A mandioca passou de comida dos escravos à cultura do século XXI.
A mandioca é uma planta tuberosa que cresce na região amazónica há séculos. Os Portugueses levaram-na para África, para a bacia do Congo, no século XVI, para alimentar os escravos durante a viagem para as Américas. Hoje, os agricultores africanos cultivam cerca de mil variedades da planta e fornecem mais de metade da produção mundial do tubérculo.
Apesar de ser uma planta tropical, nada tinha de glamoroso: era menorizada como recurso dos pobres em tempo de carestia. Hoje, é o alimento-base para mais de 500 milhões de africanos, a principal fonte de calorias para 40 por cento do continente, e uma fonte de riqueza importante por ser uma alternativa barata aos cereais.
A mandioca tem a seu favor três factores: dá-se bem em qualquer tipo de solo, resiste com facilidade à seca e necessita de pouca mão-de-obra. Fica pronta para colher em menos de um ano, mas pode ficar na terra até três sem se estragar. E usa-se toda: os tubérculos, ricos em hidratos de carbono, podem ser comidos verdes (tostados, cozidos, ou fritos – a mandioca às rodelas ou em palitos faz concorrência à batata frita) e secos (sobretudo em farinha, a famosa farinha-de-pau da minha infância). Das folhas, ricas em proteínas, vitaminas e minerais, faz-se um óptimo esparregado. As folhas podres servem de nutrientes para o solo. As hastes do caule, cortadas em troços, são espetadas ou enterradas no chão para começar nova plantação.
A mandioca tem uso industrial na produção de amido para a farmacêutica e alimentação; é também usada em rações para gado e na produção de papel, têxteis e de combustíveis verdes pela extracção de etanol.
A planta cultiva-se em cerca de 40 países na faixa entre Cabo Verde e Madagáscar. A Nigéria, a República Democrática do Congo e a Tanzânia asseguram juntas 70 por cento da produção africana que é usada quase só na alimentação humana. A Nigéria destronou o Brasil como primeiro produtor mundial de mandioca e o sector dá emprego a quatro milhões de nigerianos.
Por outro lado, a mandioca está mais vocacionada para sobreviver ao aquecimento global que o feijão, a banana e o sorgo, podendo mesmo aumentar a sua produção até 10 por cento com o calor.
Alguns senãos: a raiz e as folhas da mandioca – sobretudo algumas variedades – geram cianeto, um veneno letal, e têm de ser processadas com cuidado por meio da secagem ou cozedura lenta. Depois, a planta é muito sensível a pestes e pragas, mas os técnicos estão a trabalhar em variedades mais resistentes, produtivas e ricas em nutrientes. Os pequenos produtores têm de aprender técnicas de secagem, processamento e armazenamento, porque o tubérculo estraga-se facilmente fora da terra. Por fim, a produção da mandioca está, sobretudo, a cargo das mulheres. Mas a produção industrial e a mecanização do sector estão a resolver o problema.
Contas feitas, a mandioca tem um papel muito importante na segurança alimentar e no combate à pobreza em África. Zerubabel Mijumbi Nyiira, ex-ministro da Agricultura ugandês, disse-o à IRIN: «A cultura pode funcionar como transformador social e económico.»
2 de junho de 2016
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