4 de abril de 2025

VIAJARES PÚBLICOS

 



A comunidade de Qillenso tem três viaturas ao seu serviço: um Land Cruiser de nove lugares com quase 500 mil quilómetros no corpo; um Land Cruiser de dois lugares e com metade da quilometragem; e um Hilux de cinco lugares ligeiramente menos rodado. 

O primeiro e o último estão na garagem. O maior sofreu um acidente e está à espera do dinheiro para o concerto e o motor do mais pequeno necessita de uma peça nova e estamos a recolher fundos para o poder reparar.

Com um carro para os três missionários a alternativa são os transportes públicos: motorizadas, tuque-tuques, carrinhas de transporte de passageiros e miniautocarros de «primeira classe», como proclamam orgulhosos na carroçaria apesar de muitos terem passado a idade da reforma.

Já os usei a todos. Não gosto das motas, porque me fazem doer a prótese na anca.

Os tuque-tuques são os favoritos. Estão concebidos para transportar o condutor no banco da frente e até três passageiros no de trás. Mas isso é, por estas bandas, manifestamente um subaproveitamento da viatura, um desperdício de espaço. Já me sentei com mais oito e até nove pessoas – condutor incluído – nalguns riquexós motorizados que a Índia deu ao mundo.

Alguns motoristas trazem na pequena bagageira uma tábua para colocar debaixo do seu assento e assim melhor acomodar três pessoas à frente. O banco de trás é para três passageiros, mas como os etíopes são magros, onde cabem três também cabem quatro – eu estrago a equação, mais dois – um de cada lado, de pé, rabos para fora – e entre os joelhos há espaço para mais dois ou três inclinados para a frente. 

O problema maior é o ar condicionado que funciona à temperatura ambiente: quente nas terras baixas e frio e muito arejado nas altas. Já apanhei algumas constipações à sua conta.

E a segurança! Com o condutor «espremido» entre dois passageiros mais alguns sacos de cereais ou outros produtos no chão, a condução é difícil e, às vezes, acidentada. Quando um tuque-tuque se despista lamentavelmente há mortes pela certa. Até porque os pilotos gostam de acelerar os seus bólides de três rodinhas.

Viajar nas carrinhas e camionetas de passageiros é mais quente e protegido, mas também tão apertado como nos tuque-tuques que aqui chamam de Bajaj, mesmo que seja fabricado pela TVS, que é concorrente da Bajaj. No fundo, é fazer a experiência de uma lata de sardinhas onde há sempre espaço para mais uma mesmo com a cabeça de fora.

O facto de a Etiópia ter vindo a experimentar problemas com o abastecimento de combustíveis também nos «empurra» para os transportes públicos quando o nível do gasóleo está demasiado baixo no depósito do todo-o-terreno. 

Não é clara a razão para os problemas com a distribuição de carburantes. O governo defende-se, apontando o dedo ao contrabando de combustíveis. São mais caros nos países vizinhos e os camiões cisternas acabam por lá. Por isso, quer colocar aparelhos identificadores de posicionamento para saber por onde andam e deixar de subsidiar os combustíveis.

Os postos de abastecimento estão em construção por todo o lado – e muitas vezes no meio de nada – mas a falta de gasóleo e gasolina faz-se sentir até em Hawassa, uma grande cidade onde alguns proprietários acabaram na prisão por contrabando.

Há quatro anos, um litro de gasóleo custava 28 birr (menos de 50 cêntimos do euro). Esta semana já passou os 110 (cerca de 85 cêntimos – no ano passado o birr foi desvalorizado para metade). Quando custava 100, antes do último aumento, na cidade vizinha – que não tem nenhum ponto de venda oficial – estava a 125 no mercado negro. A gasolina? Essa custa o dobro! Os tuque-tuques precisam de abastecimento local constante.

Viajar de transportes públicos pode ser arriscado, mas é interessante. As pessoas que não me conhecem geralmente ficam intrigadas por eu falar guji, a sua língua. Costumo explicar que sou guji como eles, mas quando nasci lavaram-me com lixívia e estragaram-me a pele!  Dá para dar uma boa risada – que sempre faz bem em ambientes tão acanhados – e pode ser ponto de partida para outras conversas.

Depois, há condutores que se recusam a aceitar o meu pagamento – aqueles que me conhecem – ou outros passageiros que me pagam o bilhete. Outros, tentam inflacionar a corrida. Da última vez que fui ao banco a Irba Muda, uma viagem de 25 quilómetros, paguei 70 birr pela ida. Na volta, outro condutor queria 150! Chamo-lhe a taxa da pele, que é bastante comum na Etiópia: os estrangeiros pagam mais. Paguei 80.