27 de fevereiro de 2021

TENTAÇÕES


O evangelista Marcos despacha o relato das tentações de Jesus em 30 palavras no texto grego. Mateus e Lucas fazem uma narração mais detalhada em uma dúzia de versículos.

Marcos, contudo, retém o essencial: o deserto é o local das tentações. Mas também é o lugar onde Deus fala ao coração do seu povo.

No deserto Jesus ouve duas vozes, dois projetos de vida antagónicos: do Espírito e de Satanás. A tentação maior voltou já na cruz: “Salva-te a ti mesmo”. 

Jesus foi tentado a usar os recursos com que o Pai o habilitou para a sua missão em proveito próprio. Esta é a maior tentação: sermos o centro da nossa própria vida.

Os 40 dias das tentações recordam os 40 dias do dilúvio antes de a arca de Noé poisar terra firme; os 40 dias de Moisés em retiro no Monte Sinai para receber a Lei da Aliança; os 40 anos do povo a caminhar pelo deserto antes de entrar na Terra Prometida; os 40 dias em que Jesus, depois da ressurreição, num curso intensivo aos discípulos antes de regressar definitivamente para o Pai. 

Na matemática da Bíblia, 40 significa tempo de preparação.

A narração de Marcos termina com uma nota: “Estava com os animais selvagens e os anjos serviam-no”.

Jesus, ao dizer não às propostas individualistas de Satanás e sim ao plano de Deus, transformou o deserto no paraíso, restaurando a harmonia dos inícios com os anjos e com a criação inteira, incluindo a vida selvagem. 

Quando vivia na Etiópia e me cruzava com uma serpente, perguntava-me: "Como posso ser boa-nova para este animal?". E deixava-a ir à sua vida.

A quaresma é o tempo santo para integrar todos os aspetos da vida: conviver tranquilamente com os animais selvagens que povoam o coração e aceitar o serviço dos anjos. Transformar as espadas em foices, a agressividade em ternura, o egoísmo em amor. Não pôr nada de lado. Fazer o deserto florir...

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