Gosto de expressar e viver a Quaresma como um retiro em caminho (como um «road movie»), um recolhimento de quarenta dias que as comunidades católica e ortodoxa fazem para se prepararem para celebrar o Mistério Pascal de Jesus, a fonte, o centro e o propósito da nossa vida cristã.
Normalmente, para os exercícios espirituais anuais, vamos para um lugar sossegado e permanecemos em silêncio enquanto meditamos, rezamos e contemplamos a Palavra de Deus, ajudados por um pregador, um diretor ou um livro.
A Quaresma é um caminho de quarenta dias – ou cinquenta e quatro, se se pertence ao Rito Etíope das quatro eparquias do Norte – que nos leva das cinzas à vida nova, à participação nos frutos da ressurreição de Jesus.
O Papa Francisco, na mensagem que preparou para a Quaresma de 2025, sob o tema «Caminhemos juntos na esperança», escreve:
Nesta Quaresma, enriquecida pela graça do Ano Jubilar, gostaria de oferecer algumas reflexões sobre o que significa caminhar juntos na esperança e evidenciar os apelos à conversão que a misericórdia de Deus dirige a todos nós, enquanto indivíduos e comunidades.
Estes são os quatro pontos que gostaria de trabalhar em chave missionária, inspirado na mensagem do Papa, aprofundando os Escritos de São Daniel Comboni: (1) caminhar (2) juntos (3) na esperança e (4) em conversão.
CAMINHAR
Francisco escreve que «o lema do Jubileu – “Peregrinos de Esperança” – traz à mente a longa travessia do povo de Israel em direção à Terra Prometida, narrada no livro do Êxodo».
De certa forma, reencenamos anualmente o êxodo israelita através da nossa observância quaresmal: somos chamados a deixar a escravidão do pecado – o nosso Egito – para alcançar a liberdade do Reino de Deus, a terra prometida da justiça, da paz e da alegria (Romanos 14, 7) para aqueles que ressuscitam com Cristo.
Paulo escreve aos cristãos de Roma:
De facto, se estamos integrados nele por uma morte idêntica à sua, também o estaremos pela sua ressurreição. É isto o que devemos saber: o homem velho que havia em nós foi crucificado com Ele, para que fosse destruído o corpo pertencente ao pecado; e assim não somos mais escravos do pecado. (Romanos 6, 5-6).
Jesus foi guiado pelo Pai no seu êxodo pascal. Na Oração Eucarística que pode ser utilizada nas missas para diversas necessidades, proclamamos: «Pai santo, celebrando o memorial de Cristo, vosso Filho, nosso Salvador, que, pela sua paixão e morte na cruz, fizestes entrar na glória da ressurreição e glorificastes, sentando-O à vossa direita».
Assim, também o nosso caminho quaresmal tem de ter Jesus ao volante. O Papa escreve que o Senhor é o nosso guia neste retiro quaresmal: «a difícil passagem da escravidão para a liberdade, desejada e guiada pelo Senhor, que ama o seu povo e sempre lhe é fiel».
Comboni escreve no Capítulo X das Regras de 1871:
[Os candidatos] fomentarão em si esta disposição essencialíssima, tendo sempre os olhos postos em Jesus Cristo, amando-o ternamente e procurando entender cada vez melhor o que significa um Deus morto na cruz pela salvação das almas. (Escritos 2721).
A Quaresma é uma estação contemplativa. Quando o celebrante impôs as cinzas na testa, disse: «Arrependei-vos e acreditai no Evangelho». Estes são os dois pés do nosso caminho quaresmal: o arrependimento e o Evangelho.
A segunda leitura do Primeiro Domingo da Quaresma dizia-nos que «é junto de ti que está a palavra: na tua boca e no teu coração» (Romanos 10, 8). Assim, a Quaresma é também uma viagem interior, uma viagem para o nosso próprio coração, onde Deus está e onde nos fala.
Esta foi também a mensagem que ouvimos na primeira leitura da Quarta-feira de Cinzas: «Mas agora, diz o SENHOR, convertei-vos a mim de todo o vosso coração com jejuns, com lágrimas, com gemidos. Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes» (Joel 2, 12-13).
Para escutar Deus que nos fala ao coração, precisamos de silêncio. Os Gujis têm dois provérbios que sublinham esta necessidade. Dizem: “Cadhiin qaxxamura Waaqaati”, o silêncio atravessa Deus. E ainda: “Cadhiin bobbaa”, o silêncio é descanso.
Nesta viagem em direção à Páscoa, o Papa diz-nos para respondermos a algumas perguntas: «Como me deixo interpelar por esta condição? Estou realmente a caminho ou estou paralisado, estático, com medo e sem esperança, acomodado na minha zona de conforto? Busco caminhos de libertação das situações de pecado e falta de dignidade?»
O medo, a desesperança e a comodidade são três realidades que nos imobilizam e não nos permitem percorrer os caminhos do Senhor. Também podem afetar o nosso serviço missionário e a nossa espiritualidade. Para progredir no nosso compromisso missionário, somos chamados a superar o medo e a desesperança, a sair da nossa zona de conforto pastoral e a experimentar novas formas de viver e pregar a Boa Nova de Jesus. Não podemos viver e anunciar a Boa Nova agarrados a formas velhas.
O Papa convida também os católicos a confrontar a sua vida quotidiana com a dos migrantes e dos estrangeiros «e deixar que ela nos interpele, a fim de descobrir o que Deus pede de nós para sermos melhores viajantes rumo à casa do Pai» – explica. No nosso caso, somos chamados a comparar o nosso estilo de vida com o daqueles que nos rodeiam, especialmente os mais pobres, para podermos fazer causa comum com eles.
JUNTOS
A nossa caminhada quaresmal não é um exercício solitário com o meu querido Deus. Atravessamos a Quaresma como povo de Deus, tal como os israelitas atravessaram o seu êxodo. Nos Atos dos Apóstolos, a Igreja é chamada de Via e os cristãos são os da Via (Atos 9, 2). Assim, através do Sínodo sobre a Sinodalidade, o Papa conduziu a Igreja às suas origens, após um longo caminho de mais de dois milénios.
Escreve: «Os cristãos são chamados a percorrer o caminho em conjunto, jamais como viajantes solitários».
O Iluminismo trouxe, através da filosofia cartesiana, a visão individualista do «cogito ergo sum» – penso, logo existo, fechando-nos nos perigosos meandros da nossa racionalidade individualista e egoísta. Nascemos numa cultura de individualismo narcisista globalizado. O que o Presidente Trump está a fazer nos EUA durante os últimos cinquenta dias é uma expressão desta cultura: A América primeiro. Isto não é novo: durante o Derg, o regime comunista na Etiópia, estava escrito em todas as notas do birr “Ethiopia tikdem”, A Etiópia primeiro.
No entanto, somos mais do que uma simples soma de indivíduos. Fazemos parte de um todo; somos o povo de Deus; somos os seus filhos. O princípio africano do «Ubuntu» – sou porque somos – é uma forma muito inculturada de ilustrar este princípio de que pertencemos uns aos outros, de que somos responsáveis uns pelos outros. O provérbio que diz que «sozinhos vamos mais depressa, juntos vamos mais longe» é outra forma de expressar as bênçãos do viver juntos.
Somos filhos do nosso próprio tempo e podemos sentir-nos tentados a ir sozinhos até ao fim. Talvez porque queiramos ser eficazes nas nossas ações. No entanto, é mais produtivo ser afetivo do que eficaz. Comboni escreve que «o missionário e a missionária não podem ir sozinhos para o Paraíso. Sozinhos irão para o Inferno. O missionário e a missionária devem ir para o Céu acompanhados das almas salvas» (Escritos6655).
Neste caminho conjunto, são os últimos – aqueles com quem Jesus se identifica – que marcam o ritmo. Paulo diz aos cristãos de Corinto «esperai uns pelos outros» (1 Coríntios 11, 33) quando se reúnem para a Ceia do Senhor.
O Papa explica o que é caminhar juntos: «Significa caminhar lado a lado, sem pisar ou subjugar o outro, sem alimentar invejas ou hipocrisias, sem deixar que ninguém fique para trás ou se sinta excluído. Sigamos na mesma direção, rumo a uma única meta, ouvindo-nos uns aos outros com amor e paciência».
O Papa – como bom jesuíta – recomenda-nos que, nesta Quaresma, façamos um exame de consciência sobre a forma como vivemos a nossa convivência. Diz ele: «Nesta Quaresma, Deus pede-nos que verifiquemos se nas nossas vidas e famílias, nos locais onde trabalhamos, nas comunidades paroquiais ou religiosas, somos capazes de caminhar com os outros, de ouvir, de vencer a tentação de nos entrincheirarmos na nossa autorreferencialidade e de olharmos apenas para as nossas próprias necessidades».
Na espiritualidade comboniana, caminhar juntos é também fazer causa comum com as pessoas que servimos como missionários e com quem vivemos. Caminhar juntos é viver juntos. A nossa espiritualidade missionária, motor e energia do nosso trabalho quotidiano, deve ser revista também a esta luz.
Será uma espiritualidade aconchegante, individualista e desligada da vida quotidiana com as suas alegrias e lutas? Para fazermos causa comum com as pessoas com quem vivemos, precisamos de uma espiritualidade assente na realidade local.
A Regra de Vida dos Missionários Combonianos explica que «o missionário sente e vive a sua oração como manifestação do seu empenhamento missionário. Como trabalhador ao serviço do Reino, implora incessantemente “venha a nós o vosso Reino”; solidário com as pessoas, assume os seus desejos e necessidades concretas e reza com elas e em comunhão com toda a Igreja» (Regra de Vida 48). Para isso, temos de cheirar às nossas ovelhas – usando a alegoria do Papa Francisco –, de partilhar as suas vidas, de nos envolver nas suas esperanças e lutas, de celebrar as suas alegrias e realizações.
Temos também de analisar a forma como cooperamos com os outros nas nossas atividades pastorais, rever a forma como praticamos a subsidiariedade, como nos acolhemos uns aos outros, como praticamos a hospitalidade dentro e fora da comunidade.
NA ESPERANÇA
O Papa diz que o nosso caminho comum da Quaresma deve ser feito na esperança, ligando o tempo litúrgico ao Ano Santo Jubilar de 2025 que estamos a viver sob o tema «Peregrinos de esperança».
Ele deseja que a mensagem central do Jubileu – a esperança que não engana (cf. Romanos 5, 5) – «seja para nós o horizonte do caminho quaresmal rumo à vitória pascal».
Na Sequência Pascal, proclamamos com Maria Madalena que «ressuscitou Cristo, minha esperança». Viver na esperança significa ultrapassar os medos, as desilusões, os desafios, as dificuldades, para superar a cultura de morte que escurece o nosso horizonte.
Para viver na esperança, para sermos pessoas esperançosas num mundo desesperançado, temos de manter um coração contemplativo fixo em Jesus. O autor da Carta aos Hebreus exorta os seus leitores:
Mantenhamos os olhos fixos em Jesus, que nos conduz na nossa fé e a leva à perfeição: por causa da alegria que o esperava, suportou a cruz, sem se envergonhar dela, e tomou o seu lugar à direita do trono de Deus (Hebreus 12, 2).
O nosso pai e fundador foi um grande missionário da esperança. No seu leito de morte proclamou: «Eu morro, mas a minha obra não morrerá».
Três meses antes de morrer, escreveu de El Obeid, capital do Cordofão, ao P. Giuseppe Sembianti, seu formador em Verona: «Não perca o ânimo nem a confiança; pense que a obra para a qual trabalha é toda de Deus e que o senhor e eu somos apenas uns ineptos, que, sem a divina assistência, cometeríamos mil vezes mais desatinos» (Escritos 6875).
Comboni sabia que a sua obra era «opus Dei», obra de Deus. Nós sabemos que a nossa missão é «missio Dei», a missão de Deus. Este reconhecimento humilde é a base da nossa esperança. Temos tendência a ser muito possessivos na nossa linguagem, falando da minha missão, do meu povo... No entanto, o ator principal da missão é o Espírito de Deus – como escreveu o Papa São Paulo VI na sua exortação Evangelii nuntiandi. Nós somos apenas os ineptos desatinados de Deus.
EM CONVERSÃO
A Quaresma é um apelo à conversão, como o é toda a nossa vida. «Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: arrependei-vos e acreditai no Evangelho» é a Boa Nova de Jesus, que nos foi recordada através da deposição das cinzas.
Metanoia, a palavra grega para conversão, é entendida como deixar de fazer o mal para fazer o bem. O seu significado literal é para lá do conhecimento, para lá da mente. A conversão é uma viagem interior até ao coração, porque na antropologia bíblica pensamos com o coração e amamos com as entranhas.
O Papa Francisco escreve que o apelo à conversão é o apelo «da esperança, da confiança em Deus e na sua grande promessa, a vida eterna».
E provoca-nos com mais algumas perguntas: «Estou convicto de que Deus me perdoa os pecados? Ou comporto-me como se me pudesse salvar sozinho? Aspiro à salvação e peço a ajuda de Deus para a receber? Vivo concretamente a esperança que me ajuda a ler os acontecimentos da história e me impele a um compromisso com a justiça, a fraternidade, o cuidado da casa comum, garantindo que ninguém seja deixado para trás?»
(Podemos trabalhar estas questões durante o espaço de reflexão pessoal e de oração).
Por outro lado, o nosso serviço missionário é em si mesmo um apelo à conversão das gentes e das suas culturas. D. Comboni viu como objetivo do seu trabalho missionário a conversão dos africanos. Escreveu:
Pense que adquirirá muitos méritos e que uma grande multidão de apóstolos, virgens e negros convertidos o acompanharão triunfalmente ao Paraíso; mas, repito, terá que se realizar em nós e cumprir-se o pati, contemni et mori pro te. Teremos que sofrer, ser desprezados, caluniados (o senhor, não; eu, sim), talvez ser condenados e morrer... mas pelo nosso querido Jesus! (Escritos6664).
O Papa Francisco recorda-nos também que a conversão é um voo que nos empurra para fora da nossa zona de conforto, uma viagem com algumas paragens para nos orientarmos. Sublinha: «Um primeiro apelo à conversão, porque todos nós somos peregrinos na vida, mas cada um pode perguntar-se: como me deixo interpelar por esta condição?»
O Cardeal José Tolentino Mendonça, pensador, poeta e místico que muito aprecio, escreveu que «o meu caminho de conversão é também a minha jornada de aceitação».
Nos Evangelhos, há duas passagens que me impressionam: Jesus diz ao paralítico que se levante, pegue na sua enxerga e caminhe (Marcos 2, 9); e o Ressuscitado conserva as marcas das suas chagas, convidando Tomé a colocar nelas o dedo (João 20, 27). Porquê é que o ex-paralítico precisa da enxerga? Porquê é que as feridas de Jesus não desapareceram do seu corpo glorioso? Porque se tornaram sinais de vitória, de libertação.
Thomaz Halik, teólogo checo e voz muito autorizada na Igreja de hoje, escreveu que se o Senhor ressuscitado não tivesse essas chagas, não era o Senhor.
Refletindo sobre o diálogo entre Jesus e Tomé, na sua segunda aparição no Cenáculo, Halik escreveu: «Jesus identificou-se com todos os pequeninos e com aqueles que sofrem – por isso todas as feridas dolorosas, todo o sofrimento do mundo e da humanidade, são as “chagas de Cristo”. Para acreditar em Cristo, para poder dizer “Meu Senhor e meu Deus”, só o posso fazer se tocar nestas feridas, de que o nosso mundo também está cheio, hoje. Caso contrário, só gritarei “Senhor, Senhor!” em vão e sem sentido».
As Escrituras cristãs – citando o livro de Isaías – proclamam: «Pelas suas chagas fostes curados» (1 Pedro2, 24). Fomos curados através das feridas de Jesus. O que fazemos com as nossas feridas e com as das pessoas com quem partilhamos a vida? Todos nós somos pessoas feridas que precisam de cura. Será que nos deixamos curar pelas feridas dos outros? O que é que eu faço com os meus próprios pecados? Confio-os a Deus para que, no seu amor misericordioso, os transforme em graça? Ou varro-os para debaixo do tapete do medo, da vergonha, da autoimagem?
Para concluir esta breve reflexão, rezemos com as palavras de Santa Teresa de Ávila – «Teresa la grande», como por vezes lhe chamam – com que o Papa conclui a sua mensagem:
«Espera, espera,
que não sabes quando virá o dia nem a hora.
Vela com cuidado,
que tudo passa com brevidade,
embora o teu desejo
faça o certo duvidoso e longo o tempo breve.»
Haro Wato, 15 de março de 2024 – Dia de Recoleção da Zona Guji