8 de maio de 2017

Fátima: NUTRIR A CONVERSÃO MISSIONÁRIA


Os bispos portugueses escreveram na Carta Pastoral no Centenário das Aparições de Nossa Senhora em Fátima que «em sintonia com a piedade do nosso povo e sob a iluminação do Espírito Santo, nós, os bispos, sentimos a responsabilidade de aprofundar o significado deste acontecimento, de destacar a sua atualidade para a nossa vida cristã e de explicitar as suas potencialidades para nutrir a nossa conversão espiritual, pastoral e missionária» (nº 2).


1. O ACONTECIMENTO DE FÁTIMA

As aparições de Nossa Senhora aos três pastorinhos foram preparadas com três aparições do Anjo de Portugal e da Paz em 1916: na primavera na Loca do Cabeço; no verão junto ao Poço do Arneiro numa propriedade dos pais da Lúcia e em outubro de novo na Loca do Cabeço.

Lúcia recorda que o anjo lhes disse na segunda aparição: «Orai, orai muito. Os corações santíssimos de Jesus e de Maria têm sobre vós desígnios de misericórdia».

O anjo ensinou-lhes duas as orações: «Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não creem, não adoram, não esperam e não Vos amam» e «Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores.»

Na última aparição também lhes deu a comunhão.

Nossa Senhora apareceu pela primeira vez a Lúcia (10 anos) e aos manos Francisco (9 anos) e Jacinta (7 anos) a 13 de maio e pediu-lhe que viessem àquele lugar e àquela hora cada dia 13 durante seis meses.

As aparições de Fátima redimiram o número 13: para muitos é o número do azar; agora é número santo, o número da Senhora de Fátima. A Mãe apareceu-lhes a 13 de maio, junho, julho, setembro e outubro. A 13 de agosto as autoridades prenderam os pastorinhos e a Senhora apareceu-lhes nos Valinhos a 19 de agosto.

As aparições deram-se num contexto dramático: em Portugal vivia-se a crise política, religiosa e social profunda da primeira república (1910-1926). A Europa vivia os horrores da primeira grande guerra (1914-1918) com o uso de armas químicas e matanças de soldados em massa. Por isso, a mensagem de Fátima é uma mensagem de misericórdia e de paz.

A última aparição, a 13 de outubro, foi presenciada por cerca de 70 mil pessoas que viram o milagre do sol. Termina com a visão da Sagrada Família a abençoar o mundo.

Através das aparições de Nossa Senhora, Deus faz-se proximidade misericordiosa que quer que todos de salvem num ambiente de angústia e incerteza, do mal e do pecado através do convite à conversão, oração e penitência.

«Fátima impôs-se à Igreja», disse o cardeal Manuel Cerejeira, patriarca de Lisboa.

A primeira capelinha foi construída na Cova da Iria em 1919. Foi dinamitada a 6 de março de 1922 e reconstruída e consagrada a 13 de janeiro de 1923.

Entretanto, Francisco faleceu em 1919 e Jacinta em 1920, ambos vítimas da gripe espanhola. Lúcia iniciou a formação no Instituto das Doroteias em 1921. Testemunhou mais três aparições em Tuy e Pontevedra (Espanha) em 1925, 1926 e 1929. Na última, em Tuy viu escrito ao lado do crucificado as palavras Graça e Misericórdia.

A 13 de outubro de 1930, 13 anos depois da última aparição, o bispo D. José Alves Correia da Silva de Leiria declara as aparições aos pastorinhos dignas de crédito e autoriza o culto de Nossa Senhora do Rosário de Fátima.

A primeira peregrinação nacional deu-se a 13 de maio de 1931: Portugal foi consagrado ao Coração de Maria. A 31 de outubro de 1942, Pio XII consagrou-lhe o mundo.

A basílica da Senhora do Rosário foi consagrada a 7 de outubro de 1953.

A 13 de maio de 1967 Paulo VI visita Fátima no âmbito dos 50 anos das aparições. João Paulo II esteve três vezes em Fátima 12 e 13 de maio de 1982 (um ano após o atentado em São Pedro), 12 e 13 de maio de 1991 (depois da queda do muro de Berlim) e 12-13 de maio de 2000 para beatificar Francisco e Jacinta. Bento XVI esteve em Fátima em maio de 2010. O Papa Francisco está entre nós a 12 e 13 de maio para marcar o centenário e canonizar os dois pastorinhos.



2. DOM E CONVITE DA MENSAGEM


A mensagem do acontecimento de Fátima «é essencialmente um dom inefável de graça, misericórdia, esperança e paz, que nos chama ao acolhimento e ao compromisso. Esta interpelação à Igreja a que responda ao dom misericordioso de Deus está profundamente vinculada aos dramas e tragédias da história do século XX, mas conserva ainda a mesma força e exigência para os crentes do nosso tempo», recordam os bispos portugueses (nº 2), uma espiritualidade militante que nutre «a conversão espiritual, pastoral, missionária» (nº 3).

O nosso coração é grande campo de batalha entre o bem e o mal. Jesus desafia-nos a uma «guerra santa» contra o mal que tende a tomar conta de nós. Vivemos numa cultura que inflaciona o «eu», marcada pelo individualismo globalizado, pelo narcisismo e a autorreferencialidade. Vivemos literalmente dobrados sobre o nosso umbigo.

A Senhora convida-nos à oração (recentrar-nos em Deus), conversão (mudar da mente para o coração, deixar de fazer o mal para fazer o bem) e ao sacrifico (um ato de solidariedade).

Os bispos portugueses recordam que o Coração Imaculado de Maria revela o coração misericordioso da Trindade: «na Virgem Maria, no seu coração materno, transparece a vontade misericordiosa de um Deus Trindade que não é indiferente à situação das suas criaturas, que não abandona o pecador na sua culpa, que não esquece os desgraçados no seu sofrimento, que não ignora as vítimas e os excluídos, que sempre oferece o seu perdão e a sua consolação, que abre sempre a porta da esperança, quando os seres humanos se fecham no seu egoísmo ou na sua inconsciência.» (nº 10).

O Papa João Paulo II referiu que Fátima é um dos sinais dos tempos: um falar de Deus que o revela como pai clemente e compassivo.

Por outro lado, o Papa Bento disse que Fátima é a mais profética das aparições modernas.

É necessário notar que com o afastamento de Deus da vida pública sucederam-se os regimes mais mortíferos: o nazismo, o comunismo e a globalização financeira que fizeram e fazem milhões de vítimas.

O apelo à conversão e à penitência podem ser entendidos hoje como um convite a uma vida mais sóbria, menos consumista para protegermos os mais fracos e o meio ambiente. Fátima convida-nos a regressar à palavra que abre o anúncio de Jesus: CONVERTEI-VOS (Marcos 1, 15) passando da nossa cabeça ao coração de Deus através do bem-fazer.

Fátima convida-nos a colaborar com os desígnios de misericórdia. «Quereis oferecer-vos a Deus?», perguntou Maria aos pastorinhos a 13 de maio. Esta oferta a Deus em ato de reparação desafia-nos a passar de uma perspetiva mais intimista e julgadora a um compromisso com os mais pobres.

«A urgência das necessidades dos outros reclamava a penitência, o sacrifício e a reparação. O sacrifício do cristão só pode ser vivido a partir da oração e como oração», sublinham os bispos no nº 12.

É interessante notar a ligação entre o sacrifício e a oração, o sacrifico como oração, como mergulhar no mistério de Deus que está totalmente separado de si para nos acolher a todos.

Não posso rezar sem ter presente o outro – o mais necessitado – na minha oração. Recordamos que um paralítico foi curado por Jesus porque os seus amigos o levaram e tiveram o trabalho de escavar o teto da casa onde estava Jesus para descerem o amigo (Marcos 2, 1-12).

Lúcia dizia que os pastorinhos não podiam ir para o Céu felizes sozinhos. Por isso os bispos escrevem: «Neste caminho de purificação pessoal para a solidariedade está presente uma espiritualidade que aprofunda as suas raízes no núcleo do mistério cristão. Esta espiritualidade educa-se e concretiza-se em práticas que alimentam a atitude teologal e a identificação com Cristo: na Eucaristia, em que Cristo se faz sacramentalmente presente, e na oração do Rosário, em que Ele se faz narrativamente presente na meditação dos seus mistérios» (nº 12).



3. FUTURO DE FÁTIMA

Fátima é uma mensagem mística e profética que clama conversão e compromisso num mundo marcado pelo conflito e pelo confronto. A espiritualidade da religiosidade popular que carateriza Fátima é caminho para Deus que não é inimigo mas fonte de esperança e humanização.

Vimos a Fátima em peregrinação. «Peregrinar, caminhar juntos, leva-nos a sair de nós próprios e a abrirmo-nos aos outros, escutando-os e partilhando a própria existência, com o espírito missionário e sinodal que se espera hoje da Igreja» escrevem os bispos (nº 13).

Maria não fica indiferente ao nosso peregrinar. «A Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa mãe, sai ao encontro dos seus filhos peregrinos a partir da glória da ressurreição de seu filho Jesus, para lhes oferecer consolação, estímulo e alento», notam os bispos (nº 3).

Por outro lado, Maria é o caminho até Jesus, não o fim da nossa devoção. Há uma dimensão cristológica muito forte em Fátima. Foi Francisco que o expressou: «Do que mais gostei foi de ver a Nosso Senhor, naquela luz que a Nossa Senhora nos meteu no peito. Gosto tanto de Deus» (nº 9).

O verdadeiro milagre de Fátima é que nos sentimos bem nesta «casa maternal» como lhe chamou o Papa Bento onde nos sentimos «acolhidos, compreendidos, consolados, perdoados, reconfortados e renovados. O Santuário de Fátima converteu-se no coração espiritual de Portugal» (nº 4).

Fátima impõe-nos uma tarefa: não cairmos na indiferença diante de tanto sofrimento que nos chega a casa disfarçados como «espetáculo» através das televisões sensacionalistas e que nos cansa.

«O meu Coração Imaculado triunfará» – prometeu a Senhora aos três pequenos. O amor no fim triunfará, diz a cada um de nós.

Não viemos sozinhos a Fátima. Trazemos no coração e nas preocupações tanta gente, tanto sofrimento, tanta esperança, tantas intenções para entregar à Mãe de Deus. Fazemo-lo juntos, porque a Senhora mais branca que o sol que em Fátima apareceu aos pastorinhos é nossa Mãe, é Mãe de todos.

A Senhora de Fátima é modelo para a Igreja, porque segue Jesus até à cruz «atenta às necessidades dos próximos, aos clamores dos distantes» (Nº 14). Confiamos à Mãe de misericórdia as intenções que trazemos connosco e pedimos-lhe pelos povos sofredores do Sudão do Sul, da República Democrática do Congo, da República Centro-africana, da Etiópia, do Iémen, da Somália, do Darfur, dos Montes Nubas. Confiamos-lhe os cristãos perseguidos na Síria, na Líbia, no Egito, na Nigéria…

Maria é modelo do cristão convidado à conversão, isto é: erradicar do coração a tentação do domínio (nº 14), anúncio de misericórdia e de paz desde a aparição do anjo.

«Fiéis ao carisma de Fátima, somos chamados a acolher o convite à promoção e defesa da paz entre os povos, denunciando e opondo-nos aos mecanismos perversos que enfrentam raças e nações: a arrogância racionalista e individualista, o egoísmo indiferente e subjetivista, a economia sem moral ou a política sem compaixão. Fátima ergue-se como palavra profética de denúncia do mal e compromisso com o bem, na promoção da justiça e da paz, na valorização e respeito pela dignidade de cada ser humano», escrevem os bispos portugueses na sua Carta Pastoral (nº 15).

5 de maio de 2017

«MÃE, OS BÁRBAROS ESTÃO À NOSSA PORTA…»

Participantes no Simpósio de Limone 2017 @ APinto

Um grito ressoado muitas vezes através dos séculos na nossa Europa. Chegavam em vagas de terras distantes e selvagens. Chegavam saqueando, apropriando-se de bens e direitos conquistados com esforço e suor noutros tempos e por outras gerações. Falavam línguas desconhecidas, dialectos, vestiam de maneira diferente, rodeados de costumes e odores estrangeiros. Alguns regressavam depois aos lugares de proveniência, graças a Deus, mas outros tinham o atrevimento de querer ficar e viver nas nossas terras, entre nós, connosco, aproveitando-se de nós. Inconcebível! Se voltassem para as suas casas e nos deixassem em paz, de uma vez por todas! Defender-nos-emos deles com todos os meios, não queremos perder ou arriscar o nosso mundo, os nossos bens, a nossa cultura, a nossa igreja, o nosso estilo de vida.

Nos dias passados em Limone reflectindo sobre Migração e missão: uma nova Europa: de migrantes a cidadãos, apercebemo-nos de que, no final de contas, muitos – também hoje, mesmo entre os bons cristãos que encontramos nas nossas igrejas, mesmo no seio do nosso próprio mundo missionário – se identificam com quanto acima está descrito. Idênticos sentimentos, medos, intolerâncias, cansaços, rejeição. Está bem ajudar, partilhar, acolher, mas quando é de mais, é demais.

Também pessoas de envergadura, como S. Agostinho, olharam para as migrações do seu tempo com um sentido de grande receio e rejeição. Mas Agostinho intuirá, ainda antes e mais do que os seus contemporâneos, que as migrações dos povos dentro das fronteiras do Império Romano – migrações que desembocarão na conquista e no saque de Roma em 410 AD – não eram factos acidentais mas um acontecimento epocal, que perturbava o mundo romano desde os fundamentos e inaugurava uma nova era da qual não se podia ainda entrever os contornos mas que era também guiada pela mão providente de Deus.

Foi esta intuição de fundo que nos acompanhou nos trabalhos do Simpósio. As migrações são um facto estrutural, não uma passagem temporária. São um desafio mas também um recurso; não são só uma necessidade e uma urgência, mas são também um convite a ir além das fronteiras e das representações humanas, sociológicas, «cristãs», eclesiais e missionárias que até agora caracterizaram a Europa. Para além dos muros de defesa da «fortaleza Europa».

Os migrantes e as migrações representam um tempo de «crise» em toda a linha e, como em cada crise, mesmo se atormentada e sofrida, abrem-nos a um novo modo de sentir e viver, a criar espaço e contribuir para um rosto novo de sociedade e de igreja (um novo povo), aos necessários processos de reconciliação, a uma redefinição das linguagens e conteúdos antropológicos da integração.

Uma crise que nos obriga a admissões difíceis, a encarar mais o imigrado como um sujeito protagonista e como um dom, a maturar espiritualidade de fronteira, das margens, a empreender caminhos de conversão e diálogo. Mover-nos de uma óptica de caridade a critérios de justiça; de igrejas de rosto monoétnico a igrejas verdadeiramente católicas; do defender com unhas e dentes os nossos direitos adquiridos a uma maior partilha e acolhimento, para descobrir que se pode viver com menos sem viver pior, antes, chegar a um bem-viver.

Nós, o mundo da missão, mais uma vez nos sentimos chamados a fazer ponte, a tornar as diferenças espaços de encontro e de recíproca transformação. Começando por pôr em discussão o nosso estilo actual de vida, os nossos modelos socioculturais e económicos em modos mais radicais e abertos de quanto o têm sido até agora. Limone encorajou-nos nestes caminhos e conscientizações. Queremos partilhá-los com todos vós, em simplicidade e fraternidade.
Missionárias e missionários combonianos no Simpósio de Limone

4 de maio de 2017

INOVAR


Os tempos que habitamos são tempos novos: obrigam-nos a conjugar o verbo inovar em vários modos!

A começar pelo comunicar. A grande maioria dos consagrados pertencemos ao analógico, somos artesãos, trabalhamos com as mãos, damos tempo ao tempo. Para comunicar usamos a gramática, a voz, as cartas, o telefone…

A nova geração é nativa no digital: vive ligada à internet, dia e noite. Não escreve cartas, mas envia emails, sms, imojis, meias palavras, vídeos e fotos. Não usa o carteiro, mas as redes sociais; quer informações e emoções no momento, não tem paciência para grandes leituras, para tempos longos…

A internet e as redes sociais são os novos meios e espaços de comunicação, areópagos com códigos e instrumentos de linguagem próprios. Se queremos partilhar a alegria e a beleza da consagração e o sonho dos nossos carismas temos que frequentar esses espaços, aprender a usar os seus meios de comunicação desde os telefones inteligentes às linguagens do som e da imagem, familiarizamo-nos com a cultura digital.

Não adianta carpir as cebolas do egito da comunicação do passado: temos que emigrar do analógico para o digital e enfrentar os desafios da comunicação presente aprendendo a usar o Facebook, o Twittter, o Instagram, as páginas da internet, o correio electrónico, o vídeo…

A Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica publicou a 6 de Janeiro de 2017 umas orientações intituladas Vinho novo, odres novos – A vida consagrada desde o Concílio Vaticano II e os desafios ainda em aberto.

Vinho novo, odres novos: outra forma de conjugar o verbo inovar.

O documento é um exercício de discernimento prático para «ler práticas inadequadas, indicar processos bloqueados, fazer perguntas concretas, pedir razões das estruturas de relação, de governo e de formação sobre o apoio real dado à forma de vida evangélica das pessoas consagradas» como explica no penúltimo parágrafo da curta introdução.

Esta inovação tem a ver com a atualização histórica dos carismas face às realidades socioculturais que vivemos (as novas pobrezas) e a linguagem (simbolismo) para os comunicarmos às gerações novas.

Duas citações servem para ilustrar esta realidade.

Lemos no nº 7: «As novas pobrezas interpelam a consciência de muitos consagrados e solicitam aos carismas históricos novas formas de resposta generosa frente às novas situações e aos novos descartes da história. Daí o florescimento das novas formas de presença e de serviço nas múltiplas periferias existenciais».

Saltamos para o nº 14: «O cuidado em vista a um crescimento harmonioso entre a dimensão espiritual e a dimensão humana implica uma atenção específica à antropologia das diversas culturas e à sensibilidade própria das novas gerações, com particular referência aos novos contextos de vida. Só um reentendimento profundo do simbolismo que toca verdadeiramente o coração das novas gerações pode evitar o perigo de se contentarem com uma adesão apenas superficial, de tendência e até de moda, onde parece que a busca de sinais exteriores transmite segurança de identidade».

Estas orientações exigem respostas concretas de todos os institutos a começar pelos percursos formativos (os âmbitos trentinos de seminários e noviciados têm que ser substituídos, diz o nº 35), pela própria linguagem («a própria terminologia “superiores” e “súbditos” já não é adequada» lê-se no nº 24), à administração de bens e ao serviço da autoridade («que apele à colaboração e a uma visão comum sobre o estilo da fraternidade», salienta o nº 43).

As orientações têm a força para revolucionar e renovar a vida consagrada se forem seguidas através de uma obediência generosa e criativa!

Esta jornada de formação permanente certamente que nos vai dar algumas intuições concretas para começarmos a conjugar com mais constância e consistência o verbo inovar!

«Agora é tempo de vindima e de vinho novo. […] Chegou o tempo de guardar a novidade com criatividade para que conserve o sabor genuíno da bendita fecundidade de Deus», proclama o documento na conclusão (nº 55).

Vamos a isso, então!

2 de maio de 2017

MÃE ÁFRICA


A poeta angolana Alda Lara (1930-1962) concebeu Mãe Negra, um trecho tenso e intenso excelentemente musicado por Paulo de Carvalho. Fui beber a inspiração a esse poema telúrico, esse pranto profundo que fala de estrada, noite, mãos apertadas, cruzadas no regaço, lágrimas grossas em faces cansadas, voz no vento, saudade, buganvílias e cajueiros.

Mãe negra, mãe África!

A África é a mátria da humanidade, o seio imenso que acolheu o processo de hominização, o salto de qualidade do género humano que depois partiu para os quatro cantos da Terra.

Somos todos África, transportamo-la na herança genética, suspiramos por voltar ao berço de onde viemos. Dizem que quem beber a água do Nilo cedo ou tarde vai ter de regressar. Os Italianos descrevem esta saudade ancestral como «mal d’Africa», a doença de África.

Há uma imagem que se repete em cada mulher-mãe africana: a carregar um bebé às costas e outro no ventre, vergada sob o peso da sobrevivência sobre a terra vermelha a cavar o magro sustento para a família num horizonte aberto e sem fim, terra de riquezas naturais inúmeras, paisagens de cortar a respiração que o nevoeiro espesso da cobiça e da corrupção tenta esconder.

Mas anda no ar a alegria das vozes, dos cantos, dos tambores, das danças no fim do dia, no fim da noite; a solidão dos desertos, a planura da savana, a sinfonia da vida nas florestas tropicais, o esplendor dos picos altaneiros gelados, as costas cálidas de águas serenas, o sol escaldante, a lua feiticeira…

A primeira riqueza da mãe África, a que conta menos para as estatísticas da economia avara, são as pessoas, a riqueza maior do continente: 1,2 mil milhões espalhados por 54 países e nove territórios.

As suas entranhas estão prenhes de ouro, diamantes, crómio, platina; corre-lhe petróleo nas veias; e água, muita água. E as florestas fazem de cabelo – que motosserras assassinas vão cortando sem dó nem piedade, abrindo caminho à desertificação.

O solo vermelho africano está tingido pelo sangue dos escravos (de ontem e de hoje), das guerras pelo poder que autocratas querem perpetuar, das fomes, das secas, das enxurradas, das doenças (estranhas e triviais, mas homicidas na mesma), da morte!

Solo empapado, fertilizado pelas lágrimas grossas de dor e desespero das mães que vêem os filhos morrer, das mulheres e meninas vítimas de abuso pelos exércitos que usam a violação como arma de guerra para punir, humilhar; no Sudão do Sul, República Democrática do Congo…

Apesar da dor e da morte, a mãe África é um poema de vida, um hino à beleza, braços abertos e hospitaleiros que partilham, corpos que dançam e celebram até à exaustão, alegria. Roupas coloridas a esvoaçar na brisa da tarde, pássaros desenhando sonhos no céu imenso de azul.

Um amigo regressou recentemente de uma estada de seis meses em Kinshasa, na República Democrática do Congo. Perguntei-lhe o que trouxe de lá. «A vontade de voltar», respondeu.

Trazemos gravada na carga genética a saudade imensa da África, o nosso seio comum, o berço que nos embalou.

1 de maio de 2017

MENSAGEM PARA OS 30 ANOS DO "CENÁCULOS DE ORAÇÃO MISSIONÁRIA" POR OCASIÃO DO SEU X ENCONTRO NACIONAL

Muito estimada Doutora LILIANE VÉLIA MENDONCA, Coordenadora Nacional

Caríssimos irmãos e irmãs dos "Cenáculos de Oração Missionária"

Saudações em Jesus Cristo Ressuscitado.

Soube com alegria que este movimento de oração missionária celebra, em 2017, os seus 30 anos de vida.

Já passaram 30 anos desde aquele Domingo da Quaresma de 1987, em que às Colaboradoras e Colaboradores Missionários foi dirigido o convite de constituírem pequenos grupos de vizinhos. Estes haviam de conhecer melhor as situações do mundo e a Palavra de Deus, adquirir os sentimentos do Coração de Jesus por aquelas pessoas e países para, assim, colaborarem na evangelização e com os Missionários através da oração missionária em comum.

O convite foi bem acolhido. As Colaboradoras de Lombomeão (Vagos - Aveiro) fundaram logo os primeiros seis "pequenos grupos de oração missionária".

Desde então, muitos outros Cenáculos têm nascido e continuam a formar-se em Portugal e noutros Países. Cumprem a sua missão de, unidos a Maria como pequenos cenáculos de apóstolos, pedir a Deus o Dom do Espírito Santo para a Igreja em saída missionária e para o mundo, atentos às novas circunstâncias e às indicações do Papa.

Na beatificação de D. Daniel Comboni, S. João Paulo ll disse coisas importantes que convém lembrar sempre: os Cenáculos são missionários porque se unem em oração, que é a primeira e indispensável maneira de evangelizar e dão mais força ao vigor missionário das vossas Paróquias.

A Província Portuguesa dos Missionários Combonianos, que este ano celebra os 70 anos de vida e presença comboniana no vosso País, depois de vários anos de observação e trabalho, reconheceu a vossa inspiração no Carisma de S. Daniel Comboni, acolheu-vos como caminho valido de animação e espiritualidade missionária laical e recomendou-vos ao cuidado e empenho das suas Comunidades.

Estou-vos grato pela vossa dedicação à Oração Missionária em comum e pelas outras formas de colaboração e animação missionária que tendes criado. Agradeço também aos Animadores e Animadoras dos vossos Cenáculos, assim como a quantas e quantos vos acompanham e animam, nomeadamente os M. Combonianos, as irmãs M. Combonianas, as M. Seculares Combonianas, os Leigos M. Combonianos, o Instituto das Missionárias Reparadoras do Coração de Jesus.

Peço a Nossa Senhora, no Centenário das Suas aparições em Fátima e ao nosso Fundador São Daniel Comboni que intercedam por vós, vos abençoem e vos impulsionem a uma cada vez mais intensa e criativa santidade missionária nas vossas famílias e ambientes.

Eu também vos acompanho com a minha oração.

Com os parabéns e os melhores cumprimentos meus e dos Assistentes Gerais, abraço-vos em

Cristo Jesus.

P. Tesfaye Tadesse Geberesilasie MCCJ
Padre Geral

30 de abril de 2017

MENSAGEM DO SUPERIOR GERAL PARA OS 70 ANOS DOS COMBONIANOS EM PORTUGAL


Aleluia!
Louvai a Deus em seu Santuário, louvai-o no seu majestoso firmamento!
Louvai-o por seus grandes feitos, louvai-o por sua infinita grandeza!
Louvai-o ao som de trombetas, louvai-o com harpas e cítaras!
Louvai-o com tamborins e danças. Louvai-o com instrumentos de cordas e com flautas!
Louvai-o com o clangor dos címbalos, louvai-o, altissonantes trombetas!
Que todos os seres vivos louvem ao Eterno! Louvado seja o Senhor!
Aleluia!
(Salmo 150)


Sua Excelência Reverendíssima, Dom llídio Pinto Leandro, Bispo de Viseu,

Reverendo P. José da Silva Vieira, Superior Provincial dos Missionários Combonianos, em Portugal,

Prezados confrades combonianos,

Estimadas Irmãs Missionárias Combonianas e Missionárias Seculares Combonianas,

Estimados Leigos Missionários Combonianos,

Estimados sacerdotes, religiosos e religiosas, benfeitores e amigos, familiares dos nossos confrades combonianos, e a todos os aqui presentes,

Vos saudamos com afeto fraterno no nome do Senhor Jesus e do nosso Instituto comboniano.

Tudo quanto queremos, hoje, é que este seja um dia particular de ação de graças. Juntos, queremos agradecer a Deus pelos setenta (70) anos da presença e da vida dos Combonianos em Portugal. Uma efeméride ainda mais notável e jubilosa se a associarmos às celebrações que estão a decorrer, neste ano, para fazermos memoria dos 150 anos da fundação do nosso Instituto Missionário Comboniano.

Sim. Queremos agradecer, de modo especial, a todos os combonianos que, com as suas vidas, a sua participação, a sua contribuição e o seu sacrifício, escreveram as belas paginas da história dos 70 anos de presença comboniana neste País; e que, daqui, partiram para outras paragens de além-mar, de Moçambique ao Brasil, a Macau, e a tantas outras partes do mundo.

Isto significa que, destes 70 anos de história comboniana, em Portugal, fazem parte, também, outras histórias, que ultrapassam as fronteiras portuguesas, e são elas as histórias do Instituto e das Igrejas locais, em outros países e continentes, onde os confrades portugueses trabalharam e deram a vida ao serviço da Missão.

Queremos agradecer aos primeiros confrades que tiveram a inspiração de vir para Portugal para partilhar, com a Igreja e a sociedade portuguesas, o carisma missionário do nosso Pai e Fundador, São Daniel Comboni. Sim, agradecemos aos confrades que deram início a esta presença, tais como os padres Giovanni Cotta, Giorgio Ferrero e Ernesto Calderola, e, depois, a todos os outros que deram continuidade a esta obra maravilhosa, alistando tantas vocações combonianas entre os rapazes e jovens portugueses, que se tornaram uma grande bênção para a Missão e para as Igrejas e os povos para onde foram enviados.

Agradecemos a cada um dos confrades portugueses pelo seu SIM ao Senhor Jesus, pela sua proximidade a São Daniel Comboni e pela sua paixão pela Missão, no seio do Povo de Deus. Os confrades de origem portuguesa serviram o Senhor e o Povo de Deus, no passado e no presente do nosso Instituto, nos mais diversos sectores da pastoral, da formação, da animação missionária e da administração. Estes confrades deram o seu melhor como discípulos missionários nas Igrejas locais, nas comunidades, nas escolas e universidades, nas clínicas, nos hospitais, e nos Meios de Comunicação Social. Estiveram ao serviço da autoridade como superiores provinciais e como membros do Conselho Geral - caso do ex-Superior Geral, P. Manuel Augusto Lopes Ferreira, e do atual Vigário Geral, P. Jeremias dos Santos Martins - e ainda outros confrades que estiveram ou estão ainda empenhados nos serviços da Direção Geral.

Agradecemos também aos confrades de outras nacionalidades, e de modo especial aos italianos e espanhóis, que muito contribuíram para a vida da Província comboniana portuguesa. Do mesmo modo, agradecemos também aos outros confrades das demais circunscrições da Europa, da América, da África e da Ásia, que passaram por Portugal e que, de algum modo, também fizeram parte da história destes 70 anos.

Queremos agradecer ainda ao Senhor da vida pelos catorze (14) confrades portugueses já falecidos, os quais agora, desde a casa do Pai, continuam a exercer a missão de intercessão por cada um de nós e pela vida do Instituto: desde o mais jovem, o escolástico Daniel Fernando Ferreira da Rocha, falecido aos 23 anos de idade, ao mais idoso, o Irmão António Figueiredo da Silva, que partiu para a casa do pai, no ano passado. Agradecemos pelo dom da vida e do testemunho de cada um deles. E permitam-me recordar, em particular, um nome: o P. Ivo Martins do Vale, irmão do P. José Augusto Martins do Vale. Sim, queremos recordar o P. Ivo porque, no nosso país, a Etiópia, ele deu testemunho de um missionário comboniano alegre, de um gentil e dedicado sacerdote de Cristo ao serviço do povo Sidamo.

Recordamos ainda os confrades que abandonaram o Instituto e escolheram outras formas de vida. Para eles, deixamos aqui uma oração de agradecimento, porque também eles fizeram parte destes 70 anos de vida comboniana que agora estamos a celebrar. Obrigado pelo que fostes e fizestes pela vida do nosso Instituto. Na mesma linha de pensamento, lembramos todos os que passaram pelos nossos seminários, os ex-seminaristas combonianos, que, hoje, continuam a ser fermento de uma fé missionária, na sociedade portuguesa. Continuai a apoiar-nos com a vossa proximidade e amizade, e não percais, nunca, o espírito missionário comboniano.

Agradecemos às Irmãs Missionárias Combonianas, pelo facto de, ao longo destes 70 anos de vida, o Senhor nos ter abençoado e nos ter permitido partilhar do mesmo carisma de Comboni e da mesma vocação missionária. Obrigado, combonianas portuguesas, pela colaboração e por termos caminhado juntos todos estes anos de anúncio, de testemunho e de serviço missionário neste território.

Em Portugal, o carisma de São Daniel Comboni, dom do Espírito Santo, atraiu, ao longo destes últimos 70 anos, muitos outros homens e mulheres, leigos e leigas, que se consagraram e dedicaram à missão. Referimo-nos, em particular, às Missionárias Seculares Combonianas e aos Leigos Missionários Combonianos. O nosso sincero obrigado a todos e a todas, Seculares e Leigos, pela colaboração e pelo vosso exemplo e apoio. Obrigado pelo caminho que estamos a percorrer juntos.

O nosso agradecimento carinhoso também aos familiares dos nossos confrades e ainda aos benfeitores, colaboradores e amigos por nos terem apoiado - humana, espiritual e materialmente - no serviço missionário. Obrigado por nos terem proporcionado os meios para as nossas atividades de evangelização e animação missionária. Obrigado por nos terdes acompanhado, com perseverança e abnegação, ao longo destes 70 anos da nossa história em Portugal.

Queremos agradecer à Igreja local deste País, às dioceses e às comunidades paroquiais que nos receberam, nos incentivaram e apoiaram a nossa presença e as nossas atividades. Agradecemos a todos os senhores Bispos - e aqui gostaríamos de mencionar o primeiro, Dom José da Cruz Moreira Pinto, Bispo de Viseu, que nos recebeu e deu as boas-vindas, no dia 23 de Abril de 1947 -, a todos os reverendos párocos e demais agentes de pastoral pela amizade e pelo acolhimento na Igreja de Portugal.

Obrigado pelos sinais particulares de vida e de compromisso ao longo de todos estes anos, tais como, por exemplo: a formação de tantos jovens nos seminários, no Postulantado e no Noviciado; a publicação das revistas Além-Mar e Audácia; a animação e a formação missionária de grupos de jovens - como o JIM (Jovens em missão); os Cenáculos de Oração Missionária; o empenho na pastoral paroquial, dando particular atenção aos mais vulneráveis e aos imigrantes, como é o caso, por exemplo, da nossa presença em Camarate; as atividades realizadas em colaboração com outros Institutos religiosos e missionários e com outras organizações civis e religiosas, empenhadas na promoção da justiça social e ambiental, da paz e da reconciliação, e do dialogo entre as diferentes culturas e religiões. Obrigado por estes e por todos os outros sinais que revelaram e revelam ainda o dinamismo e a criatividade do nosso trabalho, neste País de grande tradição missionária e de grandes missionários.

A celebração dos 70 anos de história comboniana, em Portugal, ajuda-nos a preservar a confiança no Senhor, que continua a incentivar-nos e a realizar coisas belas através da vida de cada um de nós e do nosso Instituto. Esperamos e rezamos para que o Senhor continue a suscitar novas vocações missionárias, na Igreja portuguesa, e continue a chamar jovens, homens e mulheres, para seguirem a Cristo, na esteira de São Daniel Comboni.

Obrigado por tudo. E que São Daniel Comboni, São José e, muito em especial, a Nossa Senhora de Fátima - no centenário da sua visita aos pastorinhos, na Cova da lria -, intercedam por cada um e cada uma de nós!

P. Tesfaye Tadesse, MCCJ
Padre Geral

26 de abril de 2017

MEMÓRIAS DOS BONS «PERAS»


Decorria o ano de 1950 quando conheci os Missionários Combonianos do Coração de Jesus, que tinham vindo de Itália e haviam escolhido a diocese de Viseu, para sede da sua Ordem, três anos antes, em 23 de Abril 1947.

Os meus primeiros contatos com eles, aos meus 11 anos, tiveram lugar em Repeses nas Eucaristias Dominicais. O então meu Pároco, P.e Amadeu Lopes Gonçalves, entregara-lhes a capelania de Repeses a troco das aulas de português que dava no Seminário das Missões. O bom sacristão, o Sr. José «Loirinho», estava já idoso; e eu, desde cedo comecei a ajudar à Missa aos bons «peras» (nome que era dado aos Combonianos dado usarem ou farta barba ou «cavanhaque»). Eram ricas aquelas celebrações, onde as homilias num português meio italianizado, como, por exemplo, «una arranha»(=aranha) tejia una teiia»… Foi nessa altura que conheci os padres Ferrero, Peano, La Salandra, Calderola,Malaspina, Naldi, Sório… Com eles, nas Eucaristias dominicais, os cristãos passaram a ouvir um jovem a ler, em português, as partes que o celebrante, baixando a voz, lia em latim. E estávamos longe do Concílio Vaticano II.

Inicialmente nas suas bicicletas com proteção de rede para não se prenderem as batinas e, mais tarde nas suas «Cociolo» (bicicletas com motor a petróleo, mudanças de manete no quadro e pedais para os auxiliar nas subidas) aí estavam eles, pontualmente, para as eucaristias dominicais (às 8 horas da manhã) ou semanais (por volta das 6).

Os cristãos praticantes de Repeses, a que se juntavam, em maior quantidade, os de Paradinha, tinham pelos «peras» grande respeito e admiração. De igual modo, eram muito queridos pelo povo cigano, que, nessa altura, ainda nómada, acampava ao abrigo da capelinha de Santa Eulália. A prova desse respeito está nas dezenas dos que, quando o P.e Ângelo de La Salandra, com o seu «Cociolo», teve um desastre na curva de Fail ao regressar de um ato litúrgico em Canas de Sabugosa (hoje Canas de Santa Maria), enchiam a enfermaria do Hospital onde ele ficara internado. Uma cristã mais idosa, numa dessas visitas, ao vê-lo de barba a despontar e cheio de chagas disse: «Parece mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo.»

Eu, que sempre os admirei, aproveitava os meus tempos livres para os ir visitar ao Seminário das Missões. Foi ali que vi o trabalho dos Irmãos a tratar das galinhas «ligorne» e de coelhos de raça, que eu nunca vira, e o cuidado numa agricultura aprimorada. Vi também o primeiro trator, a plantação do pomar e da vinha. Nesses trabalhos mais duros, trabalharam alguns sacerdotes.

No Seminário das Missões, os sacerdotes eram, diariamente, procurados para confessarem, já que os cristãos viseenses os encontravam mais disponíveis. Alguns jovens das escolas viseenses (Colégio da Via Sacra, Escola do Magistério Primário, Liceu Nacional de Viseu, Colégio de Santo Agostinho, Colégio Português, Escola Industrial e Comercial de Viseu e os seminaristas do Seminário Maior) também gostavam de aí se confessar..

A porta do Seminário das Missões estava sempre aberta. Depois de aprenderem melhor a língua portuguesa, muitos desses missionários eram solicitados para pregadores nas festas em diversas paróquias da diocese.

Visitei, desde muito jovem, e por várias vezes, a construção do novo Seminário e a sua capela. Foi lá que conheci os Irmãos Eligio Locatelli e Igino Antoniazzi, mestres pedreiro e carpinteiro, respetivamente. O primeiro acabou por ir para as missões no Brasil; o segundo, encontrei-o em Carapira (Moçambique), já com quase 90 anos, deslocando-se diariamente para a carpintaria da Missão na sua já velha motorizada.

As técnicas por eles usadas na construção do Casa e Seminário, nos anos 48, eram mais aperfeiçoadas que as usadas em Viseu.

A primorosa pintura do retábulo do altar-mor da atual Capela do Seminário foi da autoria do P.e Alfredo Bellini, o mesmo sacerdote que mais tarde pintou um lindo quadro de Pedro a lavar os pés a Jesus e fez a decoração total da Igreja de Carapira. Foi um dos sacerdotes de quem fui muito amigo e a quem fiquei a dever muitos favores de amizade e orientação de vida; tal como aconteceu, entre outros, com os italianos padres Tarciso Zoia, Afonso Cigarini, Miguel Celis, Jorge Cosner…

Os anos da minha adolescência e juventude correram. Vieram os anos em que, no Natal e em Viseu, os Combonianos construíram um gigantesco presépio. Nessa altura, Viseu enchia-se de autocarros para visitarem este admirável presépio.



Trabalhando para e com os combonianos…
No ano de 1964 os alunos do Seminário das Missões, em Viseu, eram cerca de 200, vindos das mais diversas localidades de várias dioceses. O ensino era feito, sob a direção do P.e Gino Centis, com apoio e orientação da Telescola e a monitorização de sete professores (entre os quais a minha esposa e eu.

Os aspirantes a Irmãos, chegaram a Viseu vindos de Moncada, para aqui continuaram a sua formação. Formação que foi feita por Irmãos tecnicamente bem preparados, usando máquinas importadas de Itália, que eram ainda pouco conhecidas por cá. Delas destacamos um automóvel, que serrado ao meio, no sentido longitudinal, permitia aos alunos verem e manobrarem todas as peças que o constituíam. Dava gosto vê-los, com suas mãos sempre cheias de óleo, com grande alegria, seguirem as lições dos Irmão João Grazian e Gaspar Cebola. Ao receber como aluno o Irmão Gaspar Cebola, que aí acabou o Curso Industrial, a Escola Industrial e Comercial de Viseu entrava na vida do Seminário das Missões.

Falar do Irmão Gaspar é recordar o tempo em que batemos à porta dos Combonianos para ajudarem uma equipa de que fiz parte, na transformação do velho Asilo da Infância Desvalida no Internato Viseense de Santa Teresinha. Nessa altura, tomou ele conta da secção masculina do Internato, antes dos utentes serem, por favor, aceites no Lar Escola de Santo António. A ele se ficou a dever o evitar que os utentes durante a noite fossem cometer alguns roubos nas lojas da cidade. Os aspirantes a Irmãos foram também importantes na agricultura do quintal daquela casa.



…Após a minha aposentação

A minha ligação com os Combonianos nunca arrefeceu. Nas minhas horas vagas, como voluntário, deslocava-me ao Seminário para tirar dúvidas de Matemática.

Quando em 1996, estando a minha esposa já aposentada, me aposentei, e estando os nossos filhos com a sua vida orientada, dada a falta de professores de Português, fomos convidados pelo P.e Jeremias Martins, então Provincial dos combonianos em Moçambique, a ir em missão, como voluntários, para o Seminário Interdiocesano de Nampula. A vivência que aí tivemos enriqueceu muito as nossas vidas e as de toda a família.

Hoje, a minha esposa e eu pertencemos à Família Comboniana como Leigos Missionários Combonianos.
Prof. Valente

24 de abril de 2017

Combonianos 70 anos em Portugal: OS PRIMEIROS PASSOS



Estava em Viseu um só comboniano italiano, o Pe. João Cotta, desde 22 de Abril de 1947. Com a chegada, a 3 de Novembro daquele ano, de mais três sacerdotes, os combonianos formaram a primeira comunidade em Viseu. Eram todos padres: João Cotta, Ézio Imoli, Ângelo La Salandra e Rino Carlesi.

Dias depois, o bispo senhor Dom José da Cruz Moreira Pinto nomeou-os para trabalhar nas paróquias de Mangualde (P.e Ezio Imoli), Bodiosa (P.e Rino Carlesi) e Canas de Sabugosa (P.e Ângelo La Salandra).
O P. Rino Carlesi, que viria a ser bispo de Balsas, no Brasil, descreveu as primeiras ações apostólicas na diocese de Viseu: «Conheci e fiz amizade com todos os padres de Viseu e redondezas, por causa dos funerais, da pregação, das festas religiosas. Foi o começo da minha vida de cigano, de animação missionária nas paróquias. Depois o senhor bispo levou-me, como seu missionário, para pregar ao povo nas visitas pastorais. Fui pescador de vocações e pregador de missões.»
Em Janeiro de 1948 o grupo alugou uma casa em Viseu e começa a arranjar-se a casa do caseiro.
O segundo grupo de combonianos italianos (um sacerdote e dois Irmãos construtores) veio em Março de 1948.
Passaram pelo Seminário Menor de Fornos de Algodres. No diário da viagem deixaram a seguinte impressão: «Ajoelhámo-nos aos pés da imagem de S. José, no claustro interno do Seminário sentindo tantos motivos para agradecer; pensámos nos nossos futuros seminaristas e agradecemos a S. José por nos ter trazido a esta terra tão rica de vocações.»
A 14 de março, na igreja matriz da paróquia de Ranhados (à qual pertencia a quinta onde se instalaram os combonianos), a chegada deste grupo foi celebrada festivamente com uma eucaristia. Os Combonianos cedo se inseriam na sua comunidade paroquial.
A 1 de junho de 1948 foi lançada a primeira pedra da casa (hoje «casa velha»), com técnicas muito avançadas. O edifício está pronto a habitar em 28 de Junho de 1949. Menos de dois meses depois, a 14 de Agosto, é inaugurada a primeira capela.
Nessa altura, a 27 de Fevereiro de 1949, o P.e João Cotta, que fizera «milagres», com o grande apoio do Bispo de Viseu, D. José da Cruz Moreira Pinto, nos 22 meses em que nesta diocese permaneceu, de 23 de abril de 1947 a 27 de fevereiro de 1949, já havia partido para a Inglaterra.
Em Maio daquele ano, durante a Semana Nacional das Missões, são distribuídos pela diocese 250 cartazes que dão a conhecer o futuro Seminário das Missões e o Instituto Comboniano. Estavam decorridos dois anos cinco meses e dezassete dias depois da chegada do P. João Cotta a Viseu…
A 10 de Outubro daquele ano de 1949, e após uma semana de estágio em Setembro, iniciava-se o 1º ano letivo no Seminário das Missões com 16 alunos no primeiro ano e um no 5º ano, vindo do Seminário Diocesano.
Se no final de 1952 o Seminário atual já estava construído, só em 11 de Dezembro de 1955, ao terminar da nova Capela, foi considerado completo, oito anos sete meses e dezanove dias depois da chegada do primeiro comboniano a Viseu.

Os primeiros combonianos portugueses
Os primeiros sacerdotes combonianos portugueses, tinham passado pelo Seminário Diocesano.
O P. Rogério Artur de Sousa, natural de Sargaçais, Soito, Aguiar da Beira, que, depois de ter feito o seu noviciado e a teologia em Itália, foi ordenado pelo Senhor D. José da Cruz Moreira Pinto , na Igreja do Seminário das Missões em Viseu a 27 de Julho de 1958.
O P. Ramiro Loureira da Cruz, natural de Barbeira, Rio de Loba, Viseu, fez também o noviciado e teologia em Itália e foi ordenado sacerdote na Catedral de Milão pelo Cardeal Montini (futuro Beato Paulo VI) a 14 de Março de 1959.
O primeiro Irmão Missionário Comboniano Português foi o Irmão António Martins, natural de Cepões, Viseu, que fez a sua Profissão perpétua em VN de Famalicão a 9 de Setembro de 1960.
Ao longo destes 70 anos a diocese deu muitas vocações aos missionários combonianos.

Prof. Valente

22 de abril de 2017

PARA MOÇAMBIQUE POR VISEU



P. João Cotta e D. José da Cruz M. Pinto,
protagonistas da fundação comboniana em Viseu

Os Missionários Combonianos chegaram a Portugal, numa primeira fase, a fim de aprenderem o Português para a evangelização em Moçambique. Estávamos no ano de 1946.

O bispo de Nampula, D. Teófilo de Andrade, frente às dificuldades de uma missionação numa população com maioria muçulmana, pretende missionários habituados ao contacto com população deste tipo.

Com a proteção de D. Teodósio de Gouveia, arcebispo de Lourenço Marques (atual Maputo) – que conhecera a ação dos combonianos em Cartum (Sudão), conseguiu que o Superior Geral lhes mandasse em Julho de 1946 um primeiro missionário: o P.e José Zambonardi.

Do acordo então estabelecido do bispo com os Combonianos estabeleceu-se a chegada de um grupo de missionários e a fundação de um seminário menor em Portugal, para formação de futuros missionários combonianos portugueses, de acordo com o exigido no Acordo Missionário de 7/5/1940 entre a Santa Sé e o Governo Português.

Para preparar o grupo de missionários, vieram para Lisboa, para aprender português, em Janeiro de 1947, os Padres Miguel Selis (que os viseenses vieram a conhecer muito bem e tem o seu nome numa das ruas da nossa cidade), Sílvio Caselli, Quinto Nanneti e os Irmãos Lamberto Agostini e José Bagiolli e em Abril, desse mesmo ano, o Pe. Ângello Velloso.

Na sua estadia em Lisboa, são apoiados, entre outros, pelos Franciscanos, Irmãs de S. José de Cluny e Salesianos.

Sete meses depois, em Julho de 1947, é estabelecida em Nampula a primeira comunidade Comboniana constituída pelos Padres Miguel Zambonardi, Miguel Selis e Quinto Nannetti.


Viseu: Casa-mãe

Havia que cumprir a segunda parte do acordo estabelecido em Nampula: fundar um seminário menor comboniano em Portugal.

Nomeia-se o P.e João Cotta, comboniano de 63 anos, com muita experiência neste tipo de trabalhos, em dezembro de 1946. Só em fins de Março de 1947 consegue o visto para Portugal. No dia 1 de Abril é recebido pelo Pe. Miguel Selis na estação de comboios de Santa Apolónia. Durante 15 dias procura aprender algumas palavras em português.

A 15 de Abril é recebido na Nunciatura Apostólica e no Patriarcado. Dão-lhe como pistas de criação do seminário menor: Évora, Guarda ou Porto.

No dia 16 de Abril dirige-se a Fátima, onde celebra na Capelinha das Aparições e entra em contacto com os missionários da Consolata.

A 17 de Abril está em Aveiro; e, no dia 20 é recebido pelo bispo, D. João Evangelista, que conhecera os combonianos em Verona e para o qual trazia uma carta de apresentação. Este bispo, vendo a dificuldade de o apoiar na sua diocese, oferece-se para escrever uma carta de apresentação ao bispo de Viseu, D. José da Cruz Moreira Pinto. No dia 21 ainda visita os seminários de Cucujães e Mogofores. Mas fica desiludido.

No dia 22 à noite chega a Viseu ao fim de pouco mais de 23 dias da sua chegada a Portugal… No dia 23 às 10 h da manhã o secretário de D. José vai buscá-lo ao hotel Portugal onde dormira, leva-o à Sé Catedral e dali para o paço episcopal. Aí se agenda uma entrevista com o Bispo para as 14h. Essa entrevista vai demorar cinco horas, dada a satisfação de D. José da Cruz Moreira Pinto, que via resposta à sua ânsia de ter uma congregação masculina na sua diocese, objetivo pelo qual há muito rezava. Era dia da festa do Patrocínio de S. José. O único senão que o bispo via era a falta de vocações na diocese.

Logo, nesse mesmo dia, foi apresentado pelo bispo ao vice-reitor do Seminário, Monsenhor João Crisóstomo, e ao Cónego Luís Alves, pároco da Catedral. D. José pediu a ambos que ajudassem o P.e João Cotta a encontrar local para estabelecer o Seminário Comboniano. A opinião do bispo era de que esse local se deveria situar nas cercanias de Viseu ou quando muito em Mangualde. O comboniano ficou hospedado no Seminário, mas não parou. Na companhia de Mons. João Crisóstomo e alguns padres de Viseu, visita Mangualde e arredores, S. Pedro do Sul e a zona das Termas de S. Pedro.

Depois de algumas dificuldades era comprada a atual quinta onde se situa o Seminário das Missões de Viseu, registada a 20 de Setembro , onde outorgaram pelos Combonianos o P.e João Cotta e o P.e Dr. Serrano, ecónomo que foi da Diocese de Viseu

A 17 de Outubro o Governo Civil reconhece e regista oficialmente o Instituto Comboniano como «corporação missionária ao abrigo do Acordo Missionário de 7/5/ 1940 entre a Santa Sé e o Governo Português».

24 de Outubro, daquele ano de 1947, considera-se data da fundação do Seminário das Missões de Viseu sob a invocação do Imaculado Coração de Maria.

Havia decorrido o pequeno período de meio ano desde a chegada do P.e João Cotta a Viseu, pela primeira vez, tendo vindo desiludido da sua tentativa de Aveiro.


Primeiras impressões sobre Viseu

O P. João Cotta descreveu ao superior geral as primeiras impressões de Viseu numa carta de abril de 1947: «O panorama é verde, como na Suíça. A diocese é uma das melhores, em espírito cristão e bondade do clero. A cidade tem 20 mil habitantes e a diocese conta com trezentos mil. Estamos no centro-norte de Portugal, com boas comunicações. Sua Excelência [o Senhor D. José da Cruz Moreira Pinto] deseja que a casa [onde se estabeleceria o Seminário menor comboniano] tenha alguns sacerdotes para o apostolado na cidade e na diocese.»

Prof. Valente

18 de abril de 2017

AMARAM, VIVEMOS!


O Livro do Ben Sira termina a evocação do glorioso profeta Elias com um versículo enigmático, um dizer (quase) perdido: «Felizes os que te viram e os que morreram no amor; pois, nós também viveremos certamente» (Sir 48,11).

Este é o ícone bíblico que para mim melhor evoca os 70 anos de história dos combonianos em Portugal: porque os nossos antepassados no Instituto amaram, também nós vivemos. A nossa consagração é energizada e nutrida pelo amor que dedicaram a Jesus Cristo e ao serviço missionário em Portugal e no mundo, a seiva que nos alenta. São «parábolas existenciais» e pontos de referência como no-lo recorda o nº 14 dos Documentos Capitulares 2015.

Revisitar, escrever a história da província não é encenar com trajes da época algum evento medieval tão em moda. A história não se simula ou representa; evoca-se, recorda-se para resgatar a memória, para lançar o futuro.

O Papa Francisco alerta que «a falta de memória histórica é um defeito grave da nossa sociedade». E ajunta: «Conhecer e ser capaz de tomar posição perante os acontecimentos passados é a única possibilidade de construir o futuro» (Amoris Laetitia 193).

Assim, revisitar a história da província portuguesa dos Missionários Combonianos do Coração de Jesus não é tão-pouco embandeirar em arco, pavonear-se no passeio das vaidades.

É celebrar o passado por inteiro, com as suas luzes e sombras, com a sua graça e pecado, com as conquistas e as derrotas para nos inspirarmos e ousarmos caminhos novos de animação missionária, pastoral vocacional de rosto comboniano e governo com a mesma audácia inovadora, generosa, alegre, inserida e próxima dos que nos precederam.

O meu muito bem-haja reconhecido ao P. Manuel Augusto Lopes Ferreira por ter aceitado o convite do Conselho Provincial para aprofundar e escrever a história dos 70 anos da presença comboniana em Portugal.

Durante mais de um ano fez um trabalho aturado e meticuloso de investigação nos arquivos gerais em Roma, nos arquivos provinciais em Lisboa e nos das comunidades. Espirrou com o pó, leu imenso, entrevistou, verificou nomes, datas e factos. Produziu um trabalho persistente e consistente de análise crítica de uma fita do tempo de 70 anos que atravessa momentos históricos, sociais e eclesiais muito contrastantes.

A todos os leitores, sobretudo aos confrades, auspico que esta viagem pelas avenidas da memória comboniana em Portugal sirva de inspiração para gizar caminhos novos de amor missionário.

Somos convocados a amar hoje para que os de amanhã também possam viver o carisma comboniano!

11 de abril de 2017

ANO COMBONIANO

2017, além de mariano é também ano comboniano. Celebramos os 150 anos da fundação do Instituto e 70 anos de presença em Portugal. Para embandeirar em arco? É melhor não! Um ano jubilar é uma estação de acção de graças pelo passado de luzes e sombras; pelo presente de alegrias e tristezas; pelo futuro que já é no coração de Deus. Ou melhor: «Com Comboni, celebrar o passado, sonhar o futuro com gratidão e esperança» – como proclama o logótipo do jubileu comboniano português.

Percorrer as avenidas da memória numa peregrinação de afetos e de saudade, recordando as pessoas que construíram a história comboniana, rever os acontecimentos que fazem a história, é um exercício fundamental para vivermos o presente com serenidade e projetarmos o futuro com esperança.

«A falta de memória histórica é um defeito grave da nossa sociedade. É a mentalidade imatura do “já está ultrapassado”. Conhecer e ser capaz de tomar posição perante os acontecimentos passados é a única possibilidade de construir um futuro que tenha sentido», adverte o Papa Francisco no n.º 193 da Amoris Laetitia.

Celebramos o ano comboniano num contexto de crise vocacional: a província envelhece e diminui e um escolástico e um noviço decidiram dar rumo novo às suas vidas em março. O que é que Deus nos quer dizer através destes factos, Ele que é o Senhor da História?

Quando soube a notícia das saídas peguei nas 50 contas azuis que me ofereceram e disse Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo… outras tantas vezes. Mais não sabia que rezar… Aliás, esta é uma situação bastante comum na minha experiência de liderança. O que me leva a pensar que temos que viver o ano jubilar em duas perspectivas bem combonianas: a obra é de Deus e somos um (pequeno) cenáculo de apóstolos.

Muitos anos antes do P. Josemaría Escrivá se assenhorear do termo Opus Dei para a sua prelatura, Comboni usou-o para definir o Instituto, o Plano e o seu serviço missionário. O termo obra de Deus aparece citado 39 vezes nos Escritos.

Numa extensa Relação histórica e estado do vicariato da África Central que enviou à Sociedade de Colónia (Alemanha) em 1877 Daniel Comboni escreve: «O quadro histórico que preparei para os senhores e no qual passei por alto muitas coisas, é testemunho de que esta obra surgiu ao pé da cruz e que traz o selo da cruz adorável, pela qual se converte em obra de Deus» (E 4972).

A 20 de abril de 1881, meio ano antes da sua morte, comenta numa carta ao P. José Sembianti: «o instituto de Verona conseguiu algo na mais difícil de todas as obras do apostolado católico, de que a nossa obra recebeu certamente a bênção divina e de que, na verdade, é obra de Deus» (E 6663).

O Instituto Comboniano é de Deus: coloquemo-lo nas mãos de quem pertence e vivamos com alegria e dedicação o serviço que a Igreja portuguesa nos pede: a sua animação missionária através «do crisol do sofrimento, da cruz e do martírio» (E 6339) que é feito de cansaço, falta e envelhecimento dos missionários, dificuldade em responder adequadamente aos desafios da missão na Europa de hoje, comunicação com uma sociedade cada vez mais estranha à linguagem de e sobre Deus, medo dos desafios, comodismo da zona de conforto… O conselho de Pedro é actual: «No íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça; com mansidão e respeito» (1 Pedro 3, 15-16a).

Por outro lado, Comboni sonhou o Instituto como um (novo e pequeno) cenáculo de apóstolos. O fundador usa essa descrição cinco vezes nas suas cartas em relação ao Colégio Urbano (E 2027), ao Colégio/Instituto das Missões da Nigrícia (E 2622, 2648, E 4088) e ao Seminário Mastai de Roma (E 4763).

A nossa carta de identidade mais importante encontramo-la no Capítulo I das Regras do Instituto das Missões para a Nigrícia de 1871 sobre a sua natureza e objectivo: «Este Instituto torna-se, pois, como um pequeno cenáculo de apóstolos para a África, um ponto luminoso que envia até ao centro da Nigrícia tantos raios quantos os solícitos e virtuosos missionários que saem do seu seio. E estes raios, que juntos resplandecem e aquecem, revelam necessariamente a natureza do centro de onde procedem» (E 2648).

Comboni começa por nos definir como pequenos, homens atenciosos de virtude: a idade e o tamanho não nos devem complexar ou preocupar, mas sim a atenção e a retidão. O importante é estarmos em estado permanente de missão como cenáculo de apóstolos que aquecem o mundo com o amor de Deus através dos seus corações. Podemos descrever o Instituto como uma aliança ou rede cordial para acalentar o mundo, sobretudo os mais pobres e abandonados.

Os Documentos Capitulares 2015 citam a definição duas vezes. No nº 3 lemos: «São Daniel Comboni, nosso pai na missão, chama-nos a ser um «pequeno cenáculo de apóstolos» (E 2648), sempre prontos a actualizar o nosso carisma perante os novos desafios missionários (RV 1,3)».

O nº 33 define as coordenadas da expressão, o GPS da vida comum: «Sentimos necessidade de recuperar o sentido de pertença, a alegria e a beleza de ser verdadeiro “cenáculo de apóstolos”, comunidade de relações profundamente humanas. Somos chamados a valorizar, primeiro entre nós, a interculturalidade, a hospitalidade e “a convivialidade das diferenças”, convencidos de que o mundo tem imensa necessidade deste testemunho.»

Pertença, alegria, beleza, relações humanas profundas, interculturalidade – se o Conselho Geral cumprir a obrigação capitular de internacionalizar a província, hospitalidade, diferenças aceitadas e integradas são as peças com que construímos o puzzle do testemunho missionário, da comunidade evangelizadora.

2017 também é ano mariano: celebra 300 anos da Aparecida, no Brasil, e o centenário do acontecimento de Fátima. Também é uma festa comboniana. O P. João Cotta visitou Fátima duas semanas depois de ter chegado a Portugal para «confiar a Maria a congregação, as missões e esta nova obra» como escreveu. E sonhava estabelecer uma presença comboniana na Cova da Iria, mas foi «levado» a assentar arraiais noutras paragens. O resto é Uma história singular!

Uma santa Páscoa na alegria e na paz do Ressuscitado.

Com carinho!

8 de abril de 2017

PÁSCOA 2017


A morte e a vida confrontam-se num duelo prodigioso.
O Senhor da Vida estava morto, mas agora, vivo, triunfa
(Liturgia pascal)

Roma, 16 de abril de 2017
Queridos irmãos,

A celebração da ressurreição do Senhor Jesus vos dê paz e alegria para anunciar o seu Evangelho até aos confins remotos da terra.

Há 150 ano que o nosso Instituto dos Missionários Coimbonianos do Coração de Jesus anuncia a vitória da Vida sobre a morte. Esta vida, que foi vendida por um preço barato, atraiçoada, condenada, cravada na cruz e fechada na escuridão de um sepulcro, encontrou a força para ressurgir e dar-se a cada pessoa humana que se deixa invadir pelo amor incondicional de Deus.

Como outrora, também hoje a vida continua a ser atraiçoada e vendida. Vivemos num mundo onde os radicalismos parecem triunfar, onde não há lugar para os empobrecido e crucificados da história, onde se levantam muros e derrubam pontes. Um mundo onde a economia do egoísmo e da morte cria desperdícios de humanidade, na busca de um bem-estar egoísta no qual nos tornamos incapazes de nos abrirmos ao dom que se faz bênção e é partido para ser partilhado.

Nesta Páscoa de 2017, pensamos em vocês, irmãos nossos, que sabemos que a ides viver aí com os povos aos quais fostes enviados anunciando que outro mundo é possível, um mundo onde vence a vida, um mundo onde todos tenhamos a vida em abundância. Pensamos, sobretudo, nos nossos irmãos que vivem em zonas de guerra, fome, calamidades naturais, em zonas onde nem sempre é fácil descobrir a vida que ressurge. A todos vós queremos recordar as palavras do último Capítulo Geral: «A nossa presença é significativa quando estamos próximos dos grupos humanos marginalizados ou em situações de fronteira» (DC ’15, nº 45.2).

Que esta festa da Páscoa nos encontre prontos para anunciar a vitória da Vida sobre a morte, nos encontre disponíveis para sermos solidários com os que são descartados ou rejeitados, nos encontre prontos a deixar-nos invadir pela Vida de Deus para partilhá-la com os esquecidos da história.

Feliz Páscoa da Ressurreição!
O Conselho Geral

5 de abril de 2017

PRÉMIO SEM VENCEDOR


O Prémio Ibrahim ficou mais um ano em branco.


Mohammed Ibrahim nasceu no Sudão há 70 anos e fez um pé-de-meia considerável no sector das redes móveis de telecomunicações. A revista Forbes coloca-o no lugar número 1577 da lista de 2016 das pessoas bilionárias, com uma fortuna avaliada em 1,14 mil milhões de dólares. É o 46.º mais rico do Reino Unido, onde vive por ser cidadão de sua majestade. Ocupa a posição número 71 da lista dos mais poderosos de 2013.

Em 2006, Ibrahim criou a própria fundação, a Mo Ibrahim Foundation, para apoiar e galardoar a boa governação e a liderança excepcional na África com o Prémio Ibrahim. O galardão distingue líderes africanos que desenvolvem o país, fortificam a democracia e os direitos humanos e promovem a prosperidade equitativa e sustentável.

O prémio é generoso: a personalidade laureada recebe cinco milhões de dólares num período de dez anos (500 mil dólares por ano); depois fica com uma reforma vitalícia de 200 mil dólares por ano.

Um comité de 16 membros tem a missão de passar em revista os mandatos e premiar ex-chefes de Estado ou de governo africanos democraticamente eleitos que exerceram uma liderança excepcional no cumprimento do mandato constitucional e que deixaram o poder nos três anos anteriores à atribuição do prémio.

Com critérios tão apertados, é aceitável que numa década o Prémio Ibrahim só tenha tido quatro vencedores e um laureado honorário. A lista inclui dois ex-presidentes dos países africanos de expressão portuguesa.

Nelson Mandela, «um líder excepcional reconhecido mundialmente», recebeu o prémio honorário em 2007, porque já tinha deixado a presidência sul-africana havia oito anos quando o prémio foi instituído.

Joaquim Chissano embolsou o primeiro Prémio Ibrahim em 2007 «por conduzir Moçambique do conflito à paz e democracia». O seu sucesso? «Trazer paz, reconciliação, democracia estável e progresso económico a Moçambique depois da guerra civil», lê-se na citação.

Festus Mogae foi laureado em 2008 «por manter e consolidar a estabilidade e prosperidade do Botsuana face à pandemia da sida que ameaçava o futuro do seu país e do seu povo».

O comité acrescenta na sua citação que «sob a liderança do presidente Mogae, o Botsuana demonstrou como um país com recursos naturais pode promover desenvolvimento sustentado com boa governação, num continente onde frequentemente a riqueza mineral se tornou maldição».

Depois de dois anos em branco, em 2011 o Prémio Ibrahim foi para Pedro Pires «por transformar Cabo Verde num modelo de democracia, estabilidade e prosperidade crescente» e pelo seu serviço à diáspora cabo-verdiana.

Em 2014, Hifikepunye Pohamba ganhou o prémio «pelo papel no forjar da coesão nacional e reconciliação num momento-chave da consolidação da democracia na Namíbia».

Salim Ahmed Salim, que encabeça o comité do prémio, anunciou que «depois de cuidada deliberação o comité decidiu não atribuir o prémio em 2016».

Para o comité, entre 2015 e 2016 não houve nenhum líder excepcional («que por definição é incomum» – sublinhou Salim) a terminar o mandato de governo na África.

Talvez em 2017 haja melhores notícias!

30 de março de 2017

NEM TUDO É MAU


Saúdo-te da forma que costumas fazer quando me escreves: el salam aleicum. Keif el hal, ya abuna?

Encontro-me de novo em Cartum. Da última vez que aqui estive, em Dezembro passado, disse ao Provincial que não punha mais os pés aqui em Cartum. É que, mais uma das tantas vezes, fiquei um mês à espera da guia de marcha. E muitas graças a Deus que cheguei mesmo a tempo para a missa de Natal a Nyala. Mas esta é uma situação que se torna cada vez mais repetitiva.

A este respeito, que diria ou faria Comboni? E mais ainda, que faria ele face à tão precária situação das renovações dos vistos de residência no país em geral, não nos permitindo planear a vida da missão que fica atropelada/impedida descaradamente pela Security? E tudo isso sem apelo de defesa possível ou tábua de salvação a que nos possamos agarrar. Talvez fazer um sit-in ou outro tipo de protesto contra este tipo de injustiça? Porque não? Claro que este tipo de reacção da nossa parte teria consequências muito negativas para toda a igreja no Sudão e, muito certamente, traria a expulsão dos missionários estrangeiros…

Aquela minha vinda a Cartum em Dezembro passado tinha sido para uma visita urgente ao oftalmologista. E nestes dias, encontro-me de novo aqui em Cartum, não só por marcação de nova consulta de oftalmologia mas também para participar na Assembleia Provincial, além de outros afazeres de tipo procuradoria das missões.

Seria tudo tão fácil e bonito se pudesse estar de retorno a Nyala para a Semana Santa/Páscoa! Deus nos ouça!

Mas, por outra parte, nem tudo é mal. Pelo menos aqui em Cartum tenho um pouco de internet, melhor do que no Darfur, e posso então dar conta da tão longa lista de correio electrónico.

A falta de pessoal nesta província comboniana torna-se cada vez mais penoso e grave. E mais ainda depois da expulsão (sem alegação ou explicação alguma) do nosso confrade ugandês Dominique. O Paulo Aragão… foi-lhe prescrito um período de descanso obrigatório em Viseu. E ainda bem que assim foi. E, mais ainda, alegra-me(nos) saber que a sua cura está em bom progresso. El Hamdu lilah, graças a Deus!

O P. Asfaha, que está agora a caminho de Roma, passou-me o teu recado a respeito do meu meio de comunicação. 

Desculpa, mas, por agora, continuo só com o correio electrónico e o telemóvel. Não sou vocacionado para outros meios. Estou inscrito (por acaso e/ou por engano) no Facebook mas não o uso. Imagino que alguns confrades me deram os parabéns de aniversário no Facebook. Que me desculpem, pois eu não o abro. Aqui deixo o meu agradecimento a ti e outros que vi que me saudaram por correio electrónico no dia do meu aniversário e que pude ver aqui nestes dias em Cartum.

A não ser por razões graves de saúde, este ano não irei de férias porque o colega que chegou é novo em tudo. É que, para além da pastoral directa, o trabalho das (quatro) escolas é muito imperativo e exigente. Somos só dois na comunidade e sempre que um se ausenta – a Cartum ou El Obeid e só por razões inadiáveis – acontece facilmente que fica dependurado por semanas seguidas sem poder reentrar em Nyala.

Amigo Zé Vieira, desculpa, já vou na segunda página. Pois é, para quem não sabe sintetizar as medidas não têm medida.

E a Páscoa está à porta. Com ou sem amêndoas, a Ressurreição é sempre a meta. Tenhas com os confrades em Portugal um bom e frutuoso fim de Quaresma. A culminar com o grande Aleluia da Ressurreição.

Abraço.
Feliz Martins – missionário comboniano no Darfur, Sudão

28 de março de 2017

Sudão do Sul: UMA NOVA EXPERIÊNCIA




Ser refugiados é uma nova experiência que estamos a viver como comunidade. Saímos da missão de Lomin, in Kajo Keji,  a 6 de fevereiro para tratar dos documentos necessários para podermos fazer o nosso apostolado com as pessoas da nossa paróquia nos campos de refugiados onde se encontram no norte do Uganda.

Assim pensámos, mas a situação complicou-se tão depressa que em poucos dias a nossa zona se converteu num campo de batalha e já não pudemos regressar à nossa comunidade.

Foi doloroso não poder regressar à nossa missão e fazer parte dos refugiados, mas esta é a nossa situação e a de milhares de pessoas.

Neste mês e meio em que deixámos a comunidade de Lomin, temos rodado por algumas comunidades combonianas e casas de alojamento porque ainda não temos um lugar própria para estabelecer a comunidade.

Quando recebermos os documentos para viver no norte do Uganda vamos arrendar uma casa num lugar perto dos campos.

Os irmãos da nossa comunidade no princípio do mês arriscaram ir com alguns trabalhadores à nossa missão e o que encontraram foi destruição e solidão.

A nossa casa foi saqueada, as portas dos nossos quartos arrombadas. Os vândalos deixaram pelo chão livros e outras coisas sem valor, tudo atirado e espalhado nos quartos, corredores e quintal.

Na capela da casa, o cálice da missa estava por terra com alguns adornos.

Durante este tempo de espera pelos documentos não estivemos de braços cruzados. Visitámos alguns campos de refugiados para planearmos as nossas actividades no futuro e celebrámos a Eucaristia e os sacramentos.

Já temos um programa intenso para a Semana Santa. Como será? Não sabemos, mas nas celebrações que fizemos havia muitos fiéis.

Darei outras novidades depois da Páscoa.

Por isso, desde já UMA PÁSCOA FELIZ DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR JESUS NOS VOSSOS CORAÇÕES E FAMÍLIAS.

NÃO VOS PREOCUPEIS SE NÃO VOS ESCREVO. POR CÁ NÃO É FÁCIL LIGAR-SE À INTERNET EM TODOS OS LUGARES E A TODAS AS HORAS, ESPECIALMENTE NO NORTE. QUANDO POSSO LER AS VOSSAS MENSAGENS ALEGRO-ME E SINTO-ME MUITO UNIDO A VOCÊS.

Para terminar, não se esqueçam que são parte da minha missão. Por isso não se esqueçam de ter-nos nas vossas orações e na vossa ajuda à nossa gente.
Abuna Jesús, missionário comboniano 

18 de março de 2017

MEU PAÍS AMARELO



O meu país é uma palete de cores, mas o meu país é amarelo.

Cruzando Portugal de norte a sul, do leste ao oeste através da primavera, verão, outono e inverno, o amarelo é a cor que mais diz «Presente!».

O amarelo dos narcisos, das mimosas e das austrálias e da erva canária que prenunciam a primavera; o amarelo dos tremoços bravos que enche de cor e perfume a grande planície alentejana; o amarelo dos grelos, do tojo e da carqueja, das maias; o amarelo dos girassóis que torcem o pescoço para seguir o astro-rei; o amarelo dos malmequeres e de outras tantas flores silvestres que vão marcando o passar das estações…

Portugal tem muitas cores mas quem manda é o amarelo que pinta os rios bordejados pelas mimosas – uma natureza que viva que encanta e deleita o olhar.

Amarelo do desespero? Amarelo dos peidos – como popularmente se diz em Cinfães?

O amarelo da luminosidade, do sol, do calor e da felicidade.

Para os japoneses é o amarelo da coragem; para os mexicanos é a cor da morte; para os judeus a cor da discriminação.

O amarelo é ambíguo? É como o meu país! É a cor do meu país! 

6 de março de 2017

DE DENTRO


Sou mais livre então na solidão do meu degredo.

A comunidade internacional acompanhou com inquietação o processo de 17 jovens activistas angolanos presos em Junho de 2015 enquanto liam e comentavam um livro sobre a mudança não-violenta do regime. Foram condenados em Março de 2016 a penas de prisão por rebelião e associação de malfeitores e libertados a 29 de Junho por ordem do Tribunal Supremo para aguardarem o desfecho do processo em liberdade.

O «raptivista» Luaty Beirão (n. 1981) foi a figura mais mediática do grupo, porque foi quem levou mais longe a greve de fome colectiva em protesto pela prisão preventiva prolongada: 36 dias.

Os acontecimentos foram seguidos de fora, através da comunicação social. Agora, há um relato a partir de dentro. Luaty publicou Sou Eu mais Livre, então – Diário de um preso político angolano, com as notas que escreveu para preencher a solidão do isolamento na prisão de Calomboloca, a uns 70 quilómetros de Luanda.

A obra reproduz dois dos três cadernos de apontamentos clandestinos que Luaty escreveu. O primeiro – um diário – cobre o período de 3 a 16 de Julho de 2015, as primeiras duas semanas de prisão e foi passado para o exterior. As autoridades prisionais confiscaram o segundo. O terceiro, breve, contém uma reflexão longa sobre o perdão, algumas notas e uma entrada de 24 de Agosto.

Os textos são um registo da banda sonora da vida em Calomboloca seguida da cela 21. Luaty estava em isolamento, sem luz natural. O que ele escreve é o que sente e vive. E o que ouve. Tinha um tempo de banhos de sol e recebia visitas em alguns dias. Restava a solidão.

O activista utilizou a leitura e escrita como espaço de liberdade em confinamento solitário. «Sou mais livre então na solidão do meu degredo do que tu que vives preso à escuridão do medo» – escreve numa rima.

Luaty escreveu muito, intensamente, sobre quase tudo: o dia-a-dia da prisão, os sonhos, as saudades, as lutas com as autoridades prisionais, listas de lembretes e livros, listas de víveres, esboços de letras, esquissos das paredes da cela e da prisão, a compaixão e respeito dos guardas e as arbitrariedades e caprichos da direcção, notas sobre leituras… «Posso ler e escrever... Sem dúvida dois dos maiores prazeres que um preso pode ter», escreve no primeiro parágrafo do diário.

O terceiro caderno tem um texto intitulado «Tratado sobre o perdão». Luaty passa em revista os anos de guerra, a corrupção endémica e institucionalizada, a «complexa teia de interesses» à volta da cúpula do poder.

«Parece-nos sensato que, ao invés de vingança e perseguições, se promova e cultive doravante a ideia do perdão e da amnistia como forma de pacificar os corações e se poder começar da estaca zero» – propõe.

Angola é «um barco enferrujado», mas a mudança necessária passa pelo perdão: «Perdoar é uma demonstração de coragem» porque «a violência é sempre uma estupidez» – diz.

Com uma condição: os infractores têm de se retractar. «É preciso saber o que se perdoa e isso pressupõe confissão», um acto «nobre e patriótico».

E conclui: «E para se atingir a verdadeira paz é preciso, necessário, essencial, purgar os rancores que carregamos nos nossos corações.»

Um roteiro possível para uma Angola democrática e de direito.

2 de março de 2017

DIOCESES PORTUGUESAS SOLIDÁRIAS COM O SUDÃO DO SUL


Quatro dioceses portuguesas expressaram solidariedade com os povos do Sudão do Sul ao decidir partilhar com eles o produto da renúncia quaresmal.

Os bispos de Aveiro, Santarém, Funchal e Portalegre-Castelo Branco anunciaram nas suas mensagens da quaresma que o produto da renúncia quaresmal todo ou em parte vai ser destinado à população do Sudão do Sul.

Os católicos são convidados a preparar a Páscoa através de sacrifícios pessoais em favor de terceiros.

«Para pôr em prática a misericórdia para com os mais vulneráveis vamos destinar a renúncia quaresmal à população do Sudão do Sul a viver uma situação aflitiva onde falta tudo: casas (tendas), comida, água, medicamentos e outras necessidades urgentes», escreveu D. Manuel Pelino, bispo de Santarém.

«Temos um canal seguro para chegar à realidade concreta: o Superior Provincial dos missionários combonianos que orienta a missão nesse país», acrescentou.

Dom António, Bispo de Aveiro, destinou metade da renúncia quaresmal para as crianças sul-sudanesas através do superior provincial dos combonianos no país mais jovem do mundo.

Dom António Carrilho, bispo do Funchal, e Dom Antonino Dias, prelado de Portalegre-Castelo Branco, também dividem o produto da solidariedade dos fiéis com a população do Sudão do Sul.

Os bispos responderam ao apelo que o Papa Francisco lançou a 22 de fevereiro em favor do «martirizado» Sudão do Sul.

«Neste momento, é mais necessário do que nunca o empenho de todos a não ficar somente nas declarações, mas a tornar concretas as ajudas alimentares e a permitir que possam chegar às populações sofredoras. Que o Senhor ampare esses nossos irmãos e os que atuam para ajudá-los», apelou o Papa argentino.

Mas há outros povos em necessidade que vão beneficiar da solidariedade quaresmal dos católicos portugueses: Angola e Iraque (Porto), crianças de São Salvador da Bahia-Brasil (Viana do Castelo), Síria (Beja e Guarda), Moçambique e Bolívia (Lamego), Timor-Leste (Forças Armadas e Segurança), Iraque (Guarda) e refugiados na Turquia (Viseu).

Outros destinatários da partilha da Quaresma são crianças em pobreza extrema (Angra), crianças e jovens desprotegidos (Coimbra), centro de apoio à vida (Vila Real), refugiados (Setúbal e Leiria), grávida em risco (Leiria) e militares e polícias em situações graves (Forças Armadas e Segurança).

Lisboa e Évora vão usar o dinheiro nos respectivos seminários.

O Papa Francisco escreve na mensagem para a Quaresma que a partilha da renúncia quaresmal promove a unidade da família humana, abrindo as portas ao frágil e ao pobre.

«Encorajo todos os fiéis a expressar esta renovação espiritual, inclusive participando nas Campanhas de Quaresma que muitos organismos eclesiais, em várias partes do mundo, promovem para fazer crescer a cultura do encontro na única família humana», sublinha o Papa.

É bonito ver a Igreja Portuguesa cada vez mais atenta e solidária com quem mais sofre aquém e além-fronteiras.

24 de fevereiro de 2017

CARTA AOS SUL-SUDANESES


«DOU-VOS A MINHA PAZ» (João 14, 27)

Queridas irmãs e irmãos no Sudão do Sul,

Saudamos-vos no nome de Jesus.

São Daniel Comboni tinha um grande amor por vós, «o primeiro amor» da sua juventude.

Nós, os líderes dos Missionários Combonianos no mundo inteiro, temos o mesmo amor a bater nos nossos corações. Sofremos convosco nestes tempos indizíveis de miséria e morte, e seguimos a vossa situação com grande preocupação.

O sonho venturoso do Dia da Independência foi estilhaçado pela guerra que rebentou em Juba e, como um fogo na floresta, alastrou-se lentamente a todo o país.

O sangue de milhares de civis e militares mortos grita pela paz; os feridos e as mulheres violadas precisam de tratamento, conforto e justiça.

Rezamos sinceramente para que a paz regresse ao Sudão do Sul!

Rezamos pelos vossos líderes políticos: que eles vão além dos interesses pessoais ou de grupo, e entrem num diálogo nacional profundo de perdão, reconciliação e reparação!

Rezamos pelos vossos líderes religiosos: que eles vos guiem pelos caminhos do perdão às pastagens de paz!

Suplicamos que os cristãos tornem para Jesus; «Ele é a nossa paz, Ele que, dos dois povos, fez um só e destruiu o muro de separação, a inimizade: na sua carne» (Efésios 2, 14).

O Papa Francisco fez um forte apelo em nome do Sudão do Sul a 22 de fevereiro de 2017. Ele está preocupado «com as dolorosas notícias que chegam do martirizado Sudão do Sul» onde «um conflito fratricida» e uma severa crise alimentar «condenam à morte de fome milhões de pessoas, entre elas muitas crianças.»

«Neste momento, é mais do que nunca necessário o empenho de todos a não se limitar apenas em declarações, mas a tornar concretas as ajudas alimentares e a permitir que elas possam chegar às populações que sofrem. Que o Senhor sustente estes nossos irmãos e aqueles que trabalham para ajudá-los» – disse o Papa.

Seguindo a iniciativa do Papa, rogamos à comunidade internacional que vos continue a assistir com comida e medidas práticas de segurança para alivar o vosso grande sofrimento.

Pedimos as bênçãos de Deus para cada um de vós através da intercessão de Santa Josefina Bakhita e de São Daniel Comboni.

Os superiores provinciais e de delegação e os membros da administração geral
dos Missionários Combonianos reunidos em Roma.

24 de fevereiro de 2017