12 de março de 2018

INQUÉRITO «ALÉM-MAR»


Se é leitor da revista missionária Além-Mar, por favor, colabore connosco e dedique dois minutos a responder a este inquérito AQUI.

Obrigado pela sua visita e pelos minutos que dedica a preencher este questionário. Completá-lo vai-nos ajudar a obter os melhores resultados para a edição da revista Além-Mar.

Obrigado!

11 de março de 2018

R.D. do Congo: APELO VIBRANTE



 Eugène MUHINDO Kabung

«Todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!» (Mt 25:40)

Porque é que me persegues, porque é que me matas? Não pertencemos todos à mesma natureza humana? Haverá ainda um pouco de humanidade? É certo que o sofrimento é inerente à humanidade, porque nascer já é entrar no sofrimento (Schopenhauer). No entanto, sem pretender omitir esta afirmação, o nosso olhar para com o outro deve nos desafiar a viver o dom do irmão, irmã. Desta forma, longe de persegui-lo, massacrá-lo, sequestrá-lo, é humano partilhar e promover a cultura da paz.

O que é que realmente está acontecendo no Congo, particularmente em Kinshasa, Lubero e especialmente Beni? Não podemos ficar indiferentes quando as pessoas são mortas, violadas sequestradas. Quem é o pai que se alegra com a morte de seus próprios filhos e seu infortúnio? A não ser que seja um sádico, tornando-se como aqueles animais que comem os seus próprios pequeninos.

A realidade que se está vivendo na República Democrática do Congo é trágica e podemos perguntar-nos que legado estamos a deixar para as gerações futuras, ao semearmos todos os dias a semente da vingança. Com certeza que não é apenas aqui no Congo, mas, em tantas outras partes do mundo que sofre de constantes guerras e estupros, como no Sul do Sudão. É horrível, o que se está a passar na província do Norte do Kivu (RD Congo) e em particular nas cidades Beni e Lubero de onde sou natural: massacre de populações, violações de mulheres e crianças, raptos de crianças para fazer delas crianças-soldados. Desde 2009 até hoje este fenómeno aumenta de dia para dia. Desde então, vive-se autênticas barbaridades, onde muitas famílias foram reduzidas e encontram-se num estado de pobreza e luto. Na minha família por exemplo em menos de um ano perdemos quatro membros, todos eles raptados e deles não há notícias. O mais certo é que foram mortos à machadada ou com machetes ou com outro tipo de armas brancas nas florestas vizinhas como tem acontecido com centenas de pessoas. Pergunto-me para que servem os 17 000 soldados da ONU (MONUSCO). O número de viúvas, de crianças órfãs aumenta de dia para dia, famílias inteiras são exterminadas.

Quero deixar-vos o testemunho de uma criança que encontrei numa família de acolhimento: «Eu chamo-me Ali, nasci e cresci em Eringeti. Os meus pais são agricultores. O meu pai tem um moinho. Numa certa tarde em que o pai tardava em regressar do moinho, uma multidão de homens e mulheres, jovens altos, uns vestidos de preto e outros de branco entram na nossa casa. A minha tia estava na cozinha, a minha mãe no quarto, o meu tio na sala de entrada, eu e meus irmãos junto da nossa tia. Estes homens obrigaram-nos a partir com eles. Quando partimos, um deles colocou-se sobre os meus ombros e perguntou-me como me chamava, eu respondi-lhe que me chamava Ali. Eles tinham catanas, machados, martelos, etc. Quando chegámos junto de uma bananeira, longe do nosso bairro, começaram a massacrar a gente. Então eu chorava… chorava… Sim, chorava. Eles deixaram-me junto de uma mulher toda enxovalhada e suja. Eu pensava que era a minha mãe. Então eu chamava: Mãe, mãe, mãe… Oh mãe, tu dormes muito, mãe eu tenho frio, cobre-me, mas a mãe não respondia. Durante toda a noite eu chorava pela mamã. Então pela manhã cedo um senhor apercebeu-se que eu chorava pela mamã. Este senhor estava com medo e correu de volta para me encontrar e levar-me dado que eu me encontrava no meio das pessoas que tinham sido mortas. As minhas roupas estavam banhadas de sangue. Então, a esposa deste senhor vestiu-me e deu-me de comer. Por fim reconheceu minha identidade.

Quando meu pai chegou (...) um dos meus irmãos chegou a casa, trouxe a mensagem de outros mortos: mãe, tia, tio e irmãos, e aqueles que ele não conhecia. Eram dez horas da manhã. Então meu pai, perturbado, chamou um seu amigo da localidade de Beni. Ele veio ter connosco após os enterros. Eu continuava a chamar e chorar: Mamã, mamã, mamã… A minha morreu desta maneira e o meu pai está doente.»

Podemos imaginar o sofrimento desta criança e o trauma que se seguiu. O testemunho desta criança nos mostra o sofrimento de milhares de crianças que viram morrer as suas mães e mães que viram morrer os seus filhos de forma horrorosa e indiscritível.

Quero deixar um apelo vibrante a toda a humanidade para que o fogo da caridade possa acender-se em cada pessoa a fim de podermos construir um mundo mais humano e fraterno. Quem és tu que matas o teu irmão? Recorda-te que «todos os que lançam mão da espada pela espada morrerão».

A mensagem do Papa Francisco para a Quaresma deste ano interpela-nos a estar atentos aos profetas da mentira, citando a passagem de Mt 24,12: «Porque se multiplicará a iniquidade, vai resfriar o amor de muitos». Cada um interrogue-se o que está fazendo pela paz no mundo. E assim, ouça, veja e aja. Que a misericórdia de Deus converta os inimigos da paz.

Que Cristo seja o nosso modelo. E que Maria e José intercedam por este povo sofredor.

Kisangani, 09/03/2018 
Eugène MUHINDO Kabung, 
Postulante comboniano

1 de março de 2018

LIDERANÇA EXCEPCIONAL


Fundação distingue ex-presidente da Libéria.


A Fundação Mo Ibrahim honrou Ellen Johnson Sirleaf, ex-presidente da Libéria, com o Prémio Ibrahim 2017 para a Excelência na Liderança Africana.

Numa citação de treze parágrafos, a Fundação explica que «confrontada com desafios renovados e sem precedentes, Ellen Johnson Sirleaf demonstrou uma liderança excepcional e transformadora» durante doze anos à frente da república mais antiga da África.

A laureada tem uma história de vida notável: nasceu há 79 anos em Monróvia, a capital liberiana; formou-se em Economia na Libéria e em Harvard, nos Estados Unidos; foi ministra das Finanças; viveu em detenção domiciliária e foi presa; foi exilada no Quénia e nos EUA; dirigiu o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento para a África; trabalhou no Banco Mundial.

Perdeu as presidenciais de 1997 para Charles Taylor e ganhou as de 2005 ao ex-futebolista George Weah, sendo a primeira presidente africana eleita. Conduziu a Libéria dos horrores de catorze anos de guerra civil (que fez 250 mil mortos) para a democracia. Conduziu o processo de reconciliação nacional, alistou a ajuda de grandes organizações humanitárias e atraiu investimento estrangeiro.

Em 2011, partilhou o Prémio Nobel da Paz com outras duas laureadas e conquistou o segundo mandato presidencial. O Comité Nobel quis distinguir a presidente Sirleaf por «salvaguardar a paz, promover o desenvolvimento económico e social e por reforçar a posição das mulheres».

É esta liderança que a Fundação Mo Ibrahim quer reconhecer e celebrar com o prémio que concedeu à ex-presidente liberiana: «Durante doze anos no cargo, Ellen Johnson Sirleaf pôs os alicerces sobre as quais a Libéria pode ser agora construída. No processo, ela restaurou a dignidade dos Liberianos e o orgulho do país.» E continua: «Manteve firmemente as suas prioridades e a sua determinação para ter êxito em nome do povo da Libéria.»

Mais benquista no exterior que no seu país, a «Dama de Ferro» africana enfrentou algumas dificuldades: apoiou numa eleição o senhor da guerra Charles Taylor; foi acusada de corrupção e nepotismo (empregou os filhos em lugares-chave do governo); dias antes de terminar o mandato, o seu partido expulsou-a, porque apoiou George Weah nas presidenciais de 2017 em vez de fazer campanha pelo seu vice-presidente Joseph Boakai. E teve de lidar com a grave epidemia do vírus de ébola que matou quase cinco mil liberianos entre 2014 e 2015 e afectou severamente a economia nacional. Mas, para a Fundação Mo Ibrahim, estes reveses não minoram a liderança de excelência da senhora Sirleaf.

Ellen Sirleaf junta-se à galeria dos líderes laureados pelo Prémio Ibrahim que inclui Hifikepunye Pohamba da Namíbia (2014), Pedro Pires de Cabo Verde (2011), Festus Mogae do Botsuana (2008) e Joaquim Chissano de Moçambique (2007). Nelson Mandela recebeu o prémio a título honorário em 2007. E embolsou cinco milhões de dólares americanos pagos em prestações durante dez anos, mais 200 mil por ano depois de dez anos.

O prémio foi instituído por Mo Ibrahim, magnata anglo-egípcio das telecomunicações, para distinguir e promover a excelência na liderança africana.

20 de fevereiro de 2018

Bispos: ABERTURA SOLIDÁRIA


Os bispos das 21 dioceses de Portugal publicaram as respetivas mensagens para a Quaresma, exceto Viseu, e indicaram a quem se vai destinar o produto das renúncias quaresmais dos diocesanos. A maioria manifestou uma abertura de horizontes que importa assinalar.

Assim:
  • Viana do Castelo reparte as entradas pelas obras na catedral e o financiamento de um hospital no Gana; 
  • Braga destina o produto ao Fundo Partilhar com Esperança e à missão de Ocua, em Pemba (Moçambique); 
  • Lamego contempla as obras no seminário para o adequar à formação pastoral e as vítimas da guerra no Kivu (RD do Congo); 
  • Porto reparte a pecúnia com Fundo Solidário Diocesano e a Guiné-Bissau; 
  • Viseu vai ajudar as vítimas dos fogos do ano passado e uma missão vicentina em Moçambique; 
  • Guarda também auxilia as vítimas dos incêndios e uma obra na Guiné-Bissau; 
  • Aveiro apoia o colégio da diocese e São Tomé e Príncipe; 
  • Leiria-Fátima vai ajudar os cristãos perseguidos no Iraque e no Paquistão; 
  • Portalegre-Castelo Branco tem a RD Congo e o Fundo solidário como destinatários; 
  • Setúbal vai ajudar os cristãos no Iraque e Síria e um projeto na Trafaria; 
  • Évora também destina as renúncias à Síria;
  • Beja distribui o dinherio pela Terra Santa e pela diocese; 
  • Funchal quer ajudar o Fundo Social Diocesano e construir casas para os cristãos no Iraque;
  • Forças Armadas e de Segurança reservam um terço para a capelania e enviam dois terços para Moçambique; 
  • Lisboa vai financiar um programa de educação na República Centro-Africana.

Quanto às restantes dioceses,
  • Santarém quer melhorar o Fundo de Partilha Diocesano, 
  • Angra apoia as vítimas dos incêndios nas dioceses de Portalegre-Castelo Branco e Viseu; 
  • Bragança-Miranda está virada para o seminário e a pastoral;
  • Vila Real empodera a Conferência de São Vicente de Paulo para fazer face à pobreza encapotada e vai criar bolsas de estudo para ajudar seminaristas pobres;
  • Coimbra quer apoiar a Obra Frei Gil 
  • e Faro ajudar um projeto em Aljezur.

Os bispos estão de parabéns: a maioria vai para além das necessidades entre portas e vai fazer chegar o produto da renúncia solidária à África e à Ásia.

9 de fevereiro de 2018

HORA CR17


Ramaphosa conquistou a liderança do ANC. Por fim!

Cyril Ramaphosa, o CR17 da África do Sul, ganhou a liderança do Congresso Nacional Africano – ANC em inglês – para os próximos cinco anos. O combate eleitoral de 18 de Dezembro com Nkosazana Dlamini-Zuma, a ex-mulher do presidente em exercício, foi renhido e dramático. O resultado do escrutínio foi anunciado depois de sucessivos adiamentos. A vitória foi curta: de 179 votos num colégio de quase 5000 eleitores-delegados vindos de todo o país.

Estive na África do Sul no início de Novembro e deu para perceber pelos jornais e pelos colegas missionários que a eleição da liderança do ANC prometia luta até ao fim, sem um vencedor claro.

Explicaram-me que a vitória de Dlamini-Zuma seria um seguro de vida para o presidente ex-marido a contas com inúmeros processos por corrupção. Se Ramaphosa ganhasse, Jacob Zuma seria o grande perdedor, pois ficava à mercê de novas investigações judiciais. O presidente já sobreviveu a oito moções parlamentares de censura.

Ramaphosa tem um percurso interessante: nasceu no bairro negro de Soweto, nos arredores de Joanesburgo, há 65 anos. Iniciou o activismo político ainda jovem e na recta final do regime branco do apartheid. Foi co-fundador da União Nacional dos Mineiros, um dos maiores e mais poderosos sindicatos do país. Negociador hábil, era o braço-direito de Nelson Mandela nas conversações com o Partido Nacional que pôs termo ao regime de discriminação racial e abriu a África do Sul à democracia.

Tido como sucessor de Mandela, foi preterido em favor de Thabo Mbeki, a escolha do ANC para vice-presidente em 1994 e candidato do partido para as presidenciais de 1999, que ganhou.

Ramaphosa, desiludido, abandonou a política e dedicou-se aos negócios. É apresentado como um empresário de sucesso e um dos sul-africanos mais ricos, embora não conste entre os 22 bilionários africanos da lista da Forbes, que inclui cinco sul-africanos.

Um tribunal absolveu-o de cumplicidade na matança pela polícia de 34 mineiros em Marikana durante uma greve violenta em 2012. Ramaphosa fazia parte da administração da empresa inglesa que explora as minas de platina e enviou um e-mail à polícia para pôr termo à greve.

Em 2012, voltou à política activa e dois anos depois foi eleito vice-presidente. Apesar de integrar a administração do presidente Zuma, é tido como um reformador capaz de guiar o partido e o país para lá dos escândalos de corrupção e relançar a economia do país.

Com a vitória mínima de Ramaphosa, a África do Sul pode começar a recuperar alguma autoridade moral que caracterizou o nascimento da Nação Arco-Íris sob a liderança exemplar de Mandela, mas perdida sucessivamente devido à corrupção e avareza de muitos dos dirigentes do ANC. O país disputa a primazia económica africana com a Nigéria, mas os índices de desemprego (na ordem dos 26 por cento), pobreza e desigualdade social são dos mais altos do mundo.

Ramaphosa será o candidato do ANC às presidenciais de 2019, mas o partido que encabeçou o processo de democratização do país está em queda: nas eleições municipais de Agosto de 2017 perdeu câmaras de cidades importantes para a oposição, incluindo Joanesburgo e Pretória. Além de recuperar a confiança do eleitorado, vai ter de unir o ANC, profundamente clivado pela eleição de Dezembro passado.

7 de fevereiro de 2018

Sudão do Sul: ORAÇÃO E JEJUM


Líderes religiosos propõem que as negociações de paz entre as diversas fações beligerantes no Sudão do Sul sejam acompanhas por orações e jejum.

A Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento (IGAD) está a facilitar uma nova ronda de negociações entre as partes em conflito no Sudão do Sul para reabilitar os acordos de 2015 e salvar a paz que teima em ganhar raízes no países mais jovem do mundo..

A guerra civil já leva quatro anos e, apesar de alguns acordos assinados pelas partes, o conflito continua a matar e a destruir o país.

Recentemente, António Guterres, secretário-geral da ONU, lamentou que nunca viu «uma elite política com tão pouco interesse no bem-estar do seu povo» como a do Sudão do Sul.

O Conselho das Igrejas do Sudão do Sul proclamou um dia de oração e jejum para o sábado, 10 de fevereiro sob o tema «O meu povo, sobre o qual foi invocado o meu nome, se humilhar e procurar a minha face para orar e renunciar à sua má conduta, hei de escutá-lo desde o céu, perdoarei os seus pecados e curarei dos males o seu país» (2 Crónicas 7, 14).

Por seu turno, o Papa Francisco convidou as pessoas de boa vontade a juntarem-se a ele num dia de oração e jejum pela paz especialmente no Sudão do Sul e na República Democrática do Congo a 23 de fevereiro.

A guerra fez mais de dois milhões de refugidos e outros tantos deslocados internos no país. O número de mortos é incerto, mas mais de 100 mil pessoas perderam a vida no conflito.

Filippo Grandi, Alto Comissários das Nações Unidas para os Refugiados, disse recentemente que o conflito do Sudão do Sul atingiu «proporções épicas».

Os líderes religiosos do país apelaram às partes sentadas à mesa das negociações em Adis-Abeba que «respeitem, honrem e cumpram o acordo» que assinarem há ano e meio.

«Que o orgulho, avareza, luta pelo poder político não sejam maiores que a necessidade de paz e reconciliação no Sudão do Sul», escreveram.

E deixaram uma mensagem para os países vizinhos: «Que nenhum interesse regional ou bilateral seja servido à custa do povo do Sudão do Sul.»

5 de janeiro de 2018

CONTINENTE DE ACOLHIMENTO


A grande maioria dos refugiados da África são acolhidos na África.

O Papa Francisco dedica o Dia Mundial da Paz – que se celebra a 1 de Janeiro – aos «Migrantes e refugiados: homens e mulheres em busca de paz» e propõe que «com espírito de misericórdia, abraçamos todos aqueles que fogem da guerra e da fome ou se vêem constrangidos a deixar a própria terra por causa de discriminações, perseguições, pobreza e degradação ambiental.»

Estamos habituados a ver a África como continente origem de emigrantes e refugiados, mas alguns dos seus países são espaços de acolhimento com práticas exemplares.

Há cerca de 250 milhões de migrantes e 22,5 milhões de refugiados espalhados por todo o mundo; metade tem menos de 18 anos. São gente que procura vida melhor e enfrenta riscos tremendos para a tentar. No ano passado, mais de 3000 morreram afogados no mar Mediterrâneo. Recentemente descobriu-se que algumas centenas foram vendidos como escravos em leilões na Líbia, o porto principal de embarque para a Europa, por menos de 400 euros para trabalhos forçados e prostituição.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugidos diz que a África Subsariana acolhe mais de seis milhões de refugiados, um quarto do mundo inteiro. A maioria escapou do Sudão do Sul, República Centro-Africana, Nigéria, Burundi e Iémen.

O Uganda e a Etiópia são os dois países que mais refugiados têm na África. O Uganda recebeu mais de um milhão de sul-sudaneses que fogem da guerra civil desde Dezembro de 2013, mais 215 mil refugiados da República Democrática do Congo, 50 mil do Burundi, 44 mil da Somália, 20 mil do Ruanda, 13 mil da Eritreia e 11 mil do Sudão. A Etiópia acolheu mais de 847 mil cidadãos do Sudão do Sul, Somália, Eritreia e Sudão.

Os Camarões, Chade e Níger dão guarida a cerca de 200 mil nigerianos que fugiram da violência do Boko Haram.

O Uganda e a Etiópia são apresentados como referência pelas políticas abertas de acolhimento aos refugiados. As autoridades ugandesas distribuem pequenas parcelas de terra aos refugidos para habitação e cultivo, embora a competição pelo domínio dos recursos naturais escassos gere alguma tensão com as populações locais.

António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, disse na última Cimeira de Solidariedade com os Refugiados que o Uganda é «o símbolo da integridade do regime de protecção aos refugiados» e propôs as suas políticas de portas abertas como exemplo a seguir no acolhimento dos refugiados.

Há países africanos onde há deslocamentos forçosos, mas que também recebem refugiados. Por exemplo, o Sudão do Sul acolhe pessoas do Sudão (mais de 276 mil), da República Democrática do Congo (14 900), da Etiópia (4500) e da República Centro-Africana (1800).

O papa deixa um recado importante na sua mensagem: «Quem fomenta o medo contra os migrantes, talvez com fins políticos, em vez de construir a paz, semeia violência, discriminação racial e xenofobia, que são fonte de grande preocupação para quantos têm a peito a tutela de todos os seres humanos.» Um alerta que serve para a África e serve para a Europa!

3 de janeiro de 2018

Viseu: DIA DE ALEGRIA




«Celebrai dias de alegria e cantai a Sua glória», diz o Livro de Tobias (13, 8).

É neste registo que a comunidade comboniana de Viseu, hoje, celebra o dom da vida do Ir. António Martins da Costa, que completa 90 anos, e do P. Inácio Babo de Macedo, que faz 68 anos.

O Ir. António Martins além de ser o comboniano português mais idoso é também o comboniano mais antigo: fez os primeiros votos a 9 de setembro de 1954 e os perpétuos seis anos depois.

O Ir. António das Barbas – como é carinhosamente chamado – nasceu em Cepões a 1 de janeiro de 1928, mas foi registado a 3.

A sua vida reparte-se por Moçambique (1962-1969 e 1970-1976), Brasil-Nordeste (1984-1993 e 1997-2009) e Portugal (1954-1962, 1969-1970, 1976-1984, 1993-1997). Regressou em 2010 e vive em Viseu, no Centro de A colhimento da Província.

Apesar de ser o decano da província todos os dias vai trabalhar para a quinta de que é encarregado. A comunidade agradece os vegetais e fruta frescos!

Durante a missa de ação de graças presidida pelo provincial, o Ir. António disse que não pensava chegar a tal idade já que os pais morreram cedo e ele teve alguns problemas de saúde no Brasil.

«Agradeço ao Senhor, porque é Ele que nos leva longe», disse num momento de partilha.

O P. Inácio é de Vila Cova da Lixa. Foi ordenado em 31 de setembro de 1977. Trabalhou na RD do Congo (1977-1983 e 1987-1993), Paris (formador de 1983 a 1987), Moçambique (1999-2008) e Portugal (1993-1999). Regressou em 2008. Vive em Viseu depois de um AVC o ter deixado limitado em julho do ano passado.

«Rezar é o que posso fazer. E não sei rezar», disse durante a eucaristia.

O P. Feliz Martins, missionário no Darfur (Sudão), escreveu uma mensagem para os dois aniversariantes:

Parabéns a você nesta data querida...
Contigo celebro a vida. É bom estares vivo!
Não te espantem os calafrios da velhice!
Porque os anos acumulados ajudam no segredo da maturidade e sapiência.
E quando se lhe ajunta o ingrediente do Amor 
Então vive-se a juventude sem cessar
Onde o provisório dá lugar ao infinito.
A mensagem está aí, jovem como a eternidade, 
Buscando um coração afinado onde pousar o convite: 
Deixa-te amar pelo Amor 
Semeia amor ao jeito do Amor 
E terás parte na Sua juventude!
Não serás jamais anfitrião da caducidade
E a velhice não será hóspede em tua casa.
Serás jovem no mundo. 
Serás Jovem em Deus Amor.
Serás Jovem com Deus eternamente Jovem.

Um abraço de parabéns aos aniversariantes!

20 de dezembro de 2017

PARA BELÉM COM O GPS

Caros amigos

Eis-nos quase lá! Em poucos dias chegaremos a Belém! A menos que percamos o nosso caminho, o que é fácil com tantas barreiras e muros para superar! Além disso, este ano a árvore de Natal na praça central de Belém foi desligada em protesto contra Trump (os herodes também não faltam hoje)! Mas não te preocupes, guia-nos a luz do coração, esperando que continue acesa, porque, de outra forma, será um grande problema!

Em qualquer caso, não vamos perder o ânimo: há sempre a Estrela, olhemos para o céu! É o nosso «navegador satélite» que o próprio Deus nos fornece para que ninguém perca o grande encontro com o Seu Filho. Ele sabe como é fácil perder a cabeça na sociedade de hoje.

De acordo com um rabino contemporâneo, nós costumamos comportar-nos como certas formigas que, tendo perdido o caminho, começam a seguir a formiga à sua frente! Mas mesmo que ela se perca, acabam às voltas num grande círculo, acreditando que estão no caminho certo. Então, amigos, se perdermos o caminho, não façamos como essas formigas, mas levantemos os olhos para a Estrela!

Se acontecer vermos escuro o céu, não pensamos que o GPS nos tenha traído. É mais provável termos ignorado o GPS, como costuma acontecer, porque – digamo-lo com franqueza – ninguém gosta de ser guiado. Então, o GPS, depois de assinalar repetidamente o erro, pára por um tempo para redesenhar uma rota alternativa. Da mesma forma, Deus é paciente connosco. Então, façamos como os Magos: examinemos as Escrituras e discirnamos os sinais da presença de Deus em nossa história, e logo a Estrela reaparecerá para iluminar as nossas trevas.

Desculpem se dou a impressão de estar a «pregar»! Pensando nisso, apenas há dois meses atrás, a doença (SLA) tentou tirar-me a palavra para sempre. Depois de mais uma crise respiratória, fui hospitalizado com urgência por quatro longas semanas e fizeram-me uma traqueotomia. Uma experiência dolorosa que não esquecerei facilmente! Agora respiro ligado a uma máquina e mal consigo fazer-me entender. Tenho pena de não poder responder às vossas chamadas, mas só posso ouvi-las.

Em qualquer caso, eu recuperei a minha «assinatura» do «ESTOU BEM!» e encontro-me sereno, um presente que Deus me concedeu graças a vocês. É verdade que estou cada vez mais limitado no meu corpo, agora praticamente paralisado, mas não me falta o sorriso e o bom humor, louvando a Deus todos os dias pelo dom da vida. Como já não posso usar os dedos para escrever ou a voz para ditar, tive que aprender a usar o ponteiro ocular, ou seja, eu estou a escrever-vos com os olhos! Maravilhas da tecnologia!

Ah, esquecia-me de dizer que, por necessidade, aprendi a imitar o corvo! Para chamar a atenção de alguém emito uma espécie de Crac! Crac!

Então, saúdo-vos calorosamente também com um CRAC, CRAC de bom agoiro para o Natal que se aproxima e para o Ano Novo de 2018. Que Deus abençoe cada um de vocês!

Aperto-vos ao meu coração
P. Manuel João Pereira Correia
Missionário Combonianoa

19 de dezembro de 2017

ESPANHA: COMBONIANOS ACOLHEM JOVENS AFRICANOS




A comunidade comboniana de Granada ofereceu abrigo a 19 jovens imigrantes subsarianos que deram à costa no Sul de Espanha.

O P. Rafael Pérez disse que a comunidade decidiu acolher desde 16 de dezembro alguns jovens que dormiam ao relento nas ruas geladas da cidade de Granada.

Os imigrantes vêm sobretudo da Guiné-Conacri e dos Camarões.

«Chegaram às praias de Almería e a polícia depois de os meter num autocarro, enviou-os para Granada onde foram abandonados à sua sorte na estação rodoviária», disse o missionário.

Um jovem sofre de malária e foi internado. Três têm queimaduras.

Ao grupo dos 36 imigrantes de Almería, juntou-se outro de 45 que desembarcaram em Motril, a sul de Granada.

Também foram transportados de autocarro para a cidade andaluz e abandonados nas ruas junto à estação rodoviária.

«Vista a situação, decidimos dar tecto a 19 imigrantes num espaço da nossa comunidade: dar-lhes de comer, que estejam resguardados do frio intenso, dar-lhes roupa, assistência de saúde», explicou o P. Pérez.

Os missionários da comunidade de Granada estão em contacto com a Cáritas e com outras ONGs para tratar de algumas questões jurídicas referentes aos imigrantes.

O P. Pérez explicou que não podem ser expulsos logo à chegada, mas a polícia pode detê-los dentro de 60 dias de permanência em território espanhol.

Os jovens foram registados à chegada pela polícia que lhes entregou um «acordo de devolução.»

Os combonianos de Espanha vão abrir uma comunidade entre os imigrantes africanos que trabalham nas estufas de Almería juntamente com as Irmãs e os Leigos Missionários Combonianos.

Em Granada, a comunidade dá assistência a uma paróquia para imigrantes.

11 de dezembro de 2017

CINFÃES MARIANO


Igreja de São João Batista de Cinfães

Estamos a terminar o ano como o começámos: com uma festa singela e sincera em honra da Mãe do Céu. A dois de fevereiro celebrámos a fevereirinha, a festa em honra da Senhora da Piedade no lugar ribeirinho de Avitoure. Hoje, neste sítio altaneiro de Joazim, celebramos a Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria. Fechamos o círculo das festas populares e preparamo-nos para celebrar o Natal em pouco mais de duas semanas.

Fazemo-lo assim, porque somos herdeiros de uma fé mariana. Os nossos antepassados tinham uma grande devoção pela Nossa Senhora: dedicaram a capelinha de Lagarelhos à Senhora dos Remédios, a das Pias à Senhora do Sagrado Coração, a de Avitoure à Senhora da Piedade, esta de Joazim à Senhora da Conceição!

Antigamente, a festa maior de Cinfães era a da Senhora das Graças, no início de agosto! E a Igreja matriz, ao lado da Senhora das Graças, tem outro altar dedicado à Senhora do Rosário. Duas imagens muito belas!

Depois, do lado direito do Santo António há uma imagem pequena que pela expressão corporal parece representar a Senhora da Apresentação. Ao lado do Coração de Jesus está a Senhora da Conceição. A imagem da Senhora do Rosário de Fátima está presente na igreja e em muitas das capelas e nichos na nossa paróquia.

Aprendemos dos nossos pais a viver a devoção mariana marcada pela recitação do terço em família, e da oração ao toque das ave-marias. Antigamente, nos dias de feira fazia-se um silêncio profundo quando o sino chamava a rezar ao meio dia: os homens tiravam o chapéu e as conversas e negócios davam vez ao silêncio e à oração mariana.

Dirigimo-nos a Maria nos momentos de aperto, porque – como o Papa Francisco nos recordou três vezes durante a memorável homilia da missa centenária a 13 de maio – TEMOS MÃE!

Sim, Maria é a nossa mãe, dada por Jesus do alto da cruz. A mãe que nos remete a Jesus.

Santo Francisco Marto disse há 100 anos: «Do que mais gostei foi de ver a Nosso Senhor, naquela luz que a Nossa Senhora nos meteu no peito. Gosto tanto de Deus.»

Maria ensina-nos a sermos filhos, a sermos cristãos, ela que é a grande mestra dos discípulos missionários de Jesus da Anunciação ao Pentecostes.

Na anunciação em Nazaré (Lucas 1, 29-38) faz perguntas, expõe dúvidas, medos, perplexidades. Depois de encontrar respostas para os seus porquês torna-se disponibilidade total e acolhe o projecto de Deus a seu respeito, a sua vocação, sem condições nem reticências. Maria disse ao anjo Gabriel: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua Palavra.»

Quando o anjo se retirou, a menina de Nazaré não ficou a curtir a solidão nem o momento: partiu apressada, pelo caminho perigoso dos montes, para ajudar Isabel, idosa, grávida de seis meses (Lucas 1, 29-36). A prima chama-a de feliz porque acreditou «porque se vai cumprir tudo o que foi dito da parte do Senhor.»

Durante a infância de Jesus, houve momentos em que Maria-mãe não entendeu o que se passava à sua volta, mas «guardava todas as coisas, ponderando-as no seu coração» (Lucas 2, 19.51), ou melhor: compunha todas as coisas no seu coração como traduz o nosso bispo, Dom António Couto. Maria é a mãe contemplativa que descobre o sentido de Deus nas pequenas coisas da vida corrente. Ou, como proclama o hino da oração da manhã da solenidade da Imaculada Conceição, «Ofereceste a Deus aquele silêncio, / onde habita a Palavra.»

No início da vida pública de Jesus, nas bodas de Caná (João 2, 1-11), apressou a manifestação do Filho com uma afirmação atenta e preocupada: «Não têm vinho!». E disse aos empregados – como diz a cada um de nós, hoje: «Fazei o que ele vos disser.» Eles encheram as seis talhas de água como Jesus mandou e este transformou-a em vinho, o vinho melhor.

Maria foi sempre uma presença discreta, solidária e constante na vida de Jesus desde a Galileia até ao Calvário onde se manteve firme aos pés da Cruz a velar o seu Jesus com um grupo de mulheres fiéis e o discípulo amado.

Seguindo o Filho, descobriu que a relação com Ele não dependia dos laços de sangue, mas da escuta e do fazer da Palavra de Deus (Lucas 8, 19-21).

Junto à cruz, viu a sua família alargar-se: Jesus deu-lhe o discípulo amado como filho – e deu-lhe cada um de nós como seus filhos amados – e chamou-a mãe do discípulo amado, que – conta o evangelista João – a levou para sua casa (João 19, 26-27).

Finalmente, Maria era parte da comunidade orante dos discípulos fechados no salão de cima, o salão da primeira eucaristia, à espera do Consolador, o Espírito de Jesus ressuscitado (Actos 1, 14). Uma mulher de comunidade, uma mulher de Igreja!

São João introduz o lava-pés com esta frase: «Jesus, que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo» (João 13, 1).

Este amor extremado, total levou Jesus a dar-nos a sua mãe.

Para nós, a mãe é única e intransmissível. Para Jesus, Maria é mãe de todos: «Então, Jesus, ao ver ali ao pé a sua mãe e o discípulo que Ele amava, disse à mãe: «Mulher, eis o teu filho!» Depois, disse ao discípulo: «Eis a tua mãe!» E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-a como sua» (João 19, 26-27).

Hoje, ao celebrarmos a solenidade da Imaculada Conceição de Maria somos convidados acolher a mãe de Jesus como nossa mãe, a levá-la para nossa casa como o discípulo amado a levou, a aprender dela o compromisso cristão nos pequenos gestos diários, a redescobrir a Palavra de Deus como o alimento que nos faz viver, a rezar-lhe uma ave-maria todos os dias! Para ela interceder por nós, para ser luz no caminho até Jesus.

A nossa fé mariana não deve ficar-se pelas súplicas interesseiras quando andamos com o coração apertado pelas dificuldades da vida. Nossa Senhora não é «uma “Santinha” a quem se recorre para obter favores a baixo preço», recordou o Papa Francisco a 12 de maio na Cova da Iria. Não é a Senhora dos milagres baratos, low cost!

Maria fez da Palavra de Deus a melodia de fundo da sua vida, o seu fio condutor, e ensina-nos a regressar a essa Palavra de vida.

Na homilia do dia 13 de Maia o Papa Francisco disse: «Queridos peregrinos, temos Mãe, temos Mãe! Agarrados a ela como filhos, vivamos da esperança que assenta em Jesus.»

Uma mãe carinhosa, que cuida de nós, que nos devolve ao sonho de Deus de sermos todos seus filhos muito amados, o seu enlevo, e irmãs e irmãos uns dos outros.

O Papa terminou a carta encíclica Laudato Si sobre o cuidado da casa comum com um parágrafo dedicado à «Rainha de toda a criação».

«Maria, a mãe que cuidou de Jesus, agora cuida com carinho e preocupação materna deste mundo ferido. Assim como chorou com o coração trespassado a morte de Jesus, assim também agora Se compadece do sofrimento dos pobres crucificados e das criaturas deste mundo exterminadas pelo poder humano» – escreveu o Papa no n.º 241.

É este cuidado carinhoso e compadecido que queremos aprender dela! É assim que a honramos como nossa mãe.

Celebramos esta festa na catedral que Deus construiu, a criação que sofre com os fogos, a falta de chuva, a poluição, o abuso dos seus recursos. A Mãe do Céu ajuda-nos a ouvir o clamor da mãe-terra!

«Podemos pedir-Lhe que nos ajude a contemplar este mundo com um olhar mais sapiente», escreve o Papa no mesmo número.

Sim, precisamos da sua ajuda para podermos viver melhor e melhorar a vida dos mais pobres que são quem mais sofre com as mudanças climáticas e com a crise ecológica que vivemos.

Nossa Senhora da Imaculada Conceição intercede por nós, teus filhos muito amados, que te louvam e bendizem. Amém!

6 de dezembro de 2017

MENSAGEM DE UM HOMEM DE DEUS

Caríssimos,

Passou-se cerca de um ano, desde o Natal de 2016, quando recebi o relatório médico de ter estado atacado por um cancro no pâncreas, com metástase no fígado. Então qualifiquei-o como um dom especial, porque na minha ingenuidade e talvez na minha excessiva presunção e orgulho acreditei que me fosse fácil aceitar este caminho ao lado de Jesus e dos meus irmãos que sofrem. Em vez disso, dei-me conta de que foram os meus irmãos e as minhas irmãs mais débeis que me deram a coragem para continuar a subida até ao Cume, juntamente com Jesus e na sua companhia.

Este foi um ano em que contemplei flores jamais por mim vistas, cujo perfume me circunda e penetra no mais fundo das minhas células cancerígenas transportando alento, vida e desejo de continuar a lutar.

A primeira flor foi o encontro, depois da minha primeira sessão de quimioterapia, com uma senhora com os seus trinta anos. Estava sentada ao meu lado e no fim da sessão e de improviso começou a chorar. Antes que eu pudesse dizer uma palavra, declarou, enxugando as lágrimas: «Não choro por mim, mas pela minha menina de doze meses». E, lançando-se sobre mim, abraçou-me. Foi um abraço que jamais esquecerei.

A segunda flor foi um rapaz de dezoito anos, Gabriel, que estava a acabar o ensino secundário, um rapaz enamorado pelo alpinismo e escaladas em altas montanhas. Partilhei com ele o mesmo quarto em oncologia e partilhamos as nossas experiências de vida que nos enriqueceu mutuamente. Ele tinha uns nódulos tumorais nos pulmões que, depois de poucos meses, o levaram rapidamente a escalar a última montanha, o Paraíso. Um bom número de jovens ficou sensibilizado com o seu testemunho silencioso e a sua constante preocupação em ajudar aqueles que sofriam mais do que ele. A fragrância e a frescura da sua presença foi um dom incomparável que guardo no coração.

A terceira oferta foi um ramo de flores dos mais variados perfumes e cores que me fizeram saborear a grandeza e a beleza da vocação missionária que se manifestou na presença de uma trintena de confrades combonianos que vieram aqui a Brescia para vários exames médicos. Todos manifestavam um desejo imenso de continuar a lutar para retomar forças de modo a poderem regressar o mais depressa possível à missão. As experiências missionárias, alegres e ao mesmo tempo dolorosas, com toda uma série de insucessos e desilusões, ajudam-me a viver a minha vocação missionária na minha condição de missionário frágil.

A mais pequena flor, mas não menos esplêndida, é o meu irmãozito Padre Renato, que no dia 17 de Outubro de 2017 me entregou estas palavras (que tinha escrito em 2009), palavras quase proféticas: «Obrigado Alberto por tudo… Os sofrimentos preparam-nos para um Paraíso Eterno. Os nossos pais e o Senhor esperam por nós. Acompanho-te com afeto. Tudo posso na minha fraqueza, com a Sua ajuda.»

Os médicos disseram-me que o encontro final com o PAI deverá ocorrer antes do Natal de 2018. Tenho uma grande vontade em dar este salto nos SEUS braços.

AGORA ELE sustém o meu andamento um pouco instável, procurando colocar as minhas mãos nas dos meu irmão e da minha irmã que sofre mais do que eu. Por vezes, e é a maioria das vezes, não pode fazer mais do que abraçar-me e enxugar-me as inevitáveis lágrimas. Caloroso abraço. Bom Natal
Alberto Modonesi

5 de dezembro de 2017

NATAL JUBANO


Juba celebra um Natal vibrante e colorido.

Passei o meu primeiro Natal em Juba, no Sul do Sudão, em 2006. Os dias que o antecederam foram de grande azáfama e preocupação: queríamos ter tudo a postos para que a primeira emissão experimental da Rádio Bakhita acontecesse na noite de Natal.

Dois técnicos italianos davam os últimos toques nos estúdios, nas antenas e no transmissor, enquanto a equipa missionária – duas irmãs e um irmão combonianos, e eu – aprendíamos os segredos da rádio.

Veio a meia-noite e desligámos a emissão automática dos estúdios para ir para o ar a transmissão da missa do galo da Catedral de Santa Teresa, presidida por Dom Paolino Lukudu Loro, arcebispo comboniano de Juba e primaz do Sudão do Sul.

A transmissão inaugural foi um êxito: a celebração do Natal da catedral entrou nos lares de Juba através da Bakhita Radio 91 FM, a voz da Igreja – como proclamava o indicativo da estação.

Depois da transmissão tivemos de arrumar cabos, microfones e misturador. Quando chegámos, na rua tínhamos uma surpresa à nossa espera: uma multidão imensa celebrava o nascimento de Jesus ao jeito de um grande Carnaval.

Jovens, mulheres e homens, tudo vestido a preceito, corriam pelas ruas sem iluminação pública numa alegria efusiva. Rapazes queriam impressionar a fazer habilidades com as suas motas. Automóveis manifestaram-se com uma explosão de sons numa coreografia desordenada e imparável. As ruas junto às igrejas fervilhavam de gente e de actividade.

A razão para tanta algazarra natalícia era a liberdade: durante a guerra civil, que terminou em Janeiro de 2005, a população de Juba viveu sob o recolher obrigatório das seis da noite às seis da manhã. Quem fosse apanhado nas ruas durante esse período era preso ou na pior das hipóteses apanhava um tiro de um soldado ou de um polícia. A segurança nesses tempos era férrea.

Contudo, na noite de Natal, o Governo muçulmano (fundamentalista) de Cartum levantava o recolher obrigatório para os cristãos poderem celebrar o nascimento de Jesus com a missa do galo à meia-noite.

Depois da celebração, bem cantada, dançada e vivida, os templos despediam as grandes assembleias para a rua para celebrar a alegria do nascimento do Menino, a única noite em que podiam quebrar o recolher obrigatório sem correrem risco de vida.

Contudo, os últimos quatro Natais foram muito diferentes: os libertadores tornaram-se opressores e a 15 de Dezembro de 2013 o país voltou a descer aos infernos da guerra civil com contornos étnicos da luta fratricida pelo poder. Forças do Governo e da oposição usam a ajuda alimentar, a violência sexual e a limpeza étnica como armas para punir aqueles que percebem como inimigos à hegemonia política que dá acesso ao controlo das riquezas nacionais – sobretudo o petróleo – e à percentagem «cobrada» ao investimento estrangeiro.

Não sei se este ano os cristãos voltam a trazer a alegria do Natal para as ruas de Juba e para os caminhos do país. Mas Jesus, o Deus-connosco, continua a oferecer a sua paz a todos os que queiram fazer o caminho da reconciliação e da conversão.

«Glória a Deus nas alturas e paz na terra, sobretudo no Sudão do Sul martirizado!» – vão cantar os anjos na noite santa.

23 de novembro de 2017

CRER NOS JOVENS


Vivemos tempos de seca vocacional extrema. A não renovação de gerações na vida consagrada preocupa-nos. Há uma escapatória, uma rota de fuga para a frente: condenar esta geração que não quer saber de Deus; que não acolhe propostas vocacionais empenhativas; que não… não… não…

Neste cenário vocacional desafiante, desanimador e desolador somos chamados «a ver o ramo da amendoeira» (Jeremias 1, 11). E a pedir ao Senhor da vinha que envie operários para a sua vinha. Essa é a primeira tarefa do discípulo missionário (Lucas 10, 2).

Há muitas amendoeiras a florir no inverno vocacional que atravessamos, há muitos operários à espera de um convite para irem trabalhar para a vinha do Senhor.

Em fevereiro de 2017 havia 745 candidatos ao presbitério diocesano nos pré-seminários, seminários menores, propedêutico, seminários maiores e no ano pastoral. Os dados são da Comissão Episcopal Vocações e Ministérios.

O inquérito de opinião aos jovens que a CIRP comissionou por ocasião do Ano da Vida Consagrada revelou uma conclusão interessante: os jovens de hoje têm lugar para Deus nas suas mentes e corações e estão disponíveis para acolher histórias de vida. Talvez não haja é tanta paciência para discursos «secantes»…

Os jovens de hoje são tão generosos como nós, mas expressam a sua dedicação de uma maneira diferente, têm a sua maneira de viver a generosidade.

Segundo a FEC, 389 jovens e adultos estão empenhados em projetos de voluntariado missionário de curto, médio e longo prazo no estrangeiro e 1014 desenvolvem atividades de voluntariado/missão em Portugal.

Muitos jovens empenharam-se na ajuda às vítimas dos incêndios desde o lançamento de iniciativas através das redes sociais até à recolha e distribuição de ajudas.

Por outro lado, todos os anos um batalhão de gente nova põe-se ao dispor do Banco Alimentar para recolher donativos nas superfícies comerciais.

Mais de 2000 universitários passaram o carnaval na «Missão país», um projeto católico de universitários para levar Jesus às universidades e evangelizar Portugal através do testemunho da fé, do serviço e da caridade. Em 14 anos, esses universitários já desenvolveram 154 missões de evangelização em 75 localidades diferentes em três anos seguidos.

O papa Francisco escreveu no n.º 8 da sua mensagem para o Dia Mundial das Missões de 2017: «Os jovens são a esperança da missão. A pessoa de Jesus e a Boa Nova proclamada por Ele continuam a fascinar muitos jovens. Estes buscam percursos onde possam concretizar a coragem e os ímpetos do coração ao serviço da humanidade. “São muitos os jovens que se solidarizam contra os males do mundo, aderindo a várias formas de militância e voluntariado. (...) Como é bom que os jovens sejam ‘caminheiros da fé’, felizes por levarem Jesus Cristo a cada esquina, a cada praça, a cada canto da terra!” (Ibid., 106)»

E continua: «A próxima Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que terá lugar em 2018 sobre o tema «Os jovens, a fé e o discernimento vocacional», revela-se uma ocasião providencial para envolver os jovens na responsabilidade missionária comum, que precisa da sua rica imaginação e criatividade.»

O Papa acredita nos jovens! Na carta que lhes escreveu ao anunciar o Sínodo de 2018 sublinhou: «Um mundo melhor constrói-se também graças a vós, ao vosso desejo de mudança e à vossa generosidade. Não tenhais medo de ouvir o Espírito que vos sugere escolhas audazes, não hesiteis quando a consciência vos pedir que arrisqueis para seguir o Mestre. »

E tem uma palavra para nós: «Também a Igreja deseja colocar-se à escuta da vossa voz, da vossa sensibilidade, da vossa fé; até das vossas dúvidas e das vossas críticas. Fazei ouvir o vosso grito, deixai-o ressoar nas comunidades e fazei-o chegar aos pastores.»

Gostava de sublinhar dois pontos sobre esta atitude de escuta: para comunicar com os jovens necessitamos de um discurso que eles entendam. Muitas vezes falamos uma linguagem demasiado hermética, para iniciados, que pede tradução simultânea. E temos que saber escutar e responder às suas questões existenciais.

Para comunicar temos que dizer presente no areópago da aldeia global: o espaço digital. Há alguma dificuldade em entender a utilidade da presença dos consagradas e dos consagrados nas redes sociais. Mas é lá que os jovens moram, falam, escutam, namoram, compram, vendem… É lá que eles vivem quase 24 horas por dia!

As redes sociais – o Facebook, o Twitter, o Instagram, o YouTube, os blogues, as comunidades digitais – são os espaços onde temos que testemunhar a alegria de sermos seguidores de Jesus em comunidades castas, pobres e obedientes de discípulos missionários que vivem a alegria do Evangelho.

10 de novembro de 2017

TERRAS DA DISCÓRDIA


O negócio da terra afecta comunidades africanas que se vêem privadas de recursos vitais.
Os bispos de Moçambique publicaram em Abril uma carta pastoral muito robusta e corajosa intitulada À tua descendência darei esta terra. Nela denunciam que «a terra em Moçambique está em agonia profunda!». E mais enfaticamente a dado passo: «Chega até nós, cada dia, a preocupação e o desencanto de tantas comunidades cristãs e não cristãs que enfrentam conflitos de terra pondo em perigo a própria segurança alimentar e a estabilidade familiar e social.»

É uma tensão transversal a muitas comunidades africanas. Governos estrangeiros e investidores arrendam ou compram vastas extensões com a cumplicidade das autoridades que lucram com os enormes negócios da indústria agro-alimentar. Desde 2006 mais de 30 milhões de hectares – mais de três vezes a área de Portugal – de solo africano foram arrendados ou vendidos em Madagáscar, Moçambique, Etiópia, República Democrática do Congo, Sudão, Camarões, Gana, Mali, Somália, Tanzânia e Zâmbia. Entre os alugadores destacam-se a China, os países árabes, a Índia e a Coreia do Sul.

Governos estrangeiros e investidores privados usam a África para produzir cereais, frutas, legumes e gado para exportação e culturas para fazer biocombustíveis à custa das comunidades locais que ou são deslocadas violentamente pelas autoridades (como aconteceu no Sul da Etiópia) ou trocam os seus terrenos por promessas vagas.

Em Moçambique, o ProSavana, um megaprojecto para 11 milhões de hectares nas províncias de Nampula, Niassa e Zambézia com dinheiros brasileiros e da cooperação japonesa, está a provocar uma grande oposição local: os residentes temem perder as suas terras. Também se fala de um projecto de plantio extenso de eucaliptos por uma indústria de celulose estrangeira.

Esta nova onda colonizadora da África afecta os pequenos agricultores e as comunidades locais: porque vêem os meios de subsistência a minguar e porque sofrem as consequências de um investimento que não os beneficia, incluindo a escassez de solos e de água e a sua poluição.

Este fenómeno é possível devido à corrupção endémica e ao modo como a gestão dos solos é feita no continente. Desde os tempos coloniais que a terra é considerada propriedade do Estado. E assim se mantém. A Constituição da Eritreia, por exemplo, estipula no n.º 2 do artigo 23 que «toda a terra e todos os recursos naturais sob e sobre a superfície do território da Eritreia pertence ao Estado». Uma percepção que contrasta com o direito tradicional, que considera suas as terras ancestrais. Além da ligação à terra, há a ligação aos antepassados nela sepultados.

Quando construímos a missão de Haro Wato, fizemos um contrato com o Estado etíope que cedeu o espaço por 99 anos: os edifícios são da diocese, mas o terreno não. O que está abaixo dos oito metros da superfície pertence integralmente ao Estado. Os mineiros artesanais de ouro fazem poços até oito metros de profundidade e depois abrem galerias para o Governo não expropriar o ouro que garimpam.

Os bispos moçambicanos terminam a carta pastoral advogando «uma efectiva Reforma Agrária para corrigir os impactos negativos que as políticas económicas agrárias actuais estão a causar nas comunidades rurais em todo o país». E, acrescento eu, para o continente também!

5 de novembro de 2017

ACORNHOEK ACOLHE VOTOS PERPÉTUOS, DIACONADO DO RICARDO GOMES


A paróquia sul-africana de Maria Assunta de Acornhoek, na diocese de Witbank, viveu um fim-de-semana missionário especial ao acolher a consagração perpétua no Insituto comboniano e a ordenação diaconal do escolástico Ricardo Alberto Leite Gomes.

As celebrações mobilizaram muita gente: os pais, a irmã e os párocos do Ricardo, que viajaram da Trofa juntamente com o provincial de Portugal; a província da África do Sul; muitos amigos; e as comunidades comboniana e cristã de Akornhoek que prepararam os espaços e as celebrações com esmero.

O Ricardo emitiu os votos perpétuos na encaristia da tarde de sábado, 4 de novembro de 2017, presidida pelo P. Jude Burgers, superior provincial da África do Sul.

A Igreja paroquial estava cheia de pessoas que quiseram testemunhar o sim para sempre do Ricardo a Deus no Instituto Missionário Comboniano.

O P. Jude explicou durante a homilia que a essência da consagração final é dar a própria vida como uma ato de fé: «Sim, este é o meu corpo, eu dá-lo-ei por ti, Senhor, e pela missão», disse.

O Ricardo, através da fórmula da consagração perpétua, perante o provincial de Portugal, P. José Vieira, em representação do padre geral, agradeceu a Deus por todas as bênçãos recebidas e por todas as pessoas que fazem parte da sua vida.

No final da eucaristia os participantes partilharam um jantar animado sob a magia da lua cheia africana.

A ordenação diaconal decorreu no domingo, 5 de novembro de 2017. O salão Father Angelo Matordes estava completamnete cheio em ambiente de grande alegria, cor e festa. A assembleia cantou, dançou e rezou com grande entusiasmo e devoção. Vuvuzelas, tambores e apitos marcavam o ritmo da celebração.

O bispo de Witbank, D. Giuseppe Sandri, presidiu à eucaristia em três línguas e ordenou o Ricardo como diácono.

O bispo comboniano, que foi pároco de Acornhoek, explicou que «tornar-se diácono significa ser um servo de Deus e um servo do povo de Deus.»

«Tu és abençoado porque Deus te chamou de uma maneira misteriosa e tu respondeste», proclamou na homilia.

No final da eucaristia a assembeia ofereceu presentes e deu os parabéns ao novo diácono.

Na hora dos discursos, o provincial de Portugal recordou o fim-de-semana prolongado que passou na missão em 1990 e agradeceu à comunidade cristã e comboniana o acolhimento e o cuidado dispensados ao Ricardo durante os meses de serviço missionário que viveu em Acornhoek.

O P. Jude, provincial da África do Sul, disse que a celebração da ordenação foi «um momento de Deus.»

O neo-ordenado teve uma palavra de agradecimento a Deus pelo dom que recebeu apesar de não se sentir digno, e um obrigado a todos os que fazem parte da sua história. Terminou com um agradecimento à comunidade através de uma mensagem lida em língua tsonga.

A cerimónia de mais de três horas concluiu com algumas danças por um grupo de bailarinos tsongas e um almoço de confraternização para todos os participantes.

O Diácono Ricardo foi destinado a Portugal a partir de 1 de janeiro de 2018 e vai ser ordenado padre missionário na paróquia natal, São Martinho de Bougado-Trofa, dentro de meio ano.

17 de outubro de 2017

TODOS À MESA POR UMA MESA PARA TODOS



DECLARAÇÃO CONJUNTA DE DIFERENTES CONFISSÕES RELIGIOSAS

NO DIA MUNDIAL DA ALIMENTAÇÃO

Lisboa, 16 de Outubro de 2017

Por ocasião do Dia Mundial da Alimentação 2017, que tem este ano como tema "Mudar o futuro das Migrações - Investir na Segurança Alimentar e Desenvolvimento Rural", diferentes confissões religiosas reuniram-se à mesma Mesa, em solidariedade com toda a Humanidade e em especial com todos os irmãos que sofrem situações de pobreza e fome.

Sabemos que hoje em dia o planeta produz alimentos suficientes para todos e, no entanto, em 2016, o número de pessoas subnutridas cronicamente no mundo aumentou para 815 milhões, acima de 777 milhões em 2015. Múltiplas formas de desnutrição coexistem, com países que experimentam simultaneamente altas taxas de desnutrição infantil e obesidade adulta. O excesso de peso e a obesidade infantil está a aumentar na maioria das regiões do mundo e em todas as regiões no caso dos adultos.

O agravamento generalizado de conflitos armados, associado ao impacto de desastres naturais e alterações climáticas têm vindo a exacerbar uma realidade que revela causas estruturais de injustiça e exclusão social e territorial. A competição por recursos naturais limitados (especialmente água e terra) sem respeito pelas comunidades locais e o Bem Comum; a mercantilização de bens alimentares, sujeitos a especulação, torna-se neste contexto ainda mais inaceitável, bem como a falha de sistemas de regulação e de proteção social nas zonas de conflito e zonas mais afetadas por desastres naturais.

Este ano o tema do Dia Mundial da Alimentação realça esta realidade: "Mudar o futuro das Migrações - Investir na Segurança Alimentar e no Desenvolvimento Rural". Em 2015, mais de 65 milhões de pessoas viram-se obrigadas a abandonar a sua Terra devido a conflitos. Mais de 19 milhões de pessoas tiveram de deslocar-se depois de sobreviver a desastres naturais. Muitos procedem de zonas rurais: agricultores, pastores e pescadores. Com contornos diferentes, esta é uma realidade que tem marcado também o nosso país, com o terrível flagelo dos incêndios florestais que revelam falhas estruturais graves na gestão justa dos territórios rurais de minifúndio do interior.

A luta contra a fome e a má nutrição vai muito além da produção de alimentos. A fome e a pobreza extremas podem eliminar-se através da implementação de estratégias de segurança alimentar e nutricional baseadas no Direito Humano a uma Alimentação Adequada, assentes no desenvolvimento rural inclusivo e em sistemas alimentares mais justos e sustentáveis.

Todos nós estamos conscientes de que não é suficiente a intenção de assegurar a todos o pão de cada dia, mas é necessário reconhecer que todos têm direito a ele e portanto devem poder desfrutar do mesmo. O que fazer? Como fazer mais e melhor? A Alimentação está no coração da Agenda 2030 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis, uma agenda universal que a todos responsabiliza. Com este encontro queremos começar por nos questionar a nós mesmos, e por pôr em prática os ingredientes que sabemos serem o sal de qualquer negociação e transformação social: os valores da paz, da solidariedade, do diálogo e da partilha no Cuidado da nossa Casa Comum.

Dispomo-nos a colaborar com a FAO na implementação de estratégias locais de nutrição e sistemas alimentares sustentáveis, bem como no esforço de implementação da estratégia de segurança alimentar e nutricional da CPLP.

Dispomo-nos a colaborar com a Comissão Nacional de Combate ao Desperdício Alimentar na implementação de estratégias de sensibilização e educação que entendam pertinentes, potenciando o trabalho que já realizamos quer de mudança de atitudes e comportamentos, quer de canalização de potenciais desperdícios para apoio alimentar.

Dispomo-nos a colaborar com a Secretaria de Estado das Florestas e Desenvolvimento Rural na reflexão e implementação de políticas públicas e estratégias locais que reforcem modelos agroecológicos e a agricultura de pequena escala, favorecendo a estruturação dos pequenos proprietários agroflorestais e sistemas alimentares locais que aproximam consumidores (individuais e coletivos) dos produtores, como fator chave de dinamização e revitalização integrada do território, bem como de educação das novas gerações.

Pedimos que, connosco, assumam hoje o compromisso de dar vida às políticas e estratégias que coordenam, de forma inclusiva e participativa, assente nesta que pode ser uma inspiração para todos: Todos à Mesa por uma Mesa para Todos.

Que as Mesas a que cada um se senta cada dia, seja em casa com a família, seja na Celebração Religiosa, seja na negociação de políticas, tenha como centro as Pessoas e o bem Comum.

10 de outubro de 2017

CORAGEM PARA O FUTURO


Hoje faz 136 anos que faleceu São Daniel Comboni; uma morte com três dezes: às dez da noite de dez de outubro – o mês número dez – de 1881, em Cartum, a capital do Sudão.

Sinto vontade de revisitar o texto do P. João Dichtl, o jovem missionário austríaco que custodiou os últimos momentos de Comboni num relicário, memorial sagrado feito de palavras e sentimentos numa carta ao Cónego João Mitterrutzner de Bressanone um dia depois da morte do nosso Pai e Fundador. É bom ler a história através dos olhos dos seus atores.

Recordemos a narrativa comovida e comovedora que nos envolve e devolve à missão: «Grande Deus! O telégrafo falou. Ontem pelas dez (não sei sequer a hora exata) o grande bispo Comboni, abençoando a sua missão, passou à outra vida. Morreu nos meus braços; sugeri-lhe aos ouvidos os últimos suspiros de amor. Enxuguei-lhe as últimas lágrimas! Oh quanto estou agradecido a Deus por ter-me concedido, missionário inexperiente, ainda sem fazer 24 anos, esta grande graça. Das 10h30 de domingo (9 de outubro) não o deixei um momento. Queria-me junto a si, não podia estar sem mim, e sujeitou-se-me como uma criança. Como agradeço o Senhor e quanto me sinto feliz de ter podido oferecer estes últimos serviços ao meu amadíssimo Pai, aquele que me introduziu no santuário, e de ter gozado a sua confidência última e plena! Ontem de tarde quis que prometesse uma vez mais a fidelidade à missão. Fi-lo. Jurei querer morrer no vicariato. “Ou Nigrícia ou morte!”, dizia-me Comboni. Não se preocupe comigo. Se eu tivesse que seguir imediatamente o meu bispo, fiat! Mas sinto um vigor extraordinário e forças como nunca. Graças sejam dadas a Deus. Pobre missão! Pobres negros! Se os tivesse visto! Mas chega. Receba hoje o último beijo, a última saudação, o último obrigado do seu amigo bispo.»

O P. Dichtl não era nenhum missionário-noviço. Comboni tinha uma grande estima por ele, conseguiu uma dispensa do Vaticano para ser ordenado antes do tempo. E escreveu: «P. João Dichtl e P. José Ohrwalder são uns missionários de primeira ordem, com grande espírito de sacrifício e verdadeiramente santos» (Escritos 6666).

O P. Dichtl era o pároco interino de Cartum à altura da morte do fundador. Escreveu no registo dos óbitos que as febres perniciosas foram a causa da morte do bispo de Cartum.

Quem apanhou a malária sabe por experiência própria do grande desconforto e mal-estar que febre alta, os suores, as tremuras e espasmos causam.

Daniel Comboni não se preocupa com o seu bem-estar. Está agónico, às portas da morte, mas o que o preocupa é a fidelidade dos seus à missão.

Fez jurar a Dichtl um juramento mínimo, o juramento maior expresso em quatro simples palavras: «Ou Nigrícia ou morte!»

A missão era a sua preocupação: «À [missão] consagrei toda a minha alma, o meu corpo, o meu sangue e a minha vida!» (Escritos 5256). Até ao fim derradeiro, até ao último suspiro de amor.

Os Annali della Associazione del Buon Pastore publicaram no fascículo n.º 27 de janeiro de 1882 a primeira biografia de Comboni, um texto não assinado de 45 páginas intitulado Mons. Daniele Comboni, Vic. Ap. Dell’Africa Centrela e le sue opere.

Na introdução, o texto é apresentado como «simples exposição das épocas e das coisas principais que se referem e ele e à missão».

O memorial da vida e obra de São Daniel Comboni regista as palavras-testamento do fundador: «ele próprio recomendo-lhes coragem para o presente acrescentando, muito comovido, “e sobretudo para o futuro”.»

Coragem para o presente, porque os missionários não paravam de morrer… E o seu próprio fim estava por um fio.

E uma comovida coragem sobretudo para o futuro! Será que Comboni já lia no horizonte carregado a grande tormenta mahdista que destruiu todo o seu labor apostólico? Ou deseja essa coragem comovida a nós, os seus filhos e herdeiros, 150 anos depois do Instituto das Missões para a Nigrícia ter sido fundado?

A mesma coragem que a Madre Geral Maria Bollezzoli recomenda às missionárias de Comboni numa carta expedida de Verona com a data de 18 de outubro de 1881: «Filhas caríssimas, coragem! Sede fortes e generosas, não vos deixeis abater; [...] caminhai seguras sobre as pegadas deixadas pelo vosso magnânimo pai.»

Coragem vem do vocábulo latino coraticum que junta a palavra cor (coração) ao sufixo aticum (que indica acção). Etimologicamente quer dizer agir ou fazer com o coração, ser cordial. É também um termo bem comboniano: aparece 113 vezes nos Escritos de S. Daniel Comboni.

A razão diz-nos que vivemos numa sociedade pós-cristã, que os jovens já não se interessam pela nossa (estranha) forma de vida, que a animação missionária é cada vez mais difícil de fazer, que estamos a envelhecer, que estamos a morrer.

Somos tentados a descalçar as sandálias da missão, pôr as pantufas da consagração e esperar tranquilos a irmã morte no sofá da desesperança. E que o último apague a luz e bata a porta antes de partir.

No dizer desconcertador de Blaise Pascal «o coração tem razões que a razão desconhece».

O coração hoje diz-nos para permanecer dedicados à missão de Deus, da qual participamos, onde quer que estejamos, até ao fim. Porque se aqui envelhecemos e diminuímos, na África rejuvenescemos e crescemos. O eurocentrismo prega-nos partidas e tolda-nos o discernimento…

O coração hoje diz-nos que estamos sempre na idade da missão para testemunhar a alegria de sermos discípulos missionários no Portugal de hoje como cenáculo de apóstolos de formas legíveis para as novas gerações.

Viver os nossos dias com a coragem que Comboni nos deseja e dá é meter o coração em tudo o que fazemos; e colocar no Coração trespassado do Bom Pastor tudo o que somos e fazemos através da intercessão do fundador que incessantemente nos desafia: «Ou missão ou morte!»

Fazemo-lo com o coração e em comunhão com os nossos antepassados no Instituto! Pelos quais louvamos o Senhor num momento de silêncio – como no-lo pede o padre geral.

6 de outubro de 2017

CORAÇÃO MISSIONÁRIO


O P.e Tesfaye Tadesse e o Ir. Alberto Lamana escreveram uma mensagem muito fraterna, realista e cordial à província depois da memorável visita oficial de dez dias no início de julho passado. Um texto lindo, cheio de palavras de reconhecimento, encorajamento e também com um desafio: «Parece que a nossa presença tenha perdido aquela força que era característica do nosso passado.»

Por um lado, é normal que tenhamos perdido algum fulgor: os anos não perdoam! Por outro, somos desafiados a reavivar a nossa vocação de discípulos missionários combonianos.

Vêm-me à mente as palavras de Paulo a Timóteo, seu amigo de peito: «Por isso recomendo-te que reacendas o dom de Deus que se encontra em ti, pela imposição das minhas mãos, pois Deus não nos concedeu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e de bom senso» (2 Timóteo 1, 6-7).

Ou o que o Espírito diz à Igreja de Éfeso: «Conheço as tuas obras, as tuas fadigas e a tua constância; […] tens constância, sofreste por causa de mim e não perdeste a coragem. No entanto, tenho uma coisa contra ti: abandonaste o teu primitivo amor. Lembra-te, pois, donde caíste, arrepende-te e torna a proceder como ao princípio» (Apocalipse 2, 2-5).

Estes dois ícones das Escrituras cristãs desafiam-nos a não ter medo face ao futuro, mas a ser fortes, a amar com bom senso e a regressar ao entusiasmo do primeiro amor!

A missiva dos nossos irmãos maiores indica pistas para reavivar o dom e refazer o caminho do primeiro amor.

Uma é a comunidade fraterna «onde as feridas são curadas e onde se vive o perdão e se encontra um novo relançar à missão». E continuam: «a programação provincial e de comunidade é uma boa oportunidade para unir a necessidade missionária concreta e as capacidades de cada um dos confrades.»

Outra é a pastoral vocacional juvenil de rosto comboniano: apesar das dificuldades de comunicação com os mais novos – «Não é fácil chegar aos jovens com os nossos meios e com as estruturas tradicionais» –, recordam que «é necessário arriscar novos caminhos de contacto com uma geração para a qual os meios de comunicação, especialmente os digitais, são parte integrante da sua relação com o mundo.»

Não sei porquê, mas sinto que devo cruzar as palavras do P.e Tesfaye e do Ir. Alberto com a mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Missões, o nosso dia! O Papa argentino deu-lhe o título «A missão no coração da fé cristã» e pergunta: «Qual é o coração da missão?»

A resposta está no poder transformador do Evangelho (n.º 1)! E o Evangelho «é uma Pessoa, que continuamente Se oferece e, a quem A acolhe com fé humilde e operosa, continuamente convida a partilhar a sua vida através duma participação efetiva no seu mistério pascal de morte e ressurreição» (n.º 4).

Chega-se lá «através de uma espiritualidade missionária profunda vivida dia-a-dia e dum esforço constante de formação e animação missionária, envolvem-se adolescentes, jovens, adultos, famílias, sacerdotes, religiosos e religiosas, bispos para que, em cada um, cresça um coração missionário» (n.º 9).

Este coração missionário também tem que continuar a crescer e a bater mais forte no nosso peito – apesar dos anos, das feridas, das fadigas, da inércia, dos maus agoiros, das nuvens negras no nosso horizonte.

Como? São Daniel Comboni continua a inspirar-nos: «Ora bem, ante tão espantosas calamidades, sob o peso de tantas desditas, o ânimo do missionário terá de se encolher e desfalecer?... Nunca! A cruz é o caminho real que conduz ao triunfo. O Coração Sacratíssimo de Jesus palpitou também pelos pobres negros» (Escritos 6381).

Como notou a LMC Élia Gomes no testemunho publicado na Além-Mar de outubro, «a missão não se faz sem amor». Tanto lá como cá!

4 de outubro de 2017

VOTE-SE DE NOVO


Supremo Tribunal queniano ordena repetição das eleições presidenciais.
O Supremo Tribunal de Justiça do Quénia fez História ao declarar nulas as eleições presidenciais de 8 de Agosto em resposta à petição do candidato derrotado que denunciou a manipulação dos resultados finais em favor do presidente em exercício.

O presidente do Supremo, David Maraga, anunciou no dia 1 de Setembro que quatro juízes contra dois declararam o acto eleitoral «nulo, sem efeito e inválido», porque a Comissão Independente das Eleições e Limites «falhou, negligenciou ou recusou conduzir a eleição presidencial de um modo consistente com os ditames da Constituição» através de «ilegalidades e ilegitimidades».

Maraga disse que a eleição presidencial tinha de ser repetida dentro de 60 dias, prometendo um fundamento minucioso sobre a decisão dentro de três semanas.

A deliberação foi bem acolhida pelos apoiantes de Raila Odinga, que manifestaram na rua o seu júbilo. As redes sociais fervilhavam com comentários e partilhas sobre a coragem dos juízes, um acto sem precedentes no país e no continente, sinal da maturidade democrática do poder judicial no Quénia e marco histórico para a África.

Havia também algum receio de que a decisão judicial pudesse sacudir o país com uma onda de violência pós-eleitoral e o caos político. De facto, 28 pessoas foram mortas em confrontos depois de as urnas fecharem.

Uhuru Kennyatta, que fora declarado vencedor pela comissão eleitoral com 54 por cento dos votos, disse acatar a deliberação «política» do tribunal, embora não concordando com ela e apelou à paz. Mas depois virou-se contra os juízes acusando-os de «derrubar a vontade do povo», chamou-lhes vigaristas e prometeu «endireitar» o Supremo se for reeleito.

Raila Odinga, que perdia pela terceira vez a aposta presidencial, declarou a deliberação judicial «um dia histórico para o povo queniano e por arrasto para o de África.»

A transmissão electrónica de dados revelou-se o calcanhar de Aquiles do sistema eleitoral queniano. Custou 20 milhões de euros e foi concebido para combater a fraude eleitoral, vindo a facilitá-la em vez de a limitar. O funcionário que regulava o sistema de voto electrónico foi encontrado morto com sinais evidentes de tortura dias antes de os Quenianos irem às urnas.

Os observadores internacionais foram quem saiu pior da refrega. Apressaram-se a certificar o acto eleitoral declarando-o livre, credível, transparente e justo (apesar de algumas irregularidades), instando Odinga a aceitar a derrota. Os Quenianos dizem-se zangados com o que chamam indústria da observação de eleições: segue a campanha e a votação, mas não acompanha o processo de contagem. Com a validação imediata do voto, os observadores talvez quisessem evitar a violência pós-eleitoral que em 2007 ceifou 1200 vidas e deslocou 600 mil pessoas.

Entretanto, a comissão eleitoral já marcou um novo acto eleitoral para 17 deste mês de Outubro e pediu ao Supremo um acórdão pormenorizado para melhorar o sistema. Desta vez, a escolha limita-se a Kenyatta ou Odinga, adversários históricos, filhos de dois aliados na luta da independência do Quénia. A eleição de Agosto, que custou 420 milhões de euros, foi disputada por oito candidatos.

2 de outubro de 2017

BREVIÁRIO DAS GRANDES PERGUNTAS


O P. José Tolentino Mendonça apresentou hoje o seu livro mais recente – e o primeiro que publica com a chancela da Quetzal: «O pequeno caminho das grandes perguntas».

Trata-se de um conjunto de 155 pequenas reflexões sobre as grandes perguntas que trazemos dentro de nós que o poeta, teólogo, místico e pensador madeirense explora em grande e vibrante profundidade.

Fá-lo em diálogo com 111 pensadores de Alejandro Aravena a Zygmunt Bauman passando pelo Papa Francisco, São Francisco e Simone Weil, os três mais citados.

«Deveríamos dedicar mais tempo a escutar essas perguntas que pulsam no nosso interior, soterradas no atordoamento dos dias, omitidas pelo pragmatismo ou pelo medo, adiadas para um momento ideal que depois nunca é» – termina a segunda reflexão.

A sua escrita faz-me lembrar o conselho de Rainer Maria Rilke ao jovem poeta que o interpela: «Viva as perguntas agora. Talvez, gradualmente, sem perceber, viverá num dia distante na resposta.»

A apresentação foi uma conversa amena e profunda do autor com o teólogo Alfredo Teixeira e o escritor Richard Zimler moderada pela jornalista Maria João Seixas num fim de tarde cálido.

A moderadora classificou a obra como «um livro de horas».

O teólogo explicou que a obra de Tolentino Mendonça é um texto teológico que «passa da gramática de um Deus necessário para a gramática de um Deus desejável.»

O escritor norte-americano radicado em Portugal disse que «este livro vai encorajar outros leitores a assumirem os riscos do seu próprio ser.»

E citou: «Somos analfabetos do silêncio e esse é um dos motivos para não encontrarmos paz».

O autor explicou que o livro –  em prosa poética – revela o carácter unitário da sua obra feita de poesia e ensaio.

«A teologia ganha muito com o diálogo com a vida minúscula», disse.

Os capítulos de «O pequeno caminho das grandes perguntas» são curtos: não passam de uma página. Mas são densos, redondos, alimentam, fazem pensar. Recordam-me a broa de Avintes: um naco de pão dá muito que mastigar.

O P. Tolentino é um dos meus mestres de espiritualidade: faz-me reflectir e rezar com os seus textos em diálogo com as coisas pequenas da vida – que são as grandes questões da existência – e com outros grandes mestres do saber e das artes.

Vale bem a leitura! Mesmo para um retiro – com o livro numa mão e o Livro dos livros na outra.

30 de setembro de 2017

SEM MUROS


A liturgia de hoje oferece-nos um texto muito antigo mas também muito atual. É tirado da profecia de Zacarias, escrita cerca de 500 anos antes de Cristo.

Diz assim: «Jerusalém deverá ficar sem muros, por causa da multidão de homens e animais que haverá nela. E Eu serei para ela – diz o Senhor – uma muralha de fogo à sua volta e no meio dela serei a sua glória» (Zacarias 2, 8-9).

Num tempo em que se fala tanto de construir muros e puxar as fronteiras para longe - as da Europa já chegam às praias da Turquia e da Líbia, de derivas xenófobas, este texto é revelador e desafiante.

Jerusalém, destruída pelos sírios, não precisa de muros novos: é casa de esperança para uma multidão sempre a crescer, um regaço aconchegante, um seio acolhedor, um ponto de encontro multicultural.

As migrações são uma constante histórica: não há raças puras; trazemos nos nossos genes a herança de inúmeros povos andarilhos à procura de sítios e vidas melhores.

Se não temos muros nem fronteiras, se somos um espaço aberto e acolhedor quem nos protege?

Deus é a nossa muralha de fogo! Ele é Pai de todos e faz de nós seus filhos, irmãos uns dos outros… Entre irmãos não há muros sem limites! Há ternura, carinho.

Expulamos Deus da cidade e da vida e, por isso, sentimo-nos inseguros, vulneráveis aos de fora, ao diferente.

«E Eu serei para ela uma muralha de fogo à sua volta e no meio dela serei a sua glória», diz o Senhor.

Ireneu de Lião, um mártir do ano 200, traduz este conceito de uma forma assombrosa: «A glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus.»

23 de setembro de 2017

LATINICES


O Papa Francisco, na peregrinação centenária a 12 e 13 de maio, fez um gesto profético que – parece – passou ao lado dos liturgistas do Santuário de Fátima: celebrou a missa integralmente em português com aquele sotaque latino-americano gostoso.

O Papa quebrou o «protocolo litúrgico» em uso no Santuário que impõe que algumas saudações da missa e a própria consagração sejam feitas em latim.

Pensei que quem de direito tivesse tomado nota do gesto papal.

Enganei-me: o latim continua a ser usado na Eucaristia.

Por volta do santo os acólitos distribuem umas folhinhas brancas com letra e música de algumas partes da oração eucarística em latim…

Talvez por um saudosismo mal resolvido, um revivalismo anacrónico, a ânsia de uma linguagem mistérica... 

Tudo menos liturgia, porque a liturgia literalmente é a energia do/no povo!

Não percebo o alcance da opção.

Se é para chegar a mais gente – já que Fátima é um santuário internacional – então é uma falácia: o latim é uma língua morta e poucos a aprendem e menos ainda a usam…

A consagração em português seria entendida e seguida pela grande maioria dos peregrinos… Em latim nem todos os padres a seguem!

O Papa tem um amor enorme pela liturgia nas línguas vernaculares.

Recentemente publicou um motu próprio a dar mais controlo às conferências episcopais sobre a revisão dos textos litúrgicos em curso.

Antes eram os especialistas que «impunham» a tradução oficial.

A revisão do missal em inglês foi muito traumática: os revisores encartados impuseram uma linguagem litúrgica que tem pouco a ver com o inglês corrente.

A oração comum em Fátima é linda porque é feita em línguas vivas: dá um sentido de universalidade à liturgia e ao lugar.

O latim? Destoa!

18 de setembro de 2017

ANA TABAN, ESTOU CANSADO


Colectivo sul-sudanês usa as artes para promover paz e liberdade de expressão.

Há cerca de um ano, um grupo de artistas do Sudão do Sul juntou-se para criar uma plataforma activista pela paz na sequência dos combates de Julho de 2016 em Juba que fizeram um número indeterminado de mortos. Decidiram chamar-se Ana Taban («Estou Cansado», em árabe).

Músicos, actores, comediantes, guionistas, criadores de moda, artistas plásticos formaram o Ana Taban para terem uma influência positiva na nação em guerra consigo própria desde Dezembro de 2013.

Estão cansados da guerra e do sofrimento; de verem de braços cruzados o país a arder; de viverem num país rico em recursos naturais com uma economia em colapso; de formarem uma diversidade cultural linda destruída pelo tribalismo; de verem um povo faminto numa terra fértil; de serem usados para se matarem uns aos outros para benefício de alguns.

Ana Taban propõe-se promover os valores da paz, coragem, integridade, cidadania, não-violência e não-alinhamento político através de acções concretas no país e nos campos de refugiados que albergam um milhão de sul-sudaneses nos países vizinhos.

Os jovens activistas escrevem no seu manifesto que «querem ser uma plataforma para a juventude do Sudão do Sul contribuir com as próprias ideias em matérias importantes que afectam a nação». Fazem-no através de concertos, arte urbana, murais, dramas, vídeos, canções, Internet…

Querem também encorajar a juventude «a participar activamente em temas importantes a respeito da nação e recusar serem usados como instrumentos de guerra e destruição».

Finalmente, pretendem «empoderar a juventude do Sudão do Sul, equipando os jovens com talentos para serem poderosos influenciadores da paz através do poder da sua arte e dos dons que Deus lhes deu».

Um programa vasto que pretende virar o sentido da história no Sudão do Sul. O país mais jovem do mundo tem vivido num caldo de violência e guerra desde o século XIX, quando turcos e árabes atacavam as comunidades sulistas ao longo do Nilo Branco para fazerem escravos. Entre 1955 e 2017, passou quarenta e três anos a lutar contra o Governo arabizante do Norte e contra si próprio e menos de duas décadas em paz.

«O sofrimento continua a cobrir o nosso amado país com o sangue, as lágrimas e a fome dos inocentes. Até quando?», pergunta o colectivo na sua página no Twitter.

Jacob Bul Bior, actor e porta-voz do colectivo, explicou-me numa mensagem electrónica que o impacto maior de Ana Taban está no alargamento do espaço cívico para os jovens se expressarem. «Havia tanto medo no ano passado e agora vemos melhorias; temos mais e mais jovens a participarem nos nossos eventos e a falarem livremente sobre aquilo que é importante para eles. Com os limites à liberdade de expressão e de informação no país, sentimos que isto é importante e levou a uma mudança maior», escreveu.

É o que auguro: os Sul-Sudaneses precisam de paz e de reconciliação para se erguerem das cinzas da guerra fratricida e construírem a nação vibrante com que sonharam a 9 de Julho de 2011 quando celebraram a independência com tanta esperança.