Rodopio e as cores rodopiam comigo nesta dança sem fim procuro-me e não me encontro perco-me e deslumbro-me nas cores... e danço no ocaso quando os reflexos a dourado e azul serpenteiam as águas calmas e serenas da minha inquietude...
— Eu não consigo… não consigo! – repetia sempre Reem, uma jovem beduína palestiniana de 16 anos, sempre que a convidávamos para aprender a usar a máquina de costura. Com esforço e timidez, já tinha dado um primeiro grande passo: aprender a arte do «tatreez», o bordado tradicional palestiniano que aprendeu com as mãos hábeis da sua mãe. Para ela, era um mundo novo: nunca antes tinha segurado uma agulha de bordar entre os dedos. Mas ainda havia outra barreira a ultrapassar: sentar-se diante de uma máquina de costura. E essa barreira parecia intransponível. Ontem chegou sorrindo. Nas mãos trazia as primeiras bolsas bordadas e costuradas por ela própria. Com uma mistura de orgulho e alegria, disse simplesmente: — Já consegui! Aquelas bolsas tinham nascido de muito mais do que o tecido e a linha. Tinham vindo da coragem de superar os seus próprios limites, da decisão de tentar, da ousadia de descobrir capacidades que ela própria não sabia que tinha dentro de si. Pode parece...
Fotos Judy McCallum Há uns trinta anos, as hienas costumavam atravessar à noite o terreno da missão de Qillenso. Hoje, com a vedação e a desflorestação, deixaram de aparecer. Mas continuo a não gostar delas. São malfeitas, cabeçudas, com os membros da frente mais compridos que os de trás, de cores sujas, donas de um uivo qual risada sinistra, vivendo da noite e de animais mortos. Porém, também são úteis. Em Harar, a cidade mais islâmica da Etiópia no Leste do país e a quarta cidade santa do Islão — que dizem albergar 99 mesquitas dentro das suas velhas muralhas em honra dos 99 nomes de Alá — a hiena-malhada, o tipo maior e mais comum da família das hienas, vive uma relação pacífica de meio milénio com os moradores que abriram pequenas passagens para de noite os animais poderem entrar e limpar as ruas dos lixos descartados durante o dia. Mais, as pessoas acreditam que as hienas também consomem os jinn , os espíritos malévolos na tradição islâmica, limpando o ar da cidade....
Quando nasceste puseram-te o nome Desta, Felicidade em amárico. Um nome que te assentava como uma luva fina. Conheci-te em novembro de 2021. Participavas na missa com os utentes da casa de acolhimento das Missionárias da Caridade, as freiras de Santa Teresa de Calcutá, em Adola, cada sábado ao cair da tarde, numa cadeira de rodas. E vestindo um enorme sorriso! A doença foi enfraquecendo o teu corpo e acamaste. Levava-te a comunhão no fim da missa. A ti e à tua vizinha de enfermaria. Recebias sempre o Senhor com o teu sorriso rasgado. E uma fé enorme, expressa no modo como como rezavas. Quando regressei de Portugal, em fevereiro passado, encontrei-te muito pior. Já não mexias os braços, estavas pele e osso. Cada vez mais magra, cada vez mais enfraquecida. Mas o teu sorriso era cada vez mais lindo. Radiante. A notícia do teu falecimento não me surpreendeu. Surpresa foi a grande luta que mantiveste com essa doença prolongada sem perderes o sorriso. Sem deixares de ser Desta. Ou Déssi...
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beijo para ti