24 de abril de 2017

Combonianos 70 anos em Portugal: OS PRIMEIROS PASSOS



Estava em Viseu um só comboniano italiano, o Pe. João Cotta, desde 22 de Abril de 1947. Com a chegada, a 3 de Novembro daquele ano, de mais três sacerdotes, os combonianos formaram a primeira comunidade em Viseu. Eram todos padres: João Cotta, Ézio Imoli, Ângelo La Salandra e Rino Carlesi.

Dias depois, o bispo senhor Dom José da Cruz Moreira Pinto nomeou-os para trabalhar nas paróquias de Mangualde (P.e Ezio Imoli), Bodiosa (P.e Rino Carlesi) e Canas de Sabugosa (P.e Ângelo La Salandra).
O P. Rino Carlesi, que viria a ser bispo de Balsas, no Brasil, descreveu as primeiras ações apostólicas na diocese de Viseu: «Conheci e fiz amizade com todos os padres de Viseu e redondezas, por causa dos funerais, da pregação, das festas religiosas. Foi o começo da minha vida de cigano, de animação missionária nas paróquias. Depois o senhor bispo levou-me, como seu missionário, para pregar ao povo nas visitas pastorais. Fui pescador de vocações e pregador de missões.»
Em Janeiro de 1948 o grupo alugou uma casa em Viseu e começa a arranjar-se a casa do caseiro.
O segundo grupo de combonianos italianos (um sacerdote e dois Irmãos construtores) veio em Março de 1948.
Passaram pelo Seminário Menor de Fornos de Algodres. No diário da viagem deixaram a seguinte impressão: «Ajoelhámo-nos aos pés da imagem de S. José, no claustro interno do Seminário sentindo tantos motivos para agradecer; pensámos nos nossos futuros seminaristas e agradecemos a S. José por nos ter trazido a esta terra tão rica de vocações.»
A 14 de março, na igreja matriz da paróquia de Ranhados (à qual pertencia a quinta onde se instalaram os combonianos), a chegada deste grupo foi celebrada festivamente com uma eucaristia. Os Combonianos cedo se inseriam na sua comunidade paroquial.
A 1 de junho de 1948 foi lançada a primeira pedra da casa (hoje «casa velha»), com técnicas muito avançadas. O edifício está pronto a habitar em 28 de Junho de 1949. Menos de dois meses depois, a 14 de Agosto, é inaugurada a primeira capela.
Nessa altura, a 27 de Fevereiro de 1949, o P.e João Cotta, que fizera «milagres», com o grande apoio do Bispo de Viseu, D. José da Cruz Moreira Pinto, nos 22 meses em que nesta diocese permaneceu, de 23 de abril de 1947 a 27 de fevereiro de 1949, já havia partido para a Inglaterra.
Em Maio daquele ano, durante a Semana Nacional das Missões, são distribuídos pela diocese 250 cartazes que dão a conhecer o futuro Seminário das Missões e o Instituto Comboniano. Estavam decorridos dois anos cinco meses e dezassete dias depois da chegada do P. João Cotta a Viseu…
A 10 de Outubro daquele ano de 1949, e após uma semana de estágio em Setembro, iniciava-se o 1º ano letivo no Seminário das Missões com 16 alunos no primeiro ano e um no 5º ano, vindo do Seminário Diocesano.
Se no final de 1952 o Seminário atual já estava construído, só em 11 de Dezembro de 1955, ao terminar da nova Capela, foi considerado completo, oito anos sete meses e dezanove dias depois da chegada do primeiro comboniano a Viseu.

Os primeiros combonianos portugueses
Os primeiros sacerdotes combonianos portugueses, tinham passado pelo Seminário Diocesano.
O P. Rogério Artur de Sousa, natural de Sargaçais, Soito, Aguiar da Beira, que, depois de ter feito o seu noviciado e a teologia em Itália, foi ordenado pelo Senhor D. José da Cruz Moreira Pinto , na Igreja do Seminário das Missões em Viseu a 27 de Julho de 1958.
O P. Ramiro Loureira da Cruz, natural de Barbeira, Rio de Loba, Viseu, fez também o noviciado e teologia em Itália e foi ordenado sacerdote na Catedral de Milão pelo Cardeal Montini (futuro Beato Paulo VI) a 14 de Março de 1959.
O primeiro Irmão Missionário Comboniano Português foi o Irmão António Martins, natural de Cepões, Viseu, que fez a sua Profissão perpétua em VN de Famalicão a 9 de Setembro de 1960.
Ao longo destes 70 anos a diocese deu muitas vocações aos missionários combonianos.

Prof. Valente

22 de abril de 2017

PARA MOÇAMBIQUE POR VISEU



P. João Cotta e D. José da Cruz M. Pinto,
protagonistas da fundação comboniana em Viseu

Os Missionários Combonianos chegaram a Portugal, numa primeira fase, a fim de aprenderem o Português para a evangelização em Moçambique. Estávamos no ano de 1946.

O bispo de Nampula, D. Teófilo de Andrade, frente às dificuldades de uma missionação numa população com maioria muçulmana, pretende missionários habituados ao contacto com população deste tipo.

Com a proteção de D. Teodósio de Gouveia, arcebispo de Lourenço Marques (atual Maputo) – que conhecera a ação dos combonianos em Cartum (Sudão), conseguiu que o Superior Geral lhes mandasse em Julho de 1946 um primeiro missionário: o P.e José Zambonardi.

Do acordo então estabelecido do bispo com os Combonianos estabeleceu-se a chegada de um grupo de missionários e a fundação de um seminário menor em Portugal, para formação de futuros missionários combonianos portugueses, de acordo com o exigido no Acordo Missionário de 7/5/1940 entre a Santa Sé e o Governo Português.

Para preparar o grupo de missionários, vieram para Lisboa, para aprender português, em Janeiro de 1947, os Padres Miguel Selis (que os viseenses vieram a conhecer muito bem e tem o seu nome numa das ruas da nossa cidade), Sílvio Caselli, Quinto Nanneti e os Irmãos Lamberto Agostini e José Bagiolli e em Abril, desse mesmo ano, o Pe. Ângello Velloso.

Na sua estadia em Lisboa, são apoiados, entre outros, pelos Franciscanos, Irmãs de S. José de Cluny e Salesianos.

Sete meses depois, em Julho de 1947, é estabelecida em Nampula a primeira comunidade Comboniana constituída pelos Padres Miguel Zambonardi, Miguel Selis e Quinto Nannetti.


Viseu: Casa-mãe

Havia que cumprir a segunda parte do acordo estabelecido em Nampula: fundar um seminário menor comboniano em Portugal.

Nomeia-se o P.e João Cotta, comboniano de 63 anos, com muita experiência neste tipo de trabalhos, em dezembro de 1946. Só em fins de Março de 1947 consegue o visto para Portugal. No dia 1 de Abril é recebido pelo Pe. Miguel Selis na estação de comboios de Santa Apolónia. Durante 15 dias procura aprender algumas palavras em português.

A 15 de Abril é recebido na Nunciatura Apostólica e no Patriarcado. Dão-lhe como pistas de criação do seminário menor: Évora, Guarda ou Porto.

No dia 16 de Abril dirige-se a Fátima, onde celebra na Capelinha das Aparições e entra em contacto com os missionários da Consolata.

A 17 de Abril está em Aveiro; e, no dia 20 é recebido pelo bispo, D. João Evangelista, que conhecera os combonianos em Verona e para o qual trazia uma carta de apresentação. Este bispo, vendo a dificuldade de o apoiar na sua diocese, oferece-se para escrever uma carta de apresentação ao bispo de Viseu, D. José da Cruz Moreira Pinto. No dia 21 ainda visita os seminários de Cucujães e Mogofores. Mas fica desiludido.

No dia 22 à noite chega a Viseu ao fim de pouco mais de 23 dias da sua chegada a Portugal… No dia 23 às 10 h da manhã o secretário de D. José vai buscá-lo ao hotel Portugal onde dormira, leva-o à Sé Catedral e dali para o paço episcopal. Aí se agenda uma entrevista com o Bispo para as 14h. Essa entrevista vai demorar cinco horas, dada a satisfação de D. José da Cruz Moreira Pinto, que via resposta à sua ânsia de ter uma congregação masculina na sua diocese, objetivo pelo qual há muito rezava. Era dia da festa do Patrocínio de S. José. O único senão que o bispo via era a falta de vocações na diocese.

Logo, nesse mesmo dia, foi apresentado pelo bispo ao vice-reitor do Seminário, Monsenhor João Crisóstomo, e ao Cónego Luís Alves, pároco da Catedral. D. José pediu a ambos que ajudassem o P.e João Cotta a encontrar local para estabelecer o Seminário Comboniano. A opinião do bispo era de que esse local se deveria situar nas cercanias de Viseu ou quando muito em Mangualde. O comboniano ficou hospedado no Seminário, mas não parou. Na companhia de Mons. João Crisóstomo e alguns padres de Viseu, visita Mangualde e arredores, S. Pedro do Sul e a zona das Termas de S. Pedro.

Depois de algumas dificuldades era comprada a atual quinta onde se situa o Seminário das Missões de Viseu, registada a 20 de Setembro , onde outorgaram pelos Combonianos o P.e João Cotta e o P.e Dr. Serrano, ecónomo que foi da Diocese de Viseu

A 17 de Outubro o Governo Civil reconhece e regista oficialmente o Instituto Comboniano como «corporação missionária ao abrigo do Acordo Missionário de 7/5/ 1940 entre a Santa Sé e o Governo Português».

24 de Outubro, daquele ano de 1947, considera-se data da fundação do Seminário das Missões de Viseu sob a invocação do Imaculado Coração de Maria.

Havia decorrido o pequeno período de meio ano desde a chegada do P.e João Cotta a Viseu, pela primeira vez, tendo vindo desiludido da sua tentativa de Aveiro.


Primeiras impressões sobre Viseu

O P. João Cotta descreveu ao superior geral as primeiras impressões de Viseu numa carta de abril de 1947: «O panorama é verde, como na Suíça. A diocese é uma das melhores, em espírito cristão e bondade do clero. A cidade tem 20 mil habitantes e a diocese conta com trezentos mil. Estamos no centro-norte de Portugal, com boas comunicações. Sua Excelência [o Senhor D. José da Cruz Moreira Pinto] deseja que a casa [onde se estabeleceria o Seminário menor comboniano] tenha alguns sacerdotes para o apostolado na cidade e na diocese.»

Prof. Valente

18 de abril de 2017

AMARAM, VIVEMOS!


O Livro do Ben Sira termina a evocação do glorioso profeta Elias com um versículo enigmático, um dizer (quase) perdido: «Felizes os que te viram e os que morreram no amor; pois, nós também viveremos certamente» (Sir 48,11).

Este é o ícone bíblico que para mim melhor evoca os 70 anos de história dos combonianos em Portugal: porque os nossos antepassados no Instituto amaram, também nós vivemos. A nossa consagração é energizada e nutrida pelo amor que dedicaram a Jesus Cristo e ao serviço missionário em Portugal e no mundo, a seiva que nos alenta. São «parábolas existenciais» e pontos de referência como no-lo recorda o nº 14 dos Documentos Capitulares 2015.

Revisitar, escrever a história da província não é encenar com trajes da época algum evento medieval tão em moda. A história não se simula ou representa; evoca-se, recorda-se para resgatar a memória, para lançar o futuro.

O Papa Francisco alerta que «a falta de memória histórica é um defeito grave da nossa sociedade». E ajunta: «Conhecer e ser capaz de tomar posição perante os acontecimentos passados é a única possibilidade de construir o futuro» (Amoris Laetitia 193).

Assim, revisitar a história da província portuguesa dos Missionários Combonianos do Coração de Jesus não é tão-pouco embandeirar em arco, pavonear-se no passeio das vaidades.

É celebrar o passado por inteiro, com as suas luzes e sombras, com a sua graça e pecado, com as conquistas e as derrotas para nos inspirarmos e ousarmos caminhos novos de animação missionária, pastoral vocacional de rosto comboniano e governo com a mesma audácia inovadora, generosa, alegre, inserida e próxima dos que nos precederam.

O meu muito bem-haja reconhecido ao P. Manuel Augusto Lopes Ferreira por ter aceitado o convite do Conselho Provincial para aprofundar e escrever a história dos 70 anos da presença comboniana em Portugal.

Durante mais de um ano fez um trabalho aturado e meticuloso de investigação nos arquivos gerais em Roma, nos arquivos provinciais em Lisboa e nos das comunidades. Espirrou com o pó, leu imenso, entrevistou, verificou nomes, datas e factos. Produziu um trabalho persistente e consistente de análise crítica de uma fita do tempo de 70 anos que atravessa momentos históricos, sociais e eclesiais muito contrastantes.

A todos os leitores, sobretudo aos confrades, auspico que esta viagem pelas avenidas da memória comboniana em Portugal sirva de inspiração para gizar caminhos novos de amor missionário.

Somos convocados a amar hoje para que os de amanhã também possam viver o carisma comboniano!

11 de abril de 2017

ANO COMBONIANO

2017, além de mariano é também ano comboniano. Celebramos os 150 anos da fundação do Instituto e 70 anos de presença em Portugal. Para embandeirar em arco? É melhor não! Um ano jubilar é uma estação de acção de graças pelo passado de luzes e sombras; pelo presente de alegrias e tristezas; pelo futuro que já é no coração de Deus. Ou melhor: «Com Comboni, celebrar o passado, sonhar o futuro com gratidão e esperança» – como proclama o logótipo do jubileu comboniano português.

Percorrer as avenidas da memória numa peregrinação de afetos e de saudade, recordando as pessoas que construíram a história comboniana, rever os acontecimentos que fazem a história, é um exercício fundamental para vivermos o presente com serenidade e projetarmos o futuro com esperança.

«A falta de memória histórica é um defeito grave da nossa sociedade. É a mentalidade imatura do “já está ultrapassado”. Conhecer e ser capaz de tomar posição perante os acontecimentos passados é a única possibilidade de construir um futuro que tenha sentido», adverte o Papa Francisco no n.º 193 da Amoris Laetitia.

Celebramos o ano comboniano num contexto de crise vocacional: a província envelhece e diminui e um escolástico e um noviço decidiram dar rumo novo às suas vidas em março. O que é que Deus nos quer dizer através destes factos, Ele que é o Senhor da História?

Quando soube a notícia das saídas peguei nas 50 contas azuis que me ofereceram e disse Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo… outras tantas vezes. Mais não sabia que rezar… Aliás, esta é uma situação bastante comum na minha experiência de liderança. O que me leva a pensar que temos que viver o ano jubilar em duas perspectivas bem combonianas: a obra é de Deus e somos um (pequeno) cenáculo de apóstolos.

Muitos anos antes do P. Josemaría Escrivá se assenhorear do termo Opus Dei para a sua prelatura, Comboni usou-o para definir o Instituto, o Plano e o seu serviço missionário. O termo obra de Deus aparece citado 39 vezes nos Escritos.

Numa extensa Relação histórica e estado do vicariato da África Central que enviou à Sociedade de Colónia (Alemanha) em 1877 Daniel Comboni escreve: «O quadro histórico que preparei para os senhores e no qual passei por alto muitas coisas, é testemunho de que esta obra surgiu ao pé da cruz e que traz o selo da cruz adorável, pela qual se converte em obra de Deus» (E 4972).

A 20 de abril de 1881, meio ano antes da sua morte, comenta numa carta ao P. José Sembianti: «o instituto de Verona conseguiu algo na mais difícil de todas as obras do apostolado católico, de que a nossa obra recebeu certamente a bênção divina e de que, na verdade, é obra de Deus» (E 6663).

O Instituto Comboniano é de Deus: coloquemo-lo nas mãos de quem pertence e vivamos com alegria e dedicação o serviço que a Igreja portuguesa nos pede: a sua animação missionária através «do crisol do sofrimento, da cruz e do martírio» (E 6339) que é feito de cansaço, falta e envelhecimento dos missionários, dificuldade em responder adequadamente aos desafios da missão na Europa de hoje, comunicação com uma sociedade cada vez mais estranha à linguagem de e sobre Deus, medo dos desafios, comodismo da zona de conforto… O conselho de Pedro é actual: «No íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça; com mansidão e respeito» (1 Pedro 3, 15-16a).

Por outro lado, Comboni sonhou o Instituto como um (novo e pequeno) cenáculo de apóstolos. O fundador usa essa descrição cinco vezes nas suas cartas em relação ao Colégio Urbano (E 2027), ao Colégio/Instituto das Missões da Nigrícia (E 2622, 2648, E 4088) e ao Seminário Mastai de Roma (E 4763).

A nossa carta de identidade mais importante encontramo-la no Capítulo I das Regras do Instituto das Missões para a Nigrícia de 1871 sobre a sua natureza e objectivo: «Este Instituto torna-se, pois, como um pequeno cenáculo de apóstolos para a África, um ponto luminoso que envia até ao centro da Nigrícia tantos raios quantos os solícitos e virtuosos missionários que saem do seu seio. E estes raios, que juntos resplandecem e aquecem, revelam necessariamente a natureza do centro de onde procedem» (E 2648).

Comboni começa por nos definir como pequenos, homens atenciosos de virtude: a idade e o tamanho não nos devem complexar ou preocupar, mas sim a atenção e a retidão. O importante é estarmos em estado permanente de missão como cenáculo de apóstolos que aquecem o mundo com o amor de Deus através dos seus corações. Podemos descrever o Instituto como uma aliança ou rede cordial para acalentar o mundo, sobretudo os mais pobres e abandonados.

Os Documentos Capitulares 2015 citam a definição duas vezes. No nº 3 lemos: «São Daniel Comboni, nosso pai na missão, chama-nos a ser um «pequeno cenáculo de apóstolos» (E 2648), sempre prontos a actualizar o nosso carisma perante os novos desafios missionários (RV 1,3)».

O nº 33 define as coordenadas da expressão, o GPS da vida comum: «Sentimos necessidade de recuperar o sentido de pertença, a alegria e a beleza de ser verdadeiro “cenáculo de apóstolos”, comunidade de relações profundamente humanas. Somos chamados a valorizar, primeiro entre nós, a interculturalidade, a hospitalidade e “a convivialidade das diferenças”, convencidos de que o mundo tem imensa necessidade deste testemunho.»

Pertença, alegria, beleza, relações humanas profundas, interculturalidade – se o Conselho Geral cumprir a obrigação capitular de internacionalizar a província, hospitalidade, diferenças aceitadas e integradas são as peças com que construímos o puzzle do testemunho missionário, da comunidade evangelizadora.

2017 também é ano mariano: celebra 300 anos da Aparecida, no Brasil, e o centenário do acontecimento de Fátima. Também é uma festa comboniana. O P. João Cotta visitou Fátima duas semanas depois de ter chegado a Portugal para «confiar a Maria a congregação, as missões e esta nova obra» como escreveu. E sonhava estabelecer uma presença comboniana na Cova da Iria, mas foi «levado» a assentar arraiais noutras paragens. O resto é Uma história singular!

Uma santa Páscoa na alegria e na paz do Ressuscitado.

Com carinho!

8 de abril de 2017

PÁSCOA 2017


A morte e a vida confrontam-se num duelo prodigioso.
O Senhor da Vida estava morto, mas agora, vivo, triunfa
(Liturgia pascal)

Roma, 16 de abril de 2017
Queridos irmãos,

A celebração da ressurreição do Senhor Jesus vos dê paz e alegria para anunciar o seu Evangelho até aos confins remotos da terra.

Há 150 ano que o nosso Instituto dos Missionários Coimbonianos do Coração de Jesus anuncia a vitória da Vida sobre a morte. Esta vida, que foi vendida por um preço barato, atraiçoada, condenada, cravada na cruz e fechada na escuridão de um sepulcro, encontrou a força para ressurgir e dar-se a cada pessoa humana que se deixa invadir pelo amor incondicional de Deus.

Como outrora, também hoje a vida continua a ser atraiçoada e vendida. Vivemos num mundo onde os radicalismos parecem triunfar, onde não há lugar para os empobrecido e crucificados da história, onde se levantam muros e derrubam pontes. Um mundo onde a economia do egoísmo e da morte cria desperdícios de humanidade, na busca de um bem-estar egoísta no qual nos tornamos incapazes de nos abrirmos ao dom que se faz bênção e é partido para ser partilhado.

Nesta Páscoa de 2017, pensamos em vocês, irmãos nossos, que sabemos que a ides viver aí com os povos aos quais fostes enviados anunciando que outro mundo é possível, um mundo onde vence a vida, um mundo onde todos tenhamos a vida em abundância. Pensamos, sobretudo, nos nossos irmãos que vivem em zonas de guerra, fome, calamidades naturais, em zonas onde nem sempre é fácil descobrir a vida que ressurge. A todos vós queremos recordar as palavras do último Capítulo Geral: «A nossa presença é significativa quando estamos próximos dos grupos humanos marginalizados ou em situações de fronteira» (DC ’15, nº 45.2).

Que esta festa da Páscoa nos encontre prontos para anunciar a vitória da Vida sobre a morte, nos encontre disponíveis para sermos solidários com os que são descartados ou rejeitados, nos encontre prontos a deixar-nos invadir pela Vida de Deus para partilhá-la com os esquecidos da história.

Feliz Páscoa da Ressurreição!
O Conselho Geral

5 de abril de 2017

PRÉMIO SEM VENCEDOR


O Prémio Ibrahim ficou mais um ano em branco.


Mohammed Ibrahim nasceu no Sudão há 70 anos e fez um pé-de-meia considerável no sector das redes móveis de telecomunicações. A revista Forbes coloca-o no lugar número 1577 da lista de 2016 das pessoas bilionárias, com uma fortuna avaliada em 1,14 mil milhões de dólares. É o 46.º mais rico do Reino Unido, onde vive por ser cidadão de sua majestade. Ocupa a posição número 71 da lista dos mais poderosos de 2013.

Em 2006, Ibrahim criou a própria fundação, a Mo Ibrahim Foundation, para apoiar e galardoar a boa governação e a liderança excepcional na África com o Prémio Ibrahim. O galardão distingue líderes africanos que desenvolvem o país, fortificam a democracia e os direitos humanos e promovem a prosperidade equitativa e sustentável.

O prémio é generoso: a personalidade laureada recebe cinco milhões de dólares num período de dez anos (500 mil dólares por ano); depois fica com uma reforma vitalícia de 200 mil dólares por ano.

Um comité de 16 membros tem a missão de passar em revista os mandatos e premiar ex-chefes de Estado ou de governo africanos democraticamente eleitos que exerceram uma liderança excepcional no cumprimento do mandato constitucional e que deixaram o poder nos três anos anteriores à atribuição do prémio.

Com critérios tão apertados, é aceitável que numa década o Prémio Ibrahim só tenha tido quatro vencedores e um laureado honorário. A lista inclui dois ex-presidentes dos países africanos de expressão portuguesa.

Nelson Mandela, «um líder excepcional reconhecido mundialmente», recebeu o prémio honorário em 2007, porque já tinha deixado a presidência sul-africana havia oito anos quando o prémio foi instituído.

Joaquim Chissano embolsou o primeiro Prémio Ibrahim em 2007 «por conduzir Moçambique do conflito à paz e democracia». O seu sucesso? «Trazer paz, reconciliação, democracia estável e progresso económico a Moçambique depois da guerra civil», lê-se na citação.

Festus Mogae foi laureado em 2008 «por manter e consolidar a estabilidade e prosperidade do Botsuana face à pandemia da sida que ameaçava o futuro do seu país e do seu povo».

O comité acrescenta na sua citação que «sob a liderança do presidente Mogae, o Botsuana demonstrou como um país com recursos naturais pode promover desenvolvimento sustentado com boa governação, num continente onde frequentemente a riqueza mineral se tornou maldição».

Depois de dois anos em branco, em 2011 o Prémio Ibrahim foi para Pedro Pires «por transformar Cabo Verde num modelo de democracia, estabilidade e prosperidade crescente» e pelo seu serviço à diáspora cabo-verdiana.

Em 2014, Hifikepunye Pohamba ganhou o prémio «pelo papel no forjar da coesão nacional e reconciliação num momento-chave da consolidação da democracia na Namíbia».

Salim Ahmed Salim, que encabeça o comité do prémio, anunciou que «depois de cuidada deliberação o comité decidiu não atribuir o prémio em 2016».

Para o comité, entre 2015 e 2016 não houve nenhum líder excepcional («que por definição é incomum» – sublinhou Salim) a terminar o mandato de governo na África.

Talvez em 2017 haja melhores notícias!

30 de março de 2017

NEM TUDO É MAU


Saúdo-te da forma que costumas fazer quando me escreves: el salam aleicum. Keif el hal, ya abuna?

Encontro-me de novo em Cartum. Da última vez que aqui estive, em Dezembro passado, disse ao Provincial que não punha mais os pés aqui em Cartum. É que, mais uma das tantas vezes, fiquei um mês à espera da guia de marcha. E muitas graças a Deus que cheguei mesmo a tempo para a missa de Natal a Nyala. Mas esta é uma situação que se torna cada vez mais repetitiva.

A este respeito, que diria ou faria Comboni? E mais ainda, que faria ele face à tão precária situação das renovações dos vistos de residência no país em geral, não nos permitindo planear a vida da missão que fica atropelada/impedida descaradamente pela Security? E tudo isso sem apelo de defesa possível ou tábua de salvação a que nos possamos agarrar. Talvez fazer um sit-in ou outro tipo de protesto contra este tipo de injustiça? Porque não? Claro que este tipo de reacção da nossa parte teria consequências muito negativas para toda a igreja no Sudão e, muito certamente, traria a expulsão dos missionários estrangeiros…

Aquela minha vinda a Cartum em Dezembro passado tinha sido para uma visita urgente ao oftalmologista. E nestes dias, encontro-me de novo aqui em Cartum, não só por marcação de nova consulta de oftalmologia mas também para participar na Assembleia Provincial, além de outros afazeres de tipo procuradoria das missões.

Seria tudo tão fácil e bonito se pudesse estar de retorno a Nyala para a Semana Santa/Páscoa! Deus nos ouça!

Mas, por outra parte, nem tudo é mal. Pelo menos aqui em Cartum tenho um pouco de internet, melhor do que no Darfur, e posso então dar conta da tão longa lista de correio electrónico.

A falta de pessoal nesta província comboniana torna-se cada vez mais penoso e grave. E mais ainda depois da expulsão (sem alegação ou explicação alguma) do nosso confrade ugandês Dominique. O Paulo Aragão… foi-lhe prescrito um período de descanso obrigatório em Viseu. E ainda bem que assim foi. E, mais ainda, alegra-me(nos) saber que a sua cura está em bom progresso. El Hamdu lilah, graças a Deus!

O P. Asfaha, que está agora a caminho de Roma, passou-me o teu recado a respeito do meu meio de comunicação. 

Desculpa, mas, por agora, continuo só com o correio electrónico e o telemóvel. Não sou vocacionado para outros meios. Estou inscrito (por acaso e/ou por engano) no Facebook mas não o uso. Imagino que alguns confrades me deram os parabéns de aniversário no Facebook. Que me desculpem, pois eu não o abro. Aqui deixo o meu agradecimento a ti e outros que vi que me saudaram por correio electrónico no dia do meu aniversário e que pude ver aqui nestes dias em Cartum.

A não ser por razões graves de saúde, este ano não irei de férias porque o colega que chegou é novo em tudo. É que, para além da pastoral directa, o trabalho das (quatro) escolas é muito imperativo e exigente. Somos só dois na comunidade e sempre que um se ausenta – a Cartum ou El Obeid e só por razões inadiáveis – acontece facilmente que fica dependurado por semanas seguidas sem poder reentrar em Nyala.

Amigo Zé Vieira, desculpa, já vou na segunda página. Pois é, para quem não sabe sintetizar as medidas não têm medida.

E a Páscoa está à porta. Com ou sem amêndoas, a Ressurreição é sempre a meta. Tenhas com os confrades em Portugal um bom e frutuoso fim de Quaresma. A culminar com o grande Aleluia da Ressurreição.

Abraço.
Feliz Martins – missionário comboniano no Darfur, Sudão

28 de março de 2017

Sudão do Sul: UMA NOVA EXPERIÊNCIA




Ser refugiados é uma nova experiência que estamos a viver como comunidade. Saímos da missão de Lomin, in Kajo Keji,  a 6 de fevereiro para tratar dos documentos necessários para podermos fazer o nosso apostolado com as pessoas da nossa paróquia nos campos de refugiados onde se encontram no norte do Uganda.

Assim pensámos, mas a situação complicou-se tão depressa que em poucos dias a nossa zona se converteu num campo de batalha e já não pudemos regressar à nossa comunidade.

Foi doloroso não poder regressar à nossa missão e fazer parte dos refugiados, mas esta é a nossa situação e a de milhares de pessoas.

Neste mês e meio em que deixámos a comunidade de Lomin, temos rodado por algumas comunidades combonianas e casas de alojamento porque ainda não temos um lugar própria para estabelecer a comunidade.

Quando recebermos os documentos para viver no norte do Uganda vamos arrendar uma casa num lugar perto dos campos.

Os irmãos da nossa comunidade no princípio do mês arriscaram ir com alguns trabalhadores à nossa missão e o que encontraram foi destruição e solidão.

A nossa casa foi saqueada, as portas dos nossos quartos arrombadas. Os vândalos deixaram pelo chão livros e outras coisas sem valor, tudo atirado e espalhado nos quartos, corredores e quintal.

Na capela da casa, o cálice da missa estava por terra com alguns adornos.

Durante este tempo de espera pelos documentos não estivemos de braços cruzados. Visitámos alguns campos de refugiados para planearmos as nossas actividades no futuro e celebrámos a Eucaristia e os sacramentos.

Já temos um programa intenso para a Semana Santa. Como será? Não sabemos, mas nas celebrações que fizemos havia muitos fiéis.

Darei outras novidades depois da Páscoa.

Por isso, desde já UMA PÁSCOA FELIZ DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR JESUS NOS VOSSOS CORAÇÕES E FAMÍLIAS.

NÃO VOS PREOCUPEIS SE NÃO VOS ESCREVO. POR CÁ NÃO É FÁCIL LIGAR-SE À INTERNET EM TODOS OS LUGARES E A TODAS AS HORAS, ESPECIALMENTE NO NORTE. QUANDO POSSO LER AS VOSSAS MENSAGENS ALEGRO-ME E SINTO-ME MUITO UNIDO A VOCÊS.

Para terminar, não se esqueçam que são parte da minha missão. Por isso não se esqueçam de ter-nos nas vossas orações e na vossa ajuda à nossa gente.
Abuna Jesús, missionário comboniano 

18 de março de 2017

MEU PAÍS AMARELO



O meu país é uma palete de cores, mas o meu país é amarelo.

Cruzando Portugal de norte a sul, do leste ao oeste através da primavera, verão, outono e inverno, o amarelo é a cor que mais diz «Presente!».

O amarelo dos narcisos, das mimosas e das austrálias e da erva canária que prenunciam a primavera; o amarelo dos tremoços bravos que enche de cor e perfume a grande planície alentejana; o amarelo dos grelos, do tojo e da carqueja, das maias; o amarelo dos girassóis que torcem o pescoço para seguir o astro-rei; o amarelo dos malmequeres e de outras tantas flores silvestres que vão marcando o passar das estações…

Portugal tem muitas cores mas quem manda é o amarelo que pinta os rios bordejados pelas mimosas – uma natureza que viva que encanta e deleita o olhar.

Amarelo do desespero? Amarelo dos peidos – como popularmente se diz em Cinfães?

O amarelo da luminosidade, do sol, do calor e da felicidade.

Para os japoneses é o amarelo da coragem; para os mexicanos é a cor da morte; para os judeus a cor da discriminação.

O amarelo é ambíguo? É como o meu país! É a cor do meu país! 

6 de março de 2017

DE DENTRO


Sou mais livre então na solidão do meu degredo.

A comunidade internacional acompanhou com inquietação o processo de 17 jovens activistas angolanos presos em Junho de 2015 enquanto liam e comentavam um livro sobre a mudança não-violenta do regime. Foram condenados em Março de 2016 a penas de prisão por rebelião e associação de malfeitores e libertados a 29 de Junho por ordem do Tribunal Supremo para aguardarem o desfecho do processo em liberdade.

O «raptivista» Luaty Beirão (n. 1981) foi a figura mais mediática do grupo, porque foi quem levou mais longe a greve de fome colectiva em protesto pela prisão preventiva prolongada: 36 dias.

Os acontecimentos foram seguidos de fora, através da comunicação social. Agora, há um relato a partir de dentro. Luaty publicou Sou Eu mais Livre, então – Diário de um preso político angolano, com as notas que escreveu para preencher a solidão do isolamento na prisão de Calomboloca, a uns 70 quilómetros de Luanda.

A obra reproduz dois dos três cadernos de apontamentos clandestinos que Luaty escreveu. O primeiro – um diário – cobre o período de 3 a 16 de Julho de 2015, as primeiras duas semanas de prisão e foi passado para o exterior. As autoridades prisionais confiscaram o segundo. O terceiro, breve, contém uma reflexão longa sobre o perdão, algumas notas e uma entrada de 24 de Agosto.

Os textos são um registo da banda sonora da vida em Calomboloca seguida da cela 21. Luaty estava em isolamento, sem luz natural. O que ele escreve é o que sente e vive. E o que ouve. Tinha um tempo de banhos de sol e recebia visitas em alguns dias. Restava a solidão.

O activista utilizou a leitura e escrita como espaço de liberdade em confinamento solitário. «Sou mais livre então na solidão do meu degredo do que tu que vives preso à escuridão do medo» – escreve numa rima.

Luaty escreveu muito, intensamente, sobre quase tudo: o dia-a-dia da prisão, os sonhos, as saudades, as lutas com as autoridades prisionais, listas de lembretes e livros, listas de víveres, esboços de letras, esquissos das paredes da cela e da prisão, a compaixão e respeito dos guardas e as arbitrariedades e caprichos da direcção, notas sobre leituras… «Posso ler e escrever... Sem dúvida dois dos maiores prazeres que um preso pode ter», escreve no primeiro parágrafo do diário.

O terceiro caderno tem um texto intitulado «Tratado sobre o perdão». Luaty passa em revista os anos de guerra, a corrupção endémica e institucionalizada, a «complexa teia de interesses» à volta da cúpula do poder.

«Parece-nos sensato que, ao invés de vingança e perseguições, se promova e cultive doravante a ideia do perdão e da amnistia como forma de pacificar os corações e se poder começar da estaca zero» – propõe.

Angola é «um barco enferrujado», mas a mudança necessária passa pelo perdão: «Perdoar é uma demonstração de coragem» porque «a violência é sempre uma estupidez» – diz.

Com uma condição: os infractores têm de se retractar. «É preciso saber o que se perdoa e isso pressupõe confissão», um acto «nobre e patriótico».

E conclui: «E para se atingir a verdadeira paz é preciso, necessário, essencial, purgar os rancores que carregamos nos nossos corações.»

Um roteiro possível para uma Angola democrática e de direito.

2 de março de 2017

DIOCESES PORTUGUESAS SOLIDÁRIAS COM O SUDÃO DO SUL


Quatro dioceses portuguesas expressaram solidariedade com os povos do Sudão do Sul ao decidir partilhar com eles o produto da renúncia quaresmal.

Os bispos de Aveiro, Santarém, Funchal e Portalegre-Castelo Branco anunciaram nas suas mensagens da quaresma que o produto da renúncia quaresmal todo ou em parte vai ser destinado à população do Sudão do Sul.

Os católicos são convidados a preparar a Páscoa através de sacrifícios pessoais em favor de terceiros.

«Para pôr em prática a misericórdia para com os mais vulneráveis vamos destinar a renúncia quaresmal à população do Sudão do Sul a viver uma situação aflitiva onde falta tudo: casas (tendas), comida, água, medicamentos e outras necessidades urgentes», escreveu D. Manuel Pelino, bispo de Santarém.

«Temos um canal seguro para chegar à realidade concreta: o Superior Provincial dos missionários combonianos que orienta a missão nesse país», acrescentou.

Dom António, Bispo de Aveiro, destinou metade da renúncia quaresmal para as crianças sul-sudanesas através do superior provincial dos combonianos no país mais jovem do mundo.

Dom António Carrilho, bispo do Funchal, e Dom Antonino Dias, prelado de Portalegre-Castelo Branco, também dividem o produto da solidariedade dos fiéis com a população do Sudão do Sul.

Os bispos responderam ao apelo que o Papa Francisco lançou a 22 de fevereiro em favor do «martirizado» Sudão do Sul.

«Neste momento, é mais necessário do que nunca o empenho de todos a não ficar somente nas declarações, mas a tornar concretas as ajudas alimentares e a permitir que possam chegar às populações sofredoras. Que o Senhor ampare esses nossos irmãos e os que atuam para ajudá-los», apelou o Papa argentino.

Mas há outros povos em necessidade que vão beneficiar da solidariedade quaresmal dos católicos portugueses: Angola e Iraque (Porto), crianças de São Salvador da Bahia-Brasil (Viana do Castelo), Síria (Beja e Guarda), Moçambique e Bolívia (Lamego), Timor-Leste (Forças Armadas e Segurança), Iraque (Guarda) e refugiados na Turquia (Viseu).

Outros destinatários da partilha da Quaresma são crianças em pobreza extrema (Angra), crianças e jovens desprotegidos (Coimbra), centro de apoio à vida (Vila Real), refugiados (Setúbal e Leiria), grávida em risco (Leiria) e militares e polícias em situações graves (Forças Armadas e Segurança).

Lisboa e Évora vão usar o dinheiro nos respectivos seminários.

O Papa Francisco escreve na mensagem para a Quaresma que a partilha da renúncia quaresmal promove a unidade da família humana, abrindo as portas ao frágil e ao pobre.

«Encorajo todos os fiéis a expressar esta renovação espiritual, inclusive participando nas Campanhas de Quaresma que muitos organismos eclesiais, em várias partes do mundo, promovem para fazer crescer a cultura do encontro na única família humana», sublinha o Papa.

É bonito ver a Igreja Portuguesa cada vez mais atenta e solidária com quem mais sofre aquém e além-fronteiras.

24 de fevereiro de 2017

CARTA AOS SUL-SUDANESES


«DOU-VOS A MINHA PAZ» (João 14, 27)

Queridas irmãs e irmãos no Sudão do Sul,

Saudamos-vos no nome de Jesus.

São Daniel Comboni tinha um grande amor por vós, «o primeiro amor» da sua juventude.

Nós, os líderes dos Missionários Combonianos no mundo inteiro, temos o mesmo amor a bater nos nossos corações. Sofremos convosco nestes tempos indizíveis de miséria e morte, e seguimos a vossa situação com grande preocupação.

O sonho venturoso do Dia da Independência foi estilhaçado pela guerra que rebentou em Juba e, como um fogo na floresta, alastrou-se lentamente a todo o país.

O sangue de milhares de civis e militares mortos grita pela paz; os feridos e as mulheres violadas precisam de tratamento, conforto e justiça.

Rezamos sinceramente para que a paz regresse ao Sudão do Sul!

Rezamos pelos vossos líderes políticos: que eles vão além dos interesses pessoais ou de grupo, e entrem num diálogo nacional profundo de perdão, reconciliação e reparação!

Rezamos pelos vossos líderes religiosos: que eles vos guiem pelos caminhos do perdão às pastagens de paz!

Suplicamos que os cristãos tornem para Jesus; «Ele é a nossa paz, Ele que, dos dois povos, fez um só e destruiu o muro de separação, a inimizade: na sua carne» (Efésios 2, 14).

O Papa Francisco fez um forte apelo em nome do Sudão do Sul a 22 de fevereiro de 2017. Ele está preocupado «com as dolorosas notícias que chegam do martirizado Sudão do Sul» onde «um conflito fratricida» e uma severa crise alimentar «condenam à morte de fome milhões de pessoas, entre elas muitas crianças.»

«Neste momento, é mais do que nunca necessário o empenho de todos a não se limitar apenas em declarações, mas a tornar concretas as ajudas alimentares e a permitir que elas possam chegar às populações que sofrem. Que o Senhor sustente estes nossos irmãos e aqueles que trabalham para ajudá-los» – disse o Papa.

Seguindo a iniciativa do Papa, rogamos à comunidade internacional que vos continue a assistir com comida e medidas práticas de segurança para alivar o vosso grande sofrimento.

Pedimos as bênçãos de Deus para cada um de vós através da intercessão de Santa Josefina Bakhita e de São Daniel Comboni.

Os superiores provinciais e de delegação e os membros da administração geral
dos Missionários Combonianos reunidos em Roma.

24 de fevereiro de 2017

PAPA QUER VISITAR SUDÃO DO SUL


O Papa quer visitar o Sudão do Sul antes do fim do ano para chamar a atenção para a crise que o país vive e estar próximo do povo que sofre os horrores da guerra civil desde dezembro de 2013.

A notícia foi tornada pública pelos líderes católicos do país numa mensagem pastoral no final de um encontro de três dia que terminou na quinta-feira em Juba.

«Com grande alegria, queremos informar-vos que o Santo Padre Papa Francisco espera visitar o Sudão do Sul ainda este ano», os líderes das sete dioceses do Sudão do Sul anunciaram.

«O Santo Padre está profundamente preocupado com os sofrimentos do povo do Sudão do Sul».

A mensagem diz que os sul-sudaneses estão sempre presentes nas orações do Papa.

«A sua vinda aqui seria um símbolo concreto da sua preocupação paternal e da sua solidariedade com os vossos sofrimentos», sublinham os clérigos.

A visita do Papa também vai atrair a atenção do mundo para a situação crítica do país.

Os líderes católicos propõem um programa de oração para que a visita se concretize.

«Usemos os próximos meses com fruto para começar a transformação da nossa nação», concluem a mensagem pastoral.

Na audiência geral de quarta-feira o Papa Francisco fez um forte apelo em favor das vítimas da fome no Sudão do Sul.

«Suscitam particular preocupação as dolorosas notícias que chegam do martirizado Sudão do Sul, onde ao conflito fratricida se junta agora a uma grave crise alimentar que condena à morte de fome milhões de pessoas, entre elas muitas crianças», disse.

O papa pediu o empenho de todos para irem além das palavras e «tornar concretas as ajudas alimentares e a permitir que elas possam chegar às populações que sofrem.»

O Governo do Sudão do Sul declarou a 20 de fevereiro o estado de fome em dois condados do antigo estado de Unity, afetando cerca de 100 mil pessoas.

Dados a UNICEF indicam que mais de um milhão de crianças sofrem de malnutrição aguda.

135 organismos humanitários afirmaram que necessitam de mais de 1,5 mil milhões de euros para assistir e proteger 7,5 milhões de pessoas afetadas pelo conflito, crise económica e choque climático.

Os líderes católicos dizem que o país está atado por uma crise humanitária de fome, insegurança e dificuldades económicas.

«Não há dúvida que esta fome é provocada pelo homem por causa da insegurança e por uma administração económica pobre», escrevem.

Os líderes denunciam «mortes, violações, pilhagens, deslocamentos, ataques a igrejas e destruição de propriedades continuam em todo o país.»

Acusam tanto as forças do governo como as da oposição de executarem políticas de terra queimada e de atacarem os civis com punições coletivas.

«Há uma grande falta de respeito pela vida humana», denunciam.

Os líderes religiosos sublinham que a igreja tem sido particularmente afetada.

«Padres, irmãs e outras pessoas têm sido molestadas. Alguns dos programas da nossa rede de rádios foram removidos. Igrejas foram queimadas. Há menos de duas semanas, a 14 de fevereiro, oficiais de segurança tentaram fechar a nossa libraria católica. Molestaram o nosso pessoal e confiscaram vários livros», denunciam.

A mensagem pastoral conclui com um apelo: «Pedimos que vos mantenhais fortes espiritualmente e exerciteis moderação, tolerância, perdão e amor. Trabalhai pela justiça e paz; rejeitai violência e vingança»

Três bispos residenciais, dois eméritos, dois administradores apostólicos, um coordenador diocesano e um vigário geral reuniram-se em Juba de 21 a 23 de fevereiro com o núncio apostólico para o Quénia e o Sudão do Sul.

17 de fevereiro de 2017

TRÊS OLHARES PARA UM JUBILEU


Na Carta por ocasião do 150.º aniversário do Instituto Comboniano o Conselho Geral (CG) propõe-nos três olhares:
  1. Um olhar sobre o passado: recordando os primeiros passos;
  2. Um olhar realista sobre o presente: chamados a testemunhar o Reino de Deus;
  3. Um olhar de esperança para o futuro.
Três formas do verbo olhar que nos dão uma panorâmica geral do Instituto que nasceu qual um grão de mostarda, cresceu e hoje abriga nos seus ramos (Mt 13, 31-32) pessoas mais que pássaros.


1. Recordando os primeiros passos: um olhar sobre o passado

1. Comboni foi pai à força: o Plano para a Regeneração da África previa o concerto das forças eclesiais em favor da África Central. Só os Camilianos e as Irmãs francesas de São José da Aparição e alguns leigos aderiram a essa sinergia.

O Cardeal Barnabó foi taxativo: «Meu caro Comboni, de duas uma: ou me garantes por escrito que vais viver por mais 35 anos, ou me estabeleces solidamente esse colégio de Verona, de modo que dê bons missionários para a África. Tanto num como noutro caso, tens possibilidade de desenvolver uma grande actividade missionária na África Central. Porém, se não me não organizas e pões em andamento o colégio de Verona ou se te acontece algum acidente que te leve para o outro mundo, talvez a tua bela obra acabe por se desfazer em fumo!» (E 2568).

2. Nigrícia: o organismo fundado a 1 de junho de 1867 em Verona chamava-se Instituto para as Missões da Nigrícia. A 1 de janeiro de 1872 funda o Instituto das Pias Madres da Nigrícia.

Comboni usa Nigrícia em vez de África: mais que uma geografia é uma antropologia – «os povos mais abandonados e infelizes do universo» como Comboni descreve os habitantes da África interior (E 2591).

Ligar o Instituto exclusivamente à África – como queriam alguns missionários da África oriental no Capítulo de 2003 com a junção do ad nigriziam aos outros ad – é redutor da visão de Comboni. Os mais abandonados e infelizes são os destinatários do Instituto (a RV 5 fala da inseparabilidade do Instituto com a África. Eu prefiro falar da «vínculo inseparável» com os «mais necessitados e abandonados»).

Um cuidado a ter ao falou-se das situações de nigrícia como o lugar carismático dos combonianos: alguns confrades e consorores africanas levaram a mal tal linguagem: com razão.

3. Na origem do Instituto há o encontro: a vocação missionária de Comboni começa no encontro com os Mártires do Japão (via Santo Afonso Mª de Ligório) aos 15 anos; dois anos mais tarde encontra o Sudão do Sul através do P. Ângelo Vinco, missionário de Don Mazza (o Don Congo) entre os Baris de Gondokoro, à frente da Juba de hoje: «Foi em Janeiro de 1849, quando, sendo estudante de Filosofia, jurei aos pés do meu venerado superior, P. Nicolau Mazza, consagrar toda a minha vida ao apostolado da África Central – juramento a que, graças a Deus, nunca faltei nas mais variadas circunstâncias – e desde aquele momento só pensei em preparar-me para tão santa empresa. Assim, em 1857, quando estava no auge o primeiro período da missão, fui enviado com outros companheiros sacerdotes a Cartum e às estações do Nilo Branco, onde entre as mais duras provas me encontrei mais de uma vez à beira do túmulo» (E 4083).

Comboni recorda a origem da sua vocação «nigriciana» 27 anos depois no Relatório Geral sobre o Vicariato Apostólico da África Central ao cardeal Alexandre Franchi, escrito em Roma a 15 de Abril de 1876.

A 1ª experiência missionária entre os Kich ou Ciec (um subgrupo dinca) de Santa Cruz (em Yirol Este de hoje) durou apenas 11 meses (fora as viagens de ida e volta). Um fracasso que Comboni transforma numa nova visão para a evangelização da África – o Plano.

Recordamos o início da homilia de 11 de maio de 1873 em Cartum: «Estou muito contente de finalmente me encontrar de novo entre vós, depois de tantas vicissitudes penosas e de tantos ansiosos suspiros. O primeiro amor da minha juventude foi para a infeliz Nigrícia e, deixando tudo o que me era mais querido no mundo, vim, faz agora dezasseis anos, a estas terras para oferecer o meu trabalho como alívio para as suas seculares desgraças. Depois, a obediência fez-me voltar para a Europa, dada a minha enfraquecida saúde, que os miasmas do Nilo Branco em Santa Cruz e em Gondokoro tinham incapacitado para a acção apostólica. Parti para obedecer; porém, entre vós deixei o meu coração e, tendo-me recomposto como Deus quis, os meus pensamentos e os meus actos foram sempre para convosco».

Este é o primeiro olhar: «Esta sua experiência recorda-nos a importância de manter-nos fiéis a um ideal, lembrando que como os marinheiros se deixavam guiar pelas estrelas se queriam chegar ao porto, nós temos de deixar-nos guiar pelos ensinamentos do Evangelho se queremos ser pessoas coerentes e fiéis. A vocação missionária e a pertença a uma família missionária são um dom, não são mérito nosso. Somos missionários porque Deus foi bom e quis servir-se de nós para mostrar o seu rosto paterno a tantos irmãos e irmãs que ainda não o conhecem», escreve o CG.


2. Olhamos com realismo o presente: chamados a testemunhar o Reino de Deus
Quando Comboni morreu o Instituto estava muito reduzido. A mahdia deu-lhe mais uma machadada. Século e meio depois continuamos a ser um instituto pequeno e a diminuir. Vamos desanimar e deitar a toalha no chão? Acho que não. A história do Instituto empurra-nos para a frente, para a missão e não para a sobrevivência do homo combonianus!

A Síntese Temática para Discernimento preparada pela Comissão Pré-capitular dizia no n.º 92: «Esta diminuição faz-nos tomar consciência de que a reorganização do Instituto é necessária sobretudo em vista de um serviço de qualidade à missão. O desafio maior é viver esta situação não como sinal de declínio, mas como uma experiência de debilidade evangélica (kenosis) e uma chamada do Espírito para uma requalificação essencial e criativa, sob o signo da alegria».

Esta é uma visão de fé que «deve estimular-nos a ser testemunhas fiéis da bondade e da misericórdia de Deus entre os últimos, aqueles que a sociedade esqueceu» fazendo memória dos missionários, «“parábolas existenciais”, pontos de referência nas diversas actividades que desempenhamos» (DC’ 15, 14).

O que nos leva ao «versículo perdido» que fecha a evocação de Elias no livro de Ben Sira: «Felizes os que te viram e os que morreram no amor; pois, nós também viveremos certamente» (48, 11).

É fundamental fazer memória dessas «parábolas existenciais»: os processos de beatificação do P. Ezequiel Ramin e do Ir. Josué dei Cás juntamente com os dos padres Bernardo Sartori e Giuseppe Ambrosoli, do bispo Antonio Maria Roveggio e da irmã Giuseppina Scàndola (que deu a vida para salvar o P. Giuseppe Beduschi) recordam-nos que vivemos por eles.

O CG desafia-nos a «a ser testemunhas do Reino de Deus onde quer que somos mandados. Por isso é necessário ser sempre fiéis à Palavra e seguir um programa sério de uma renovação contínua no nosso caminho de discipulado» baseado na conversão – metanóia (ir além da mente, da razão até ao coração de Deus). Um convite à conversão que está sempre connosco! Não somos obra-prima acabada, somos peças em construção. Sempre!

As cruzes – o viveiro das obras de Deus – são os sinais de Deus ao longo do caminho: «Eu sou feliz na cruz, que levada de boa vontade por amor de Deus gera o triunfo e a vida eterna» (E 7246). Isto não é uma visão pietista das dificuldades, mas uma mística missionária muito forte.

As dificuldades – e a falta de trabalhadores – levaram Comboni a descobrir a força da intercongregacionalidade, a necessidade de trabalhar em rede como resposta à mentalidade fradesca… Este é outro caminho indicado pelo Capítulo (DC ’15, 46.5).


3. Olhamos para o futuro com esperança

«Coragem para o presente e sobretudo para o futuro!». O desafio de Comboni no leito de morte é-o hoje no leito da vida eterna!

Mudança precisa-se – passar do fazer missão ao ser missão: «Devemos “tornar-nos missão” anunciando a alegria do Evangelho em solidariedade com os povos, fazendo-nos promotores de reconciliação e de diálogo, redescobrindo a espiritualidade das relações a nível pessoal, institucional, social e ambiental (DC ’15, n.º 20)».

Este é um roteiro missionário exigente: tornar-se missão é alegria, solidariedade, promoção de diálogo e reconciliação através da mística do encontro com Deus, com as pessoas, com a natureza e connosco próprios…

Vivemos em tempos de grande recessão e depressão vocacional. Temos duas alternativas: recitar o Nunc demittis e reclinar-nos placidamente no leito da morte ou continuar a viver a nossa vocação de discípulos missionários combonianos chamados a viver a alegria do Evangelho no Portugal de hoje segunda as forças e as capacidades de cada um. A idade média dos missionários combonianos em Portugal é de 67,74 anos...

Comboni descreveu o Instituto como opus dei (obra de Deus)  muito antes de o P. Josemaría Escrivá de Balaguer se apossar do termo: «Creio que é obra de Deus e que nela está verdadeiramente a mão de Deus» (E 1567)! Mais tarde acrescenta: «A nossa santa obra é obra de Deus, embora se realize entre aflições, angústias e espinhos. Os caminhos da divina Providência são surpreendentes, mas salutares, sobretudo quando se trata da salvação das almas e do chamamento à fé» (E 5308). Deixemos que Deus faça a sua parte. Nós temos que fazer a nossa: «Ai de mim se eu não evangelizar» (1Cor 9, 16)!

O desafio definitivo: viver o ano jubilar «como uma oportunidade para aprofundar e estender as nossas raízes, revigorar o nosso tronco e continuar a ser uma árvore que dá bons frutos, frutos de justiça, de paz e de caridade, para contribuir para o crescimento do Reino de Deus» (Carta do CG).

7 de fevereiro de 2017

CELEBRAR GRATIDÃO


Celebrar o 150.º aniversário da fundação do Instituto por S. Daniel Comboni é muito pessoal. É a celebração de uma graça muito diversificada que me acompanhou desde os meus primeiros anos, e que eu fui aprendendo a apreciar e entender profundamente ao longo dos acontecimentos e diferentes fases da minha caminhada missionária. Para mim, esta celebração é gratidão, em especial a minha gratidão para com S. Daniel Comboni, pelas maneiras como o Instituto conformou profundamente e enriqueceu a minha vida. Gostaria de partilhar somente três entre muitas razões para esta minha gratidão.


Experiência de Deus e fé

No seu Plano para a Regeneração da África, Daniel Comboni deixa bem claro que vive a sua missão, incluindo todas as iniciativas que a missão o leva a assumir, como um compartilhar da única missão de Deus.

Refletindo e rezando a sua primeira e profundamente difícil experiência de missão na África Central, descobre que lá, circundado pela perda e desastre aparente, ele acabou de facto conhecendo o Deus vivo, um Deus-em-comunidade e um Deus em missão, um Deus que sai até aos confins da terra, levando-nos com Ele, se o deixarmos. É por isto mesmo que, quando Comboni funda o seu Instituto, imagina-o como um «pequeno Cenáculo», Pentecostes atual, um lugar onde os humanos somos introduzidos no mistério missionário da Trindade.

É esta a razão porque a verdadeira vida deste Instituto é uma vida no Espírito, e pela qual um modo adequado de celebrar os 150 anos significa que o melhor ainda está para vir. É esta a razão pela qual pode muito bem acontecer que a fragilidade e limites atuais do Instituto, em vez de constituírem obstáculo à missão, podem ser a forma de descobrir onde e como o Espírito nos está conduzindo em direção ao futuro. Por outras palavras, esta celebração é tanto do futuro como é do passado.


Esta obra é católica

Eu nasci na Índia, de mãe Irlandesa e pai Escocês, e assim penso que não é estranho eu ser especialmente grato pelo facto de S. Daniel Comboni, logo de início, querer que o seu Instituto fosse internacional, ou «Católico», como ele gostava de dizer. O Deus que ele descobriu e experimentou era um Deus para o mundo inteiro, envolvendo a toda a Igreja numa missão dirigida a todos os continentes, nações, línguas e culturas. Somente sendo aberto a membros de todas as nações é que este Instituto podia – Comboni sentiu e entendeu com clareza – ser testemunha efetiva e credível da missão de Deus no mundo.

Este caminho nunca foi, nem será fácil para nós Missionários Combonianos, e já tivemos as nossas lutas e falhas ao longo da história. Há, no entanto, algo muito belo pois, algumas vezes apesar de nós mesmos, sempre acabámos voltando atrás, de regresso ao desejo e intuição do nosso fundador. No fundo dos nossos corações, sabemos que somos chamados a ser uma pequena semente no mundo daquela família pela qual o Pai anseia e deseja.

Como é evidente, eu estou profundamente agradecido a muitos missionários combonianos. Foi-me dada a graça e a oportunidade de pertencer a este Instituto, as quais eu devo, sem dúvida alguma, à intuição e visão do Fundador.


Uma missão para todo o discípulo
Ao celebrarmos 150 anos desde que Daniel Comboni teve a coragem de fundar o seu Instituto, somente podemos admirar-nos ante a vastidão, vitalidade e acuidade da sua visão. De novo, logo desde o início, ele foi claro, tanto no pensar com no agir, em como Deus tinha partilhado a sua missão com a igreja inteira, com todos e cada um dos batizados e apesar das muitas dificuldades que encontrou, manteve-se sempre firme no seu propósito e visão.

Cada bispo, sublinhou, foi chamado e ordenado para aceitar a responsabilidade pela evangelização do mundo inteiro e não somente pela sua diocese. Foi, pois, ao Concílio Vaticano I, para convencer disto os bispos. O seu Instituto não devia ser constituído somente por padres, mas também por leigos totalmente dedicados à missão. Os Irmãos que tiveram uma contribuição tão rica durante estes 150 anos, sem os quais este Instituto não seria comboniano.

Dentro da mesma dinâmica, Daniel Comboni envolveu também mulheres na missão desde o início e fundou o Instituto das suas Irmãs. Os dois institutos são dois pulmões do mesmo corpo e o conjunto somente pode respirar e viver bem quando esta verdade é vivida na prática diária da missão de comboniana. O Fundador lançou mão de leigos, mulheres e homens, de outros Institutos missionários e grupos, comunidades de Irmãs contemplativas; antes de ser teoria, esta foi para Comboni a realidade da missão, uma realidade que continua a desafiar e provocar.

Nesta linha de pensamento, um aspeto particularmente belo e evocativo da fundação do nosso Instituto por S. Daniel Comboni são os relacionamentos e as amizades. Ele conviveu com tantas figuras de grandes missionários do seu tempo: S. João Bosco, S. Arnold Jansen, fundador dos Missionários do Verbo Divino, com o Pe. Jules Chevalier, fundador dos Missionários do Sagrado Coração, etc. Também nisto a celebração dos 150 anos nos desafia e nos orienta para o futuro.


Obrigado e Sim

Tal com o Papa Francisco diz, ao início de A alegria do Evangelho, a alegria do evangelizador sempre brilha contra o pano de fundo da memória agradecida (EG 13). É esta alegria e este tipo de memória que me enche e me entusiasma mais ainda hoje do que no dia em que encontrei Daniel Comboni, há muitos anos. De forma simples, estou contente por este santo missionário ter feito o que fez.

P. David Glenday, missionário comboniano

6 de fevereiro de 2017

MANUAL DE JUSTIÇA E PAZ


O Departamento de Justiça e Paz dos Missionários Combonianos no Sudão do Sul publicou um Manual de Justiça e Paz em cinco línguas.

A obra, preparada pelo comboniano brasileiro P. Raimundo Nonato Rocha dos Santos, foi publicada em bari, dinca, nuer, árabe e inglês.

O subtítulo descreve o manual como uma ferramenta para os comités paroquiais de justiça e paz.

O P. Raimundo, coordenador provincial do sector, explica que o manual «é uma instrumento para formação, reflexão e ação.»

Descreve a obra como «uma tentativa para fornecer algumas linhas de ação e de treino para indivíduos, comunidades e comités que estão ou querem envolver-se no ministério de Justiça, Paz e Integridade da Criação (JPIC)». 

O manual pode ser útil para seminaristas, pessoas em casas de formação e outras instituições de ensino e é gratuito.

4 de fevereiro de 2017

SUDÃO DO SUL: ÚLTIMAS NOVIDADES

Deslocados pela guerra em Rimenze (Yambio)

Esse ano começou bem, em relativa paz. Porém, infelizmente nos últimos dez dias, tem havido conflitos armados em algumas regiões. Na semana passada houve confrontos entre as forças do exército e a oposição armada em Malakal, uma das regiões mais afetadas pela guerra. Há informações de que mais de 25 civis foram mortos e o número pode ser bem maior. Não se sabe quantos militares perderam a vida. Muita gente teve que fugir e o acesso para as ajudas humanitárias ficou mais difícil ainda.

Houve conflitos também nos arredores de Wau e tem havido saques nas residências dessa cidade. Durante o dia muita gente vai para suas casas, mas passa a noite acampada nas bases da ONU ou no pátio da catedral. São milhares nestas condições.

Continuam conflitos também na região de Equatória (Yei, Yambio e Kajo-Keji), próximo à fronteira com Uganda e o Congo. A população dessa área continua a deixar o país e se refugiar nos países vizinhos. Muita gente caminha por dias e noites pelo mato por medo do exército e dos rebeldes que bloqueiam as estradas. Tem havido muita morte de civis, mulheres violentadas, saques, roubo de gado e outros bens e casas e povoados queimados. Os mais pessimistas chegam a falar em potencial genocídio.

Em Kajo-Keji temos uma missão comboniana e era um dos lugares mais pacíficos do país com muitas escolas de referência nacional funcionando. Há informações de que os rebeldes estão nessa área. Testemunhas afirmam que na manhã de domingo, dia 21 de janeiro, um grupo de soldados do governo chegou a uma capela onde os cristãos realizavam o culto dominical. Teriam dito que procuravam por rebeldes. O povo assustado saiu da capela e começou a correr. Os militares atiraram e mataram seis pessoas, inclusive o catequista e liderança da comunidade. Eram civis inocentes que estavam rezando.

Isso provocou mais medo e pânico. A população começou a deixar a região num êxodo em massa, cerca de 90% da população de Kajo-Keji se tornou refugiada em Uganda. As escolas fecharam. A agência para refugiados da ONU informa que mais de 52.600 pessoas se refugiaram em Uganda, só em janeiro, chegando a quase 700.000 refugiados, a maioria mulheres e crianças.

A paróquia do Sagrado Coração de Jesus, coordenada pelos combonianos em Kajo-Keji, vai celebrar a missa deste domingo e fechar a igreja porque o povo já deixou a região. Na última missa participaram apenas 21 pessoas, nenhuma mulher ou criança. Os missionários passarão a acompanhar a população refugiada no outro lado da fronteira, na Uganda, oferecendo assistência pastoral.

Juba, a capital, segue em relativa paz. O ambiente está calmo. A cidade conta com um grande contingente de soldados. Os rebeldes não ousariam atacar Juba. No entanto, o povo sofre com a carestia e incerteza sobre o futuro. O governo segue falando em ‘diálogo nacional’ para a paz, mas ainda não se vê resultados positivos. Espera-se que as igrejas possam contribuir no processo de paz e reconciliação, o que, aliás, já estão fazendo.

Há expectativas de uma visita do Papa Francisco ao Sudão do Sul nesse ano e a esperança de que sua presença possa contribuir ainda mais com o processo de paz e reconciliação.

P. Raimundo Rocha, Juba, Sudão do Sul

3 de fevereiro de 2017

MÁSCARAS

© Fernando Sousa

As máscaras são um assunto sério!

Relacionamos máscaras com adereços de Carnaval (para corsos e bailes da quadra) ou disfarce de bandidos, ladrões e forças especiais de segurança. Na África, as máscaras representam uma realidade cultural, social e religiosa tão vasta e variada como o continente. Museu de arte africana que se preze tem de incluir, obrigatoriamente, uma mostra de máscaras.

Os entendidos derivam a palavra «máscara» de dois étimos: masca (palavra latina que significa fantasma) ou maskharah (termo árabe que quer dizer palhaço ou homem disfarçado). Mas o seu significado simbólico na África é muito mais vasto e está relacionado com rituais e cerimónias.

Os Africanos fazem e usam máscaras desde o Paleolítico, há mais de dez mil anos, para assinalarem nascimentos, ritos de iniciação, casamentos e funerais; sementeiras e colheitas; para preparar a guerra e a paz; para pedirem chuva e sorte para a caça; para invocarem a ajuda das divindades, dos antepassados, dos animais protectores da comunidade, os tótemes; para entreter; para ensinar.

Milhares de etnias de norte a sul idealizam e produzem uma variedade imensa de máscaras, com simbologias tão diversas como as circunstâncias e as latitudes em que são usadas.

Fazem-nas de materiais diversos: madeira (o material mais à mão e adequado porque as florestas são a habitação dos espíritos), couro, barro, têxteis, metais (sobretudo cobre e bronze), marfim. Podem ser pintadas, decoradas com dentes de animais, pêlos, erva seca, ossos, cornos, penas, conchas e outros materiais.

Vêm em muitas formas e feitios: algumas cobrem só o rosto do portador, outras a cabeça como um chapéu ou como um capacete; há máscaras que tapam a cabeça e o tronco ou de corpo inteiro em prolongamentos de tecido ou erva seca.

Podem ser realistas ou abstractas e estilizadas, mas o seu significado vai muito além da mera concepção estética desde o grotesco assustador à delicadeza estilizada da beleza feminina. As máscaras africanas influenciaram artistas plásticos como Picasso.

Os artistas-artesãos são na maioria dos casos uma elite prezada porque «ligam» ao sobrenatural. Aprendem a arte com os mais velhos e – como os pintores dos ícones cristãos – têm de passar por rituais de purificação (podem incluir jejum e abstinência) antes de deitar mãos à obra.

Os portadores das máscaras são seleccionados, porque intermedeiam entre a comunidade e a deidade. Durante o transe da dança dizem-se possuídos pelo espírito que a máscara representa. Por vezes, necessitam de tradutores que interpretem os movimentos e os sons que produzem nas danças mascaradas sagradas.

A exibição das máscaras é um evento multimédia: as danças rituais dos mascarados requerem banda sonora com instrumentos tradicionais e cantares, coros. Podem ser políticas (quando o mascarado é um chefe) e pedagógicas (para passar aos mais novos valores da comunidade como a humildade, paciência, sabedoria, conceitos de estética, representar mitos, histórias, etc.).

Uma nota final: na África do Sul, escravos de algumas etnias usavam máscaras com expressões cómicas para – durante o Carnaval – poderem dizer mal dos patrões na própria cara sem serem identificados e punidos. Pois claro: é Carnaval, ninguém leva a mal!

13 de janeiro de 2017

SILÊNCIO


O realizador norte-americano Martin Scorsese transformou Silêncio, a ficção mais aclamada do católico japonês Shusaku Endo, no «filme da sua vida».

Silêncio conta a odisseia física e espiritual de dois jesuítas portugueses: Sebastião Rodrigues e Francisco Garupe.

À volta de 1640 embarcaram para o Japão para assistir os católicos barbaramente perseguidos pelo poder desde 1614, altura em que os missionários foram expulsos do país.

Queriam encontrar o seu mentor, o P. Cristóvão Ferreira. Relatos de comerciantes holandeses contavam que o jesuíta tinha renunciado a fé em vez de receber a coroa gloriosa do martírio.

Os padres Rodrigues e Garupe vão a Goa, passam por Macau e entram clandestinamente no Japão com a ajuda de um guia – Kichijiro – que faz a união entre os diversos blocos do filme.

Scorsese fez de Silêncio um filme tenso, intenso e extenso que prende, questiona, choca, agride, espanta durante duas horas e 41 minutos.

As torturas a que os cristãos foram submetidos para calcar o «fumie» – uma placa metálica de Cristo – e renegar a fé ou aceitar uma morte cruel gritam bem alto que a maldade humana tem requintes brutais infinitos.

A minha mente derivava, ao ver as execuções nas praias japonesas, para as costas da Líbia onde membros do Daesh executaram cristãos com a mesma crueldade.

Endo dizia-se um católico japonês num fato ocidental desajustado.

A sua produção literária é um esforço para apresentar um Cristo aceitável aos nipónicos: impotente, maternal, compassivo e companheiro dos sofredores, com um poder incrível de auto-sacrifício – como explica o P. Adelino Ascenso na sua magistral dissertação doutoral.

O romance, publicado em 1966, questiona o silêncio de Deus perante a tão desesperada situação dos cristãos perseguidos, os mártires do Japão.

O P. Rodrigues acaba por calcar o «fumie» e renegar a fé para salvar alguns cristãos torturados à sua frente.

O Crucificado diz da placa de bronze ao jesuíta português: «Calca, calca. É para ser calcado por ti que estou aqui».

O sistema japonês, sofisticado e requintado, acabou por ser mais forte que o missionário e quebrou-o como tinha quebrado ao P. Ferreira.

O P. Rodrigues casou e passou o resto da vida como budista.

Periodicamente, com a mulher, tinha que pisar a imagem de Cristo e assinar uma confissão de descrença.

Mas o missionário português continua a acreditar no seu íntimo e absolve pela enésima vez Kichijiro – o judas da narrativa que trai a Deus, à família, ao P. Rodrigues.

Continua a pedir e a receber a absolvição para depois negar a Deus até ser apanhado com uma medalha escondida num amuleto.

Kichijiro foi condenado à morte.

Rodrigues morre no fim do filme e vai a cremar como um budista. Com um detalhe: as suas mãos aconchegam o crucifixo artesanal que um cristão lhe ofereceu enquanto as chamas ameaçam o cadáver no interior de uma urna cilíndrica.

Os vizinhos comentam que a viúva não derramou uma única lágrima pelo defunto.

Foi ela que lhe colocou o velho crucifixo na mão?

10 de janeiro de 2017

NATAL, BOMBA OU HUMILDE SEMENTE?


Queridos amigos,

Encontro-me há quatro meses na minha nova comunidade comboniana de Castel d’Azzano (Verona-Itália). Estou bem e contente.

Poderia dizer que este Natal é para mim uma outra ocasião para renascer, dada a nova realidade de condições de vida, de residência, de comunidade, de colegas... Somos cinquenta confrades idosos ou doentes. Quase todos de venerável idade. O P. Efrém é o nosso decano, com quase 97 anos. Eu recuperei uma minha antiga prerrogativa de ser o mais jovem membro da comunidade, a ser adicionada àquela de ser o único doente de E.L.A. no instituto!

A nossa comunidade é uma verdadeira “sala de parto.” Em 2016 deu à luz 10 novos “santos” para o céu. Um bonito um recorde! A este ritmo em cinco anos chegaremos todos ao Paraíso!...

A nossa comunidade é também uma grande “Arca de Noé” missionária, devido à diversidade humana de seus membros; à variada amostra de surdos, cegos, mudos, aleijados, mancos... e de toda a espécie de doenças que existe debaixo do sol; mas especialmente pela diversificada e extraordinária riqueza de experiências de missão.

Vim aqui encontrar velhos amigos, conhecidos durante a minha peregrinação missionária; entre eles alguns colegas de missão, como o P. Luis, famoso pelas suas façanhas de caçador, e o P. Lino, que eu apelidei de Schumacher: guiava a toda a velocidade para “sobrevoar os buracos da estrada”, dizia ele! Nenhum dos dois, no entanto, se recorda que trabalhámos juntos no Gana. A memória, a uma certa idade, prega-nos algumas partidas! Infelizmente, o P. Luis perdeu-a há 23 anos durante uma operação de cirurgia. Desde então, passa a vida vagueando pelos corredores dizendo: “perdi a memória”, mas não pára de buscá-la, dia e noite, remexendo nas gavetas dos nossos quartos... à caça de doces!

Mas vamos ao assunto desta carta: os votos de Natal. Não é fácil falar do Natal neste nosso contexto atual duma sociedade de idosos e de gente cansada, sem crianças, nem mesmo… o menino Jesus, que desapareceu do nosso presépio!

Não obstante o peso dos anos e das canseiras, partimos também nós para Belém. Se o recenseamento é feito “cada qual na sua cidade”, queremos que a nossa seja Belém, a terra de Maria e de José, dos pobres e dos humildes. Não iriamos escolher a Roma pagã e imperial do poder e da riqueza, ou a Atenas dos filósofos e dos inteligentes, nem mesmo a velha Jerusalém do culto formal e farisaico! Queremos que o nosso nome seja registrado em Belém, com o de José e de Maria! Desde Belém, pois, envio o nosso abraço natalício.

Que desejar-vos como mensagem de Natal? Para permanecer em tema de atualidade, espero que o Menino, colocado por Maria e José na manjedoura do vosso coração, seja como… uma BOMBA que exploda em mil estilhaços de amor e de carinho, para atingir toda a vossa existência e a de quantos encontrardes pelos caminhos da vossa vida! Sim, o Menino traz consigo a potência duma ‘bomba nuclear’, capaz de destruir todas as outras bombas criadas pelo egoísmo humano e de cobrir tudo e todos com a sua irradiação de luz e de calor, para que o nosso mundo possa conhecer uma nova era de paz e de fraternidade!

Não me faço, porém, muitas ilusões. Sei que a nossa vida diária, com tantos problemas e preocupações, não pode ser sempre uma explosão de alegria e de otimismo contagiantes. Então gostaria de formular um desejo alternativo: que o Menino, na sua pequenez, seja como uma SEMENTE de ternura lançada em nossos corações. Bem cuidada, com tempo e paciência, vai conseguir o milagre, talvez menos vistoso mas não menos surpreendente, de multiplicar-se com uma fecundidade maravilhosa. Sim, o nosso coração é um campo de sementes; multiplica o que nele é semeado, tanto o trigo como as ervas daninhas! Cada um recolherá do que semeou. Na manjedoura de Belém (em hebraico, “casa do pão”), encontramos o bom trigo de Deus. Recolhamo-lo e espalhemo-lo ao nosso redor, com o sorriso amigo e um gesto concreto de generosidade! E será sempre Natal!

E para o novo ano 2017? Estejam todos os teus desejos diante do Senhor! (Salmo 37, 10). “Se o teu desejo está diante d’Ele, o Pai, que vê em secreto, te escutará. O teu desejo é a tua oração. Se o teu desejo é contínuo, contínua é também a tua oração. Se não quiseres parar de orar, não deixes de desejar “ (Santo Agostinho). Eis, pois, os meus votos para o novo ano: um coração cheio de desejos, desejos realmente grandes!

Com amizade,
P. Manuel João Pereira Correia
Missionários Combonianos - Centro Alfredo Fiorini 
Via Oppio, 29
37060 CASTEL D’AZZANO VR (Itália)
Tel. (0039) 045 8521511 - 3911773617

6 de janeiro de 2017

ÀS ARMAS


Os países africanos gastam mais de 40 mil milhões de dólares por ano com a defesa.

A globalfirepower.com publica todos os anos uma série de tabelas analíticas dos gastos de 126 poderes militares modernos, incluindo 30 africanos. A leitura cruzada dos dados pode ser aborrecida, mas é essencial para entender a realidade.

Os 30 países de África que integram a lista gastaram juntos cerca de 40 mil milhões de dólares na segurança em 2015. Nada que se compare com os 581 mil milhões que os Estados Unidos da América necessitaram para manter a supremacia militar global, mas mesmo assim é muito mais do que investiram no desenvolvimento.

Por países, a Argélia leva a dianteira com um orçamento de 10,57 mil milhões de dólares por ano; seguem-se a África do Sul (4,6 mil milhões) e o Egipto (4,4 mil milhões). Angola, Marrocos, Líbia, Sudão e Nigéria registam gastos entre os 4,1 e 2,3 mil milhões.

Em termos de classificação, a Argélia ocupa a posição 22 entre os 126 países mais gastadores. A África do Sul está no 43.º lugar e o Egipto no 45.º Angola, na posição número 47, está à frente de Portugal, que ocupa a posição 49.ª com um gasto de 3,8 mil milhões com a defesa.

Note-se que o Sudão do Sul paga 545 milhões de dólares pela sua máquina de guerra. Ocupa a posição 84.ª na tabela mundial, acima dos vizinhos Etiópia (90.º), Uganda (94.º), República Democrática do Congo (106.º) e República Centro-Africana (126.º). Contudo, em termos de produto interno bruto, o país está na cauda das economias mundiais.

O dinheiro despendido na defesa, contudo, não corresponde ao músculo militar. Se a Argélia é o que mais gasta, o Egipto é de longe a primeira potência militar africana e a décima segunda na escala dos 126 países listados pela Global fire power. A Etiópia, que ocupa a 90.ª posição quanto a gastos, é a terceira força militar em África e 42.ª a nível mundial depois da Argélia (que ocupa a 26.ª posição global).

No que respeita à aviação, o Egipto com 13 444 unidades tem a primeira força aérea da África e a sétima do mundo, acima do Reino Unido, que ocupa a posição número 12. Seguem-se-lhe a Argélia, Marrocos e Angola, nas posições globais 26, 33 e 35, respectivamente.

Comparando as marinhas, o Egipto detém a mais poderosa frota naval africana e a sexta do mundo, apesar de ter só mais 657 quilómetros de costa que Portugal. Marrocos, Nigéria e Argélia vêm a seguir.

O poderio militar e a deriva securitária devido a conflitos internos em alguns países africanos têm custos muito elevados sobretudo para economias mais débeis e são os mais pobres quem mais sofre as consequências. O dinheiro tão necessário para o desenvolvimento acaba no poço sem fundo da guerra.

O Sudão do Sul é exemplar: quase metade dos dinheiros que o Parlamento de Juba alocou no orçamento para 2017 foram para a defesa. A outra metade mal dá para os salários da função pública, e as despesas da saúde, educação, infra-estruturas e outros gastos fundamentais numa economia com a hiperinflação anual de 830 por cento.

Não admira, portanto, que apesar do crescimento que a economia africana regista, o número dos pobres continue a crescer: grande parte da riqueza é para pagar a pesada factura (ocidental) do armamento a credores, traficantes e fornecedores. A paz fica mais barata.

5 de janeiro de 2017

NATAL MISSIONÁRIO ITINERANTE





Um dos missionários da missão em Nyal, no Sudão do Sul, o comboniano mexicano P. Fernando Galarza, e um bom grupo de pessoas aguardavam a chegada do helicóptero a serviço das Nações Unidas que aterrissaria na poeirenta pista de pouso de Nyal, no Sudão do Sul, às 11.00 da manhã do dia 21 de dezembro de 2016. Entre os passageiros estava P. Raimundo Rocha, missionário comboniano brasileiro que chegaria à missão de Nyal para celebrar o natal com as comunidades afetadas pela guerra civil naquela região do Sudão do Sul nas duas semanas seguintes.

Celebrar o natal do Senhor num contexto de guerra é uma experiência que o P. Raimundo repete há quatro anos. Ele e seus companheiros missionários primeiro celebraram o natal com deslocados de guerra em Leer, em 2013, quando a guerra civil começava a ganhar contornos nos seus primeiros dez dias de confrontos. O natal entre os deslocados de guerra se repetiu em 2014, dessa vez na capital Juba, onde dezenas de milhares de deslocados ainda são mantidas nas bases de proteção da ONU. Fugindo dos conflitos e a procura de proteção, muita gente não pode celebrar a festa do nascimento de Jesus no ano anterior. Em 2014 foi como celebrar um «duplo natal».

O P. Raimundo manteve seu natal missionário itinerante em 2015. Dessa vez ele se juntou aos deslocados de guerra na base de proteção de civis da ONU, em Rubkona e Bentiu, que passam de cem mil. Em 2016 o missionário celebrou o natal entre as comunidades afetadas pela guerra pela quarta vez. Esse último natal foi celebrado na missão de Nyal, numa área relativamente calma da sua antiga missão em Leer.

Entre alguns aspectos comuns desse natal missionário itinerante está a alegria. O Natal é sempre uma festa muito alegre para o povo sul-sudanês que se junta aos milhares para esse grande evento. Além disso, o reencontro de P. Raimundo com o povo da missão de Leer e a celebração das festividades natalinas tem proporcionado momentos de grande alegria tanto para o povo quanto para o próprio missionário nessas idas e voltas da missão.

Outra característica comum dessa missão é a esperança de paz. As celebrações natalinas dos últimos quatro anos foram cheias de esperança e anseio por paz. Nem mesmo o ambiente hostil, ameaçador, às vezes tenso e incerto, resiste à poderosa força de paz trazida pelo Menino Jesus. Além disso, a acolhida, hospitalidade, generosidade e partilha do povo Nuer são sempre autênticas e constantes, apesar do ambiente de pobreza e muita necessidade.

Porém, para o P. Raimundo, esse natal foi mais especial. Poder retornar à sua antiga missão e celebrar com seu povo não tem preço e nada lhe tira a grande alegria vivida. O mesmo diga-se do povo que teve um natal mais alegre e de maior esperança de paz.

As comunidades são distantes e os três missionários em Nyal se dividiram para melhor servir ao povo. O P. Jacob Solomon, comboniano etíope, se deslocou à comunidade mais distante que leva um dia de caminhada para alcançar. O e. Fernando caminhou um pouco mais de seis horas para chegar a outro centro missionário. O P. Raimundo permaneceu na sede da missão, em Nyal, e se deslocou às comunidades mais próximas, localizadas a três horas de caminhada.

Nem a distância, o suor, o calo no pé impedem a alegria de ir ao encontro do povo em missão e anunciar-lhes o Evangelho em sua própria língua. É lindo de ver os jovens realizarem suas marchas com bandeiras, tambores e cantos numa profunda demonstração de orgulho de sua fé. Cada vez que o missionário seguia para uma nova comunidade, eles o acompanhavam como seus «guardiões» e diziam: «Vamos levar o nosso padre até a próxima comunidade». Lindo de ver também era o sorriso enorme das mães das quase setecentas crianças que foram batizadas. As dezenas de jovens que receberam a primeira Eucaristia e o Crisma o faziam com a convicção de quem está determinado a seguir Jesus Cristo.

Era comum, porém, ver jovens armados, como se estivessem prontos para o combate, mesmo não havendo conflito nas proximidades. Muitos deles ainda com rosto de criança, reflexo da triste realidade das «crianças-soldados». A cada dia chegava mais deslocados de guerras vindos de outras áreas. Rostos sofridos, estômagos vazios, longas caminhadas, horas a fio sentados em canoas pequenas feitas de palmeiras que seguem pelos pântanos do rio Nilo. Gente a procura de proteção, alimento, saúde... ou simplesmente procurando parentes. Muitos querem deixar o país e não conseguem.

Cada pessoa tem uma estória pra contar. Quantos já perderam a vida! Quantas mulheres violentadas! Quantas casas queimadas! Tudo isso para quê? Tudo fruto da maldade de corações gananciosos que querem poder e riqueza à custa de vidas inocentes. Ao longo desses anos de sofrimento o povo aprendeu a desenvolver mecanismos para lidar com esse tipo de situação e adquiriu uma enorme resiliência que lhes permite seguir adiante. Soma-se a isso a fé no Deus da vida, da misericórdia e da paz.

O Sudão do Sul começa o novo ano em relativa paz, apesar das incertezas e a ameaça da fome. Nesse contexto de guerra, os missionários continuam sendo presença solidária no meio desse povo sofrido e ajudam a construir a paz e a promover a justiça e reconciliação. O natal missionário itinerante não só anuncia o nascimento do Salvador e é fonte de alegria e esperança, como também é uma forma de não-violência ativa em situações de conflitos. O povo aprende que a verdadeira paz não se impõe com armas, ódio e perseguição. Ela chega na fragilidade de um Menino, o Emanuel, Príncipe da Paz.

P. Raimundo Rocha, mccj
Missionário Comboniano em Juba, Sudão do Sul