Jesus tinha uma matemática própria, não euclidiana. Pedro perguntou-lhe se devia perdoar até sete vezes ao irmão que o ofendesse – sete é o número bíblico perfeito – e ele responde: «Não te digo até sete, mas até setenta vezes sete».
Jesus não disse a Pedro para perdoar quatrocentos e setenta vezes. Era complicado manter o registo de tanto perdão. Disse-lhe para perdoar sempre.
Jesus explica o ensinamento com a parábola de um rei que perdoou dez mil talentos a um devedor.
Nas tabelas cambiais daquele tempo, um talento era igual a seis mil denários. O denário era a moeda romana para pagar uma jorna de trabalho. Dez mil talentos são sessenta milhões de denários ou duzentos mil anos de trabalho.
Uma dívida colossal. Impagável.
Jesus contou que, porque o homem não tinha com que pagar o senhor mandou-o vender como escravo juntamente com a família para amortizar uma pequenina parte da dívida. Para não ser uma perda total.
O devedor pediu paciência ao rei para pagar a dívida. Este teve compaixão, foi tocado nas entranhas – é o significado do verbo grego –, sofreu com o servo e perdoou-lhe a dívida.
Na antropologia bíblica pensamos com o coração e amamos com as entranhas.
Tendo recebido misericórdia, o servo saiu do palácio e encontrou um colega que lhe devia cem denários, pouco menos de quatro meses de trabalho.
Uns trocos se compararmos cem denários com dez mil talentos...
Que fez o devedor perdoado? Segurou o colega, apertou-lhe o pescoço, e gritou: «Paga o que me deves».
O colega de servidão pediu paciência para pagar a dívida.
Em vez de partilhar com o companheiro a compaixão que recebera do seu senhor, mandou-o prender.
Agora entram na cena os companheiros. Não gostaram do que viram e, tristes, denunciaram o servo ao rei.
Este chamou-o de volta e disse-lhe: «Servo mau, eu perdoei-te tudo o que me devias, porque mo pediste. Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?»
Indignado, o senhor entregou-o à justiça.
Jesus arremata a parábola com uma frase tremenda: «Assim procederá convosco meu Pai celeste se cada um de vós não perdoar a seu irmão de todo o coração».
A parábola de Jesus ilustra alguns pontos importantes.
Recebemos misericórdia para sermos misericordiosos. Deus é paciente e perdoa-nos para perdoarmos aos nossos devedores. A experiência de perdão que fazemos deve tornar-nos perdoadores.
O verbo perdoar vem do latim perdonare. Per indica completamente. Donare significa dar, doar. Perdoar é dar sem medida.
Jesus, no sermão do monte, proclama felizes os misericordiosos porque alcançarão misericórdia (Mateus 5:7).
E deixa um desafio: «Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso» (Lucas 6:46).
O nosso Pai misericordioso é a medida da nossa misericórdia. Melhor, podemos ser misericordiosos porque Deus é misericordioso para connosco.
O nosso Pai é o rei, o senhor da parábola: alguém que sofre connosco, com as nossas dores e faltas, com as nossas dívidas, que nos perdoa do coração.
O perdão faz bem a quem perdoa e a quem é perdoado. Cria um vínculo solidário, cordial, e liberta o coração ofendido. Ao perdoar pomos se lado a carga da ofensa, aligeiramos o nosso viver.
Por outro lado, sendo misericordiosos com os que nos ofendem também temos de aprender a ser misericordiosos connosco próprios e perdoar-nos os nossos fracassos, a nossa fragilidade, a nossa imperfeição.
Faz bem recordar que, quando rezamos o Pai-nosso, a oração que o Senhor nos deixou, fazemos um contrato com o Pai: «Perdoai as nossas ofensas como nós perdoamos a quem nos tem ofendido».
O perdão é circular: Deus perdoa-nos porque perdoamos aos outros e – ajunto – porque nos perdoamos a nós próprios. Ou, de outra maneira, o perdão vem de Deus e chega ao outro através de mim, através do meu perdão .
Que assim seja. Sempre!

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