ETIÓPIA NA ENCRUZILHADA
Os últimos dez dias de setembro foram assaz críticos para a Etiópia. Primeiro, sete movimentos armados do Tigré, Amara, Oromia, Afar, Somali, Benishangul e Gumuz formaram a Aliança para a Sobrevivência para derrubar o primeiro-ministro Abiy Ahmed. Depois, as forças da Frente de Libertação do Povo do Tigré (TPLF) tomaram os aeroportos de Mekelle (a capital do Estado Regional do Tigré), Axum e Shire, quebrando uma trégua de quatro anos com o Governo.
De facto, de novembro de 2020 até fins de 2022, os rebeldes tigrinos enfrentaram o Exército (que contou com o apoio da Eritreia e das milícias amaras) num confronto que pode ter feito mais de 500 mil mortes. Queriam derrubar Abiy – que em 2018 os afastou do poder que detinham desde 1991. O Partido da Prosperidade de Abiy recebeu quase 90 por cento dos votos nas eleições parlamentares de junho último.
Agora, as dinâmicas inverteram-se: os antigos aliados de Adis Abeba (Eritreus e Amaras) são os parceiros da frente tigrina e a Etiópia acusa o Egipto e o Sudão de apoiarem a revolta. O Governo isolou o Tigré, cortando todas as comunicações.
As batalhas travam-se no Tigré — o Governo entretanto retomou o controlo de Mekelle — e nos vizinhos Estados amara e afar, mas o conflito pode descambar numa guerra regional. Desde outubro de 2023 que o primeiro-ministro Abiy afirma o direito histórico da Etiópia a um acesso direto ao Mar Vermelho, que perdeu em 1993 com a independência da Eritreia. O Exército etíope pode usar a escusa do apoio de Asmara à TPLF para ocupar o vizinho porto eritreu de Assab. Os combates no Norte da Etiópia bem como o reforço dos ataques do OLA (os rebeldes oromos) que forçaram a evacuação temporária da missão de Haro Wato, onde servi de 1995 a 2000, levaram a Unia-o Africana (UA) a exigir o desescalar do conflito e a retoma das negociações.
O Papa Leão juntou a sua voz ao apelo da UA. «Acompanho com profunda consternação a situação em Tigré e nas regiões vizinhas de Afar e Amara, onde as hostilidades voltaram a eclodir. Dirijo o meu apelo sincero a todas as partes para que optem pelo caminho do diálogo», afirmou na última audiência de setembro. Notando que as armas não resolvem os problemas, pediu um compromisso honesto para lançar as bases para uma paz duradoura.
Os bispos católicos, por seu turno, também chamaram à paz e à reconciliação. «A Igreja Católica Etíope lamenta profundamente o conflito armado que se vive atualmente em Tigré, Afar, Amara, Oromia e outras regiões do nosso país», escreveram num apelo pastoral a 1 de outubro. Recordaram que a guerra «serve apenas para aprofundar as divisões e multiplicar o sofrimento. Custa um número trágico de vidas humanas preciosas, inflige graves devastações às comunidades e aos bens e semeia o ódio, o ressentimento e a vingança, que podem perdurar por gerações». Os dirigentes católicos pediram às partes que resolvam as diferenças por meio do diálogo genuíno e à pequena comunidade católica que reforce as súplicas e os jejuns pela paz duradoura.

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