10 de junho de 2026

COMBONIANO RECEBE NOBEL DOS MISSIONÁRIOS


O missionário comboniano italiano padre Diego Dalle Carbonare, Superior Provincial dos Missionários Combonianos no Egito-Sudão, foi distinguido com o Prémio Cuore Amico 2026 na categoria Religiosos pela Associação Missionária Cuore Amico Fraternità ETS.

O galardão é por vezes designado como o «Nobel dos Missionários».

No comunicado oficial, datado de 5 de junho de 2026, a Associação sublinha que o prémio foi atribuído ao padre Dalle Carbonare pelo seu empenho missionário no Sudão, num contexto marcado pela guerra, pelo sofrimento e por graves emergências humanitárias. 

O prémio valoriza em particular o trabalho de coordenação e apoio às comunidades missionárias combonianas que continuam presentes ao lado da população, através de atividades pastorais, educativas e caritativas em favor das pessoas deslocadas e mais vulneráveis.

Instituído há 36 anos por Don Mario Pasini, sacerdote e jornalista de Brescia, o Prémio Cuore Amico é considerado um dos mais importantes prémios missionários italianos.

É atribuído anualmente a sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos que se distinguem no serviço aos mais pobres.

O prémio prevê a atribuição de 50 000 euros, destinada a um projeto de relevância social da Província Comboniana no Sudão. 

A cerimónia de entrega terá lugar a 17 de outubro de 2026 na Igreja de San Cristo, em Brescia, Itália.

Este reconhecimento representa um sinal de apreço pelo empenho dos missionários combonianos que, apesar das dificuldades e da instabilidade no Sudão, continuam a testemunhar a proximidade da Igreja às populações mais afetadas pela crise. 

Este prémio é motivo de alegria para toda a família comboniana e encoraja a prosseguir com renovada esperança o serviço de proximidade, solidariedade e anúncio do Evangelho junto das populações mais provadas pela guerra e pelas suas consequências.

8 de junho de 2026

ISIRO (RD CONGO): GUERRA E FUGA EM MASSA





 

Na madrugada de 30 de maio de 2026, a cidade de Isiro, a capital e maior cidade da província de Alto Uele, no norte da República Democrática do Congo, foi despertada pela chegada em massa de deslocados que fugiam dos terroristas. A onda ruidosa, vinda de cerca de 125 quilómetros a leste, atravessou dezenas e dezenas de aldeias na floresta. Impelidos pelo medo, encheram durante vários dias a grande estrada internacional que liga Isiro ao Uganda e procuraram refúgio na capital da província.

O governo provincial foi apanhado de surpresa. Acreditava-se que a guerra era o destino dos povos do Leste e do Nordeste do país, não no Norte.

Além disso, todos acreditavam que os reforços militares enviados para Gombari (a duas centenas de quilómetros de Isiro) e para Mungbere (a 125 quilómetros) eram suficientes para dissuadir os guerrilheiros que, ao que parece, vêm do Nordeste. A estratégia da guerrilha pôs a nu a desorganização e a fraqueza das forças do governo.

 

Acolhimento e necessidades

As famílias de Isiro foram as primeiras a abrirem-se aos deslocados num admirável impulso de acolhimento. Famílias de si já numerosas acolheram dez, 15 e até 20 recém-chegados.

Perante a urgência, os serviços humanitários e de solidariedade do governo provincial pediram a disponibilização do vasto complexo escolar de Ntumba para acolher os deslocados sem familiares em Isiro. O fluxo de chegadas continuou durante toda a semana, devido às notícias e rumores de assassinatos e violências cometidos em Difolo e Ndubala, localidades na estrada para Isiro. O Diretor da Cáritas diocesana notifica que os seus serviços registaram mais de dez mil deslocados.

A 2 de junho, o governo provincial lançou um apelo ao governo central de Kinshasa: «Os meios de que dispomos são muito limitados e insuficientes para tantas pessoas, num prazo tão curto. E ninguém sabe dizer quanto tempo isto vai durar».

Dois dias depois, a Assembleia Provincial do Alto Uele enviou uma delegação de quatro deputados à capital, Kinshasa, para solicitar ajuda humanitária e o reforço significativo de militares.

Os deslocados são também acolhidos em conventos e paróquias católicas e protestantes de Isiro.

Na paróquia católica de Santa Ana, onde trabalho, prestamos ajuda a dois níveis: acolhimento nas nossas instalações e apoio às famílias que abriram os seus corações e portas àqueles que, partindo à pressa, chegaram sem quase nada. Atualmente, acolhemos 140 pessoas na nossa casa e apoiamos 40 famílias com arroz e feijão.

Nas visitas ao centro de acolhimento de deslocados Gossamu, que, devido às atividades escolares, substituiu o complexo Ntumba, colaborámos com alimentos, sabão, cordas secar a roupa — que, de outra forma, seria estendida no chão — e outras ajudas úteis ao funcionamento do centro. Em plena época de exames, as escolas, sob a orientação do ministério provincial competente, estão a fazer tudo o que é necessário para que os alunos deslocados não percam o ano letivo.

 

Acompanhamento 

Praticamente todos os católicos das 40 comunidades espalhadas pela floresta e savana estão em Isiro. Assim, é natural que lhes prestemos todo o tipo de apoio: escuta, sacramentos, locais para ficar, assistência médica no local e, nos hospitais, para os mais graves. Para as crianças há futebol, catequese e oração.

Visitamos também as famílias, nos bairros, seja para rezar com os doentes, seja para estar com os deslocados. Lá, proclamamos a Palavra de Deus e rezamos juntos para que o conforto que recebemos do Senhor os conforte e ilumine os seus olhos e os seus corações.

Aos domingos, celebro a Eucaristia no centro de acolhimento Gossamu, que abriga algumas centenas de pessoas. A celebração é sempre um grande conforto, tanto para os católicos como para os protestantes. Vi a mesma alegria nos deslocados hospitalizados na zona oeste de Isiro.

A paróquia de Santa Ana é a mãe espiritual da maioria dos deslocados. Ela estende-se, de facto, para leste até Ndubala e Mungbere e, para norte, chega a Elimba, nas margens do grande rio Bomokandi, atravessado por uma ponte, destruída há décadas. Em Elimba, a comunidade mais distante da paróquia, os terroristas acabaram de matar várias pessoas que se dedicavam à prospeção artesanal de ouro. A grande aldeia de Ndubala também foi palco de violência e morte.

 

O futuro

Todos se perguntam quanto tempo vai durar esta violência. Entretanto, a frágil economia das famílias desmoronou-se: das famílias de acolhimento, incapazes de sustentar tantas bocas, e dos deslocados que deixaram tudo para trás.

Os campos, repletos de feijão e amendoim prontos para a colheita, para depois receberem a sementeira do arroz, foram abandonados. Todo o gado foi perdido. As casas foram incendiadas. Tudo, tudo se esfumarou. Foi-o também para o Sr. Martin, catequista titular de Ndubala, refugiado na paróquia de Santa Ana, com a mulher e filhos. «Já não temos nada», lamenta a esposa, banhada em lágrimas.

Os guerrilheiros, de facto, ao chegarem às aldeias desertas, queimam as casas e os estabelecimentos comerciais. Se encontram alguém que se recusou a fugir, matam-no. Por isso, mesmo aqueles que fugiram para Isiro das aldeias mais próximas, têm medo de lá ir buscar alguma coisa. O espectro da fome já se sente, ameaçador. Precisamos urgentemente de ajuda, para que a fome e as doenças não tornem ainda mais sombria a vida destas irmãs e irmãos, e a nossa com eles.

P. Claudino Ferreira Gomes

Missionário Comboniano

1 de junho de 2026

A GUERRA DOS ELEFANTES


O Sudão entrou no quarto ano de uma guerra civil devastadora e sem tréguas entre dois generais. Os civis são as vítimas maiores desta crise ignorada. 

Nota um ditado africano que, quando dois elefantes lutam, é o capim que sofre. O símile ilustra perfeitamente o que se passa no Sudão desde 15 de Abril de 2023 quando, em Cartum, a capital do país, forças do Exército (SAF), comandado pelo general Abdel Fattah al-Burhan, e paramilitares das Forças de Apoio Rápido (RSF) chefiadas pelo general Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido por Hemedti, entraram em confronto directo pelo poder que dividiam desde o golpe de Estado de Outubro de 2021. As RSF vieram dos janjaweeds do Darfur transformados em força pretoriana do ditador Omar al Bashir, deposto em 2019. Essas milícias árabes, que controlam muitas minas de ouro no país e contam com o apoio dos Emirados Árabes Unidos (EAU), ocuparam Cartum e rapidamente tomaram conta de infra-estruturas críticas no país.

Entretanto, o Governo mudou-se de Cartum para Porto Sudão, no Norte da costa do mar Vermelho. Agora, Cartum voltou ao controlo do Exército, mas é uma cidade esventrada. O país, esse está dividido duas partes: o Oeste (incluindo o Darfur) controlado pelas RSF e o Leste pelas SAF. Outros grupos armados aliaram-se aos beligerantes.

O resultado da catástrofe humana que desceu sobre o Sudão é devastador: mais de 150 mil mortos; 14 milhões de deslocados (incluindo mais de quatro milhões que procuraram refúgio nos países vizinhos); 21 milhões vivem sob a ameaça da fome; 33,7 milhões necessitam de ajuda humanitária urgente. A violência sexual, sobretudo contra mulheres e meninas, é usada como arma pelas partes em confronto, acusadas de massacres e crimes de guerra. A sociedade civil organizou-se numa rede de voluntários que apoiaram mais de 900 mil pessoas com comida, medicamentos e um tecto em 18 Estados do país.

A guerra civil ameaça extravasar as fronteiras do Sudão: as RSF são apoiadas pelos EAU, pelo Sudão do Sul, pela Líbia e pela Etiópia – que permitiu a criação de um campo de treino no Oeste do país – enquanto o Exército conta com o apoio da Arábia Saudita, do Egipto e da Eritreia.

O Sudão é Terra Santa dos Combonianos. O congolês padre Franck Mandozi viveu por dentro os dias difíceis dos combates por Kosti, a missão onde serve na margem do Nilo Branco. Os missionários decidiram manter-se na cidade mesmo com a guerra à porta. «Foi um sentimento contraditório: por um lado, a alegria de testemunhar o Evangelho num momento difícil, marcado por confusões, medos e incertezas; por outro lado, o peso de tantas responsabilidades e a situação crítica em que se encontravam as pessoas, que precisavam de assistência diária», explicou. Entretanto, os Combonianos voltaram para Omdurman, capital administrativa, para reabrir a missão de Masalma, que servem desde 1899. As outras duas comunidades de Cartum (a sede provincial e o Comboni College) exigem obras avultadas para voltarem a funcionar.