26 de abril de 2017

MEMÓRIAS DOS BONS «PERAS»


Decorria o ano de 1950 quando conheci os Missionários Combonianos do Coração de Jesus, que tinham vindo de Itália e haviam escolhido a diocese de Viseu, para sede da sua Ordem, três anos antes, em 23 de Abril 1947.

Os meus primeiros contatos com eles, aos meus 11 anos, tiveram lugar em Repeses nas Eucaristias Dominicais. O então meu Pároco, P.e Amadeu Lopes Gonçalves, entregara-lhes a capelania de Repeses a troco das aulas de português que dava no Seminário das Missões. O bom sacristão, o Sr. José «Loirinho», estava já idoso; e eu, desde cedo comecei a ajudar à Missa aos bons «peras» (nome que era dado aos Combonianos dado usarem ou farta barba ou «cavanhaque»). Eram ricas aquelas celebrações, onde as homilias num português meio italianizado, como, por exemplo, «una arranha»(=aranha) tejia una teiia»… Foi nessa altura que conheci os padres Ferrero, Peano, La Salandra, Calderola,Malaspina, Naldi, Sório… Com eles, nas Eucaristias dominicais, os cristãos passaram a ouvir um jovem a ler, em português, as partes que o celebrante, baixando a voz, lia em latim. E estávamos longe do Concílio Vaticano II.

Inicialmente nas suas bicicletas com proteção de rede para não se prenderem as batinas e, mais tarde nas suas «Cociolo» (bicicletas com motor a petróleo, mudanças de manete no quadro e pedais para os auxiliar nas subidas) aí estavam eles, pontualmente, para as eucaristias dominicais (às 8 horas da manhã) ou semanais (por volta das 6).

Os cristãos praticantes de Repeses, a que se juntavam, em maior quantidade, os de Paradinha, tinham pelos «peras» grande respeito e admiração. De igual modo, eram muito queridos pelo povo cigano, que, nessa altura, ainda nómada, acampava ao abrigo da capelinha de Santa Eulália. A prova desse respeito está nas dezenas dos que, quando o P.e Ângelo de La Salandra, com o seu «Cociolo», teve um desastre na curva de Fail ao regressar de um ato litúrgico em Canas de Sabugosa (hoje Canas de Santa Maria), enchiam a enfermaria do Hospital onde ele ficara internado. Uma cristã mais idosa, numa dessas visitas, ao vê-lo de barba a despontar e cheio de chagas disse: «Parece mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo.»

Eu, que sempre os admirei, aproveitava os meus tempos livres para os ir visitar ao Seminário das Missões. Foi ali que vi o trabalho dos Irmãos a tratar das galinhas «ligorne» e de coelhos de raça, que eu nunca vira, e o cuidado numa agricultura aprimorada. Vi também o primeiro trator, a plantação do pomar e da vinha. Nesses trabalhos mais duros, trabalharam alguns sacerdotes.

No Seminário das Missões, os sacerdotes eram, diariamente, procurados para confessarem, já que os cristãos viseenses os encontravam mais disponíveis. Alguns jovens das escolas viseenses (Colégio da Via Sacra, Escola do Magistério Primário, Liceu Nacional de Viseu, Colégio de Santo Agostinho, Colégio Português, Escola Industrial e Comercial de Viseu e os seminaristas do Seminário Maior) também gostavam de aí se confessar..

A porta do Seminário das Missões estava sempre aberta. Depois de aprenderem melhor a língua portuguesa, muitos desses missionários eram solicitados para pregadores nas festas em diversas paróquias da diocese.

Visitei, desde muito jovem, e por várias vezes, a construção do novo Seminário e a sua capela. Foi lá que conheci os Irmãos Eligio Locatelli e Igino Antoniazzi, mestres pedreiro e carpinteiro, respetivamente. O primeiro acabou por ir para as missões no Brasil; o segundo, encontrei-o em Carapira (Moçambique), já com quase 90 anos, deslocando-se diariamente para a carpintaria da Missão na sua já velha motorizada.

As técnicas por eles usadas na construção do Casa e Seminário, nos anos 48, eram mais aperfeiçoadas que as usadas em Viseu.

A primorosa pintura do retábulo do altar-mor da atual Capela do Seminário foi da autoria do P.e Alfredo Bellini, o mesmo sacerdote que mais tarde pintou um lindo quadro de Pedro a lavar os pés a Jesus e fez a decoração total da Igreja de Carapira. Foi um dos sacerdotes de quem fui muito amigo e a quem fiquei a dever muitos favores de amizade e orientação de vida; tal como aconteceu, entre outros, com os italianos padres Tarciso Zoia, Afonso Cigarini, Miguel Celis, Jorge Cosner…

Os anos da minha adolescência e juventude correram. Vieram os anos em que, no Natal e em Viseu, os Combonianos construíram um gigantesco presépio. Nessa altura, Viseu enchia-se de autocarros para visitarem este admirável presépio.



Trabalhando para e com os combonianos…
No ano de 1964 os alunos do Seminário das Missões, em Viseu, eram cerca de 200, vindos das mais diversas localidades de várias dioceses. O ensino era feito, sob a direção do P.e Gino Centis, com apoio e orientação da Telescola e a monitorização de sete professores (entre os quais a minha esposa e eu.

Os aspirantes a Irmãos, chegaram a Viseu vindos de Moncada, para aqui continuaram a sua formação. Formação que foi feita por Irmãos tecnicamente bem preparados, usando máquinas importadas de Itália, que eram ainda pouco conhecidas por cá. Delas destacamos um automóvel, que serrado ao meio, no sentido longitudinal, permitia aos alunos verem e manobrarem todas as peças que o constituíam. Dava gosto vê-los, com suas mãos sempre cheias de óleo, com grande alegria, seguirem as lições dos Irmão João Grazian e Gaspar Cebola. Ao receber como aluno o Irmão Gaspar Cebola, que aí acabou o Curso Industrial, a Escola Industrial e Comercial de Viseu entrava na vida do Seminário das Missões.

Falar do Irmão Gaspar é recordar o tempo em que batemos à porta dos Combonianos para ajudarem uma equipa de que fiz parte, na transformação do velho Asilo da Infância Desvalida no Internato Viseense de Santa Teresinha. Nessa altura, tomou ele conta da secção masculina do Internato, antes dos utentes serem, por favor, aceites no Lar Escola de Santo António. A ele se ficou a dever o evitar que os utentes durante a noite fossem cometer alguns roubos nas lojas da cidade. Os aspirantes a Irmãos foram também importantes na agricultura do quintal daquela casa.



…Após a minha aposentação

A minha ligação com os Combonianos nunca arrefeceu. Nas minhas horas vagas, como voluntário, deslocava-me ao Seminário para tirar dúvidas de Matemática.

Quando em 1996, estando a minha esposa já aposentada, me aposentei, e estando os nossos filhos com a sua vida orientada, dada a falta de professores de Português, fomos convidados pelo P.e Jeremias Martins, então Provincial dos combonianos em Moçambique, a ir em missão, como voluntários, para o Seminário Interdiocesano de Nampula. A vivência que aí tivemos enriqueceu muito as nossas vidas e as de toda a família.

Hoje, a minha esposa e eu pertencemos à Família Comboniana como Leigos Missionários Combonianos.
Prof. Valente

3 comentários:

egidio heitor disse...

Não sei bem,já, o ano em que entrei no Seminário das Missões:61,62?Tenho como referência participação em procissão na Cidade de Viseu,seguida de grande "Tedeum"Era a perca da India.
Fui o EH 63.Todo o meu enxoval estava marcado a ponto de cruz de cor azul por EH 63.Meu irmão,no ano a seguir, era,com linha de cor vermelha, o JH 85.
Por Viseu,férias no Faleiro e pela Maia passei.Sái para a vida civil,penso que em 1965.
Conheci,convivi,fui educado e instruido,em parte, pelos Combonianos,para além de meus pais no berço , meus professores na escola primária Em Meda.Não era bom em Disciplina,Civilidade,a Rezar e de Aluno assim assim!
Ter passado pelo Seminário foi um difirenciador,foi uma mais valia que me fui útil na vida!Em 1964 mais 200 alunos em Viseu!Inigma: Como se dava de comer a 200 bocas de jovens,4 vezes ao dia?Arte,engenho e a "Providência". Fiquei a conhecer a Senhora "Providência" e a "Vidência" para vida.Egidio Heitor


egidio heitor disse...

Não sei bem,já, o ano em que entrei no Seminário das Missões:61,62?Tenho como referência participação em procissão na Cidade de Viseu,seguida de grande "Tedeum"Era a perca da India.
Fui o EH 63.Todo o meu enxoval estava marcado a ponto de cruz de cor azul por EH 63.Meu irmão,no ano a seguir, era,com linha de cor vermelha, o JH 85.
Por Viseu,férias no Faleiro e pela Maia passei.Sái para a vida civil,penso que em 1965.
Conheci,convivi,fui educado e instruido,em parte, pelos Combonianos,para além de meus pais no berço , meus professores na escola primária Em Meda.Não era bom em Disciplina,Civilidade,a Rezar e de Aluno assim assim!
Ter passado pelo Seminário foi um difirenciador,foi uma mais valia que me fui útil na vida!Em 1964 mais 200 alunos em Viseu!Inigma: Como se dava de comer a 200 bocas de jovens,4 vezes ao dia?Arte,engenho e a "Providência". Fiquei a conhecer a Senhora "Providência" e a "Vidência" para vida.Egidio Heitor


Unknown disse...

História interessante!