10 de julho de 2015

SINAIS


As freiras voltaram às páginas dos media ingleses. Não, não descobriram mais um escândalo desenterrado da poeira acumulada dos conventos vazios. A razão é outra: o número de jovens britânicas que entraram para a vida consagrada aumentou seis vezes numa década.

Surpreendeu-me um tweet do The Guardian, um diário laico de esquerda, a pedir estórias e fotos de freiras e monjas.

Encontrei a resposta para tal curiosidade numa notícia no The Independent: 45 mulheres entraram para a vida religiosa em 2014: 18 para conventos de clausura e 27 para congregações de vida ativa. O título é sugestivo: Descontentamento com vida moderna provoca pico em número de mulheres a entrar para conventos.

Razões? A Ir. Cathy Jones, promotora nacional de vocações para a vida religiosa no Secretariado Nacional das Vocações, disse ao diário londrino que o aumento vem «do crescimento de uma cultura das vocações na Igreja» através de fins-de-semana vocacionais mais atrativos e da presença dos religiosos em festivais da juventude.

O P. Christopher Jamison, diretor no Secretariado Nacional das Vocações da Conferência Episcopal de Inglaterra e Gales, diz que «há um vazio no mercado para o sentido na nossa cultura e uma das maneiras em que as mulheres podem encontrar aquele sentido é através da vida religiosa.»

O jornalista Pablo J. Ginés faz uma análise interessante deste surto de interesse pela vida consagrada em terras de sua majestade através de um artigo publicado no blogue Religión en libertad.

Nota que, em 2004, na Grã-Bretanha, sete mulheres entraram para a vida religiosa; em 2014 foram 45 mais uma dúzia de rapazes.

Aponta cinco razões para o fenómeno: as congregações voltaram às raízes e têm uma identidade mais clara; melhoraram o processo de acolhimento convidando sem pressionar e discernindo sem recrutar; organizam retiros, encontros e programas vocacionais em conjunto que motivam os jovens a empenhar-se por um mundo melhor, promovendo o discernimento e voluntariado; usam mais a internet e as redes sociais com páginas mais atrativas e de qualidade gráfica para oferecer experiências de ir e ver sem compromisso; a conferência episcopal preparou equipas de guias vocacionais, formadas por religiosos e leigos, através do Secretariado Nacional das Vocações, para convidar e acompanhar os jovens no discernimento vocacional.

Em Portugal também há alguns sinais interessantes. A CIRP encomendou à IPSOS-APEME uma Gramática da proximidade para a vida consagrada inserida no Barómetro da Vida Consagrada, uma das iniciativas para o Ano da Vida Consagrada.

O Dr. Carlos Liz, que dirige o estudo, apresentou os resultados das investigações do primeiro trimestre durante a Assembleia da CIRP em Abril em Fátima.

71% dos jovens dos 18 aos 34 anos considera-se «bastante ou relativamente interessado» pelo tema espiritualidade e religião, 50% afirma-se católico e 20% diz ser a-religioso. Os jovens vivem a sua espiritualidade visitando locais de culto quando viajam (75%) e através de filmes, séries e livros (70%). Só 30% dizem participar em cultos organizados.

Os jovens associam a expressão vida consagrada a votos e vida eclesial (29%) e a conceitos como vida realizada com felicidade e equilíbrio interior (16%) ligada a Deus e ao sagrado (12%).

O Dr. Liz disse aos superiores maiores que os religiosos não devem ter medo de propor os votos/consagração aos jovens porque o conceito tem «sex appeal».

Em tempos de vocações magras, estes são sinais que nos fazem viver o presente com dedicação, confiança e esperança.

O papa Francisco convida-nos a aprender a linguagem dos jovens e a encontrámo-los onde estão (Evangelii Gaudium 105). Este é o efeito-Francisco: para surfar a onde de simpatia global que o papa argentino está a gerar temos que sair de nós mesmos, das nossas «torres-de-marfim» e das nossas zonas de conforto, pegar na prancha da fé e fazer-nos ao mar-alto da juventude com alegria!

O papa é claro e provocante: «Para ser evangelizadores com espírito é preciso também desenvolver o prazer espiritual de estar próximo da vida das pessoas, até chegar a descobrir que isto se torna fonte duma alegria superior. A missão é uma paixão por Jesus, e simultaneamente uma paixão pelo seu povo» (Evagelii Gaudium 268).

Este é o caminho para a pastoral vocacional: ir ao encontro dos jovens onde estão através da linguagem que entendem – que é a linguagem deles. São nativos do digital: vivem e comunicam através das redes móveis e internet. Por isso, a net e sobretudo as redes sociais são espaços onde devemos estar cada vez mais presentes com qualidade.

Reitero a proposta do secretariado das vocações de usar as seis paróquias que servimos como uma plataforma para a pastoral vocacional juvenil. As equipas JIM querem colaborar nesse processo de cultura vocacional comboniana e é urgente usar as sinergias que geram!

Depois, cada comunidade comboniana devia ser um espaço «vinde ver», convidativo e aberto, que chama por atração, convidando os jovens a entrarem e estarem connosco num exercício de hospitalidade vocacional desinteressada.

A espiritualidade do Coração trespassado do Bom Pastor (João 19, 34) pode servir também de ícone para uma comunidade «vinde ver»: uma comunidade trespassada, aberta, em saída, um coração escancarado, uma torrente de «sangue e água» para a vida plena de todos (João 10, 10), um coração que sangra e sofre com os corações trespassados de hoje; um coração que alivia os fatigados e oprimidos (Mt 11, 28-30), que acolhe os que andam à procura de sentido para as suas vidas, uma irmandade de corações que entusiasmam e fascinam (Cfr. Evagelii Gaudium 106).

1 comentário:

Missionárias Combonianas disse...

muito interessante, obrigada