Mensagens

AMOR SECANTE

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No evangelho do quinto domingo da estação pascal para o ano C Jesus anuncia: «Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros; como Eu vos amei, que também vós vos ameis uns aos outros. Nisto saberão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» ( João  13, 34-35). Este é o pulsar do coração do Evangelho de Jesus: o amor ao seu jeito é o caminho que nos repara e salva, que nos faz felizes. Por outro lado, o que nos distingue como cristãos não são tanto as cruzes mais ou menos valiosas e trabalhadas que levamos ao pescoço, mas o amor até ao fim, extremado, brutal, consumado. Ao jeito de Jesus de Nazaré. Jesus ensina-nos através do seu viver que amar é autodescentrar-se. Amar é colocar o OUTRO no centro do coração. Um esforço árduo e contracultura em tempos da ditadura globalizada do eu. Quando preparo a homilia dominical em guji, gosto de conferir a mensagem do evangelho com algum ditado do povo com quem vivo há uma dúzia de anos. Este povo tem um provérbio...

PÁSCOA UNIDA

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Este ano os cristãos da Etiópia – ortodoxos e católicos – celebraram a Páscoa do Senhor unidos às outras Igrejas. Mas nem sempre é assim. No ano passado, por exemplo, enquanto a maioria festejou a ressurreição do Senhor a 31 de Março, as Igrejas da comunhão ortodoxa e os católicos da Etiópia fizeram-no a 5 de Maio. Porquê? A regra para a celebração da Páscoa foi estabelecida há exatamente 1700 anos no Concílio de Niceia: a ressurreição do Senhor celebra-se no domingo depois da lua cheia do equinócio da Primavera. O desacerto vem do facto de a comunhão ortodoxa seguir o calendário juliano e as Igrejas do Ocidente usarem o calendário gregoriano que o substituiu em 1582. O mês, entre os dois calendários, começa com uma diferença de treze dias. Por isso, a data da Páscoa varia entre 22 de Março e 25 de Abril segundo o calendário gregoriano e 4 de Abril e 8 de Maio segundo o juliano. O Papa Francisco sublinhou por diversas vezes a necessidade da celebração comum da Páscoa. Em Janeiro, na co...

«ALHAMDULILLAH!»

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« Alhamdulillah !  Alhamdulillah ! Bendito seja Deus! Bendito seja Deus!», repetem vezes sem conta a professora beduína e o seu marido, enquanto olhamos para os restos carbonizados daquilo que foi a casa deles.  Ela estava a cozinhar com a tia. Tinha deixado a máquina de lavar a trabalhar. O calor abrasador, as chapas de zinco sobreaquecidas... bastou um mau contacto. Em poucos minutos, o fogo tudo devorou. A casa, no meio da aldeia beduína, ficou completamente destruída. O marido mostra-nos o motor carbonizado da máquina de lavar: é o que resta.  A família, com os quatro filhos, vive agora com uma tia. O vestido usado pela professora foi-lhe emprestado pela irmã. Todos os seus pertences foram consumidos pelas chamas.  «Não conseguimos salvar nada», murmura. E, no entanto, repete com uma fé serena: “ Alhamdulillah , estamos bem». Eles já tinham tão pouco e perderam tudo. «Graças a Deus, estávamos fora», explica a professora.  Acena silenciosamente com a cabeça, ...

REVER O FUTURO

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Vinte e três membros da província etíope dos Missionários Combonianos reuniram-se de 6 a 9 de maio na Casa Comboni de Hawassa para celebrar a assembleia provincial de 2025, tendo como intento principal a revisão do Diretório Provincial, o documento que regula a vida da província. Quatro membros estavam ausentes, sobretudo por motivos de saúde ou escolares. O P. Isaiah Nyakundi deu o mote para os quatro dias de trabalho com a reflexão motivacional de abertura sobre «A província que sonhamos ter». O comboniano, nascido no Quénia, trabalha entre os Gumuz há uma dúzia de anos. O P. Asfaha Yohannes, superior provincial, apresentou o seu relatório sobre o estado da província em cinco pontos: situação sócio-político-económica, formação, pessoal, missão e economia. Deu também as boas-vindas aos missionários que chegaram recentemente à terra das origens. Em seguida, a assembleia começou a estudar o novo Diretório Provincial, capítulo por capítulo, debatendo-o e aprovando-o. O esboço foi prepara...

TEMOS PAPA

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  Cento e trinta e três cardeais, reunidos em conclave, durante pouco mais de 24 horas, escolheram o cardeal norte-americano Robert Francis Prevost, « um filho de Santo Agostinho»,  como o papa número 267. A escolha gerou alguma surpresa, mas o Prefeito do Dicastério para os Bispos desde 2023 fazia parte de algumas listas de papáveis, embora não fosse candidato de topo. Dom Robert Francis – partilha o nome com o papa que o precede – escolheu o nome de Leão XIV, o que motivou alguns sportinguistas a fazer montagens com o novo papa vestindo as cores e o emblema do clube. Segui o conclave com expetativa até porque o sector da Igreja mais tradicionalista se empenhou numa campanha para tentar «queimar» os candidatos mais dispostos a seguir o legado do papa Francisco. Produziram um dossier sobre quarenta cardeais com os seus pontos de vista em matérias mais fraturantes e a promover os próprios candidatos, e ofereceram o livro aos participantes no conclave. O dinheiro e o ruído mediá...

SONHAR AO SOL

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«Vou ser médico!», diz um rapaz beduíno com firmeza enquanto põe os meus óculos com um sorriso travesso. Ao lado dele, uma rapariga experimenta uns óculos de sol que lhe tapam metade da cara. «Também vou ser médica!», diz entusiasmada. Com gestos inocentes, simula uma cesariana: «Vou abrir a barriga das mães para os bebés nascerem.».  Outra, pequenina e determinada, anuncia que vai ser dentista e espreita para dentro da minha boca como se já estivesse a examinar os pacientes. Ironias da vida: os seus próprios dentes estão estragados pela cárie, sinal doloroso da falta de acesso aos cuidados mais básicos de saúde. Observo-os com ternura. Todos querem a minha atenção, sonham em grande, agem como se o futuro já estivesse nas suas mãos. Mas a realidade é dura: a rapariga que sonha ser ginecologista vai deixar o jardim de infância dentro de um mês e provavelmente terminará aí a sua educação formal. A única escola da aldeia, perdida entre as colinas e os vales do deserto, mal sobrevive. ...

JUMENTINHOS DO SENHOR

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Iniciámos a Semana Maior com a dupla celebração do Domingo dos Ramos e da Paixão. A bênção dos ramos, no início da liturgia, e a procissão para a igreja lembram a entrada real de Jesus em Jerusalém. E, na minha infância, neste domingo também oferecíamos um raminho aos padrinhos, pare recebermos o folar na Páscoa: uma regueifa com ovos encrustados. Este ano, liturgicamente falando, estamos no ano C e, por isso, lemos o evangelho de Lucas.  O médico sírio de Antioquia conta que Jesus enviou dois discípulos para soltarem e lhe trazerem um jumentinho que estava preso na aldeia em frente e que ninguém havia montado. A quem os indagar, disse para responderem: «O Senhor precisa dele!».  Foi o que fizeram. «Trouxeram-no, então, a Jesus e, depois de terem lançado as suas capas sobre o jumentinho, ajudaram Jesus a montar. Enquanto Jesus   avançava, iam estendendo as suas capas no caminho. E quando Ele já estava próximo da descida do Monte das Oliveiras, toda a multidão dos di...

JESUS EM PONTO-CRUZ

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  A cada ponto em forma de cruz, o rosto de Jesus aparecia como um mistério que se revela pouco a pouco.  Pedimos a duas jovens beduínas que bordassem uma imagem de Jesus em ponto de cruz. Elas aceitaram sem hesitar, mergulhando na delicada arte de modelar o seu olhar, os seus cabelos, cada traço do seu rosto. Enquanto observava os bordados, pensei na mulher que, num gesto de amor e de coragem, limpou o rosto ensanguentado de Jesus a caminho do Calvário. Verónica deve ter ficado atónita ao ver o seu rosto sofredor impresso no pano. «Olha como me saiu!», disse uma delas, com os olhos a brilhar de satisfação.  Enquanto olhava para a imagem nítida, senti dentro de mim o eco daquela cena antiga nas ruas de Jerusalém. «É Jesus!», sussurrei. «Eu sei!», respondeu-me com um sorriso. Quisemos oferecer um presente a duas amigas no seu 25º aniversário de consagração. A jovem, comovida, olha para o seu trabalho. «Terão sempre diante dos olhos o teu trabalho!», disse eu no meu coração...

A NEGA DO ARCEBISPO

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  O arcebispo católico de Nairobi, Quénia, publicou uma declaração a pedir conformidade com as directivas da Conferência de Bispos Católicos do Quénia (KCCB na sigla em inglês) publicadas cinco dias antes sobre donativos de políticos à Igreja para evitar a sua politização e salvaguardar a independência. A mensagem de Dom Philip Anyolo (na foto) foi publicada um dia depois de a paróquia católica de Soweto, na periferia leste de Nairobi, ter organizado a 17 de Novembro de 2024 uma iniciativa para recolha de fundos. Nesse domingo, a declaração dos bispos foi lida nas missas de todas as paróquias do Quénia. O presidente da República e o governador do condado de Nairobi marcaram presença no acontecimento – quiçá em jeito de provocação – e contribuíram com ofertas no valor de quase 21 mil euros. O presidente prometeu ajuntar outros 23 mil mais um autocarro. William Ruto, presidente desde 2022, ofereceu 600 mil xelins quenianos ao coro e ao Conselho Missionário da paróquia e dois milhões ...

VIAJARES PÚBLICOS

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  A comunidade de Qillenso tem três viaturas ao seu serviço: um Land Cruiser de nove lugares com quase 500 mil quilómetros no corpo; um Land Cruiser de dois lugares e com metade da quilometragem; e um Hilux de cinco lugares ligeiramente menos rodado.  O primeiro e o último estão na garagem. O maior sofreu um acidente e está à espera do dinheiro para o concerto e o motor do mais pequeno necessita de uma peça nova e estamos a recolher fundos para o poder reparar. Com um carro para os três missionários a alternativa são os transportes públicos: motorizadas, tuque-tuques, carrinhas de transporte de passageiros e miniautocarros de «primeira classe», como proclamam orgulhosos na carroçaria apesar de muitos terem passado a idade da reforma. Já os usei a todos. Não gosto das motas, porque me fazem doer a prótese na anca. Os tuque-tuques são os favoritos. Estão concebidos para transportar o condutor no banco da frente e até três passageiros no de trás. Mas isso é, por estas bandas, man...

MULHER BEDUÍNA

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  Conhecemo-la há quase dois anos. Mas só hoje entrámos em sua casa. Uma humilde habitação no deserto da Judeia, feita de chapas, madeira e plástico; frágil ao calor, ao vento e ao frio. Nas visitas anteriores, recebeu-nos num pequeno canto, no exterior da casa, coberto com lençóis velhos. Estendeu um tapete na areia e aquele espaço transformou-se na sala de estar.  Hoje não pode ser assim. Está demasiado frio. Nesta altura do ano, a chuva e o vento gelado sopram por todas as frestas. Por isso, convidou-nos a entrar no seu quarto, um pequeno abrigo quase vazio, onde até o ar se infiltra pelas fendas das paredes e pela porta de cobertor. É uma jovem beduína, mãe de seis filhos, com mãos prodigiosas para bordar. Desde que começámos o curso, em 2023, ela tem sido uma das mais talentosas e empenhadas. No âmbito do projeto «Fios de Paz», as mulheres da aldeia bordam cartões. Ela dá-lhes um toque personalizado. A sua especialidade no bordado são os camelos.  Durante o verão, de...

CHAGAS MINHAS

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Somos humanos: erramos, pecamos, – Confessamos,  compungidos! Somos fracos: chagados, frágeis, anjos feridos, caídos – Afirmamos,  contristados! Dores do meu parto... Nas suas chagas fomos curados! São curativos os estigmas meus? Deixo que o meu pecado cure para ser curado, ame para ser perdoado? A fraqueza faz-se força, o pecado torna-se graça: mar de cristal, fragilidade reparada com fios de ouro de vasos nicados nas mãos amorosas  do Mestre de Kintsugi  que me restaura,  dourado, que me ama como sou: com as minhas feridas e a Sua força, com as minhas sombras  Vê a luz que d'Ele vem, com o meu cair  e o Seu levantar. Morro porque vivo,  vivo porque morro!

A CAMINHO DO MISTÉRIO PASCAL DE JESUS

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Gosto de expressar e viver a Quaresma como um retiro em caminho (como um «road movie»), um recolhimento de quarenta dias que as comunidades católica e ortodoxa fazem para se prepararem para celebrar o Mistério Pascal de Jesus, a fonte, o centro e o propósito da nossa vida cristã. Normalmente, para os exercícios espirituais anuais, vamos para um lugar sossegado e permanecemos em silêncio enquanto meditamos, rezamos e contemplamos a Palavra de Deus, ajudados por um pregador, um diretor ou um livro. A Quaresma é um caminho de quarenta dias – ou cinquenta e quatro, se se pertence ao Rito Etíope das quatro eparquias do Norte – que nos leva das cinzas à vida nova, à participação nos frutos da ressurreição de Jesus. O Papa Francisco, na mensagem que preparou para a Quaresma de 2025, sob o tema «Caminhemos juntos na esperança», escreve: Nesta Quaresma, enriquecida pela graça do Ano Jubilar, gostaria de oferecer algumas reflexões sobre o que significa   caminhar juntos na esperança   e...