4 de abril de 2026

VOLUNTÁRIOS PRECISAM-SE!



Chama-se Vera. Veste no olhar vivo e alegre a frescura dos verdes anos. Apareceu em Qillenso, a aldeia onde vivo no sul da Etiópia, com uma espanhola, um espanhol e um etíope. 

Iam a Dare Qidame, o local da (provável) nova missão dos combonianos entre os gujis, explorar a presença da água. Os locais já construíram uma grande igreja com a colaboração de vizinhos de outras igrejas e inclusive muçulmanos. 

O espanhol, voluntário há muitos anos na Etiópia, também é vedor. O etíope é engenheiro. Marcaram três pontos para um furo artesiano.

Tinham pernoitado em Hawassa. Pararam em Qillenso para me saudar. Ofereci-lhes um café da nossa safra.

Da Vera retive o nome, que é de Cascais, que terminou o curso de enfermagem e que antes de iniciar a atividade profissional quis oferecer algum tempo ao voluntariado.

Chegou à Etiópia por via das Missionárias da Caridade, as freiras da Santa Madre Teresa de Calcutá, que conhece de Setúbal e Lisboa.

Atirou-me uma pergunta: 

– Porquê há tantos voluntários espanhóis e tão poucos portugueses?

Comentou que em Adis-Abeba, no hospício das Missionárias da Caridade onde deu os primeiros passos como enfermeira formada, havia muitos jovens da vizinha Espanha. E que o cenário se repete noutras comunidades.

Perguntei à FEC, a Fundação católica que coordena a formação de voluntários e que costumava publicar estatísticas anuais sobre os jovens e menos jovens portugueses em voluntariado em Portugal e no estrangeiro.

– Houve quebra no voluntariado. Os dados foram muito baixos, poucas organizações responderam. Por isso, nem os lançámos. Mesmo na formação quase não temos inscritos! – informaram-me.

Minha querida Vera, aqui tens a resposta: há um esmorecimento entre a malta nova portuguesa no que toca a voluntariado. É pena! Será por falta de dinheiro para as viagens? Por falta de generosidade? Por medo?

Alguns colegas meus chamam de turismo missionário ao voluntariado de muito curta duração: duas semanas, um mês...

Eu discordo!

Aqui em Qillenso pude testemunhar em dois anos seguidos a alegria que grupos de jovens espanhóis – sempre eles – deram à criançada da aldeia dos cinco aos 14 anos durante duas semanas de campo de férias.

Com a ajuda de alguns tradutores, os voluntários brincaram, ensinaram, cantaram, jogaram, fizeram tantas coisas – inclusive um lanche a meio da manhã – que deliciaram os nossos miúdos.

Era giro ouvi-los em casa a trautear as canções que aprenderam de manhã nas atividades do campo de férias.

E, enquanto escrevo, a 35 quilómetros daqui, está um casal de enfermeiros espanhóis mais dois familiares a semear carinho e cuidados de saúde no Hospício das Missionárias da Caridade em Adola. O casal passa cá dois meses; os familiares – mais novos – um mês.

Dedicam-se com uma paciência ímpar a cuidar dos casos mais complicados entre os cerca de 200 internados e internadas e brincam com crianças com limites físicos e mentais. 

Há uma semana duas enfermeiras voltaram para Espanha depois de um mês entre os hospícios de Adis-Abeba e Adola.

Que nem o mar nem o ar fechem os caminhos do encontro e do serviço de outrora, os caminhos da fraternidade universal.

3 de abril de 2026

SEXTA-FEIRA SANTA EM JERUSALÉM

 





Todos os anos, na Sexta-Feira Santa, Jerusalém fica lotada. As ruas enchem-se de passos, de línguas diferentes, de orações que se entrelaçam, enquanto toda a cidade parece palpitar ao ritmo da Via-Sacra. 

A par da Via-Sacra oficial, organizada pelos franciscanos, inúmeros grupos percorrem a Via Dolorosa, parando em cada uma das catorze estações.

São rostos vindos de longe, corações inflamados pela fé, peregrinos que desejam tocar, ainda que por um instante, o mistério do amor levado ao extremo.

Seguem Jesus nos seus últimos passos, ali onde a dor se transforma em oferta e a entrega se consuma em silêncio. Cada pedra guarda a memória. Cada recanto sussurra o Seu Nome.

Mas este ano… tudo é diferente.

As ruas perderam a agitação. O eco dos cânticos silenciou-se. A cidade, ferida, respira entre o peso da incerteza e do medo. A terra que um dia foi testemunha da Redenção volta a conhecer a amargura da dor e da morte. Demasiado sangue derramado. Demasiadas lágrimas sem consolo. 

Soldados por toda a parte, como sombras que recordam que a paz ainda não chegou.

E, no entanto, estamos aqui.

Pequenas, quase invisíveis: três combonianas mexicanas a caminhar pelas ruas de Jerusalém. Não há multidões, mas não estamos sozinhas. Caminhamos unidas a tantos que gostariam de estar aqui e não podem. As suas orações pulsam no nosso silêncio. As suas esperanças tornam-se nossas.

Rezamos.

Rezamos por esta terra que geme. Rezamos por cada vida rasgada. Rezamos com toda a Igreja, elevando uma súplica antiga e sempre nova: «Perdoa ao teu povo, Senhor!»

E enquanto avançamos, com o coração apertado e a fé acesa, erguemos o olhar para o Crucificado.

Nestas ruas quase desertas da cidade velha, onde a dor parece ter a última palavra, proclamamos em silêncio a verdade que não morre:

que Ele já venceu a morte,

que a sua entrega não foi em vão,

que o seu amor continua a ser mais forte do que toda a violência.

Aqui, onde tudo parece escurecer, continuamos a pedir a paz.

Porque Ele deu tudo.

Porque Ele nos amou… até ao extremo.

Ir Cecília Sierra

Missionária Comboniana