1 de setembro de 2016
EFEITO BORBOLETA
A saída do Reino Unido da União Europeia pode causar turbulências na África.
Vivemos numa sociedade globalizada, enredados numa teia complexa de interdependências expressa no efeito borboleta da teoria do caos, que diz que o bater de asas de uma borboleta num lado do mundo pode causar um ciclone no outro.
Os cidadãos do Reino Unido votaram no dia 23 de Junho, em referendo, pela saída da União Europeia (UE). Logo que o resultado foi conhecido, um número significativo de britânicos choraram-no. Pouco depois os políticos conservadores que encabeçaram a campanha pela saída saltaram do barco assobiando para o ar como se não tivessem tido nada que ver com a decisão cujas consequências cedo se farão sentir na Europa, e além dela.
Com o Brexit – Br de (Grã-)Bretanha e exit, saída – perdem os africanos, por exemplo, em termos económicos e de advocacia e os britânicos em influência e mercado, dizem os especialistas.
Patrick Njoroge, governador do Banco Central do Quénia, disse que a maior economia da África Oriental ia sentir as ondas de choque do Brexit. Josephat Bosire Kerosi, que ensina Administração e Finanças na Universidade de Kigale, Ruanda, previu uma quebra no fluxo de ajudas por meio do investimento estrangeiro directo.
Para já, a África do Sul, que tem as empresas mais importantes cotadas na Bolsa de Londres, viu o seu valor cair e o rand enfraquecer.
Com a saída da Grã-Bretanha da UE, o processo de paz da Somália também poderá sofrer, pois sem o Reino Unido, o principal promotor, os Franceses podem tentar canalizar o dinheiro para o Mali, outro ponto quente do islão radical. O Uganda já anunciou que vai retirar as tropas da Somália, em 2017, por falta de apoios económicos.
O Reino Unido defendia a revisão da Política Agrícola Comum, que subsidia os agricultores europeus e embaratece substancialmente os seus produtos. Sem os Britânicos a exigir uma redução nos apoios ao sector, os agricultores africanos não conseguirão colocar os seus produtos no mercado a preços competitivos.
O Reino Unido também vê enfraquecida a sua relação com a África. Steve Barrow, do banco Standard Advisory London, disse à Radio France Internationale que «os únicos acordos que o Reino Unido tem com os países africanos são negociados através da UE. Uma vez que deixámos a UE, essas relações comerciais e acordos deixam de existir».
O governo de Sua Majestade vai ter de renegociar os acordos individualmente com os países africanos e competir com a China, Índia, Brasil, Turquia, Coreia do Sul e Japão por esse mercado. Os produtos britânicos – mais caros – vão ter dificuldades de penetração.
Por outro lado, se a economia britânica se ressentir com a saída da UE – e é bem possível que isso aconteça –, a África também sofre porque perde mercado para os seus produtos, incluindo as rosas do Quénia. A ajuda britânica à África também baixa.
A imigração poderá ser outro problema. Os defensores do Brexit apostaram forte no medo dos estrangeiros e estes vivem um futuro incerto nas Ilhas Britânicas. O Governo vai apertar o controlo das entradas e os africanos são, entre os imigrantes, os que mais se notam.
Finalmente, a batalha contra a corrupção global, a grande bandeira do ex-primeiro-ministro David Cameron, é dúbia, apesar de ser uma questão fundamental para muitos (des)governos africanos.
30 de agosto de 2016
A CAMINHO DA PENÚLTIMA MISSÃO
Caros amigos,
A paz do Senhor esteja sempre convosco, onde quer que estejais! Seja gozando duma pausa de descanso imersos na natureza - como espero! -, ou enfrentando as ocupações do dia-a-dia com os seus problemas.
Comunico-vos que dentro em breve deixo Roma e irei para Verona. Desta vez é a sério, e não como há três anos atrás que, depois de me ter despedido de Roma para regressar definitivamente a Portugal, ao último momento, acabei por não partir. Na próxima segunda-feira, dia 15 de Agosto, celebro o aniversário da minha ordenação sacerdotal, há 38 anos, com esta minha comunidade de Roma que me acolheu durante estes anos e no dia seguinte parto para Verona.
Sou transferido para uma comunidade onde terei uma assistência mais assídua e qualificada. A minha inseparável companheira, a ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica), não me abandona. A finais de Abril e princípios de Maio, estive 10 dias internado por causa duma crise respiratória. Confesso-vos que, como o profeta Elias, também eu gritei dentro de mim: Senhor, deixa-me morrer! Foi a primeira vez que ocupei uma cama reservada aos doentes de ELA. Portanto, os superiores propuseram-me a transferência para um centro aberto recentemente para os nossos missionários doentes.
Nós, missionários, fomos educados a estar sempre prontos para partir. Porém, depois de 18 anos vividos em Roma (5 como estudante, 8 ao serviço da Direção Geral, e agora mais 5 como doente), devo admitir que já tinha criado aqui algumas raízes. Raízes nos pés (?), mas sobretudo no coração, dada a rede de amigos com que o Senhor me abençoou. Sim! Terei saudades de Roma, da casa onde vivi o mais longo período da minha vida, das árvores do nosso parque, mas sobretudo de vós, meus amigos.
Porém parto com muita serenidade. Respondo mais uma vez a esta enésima chamada de Deus a deixar as minhas seguranças para partir… em missão. Sim! Trata-se da minha PENÚLTIMA missão, dado que a última é a que nos será confiada no Paraíso. Disponho-me a vivê-la com o empenho e a generosidade dos trabalhadores da “última hora”, da parábola do Evangelho.
Não vou sozinho. Levo-vos a todos no meu coração. Muito vos agradeço pela prenda da vossa fiel amizade. Sei que não a mereci; mas, precisamente porque não a mereci, estou ainda mais grato a Deus por esta graça. A vossa amizade foi para mim um bálsamo consolador nos momentos de prova. A vossa oração obteve-me o milagre da serenidade e da alegria, que sempre me acompanharam durante esta doença. Que Deus vos abençoe!
Encontrar-nos-emos no coração de Cristo!
Vosso
Padre Manuel João Pereira
Tel. (0039) 3911773617
p.mjoao@gmail.com
Missionari Comboniani - Centro Alfredo Fiorini
Via Oppi, 29
37060 CASTEL D’AZZANO VR (Italia)
Tel. (0039) 045 8521511
Roma, 10 de Agosto 2016
26 de agosto de 2016
CAMINHOS DE CINFÃES
A Câmara Municipal marcou seis pequenos percursos pedestres à volta dos cursos médio e superior do Rio Bestança e de um seu afluente por caminhos antigos com um comprimento total de 52 quilómetros.
Nestas férias fiz quadro dessas rotas acompanhado pela minha sobrinha mais nova. Ficaram para depois a Rota do Vale, de Vila de Muros às Portas do Montemuro (de 18,8 km e com um acumulado de subida de 1273 metros) e o Caminho das Portas (um percurso circular de 5,4 km entre Alhões e as Portas).
Começámos pelo Caminho da Vila, o percurso mais curto que une a Loja de Turismo de Cinfães e o Centro de Interpretação Ambiental do Vale do Bestança, nas Pias. O percurso é linear e tem 2,7 km com um acumulado de subida ou descida de 428 metros. A descida levou cerca de 50 minutos. Depois de uma visita ao Centro de Interpretação e de uma pausa nas águas limpas e retemperantes do Bestança, decidimos fazer o regresso a pé. A subida é íngreme, mas a paisagem é espetacular e vale bem o suor e o esforço. Resgatamos o esforço das gentes ribeirinhas que iam comprar ou vender a Cinfães.
Uma nota sobre o Centro de Interpretação Ambiental do Vale do Bestança que funciona na antiga escola primária das Pias. A iniciativa é interessante: quatro salas apresentam através de vídeos como o ambiente do vale do Bestança muda durante as quatro estações. Um senão: as imagens focam mais a serra que o vale propriamente dito. Noutras salas é possível descobrir algumas das espécies da flora e da fauna caraterísticas do curso do Bestança. A funcionária é muito simpática, mas não está equipada para responder às questões sobre o Bestança já que é dos lados do Paiva. Precisa de algum trabalho de casa,.
O Caminho do Prado foi a segunda aventura. Trata-se de um percurso circular no curso médio do Bestança. Parte de Vila de Muros em direção à Ponte de Covelas com uma subida até ao fundo da aldeia homónima e depois uma longa caminhada até descer ao Prado, subir a Valverde e regressar a Vila de Muros. Cobre 6,7 km, tem um acumulado de subida 236 metros e demora um pouco mais de duas horas e meia.
O caminho está bem marcado – exceto na bifurcação para a Ponte de Covelas – onde a sinalética foi levada por uma derrocada no inverno passado. Quem não está familiarizado com a geografia da área pode perder-se. A Loja do Turismo prometeu resolver o problema.
A caminhada faz-se quase sempre sob frondosa verdura junto ao rio com o murmúrio das águas e o chilrear dos pássaros em música de fundo. Espetacular! Cruzamo-nos com um casal de caminheiros espanhóis. Entre o Prado e Valverde há muita informação sobre a fauna e a flora do rio. Descobrimos o que é o embudo (ou cicuta) e as cenouras selvagens. E vimos muitas borboletas a esvoaçar. Os nomes científicos são interessantes: branquinha, amarelinha, castanhinha… É um percurso maravilho!
A terceira incursão foi no Vale de Aveloso, acompanhados por uma amiga. Outro percurso circular em forma de oito que começa junto à Junta de Freguesia de Tendais, em Quinhão, sobe para Cimo de Vila e Macieira até Aveloso, com uma subida bastante íngreme antes da aldeia serrana. De Aveloso desce para Meridãos ao longo da Ribeira de Covais. Prossegue para o ponto de partida através de uma calçada antiga que passa por baixo de Barrondes. O percurso cobre uma distância de 10,7 km e levou-nos 3h40 a caminhar. É preciso alguma atenção às marcas do caminho porque estão bastante espaçadas. A subida da Ribeira de Covais para Aveloso é muito íngreme e extenuante, mas merece o esforço pela paisagem que revela. As pessoas de Aveloso são muito simpáticas e acolhedoras. O vale da ribeira é um autêntico viveiro de lesmas. O percurso do fundo da descida de Aveloso até Meridãos é bastante plano e muito agradável.
Para fechar fizemos as Encostas da Serra, outro percurso circular de Bustelo até ao Bestança com uma pequena subida na margem esquerda até encontrar o caminho de Alhões para Tendais, nova passagem para a margem direita e depois a subida da Encosta da Cabra, do rio até Alhões. A via ligava as povoações da serra a Cinfães e a Mosteirô, via Tendais, por onde levavam os doentes em padiolas e macas e traziam os produtos que compravam no baixo concelho.
É outro percurso maravilhoso feito no curso superior do Bestança e com vistas deslumbrantes sobre o rio e o vale do Douro. Começa e acaba na eira da Laje, em Bustelo, e cobre uma distância de 8,1 km com um acumulado de subida de 354 metros. Levamos cerca de 2h40 minutos a fazê-lo numa manhã com algum nevoeiro e «chuva-molha-tolos». Os caminhos da margem direita estão limpos. O trilho atravessa florestas de carvalhos (na parte baixa) e soutos de castanheiros (junto a Alhões). Cruzámo-nos com alguns rebanhos de ovelhas e vacas. Um senhor, muito simpático e prestável que estava de férias em Bustelo, ajudou-nos a chegar à eira da Laje e mostrou-nos o «sardão de pedra». Não sou especialista, mas parece um fóssil de um réptil comprido na beira do fundo da eira. O percurso está bem marcado e dá uma volta bastante grande dentro da aldeia de Alhões com passagem pelo seu parque de lazer.
Adorei estas caminhadas (feitas de manhã exceto a de Aveloso que foi feita depois das 17h00 e terminou com o dia a declinar) registadas e homologadas pela Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal.
Cumprimento a Câmara Municipal pela iniciativa que se insere no programa [RE]DESCOBRIR CINFÃES.
Agradeço à Tininha a excelente companhia que foi nestas imersões no Cinfães profundo.
Agora o desafio é manter os percursos limpos e transitáveis com as sinaléticas visíveis, já que as silvas começam a invadir alguns percursos (sobretudo de Covelas ao Prado) e em partes do caminho de Aveloso.
Os caminhos vencem desníveis acentuados (acumulados de subida) mas fazem-se bem com um par de ténis e um pau. Basta calma e gosto pela natureza.
20 de agosto de 2016
CARTA ABERTA DO FÓRUM SOCIAL MUNDIAL 2016
Acreditamos que a participação no FSM seja um sinal de fidelidade ao carisma do nosso fundador São Daniel Comboni, que lutou pela libertação da escravatura e pela regeneração da África.
Nos seminários conduzidos pelo Comboni Network tivemos a oportunidade de apresentar e dar a conhecer melhor as situações dramáticas no Sudão do Sul, República Democrática do Congo e Brasil, pondo em relevo a luta por uma paz justa, o empenho pela transformação social e a resistência das comunidades locais às violações socio-ambientais.
Nos seminários enfrentámos também a análise dos temas do açambarcamento da terra, do tráfico de pessoas e das alterações climáticas, evidenciando o trabalho de advocacia para uma estratégica de intervenção global.
Devido à prática discriminatória do Gabinete de Imigração Canadiano, foi negado o visto a muitas pessoas provenientes da África e da Ásia desejosas de participar do FSM. A sua ausência foi uma grave perda para o evento que pela primeira vez se realizou numa cidade do Norte do mundo. Não se ouviram assim as vozes de quantos no Sul do mundo teriam podido sacudir a opinião pública sobre as consequências nefastas de políticas económicas neoliberalistas nos seus países e tornarem-se partícipes do sonho de associações que lutam por uma paz justa e uma economia sustentável.
Constatámos com tristeza o escasso envolvimento no FSM da Igreja Católica local. Em contrapartida, houve uma satisfatória participação de religiosos e em particular de religiosas nas atividades do FSM.
É fundamental que a Igreja local seja envolvida ativamente na preparação e desenvolvimento dos próximos FSM para conectar-se com o trabalho pela justiça, paz e integridade da criação levado adiante por tantos cristãos no mundo.
Não obstante os limites organizativos sentidos no FSM em Montreal, consideramos importante manter e reforçar como Família Comboniana o empenho e a participação nos próximos FSM lugar privilegiado de encontro e de intercâmbio de experiências entre quantos acreditam e lutam juntos por um mundo outro.
Acolhemos o desafio do Papa Francisco que na encíclica «Laudato Sii» chama a Igreja a escutar o grito da Terra e dos pobres e a unir-se a todas as pessoas de boa vontade para realizar a globalização da solidariedade e assumir o cuidado da casa comum.
Às missionárias e missionários propomos que:
- Os nossos Institutos sejam maiormente envolvidos na preparação do próximo FSM e do Fórum Mundial de Teologia e de Libertação, aprendendo com a reflexão e práxis de outros grupos e oferecendo a nossa experiência missionária ao lado dos pobres;
- A participação no FSM de confrades e irmãs empenhados em JPIC se torne sempre mais um empenho formal assumido pelos nossos Institutos. No contexto de mudança das estruturas da Direção Geral e dos Secretariados dos nossos Institutos, seja garantida a continuidade do envolvimento da Família Comboniana. Especificamente, seja dado apoio a uma equipa permanente que coordene a interação comboniana com o FSM, instituindo também um fundo intercongregacional ad hoc. Desse modo, a participação no Fórum poderá ser um processo contínuo de requalificação da nossa experiência missionária;
- Se aprofunde a nossa colaboração com a comissão JPIC de UISG e USG, se reforce o diálogo com o Conselho Pontifício de Justiça e Paz e o empenho nas redes VIVAT Internacional, AFJN e AEFJN;
- O empenho comboniano a nível de JPIC se estenda ao tecido dos movimentos sociais, que operam em redes locais, nacionais e internacionais;
- Os nossos media – Nigrizia, Mundo Negro, Além-Mar, ComboniFem, etc. – se tornem portadores dos valores e dos desafios do FSM através de uma adequada comunicação;
- O percurso formativo comboniano seja aberto aos empenhos específicos das nossas províncias no contexto de JPIC e na experiência do FSM, para ajudar os nossos jovens a encarar melhor os desafios do mundo de hoje.
Montreal, 14 de agosto de 2016
Ir. Anna Faggion
Ir.
Gabriella Bottani
P. Efrem
Tresoldi
P. Fernando
Zolli
P. Mariano
Tibaldo
P. Arlindo
Ferreira Pinto
Ir. João
Paulo da Rocha Martins
P. John Michael Converset
P. Gian Paolo Pezzi Trebeschi
P. Jaime
Calvera Pi
Ir.
Bernardino Dias Frutuoso
P. Daniele
Moschetti
P. Raimundo
N. Rocha dos Santos
P. Dario
Bossi
P. Joseph
Mumbere Musanga
P. Paul
Annis
28 de julho de 2016
RDC: MISSIONÁRIOS APANHADOS EM MANIF VIOLENTA
Dois missionários combonianos apanharam um susto valente por estarem na hora errada na parte errada de Kisangani, no norte da República Democrática do Congo.
Na segunda-feira o P. José Arieira foi levar o P. Lorenzo Frattini ao aeroporto regional de Kisangani.
Depois de passarem várias barreiras de controlo montadas por manifestantes moto-taxistas, foram envolvidos por uma multidão enfurecida de jovens armados de pedras, paus e barras de ferro.
«Enquanto fazíamos inversão de marcha saltaram-nos para cima do jipe, atiraram-nos pedras, partiram os vidros da parte traseira e lateral direita para além de danificarem a chaparia e as portas traseiras», conta o P. Arieira.
O comboniano de Viana do Castelo que regressou à RD do Congo no ano passado disse que os missionários escaparam ilesos apesar das pedras, dos vidros partidos e da chaparia amassada.
«Felizmente não fomos atingidos mesmo se as pedras caíam ao nosso lado. Também encontramos dentro do veículo parte do cano de uma metralhadora que serviu para partir os vidros».
Os militares entraram em cena e os missionários chegaram ao aeroporto protegidos por uma coluna militar.
Pelo menos dois manifestantes foram mortos e cinco feridos com gravidade pelo exército.
Esvaziaram os pneus dos manifestantes que usavam motas e queimaram os veículos dos que insistiram em furar o cordão de segurança.
Os jovens taxistas manifestavam-se contra o controlo apertado da polícia nacional.
O P. Arieira explica que as moto-táxis em Kisangani são aos milhares.
A maioria é indocumentada.
Na terça-feira o primeiro-ministro deslocou-se de Kinshasa, a capital, a Kisangani para tentar serenar os ânimos.
«A situação continua quente», diz o P. Arieira. «O protesto manifesta o descontentamento deste povo no que diz respeito à situação politica e social.»
Os moto-taxistas ameaçam voltar às ruas se a polícia continuar a importuná-los.
27 de julho de 2016
CARTA DE NUREMBERGA
Missionários
Combonianos do Coração de Jesus
Assembleia
Continental Europeia da Formação
Nurembergua, 5 – 13
de Julho de 2016
À atenção dos Confrades
Comunidades combonianas
EUROPA
O tema da Assembleia «A nossa formação comboniana como um único processo de crescimento na paixão por Cristo e pelas pessoas» guiou-nos nos momentos de partilha, escuta, oração, discernimento e programação. O serviço ao qual fomos chamados não se limita apenas à promoção vocacional e à formação de base, mas também a ajudar-nos a viver a nossa vocação missionária com alegria e paixão em cada momento da nossa vida. Os jovens sentem necessidade de encontrar missionários que fizeram da missão o seu ideal de vida e que têm paixão por Cristo e pelo seu povo.
E assim, como representantes de todas as fases do nosso processo formativo – da pastoral vocacional juvenil à formação permanente passando pelas etapas de formação inicial – deixámo-nos interrogar pelos desafios que encontramos no nosso serviço missionário. Com alegria agradecemos ao Senhor que continua a chamar tantos jovens à vida missionária segundo o carisma de Daniel Comboni, e agradecemos-lhe pelos nossos candidatos em formação nos vários postulantados, no noviciado europeu de Santarém e no escolasticado de Casavatore.
Pela primeira vez também os coordenadores da formação permanente tomaram parte na assembleia continental: a sua presença ajudou-nos a compreender a importância de continuar a crescer – sempre – num espírito de docibilitas na nossa paixão missionária por Cristo e o seu povo.
A missão esteve muito presente na nossa reflexão, porque é pela missão que nascemos, é pela missão que somos desafiados ao nosso renovamento e é pela missão que nos estamos a formar. As notícias que nos chegam de Juba enchem-nos o coração de tristeza e em comunhão convosco rezamos pelo dom da paz não só no Sudão do Sul mas também em tantas situações de guerra e violência no mundo.
Agradecemos aos confrades da Província de língua alemã (DSP), de modo particular aos da comunidade de Nuremberga, pelo seu acolhimento muito fraterno e pelos muitos serviços que nos foram prestados: tornaram a assembleia num momento de comunhão que nos fez experimentar a alegria e beleza de ser verdadeiro cenáculo de apóstolos.
Agradecemos também a vós por terdes estado connosco com a vossa oração e testemunho de vida alegre. Que o Senhor nos acompanhe no nosso caminho e ajude todos nós a ser sempre discípulos missionários combonianos que vivem a alegria do evangelho no mundo de hoje.
Os participantes da
Assembleia continental da Formação (Europa)
Cúria de Roma: P.
John Baptist Opargiw, P. Fermo Bernasconi
Portugal: P.
Leonel Claro, P. Jorge Domingues, P. Victor Tavares Dias
Espanha: P.
Daniel Villaverde, P. Pedro Andrés, P. José Juan Valero
Itália: P. Celestino Prevedello, P. Davide De Guidi, P. Rinaldo Ronzani
P. Jesús Villasenor (Chuche),
Ir. Alberto Parise, Ir. Antonio Soffientini,
P. Maurizio Balducci
London Province: P.
Melaku Tafesse, P. Rubén Rocha Padilla
DSP: P.
Karl Peinhopf, P. Roberto Turyamureeba P. Michael Zeitz, Ir. Friedbert Tremme
Polónia: P. Maciej Tomasz
Nuremberga, 13 de
Julho de2016
26 de julho de 2016
CARTA DOS PROVINCIAIS EUROPEUS A TODOS OS CONFRADES DO SECTOR DA COMUNICAÇÃO
Verona, 21 de Julho de 2016
Caros confrades,Saudações a todos vós da Casa-Madre de Verona onde nos reunimos para um seminário de três dias sobre o tema «Comunicar a missão na era digital». O encontro teve duas partes principais.
A primeira de análise, onde tomámos conhecimento do mundo digital como espaço de comunicação, ajudados por alguns especialistas: Prof. Silvano Petrosino, Ir. Bernardino Frutuoso, Ir. Alberto Lamana, Roberto Misas (por e-mail), P. Fabrizio Colombo, P. Giulio Albanese e P. Arlindo Pinto.
Na segunda parte procurámos delinear algumas pistas operativas, certos de que o mundo digital é imprescindível para dialogar e encontrar os jovens de hoje e um sempre maior número de pessoas.
Entre as prioridades operativas sublinhámos estas:
1. Plano de comunicação. É uma base importante e articulada da qual partir. Permitir-nos-á definir a visão, missão, objectivos, instrumentos e alvo da comunicação comboniana na Europa, em todos os seus aspectos. Para fazer isso foi nomeada uma comissão que preparará um esboço a apresentar em Dezembro aos provinciais europeus e depois, em Maio de 2017, aos participantes da Assembleia dos mass-media em Granada (Espanha).
2. Reforçar a nossa presença no digital. Para comunicar com as novas gerações queremos explorar os formatos «app» a adaptar cada publicação, para ligar smartphones e tablets às páginas WEB.
3. Multimédia. A presença no digital exige o empenho da multimedialidade (vídeo, infogramas, animações, fotos, áudio, etc.) que requer novas modalidades de partilha entre os nossos sítios.
4. Redes sociais e missão. Na perspectiva de lançar uma rede social missionária, auspiciamos que se desenvolva um uso quer pessoal quer institucional das redes sociais já à disposição de todos gratuitamente como Facebook, Twitter, Instagram, etc.
5. Colaboração entre as redacções. Há uma tradição de colaboração entre as redacções, que deve ser ulteriormente incrementada, por exemplo partilhando a programação anual e o plano mensal, e publicando artigos comuns sobre temas relevantes.
6. Internet, angariação de fundos e missão. Os nossos meios de comunicação são uma fonte de sustento económico. A Internet é também um espaço para suscitar solidariedades e recolher fundos para a missão. É preciso explorar as estratégias e as possibilidades que nos são oferecidas pelas novas tecnologias, para que não nos faltem os meios necessários.
Agradecemos-vos pelo vosso serviço e pedimos que nos ajudeis a aprofundar os desafios da comunicação na era digital.
Um abraço fraterno a todos vós.
Os provinciais da Europa
13 de julho de 2016
Sudão do Sul: O QUE ESTÁ ACONTECENDO?
O P. Raimundo Rocha, missionário comboniano brasileiro que reside em Juba, faz o ponto da situação sobre a violência e morte que caiu sobre a capital mais jovem do mundo nos últimos dias de julho.
A vinda do exército de oposição à capital foi em cumprimento do acordo de paz assinado em agosto de 2015 que prevê o fim da guerra e a formação de um governo de unidade nacional entre as duas partes conflituantes, governo e oposição, até as próximas eleições em 2018. Os dois lados estiveram em guerra por mais de dois anos até o acordo de paz de agosto de 2015. Colocar dois exércitos na mesma cidade era talvez necessário como tentativa de busca da paz, reconciliação e governabilidade, mas também um grande risco de enfrentamento.
As tensões surgiram e aumentaram dias antes do dia da Independência, 9 de julho. Parecia que os dois lados estavam só esperando por um motivo para iniciar uma briga ou continuar a velha batalha. Na quinta-feira, dia 7 de julho, um grupo de soldados da oposição foi detido por soldados do governo enquanto faziam patrulhamento pela cidade. As tensões aumentaram e começou um tiroteio entre eles resultando na morte de cinco soldados do governo (SPLA) e soldados feridos da oposição (SPLA-IO). A situação foi logo contida e na sexta-feira, dia 8 de julho, marcada uma reunião para discutir a situação. O Presidente Salva Kiir deveria na ocasião fazer também um discurso à nação, pois era véspera do dia da Independência.
A reunião aconteceu no Palácio Presidencial (J1) com a presença do Presidente Salva Kiir Mayardit, Primeiro Vice-presidente Riek Machar Teny, e o Vice Presidente James Wanni Igga, seus oficiais e segurança pessoal. Centenas de soldados dos dois lados se aglomeram do lado de fora do Palácio Presidencial, ficando dentro somente a guarda pessoal dos líderes e alguns jornalistas.
Por volta das cinco da tarde de sexta-feira dia 8 de julho, um tiroteio intenso foi iniciado do lado de fora do Palácio Presidencial que durou por cerca duas horas. O combate se espalhou por outras partes da cidade. Por volta das sete da noite, quando houve calmaria, o Presidente e Primeiro Vice-presidente falaram em rede nacional e disseram não saber o que estava acontecendo. Os líderes pediram calma à população e disseram que tudo estava sobre controlo.
Ninguém sabe ao certo quem começou a trágica briga. Quando a briga terminou mais de 270 pessoas estavam mortas, incluindo civis. Há quem diga que essa briga teve relações com o incidente de quinta-feira à noite que deixou cinco soldados mortos. Certamente o momento era de muita tensão. Não ficou claro se houve algum atentado direto ao Primeiro Vice-presidente que foi escoltado à sua residência com segurança ainda naquela noite.
Novos combates
Sábado, dia 9 de julho, foi o dia da Independência, feriado nacional, mas sem comemoração por falta de dinheiro. Havia pouca movimentação na cidade. Sentia-se que o ambiente era de tensão, porém não houve nenhum combate nesse dia. No domingo, porém, por volta das 8.30 da manhã iniciaram intensos combates que duraram até a noite. Foram usadas artilharias pesadas em várias partes da cidade, sobretudo nas proximidades da residência do Primeiro Vice Presidente, Riek Machar, que fica próxima a um campo de mais de 28.000 deslocados de guerra e a residência da ONU, em Juba. Os combates continuaram na segunda-feira até a noite, mesmo com o governo dizendo que tudo estava sobre controlo.
Finalmente ao anoitecer de segunda-feira, dia 11 de julho, o Presidente Salva Kiir declarou um cessar-fogo imediato para valer a partir das 18.00h do mesmo dia. O Primeiro Vice-presidente, Riek Machar, ratificou o cessar-fogo e chamou suas tropas para o fim dos combates. Em seguida aconteceu uma aterrorizante meia hora de tiros, a maioria para o alto, e ninguém sabia o que estava acontecendo porque era na cidade inteira. Só mais tarde soube-se que era uma forma de celebrar o cessar-fogo. Desde então não houve mais tiroteio, apenas se escuta alguns tiros esporádicos durante a noite.
Os cinco dias de intensos combates deixaram centenas de mortos, inclusive civis, e quase 40 mil desabrigados que procuraram refúgio nas bases da ONU e nas igrejas ou fugiram para os povoados. Todo esse povo passa por grandes necessidades e a população inteira aterrorizada e indignada com mais guerra quando devia ser tempo de paz. Durante os combates aconteceram saques a residências, a mercados e lojas.
Como está a situação
Desde o cessar-fogo na segunda-feira, a situação no geral em Juba permanece calma, mas ainda se percebe certa tensão. Durante todo o dia de terça-feira (12/07/16) dois jatos de guerra e dois helicópteros armados sobrevoaram a cidade. A residência do Primeiro Vice Presidente foi bombardeada durante os combates, mas ele conseguiu sair antes do acontecido. Há informações de que houve também violência em Wau, Torit, Bentiu, Lainya, Leer e Kajo-Keji no interior do país. Não há confirmação se esses conflitos têm relação direta com a violência de Juba. Também não se sabe se a situação está calma nestas áreas.
As duas forças, SPLA e SPLA-IO, estiveram em Juba como cumprimento do acordo de paz. Depois dos combates a cidade está sobre o controle do governo (SPLA). As forças de oposição eram pouco mais de 1500 homens e tiveram perdas. Os demais estão em um lugar desconhecido com o Primeiro Vice-presidente.
Os civis que fugiram dos conflitos começam a voltar para casa. Algumas lojas reabriram. Há movimento pelas ruas, mas não como era antes. As pessoas se apressam em conseguir alimentos e outros itens. Tudo ficou excessivamente mais caro. Escolas ainda estão fechadas. Já não se ouve mais tiros nem barulho de aeronaves militares nesta quarta-feira.
Muitos estrangeiros deixam a cidade em voos fretados pelas embaixadas ou organizações não-governamentais. As fronteiras estão fechadas para cidadãos do Sudão do Sul. Somente estrangeiros podem deixar o país. Os voos regulares estão cancelados, mas há informações de que reiniciarão em breve. Há somente voos de evacuação. As redes de telemóveis e a internet continuam a funcionar normalmente.
A comunidade internacional e a ONU, como também as Igrejas e outras organizações, condenaram a violência em Juba. Pediram para que seja aberto um corredor para ajuda humanitária para a população atingida pelos conflitos e a reabertura do aeroporto. A ONU condenou a morte de três soldados das forças de paz e os ataques à base de proteção de civis que está sobre sua responsabilidade. Até o momento não se vê nenhuma tipo de intervenção internacional, além das ameaças de embargo a armas contra o Sudão do Sul por parte do Conselho de Segurança da ONU. Se o acordo de paz não fracassou, com certeza sofreu um grande golpe.
Embora a situação esteja sobre controlo e a calma e tranquilidade aos pouco retornam, há dúvidas se o atual cessar-fogo durará por muito tempo. Há temores de que os combates possam ser reiniciados e o país volte à guerra civil mais uma vez e com a participação de várias milícias. A situação está calma, pelo menos em Juba, mas é um pouco volátil e imprevisível.
Situação dos missionários
Há muitos missionários trabalhando no Sudão do Sul. Entre eles estão os Missionários Combonianos e Missionárias Combonianas, que são os pioneiros desde os tempos de São Daniel Comboni. Estes não sofreram violência direta, mas ficaram aterrorizados como toda a população. Os confrontos do dia 8 de julho se iniciaram a 500 metros da Casa Provincial dos Combonianos que fica perto da Residência e Palácio Presidenciais. Nos dias seguintes se espalharam por outras áreas onde residem mais missionários. Por quatro dias ninguém podia sair de casa. As atividades foram canceladas em Juba. Entre os que trabalham no interior, tudo seguia como de costume.
Os missionários resolveram não deixar o país, somente se houver novos combates e a situação se tornar insuportável. A situação continua calma e a expectativa é que as tensões desapareçam e a paz e tranquilidade sejam restabelecidas. Continuamos monitorando a situação e rezando pela paz. Agradecemos a todas as pessoas que se juntam a nós em oração neste momento difícil para o povo do Sudão do Sul.
Pe. Raimundo Rocha,
mccj
11 de julho de 2016
ENGENHEIRO DEDICA EURO 2016 A JESUS
O treinador de Portugal dedicou a Jesus o título de campeão europeu que conquistou ontem no Parque dos Príncipes em Paris, França.
Fernando Santos escreveu o discurso de vitória em forma de agradecimento a 18 de julho depois do empate contra a Áustria.
O texto é um enorme testemunho de fé em Deus e nos seus jogadores.
O engenheiro começa por agradecer a Deus-Pai pelo momento que vive e por todos os momentos da sua vida
No parágrafo final, nomeia Jesus como o seu maior amigo e agradece-lhe «o dom da sabedoria, perseverança e humildade para guiar esta equipa.»
O título antecipado? «Espero e desejo que seja para glória do Seu nome.»
É este o grande bem-hajam que leu, emocionado, na conferência de imprensa no final do jogo que coroou Portugal pela primeira vez campeão da Europa:
«Em primeiro lugar e acima de tudo, quero agradecer a Deus Pai por este momento e tudo aquilo da minha vida. Deixar uma palavra especial ao presidente, dr. Fernando Gomes, pela confiança que sempre depositou em mim. Não esqueço que comecei com um castigo de oito jogos pendentes.
A toda a direcção e a todos os que viveram comigo estes meses. Aos jogadores, dizer mais uma vez que tenho um enorme orgulho em ter sido o seu treinador. A estes e aqueles que aqui não puderam estar presentes. Também é deles esta vitória. O meu desejo pessoal é ir para casa. Poder dar um beijo do tamanho do mundo à minha mãe, à minha mulher, aos meus filhos, ao meu neto, ao meu genro e à minha nora e ao meu pai, que junto de Deus está certamente a celebrar.
A todos os amigos, muitos deles meus irmãos, um abraço muito apertado pelo apoio mas principalmente pela amizade. Por último, mas em primeiro, ir falar com o meu maior amigo e sua mãe. Dedicar-Lhe esta conquista e agradecer-Lhe por ter sido convocado e por me conceder o dom da sabedoria, perseverança e humildade para guiar esta equipa e Ele a ter iluminado e guiado. Espero e desejo que seja para glória do Seu nome.»
ANJOS DE MISERICÓRDIA
Em Fevereiro de 1868, Daniel Comboni escrevia do Cairo: «Deus digna-se, em sua imensa misericórdia, marcar a nossa obra com o adorado selo da cruz» (Escritos 1571).
O Ano Santo Extraordinário fez-me reler Daniel Comboni em chave de misericórdia. A Regra de Vida destaca o Coração de Jesus e o mistério da cruz como duas extensões do ADN espiritual comboniano (RV 3-4). Ao preparar alguns temas para este jubileu descobri que a cruz e a misericórdia formam um binómio essencial da espiritualidade comboniana.
O nosso pai e fundador evoca frequentemente o Deus da(s) misericórdia(s) e Maria como «boa mãe de misericórdia» (Escritos 1642). A palavra misericórdia(s) aparece pelo menos 74 vezes na edição portuguesa de Escritos e misericordiosa/o 13. Poucas num total de mais de 905 mil palavras? Talvez! Mas o suficiente para nos fazer pensar e rezar o tema da misericórdia em tonalidade comboniana.
Em 1880, Comboni escreveu num longo relatório sobre uma crise humanitária que devastou a África Central em 1878 e 1879 fazendo milhares de vítimas.
«Estas tremendas calamidades não beliscaram, pela graça de Deus, a nossa coragem nem diminuíram a força do nosso espírito; antes pelo contrário, provas tão duríssimas contribuíram fortemente para que o nosso ânimo se fortalecesse, pondo toda a nossa confiança nesse Deus das misericórdias que nos precedeu no caminho da cruz e do martírio e mantendo-nos firmes e constantes na nossa árdua e santa vocação» (Escritos 6367), nota.
Comboni descreve os colaboradores e benfeitores da missão africana como encarnação da misericórdia de Deus: «A misericórdia divina, graças à exímia caridade dos benfeitores, manteve ainda de pé as árduas e importantes missões do Vicariato e salvou muitas almas atendendo às mais extremas necessidades» (Escritos 6403).
Também vê as dificuldades à luz da misericórdia. A 27 de agosto de 1880, escreve de Verona ao Cardeal João Simeoni, respondendo a uma campanha caluniosa contra a sua administração: «Deus é misericórdia, caridade e justiça, e saberá tirar destas providenciais vicissitudes o maior bem para a África» (Escritos 6098),
Mas a expressão mais estimulante – e a mais brutal no falar de hoje – é a que usou para descrever o P. Nicolau Olivieri como «aquele verdadeiro anjo de misericórdia» (Escritos 4803).
Estas quatro singelas palavras deixam ao léu a nossa identidade mais profunda, a nossa definição mais essencial: verdadeiros anjos de misericórdia. Anjos, não seres assexuados ou alados, mas enviados da Trindade santa e misericordiosa, para serem «misericordiosos como o Pai» (Lucas 6, 39).
Os «verdadeiros anjos de misericórdia» fazem-se em comunidades que sejam genuínos laboratórios de misericórdia já que ninguém, quiçá tirando os políticos, pode dar o que não tem.
Jesus felicita o cenáculo misericordioso de apóstolos: «Felizes os que tratam os outros com misericórdia, porque Deus os tratará com misericórdia também» (Mateus 5, 7).
O Ano da Vida Consagrada desaguou no mar alto e fundo do Jubileu Extraordinário da Misericórdia. O Papa Francisco recordou-o aos consagrados no encerramento do seu ano. Disse: «se, neste Ano da Misericórdia, cada um de vós conseguisse nunca ser o terrorista mexeriqueiro ou mexeriqueira, seria um sucesso para a Igreja, um grande sucesso de santidade.»
Esta é outra dimensão da misericórdia: o ministério da compaixão mútua, dada e recebida na aceitação e acolhimento de cada missionário como presente e bênção de Deus.
Paulo escreveu aos cristãos de Roma: «Amem-se como irmãos e sejam gentis uns com os outros. Trabalhem e não sejam preguiçosos e sirvam o Senhor com dedicação e fervor. Sejam alegres na esperança que têm. Tenham coragem nos sofrimentos e nunca deixem a oração. Repartam com os crentes necessitados e recebam bem os que procuram hospitalidade. Peçam a Deus que abençoe aqueles que vos tratam mal. Peçam para eles bênçãos e não maldições. Alegrem-se com os que se alegram e chorem com os que choram. Vivam em harmonia de sentimentos» (Romanos (12, 10-16).
Este é o plano de vida de um missionário como Comboni quer: «verdadeiro anjo de misericórdia», porque «as vias do Senhor são misericórdia e Deus charitas est» (Escritos 6582).
Bendizer-maldizer, dizer bem-dizer mal, abençoar-amaldiçoar é a dicotomia com que expressamos a ambiguidade do nosso viver.
Boas férias!
10 de julho de 2016
Sudão do Sul: GERAL DOS COMBONIANOS PREOCUPADO
O Superior Geral escreveu à comunidade comboniana em Juba, Sudão do Sul, a manifestar proximidade, choque e preocupação com os combates mortais entre militares do Governo e da Oposição que desde 7 de julho fizeram mais de uma centena de mortos na capital.
O P. Tesfaye Tadesse escreveu uma mensagem em nome da direção-geral.
«Estamos todos preocupados com os novos confrontos militares, em Juba, nas vésperas do quinto aniversário da Independência do País», disse.
Os confrontos continuaram esta manhã envolvendo armamento ligeiro e pesado bem como meios aéreos em diversas áreas da capital mais jovem do mundo, sobretudo à volta do campo de refugidos da ONU.
«Todos nós nos sentimos solidários convosco, unindo-nos aos vossos sentimentos de desilusão, tristeza e dor por tudo o que está a acontecer», escreveu o missionário etíope.
E continuou: «Estamos todos chocados com a amoralidade das pessoas no poder que não pensam no bem comum e na paz para as populações do Sudão do Sul, as quais já viram e sofreram o suficiente, por causa da guerra nas últimas décadas.»
O superior-geral agradeceu o testemunho dos missionários no Sudão do Sul, terra santa dos combonianos.
«Obrigado por estardes a fazer causa comum com o povo do Sudão do Sul. Que Deus conceda a paz a este País! Que pela intercessão de Maria, nossa Mãe, e de São Daniel Comboni o Sudão do Sul venha a obter uma paz duradoura», escreveu.
O P. Tesfaye prometeu orações pelas partes em conflito.
«Rezamos para que Jesus, o Rei da Paz, oriente os corações dos políticos e dos oficiais do exército para que deponham as armas e se sentem à mesma mesa para dialogar.»
O Sudão do Sul vive em guerra civil desde 15 de dezembro de 2013. Em agosto do ano passado o presidente Salva Kiir Mayardit e o ex-vice-presidente Riek Machar Teny assinaram um acordo de paz.
Confrontos entre as tropas fiéis a Kiir e a Machar continuaram um pouco por todo o país de Kajo Keji, na fronteira com o Uganda, a Wau, perto do Sudão e de Yambio, na fronteira com a RD Congo a Maguwi, junto ao Quénia.
Em abril o Dr Machar regressou a Juba e tomou posse como primeiro vice-presidente do governo transitório de unidade nacional.
Na quinta-feira, 7 de julho, um tiroteio entre tropas das duas facções num posto de controlo de Gudele, no norte de Juba, matou cinco militares do Governo.
Na sexta-feira 8 de julho, mais de uma centena de pessoas foram mortas – sobretudo militares – quando as duas forças se envolveram em violentos combates à volta do palácio presidencial onde o presidente, o primeiro vice-presidente e o vice-presidente discutiam o incidente do dia anterior.
No sábado, 9 de julho, 5º aniversário da independência do país, Juba esteve calma.
No domingo, 10 de abril, a capital acordou com disparos ligeiros e pesados em várias partes da cidade. Os combates, envolvendo helicanhões, continuaram durante o dia.
Os confrontos continuaram esta manhã envolvendo armamento ligeiro e pesado bem como meios aéreos em diversas áreas da capital mais jovem do mundo, sobretudo à volta do campo de refugidos da ONU.
«Todos nós nos sentimos solidários convosco, unindo-nos aos vossos sentimentos de desilusão, tristeza e dor por tudo o que está a acontecer», escreveu o missionário etíope.
E continuou: «Estamos todos chocados com a amoralidade das pessoas no poder que não pensam no bem comum e na paz para as populações do Sudão do Sul, as quais já viram e sofreram o suficiente, por causa da guerra nas últimas décadas.»
O superior-geral agradeceu o testemunho dos missionários no Sudão do Sul, terra santa dos combonianos.
«Obrigado por estardes a fazer causa comum com o povo do Sudão do Sul. Que Deus conceda a paz a este País! Que pela intercessão de Maria, nossa Mãe, e de São Daniel Comboni o Sudão do Sul venha a obter uma paz duradoura», escreveu.
O P. Tesfaye prometeu orações pelas partes em conflito.
«Rezamos para que Jesus, o Rei da Paz, oriente os corações dos políticos e dos oficiais do exército para que deponham as armas e se sentem à mesma mesa para dialogar.»
O Sudão do Sul vive em guerra civil desde 15 de dezembro de 2013. Em agosto do ano passado o presidente Salva Kiir Mayardit e o ex-vice-presidente Riek Machar Teny assinaram um acordo de paz.
Confrontos entre as tropas fiéis a Kiir e a Machar continuaram um pouco por todo o país de Kajo Keji, na fronteira com o Uganda, a Wau, perto do Sudão e de Yambio, na fronteira com a RD Congo a Maguwi, junto ao Quénia.
Em abril o Dr Machar regressou a Juba e tomou posse como primeiro vice-presidente do governo transitório de unidade nacional.
Na quinta-feira, 7 de julho, um tiroteio entre tropas das duas facções num posto de controlo de Gudele, no norte de Juba, matou cinco militares do Governo.
Na sexta-feira 8 de julho, mais de uma centena de pessoas foram mortas – sobretudo militares – quando as duas forças se envolveram em violentos combates à volta do palácio presidencial onde o presidente, o primeiro vice-presidente e o vice-presidente discutiam o incidente do dia anterior.
No sábado, 9 de julho, 5º aniversário da independência do país, Juba esteve calma.
No domingo, 10 de abril, a capital acordou com disparos ligeiros e pesados em várias partes da cidade. Os combates, envolvendo helicanhões, continuaram durante o dia.
A arquidiocese de Juba cancelou todas as missas dominicais nas três paróquias da cidade para as pessoas se manterem em casa.
Um membro da comunidade de Juba garante que os missionários estão bem.
O governo formou um comité para investigar os incidentes.
A ONU e a União Africana condenaram os combates e exigiram às partes em conflito o que parem as hostilidades.
Um membro da comunidade de Juba garante que os missionários estão bem.
O governo formou um comité para investigar os incidentes.
A ONU e a União Africana condenaram os combates e exigiram às partes em conflito o que parem as hostilidades.
9 de julho de 2016
Sudão do Sul: CINCO ANOS SEM GRAÇA
Machar e Kiir durante a conferência de imprensa de 8 de julho:
«A violência foi infeliz!»
«A violência foi infeliz!»
Há cinco anos estava em Juba a cobrir a cerimónia da independência e a participar no júbilo e na esperança de um povo que esperou meio século e sofreu duas guerras civis sangrentas contra o regime de Cartum para celebrar a sua autonomia e dignidade.
A lua-de-mel da independência durou meio ano. O Sudão queria continuar a usufruir dos proventos do petróleo sul-sudanês que o exportava através dos seus oleodutos. Juba suspendeu a produção e a economia do país caiu a pique.
O governo desperdiçou o capital de simpatia que tinha conquistado na comunidade internacional com a corrupção e nepotismo. Ainda estão por encontrar mais de 4 mil milhões de dólares que sumiram no buraco negro das contas privadas dos governantes e afins.
Mas o pior estava para vir: uma disputa pelo poder dentro do partido dominante ,o SPLM, lançou o país numa guerra medonha contra si próprio: começou a 15 de dezembro de 2013 como uma disputa entre soldados dinka e nuer em Juba, alastrou-se a todo o país e terminou em agosto de 2015 com um acordo de paz entre o Presidente Salva Kiir Mayardit e o seu opositor ex-vice-presidente Riek Machar Teny.
O balanço é medonho: entre 50 e 300 mil mortos, 844 mil refugiados, 1,6 milhões de deslocados internos. O país está na bancarrota e inflação ronda os 295%. Os relatórios produzidos pela União Africana e pela ONU são uma narrativa de violência crua e nua sobretudo contra a população civil.
Este ano o governo decidiu que não havia celebrações dos 5 anos de independência por falta de veba.
Os militares, contudo, fizeram a festa à sua maneira em dois atos: a 7 de julho, num posto de controlo dos soldados do governo em Gudele, um bairro no norte de Juba, houve tiroteio com os soldados da oposição. O governo diz que perdeu quatro homens.
Os dois lados do conflito apresentaram versões diferentes do incidente.
No dia 8 à tarde, a presidência reuniu-se no J1, o palácio presidencial. O Presidente Salva Kiir Mayardit, o primeiro vice-presidente Riek Machar e o vice-presidente James Wani Igga reuniram-se para discutir o tiroteio da noite anterior. Sem se saber porquê, os soldados recomeçaram aos tirou com armamento ligeiro e pesado lançando o pânico entre a população.
«Dezenas morreram», dizem os média. Passam da centena os corpos contados à volta do palácio presidencial e na morgue do hospital.
A reunião acabou com os três líderes a pedir calma e ordem na cidade na véspera da independência.
Qual é o futuro para o país mais jovem do mundo? Não tenho nenhuma bola de cristal para ler o que ainda não foi escrito. Mas com esta liderança o país não vai a lado nenhum. Parece que os falcões por detrás do presidente não querem perder o poder que conseguiram e tudo tentam para descarrilar o processo já tão anoréxico de paz…
Os sul-sudaneses merecem melhores líderes.
A lua-de-mel da independência durou meio ano. O Sudão queria continuar a usufruir dos proventos do petróleo sul-sudanês que o exportava através dos seus oleodutos. Juba suspendeu a produção e a economia do país caiu a pique.
O governo desperdiçou o capital de simpatia que tinha conquistado na comunidade internacional com a corrupção e nepotismo. Ainda estão por encontrar mais de 4 mil milhões de dólares que sumiram no buraco negro das contas privadas dos governantes e afins.
Mas o pior estava para vir: uma disputa pelo poder dentro do partido dominante ,o SPLM, lançou o país numa guerra medonha contra si próprio: começou a 15 de dezembro de 2013 como uma disputa entre soldados dinka e nuer em Juba, alastrou-se a todo o país e terminou em agosto de 2015 com um acordo de paz entre o Presidente Salva Kiir Mayardit e o seu opositor ex-vice-presidente Riek Machar Teny.
O balanço é medonho: entre 50 e 300 mil mortos, 844 mil refugiados, 1,6 milhões de deslocados internos. O país está na bancarrota e inflação ronda os 295%. Os relatórios produzidos pela União Africana e pela ONU são uma narrativa de violência crua e nua sobretudo contra a população civil.
Este ano o governo decidiu que não havia celebrações dos 5 anos de independência por falta de veba.
Os militares, contudo, fizeram a festa à sua maneira em dois atos: a 7 de julho, num posto de controlo dos soldados do governo em Gudele, um bairro no norte de Juba, houve tiroteio com os soldados da oposição. O governo diz que perdeu quatro homens.
Os dois lados do conflito apresentaram versões diferentes do incidente.
No dia 8 à tarde, a presidência reuniu-se no J1, o palácio presidencial. O Presidente Salva Kiir Mayardit, o primeiro vice-presidente Riek Machar e o vice-presidente James Wani Igga reuniram-se para discutir o tiroteio da noite anterior. Sem se saber porquê, os soldados recomeçaram aos tirou com armamento ligeiro e pesado lançando o pânico entre a população.
«Dezenas morreram», dizem os média. Passam da centena os corpos contados à volta do palácio presidencial e na morgue do hospital.
A reunião acabou com os três líderes a pedir calma e ordem na cidade na véspera da independência.
Qual é o futuro para o país mais jovem do mundo? Não tenho nenhuma bola de cristal para ler o que ainda não foi escrito. Mas com esta liderança o país não vai a lado nenhum. Parece que os falcões por detrás do presidente não querem perder o poder que conseguiram e tudo tentam para descarrilar o processo já tão anoréxico de paz…
Os sul-sudaneses merecem melhores líderes.
7 de julho de 2016
CASA DA MÚSICA
Quinze anos de África, na Etiópia e no Sudão do Sul, chegaram para entender que, no continente, a música, o ritmo e a dança comandam a vida do nascimento à morte.
A vivência de oito anos com duas etnias etíopes – Gujis e Guedeos – deu para descobrir as diferenças entre a música tradicional das comunidades de pastores e de agricultores. A primeira é física, repetitiva e monótona até à exaustão; canta sobretudo o gado e as suas bondades. A segunda é criativa, elaborada e variada nas melodias, ritmos e movimentos. Um ouvido atento descobria quem batucava nas noites de luar. Mas há um ponto comum: a música é o condimento essencial da vida, nas alegrias e nas tristezas.
Os sete anos de rádio no Sudão do Sul abriram-me ao espaço amplo da música africana: dos sons que se elevam da solidão dos desertos como lamentos às melodias românticas melosas da Etiópia e do Sudão, passando pela exuberância rítmica das guitarras eléctricas da República Democrática do Congo e da música comercial que se faz um pouco por toda a parte.
Encanta-me a música africana e trago mais de 30 álbuns no meu MP3: do Sudão à África do Sul, de Cabo Verde à Somália. Gosto dos ritmos, das combinações de instrumentos tradicionais com os electrónicos – como fazem os Azandes no Sudão do Sul, das vozes, dos instrumentos simples… São paisagens sonoras que descansam, revitalizam, refazem. A música tradicional tigrinha, da Eritreia e Norte da Etópia, usa o batimento do coração como cadência dos tambores de dança.
Tenho os meus preferidos: no topo estão a Cesária Évora e a música cabo-verdiana: as mornas e as coladeiras respiram vida, encanto, sentimento. Sodade não deixa de me emocionar. Recordo o arrepio que senti ao visitar uma galeria de arte em Halifax, no Canadá, com Cesária em fundo musical.
Mas há mais! Começo pela África do Sul: Lucky Dube, autor reggae do quotidiano assassinado aos 43 anos; Miriam Makeba, ou Mama Africa, que conjugou a música com a militância anti-apartheid; Ladysmith Black Mambazo, coro masculino caracterizado pelas vocalizações polifónicas muito trabalhadas; e Soweto String Quartet, num registo mais clássico, são os meus favoritos.
Também gosto da música que se faz na Etiópia, Eritreia e Sudão (étnica, jazz e comercial) e tenho uma predilecção especial pelos sons do Mali pelos efeitos acústicos dos instrumentos tradicionais. Ali Farka Touré e Oumou Sangaré são os meus preferidos. Também gingo com os ritmos exuberantes da bacia do Congo.
Depois há a música religiosa, uma indústria florescente e importante, por exemplo, na Etiópia, Quénia, Uganda e Tanzânia, que se impõe pela qualidade e que compete com a música comercial nos escaparates das lojas oficiais e nas bancas de CD copiados dos vendedores ambulantes. O Gospel Countdown, que passava a música religiosa mais pedida pelos ouvintes, era dos programas com mais audiência nos domingos da Rádio Bakhita, em Juba, no Sudão do Sul.
A música africana é uma proposta boa para degustar no tempo mais descansado das férias. Que tal uma imersão nessas sonoridades tão cheias de vida? Boas férias.
24 de junho de 2016
Alex Zanotelli: TRENTINO DO ANO
O missionário comboniano padre Alex Zanotelli foi distinguido com o prémio «Trentino dell’Anno 2016» da Província autónoma de Trento no norte da Itália.
O prémio é um reconhecimento atribuído pelo grupo cultural e pela histórica revista Uomo Città Territorio ao padre Zanotelli, 78 anos, pela luta ao lado dos últimos, defendendo os mais fracos, a água como um bem comum, a justiça social e ambiental, e o acolhimento dos imigrantes.
A entrega do prémio decorreu a 18 de Junho no Castello del Buonconsiglio.
O missionário dedicou o prestigiado prémio às organizações que lutam pela água gratuita e acessível a todos, e às que se opõem ao TAV (sigla para Comboio de Alta Velocidade em italiano) na região alpina de Brennero.
A jornalista Francesca Caprini encontrou-se com Zanotelli em Maio passado em Roma.
O missionário participava numa manifestação contra o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento entre os Estados Unidos e a União Europeia, mais conhecido como TTIP na sigla em inglês.
«Há alguma ligação entre a sua missão no bairro mais violento da Europa e a sua militância pela água, um bem comum?», Caprini perguntou a Zanotelli.
«Estes são conflitos sociais que nos chamam à responsabilidade numa sociedade dividida, onde o Estado está ausente, onde os bens comuns são desfrutados e desbaratados, prisioneiros do deus dinheiro. O fio condutor que liga a luta pela água, contra o crime organizado, contra tratados como o TTIP e a devastação dos territórios é muito claro. É precisa mudar de rumo, imaginar um modelo diferente de sociedade, mais justa e mais responsável», respondeu.
Esta é uma reflexão que se estende também à emergência dos refugiados.
«A proposta feita pelo governo italiano de Renzi à Comissão Europeia para resolver o problema dos imigrantes que chegam de África, a chamada “Migration Compact”, é um mau passo para a Itália. O espírito é o mesmo do acordo feito entre a União Europeia e a Turquia. É uma comercialização com a pele dos refugiados», acrescentou.
Zanotelli nasceu em Livo (Trento) em 1938. Foi ordenado sacerdote em 1964. Trabalhou como missionário primeiro no Sudão, depois como director da revista italiana comboniana Nigrizia.
Depois, viveu vários anos no bairro de lata de Korogocho em Nairobi no Quénia.
Há cerca de dez anos, vive e trabalha no bairro da Sanità da cidade italiana de Nápoles, desde onde tem vindo a promover uma verdadeira batalha civil a favor da água como um bem público.
Zanotelli é autor de numerosos artigos e livros, incluindo Korogocho (Feltrinelli, 2003) e, publicados pela EMI, Vozes dos Pobres, Vozes de Deus (2007) e Mãos fora da Água (2010).
Comboni Press | J: Vieira
22 de junho de 2016
Papa: A SUA HISTÓRIA «FEZ-ME UM GRANDE BEM»
O papa escreveu à superiora provincial das combonianas em Itália a agradecer a biografia que escreveu sobre um médico ugandês vítima e mártir do vírus do ébola.
A Ir. Dorina Tadiello escreveu o livro «Matthew Lukwiya. Um médico mártir de ébola», editado pela EMI.
O Dr. Lukwiya era colega da Ir. Dorina – que também é médica – no hospital de Lachor, em Gulu, no norte do Uganda.
O Dr. Lukwiya faleceu a 5 de Dezembro de 2000, vítima do vírus enquanto tratava as vítimas de uma epidemia que atingiu o norte do Uganda nesse ano.
Tinha 43 anos.
«O Dr. Matthew Lukwiya dedicou-se com coragem indómita ao tratamento dos doentes de ébola», escreveu Francisco na mensagem à autora.
«O Dr. Matthew Lukwiya dedicou-se com coragem indómita ao tratamento dos doentes de ébola», escreveu Francisco na mensagem à autora.
Conhecer sua história «fez-me um grande bem», acrescentou.
A coragem do Dr. Lukwiya «faz aumentar minha esperança com pelo futuro da África que pode contar com tantas mentes e corações generosos capazes de cuidar das feridas de tantos pobres que para nós são a carne de Jesus», escreveu Francisco.
O papa argentino encorajou as combonianas a «imitar a compaixão de Jesus que cura e regenera a humanidade».
«Sejam o hospital de campanha mais próximo para os abandonados do nosso tempo», desafiou.
O vírus ébola provoca febres hemorrágicas, uma doença grave com uma taxa elevada de mortalidade.
A coragem do Dr. Lukwiya «faz aumentar minha esperança com pelo futuro da África que pode contar com tantas mentes e corações generosos capazes de cuidar das feridas de tantos pobres que para nós são a carne de Jesus», escreveu Francisco.
O papa argentino encorajou as combonianas a «imitar a compaixão de Jesus que cura e regenera a humanidade».
«Sejam o hospital de campanha mais próximo para os abandonados do nosso tempo», desafiou.
O vírus ébola provoca febres hemorrágicas, uma doença grave com uma taxa elevada de mortalidade.
20 de junho de 2016
COMBONI, MISERICÓRDIA E MISSÃO
O P. José Francisco de Matos Dias fez uma incursão sobre o tema da misericórdia na Bíblia e no magistério dos últimos papas.
«Com Jesus terminou definitivamente a época em que Deus era visto como um justiceiro vingativo. Jesus revelou o verdadeiro rosto de Deus que apenas salva, o rosto da sua misericórdia», sublinhou.
«A morte de Cristo foi o maior ato de misericórdia. Morreu de braços abertos. Os cristãos dão continuidade a esse ato de misericórdia», concluiu um grupo de trabalho.
A Ir. Maria do Carmo Ribeiro explorou a vertente comboniana do tema: «Comboni e a misericórdia, desafios para a missão.»
«Como missionários da misericórdia, que trabalham para a fraternidade, para um mundo irmão, [somos chamados a] trabalhar em comunhão, renunciando à tentação sempre presente do protagonismo que nos ilude que fazemos mais e melhor», disse.
«Nós somos as mil vidas de Comboni para a missão», adiantou um grupo de reflexão.
O dia terminou com uma acção com os sem-abrigo nalgumas zonas do Porto.
No domingo quatro pessoas partilharam experiências de misericórdia com doentes em hospitais, presos e carenciados.
O superior provincial, P. José Vieira, presidiu à Eucaristia de encerramento. «Contemplando o Senhor morto e ressuscitado de coração escancarado para acolher a todos aprendamos a ser verdadeiros anjos de misericórdia para todas as pessoas com quem nos cruzamos», concluiu a homilia.
«Este fim-de-semana sobre a espiritualidade das obras de misericórdia tem sido muito produtivo e muito emocionante, não existiu nenhum testemunho que não me tocasse no coração. Sem dúvida que ser misericordioso é algo incrivelmente bom. Mais uma vez pude encher o meu coração com estas histórias e exemplos de vida que me fazem sorrir, crescer e aprender», escreveu na avaliação a Rita do Fé e Missão.
Os participantes incluíram leigos ligados aos quatro ramos da família comboniana e missionárias e missionários dos mesmos. A presença de um casal africano com duas filhas pequenas juntou uma nota de vida ao encontro.
19 de junho de 2016
MISSIONÁRIOS DA MISERICÓRDIA
Os tempos de Jesus estavam maduros de expectação. Os romanos eram a potência ocupante de serviço havia quase um século. Os judeus piedosos, cansados do controlo militar, político e fiscal de Roma, suplicavam que o Messias viesse restaurar o Israel de Deus.
Os religiosos de Qumran pediam um Messias que vindicasse a sua fidelidade e restaurasse o culto purificado do Templo. Os zelotas esperavam um líder ultranacionalista e revolucionário, um Ungido radical e violento que libertasse a Terra da promessa de Pilatos, dos seus soldados e da sua ignomínia.
É neste contexto prenhe de esperas desesperadas e de orações balbuciadas por corações doridos que Jesus quer avaliar o impacte do seu ministério depois de um tempo de oração e antes de começar a grande peregrinação final a Jerusalém.
«Quem dizem as multidões que Eu sou?», pergunta aos discípulos (Lucas 9,18).
É o passado benquisto que ecoa na opinião pública: «João Batista, Elias, um profeta antigo que ressuscitou.» Mortos-vivos, redivivos no ministério do carpinteiro de Nazaré.
Jesus estica a sondagem: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» (Lucas 9,20).
Pedro, intempestivo como sempre, tomou a dianteira aos outros na profissão de fé: «És o Messias de Deus» (Lucas 9, 20).
Pedro proclama Jesus como o Ungido do Pai, cheio do Espírito Santo. O esperado nas orações de todos os que aguardavam pela restauração de Israel.
Jesus sabe quem é! Ele é o Messias prometido, o rebento de Jessé esperado e chegado (Isaías 11,1). Mas não é um Cristo político que vai varrer os romanos. É o servo sofredor que o Segundo Isaías canta desde o desterro da Babilónia, que carrega as nossas dores, ferido por causa dos nossos crimes, que nos sara pelas suas chagas (Isaías 52,13-53,12).
Como o anunciara a profecia de Zacarias uns 300 anos antes de Jesus ter nascido: «naquele dia, jorrará uma nascente para a casa de David e para os habitantes de Jerusalém, a fim de lavar o pecado e a impureza» (Zacarias 13,1). A nascente do coração aberto de Jesus, olhos d’água e sangue…
Jesus explica que o seu caminho messiânico é o roteiro de vida dos seus seguidores, para todos e para todos os dias: «Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, salvá-la-á» (Lucas 9, 23-24).
Uma proposta que desafia a cultura globalizada dominante do egoísmo, individualismo, narcisismo, hedonismo e consumismo que mesmo sem o darmos conta é a nossa cultura… Jesus propõe a cruz: braços e corações abertos entre o céu e a terra para acolher, vivificar.
A cruz e a misericórdia são temas essenciais da espiritualidade comboniana. Antes demos mais atenção à cruz, mas a celebração deste jubileu levou-nos a reler os textos de São Daniel Comboni em chave de misericórdia, do Deus da(s) misericórdia(s) como tantas vezes O invoca.
Em Fevereiro de 1868, Comboni escrevia do Cairo: «Deus digna-se, em sua imensa misericórdia, marcar a nossa obra com o adorado selo da cruz» (Escritos 1571).
A cruz é o selo de garantia, a certificação da misericórdia de Deus no serviço missionário: «É preciso que as obras de Deus encontrem dificuldades; assim levam a adorável marca da Providência» (Escritos 1185)
Em 1880, Dom Daniel Comboni escreveu num longo relatório sobre a carestia e a epidemia de 1878 e 1879 que devastaram a África Central e fizeram milhares de vítimas.
«Estas tremendas calamidades não beliscaram, pela graça de Deus, a nossa coragem nem diminuíram a força do nosso espírito; antes pelo contrário, provas tão duríssimas contribuíram fortemente para que o nosso ânimo se fortalecesse, pondo toda a nossa confiança nesse Deus das misericórdias que nos precedeu no caminho da cruz e do martírio e mantendo-nos firmes e constantes na nossa árdua e santa vocação» (Escritos 6367), nota.
A firmeza e a constância dos missionários da África Central, «a missão mais árdua, laboriosa e vasta da Terra» (Escritos 2987), formam-se na contemplação do Redentor e da sua misericórdia na via da cruz, uma experiência da graça de Deus.
A contemplação é a forma de oração apostólica mais essencial que permite ao discípulo missionário entrar no dinamismo da misericórdia divina de que é prenúncio e anúncio.
Comboni escreve no Plano de acção apostólica a seguir ao assumir o Vicariato da África Central de Março de 1872 que os missionários da África Central «formam-se nesta disposição essencialíssima tendo sempre os olhos fixos em Jesus Cristo, amando-o ternamente e procurando entender cada vez melhor o que significa um Deus morto na cruz pela salvação das almas» (Escritos 2892).
No mesmo relatório sobre a grande calamidade escreve: «A misericórdia divina, graças à exímia caridade dos benfeitores, manteve ainda de pé as árduas e importantes missões do Vicariato e salvou muitas almas atendendo às mais extremas necessidades» (Escritos 6403).
Comboni percebia os colaboradores e benfeitores da missão africana como incarnação da misericórdia de Deus.
E continua: «Os missionários, as irmãs, os irmãos coadjutores e as pessoas acolhidas na missão suportaram a pé firme, com inamovível constância, coragem e resignação, as maiores privações e sacrifícios. Sofremos muitíssimo, mas alegramo-nos disso, porque o Senhor se dignou fazer-nos participantes da sua paixão e nos ajudou poderosamente a levar a sua cruz divina, símbolo de ressurreição e de vida» (idem).
Este parágrafo é um óptimo comentário comboniano ao anúncio de Jesus que pronuncia o seu mistério pascal de sofrimento, rejeição, morte e ressurreição e que nos leva à Carta aos Hebreus: «Corramos com perseverança a corrida, mantendo os olhos fixos em Jesus, autor e consumador da fé. Em troca da alegria que lhe era proposta, Ele submeteu-se à cruz, desprezando a vergonha, e sentou-se à direita do trono de Deus» (Hebreus 12, 1b-2).
O caminho do Senhor é balizado pela misericórdia e pelo amor em enlace de reciprocidade.
Comboni escreveu ao P. José Sembianti na festa de São José, meia dúzia de meses antes de morrer: «as vias do Senhor são misericórdia e Deus charitas est» (Escritos 6582).
Antes, havia respondido a uma campanha de difamação contra a sua administração com um ato de fé: «Deus é misericórdia, caridade e justiça, e saberá tirar destas providenciais vicissitudes o maior bem para a África» (Escritos 6098).
A cruz e a misericórdia são a rocha firme onde se alicerça a espiritualidade missionária comboniana, a força do missionário descrito por Comboni como «verdadeiro anjo de misericórdia» (Escritos 4803) na pessoa do P. Olivieri.
Contemplando o Senhor morto e ressuscitado de coração escancarado para acolher a todos aprendamos a ser verdadeiros anjos de misericórdia para todas as pessoas com que nos cruzamos.
17 de junho de 2016
EUCARISTIA EM CONGRESSO
O IV Congresso Eucarístico Nacional decorreu em Fátima de 10 a 12 de Junho tendo reunido quase 800 participantes para «Viver a Eucaristia, fonte de misericórdia.»
O arcebispo Piero Marini, presidente do Pontifício Comité para os congressos eucarísticos nacionais, abriu as conferências com o tema «A Eucaristia, fonte de vida cristã». Num português espanholado, aqui e ali com sotaque brasileiro, conseguiu ler pouco mais de metade do texto que tinha preparado sobre as diversas partes da missa.
Dom António Couto, bispo de Lamego, apresentou o tema «Maria, Mãe de Misericórdia, mulher eucarística» a partir de uma perspectiva bíblica muito interessante. «Maria não se propõe fazer, disponibiliza-se para que Deus faça a sua palavra», sublinhou.
A Ir. Ângela de Fátima Coelho, postuladora d causa de canonização dos pastorinhos, apresentou aquela que foi para mim a mais bem conseguida conferência sobre o tema «A Eucaristia na Mensagem de Fátima» com o desafio de «deixar transformar o nosso coração em lugar teologal.»
O professor José Eduardo Borges de Pinho fez um levantamento académico de «A Mensagem de Fátima, profecia de misericórdia» sublinhando que «a mensagem de Fátima é teocêntrica e trinitária.»
Uma família de seis, dois catequistas, uma carmelita via vídeo e um padre apresentaram experiências concretas da vivência eucarística e da piedade popular.
O Cardeal D. João Braz de Aviz, enviado extraordinário do Papa para o Congresso, fez uma exposição muito bonita sobre «A misericórdia na missão da Igreja.»
No encerramento o bispo de Bragança e Miranda, D. José Cordeiro, disse que «é chegada a hora da espiritualidade litúrgica, viver no quotidiano a espiritualidade do Altar», propondo que o congresso se celebre cada cinco anos com um carácter mais celebrativo.
O IV Congresso Eucarístico Nacional fez um levantamento teórico do tema da Eucaristia à luz dos 100 anos das aparições do Anjo e do Ano Extraordinário da Misericórdia. Assuntos práticos de como fazer da Eucaristia a festa dominical para todos ficaram de fora apesar de algumas dicas interessantes dadas durante o painel.
Um gesto bonito: a apresentação da dádiva de sangue como prolongamento celebrativo da Eucaristia.
14 de junho de 2016
ATENÇÃO AOS MAIS POBRES
© Lusa
De acordo com estudos baseados em dados do I.N.E., a redução de rendimentos, em consequência do programa de assistência financeira a que Portugal esteve sujeito nos últimos anos, foi mais acentuada entre os mais pobres do que entre a classe média. Apesar de a redução de salários e pensões ter sido proporcionalmente mais acentuada nos mais elevados, a redução de apoios sociais, precisamente quando eles eram mais necessários, provocou tal efeito.
Também de acordo com um estudo recentemente divulgado, nas maiores empresas portuguesas, a desproporção entre salários dos gestores e trabalhadores (que chega a atingir a ordem de várias dezenas) acentuou-se nos últimos anos. Em 2015, os presidentes executivos das empresas cotadas viram os seus salários subir, em média, mais de 14%, quando os dos trabalhadores subiram, em média, 4%.
Esta situação leva a Comissão Nacional Justiça e Paz a relembrar e sublinhar o seguinte:
A pobreza constitui uma ofensa à dignidade humana e, por isso, uma violação dos direitos humanos.
Uma desigualdade na repartição de sacrifícios necessários que prejudique os mais pobres ofende elementares sentimentos de justiça e o princípio da solicitude preferencial pelos mais pobres que deve orientar a ação do Estado.
Níveis excessivos e crescentes de desigualdade prejudicam a coesão social e o sentido de pertença à empresa e à comunidade global como família alargada.
Importa alertar para a necessidade de outra atenção aos mais pobres, também desprovidos de projeção mediática e força política e eleitoral. Para tal, não basta a reposição de salários e pensões que continua a beneficiar mais, proporcionalmente, a classe média, nem acreditar ilusoriamente que terminou a necessidade de sacrifícios imposta pela exigência de redução das dívidas pública e privada.
Lisboa, 7 de Junho de 2016
A Comissão Nacional Justiça e Paz
9 de junho de 2016
FESTA DO SONHO DE DEUS
A Banda Missio apresentou o seu segundo CD durante um espetáculo na Casa das Artes em VN Famalicão na noite de 8 de junho de 2016.
Mais de 250 pessoas marcaram presença na apresentação do CD O sonho de Deus.
O espetáculo foi no dizer de alguns participantes «um sucesso», «uma festa que a banda proporcionou», «alegria missionária».
O P. Leonel Claro, fundador da banda e compositor dos temas, disse que o concerto «foi óptimo, foi muito bom. Aquela sala é um espectáculo.»
O Sonho de Deus tem 13 faixas do cantautor comboniano num registo mais rock, trabalhando a ideia missionária de partir, de relação com a humanidade.
«Somos intermediários e construtores do sonho de Deus para a humanidade», explicou numa entrevista às Edições Salesianas que publicam o álbum.
O P. Leonel disse que ConTigo, o primeiro trabalho de 13 originais editado em 2014, era mais vocacional sublinhando o relacionamento íntimo com Deus.
Explicouque fundou a banda pop/rock de música de inspiração cristã há oito anos para ligar missão e juventude na pastoral vocacional juvenil comboniana.
O missionário regressa em setembro ao Chade, mas disse que a Banda Missio pode continuar a atuar e fazer concertos de oração mesmo sem ele.
A apresentação de O sonho de Deus era também um evento solidário a favor da missão no Chade.
«As pessoas deram uma boa oferta para levar para o Chade», revelou o P. Leonel.
O missionário é de Penude, Lamego e tem 53 anos.
Nos últimos 12 anos trabalhou na pastoral vocacional juvenil dando início ao JIM - Jovens em Missão, um movimento de jovens cristãos de espiritualidade missionária e comboniana.
Antes, serviu dez anos a Igreja no Chade.
Nos últimos 12 anos trabalhou na pastoral vocacional juvenil dando início ao JIM - Jovens em Missão, um movimento de jovens cristãos de espiritualidade missionária e comboniana.
Antes, serviu dez anos a Igreja no Chade.
Sudão do Sul: VERDADE E JUSTIÇA
O presidente e o primeiro vice-presidente do Sudão do Sul publicaram um artigo de opinião num prestigiado jornal norte-americano a propor a troca de um tribunal internacional para julgar os crimes da guerra civil por uma comissão de verdade e reconciliação.
Salva Kiir Mayardit e Riek Machar Teny escreveram – ou alguém por eles – uma peça intitulada «Sudão do Sul precisa de verdade, não de julgamentos» publicada em The New York Times de 7 de junho para avisar que o tribunal híbrido internacional para crimes de guerra e contra a humanidade põe em perigo o frágil processo de paz em curso no país.
Os dois líderes envolveram-se numa guerra civil desde dezembro de 2013 e assinaram em agosto de 2015 um acordo de paz que prevê a criação de um tribunal híbrido internacional para julgar os criminosos do conflito armado caracterizado por atrocidades medonhas de ambas as partes.
A guerra civil matou mais de 50 mil pessoas, deslocou 2,3 milhões, destruiu três cidades e arruinou o desenvolvimento insípido do país mais jovem do mundo.
«Para trazer o Sudão do Sul à unidade só pode haver uma rota realmente garantida: um processo organizado de paz e reconciliação com o apoio internacional» modelado nos da África do Sul e da Irlanda do Norte, escrevem.
Kiir e Machar formaram um governo transitório de unidade nacional em finais de abril para executarem o acordo de paz assinado nove meses antes e prevêem que a justiça descarrile o processo político.
«Em contraste com a reconciliação, a justiça disciplinadora – mesmo sob a lei internacional – desestabilizaria esforços para unir a nossa nação mantendo vivos a raiva e o ódio entre os povos do Sudão do Sul», prognosticam.
O presidente Kiir e o primeiro vice-presidente Machar podem estar a tentar esquivar-se às responsabilidades criminais da guerra sem uma palavra de remorso.
«Sabemos que isso significa que alguns sul-sudaneses culpados de crimes podem ser incluídos no governo, e que nunca venham a enfrentar a justiça numa sala de tribunal. Contudo, há precedentes recentes que demonstram que esta via é a garantia mais certa da estabilidade», dizem.
O painel de especialistas sobre o Sudão do Sul escreveu em janeiro numa carta ao Conselho de Segurança da ONU que «Kiir e Machar mantêm responsabilidade de comado pelas respectivas forças. […] Há uma evidência clara e convincente de que a maioria dos atos de violência cometidos durante a guerra, incluindo ataques a civis e violações da lei internacional humanitária e da lei dos direitos humanos foram dirigidas ou cometidas com o conhecimento de indivíduos seniores ao mais alto nível do Governo e dentro da oposição».
O relatório do Secretário-Geral da ONU sobre crianças e conflitos armados, publicado a 15 de maio, dedica 10 parágrafos ao Sudão do Sul e denuncia os crimes cometidos pelo exército (mais) e pelas forças rebeldes (menos) contra as crianças sobretudo nos estados de Unidade e Nilo Superior.
O relatório documenta 1051 incidentes que afectaram 28 788 crianças, incluindo o recrutamento de quase 2600 menores, sobretudo pelas forças do governo, a morte de 480 crianças e a mutilação de 128; 430 foram violadas e 1596 sequestradas.
Esta lista de horrores contra a infância é uma pequena amostra do inferno em que as pessoas vivem no Sudão do Sul à mercê de quem tem armas: tropas, forças rebeldes e forças de segurança, civis e militares.
A Human Rights Watch qualificou a proposta presidencial de «audaciosa» e considera que a reivindicação de que a justiça desestabiliza esforços de unidade nacional «é ultrapassada e falsa», recordando que as experiências da Serra Leoa, Jugoslávia e Chile provam o contrário.
«Enquanto contar a verdade tem um papel importante nos países a emergir do conflito, é complementar e não uma alternativa a uma investigação justa por um tribunal competente e prisão para os culpados. A justiça não só honra as vítimas mais do que os abusadores como envia um sinal forte de que as atrocidades já não são toleradas», diz o despacho da ONG norte-americana.
As vítimas, mortas e vivas, clamam por justiça. O processo de verdade e reconciliação é necessário, mas a responsabilização criminal também. Não se pode ignorar o sangue dos mortos que clama por reconhecimento.
Não será que Kiir e Machar, líderes da guerra civil, estarão a tentar fugir ao banco dos réus? Será que têm medo de partilhar a sorte de Hissàne Habré, o ex-ditador chadiano que foi condenado por um tribunal especial à prisão perpétua por crimes contra a humanidade e de guerra?
Será que têm os dois timoneiros vontade política para implementar o processo de verdade e reconciliação ou é uma mera cortina de fumo para encobrir os criminosos de guerra?
O Acordo Global de Paz, conhecido localmente como CPA, assinado entre o Governo de Cartum e os rebeldes do sul em 2005 previa um processo global de reconciliação e sanação, mas nada aconteceu durante os oito anos do período interino que levou à independência do Sudão do Sul. Havia demasiados esqueletos nos armários de todos…
É necessário parar com a impunidade que recompensa os varões da guerra no país mais jovem do mundo.
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