez uma transição notável do regime segregacionista da minoria branca para a democracia multirracial e multipartidária guiada pela figura maior que foi Nelson Mandela sob a bandeira da Nação Arco-Íris.

Com as eleições de 1994, ganhas pelo ANC de Mandela, nascia um tempo fértil de esperança para a maioria dos sul-africanos. A Constituição de 1996 parecia pôr termo ao tempo da segregação e da pobreza institucionalizadas para as populações negras.

A Comissão de Verdade e Reconciliação, conduzida pelo arcebispo Desmond Tutu, sentou frente a frente vítimas e agressores e cancelou o espectro da vingança e do banho de sangue nacional. O arcebispo anglicano cunhou o termo «Nação Arco-Íris» para celebrar a diversidade cultural do país.

Hoje, a esperança da madrugada da liberdade deu lugar à exasperação da canícula do meio-dia. A sociedade sul-africana é das mais violentas do globo. Racismo e xenofobia contra estrangeiros africanos e violência contra a mulher estão na ordem do dia. A liderança política enfraqueceu.

A África do Sul é o país mais rico do continente. Os seus recursos naturais importantes incluem ouro, diamantes, cobre, crómio, antimónio, platina, urânio, carvão, ferro, gás natural. Contudo, a riqueza é repartida por uma elite. Um quinto da população vive em pobreza extrema e um quarto está desempregado. Em termos de consumo, os 20 por cento mais pobres da população consomem três por cento do total dos gastos do país, enquanto os 20 por cento mais ricos consomem 65 por cento.

O P.e Jude Burgers, provincial dos Combonianos na África do Sul, escreveu num depoimento: «Sendo sul-africano, eu amo o meu país e o seu povo. Gostaria de ver o melhor do meu país em destaque, e que as muitas áreas que necessitam de tratamento sejam rapidamente cuidadas. Retraio-me quando as escaramuças no nosso Parlamento são transmitidas por todo o mundo. Baixo a cabeça, envergonhado, quando ataques xenófobos e relatórios de corrupção maciça e discriminação são notícia local e internacionalmente.»

A Nação Arco-Íris é produto de migrações milenares que foram compondo o mosaico étnico sul-africano. Ataques contra estrangeiros são comuns devido à crise económica que o país vive. O Governo recusa vistos de residência a estrangeiros africanos, incluindo missionários.

«Embora a África do Sul seja lar de milhões de refugiados, não tem campos de refugiados. Estes refugiados e migrantes vieram de todas as partes do continente africano e também da Ásia. Os refugiados, migrantes e exilados, inicialmente recebidos de braços abertos, experimentam agora hostilidades por parte de algumas populações locais. Lutando com os habitantes locais pelos mesmos recursos, empregos e habitação encontram-se, discriminados pelo simples facto de serem “estrangeiros”», explica o P.e Jude.

Há alguma saída para esta situação de crise profunda? O P.e Jude vê uma escapatória: «Acredito que por meio da educação a nossa sociedade crescerá para ser mais compreensiva e acolhedora.» Mesmo apesar da crise do sector. «Temos milhares de educadores comprometidos e boas instalações educacionais, mas ganhar acesso a uma educação boa é problemático», acrescenta.

Campanhas como #Feesmustfall (Propinas têm de baixar) apontam para a democratização do ensino ao pugnar por educação universitária gratuita para todos.

31 de maio de 2017

PRÉMIO AURORA PARA MÉDICO-MISSIONÁRIO


O Prémio Aurora despertar a humanidade foi atribuído a Tom Catena, 53 anos, um médico-missionário voluntário norte-americano que trabalha nos Montes Nuba do sul do Sudão.

«O Dr. Catena corporiza o espírito do Prémio Aurora, e nós estendemos a nossa gratidão mais profunda a ele e às pessoas e organizações em todo o mundo que o apoiam e inspiram para continuar o seu nobre trabalho apesar das imensas condições desafiantes», disse Ruben Vardanyan, cofundador da Iniciativa Humanitária Aurora e da Universidade Mundo Unido.

E acrescentou: «Estamos honrados por partilhar a sua história com o mundo para iluminar a boa vontade que existe no mundo para que ajudar outros faça parte da nossa cultura global».

A história do Doctor Tom como é conhecido localmente é, de facto, uma história de dedicação ímpar que merece ser contada.

Chegou como voluntário ao Hospital Católico Mãe da Misericórdia, em Guidel (Montes Nuba), no Sudão, há uma década e por lá ficou apesar da guerra civil que ronda a área e das bombas da força aérea.

Conheci-o em 2010 e fiquei marcado pela sua vida austera e dedicada, pela sua tranquilidade. Vinha para a missa das 7h00 da manhã já com a farda verde de trabalho vestida para começar as consultas e as cirurgias logo a seguir.

Vivia num quarto simples, na área do hospital que foi construída para acolher irmãs de uma congregação portuguesa que decidiram anular a partida depois de a guerra civil voltar em 2011.

Guidel fica na área controlada pelos rebeldes do SPLA-Norte.

Operava sempre com música de fundo: rock and roll, música clássica, religiosa, românica… Brinquei com aquela diversidade eclética de sonoridades. «É para me concentrar», explicou.

É o único cirurgião nos Montes Nuba e faz mais de mil intervenções por ano. Serve cerca de 750 mil pessoas.

A guerra civil dá-lhe imenso trabalho, sobretudo as vítimas civis e militares dos bombardeamentos indiscriminados com explosivos artesanais carregadas de estilhaços da força aérea sudanesa que mantém a população sob terror.

Em Guidel está 24 horas de serviço. Fora de Guidel – nas poucas férias que tira cada dois anos – tenta manter o martírio das pessoas dos Montes Nuba na agenda internacional.

O regime de Cartum tentou neutraliza-lo quando um MIG atacou o quarto em que reside no complexo hospitalar. Mas às 11h00 horas da manhã o Dr. Tom estava há muito de serviço no Hospital e escapou ileso à explosão do míssil assassino.

É a fé cristã que o faz permanecer em Guidel juntamente com a comunidade das irmãs combonianas que com ele colaboram no hospital apesar da guerra.

Deixou a namorada para vir para os Montes Nuba. Recentemente casou-se com uma enfermeira local seguindo os costumes tradicionais.

A revista Time colocou-o entre os cem mais influentes de 2015.

O Dr Tom Catena recebeu cem mil dólares do Prémio Aurora e um milhão que dividiu por três organizações caritativas, segundo a dinâmica do galardão.

O Hospital Católico Mãe da Misericórdia foi construído pelo comboniano sudanês Dom Macram Max, bispo emérito de El Obeid, no Sudão, em 2008 e tem 350 camas.

Na última visita que fiz à região, em 2013, tinha cerca de 500 pacientes nas enfermarias, corredores e tendas de campanha montadas por baixo das árvores nim. A maioria eram vítimas das bombas de Cartum.

30 de maio de 2017

PAPA ADIA VIAGEM AO SUDÃO DO SUL


O Papa adiou uma visita ecuménica ao Sudão do Sul prevista para o Outono.

Greg Burke, porta-voz do Vaticano, disse hoje que a viagem não se fará em 2017.

A insegurança em que o país vive torna a viagem papal demasiado perigosa.

Os líderes cristãos do Sudão do Sul convidaram em outubro passado o Papa Francisco e o Arcebispo anglicano Justin Welby de Cantuária para visitarem juntos o país dilacerado por uma guerra civil letal que destrói o país desde dezembro de 2013.

Centenas de milhares de pessoas morreram em combates sangrentos que visam sobretudo a população civil.

A ONU fala de crimes de guerra e contra a humanidade perpetrados por ambas as partes do conflito.

Metade da população enfrenta a fome. Quase dois milhões foram deslocados pelos combates e um milhão procurou refúgio nos países vizinhoa.

Na semana passada, o arcebispo católico de Juba, Dom Paulino Lukudu Loro, anunciou que esperava a visita ecuménica a 15 de outubro.

O anúncio do adiamento da visita do Papa Francisco e do Arcebispo Welby ao Sudão do Sul foi recebido com tristeza.

Marko Logel, colaborador da Rádio Bakhita em Juba, escreveu no Facebook: «Notícia dececionante para nós. Se pôde visitar RCA, porque não SS esta vez?», pergunta.

A visita do Papa à República Centro-Africana em 2015 conseguiu travar por bastante tempo o conflito entre muçulmanos e milícias oponentes.

27 de maio de 2017

NOSSA SENHORA DO SAGRADO CORAÇÃO

A família comboniana celebra a Memória da Bem-aventurada Virgem Maria «Nossa Senhora do Sagrado Coração» no último sábado de maio.

São Daniel Comboni tinha uma grande devoção por Nossa Senhora e invocava-a sobretudo como Nossa Senhora do Sagrado Coração, «novo e glorioso título» como escreve no Ato de consagração de novembro de 1875. A expressão aparece pelo menos 25 vezes em Escritos, o grosso volume que reúne grande parte da correspondência do fundador.

Nós, família comboniana, herdamos esta dimensão do carisma e celebramo-la no último sábado de maio para estar com Maria através do coração mariano de São Daniel Comboni. Nesta reflexão uso sobretudo três textos: Consagração da Nigrícia a Nossa Senhora de La Salette, na França (a 26 de julho de 1868), Carta pastoral para proclamar a consagração do Vicariato a Nossa Senhora do Sagrado Coração (de 28 de outubro de 1875) e Ato de consagração a Nossa Senhora do Sagrado Coração (de novembro de 1875).



1. Ladainha comboniana

Os Escritos de Daniel Comboni são uma enorme experiência mariana. Comboni acarinhou a Mãe do Céu com inúmeros títulos cheios de ternura. Formam uma verdadeira ladainha missionária comboniana: advogada nossa, advogada mais eloquente que todos os anjos e santos, advogada das causas mais difíceis e desesperadas, chave mística do Coração adorável de Jesus, concerto público e geral de todas as criaturas, conforto precioso do missionário, conforto dos aflitos, coração trespassado, despenseira generosa dois tesouros de graça do Coração de Cristo, domicílio do Eterno Divino Filho, dona do Sagrado Coração de Jesus, elogio universal de todos os seres, esperança dos desesperados, esperança dos pecadores, estandarte da fé, estrela da manhã de luz para os negros, estrela de Jacob, filha predileta do Eterno Pai, filha do Altíssimo, filha do rei David, filha primeira de Eva, guia nas viagens, íris de paz e de reconciliação, luz dos errantes, luz nas trevas, mãe, mãe amorosa, mãe bondosa, mãe bondosa de misericórdia, mãe dolorosa, mãe minha, mãe nossa, mãe venturosa, mãe divina de Deus de Cristo, mãe nossa junto do Coração de Jesus, mãe dos africanos, mãe dos apóstolos, mãe mais amorosa de todas as mães, mãe do bom conselho, mãe da consolação, mãe e rainha da Nigrícia, mãe do vicariato da África Central, mãe piíssima, Maria omnipotente, mestra nossa nas dúvidas, milagre da omnipotência divina, morada inefável do Eterno Divino Espírito, mulher sem mancha, Nossa Senhora do Sagrado Coração, omnipotência suplicável, perpétuo panegírico de todos os séculos, porto dos em perigo, prodígio da graça de Deus, rainha da África, rainha dos anjos, rainha dos apóstolos, rainha dos céus, rainha dos céus e da terra, rainha e mãe dos pobres negros, rainha piedosa da Nigrícia, rainha do Sagrado Coração, reconciliadora dos pecadores, refúgio dos pecadores, refúgio dos pobres, regeneradora do género humano, saúde e fortaleza nas enfermidades, sede da sabedoria, Senhora do Sagrado Coração de Jesus, soberana augusta do Coração de Jesus, sol no meio das trevas, tudo para nós depois de Jesus, virgem bendita, virgem que antes de todas levantastes o estandarte da virgindade, virgem do perdão e da salvação, virgem da reconciliação, virgem divina, virgem imaculada, vitoriosa e Imaculada Mãe de Deus.



2. A pérola negra no diadema da Mãe de Deus
Comboni tinha um sonho: que a Nigrícia do seu coração brilhasse como pérola negra no diadema na cabeça da Imaculada: «Que no diadema ornado de celestiais gemas que cingem a augusta cabeça da Vitoriosa e Imaculada Mãe de Deus, resplandeça o povo dos negros, já conquistado para Cristo, como uma pérola morena», escreve Comboni na petição em favor dos negros da África Central apresentada a 24 de junho de 1870 aos padres do Concílio Vaticano I (E 2314).

Um dos grandes problemas que afligia o coração de pai e pastor de Daniel Comboni era a escravatura. Ele trabalhou incansavelmente com as autoridades civis para abolir tal flagelo. E contava com a intercessão da Virgem Santa Maria nessa cruzada humanitária: «Só a fé de Cristo implantada no centro da África e os Sagrados Corações de Jesus, de Maria Imaculada e de S. José, mais que a rainha da Inglaterra e o Tratado de Paris de 1856, abolirão a escravidão» (E 3250), escreve com fé Comboni de El Obeid, no Sudão, a um padre trentino a 24 de julho de 1873.

Hoje as escravidões são outras mas os Corações de Jesus e de Maria e São José continuam com a mesma força. Temos que lhes recordar os povos sofredores do Sudão do Sul, dos Montes Nubas – gente amada por Comboni, da República Democrática do Congo, da República Centro-Africana, da Síria, do Iraque, do Iémen, do Egito e de tantos outros países. Somos um povo sacerdotal, gente que faz a ponte entre Deus e os seus filhos e filhas, através da oração de intercessão ao jeito de São Daniel Comboni.

Todos enfrentamos dificuldades, problemas, desalentos, medos… A vida também é feita disso! Mas Comboni sabia onde estava a sua força: «As cruzes são inevitáveis; inimigos suscitados pelo dragão do abismo havê-los-á sempre; teremos que sofrer muito. Mas Deus, a sua graça e a Virgem Imaculada serão suficientes contra tudo e estarão sempre connosco» (E 1472).

Comboni tinha uma confiança imensa na Mãe do Céu. O ato de consagração a Nossa Senhora do Sagrado Coração que depois vamos rezar é prova disso. Ele consagrou o seu Vicariato a 14 de Setembro de 1873 ao Coração de Jesus.

«Recordais que as esperanças que então concebemos de que se nos depararia uma nova era de graça e de bênçãos e de que para nós e para os mais de cem milhões de infiéis do nosso laborioso vicariato se abririam os tesouros da piedade e misericórdia deste adorabilíssimo Coração», escreveu na carta circular a anunciar a consagração do Vicariato à Senhora do Sagrado Coração (E 3990). Porque «Maria abre esse Coração e nada o pode fechar; fecha-o e ninguém o pode abrir» (E 3992). Esta era a sua confiança de filho. Ele chama-lhe «chave mística do Coração adorável de Jesus» e pergunta «Se Nossa Senhora é a chave mística do Coração de Jesus, não quererá ela dar acesso aos infinitos tesouros desse Coração adorável a estas almas abandonadas dos descendentes de Cam?» (E 3996).

Outra oração linda de Comboni é esta prece que inseriu na Homilia de Cartum de 11 de maio de 1873 onde muitas missionárias e missionários continuam a beber inspiração. Ele chama a Nossa Senhora piedosa rainha da Nigrícia, Mãe amorosa do seu vicariato, protetora, guardiã e guia, Mãe de Deus, apressadora da hora da África, aplanadora de obstáculos, preparadora dos corações e promotora de vocações.

Também hoje lhe rezamos com as mesmas palavras de há 143 anos: «E agora é a vós a quem me dirijo, ó piedosa Rainha da Nigrícia, e, aclamando-vos como Mãe amorosa deste vicariato apostólico da África Central entregue aos meus cuidados, atrevo-me a suplicar-vos que nos recebais solenemente sob a Vossa proteção a mim e a todos os meus filhos, para que nos guardeis do mal e nos dirijais para o bem. Ó Maria, Mãe de Deus, o grande povo dos negros dorme ainda na sua maior parte nas trevas e sombras da morte: apressai a hora da sua salvação, aplanai os obstáculos, dispersai os inimigos, preparai os corações e enviai sempre novos apóstolos a estas remotas regiões tão infelizes e necessitadas» (E 3162-3163).

Comboni sabe que a Mãe do Céu caminha connosco, é a mãe sempre presente.



3. Oração vocacional

Nesta oração de Comboni o que mais me tocou foi a dimensão vocacional da intercessão de Maria: «enviai sempre novos apóstolos a estas remotas regiões tão infelizes e necessitadas».

A oração de Comboni é hoje a oração da família comboniana. Temos todos que implorar ao Senhor da seara que envie operários para a grande colheita da salvação.

«Jesus percorria as cidades e as aldeias, ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do Reino e curando todas as enfermidades e doenças. Contemplando a multidão, encheu-se de compaixão por ela, pois estava cansada e abatida, como ovelhas sem pastor. Disse, então, aos seus discípulos: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, portanto, ao Senhor da messe para que envie trabalhadores para a sua messe”» (Mateus 9, 35-38).

Este ano é um ano comboniano. Celebramos os 150 anos da fundação do Instituto comboniano. Daniel Comboni iniciou a 1 de junho de 1867 o Instituto para as missões da Nigrícia. A 30 de abril recordámos os 70 anos da chegada dos combonianos a Portugal. As celebrações jubilares fazem-se em tempos de míngua vocacional. A média de idades dos combonianos em Portugal é de mais de 66 anos.

Rezar pelas vocações é rezar para que a preocupação de São Daniel Comboni de salvar a África com a África continue. Mas a queda no número de vocações não nos deve desanimar. Comboni repetia que os seus institutos, o seu trabalho são obra de Deus. Deus é quem manda! Nós participamos como família comboniana na missão de Deus.

Por outro lado, Comboni chama ao seu instituto três vezes cenáculo de apóstolos (E 2622, 2648, 4088). Nas Regras de 1871 escreve: «Este Instituto torna-se, pois, como um pequeno cenáculo de apóstolos para a África, um ponto luminoso que envia até ao centro da Nigrícia tantos raios quantos os solícitos e virtuosos missionários que saem do seu seio. E estes raios, que juntos resplandecem e aquecem, revelam necessariamente a natureza do centro de onde procedem» (E 2648).

Dois elementos sobressaem nesta definição: O Instituto é um pequeno cenáculo de apóstolos para a África (e agora para a Ásia e as Américas). A sua função? Ser um ponto luminoso apontado ao coração da África e do mundo enviando missionários virtuosos que juntos resplandecem e aquecem – sem perder a sua identidade mas iluminando juntos como as lâmpadas LED.

Por isso, ao celebrarmos a memória de Nossa Senhora do Sagrado Coração queremos rezar ao Senhor da seara e da colheita: «Enviai sempre novos apóstolos a estas remotas regiões tão infelizes e necessitadas».

Amém.

8 de maio de 2017

Fátima: NUTRIR A CONVERSÃO MISSIONÁRIA


Os bispos portugueses escreveram na Carta Pastoral no Centenário das Aparições de Nossa Senhora em Fátima que «em sintonia com a piedade do nosso povo e sob a iluminação do Espírito Santo, nós, os bispos, sentimos a responsabilidade de aprofundar o significado deste acontecimento, de destacar a sua atualidade para a nossa vida cristã e de explicitar as suas potencialidades para nutrir a nossa conversão espiritual, pastoral e missionária» (nº 2).


1. O ACONTECIMENTO DE FÁTIMA

As aparições de Nossa Senhora aos três pastorinhos foram preparadas com três aparições do Anjo de Portugal e da Paz em 1916: na primavera na Loca do Cabeço; no verão junto ao Poço do Arneiro numa propriedade dos pais da Lúcia e em outubro de novo na Loca do Cabeço.

Lúcia recorda que o anjo lhes disse na segunda aparição: «Orai, orai muito. Os corações santíssimos de Jesus e de Maria têm sobre vós desígnios de misericórdia».

O anjo ensinou-lhes duas as orações: «Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não creem, não adoram, não esperam e não Vos amam» e «Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores.»

Na última aparição também lhes deu a comunhão.

Nossa Senhora apareceu pela primeira vez a Lúcia (10 anos) e aos manos Francisco (9 anos) e Jacinta (7 anos) a 13 de maio e pediu-lhe que viessem àquele lugar e àquela hora cada dia 13 durante seis meses.

As aparições de Fátima redimiram o número 13: para muitos é o número do azar; agora é número santo, o número da Senhora de Fátima. A Mãe apareceu-lhes a 13 de maio, junho, julho, setembro e outubro. A 13 de agosto as autoridades prenderam os pastorinhos e a Senhora apareceu-lhes nos Valinhos a 19 de agosto.

As aparições deram-se num contexto dramático: em Portugal vivia-se a crise política, religiosa e social profunda da primeira república (1910-1926). A Europa vivia os horrores da primeira grande guerra (1914-1918) com o uso de armas químicas e matanças de soldados em massa. Por isso, a mensagem de Fátima é uma mensagem de misericórdia e de paz.

A última aparição, a 13 de outubro, foi presenciada por cerca de 70 mil pessoas que viram o milagre do sol. Termina com a visão da Sagrada Família a abençoar o mundo.

Através das aparições de Nossa Senhora, Deus faz-se proximidade misericordiosa que quer que todos de salvem num ambiente de angústia e incerteza, do mal e do pecado através do convite à conversão, oração e penitência.

«Fátima impôs-se à Igreja», disse o cardeal Manuel Cerejeira, patriarca de Lisboa.

A primeira capelinha foi construída na Cova da Iria em 1919. Foi dinamitada a 6 de março de 1922 e reconstruída e consagrada a 13 de janeiro de 1923.

Entretanto, Francisco faleceu em 1919 e Jacinta em 1920, ambos vítimas da gripe espanhola. Lúcia iniciou a formação no Instituto das Doroteias em 1921. Testemunhou mais três aparições em Tuy e Pontevedra (Espanha) em 1925, 1926 e 1929. Na última, em Tuy viu escrito ao lado do crucificado as palavras Graça e Misericórdia.

A 13 de outubro de 1930, 13 anos depois da última aparição, o bispo D. José Alves Correia da Silva de Leiria declara as aparições aos pastorinhos dignas de crédito e autoriza o culto de Nossa Senhora do Rosário de Fátima.

A primeira peregrinação nacional deu-se a 13 de maio de 1931: Portugal foi consagrado ao Coração de Maria. A 31 de outubro de 1942, Pio XII consagrou-lhe o mundo.

A basílica da Senhora do Rosário foi consagrada a 7 de outubro de 1953.

A 13 de maio de 1967 Paulo VI visita Fátima no âmbito dos 50 anos das aparições. João Paulo II esteve três vezes em Fátima 12 e 13 de maio de 1982 (um ano após o atentado em São Pedro), 12 e 13 de maio de 1991 (depois da queda do muro de Berlim) e 12-13 de maio de 2000 para beatificar Francisco e Jacinta. Bento XVI esteve em Fátima em maio de 2010. O Papa Francisco está entre nós a 12 e 13 de maio para marcar o centenário e canonizar os dois pastorinhos.



2. DOM E CONVITE DA MENSAGEM


A mensagem do acontecimento de Fátima «é essencialmente um dom inefável de graça, misericórdia, esperança e paz, que nos chama ao acolhimento e ao compromisso. Esta interpelação à Igreja a que responda ao dom misericordioso de Deus está profundamente vinculada aos dramas e tragédias da história do século XX, mas conserva ainda a mesma força e exigência para os crentes do nosso tempo», recordam os bispos portugueses (nº 2), uma espiritualidade militante que nutre «a conversão espiritual, pastoral, missionária» (nº 3).

O nosso coração é grande campo de batalha entre o bem e o mal. Jesus desafia-nos a uma «guerra santa» contra o mal que tende a tomar conta de nós. Vivemos numa cultura que inflaciona o «eu», marcada pelo individualismo globalizado, pelo narcisismo e a autorreferencialidade. Vivemos literalmente dobrados sobre o nosso umbigo.

A Senhora convida-nos à oração (recentrar-nos em Deus), conversão (mudar da mente para o coração, deixar de fazer o mal para fazer o bem) e ao sacrifico (um ato de solidariedade).

Os bispos portugueses recordam que o Coração Imaculado de Maria revela o coração misericordioso da Trindade: «na Virgem Maria, no seu coração materno, transparece a vontade misericordiosa de um Deus Trindade que não é indiferente à situação das suas criaturas, que não abandona o pecador na sua culpa, que não esquece os desgraçados no seu sofrimento, que não ignora as vítimas e os excluídos, que sempre oferece o seu perdão e a sua consolação, que abre sempre a porta da esperança, quando os seres humanos se fecham no seu egoísmo ou na sua inconsciência.» (nº 10).

O Papa João Paulo II referiu que Fátima é um dos sinais dos tempos: um falar de Deus que o revela como pai clemente e compassivo.

Por outro lado, o Papa Bento disse que Fátima é a mais profética das aparições modernas.

É necessário notar que com o afastamento de Deus da vida pública sucederam-se os regimes mais mortíferos: o nazismo, o comunismo e a globalização financeira que fizeram e fazem milhões de vítimas.

O apelo à conversão e à penitência podem ser entendidos hoje como um convite a uma vida mais sóbria, menos consumista para protegermos os mais fracos e o meio ambiente. Fátima convida-nos a regressar à palavra que abre o anúncio de Jesus: CONVERTEI-VOS (Marcos 1, 15) passando da nossa cabeça ao coração de Deus através do bem-fazer.

Fátima convida-nos a colaborar com os desígnios de misericórdia. «Quereis oferecer-vos a Deus?», perguntou Maria aos pastorinhos a 13 de maio. Esta oferta a Deus em ato de reparação desafia-nos a passar de uma perspetiva mais intimista e julgadora a um compromisso com os mais pobres.

«A urgência das necessidades dos outros reclamava a penitência, o sacrifício e a reparação. O sacrifício do cristão só pode ser vivido a partir da oração e como oração», sublinham os bispos no nº 12.

É interessante notar a ligação entre o sacrifício e a oração, o sacrifico como oração, como mergulhar no mistério de Deus que está totalmente separado de si para nos acolher a todos.

Não posso rezar sem ter presente o outro – o mais necessitado – na minha oração. Recordamos que um paralítico foi curado por Jesus porque os seus amigos o levaram e tiveram o trabalho de escavar o teto da casa onde estava Jesus para descerem o amigo (Marcos 2, 1-12).

Lúcia dizia que os pastorinhos não podiam ir para o Céu felizes sozinhos. Por isso os bispos escrevem: «Neste caminho de purificação pessoal para a solidariedade está presente uma espiritualidade que aprofunda as suas raízes no núcleo do mistério cristão. Esta espiritualidade educa-se e concretiza-se em práticas que alimentam a atitude teologal e a identificação com Cristo: na Eucaristia, em que Cristo se faz sacramentalmente presente, e na oração do Rosário, em que Ele se faz narrativamente presente na meditação dos seus mistérios» (nº 12).



3. FUTURO DE FÁTIMA

Fátima é uma mensagem mística e profética que clama conversão e compromisso num mundo marcado pelo conflito e pelo confronto. A espiritualidade da religiosidade popular que carateriza Fátima é caminho para Deus que não é inimigo mas fonte de esperança e humanização.

Vimos a Fátima em peregrinação. «Peregrinar, caminhar juntos, leva-nos a sair de nós próprios e a abrirmo-nos aos outros, escutando-os e partilhando a própria existência, com o espírito missionário e sinodal que se espera hoje da Igreja» escrevem os bispos (nº 13).

Maria não fica indiferente ao nosso peregrinar. «A Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa mãe, sai ao encontro dos seus filhos peregrinos a partir da glória da ressurreição de seu filho Jesus, para lhes oferecer consolação, estímulo e alento», notam os bispos (nº 3).

Por outro lado, Maria é o caminho até Jesus, não o fim da nossa devoção. Há uma dimensão cristológica muito forte em Fátima. Foi Francisco que o expressou: «Do que mais gostei foi de ver a Nosso Senhor, naquela luz que a Nossa Senhora nos meteu no peito. Gosto tanto de Deus» (nº 9).

O verdadeiro milagre de Fátima é que nos sentimos bem nesta «casa maternal» como lhe chamou o Papa Bento onde nos sentimos «acolhidos, compreendidos, consolados, perdoados, reconfortados e renovados. O Santuário de Fátima converteu-se no coração espiritual de Portugal» (nº 4).

Fátima impõe-nos uma tarefa: não cairmos na indiferença diante de tanto sofrimento que nos chega a casa disfarçados como «espetáculo» através das televisões sensacionalistas e que nos cansa.

«O meu Coração Imaculado triunfará» – prometeu a Senhora aos três pequenos. O amor no fim triunfará, diz a cada um de nós.

Não viemos sozinhos a Fátima. Trazemos no coração e nas preocupações tanta gente, tanto sofrimento, tanta esperança, tantas intenções para entregar à Mãe de Deus. Fazemo-lo juntos, porque a Senhora mais branca que o sol que em Fátima apareceu aos pastorinhos é nossa Mãe, é Mãe de todos.

A Senhora de Fátima é modelo para a Igreja, porque segue Jesus até à cruz «atenta às necessidades dos próximos, aos clamores dos distantes» (Nº 14). Confiamos à Mãe de misericórdia as intenções que trazemos connosco e pedimos-lhe pelos povos sofredores do Sudão do Sul, da República Democrática do Congo, da República Centro-africana, da Etiópia, do Iémen, da Somália, do Darfur, dos Montes Nubas. Confiamos-lhe os cristãos perseguidos na Síria, na Líbia, no Egito, na Nigéria…

Maria é modelo do cristão convidado à conversão, isto é: erradicar do coração a tentação do domínio (nº 14), anúncio de misericórdia e de paz desde a aparição do anjo.

«Fiéis ao carisma de Fátima, somos chamados a acolher o convite à promoção e defesa da paz entre os povos, denunciando e opondo-nos aos mecanismos perversos que enfrentam raças e nações: a arrogância racionalista e individualista, o egoísmo indiferente e subjetivista, a economia sem moral ou a política sem compaixão. Fátima ergue-se como palavra profética de denúncia do mal e compromisso com o bem, na promoção da justiça e da paz, na valorização e respeito pela dignidade de cada ser humano», escrevem os bispos portugueses na sua Carta Pastoral (nº 15).

5 de maio de 2017

«MÃE, OS BÁRBAROS ESTÃO À NOSSA PORTA…»

Participantes no Simpósio de Limone 2017 @ APinto

Um grito ressoado muitas vezes através dos séculos na nossa Europa. Chegavam em vagas de terras distantes e selvagens. Chegavam saqueando, apropriando-se de bens e direitos conquistados com esforço e suor noutros tempos e por outras gerações. Falavam línguas desconhecidas, dialectos, vestiam de maneira diferente, rodeados de costumes e odores estrangeiros. Alguns regressavam depois aos lugares de proveniência, graças a Deus, mas outros tinham o atrevimento de querer ficar e viver nas nossas terras, entre nós, connosco, aproveitando-se de nós. Inconcebível! Se voltassem para as suas casas e nos deixassem em paz, de uma vez por todas! Defender-nos-emos deles com todos os meios, não queremos perder ou arriscar o nosso mundo, os nossos bens, a nossa cultura, a nossa igreja, o nosso estilo de vida.

Nos dias passados em Limone reflectindo sobre Migração e missão: uma nova Europa: de migrantes a cidadãos, apercebemo-nos de que, no final de contas, muitos – também hoje, mesmo entre os bons cristãos que encontramos nas nossas igrejas, mesmo no seio do nosso próprio mundo missionário – se identificam com quanto acima está descrito. Idênticos sentimentos, medos, intolerâncias, cansaços, rejeição. Está bem ajudar, partilhar, acolher, mas quando é de mais, é demais.

Também pessoas de envergadura, como S. Agostinho, olharam para as migrações do seu tempo com um sentido de grande receio e rejeição. Mas Agostinho intuirá, ainda antes e mais do que os seus contemporâneos, que as migrações dos povos dentro das fronteiras do Império Romano – migrações que desembocarão na conquista e no saque de Roma em 410 AD – não eram factos acidentais mas um acontecimento epocal, que perturbava o mundo romano desde os fundamentos e inaugurava uma nova era da qual não se podia ainda entrever os contornos mas que era também guiada pela mão providente de Deus.

Foi esta intuição de fundo que nos acompanhou nos trabalhos do Simpósio. As migrações são um facto estrutural, não uma passagem temporária. São um desafio mas também um recurso; não são só uma necessidade e uma urgência, mas são também um convite a ir além das fronteiras e das representações humanas, sociológicas, «cristãs», eclesiais e missionárias que até agora caracterizaram a Europa. Para além dos muros de defesa da «fortaleza Europa».

Os migrantes e as migrações representam um tempo de «crise» em toda a linha e, como em cada crise, mesmo se atormentada e sofrida, abrem-nos a um novo modo de sentir e viver, a criar espaço e contribuir para um rosto novo de sociedade e de igreja (um novo povo), aos necessários processos de reconciliação, a uma redefinição das linguagens e conteúdos antropológicos da integração.

Uma crise que nos obriga a admissões difíceis, a encarar mais o imigrado como um sujeito protagonista e como um dom, a maturar espiritualidade de fronteira, das margens, a empreender caminhos de conversão e diálogo. Mover-nos de uma óptica de caridade a critérios de justiça; de igrejas de rosto monoétnico a igrejas verdadeiramente católicas; do defender com unhas e dentes os nossos direitos adquiridos a uma maior partilha e acolhimento, para descobrir que se pode viver com menos sem viver pior, antes, chegar a um bem-viver.

Nós, o mundo da missão, mais uma vez nos sentimos chamados a fazer ponte, a tornar as diferenças espaços de encontro e de recíproca transformação. Começando por pôr em discussão o nosso estilo actual de vida, os nossos modelos socioculturais e económicos em modos mais radicais e abertos de quanto o têm sido até agora. Limone encorajou-nos nestes caminhos e conscientizações. Queremos partilhá-los com todos vós, em simplicidade e fraternidade.
Missionárias e missionários combonianos no Simpósio de Limone

4 de maio de 2017

INOVAR


Os tempos que habitamos são tempos novos: obrigam-nos a conjugar o verbo inovar em vários modos!

A começar pelo comunicar. A grande maioria dos consagrados pertencemos ao analógico, somos artesãos, trabalhamos com as mãos, damos tempo ao tempo. Para comunicar usamos a gramática, a voz, as cartas, o telefone…

A nova geração é nativa no digital: vive ligada à internet, dia e noite. Não escreve cartas, mas envia emails, sms, imojis, meias palavras, vídeos e fotos. Não usa o carteiro, mas as redes sociais; quer informações e emoções no momento, não tem paciência para grandes leituras, para tempos longos…

A internet e as redes sociais são os novos meios e espaços de comunicação, areópagos com códigos e instrumentos de linguagem próprios. Se queremos partilhar a alegria e a beleza da consagração e o sonho dos nossos carismas temos que frequentar esses espaços, aprender a usar os seus meios de comunicação desde os telefones inteligentes às linguagens do som e da imagem, familiarizamo-nos com a cultura digital.

Não adianta carpir as cebolas do egito da comunicação do passado: temos que emigrar do analógico para o digital e enfrentar os desafios da comunicação presente aprendendo a usar o Facebook, o Twittter, o Instagram, as páginas da internet, o correio electrónico, o vídeo…

A Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica publicou a 6 de Janeiro de 2017 umas orientações intituladas Vinho novo, odres novos – A vida consagrada desde o Concílio Vaticano II e os desafios ainda em aberto.

Vinho novo, odres novos: outra forma de conjugar o verbo inovar.

O documento é um exercício de discernimento prático para «ler práticas inadequadas, indicar processos bloqueados, fazer perguntas concretas, pedir razões das estruturas de relação, de governo e de formação sobre o apoio real dado à forma de vida evangélica das pessoas consagradas» como explica no penúltimo parágrafo da curta introdução.

Esta inovação tem a ver com a atualização histórica dos carismas face às realidades socioculturais que vivemos (as novas pobrezas) e a linguagem (simbolismo) para os comunicarmos às gerações novas.

Duas citações servem para ilustrar esta realidade.

Lemos no nº 7: «As novas pobrezas interpelam a consciência de muitos consagrados e solicitam aos carismas históricos novas formas de resposta generosa frente às novas situações e aos novos descartes da história. Daí o florescimento das novas formas de presença e de serviço nas múltiplas periferias existenciais».

Saltamos para o nº 14: «O cuidado em vista a um crescimento harmonioso entre a dimensão espiritual e a dimensão humana implica uma atenção específica à antropologia das diversas culturas e à sensibilidade própria das novas gerações, com particular referência aos novos contextos de vida. Só um reentendimento profundo do simbolismo que toca verdadeiramente o coração das novas gerações pode evitar o perigo de se contentarem com uma adesão apenas superficial, de tendência e até de moda, onde parece que a busca de sinais exteriores transmite segurança de identidade».

Estas orientações exigem respostas concretas de todos os institutos a começar pelos percursos formativos (os âmbitos trentinos de seminários e noviciados têm que ser substituídos, diz o nº 35), pela própria linguagem («a própria terminologia “superiores” e “súbditos” já não é adequada» lê-se no nº 24), à administração de bens e ao serviço da autoridade («que apele à colaboração e a uma visão comum sobre o estilo da fraternidade», salienta o nº 43).

As orientações têm a força para revolucionar e renovar a vida consagrada se forem seguidas através de uma obediência generosa e criativa!

Esta jornada de formação permanente certamente que nos vai dar algumas intuições concretas para começarmos a conjugar com mais constância e consistência o verbo inovar!

«Agora é tempo de vindima e de vinho novo. […] Chegou o tempo de guardar a novidade com criatividade para que conserve o sabor genuíno da bendita fecundidade de Deus», proclama o documento na conclusão (nº 55).

Vamos a isso, então!

2 de maio de 2017

MÃE ÁFRICA


A poeta angolana Alda Lara (1930-1962) concebeu Mãe Negra, um trecho tenso e intenso excelentemente musicado por Paulo de Carvalho. Fui beber a inspiração a esse poema telúrico, esse pranto profundo que fala de estrada, noite, mãos apertadas, cruzadas no regaço, lágrimas grossas em faces cansadas, voz no vento, saudade, buganvílias e cajueiros.

Mãe negra, mãe África!

A África é a mátria da humanidade, o seio imenso que acolheu o processo de hominização, o salto de qualidade do género humano que depois partiu para os quatro cantos da Terra.

Somos todos África, transportamo-la na herança genética, suspiramos por voltar ao berço de onde viemos. Dizem que quem beber a água do Nilo cedo ou tarde vai ter de regressar. Os Italianos descrevem esta saudade ancestral como «mal d’Africa», a doença de África.

Há uma imagem que se repete em cada mulher-mãe africana: a carregar um bebé às costas e outro no ventre, vergada sob o peso da sobrevivência sobre a terra vermelha a cavar o magro sustento para a família num horizonte aberto e sem fim, terra de riquezas naturais inúmeras, paisagens de cortar a respiração que o nevoeiro espesso da cobiça e da corrupção tenta esconder.

Mas anda no ar a alegria das vozes, dos cantos, dos tambores, das danças no fim do dia, no fim da noite; a solidão dos desertos, a planura da savana, a sinfonia da vida nas florestas tropicais, o esplendor dos picos altaneiros gelados, as costas cálidas de águas serenas, o sol escaldante, a lua feiticeira…

A primeira riqueza da mãe África, a que conta menos para as estatísticas da economia avara, são as pessoas, a riqueza maior do continente: 1,2 mil milhões espalhados por 54 países e nove territórios.

As suas entranhas estão prenhes de ouro, diamantes, crómio, platina; corre-lhe petróleo nas veias; e água, muita água. E as florestas fazem de cabelo – que motosserras assassinas vão cortando sem dó nem piedade, abrindo caminho à desertificação.

O solo vermelho africano está tingido pelo sangue dos escravos (de ontem e de hoje), das guerras pelo poder que autocratas querem perpetuar, das fomes, das secas, das enxurradas, das doenças (estranhas e triviais, mas homicidas na mesma), da morte!

Solo empapado, fertilizado pelas lágrimas grossas de dor e desespero das mães que vêem os filhos morrer, das mulheres e meninas vítimas de abuso pelos exércitos que usam a violação como arma de guerra para punir, humilhar; no Sudão do Sul, República Democrática do Congo…

Apesar da dor e da morte, a mãe África é um poema de vida, um hino à beleza, braços abertos e hospitaleiros que partilham, corpos que dançam e celebram até à exaustão, alegria. Roupas coloridas a esvoaçar na brisa da tarde, pássaros desenhando sonhos no céu imenso de azul.

Um amigo regressou recentemente de uma estada de seis meses em Kinshasa, na República Democrática do Congo. Perguntei-lhe o que trouxe de lá. «A vontade de voltar», respondeu.

Trazemos gravada na carga genética a saudade imensa da África, o nosso seio comum, o berço que nos embalou.

1 de maio de 2017

MENSAGEM PARA OS 30 ANOS DO "CENÁCULOS DE ORAÇÃO MISSIONÁRIA" POR OCASIÃO DO SEU X ENCONTRO NACIONAL

Muito estimada Doutora LILIANE VÉLIA MENDONCA, Coordenadora Nacional

Caríssimos irmãos e irmãs dos "Cenáculos de Oração Missionária"

Saudações em Jesus Cristo Ressuscitado.

Soube com alegria que este movimento de oração missionária celebra, em 2017, os seus 30 anos de vida.

Já passaram 30 anos desde aquele Domingo da Quaresma de 1987, em que às Colaboradoras e Colaboradores Missionários foi dirigido o convite de constituírem pequenos grupos de vizinhos. Estes haviam de conhecer melhor as situações do mundo e a Palavra de Deus, adquirir os sentimentos do Coração de Jesus por aquelas pessoas e países para, assim, colaborarem na evangelização e com os Missionários através da oração missionária em comum.

O convite foi bem acolhido. As Colaboradoras de Lombomeão (Vagos - Aveiro) fundaram logo os primeiros seis "pequenos grupos de oração missionária".

Desde então, muitos outros Cenáculos têm nascido e continuam a formar-se em Portugal e noutros Países. Cumprem a sua missão de, unidos a Maria como pequenos cenáculos de apóstolos, pedir a Deus o Dom do Espírito Santo para a Igreja em saída missionária e para o mundo, atentos às novas circunstâncias e às indicações do Papa.

Na beatificação de D. Daniel Comboni, S. João Paulo ll disse coisas importantes que convém lembrar sempre: os Cenáculos são missionários porque se unem em oração, que é a primeira e indispensável maneira de evangelizar e dão mais força ao vigor missionário das vossas Paróquias.

A Província Portuguesa dos Missionários Combonianos, que este ano celebra os 70 anos de vida e presença comboniana no vosso País, depois de vários anos de observação e trabalho, reconheceu a vossa inspiração no Carisma de S. Daniel Comboni, acolheu-vos como caminho valido de animação e espiritualidade missionária laical e recomendou-vos ao cuidado e empenho das suas Comunidades.

Estou-vos grato pela vossa dedicação à Oração Missionária em comum e pelas outras formas de colaboração e animação missionária que tendes criado. Agradeço também aos Animadores e Animadoras dos vossos Cenáculos, assim como a quantas e quantos vos acompanham e animam, nomeadamente os M. Combonianos, as irmãs M. Combonianas, as M. Seculares Combonianas, os Leigos M. Combonianos, o Instituto das Missionárias Reparadoras do Coração de Jesus.

Peço a Nossa Senhora, no Centenário das Suas aparições em Fátima e ao nosso Fundador São Daniel Comboni que intercedam por vós, vos abençoem e vos impulsionem a uma cada vez mais intensa e criativa santidade missionária nas vossas famílias e ambientes.

Eu também vos acompanho com a minha oração.

Com os parabéns e os melhores cumprimentos meus e dos Assistentes Gerais, abraço-vos em

Cristo Jesus.

P. Tesfaye Tadesse Geberesilasie MCCJ
Padre Geral

30 de abril de 2017

MENSAGEM DO SUPERIOR GERAL PARA OS 70 ANOS DOS COMBONIANOS EM PORTUGAL


Aleluia!
Louvai a Deus em seu Santuário, louvai-o no seu majestoso firmamento!
Louvai-o por seus grandes feitos, louvai-o por sua infinita grandeza!
Louvai-o ao som de trombetas, louvai-o com harpas e cítaras!
Louvai-o com tamborins e danças. Louvai-o com instrumentos de cordas e com flautas!
Louvai-o com o clangor dos címbalos, louvai-o, altissonantes trombetas!
Que todos os seres vivos louvem ao Eterno! Louvado seja o Senhor!
Aleluia!
(Salmo 150)


Sua Excelência Reverendíssima, Dom llídio Pinto Leandro, Bispo de Viseu,

Reverendo P. José da Silva Vieira, Superior Provincial dos Missionários Combonianos, em Portugal,

Prezados confrades combonianos,

Estimadas Irmãs Missionárias Combonianas e Missionárias Seculares Combonianas,

Estimados Leigos Missionários Combonianos,

Estimados sacerdotes, religiosos e religiosas, benfeitores e amigos, familiares dos nossos confrades combonianos, e a todos os aqui presentes,

Vos saudamos com afeto fraterno no nome do Senhor Jesus e do nosso Instituto comboniano.

Tudo quanto queremos, hoje, é que este seja um dia particular de ação de graças. Juntos, queremos agradecer a Deus pelos setenta (70) anos da presença e da vida dos Combonianos em Portugal. Uma efeméride ainda mais notável e jubilosa se a associarmos às celebrações que estão a decorrer, neste ano, para fazermos memoria dos 150 anos da fundação do nosso Instituto Missionário Comboniano.

Sim. Queremos agradecer, de modo especial, a todos os combonianos que, com as suas vidas, a sua participação, a sua contribuição e o seu sacrifício, escreveram as belas paginas da história dos 70 anos de presença comboniana neste País; e que, daqui, partiram para outras paragens de além-mar, de Moçambique ao Brasil, a Macau, e a tantas outras partes do mundo.

Isto significa que, destes 70 anos de história comboniana, em Portugal, fazem parte, também, outras histórias, que ultrapassam as fronteiras portuguesas, e são elas as histórias do Instituto e das Igrejas locais, em outros países e continentes, onde os confrades portugueses trabalharam e deram a vida ao serviço da Missão.

Queremos agradecer aos primeiros confrades que tiveram a inspiração de vir para Portugal para partilhar, com a Igreja e a sociedade portuguesas, o carisma missionário do nosso Pai e Fundador, São Daniel Comboni. Sim, agradecemos aos confrades que deram início a esta presença, tais como os padres Giovanni Cotta, Giorgio Ferrero e Ernesto Calderola, e, depois, a todos os outros que deram continuidade a esta obra maravilhosa, alistando tantas vocações combonianas entre os rapazes e jovens portugueses, que se tornaram uma grande bênção para a Missão e para as Igrejas e os povos para onde foram enviados.

Agradecemos a cada um dos confrades portugueses pelo seu SIM ao Senhor Jesus, pela sua proximidade a São Daniel Comboni e pela sua paixão pela Missão, no seio do Povo de Deus. Os confrades de origem portuguesa serviram o Senhor e o Povo de Deus, no passado e no presente do nosso Instituto, nos mais diversos sectores da pastoral, da formação, da animação missionária e da administração. Estes confrades deram o seu melhor como discípulos missionários nas Igrejas locais, nas comunidades, nas escolas e universidades, nas clínicas, nos hospitais, e nos Meios de Comunicação Social. Estiveram ao serviço da autoridade como superiores provinciais e como membros do Conselho Geral - caso do ex-Superior Geral, P. Manuel Augusto Lopes Ferreira, e do atual Vigário Geral, P. Jeremias dos Santos Martins - e ainda outros confrades que estiveram ou estão ainda empenhados nos serviços da Direção Geral.

Agradecemos também aos confrades de outras nacionalidades, e de modo especial aos italianos e espanhóis, que muito contribuíram para a vida da Província comboniana portuguesa. Do mesmo modo, agradecemos também aos outros confrades das demais circunscrições da Europa, da América, da África e da Ásia, que passaram por Portugal e que, de algum modo, também fizeram parte da história destes 70 anos.

Queremos agradecer ainda ao Senhor da vida pelos catorze (14) confrades portugueses já falecidos, os quais agora, desde a casa do Pai, continuam a exercer a missão de intercessão por cada um de nós e pela vida do Instituto: desde o mais jovem, o escolástico Daniel Fernando Ferreira da Rocha, falecido aos 23 anos de idade, ao mais idoso, o Irmão António Figueiredo da Silva, que partiu para a casa do pai, no ano passado. Agradecemos pelo dom da vida e do testemunho de cada um deles. E permitam-me recordar, em particular, um nome: o P. Ivo Martins do Vale, irmão do P. José Augusto Martins do Vale. Sim, queremos recordar o P. Ivo porque, no nosso país, a Etiópia, ele deu testemunho de um missionário comboniano alegre, de um gentil e dedicado sacerdote de Cristo ao serviço do povo Sidamo.

Recordamos ainda os confrades que abandonaram o Instituto e escolheram outras formas de vida. Para eles, deixamos aqui uma oração de agradecimento, porque também eles fizeram parte destes 70 anos de vida comboniana que agora estamos a celebrar. Obrigado pelo que fostes e fizestes pela vida do nosso Instituto. Na mesma linha de pensamento, lembramos todos os que passaram pelos nossos seminários, os ex-seminaristas combonianos, que, hoje, continuam a ser fermento de uma fé missionária, na sociedade portuguesa. Continuai a apoiar-nos com a vossa proximidade e amizade, e não percais, nunca, o espírito missionário comboniano.

Agradecemos às Irmãs Missionárias Combonianas, pelo facto de, ao longo destes 70 anos de vida, o Senhor nos ter abençoado e nos ter permitido partilhar do mesmo carisma de Comboni e da mesma vocação missionária. Obrigado, combonianas portuguesas, pela colaboração e por termos caminhado juntos todos estes anos de anúncio, de testemunho e de serviço missionário neste território.

Em Portugal, o carisma de São Daniel Comboni, dom do Espírito Santo, atraiu, ao longo destes últimos 70 anos, muitos outros homens e mulheres, leigos e leigas, que se consagraram e dedicaram à missão. Referimo-nos, em particular, às Missionárias Seculares Combonianas e aos Leigos Missionários Combonianos. O nosso sincero obrigado a todos e a todas, Seculares e Leigos, pela colaboração e pelo vosso exemplo e apoio. Obrigado pelo caminho que estamos a percorrer juntos.

O nosso agradecimento carinhoso também aos familiares dos nossos confrades e ainda aos benfeitores, colaboradores e amigos por nos terem apoiado - humana, espiritual e materialmente - no serviço missionário. Obrigado por nos terem proporcionado os meios para as nossas atividades de evangelização e animação missionária. Obrigado por nos terdes acompanhado, com perseverança e abnegação, ao longo destes 70 anos da nossa história em Portugal.

Queremos agradecer à Igreja local deste País, às dioceses e às comunidades paroquiais que nos receberam, nos incentivaram e apoiaram a nossa presença e as nossas atividades. Agradecemos a todos os senhores Bispos - e aqui gostaríamos de mencionar o primeiro, Dom José da Cruz Moreira Pinto, Bispo de Viseu, que nos recebeu e deu as boas-vindas, no dia 23 de Abril de 1947 -, a todos os reverendos párocos e demais agentes de pastoral pela amizade e pelo acolhimento na Igreja de Portugal.

Obrigado pelos sinais particulares de vida e de compromisso ao longo de todos estes anos, tais como, por exemplo: a formação de tantos jovens nos seminários, no Postulantado e no Noviciado; a publicação das revistas Além-Mar e Audácia; a animação e a formação missionária de grupos de jovens - como o JIM (Jovens em missão); os Cenáculos de Oração Missionária; o empenho na pastoral paroquial, dando particular atenção aos mais vulneráveis e aos imigrantes, como é o caso, por exemplo, da nossa presença em Camarate; as atividades realizadas em colaboração com outros Institutos religiosos e missionários e com outras organizações civis e religiosas, empenhadas na promoção da justiça social e ambiental, da paz e da reconciliação, e do dialogo entre as diferentes culturas e religiões. Obrigado por estes e por todos os outros sinais que revelaram e revelam ainda o dinamismo e a criatividade do nosso trabalho, neste País de grande tradição missionária e de grandes missionários.

A celebração dos 70 anos de história comboniana, em Portugal, ajuda-nos a preservar a confiança no Senhor, que continua a incentivar-nos e a realizar coisas belas através da vida de cada um de nós e do nosso Instituto. Esperamos e rezamos para que o Senhor continue a suscitar novas vocações missionárias, na Igreja portuguesa, e continue a chamar jovens, homens e mulheres, para seguirem a Cristo, na esteira de São Daniel Comboni.

Obrigado por tudo. E que São Daniel Comboni, São José e, muito em especial, a Nossa Senhora de Fátima - no centenário da sua visita aos pastorinhos, na Cova da lria -, intercedam por cada um e cada uma de nós!

P. Tesfaye Tadesse, MCCJ
Padre Geral

26 de abril de 2017

MEMÓRIAS DOS BONS «PERAS»


Decorria o ano de 1950 quando conheci os Missionários Combonianos do Coração de Jesus, que tinham vindo de Itália e haviam escolhido a diocese de Viseu, para sede da sua Ordem, três anos antes, em 23 de Abril 1947.

Os meus primeiros contatos com eles, aos meus 11 anos, tiveram lugar em Repeses nas Eucaristias Dominicais. O então meu Pároco, P.e Amadeu Lopes Gonçalves, entregara-lhes a capelania de Repeses a troco das aulas de português que dava no Seminário das Missões. O bom sacristão, o Sr. José «Loirinho», estava já idoso; e eu, desde cedo comecei a ajudar à Missa aos bons «peras» (nome que era dado aos Combonianos dado usarem ou farta barba ou «cavanhaque»). Eram ricas aquelas celebrações, onde as homilias num português meio italianizado, como, por exemplo, «una arranha»(=aranha) tejia una teiia»… Foi nessa altura que conheci os padres Ferrero, Peano, La Salandra, Calderola,Malaspina, Naldi, Sório… Com eles, nas Eucaristias dominicais, os cristãos passaram a ouvir um jovem a ler, em português, as partes que o celebrante, baixando a voz, lia em latim. E estávamos longe do Concílio Vaticano II.

Inicialmente nas suas bicicletas com proteção de rede para não se prenderem as batinas e, mais tarde nas suas «Cociolo» (bicicletas com motor a petróleo, mudanças de manete no quadro e pedais para os auxiliar nas subidas) aí estavam eles, pontualmente, para as eucaristias dominicais (às 8 horas da manhã) ou semanais (por volta das 6).

Os cristãos praticantes de Repeses, a que se juntavam, em maior quantidade, os de Paradinha, tinham pelos «peras» grande respeito e admiração. De igual modo, eram muito queridos pelo povo cigano, que, nessa altura, ainda nómada, acampava ao abrigo da capelinha de Santa Eulália. A prova desse respeito está nas dezenas dos que, quando o P.e Ângelo de La Salandra, com o seu «Cociolo», teve um desastre na curva de Fail ao regressar de um ato litúrgico em Canas de Sabugosa (hoje Canas de Santa Maria), enchiam a enfermaria do Hospital onde ele ficara internado. Uma cristã mais idosa, numa dessas visitas, ao vê-lo de barba a despontar e cheio de chagas disse: «Parece mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo.»

Eu, que sempre os admirei, aproveitava os meus tempos livres para os ir visitar ao Seminário das Missões. Foi ali que vi o trabalho dos Irmãos a tratar das galinhas «ligorne» e de coelhos de raça, que eu nunca vira, e o cuidado numa agricultura aprimorada. Vi também o primeiro trator, a plantação do pomar e da vinha. Nesses trabalhos mais duros, trabalharam alguns sacerdotes.

No Seminário das Missões, os sacerdotes eram, diariamente, procurados para confessarem, já que os cristãos viseenses os encontravam mais disponíveis. Alguns jovens das escolas viseenses (Colégio da Via Sacra, Escola do Magistério Primário, Liceu Nacional de Viseu, Colégio de Santo Agostinho, Colégio Português, Escola Industrial e Comercial de Viseu e os seminaristas do Seminário Maior) também gostavam de aí se confessar..

A porta do Seminário das Missões estava sempre aberta. Depois de aprenderem melhor a língua portuguesa, muitos desses missionários eram solicitados para pregadores nas festas em diversas paróquias da diocese.

Visitei, desde muito jovem, e por várias vezes, a construção do novo Seminário e a sua capela. Foi lá que conheci os Irmãos Eligio Locatelli e Igino Antoniazzi, mestres pedreiro e carpinteiro, respetivamente. O primeiro acabou por ir para as missões no Brasil; o segundo, encontrei-o em Carapira (Moçambique), já com quase 90 anos, deslocando-se diariamente para a carpintaria da Missão na sua já velha motorizada.

As técnicas por eles usadas na construção do Casa e Seminário, nos anos 48, eram mais aperfeiçoadas que as usadas em Viseu.

A primorosa pintura do retábulo do altar-mor da atual Capela do Seminário foi da autoria do P.e Alfredo Bellini, o mesmo sacerdote que mais tarde pintou um lindo quadro de Pedro a lavar os pés a Jesus e fez a decoração total da Igreja de Carapira. Foi um dos sacerdotes de quem fui muito amigo e a quem fiquei a dever muitos favores de amizade e orientação de vida; tal como aconteceu, entre outros, com os italianos padres Tarciso Zoia, Afonso Cigarini, Miguel Celis, Jorge Cosner…

Os anos da minha adolescência e juventude correram. Vieram os anos em que, no Natal e em Viseu, os Combonianos construíram um gigantesco presépio. Nessa altura, Viseu enchia-se de autocarros para visitarem este admirável presépio.



Trabalhando para e com os combonianos…
No ano de 1964 os alunos do Seminário das Missões, em Viseu, eram cerca de 200, vindos das mais diversas localidades de várias dioceses. O ensino era feito, sob a direção do P.e Gino Centis, com apoio e orientação da Telescola e a monitorização de sete professores (entre os quais a minha esposa e eu.

Os aspirantes a Irmãos, chegaram a Viseu vindos de Moncada, para aqui continuaram a sua formação. Formação que foi feita por Irmãos tecnicamente bem preparados, usando máquinas importadas de Itália, que eram ainda pouco conhecidas por cá. Delas destacamos um automóvel, que serrado ao meio, no sentido longitudinal, permitia aos alunos verem e manobrarem todas as peças que o constituíam. Dava gosto vê-los, com suas mãos sempre cheias de óleo, com grande alegria, seguirem as lições dos Irmão João Grazian e Gaspar Cebola. Ao receber como aluno o Irmão Gaspar Cebola, que aí acabou o Curso Industrial, a Escola Industrial e Comercial de Viseu entrava na vida do Seminário das Missões.

Falar do Irmão Gaspar é recordar o tempo em que batemos à porta dos Combonianos para ajudarem uma equipa de que fiz parte, na transformação do velho Asilo da Infância Desvalida no Internato Viseense de Santa Teresinha. Nessa altura, tomou ele conta da secção masculina do Internato, antes dos utentes serem, por favor, aceites no Lar Escola de Santo António. A ele se ficou a dever o evitar que os utentes durante a noite fossem cometer alguns roubos nas lojas da cidade. Os aspirantes a Irmãos foram também importantes na agricultura do quintal daquela casa.



…Após a minha aposentação

A minha ligação com os Combonianos nunca arrefeceu. Nas minhas horas vagas, como voluntário, deslocava-me ao Seminário para tirar dúvidas de Matemática.

Quando em 1996, estando a minha esposa já aposentada, me aposentei, e estando os nossos filhos com a sua vida orientada, dada a falta de professores de Português, fomos convidados pelo P.e Jeremias Martins, então Provincial dos combonianos em Moçambique, a ir em missão, como voluntários, para o Seminário Interdiocesano de Nampula. A vivência que aí tivemos enriqueceu muito as nossas vidas e as de toda a família.

Hoje, a minha esposa e eu pertencemos à Família Comboniana como Leigos Missionários Combonianos.
Prof. Valente

24 de abril de 2017

Combonianos 70 anos em Portugal: OS PRIMEIROS PASSOS



Estava em Viseu um só comboniano italiano, o Pe. João Cotta, desde 22 de Abril de 1947. Com a chegada, a 3 de Novembro daquele ano, de mais três sacerdotes, os combonianos formaram a primeira comunidade em Viseu. Eram todos padres: João Cotta, Ézio Imoli, Ângelo La Salandra e Rino Carlesi.

Dias depois, o bispo senhor Dom José da Cruz Moreira Pinto nomeou-os para trabalhar nas paróquias de Mangualde (P.e Ezio Imoli), Bodiosa (P.e Rino Carlesi) e Canas de Sabugosa (P.e Ângelo La Salandra).
O P. Rino Carlesi, que viria a ser bispo de Balsas, no Brasil, descreveu as primeiras ações apostólicas na diocese de Viseu: «Conheci e fiz amizade com todos os padres de Viseu e redondezas, por causa dos funerais, da pregação, das festas religiosas. Foi o começo da minha vida de cigano, de animação missionária nas paróquias. Depois o senhor bispo levou-me, como seu missionário, para pregar ao povo nas visitas pastorais. Fui pescador de vocações e pregador de missões.»
Em Janeiro de 1948 o grupo alugou uma casa em Viseu e começa a arranjar-se a casa do caseiro.
O segundo grupo de combonianos italianos (um sacerdote e dois Irmãos construtores) veio em Março de 1948.
Passaram pelo Seminário Menor de Fornos de Algodres. No diário da viagem deixaram a seguinte impressão: «Ajoelhámo-nos aos pés da imagem de S. José, no claustro interno do Seminário sentindo tantos motivos para agradecer; pensámos nos nossos futuros seminaristas e agradecemos a S. José por nos ter trazido a esta terra tão rica de vocações.»
A 14 de março, na igreja matriz da paróquia de Ranhados (à qual pertencia a quinta onde se instalaram os combonianos), a chegada deste grupo foi celebrada festivamente com uma eucaristia. Os Combonianos cedo se inseriam na sua comunidade paroquial.
A 1 de junho de 1948 foi lançada a primeira pedra da casa (hoje «casa velha»), com técnicas muito avançadas. O edifício está pronto a habitar em 28 de Junho de 1949. Menos de dois meses depois, a 14 de Agosto, é inaugurada a primeira capela.
Nessa altura, a 27 de Fevereiro de 1949, o P.e João Cotta, que fizera «milagres», com o grande apoio do Bispo de Viseu, D. José da Cruz Moreira Pinto, nos 22 meses em que nesta diocese permaneceu, de 23 de abril de 1947 a 27 de fevereiro de 1949, já havia partido para a Inglaterra.
Em Maio daquele ano, durante a Semana Nacional das Missões, são distribuídos pela diocese 250 cartazes que dão a conhecer o futuro Seminário das Missões e o Instituto Comboniano. Estavam decorridos dois anos cinco meses e dezassete dias depois da chegada do P. João Cotta a Viseu…
A 10 de Outubro daquele ano de 1949, e após uma semana de estágio em Setembro, iniciava-se o 1º ano letivo no Seminário das Missões com 16 alunos no primeiro ano e um no 5º ano, vindo do Seminário Diocesano.
Se no final de 1952 o Seminário atual já estava construído, só em 11 de Dezembro de 1955, ao terminar da nova Capela, foi considerado completo, oito anos sete meses e dezanove dias depois da chegada do primeiro comboniano a Viseu.

Os primeiros combonianos portugueses
Os primeiros sacerdotes combonianos portugueses, tinham passado pelo Seminário Diocesano.
O P. Rogério Artur de Sousa, natural de Sargaçais, Soito, Aguiar da Beira, que, depois de ter feito o seu noviciado e a teologia em Itália, foi ordenado pelo Senhor D. José da Cruz Moreira Pinto , na Igreja do Seminário das Missões em Viseu a 27 de Julho de 1958.
O P. Ramiro Loureira da Cruz, natural de Barbeira, Rio de Loba, Viseu, fez também o noviciado e teologia em Itália e foi ordenado sacerdote na Catedral de Milão pelo Cardeal Montini (futuro Beato Paulo VI) a 14 de Março de 1959.
O primeiro Irmão Missionário Comboniano Português foi o Irmão António Martins, natural de Cepões, Viseu, que fez a sua Profissão perpétua em VN de Famalicão a 9 de Setembro de 1960.
Ao longo destes 70 anos a diocese deu muitas vocações aos missionários combonianos.

Prof. Valente