11 de janeiro de 2011

REFERENDO





© JVieira
O referendo para a autodeterminação do povo do Sul do Sudão já vai a meio e tem decorrido em paz e tranquilidade, uma lição de civismo para quem esperava convulsões sociais graves.
No domingo, primeiro dia do voto, houve votantes que começaram a fazer fila à meia-noite para terem a certeza que seriam os primeiros a votar, novos e velhos.
O presidente do Sul do Sudão deu o pontapé de saída depositando o seu voto exactamente às oito da manhã perante jornalistas e pessoal diplomático do mundo inteiro. Salva Kiir Mayardit recordou emocionado os heróis e heroínas que tornaram o voto de auto-determinação possível.
Em Juba, o ambiente era de festa com filas enormes em todos os centros de voto. As pessoas esperavam religiosamente concentradas a vez de marcarem com o polegar o círculo da separação – pelo menos a grande maioria.
Houve gente que chorou ao colocar o voto na urna, outros dançaram e cantaram… Celebraram finalmente o direito de escolherem o futuro para a região depois de meio século de guerras e mais de cinco milhões de mortos.
Até agora não houve incidentes a registar. A imprensa internacional, ávida de estórias cruentas, foi rápida a ligar as mortes em Abyei dos confrontos entre Misseriyas e a polícia ao referendo, mas a bota não teve mesmo nada a ver com a perdigota.
Pelo contrário, as estórias que chegam são de vida e de celebração. Em Torit, uma grávida começou a ter dores de parto na fila para o voto e depois de votar levaram-na a correr para o hospital, mas a menina nasceu no carro.
Em Rumbek, um homem disse que tirou um peso do coração quando ontem à tarde conseguiu votar depois de dois dias a esperar na fila.
Em Tonj, um irmão salesiano pôde finalmente cortar o cabelo e fazer a barba porque tinha prometido aos alunos que só o faria depois de votar.
Em Yei, as mulheres bateram os homens no primeiro dia de voto na proporção de três para um.
Em Juba, os arcebispos católico e anglicano votaram juntos «observados» por mais cinco purpurados, incluindo um cardeal sul-africano.
Hoje, o chefe do Bureau do referendo Chan Reec Madut disse que nos primeiros dois dias cerca de um milhão tinham votado em 46 por cento das mesas de voto do Sul. Os resultados dos outros 54 por cento ainda não são conhecidos devido a problemas de comunicação. Mas pode-se dizer que mais de dois milhões já votaram e a marca da participação dos 60 por cento de eleitores inscritos que valida o resultado vai ser ultrapassada sem problemas.
Ontem acompanhei com mais sete jornalistas a chefe dos observadores europeus Veronique de Keiser a uma visita às mesas de voto em Rumbek e Wau, duas cidades-capitais. O Governador de Lakes queixou-se que os sete dias não iam chegar para as pessoas votarem, sobretudo quem andava com as manadas de gado em lugares distantes. Já o seu colega de Western Bahr el Ghazal estava mais entusiasmado. Ele disse que no primeiro dia cerca de 35 por cento dos inscritos já tinham votado e que amanhã a votação deveria estar concluída.
Hoje o patrão do referendo no Sul, o juiz Reec, louvou os votantes pelo civismo, pela paz e pela alegria com que votaram e anunciou que as mesas de voto ainda passar a estar abertas até às 18h00 – antes fechavam às 17h00. Mas a maioria dos centros de voto hoje já esteve praticamente às moscas depois do tsunami de votantes que inundou os centros de voto no domingo e na segunda.
O juiz Reec anunciou que conta ter os resultados finais do Sul do Sudão prontos a 31 de Janeiro. O resultado global deveria ser anunciado uma semana depois.

1 comentário:

Sandrinha disse...

Viva o Referendo!!!!!!! E viva o povo do Sul do Sudão!!!!!!!!!!