25 de fevereiro de 2026

EDUCAR NO MEIO DA GUERRA


No meio da guerra que persiste no Sudão, os Missionários Combonianos continuam o seu labor de educação da juventude, cientes de que assim eles podem sonhar com um futuro melhor para o país da África Oriental.

Ahlam tinha 18 anos quando deixou a sua casa nos Montes Nuba, no sudoeste do Sudão, para estudar enfermagem no Colégio Comboni de Ciência e Tecnologia (CCST na sigla em inglês), a universidade fundada pelos combonianos em Cartum, a capital do país. Estávamos em Junho de 2022 e ela encarava a aventura com entusiasmo e o desejo de servir a sua comunidade como enfermeira.

A 15 de Abril de 2023, a guerra rebentou entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF), uma poderosa milícia com mais de cem mil soldados que tentou tomar o poder. Cartum tornou-se num campo de batalha feroz e Ahlam, os colegas, os funcionários do CCST e quase todos os missionários fugiram para salvar a vida. 

A guerra entre as SAF e as RFS, que, entretanto, alastrou a outras regiões do Sudão, fez mais de 11 milhões de deslocados internos, 4 milhões de refugiados e 21 milhões de pessoas malnutridas. Deixou 10 milhões de crianças fora da escola e 87 por cento dos estudantes universitários foram forçados a abandonar os estudos.

Ahlam refugiou-se em Kadugli, a sua cidade natal, no estado do Cordofão. 

Em Janeiro de 2024, o CCST retomou as suas actividades no espaço digital, a partir de Porto Sudão, uma cidade junto ao Mar Vermelho. Os combonianos já dirigiam a paróquia, uma escola secundária que, com a chegada dos deslocados, tem 900 alunos, e quatro escolas primárias nos arredores, onde se fixam os que fogem da violência da guerra. Essas escolas têm 2500 alunos. 

O CCST sofreu uma transformação digital acelerada para oferecer aos estudantes e professores, que a guerra dispersou pelo país e no estrangeiro, a oportunidade de prosseguirem os estudos académicos. Esta alternativa é uma luz no fundo do túnel e um vislumbre de esperança no meio da barbárie da guerra que conta com quase três anos.

O curso de enfermagem, porém, exige aulas práticas, primeiro no laboratório de enfermagem e, depois, em instalações de saúde. O CCST assinou um acordo com o Ministério da Saúde do Estado do Mar Vermelho e os estudantes de enfermagem no fim de cada semestre viajam para Porto Sudão para os respetivos estágios.

Estávamos em Agosto de 2025. Ahlam deveria sair de Kadugli para Porto Sudão. Porém, a cidade tinha sido cercada pelo Exército de Libertação do Povo do Sudão-Norte (SPLA-N), uma melícia aliada das RSF. 

Ahlam estava decidida a fazer tudo para continuar os estudos. Partiu com pouca bagagem e um telemóvel, usado para fazer chamadas e pagamentos. Caminhava e apanhava o autocarro à vez para evitar os postos de controlo do SPLA-N. Depois de lhes escapar, tendo dormido em pátios de escolas que são os abrigos para os deslocados, chegou à zona controlada pelas RSF, conhecidas pela violência. Foi presa e trancada num quarto. Pensou que a iriam violar. Mas defendeu-se, oferecendo algumas informações em troca da autorização para seguir viagem.

Finalmente, chegou a El Obeid, 300 quilómetros a norte de Kadugli, a primeira cidade sob o controlo das SAF. Pôde enfim dizer abertamente que ia para Porto Sudão, a mais de 1000 quilómetros de distância para norte, para continuar os estudos. 

Ahlam chegou em Novembro. Perdeu o período de estágio clínico, mas continuou a estudar e a capacitar-se para servir uma comunidade que sofre com a violência da guerra. 

Em Dezembro, os combonianos regressaram a Cartum. Os desafios que encontraram são imensos devido à destruição da guerra nas paróquias e escolas. O CCST necessita de investimentos avultados para voltar a acolher e formar os milhares de jovens que o frequentavam. 

Estamos gratos pela ajuda e apoio da diocese da Santarém através da renúncia quaresmal à missão da Igreja neste país devastado pela guerra, onde servimos através da educação, da saúde e do cuidado espiritual e pastoral.

P.e Jorge Naranjo Alcaide

Missionário Comboniano

Director da Universidade Comboni de Ciência e Tecnologia



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