5 de abril de 2026

PÁSCOA NO SUDÃO: FEZ-SE LUZ

 



Quando Maria Madalena foi ao sepulcro, ainda estava escuro. Estava escuro para Maria porque estava consumida pela dor; porque não conseguia compreender a morte daquele que tanto amava. 

Estava escuro porque se sentia sozinha e perdida.

No Sudão, a guerra, que começou a 15 de Abril de 2023, lançou uma sombra de escuridão sobre todo o país. Mais de 11 milhões de pessoas tiveram de fugir das suas casas para outras partes do país, e cerca de quatro milhões procuraram refúgio noutros países. 

Para todos eles, o céu está coberto por um pesado e denso véu de escuridão.

Milhões de pessoas no Irão, Líbano, Ucrânia… sentem a mesma escuridão. 

Apesar da escuridão, Maria Madalena partiu cedo. A recordação e o amor que sentia por Jesus impeliram-na a ir ao seu túmulo.

Então, ela descobriu algo inesperado. A pedra tinha sido removida. 

Maria não compreendeu o que tinha acontecido e chamou Pedro e João. Quando João entrou no túmulo vazio, «viu e acreditou». 

A escuridão transforma-se em luz quando se olha para o túmulo com os olhos da fé.

A guerra é uma escuridão densa e espessa. Mas, paradoxalmente, na escuridão absoluta, é mais fácil descobrir pequenas e ténues luzes, por mais frágeis que sejam.

Em setembro, completarei 18 anos no Sudão. 

Os anos mais belos da minha vida missionária foram, paradoxalmente, os anos da guerra, porque vi luzes maravilhosas.

Para mim, os estudantes que, em plena guerra, nos dizem que querem continuar a estudar; a equipa do departamento de enfermagem que enfrentou batalhas para chegar a Porto Sudão e continuar a formar enfermeiros; os voluntários de cuidados paliativos que, movidos pela misericórdia, acompanham os doentes terminais e crónicos deitados em camas de dor e, muitas vezes, de solidão; e os jovens que organizam «Salas de Resposta de Emergência» para facilitar o acesso aos alimentos, representam uma luz.

Maria Madalena, João e Pedro deixam de estar nas trevas quando conseguem conectar as Escrituras com a realidade que tem diante de si. 

Esta realidade transforma-se, então, numa realidade de luz que enche os seus corações de paz e alegria, porque se torna o lugar do encontro com o Senhor Ressuscitado, a fonte de paz e de alegria. 

Feliz Páscoa!

P. Jorge Naranjo

Comboniano espanhol no Sudão 

4 de abril de 2026

VOLUNTÁRIOS PRECISAM-SE!



Chama-se Vera. Veste no olhar vivo e alegre a frescura dos verdes anos. Apareceu em Qillenso, a aldeia onde vivo no sul da Etiópia, com uma espanhola, um espanhol e um etíope. 

Iam a Dare Qidame, o local da (provável) nova missão dos combonianos entre os gujis, explorar a presença da água. Os locais já construíram uma grande igreja com a colaboração de vizinhos de outras igrejas e inclusive muçulmanos. 

O espanhol, voluntário há muitos anos na Etiópia, também é vedor. O etíope é engenheiro. Marcaram três pontos para um furo artesiano.

Tinham pernoitado em Hawassa. Pararam em Qillenso para me saudar. Ofereci-lhes um café da nossa safra.

Da Vera retive o nome, que é de Cascais, que terminou o curso de enfermagem e que antes de iniciar a atividade profissional quis oferecer algum tempo ao voluntariado.

Chegou à Etiópia por via das Missionárias da Caridade, as freiras da Santa Madre Teresa de Calcutá, que conhece de Setúbal e Lisboa.

Atirou-me uma pergunta: 

– Porquê há tantos voluntários espanhóis e tão poucos portugueses?

Comentou que em Adis-Abeba, no hospício das Missionárias da Caridade onde deu os primeiros passos como enfermeira formada, havia muitos jovens da vizinha Espanha. E que o cenário se repete noutras comunidades.

Perguntei à FEC, a Fundação católica que coordena a formação de voluntários e que costumava publicar estatísticas anuais sobre os jovens e menos jovens portugueses em voluntariado em Portugal e no estrangeiro.

– Houve quebra no voluntariado. Os dados foram muito baixos, poucas organizações responderam. Por isso, nem os lançámos. Mesmo na formação quase não temos inscritos! – informaram-me.

Minha querida Vera, aqui tens a resposta: há um esmorecimento entre a malta nova portuguesa no que toca a voluntariado. É pena! Será por falta de dinheiro para as viagens? Por falta de generosidade? Por medo?

Alguns colegas meus chamam de turismo missionário ao voluntariado de muito curta duração: duas semanas, um mês...

Eu discordo!

Aqui em Qillenso pude testemunhar em dois anos seguidos a alegria que grupos de jovens espanhóis – sempre eles – deram à criançada da aldeia dos cinco aos 14 anos durante duas semanas de campo de férias.

Com a ajuda de alguns tradutores, os voluntários brincaram, ensinaram, cantaram, jogaram, fizeram tantas coisas – inclusive um lanche a meio da manhã – que deliciaram os nossos miúdos.

Era giro ouvi-los em casa a trautear as canções que aprenderam de manhã nas atividades do campo de férias.

E, enquanto escrevo, a 35 quilómetros daqui, está um casal de enfermeiros espanhóis mais dois familiares a semear carinho e cuidados de saúde no Hospício das Missionárias da Caridade em Adola. O casal passa cá dois meses; os familiares – mais novos – um mês.

Dedicam-se com uma paciência ímpar a cuidar dos casos mais complicados entre os cerca de 200 internados e internadas e brincam com crianças com limites físicos e mentais. 

Há uma semana duas enfermeiras voltaram para Espanha depois de um mês entre os hospícios de Adis-Abeba e Adola.

Que nem o mar nem o ar fechem os caminhos do encontro e do serviço de outrora, os caminhos da fraternidade universal.

3 de abril de 2026

SEXTA-FEIRA SANTA EM JERUSALÉM

 





Todos os anos, na Sexta-Feira Santa, Jerusalém fica lotada. As ruas enchem-se de passos, de línguas diferentes, de orações que se entrelaçam, enquanto toda a cidade parece palpitar ao ritmo da Via-Sacra. 

A par da Via-Sacra oficial, organizada pelos franciscanos, inúmeros grupos percorrem a Via Dolorosa, parando em cada uma das catorze estações.

São rostos vindos de longe, corações inflamados pela fé, peregrinos que desejam tocar, ainda que por um instante, o mistério do amor levado ao extremo.

Seguem Jesus nos seus últimos passos, ali onde a dor se transforma em oferta e a entrega se consuma em silêncio. Cada pedra guarda a memória. Cada recanto sussurra o Seu Nome.

Mas este ano… tudo é diferente.

As ruas perderam a agitação. O eco dos cânticos silenciou-se. A cidade, ferida, respira entre o peso da incerteza e do medo. A terra que um dia foi testemunha da Redenção volta a conhecer a amargura da dor e da morte. Demasiado sangue derramado. Demasiadas lágrimas sem consolo. 

Soldados por toda a parte, como sombras que recordam que a paz ainda não chegou.

E, no entanto, estamos aqui.

Pequenas, quase invisíveis: três combonianas mexicanas a caminhar pelas ruas de Jerusalém. Não há multidões, mas não estamos sozinhas. Caminhamos unidas a tantos que gostariam de estar aqui e não podem. As suas orações pulsam no nosso silêncio. As suas esperanças tornam-se nossas.

Rezamos.

Rezamos por esta terra que geme. Rezamos por cada vida rasgada. Rezamos com toda a Igreja, elevando uma súplica antiga e sempre nova: «Perdoa ao teu povo, Senhor!»

E enquanto avançamos, com o coração apertado e a fé acesa, erguemos o olhar para o Crucificado.

Nestas ruas quase desertas da cidade velha, onde a dor parece ter a última palavra, proclamamos em silêncio a verdade que não morre:

que Ele já venceu a morte,

que a sua entrega não foi em vão,

que o seu amor continua a ser mais forte do que toda a violência.

Aqui, onde tudo parece escurecer, continuamos a pedir a paz.

Porque Ele deu tudo.

Porque Ele nos amou… até ao extremo.

Ir Cecília Sierra

Missionária Comboniana