2 de maio de 2017

MÃE ÁFRICA


A poeta angolana Alda Lara (1930-1962) concebeu Mãe Negra, um trecho tenso e intenso excelentemente musicado por Paulo de Carvalho. Fui beber a inspiração a esse poema telúrico, esse pranto profundo que fala de estrada, noite, mãos apertadas, cruzadas no regaço, lágrimas grossas em faces cansadas, voz no vento, saudade, buganvílias e cajueiros.

Mãe negra, mãe África!

A África é a mátria da humanidade, o seio imenso que acolheu o processo de hominização, o salto de qualidade do género humano que depois partiu para os quatro cantos da Terra.

Somos todos África, transportamo-la na herança genética, suspiramos por voltar ao berço de onde viemos. Dizem que quem beber a água do Nilo cedo ou tarde vai ter de regressar. Os Italianos descrevem esta saudade ancestral como «mal d’Africa», a doença de África.

Há uma imagem que se repete em cada mulher-mãe africana: a carregar um bebé às costas e outro no ventre, vergada sob o peso da sobrevivência sobre a terra vermelha a cavar o magro sustento para a família num horizonte aberto e sem fim, terra de riquezas naturais inúmeras, paisagens de cortar a respiração que o nevoeiro espesso da cobiça e da corrupção tenta esconder.

Mas anda no ar a alegria das vozes, dos cantos, dos tambores, das danças no fim do dia, no fim da noite; a solidão dos desertos, a planura da savana, a sinfonia da vida nas florestas tropicais, o esplendor dos picos altaneiros gelados, as costas cálidas de águas serenas, o sol escaldante, a lua feiticeira…

A primeira riqueza da mãe África, a que conta menos para as estatísticas da economia avara, são as pessoas, a riqueza maior do continente: 1,2 mil milhões espalhados por 54 países e nove territórios.

As suas entranhas estão prenhes de ouro, diamantes, crómio, platina; corre-lhe petróleo nas veias; e água, muita água. E as florestas fazem de cabelo – que motosserras assassinas vão cortando sem dó nem piedade, abrindo caminho à desertificação.

O solo vermelho africano está tingido pelo sangue dos escravos (de ontem e de hoje), das guerras pelo poder que autocratas querem perpetuar, das fomes, das secas, das enxurradas, das doenças (estranhas e triviais, mas homicidas na mesma), da morte!

Solo empapado, fertilizado pelas lágrimas grossas de dor e desespero das mães que vêem os filhos morrer, das mulheres e meninas vítimas de abuso pelos exércitos que usam a violação como arma de guerra para punir, humilhar; no Sudão do Sul, República Democrática do Congo…

Apesar da dor e da morte, a mãe África é um poema de vida, um hino à beleza, braços abertos e hospitaleiros que partilham, corpos que dançam e celebram até à exaustão, alegria. Roupas coloridas a esvoaçar na brisa da tarde, pássaros desenhando sonhos no céu imenso de azul.

Um amigo regressou recentemente de uma estada de seis meses em Kinshasa, na República Democrática do Congo. Perguntei-lhe o que trouxe de lá. «A vontade de voltar», respondeu.

Trazemos gravada na carga genética a saudade imensa da África, o nosso seio comum, o berço que nos embalou.

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