23 de junho de 2017

«DEUS AMOU TANTO»


«Deus amou tanto o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna. De facto, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele.» (Jo 3, 16)

Caríssimos confrades,

Saudações e orações.

Boa Festa do Sagrado Coração de Jesus.

Deus nosso Pai mandou o seu único Filho, como sinal do seu amor pela humanidade necessitada e sofredora e consolou-nos a todos nós através do envio do Espírito Santo, dom do seu filho Jesus Cristo, nosso Senhor Crucificado e Ressuscitado. Nós acreditamos que cada discípulo e discípula, sejam chamados e enviados a anunciar, testemunhar e servir este amor de Deus. Nós todos agradecemos ao Senhor porque fez de São Daniel Comboni e de nós, os seus filhos, Missionários Combonianos, mensageiros, testemunhas e servos do seu amor.

Tudo o que o nosso pai Fundador, São Daniel Comboni, compreendeu do grande amor de Deus, levava-o ao Sagrado Coração de Jesus, símbolo do amor de Deus pela humanidade.

«Necessitando extremamente da ajuda do Sagrado Coração de Jesus, soberano da África Central, o qual é a alegria, a esperança, a fortuna e tudo para os seus pobres missionários, dirijo-me a si, amigo… para encomendar e confiar ao S. Coração os interesses mais preciosos da minha laboriosa e difícil missão, à qual consagrei toda a minha alma, o meu corpo, o meu sangue e a minha vida!» (E 5255-5256).

Caríssimos confrades, neste ano em que celebramos os 150 anos do nosso Instituto Missionário, queremos continuar a contemplar e agradecer a Deus, pelo amor vivido na sua vida por São Daniel Comboni e por tantos nossos confrades e pela grande generosidade para com o povo de Deus não obstante as nossas fragilidades, os nossos limites e os nossos pecados.

«Quero partilhar a vossa sorte e o dia mais feliz da minha existência será aquele em que eu possa dar a vida por vós» (E 3159). Sim, Comboni e os nossos confrades deixaram alargar o seu coração para que se assemelhasse um pouco mais ao de Jesus, para fazer causa comum e participar com generosidade na missão de Deus, entre os povos, onde estamos, e sobretudo entre os que sofrem, são marginalizados e empobrecidos.

«Encontro-me sempre com os meus queridos leprosos, falo-lhes da bondade do Senhor, e ensino a palavra de Deus. Tenho a igreja contígua à minha casita, Jesus próximo de Giosuè: quem, mais feliz do que eu? Não é este um pequeno céu? Quanto ao mal que me visitou, oh, eu beijo a mão do Senhor que me presenteou com a lepra; poder sofrer assim; para estas almas, não é uma graça? Eu não tenho senão um desejo: morrer leproso entre os meus leprosos!» (Ir. Giosuè Dei Cas, 1880-1932)

Sim, continuamos a agradecer ao Senhor por cada um dos nossos confrades que fazem causa comum e anunciam Jesus Cristo e o seu Evangelho para construir o Reino de Deus, recordando-nos que alguns pagaram o seu testemunho com a própria vida. «A Cruz é a solidariedade de Deus, que assume o caminho e o sofrimento humano, não para o eternizar mas para o suprimir. A maneira com que quer suprimi-lo não é através da força nem com o domínio, mas pela vida do amor. Cristo pregou e viveu esta nova dimensão. O medo da morte não o fez desistir do seu projecto de amor. O amor é mais forte do que a morte» (P. Ezechiele Ramin, Homilia aos Fiéis, Sexta-feira Santa, Cacoal, 05.04.1985)

Portanto, vivamos esta festa tão cara a todos nós com o olhar fixo no Coração de Jesus, deixando-nos enriquecer com o testemunho daqueles que nos precederam ao longo da história do nosso Instituto e empenhando-nos sempre mais na fidelidade quotidiana aos valores do Evangelho.

Boa Festa do Sagrado Coração!

No ano do 150º aniversário da fundação do nosso Instituto
O Conselho Geral

22 de junho de 2017

«SOLIDÁRIOS COM AS VÍTIMAS DOS INCÊNDIOS»


Bispos de Portugal apelam à solidariedade para com as vítimas dos incêndios que queimaram e mataram no centro do país.


Mensagem da Conferência Episcopal Portuguesa

Reunidos em Fátima, nas Jornadas Pastorais e em Assembleia Plenária extraordinária, nós, os Bispos portugueses, acompanhamos com dor, preocupação solidária e oração a dramática situação dos incêndios que provocaram numerosas vítimas e que estão a causar enorme devastação no país.

Partilhamos, antes de mais, a dor dos que choram os seus familiares e amigos que perderam a vida, pedindo a Deus que os acolha junto de Si. Manifestamos igualmente o nosso reconhecimento e apoio aos bombeiros, às organizações de socorro e aos numerosos voluntários, nacionais e estrangeiros, que envidam todos os esforços para salvar vidas, minorar danos e evitar a perda de pessoas e de bens, mesmo à custa de canseiras e riscos pessoais.

Na sequência do que afirmámos na Nota Pastoral de 27 de abril de 2017 «Cuidar da casa comum – prevenir e evitar os incêndios», estamos conscientes da necessidade de medidas mais preventivas, concretas e concertadas sobre esta calamidade que todos os anos atinge o nosso país. Neste momento, porém, em cada uma das nossas Igrejas diocesanas, sentimo-nos próximos e comprometidos com a situação dramática dos que sofrem. A partir das nossas comunidades cristãs, das Cáritas Diocesanas e da Cáritas Portuguesa, e de outras instituições eclesiais, participamos no esforço de acudir às vítimas, providenciar meios de primeira necessidade e colaborar no ressurgir da esperança, da solidariedade e do alento para reconstruir a vida e o futuro.

Pedimos a todas as comunidades cristãs e a quem deseje associar-se que, além de outras iniciativas solidárias, dediquem a oração, o sufrágio e o ofertório do primeiro domingo de julho a esta finalidade e que enviem o produto desta recolha fraterna para a Cáritas Portuguesa [Conta Cáritas na CGD: 0001 200000 730 - IBAN: PT50 0035 0001 00200000 730 54], a fim de ser encaminhado com brevidade para aqueles que necessitam.

Fátima, 21 de junho de 2017

20 de junho de 2017

Darfur: OPERÁRIO SALVA MISSIONÁRIOS DE SEQUESTRO


P. Feliz com Sr. Tong

Desde que cheguei a Nyala, Darfur, ja vai para 11 anos, há uma palavra que nós missionários ouvimos frequentemente de tanta gente que nos quer bem. Refiro-me especificamente ao alerta e bom conselho a respeito de sequestros e raptos de veículos e de pessoas, especialmente de estrangeiros. Esta é, de facto, uma triste realidade que não parou de existir desde o inicio da guerra/conflito armado do Darfur, em 2003.

De entre os sequestrados ao longo destes últimos anos contam-se também alguns conhecidos e amigos pessoais, incluindo o pároco da comunidade copta-ortodoxa de Nyala que foi raptado a 14 abril de 2016 e ficou em cativeiro durante 42 dias.

Infelizmente, esta maléfica e diabólica atividade continua atual nestas paragens. Na sexta-feira passada, 9 de junho, de manhãzinha, a horas em que as ruas estão praticamente desertas por ser o mês de Ramadão, o sinistro veio bater à porta da missão católica. Mas, graças ao Deus Altíssimo, não levou a melhor.

Eram três homens: um de arma kalashnikov em punho; outro de rosto completamente velado com o turbante; o terceiro sem qualquer distintivo.

Damos graças a Deus que nenhum de nós os dois missionários se encontrava por perto quando s bateram à porta da missão.

Tong, operário da missão que veio do Sudão do Sul, tinha chegado um pouco antes. Foi ele próprio que lidou com o caso e que imediatamente nos veio contar enquanto tomávamos o café da manhã.

Depois do apressado e abreviado «Assalam aleicum», ouvimos da sua boca a narração do que aconteceu.

Os assaltantes perguntaram: «Onde estão os abunas (padres)? Chama-os aqui à porta», ameaçaram.

Porém, Tong foi muito corajoso pela maneira como soube repelir os assaltantes: «Podes apertar o gatilho e disparar, se assim o quiseres; fica certo, porém, que não vou buscar os padres.»

Foi arrojada a resposta de Tong àquele que lhe apontava a arma ao peito. O breve relato do corrupto acidente deixou-nos sem palavras e sem reacção imediata.

Mais tarde, conversando com operário, pressenti que tinha algo a acrescentar à história do rapto falhado daquela manhã.

O portão estava aberto. Tong fez questão de me mostrar, mesmo aí ao lado, o local exacto onde esteve parada a carrinha Toyota, à espera de, em caso de êxito final e missão cumprida, arrancar com os dois padres cativos.

A seguir, num misto de orgulho e humildade, confessou: «Se me ponho a pensar donde me veio tal coragem para responder aos atacantes, não saberia explicar». Ao que eu respondi: «Não é questão de pôr-se a pensar; o que temos é muito que agradecer.»

E é mesmo esta a mensagem que aqui deixo ao enviar estas notícias aos amigos. Nós, os padres Lorenzo Baccin e Feliz Martins da missão católica de Nyala não cessamos de agradecer a Deus que nos livrou das mãos dos raptores.

Ao mesmo tempo, a nossa oração é em favor de todos aqueles que são vítimas de sequestros e raptos, como consequência da desgovernação caótica desta região sudanesa do Darfur.
Feliz C. Martins
Nyala – Sudão

9 de junho de 2017

CARTA AOS CONFRADES DA REPÚBLICA CENTRO AFRICANA


Os participantes no Simpósio dos 150 anos do Instituto dos Missionários Combonianos em Roma escreveram uma carta de apoio e de encorajamento aos Combonianos, Combonianas e Leigos Combonianos que trabalham com o povo centrafricano martirizado. 

«Este Instituto torna-se como que um pequeno cenáculo de Apóstolos para a África, um ponto luminoso que envia em direção do centro da Nigrícia tanto raios quanto os seus Missionários zelosos e virtuoso que saem do seu seio;  estes raios que brilham e, simultaneamente, aquecem, manifestam necessariamente a natureza do Centro de que provêm»
(São Daniel Comboni)


Muito estimado P.e Médard e confrades da República Centro Africana,

reunidos aqui em Roma como Família Missionária Comboniana para o Simpósio dos 150 anos do nosso Instituto, o nosso pensamento e o nosso coração querem unir-se a vós.

O Simpósio é um momento de profunda comunhão com todos os confrades e irmãs que em diferentes missões continuam esta obra que o nosso fundador iniciou há 150 anos.

De um modo todo particular, sobretudo após os acontecimentos de Bangassou, queremos exprimir-vos a nossa solidariedade e a nossa fraternidade e, sobretudo a nossa oração por todos vós: Combonianos, Combonianas, Seculares e Leigos Combonianos, que caminhais com o martirizado povo centro-africano. Dais-nos, uma vez mais, um testemunho de amor e de misericórdia para com todos; um testemunho de fé cristã nesse Deus que nos chama a responder ao mal com o bem.

Com a vossa vida dizeis-nos que ser Missionários Combonianos, apesar de por vezes ser difícil, vale a pena. Obrigado porque estais a semear a boa semente, seguindo os passos de Comboni, com a mesma certeza que «as obras de Deus nascem e crescem aos pés da Cruz».

Concluímos com as palavras pronunciadas pelo Papa Francisco por ocasião da abertura da Porta Santa em Bangui: «Todos pedimos a paz, a misericórdia e a reconciliação, o perdão, o amor, para Bangui, para toda a República Centro-Africana, para o mundo inteiro, para os povos vítimas da guerra, imploramos a paz!».

Que Maria, Rainha da Nigrícia, São Daniel Comboni e todos os confrades e irmãs que nos precederam, intercedam por todos nós.

Roma, 1 de Junho de 2017.

Os participantes ao Simpósio pelos 150 anos do Instituo dos Missionários Combonianos.

8 de junho de 2017

COM GRATIDÃO E ESPERANÇA


Mensagem conclusiva do simpósio aos confrades

Nós, missionários combonianos, provenientes das diversas circunscrições e acompanhados por membros da Família Comboniana, reunimo-nos em Roma para celebrar o aniversário dos 150 anos do nosso instituto. Para todos nós celebrar significa antes de mais fazer memória das nossas origens e da história que o Senhor está a traçar connosco e com os povos que encontramos no nosso caminho. Recordar não é um exercício de arqueologia, mas um processo vivo de agradecimento ao Senhor e entrega confiante do nosso futuro nas suas mãos. Recordar é partir de novo, renovados.


Herança: da gratidão à fidelidade

O nascimento do nosso instituto não aconteceu à mesa, mas foi fruto de um longo processo de vida e missão. Foi um parto doloroso e atormentado num momento de mudança epocal. Nascemos na pobreza, sem apoios eclesiásticos, políticos e económicos particulares. Este evento quase único na história do movimento missionário do século xix deu-nos uma grande liberdade de responder à nossa vocação especial. Embora o percurso de definição jurídica não tenha sido simples, é claro que Comboni desejava uma família de missionários que fossem:

  • ad vitam, ou seja não só dispostos a doar o seu tempo, mas a sua própria vida pela missão;
  • católicos, isto é não prisioneiros de lógicas nacionalistas;
  • apaixonados por Deus e pelos povos, fazendo causa comum com os pobres.

O papa Francisco diz-nos que «a alegria do missionário brilha sempre sobre o fundo de uma memória grata». A gratidão é reconhecer-se amados e, impelidos por este amor, sair para partilhar a experiência com os outros. A gratidão não é estática, mas é um movimento dentro de nós, fora de nós e à frente, é um caminho. Nesta ótica, a reunificação do instituto, a nova regra de vida e a canonização de São Daniel Comboni tornam-se momentos qualificantes da nossa história e ocasiões para partir de novo e continuar o seu percurso com criatividade.

Gratidão significa reconhecer na nossa história a fidelidade de Deus, espelhada na generosa fidelidade de tantos confrades de ontem e de hoje: fidelidade ao Evangelho, a Comboni, à missão árdua, à oração, à pobreza evangélica, ao povo de Deus e à internacionalidade.


Caminhos de regeneração

Hoje temos os instrumentos para estudar e conhecer melhor o fundador e a nossa história, e este simpósio deu o seu contributo a este fim. Estamos conscientes de que cada vez que nos aproximamos de Comboni e da sua graça carismática damos um salto qualitativo.

É necessária uma reconfiguração do nosso instituto. Encontramo-nos perante o desafio de uma missão que não se detém, que está ainda longe das suas metas. O envelhecimento dos membros do nosso instituto, acompanhado de uma quebra de vocações em muitas das nossas circunscrições, os novos paradigmas de missão e a alteração do nosso papel no seio das igrejas locais são alguns dos desafios que acrescentam inquietação ao nosso presente. Esta missão exige um testemunho que vai muito para além das obras e questiona o nosso estilo de vida, e pede-nos a entrega cabal de nós mesmos.

Sentimos que a reconfiguração do nosso instituto passa através de quatro caminhos: a mística, a humildade, a fraternidade e a ministerialidade.

1. Mística. Não é apenas questão de redescobrir o gosto da oração, mas desenvolver uma espiritualidade da presença de Deus na história dos povos e nos rostos das pessoas. A fé e a esperança dos pobres ensinam-nos esta mística, sem a qual corremos o risco de definhar e de perder o sentido do nosso caminho missionário.

2. Humildade. Conscientes dos nossos limites e fragilidades, sentimo-nos chamados a passar do protagonismo ao testemunho. Hoje não conta só «fazer missão», mas antes e sobretudo «ser missão». Não bastam as palavras e a obras, há muitas pessoas capazes de falar e de fazer, por vezes melhor do que nós. O desafio que se nos apresenta é mostrar com a nossa vida o tesouro que guardamos no coração.

3. Fraternidade. Tanto nas intervenções como nos trabalhos de grupo surgiu muitas vezes o desejo de nos amarmos mais uns aos outros. Precisamos de crescer na qualidade das nossas relações comunitárias. Este problema manifesta-se na insuficiência de discernimento e de projetos comunitários e na pouco partilha das nossas vivências. Alguns de nós não se sentem em casa nas nossas comunidades. Ser irmãos entre nós exige momentos de reconciliação, até mesmo sacramentais. Mais fraternidade ajudaria a integrar missão e consagração e a melhorar o nosso discernimento comunitário.

4. Ministerialidade. Os novos contextos sociais convidam-nos a rever com urgência a nossa ministerialidade. Hoje temos necessidade de ser mais bem qualificados nos diversos campos da evangelização, trabalhando em equipa com todos os sujeitos da família comboniana e da igreja local. A missão é ponto de referência de todo o percurso formativo. A ministerialidade não chega se não for fundada sobre a paixão de Cristo pela humanidade.

Deste aniversário partimos como irmãos, conscientes dos desafios e das dificuldades, mas carregados de esperança:

«O missionário não se deixa abater por nenhuma dificuldade. Todas as cruzes são meritórias porque se trabalha somente por Cristo e pela missão» (São Daniel Comboni).

«Que o Espírito faça sobreabundar em vós a esperança» (Papa Francisco).

7 de junho de 2017

MEMORAR


Nós somos povo pascal! Filhos da ressurreição, somos convocados a fazer memória da Páscoa do Senhor, das passagens da Trindade Santa nas nossas vidas, na nossa história transformando-as em vidas e história de salvação.

«Fazei isto em memória de mim», confiou Jesus aos discípulos da primeira Eucaristia, aos discípulos de todas as Eucaristias. Somos povo da memória.

Fazer memória é, primeiro, escancarar a mente e o coração ao Espírito Santo num Pentecostes quotidiano. Sem o Paráclito não há memória! Jesus disse aos discípulos: «O Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, esse é que vos ensinará tudo, e há de recordar-vos tudo» (João 14, 26).

O P.e David Glenday comenta assim esta passagem inspiradora: «Para os discípulos, para nós, recordar é em primeiro lugar não um esforço ou projeto de nós próprios, mas um dom, uma graça, um trabalho do Espírito.»

Memoramos as maravilhas que o Senhor operou pelos Missionários Combonianos, para os Missionários Combonianos, através dos Missionários Combonianos em sete décadas de presença em Viseu e em Portugal.

O Senhor abençoou-nos «porque o seu amor é eterno» (Salmo 136).

Abençoou-nos através do carinho acolhedor da diocese de Viseu, da cidade, da região, do país.

Abençoou-nos através de todas as pessoas que com o seu afeto e amizade tornaram possível esta história singular de 70 anos em Portugal.

Abençoou-nos através das missionárias e missionários que nos precederam nesta peregrinação com o Senhor da Missão. Vivemos porque elas e eles amaram: «Felizes os que morreram no amor; pois, nós também viveremos certamente», recorda a Escritura (Ben Sira 48,11).

Abençoou-nos inspirando há 150 anos o P.e Daniel Comboni a fundar o Instituto Missionário para a Nigrícia.

O fundador escreveu a um amigo: «Lembre-se de mim, que me é grato viver na sua memória» (Escritos 714).

É-nos grato aos combonianos de ontem e de hoje viver na memória acolhedora da Igreja e da sociedade civil de Viseu, de Portugal. E, confiantes na misericórdia do Senhor, pedir humildemente perdão pelos nossos pecados.

Memorar é viver na memória uns dos outros!

Que o Senhor nos abençoe a todos!

3 de junho de 2017

O DALAI LAMA E O ARCEBISPO: ALEGRIA


Dizem-se almas gémeas, irmãos espirituais, mas aparentemente não poderiam ser mais diferentes: Tenzin Gyatso é o 14º Dalai Lama, monge budista e líder do povo do Tibete no exílio. Desmond Tutu é sul-africano, cristão, arcebispo anglicano do Cabo, na África do Sul.

Dois prémios nobel da paz, dois seres humanos especiais que acreditam na bondade inerente de cada pessoa e na esperança e compaixão como elementos fundamentais para o nosso relacionamento, para a nossa felicidade.

Fazem da humanidade partilhada o ponto de partida para o seu diálogo intenso, feito de palavras, de gargalhadas e de gestos durante uma semana, sobre a alegria, a sua natureza verdadeira, obstáculos e pilares.

Os diálogos decorreram em Dharamsala, no exílio indiano do Dalai Lama.

A ocasião que os juntou foi a celebração dos 80 anos do líder espiritual dos tibetanos.

Trocaram ideias, carinhos, brincadeiras, grandes risadas, exploraram juntos as respetivas tradições religiosas.

O Dalai Lama é um monge budista e não bebe álcool. Mas essa tradição não o impediu de comungar do cálice durante a Eucaristia que o arcebispo celebrou para ele. E de dar dois passos de dança – outro interdito dos monges budistas – instigado pelo arcebispo na grande festa de aniversário.

Essa semana única foi registada em vídeo. Douglas Abrams conduziu os debates, fez as perguntas, trabalhou as gravações. E nasceu O livro da alegria – alcançar a felicidade num mundo em mudança.

Dois homens de duas geografias e teologias tão diversas pensam a uma só voz: o que nos separa é de facto muito pouco.

Algumas frases que guardei:

ALEGRIA/DOR: «Tristemente, muitas das coisas que corroem a nossa alegria e a nossa felicidade são criadas por nós próprios. Muitas vezes, resultam das tendências negativas da mente, da reatividade emocional, ou da nossa incapacidade para apreciarmos e utilizarmos os recursos que existem no nosso interior» (Dalai Lama).

CUIDADO/ALEGRIA: «Cuidar dos outros, ajudar os outros, é, em última análise, a forma de descobrir a nossa própria alegria e ter uma vida feliz» (Dalai Lama).

MEDO: ««Na verdade, o medo faz parte da natureza humana; é uma resposta natural que surge face ao perigo. Mas, com coragem, quando de facto surge o perigo, poderão ser mais destemidos, mais realistas. Por outro lado, se deixarem a vossa imaginação à solta, exacerbam a situação, o que gera mais medo» (Dalai Lama).

MEDO/INFERNO: «Muitas pessoas neste planeta preocupam-se por poderem ir para o Inferno, mas isso vale de nada. Não é preciso ter medo. Enquanto estivermos na terra preocupados com o Inferno, com a morte, com as coisas que podem correr mal, teremos imensa ansiedade e nunca encontraremos a alegria e a felicidade. Se tiverem verdadeiramente medo do Inferno, têm que viver a vossa vida com algum propósito, especialmente ajudando os outros» (Dalai Lama).

PERDÃO/LIBERTAÇÃO: «O perdão é a única forma de sararmos e de nos libertarmos do passado» (Desmond Tutu).

EU/SOFRIMENTO TU/FELICIDADE: «Um pensamento demasiado centrado no eu é uma fonte de sofrimento. Um cuidado compassivo pelo bem-estar dos outros é a fonte da felicidade» (Dalai Lama).

CUIDADO/ALEGRIA: «De facto, cuidarmos dos outros, ajudarmos os outros, é a forma derradeira de descobrirmos a nossa própria alegria e ter uma vida feliz» (Dalai Lama).

MAL/BEM: «Sim, somos capazes das mais horrorosas atrocidades. Podemos fazer uma lista. E Deus chora até que surgem aqueles que dizem querer tentar fazer alguma coisa. É bom lembrar também que temos uma fantástica capacidade para praticar o bem» (Desmond Tutu).

BONDADE: «Sabemos que os seres humanos são basicamente bons. Sabemos que é por aí que temos de começar. Que tudo o resto é uma aberração. Tudo o que se desvie daí é uma exceção – mesmo que de vez em quando possa ser muito frustrante. As pessoas são espantosamente, extraordinariamente boas, incríveis na sua generosidade» (Desmond Tutu)

FELICIDADE/AFETO/GENEROSIDADE: «A única coisa que produzirá felicidade é o afeto e a generosidade. Isso traz realmente força interior e autoconfiança, reduz o medo e desenvolve a confiança, e a confiança traz a amizade» (Dalai Lama).

SOLIDÃO/RAIVA/AMIZADE: «Se estiverem repletos de juízos negativos e raiva, então sentir-se-ão separados das outras pessoas. Sentir-se-ão solitários. Mas, se tiverem um coração aberto e estiverem plenos de confiança e amizade, mesmo que estejam fisicamente sós, mesmo levando uma vida de eremita, nunca se sentirão sozinhos» (Dalai Lama).

2 de junho de 2017

ARCO-ÍRIS DESBOTADO


A «nação arco-íris» perde cor.

A África do Sul fez uma transição notável do regime segregacionista da minoria branca para a democracia multirracial e multipartidária guiada pela figura maior que foi Nelson Mandela sob a bandeira da Nação Arco-Íris.

Com as eleições de 1994, ganhas pelo ANC de Mandela, nascia um tempo fértil de esperança para a maioria dos sul-africanos. A Constituição de 1996 parecia pôr termo ao tempo da segregação e da pobreza institucionalizadas para as populações negras.

A Comissão de Verdade e Reconciliação, conduzida pelo arcebispo Desmond Tutu, sentou frente a frente vítimas e agressores e cancelou o espectro da vingança e do banho de sangue nacional. O arcebispo anglicano cunhou o termo «Nação Arco-Íris» para celebrar a diversidade cultural do país.

Hoje, a esperança da madrugada da liberdade deu lugar à exasperação da canícula do meio-dia. A sociedade sul-africana é das mais violentas do globo. Racismo e xenofobia contra estrangeiros africanos e violência contra a mulher estão na ordem do dia. A liderança política enfraqueceu.

A África do Sul é o país mais rico do continente. Os seus recursos naturais importantes incluem ouro, diamantes, cobre, crómio, antimónio, platina, urânio, carvão, ferro, gás natural. Contudo, a riqueza é repartida por uma elite. Um quinto da população vive em pobreza extrema e um quarto está desempregado. Em termos de consumo, os 20 por cento mais pobres da população consomem três por cento do total dos gastos do país, enquanto os 20 por cento mais ricos consomem 65 por cento.

O P.e Jude Burgers, provincial dos Combonianos na África do Sul, escreveu num depoimento: «Sendo sul-africano, eu amo o meu país e o seu povo. Gostaria de ver o melhor do meu país em destaque, e que as muitas áreas que necessitam de tratamento sejam rapidamente cuidadas. Retraio-me quando as escaramuças no nosso Parlamento são transmitidas por todo o mundo. Baixo a cabeça, envergonhado, quando ataques xenófobos e relatórios de corrupção maciça e discriminação são notícia local e internacionalmente.»

A Nação Arco-Íris é produto de migrações milenares que foram compondo o mosaico étnico sul-africano. Ataques contra estrangeiros são comuns devido à crise económica que o país vive. O Governo recusa vistos de residência a estrangeiros africanos, incluindo missionários.

«Embora a África do Sul seja lar de milhões de refugiados, não tem campos de refugiados. Estes refugiados e migrantes vieram de todas as partes do continente africano e também da Ásia. Os refugiados, migrantes e exilados, inicialmente recebidos de braços abertos, experimentam agora hostilidades por parte de algumas populações locais. Lutando com os habitantes locais pelos mesmos recursos, empregos e habitação encontram-se, discriminados pelo simples facto de serem “estrangeiros”», explica o P.e Jude.

Há alguma saída para esta situação de crise profunda? O P.e Jude vê uma escapatória: «Acredito que por meio da educação a nossa sociedade crescerá para ser mais compreensiva e acolhedora.» Mesmo apesar da crise do sector. «Temos milhares de educadores comprometidos e boas instalações educacionais, mas ganhar acesso a uma educação boa é problemático», acrescenta.

Campanhas como #Feesmustfall (Propinas têm de baixar) apontam para a democratização do ensino ao pugnar por educação universitária gratuita para todos.