Chama-se Vera. Veste no olhar vivo e alegre a frescura dos verdes anos. Apareceu em Qillenso, a aldeia onde vivo no sul da Etiópia, com uma espanhola, um espanhol e um etíope.
Iam a Dare Qidame, o local da (provável) nova missão dos combonianos entre os gujis, explorar a presença da água. Os locais já construíram uma grande igreja com a colaboração de vizinhos de outras igrejas e inclusive muçulmanos.
O espanhol, voluntário há muitos anos na Etiópia, também é vedor. O etíope é engenheiro. Marcaram três pontos para um furo artesiano.
Tinham pernoitado em Hawassa. Pararam em Qillenso para me saudar. Ofereci-lhes um café da nossa safra.
Da Vera retive o nome, que é de Cascais, que terminou o curso de enfermagem e que antes de iniciar a atividade profissional quis oferecer algum tempo ao voluntariado.
Chegou à Etiópia por via das Missionárias da Caridade, as freiras da Santa Madre Teresa de Calcutá, que conhece de Setúbal e Lisboa.
Atirou-me uma pergunta:
– Porquê há tantos voluntários espanhóis e tão poucos portugueses?
Comentou que em Adis-Abeba, no hospício das Missionárias da Caridade onde deu os primeiros passos como enfermeira formada, havia muitos jovens da vizinha Espanha. E que o cenário se repete noutras comunidades.
Perguntei à FEC, a Fundação católica que coordena a formação de voluntários e que costumava publicar estatísticas anuais sobre os jovens e menos jovens portugueses em voluntariado em Portugal e no estrangeiro.
– Houve quebra no voluntariado. Os dados foram muito baixos, poucas organizações responderam. Por isso, nem os lançámos. Mesmo na formação quase não temos inscritos! – informaram-me.
Minha querida Vera, aqui tens a resposta: há um esmorecimento entre a malta nova portuguesa no que toca a voluntariado. É pena! Será por falta de dinheiro para as viagens? Por falta de generosidade? Por medo?
Alguns colegas meus chamam de turismo missionário ao voluntariado de muito curta duração: duas semanas, um mês...
Eu discordo!
Aqui em Qillenso pude testemunhar em dois anos seguidos a alegria que grupos de jovens espanhóis – sempre eles – deram à criançada da aldeia dos cinco aos 14 anos durante duas semanas de campo de férias.
Com a ajuda de alguns tradutores, os voluntários brincaram, ensinaram, cantaram, jogaram, fizeram tantas coisas – inclusive um lanche a meio da manhã – que deliciaram os nossos miúdos.
Era giro ouvi-los em casa a trautear as canções que aprenderam de manhã nas atividades do campo de férias.
E, enquanto escrevo, a 35 quilómetros daqui, está um casal de enfermeiros espanhóis mais dois familiares a semear carinho e cuidados de saúde no Hospício das Missionárias da Caridade em Adola. O casal passa cá dois meses; os familiares – mais novos – um mês.
Dedicam-se com uma paciência ímpar a cuidar dos casos mais complicados entre os cerca de 200 internados e internadas e brincam com crianças com limites físicos e mentais.
Há uma semana duas enfermeiras voltaram para Espanha depois de um mês entre os hospícios de Adis-Abeba e Adola.
Que nem o mar nem o ar fechem os caminhos do encontro e do serviço de outrora, os caminhos da fraternidade universal.




