28 de março de 2017

Sudão do Sul: UMA NOVA EXPERIÊNCIA




Ser refugiados é uma nova experiência que estamos a viver como comunidade. Saímos da missão de Lomin, in Kajo Keji,  a 6 de fevereiro para tratar dos documentos necessários para podermos fazer o nosso apostolado com as pessoas da nossa paróquia nos campos de refugiados onde se encontram no norte do Uganda.

Assim pensámos, mas a situação complicou-se tão depressa que em poucos dias a nossa zona se converteu num campo de batalha e já não pudemos regressar à nossa comunidade.

Foi doloroso não poder regressar à nossa missão e fazer parte dos refugiados, mas esta é a nossa situação e a de milhares de pessoas.

Neste mês e meio em que deixámos a comunidade de Lomin, temos rodado por algumas comunidades combonianas e casas de alojamento porque ainda não temos um lugar própria para estabelecer a comunidade.

Quando recebermos os documentos para viver no norte do Uganda vamos arrendar uma casa num lugar perto dos campos.

Os irmãos da nossa comunidade no princípio do mês arriscaram ir com alguns trabalhadores à nossa missão e o que encontraram foi destruição e solidão.

A nossa casa foi saqueada, as portas dos nossos quartos arrombadas. Os vândalos deixaram pelo chão livros e outras coisas sem valor, tudo atirado e espalhado nos quartos, corredores e quintal.

Na capela da casa, o cálice da missa estava por terra com alguns adornos.

Durante este tempo de espera pelos documentos não estivemos de braços cruzados. Visitámos alguns campos de refugiados para planearmos as nossas actividades no futuro e celebrámos a Eucaristia e os sacramentos.

Já temos um programa intenso para a Semana Santa. Como será? Não sabemos, mas nas celebrações que fizemos havia muitos fiéis.

Darei outras novidades depois da Páscoa.

Por isso, desde já UMA PÁSCOA FELIZ DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR JESUS NOS VOSSOS CORAÇÕES E FAMÍLIAS.

NÃO VOS PREOCUPEIS SE NÃO VOS ESCREVO. POR CÁ NÃO É FÁCIL LIGAR-SE À INTERNET EM TODOS OS LUGARES E A TODAS AS HORAS, ESPECIALMENTE NO NORTE. QUANDO POSSO LER AS VOSSAS MENSAGENS ALEGRO-ME E SINTO-ME MUITO UNIDO A VOCÊS.

Para terminar, não se esqueçam que são parte da minha missão. Por isso não se esqueçam de ter-nos nas vossas orações e na vossa ajuda à nossa gente.
Abuna Jesús, missionário comboniano 

18 de março de 2017

MEU PAÍS AMARELO



O meu país é uma palete de cores, mas o meu país é amarelo.

Cruzando Portugal de norte a sul, do leste ao oeste através da primavera, verão, outono e inverno, o amarelo é a cor que mais diz «Presente!».

O amarelo dos narcisos, das mimosas e das austrálias e da erva canária que prenunciam a primavera; o amarelo dos tremoços bravos que enche de cor e perfume a grande planície alentejana; o amarelo dos grelos, do tojo e da carqueja, das maias; o amarelo dos girassóis que torcem o pescoço para seguir o astro-rei; o amarelo dos malmequeres e de outras tantas flores silvestres que vão marcando o passar das estações…

Portugal tem muitas cores mas quem manda é o amarelo que pinta os rios bordejados pelas mimosas – uma natureza que viva que encanta e deleita o olhar.

Amarelo do desespero? Amarelo dos peidos – como popularmente se diz em Cinfães?

O amarelo da luminosidade, do sol, do calor e da felicidade.

Para os japoneses é o amarelo da coragem; para os mexicanos é a cor da morte; para os judeus a cor da discriminação.

O amarelo é ambíguo? É como o meu país! É a cor do meu país! 

6 de março de 2017

DE DENTRO


Sou mais livre então na solidão do meu degredo.

A comunidade internacional acompanhou com inquietação o processo de 17 jovens activistas angolanos presos em Junho de 2015 enquanto liam e comentavam um livro sobre a mudança não-violenta do regime. Foram condenados em Março de 2016 a penas de prisão por rebelião e associação de malfeitores e libertados a 29 de Junho por ordem do Tribunal Supremo para aguardarem o desfecho do processo em liberdade.

O «raptivista» Luaty Beirão (n. 1981) foi a figura mais mediática do grupo, porque foi quem levou mais longe a greve de fome colectiva em protesto pela prisão preventiva prolongada: 36 dias.

Os acontecimentos foram seguidos de fora, através da comunicação social. Agora, há um relato a partir de dentro. Luaty publicou Sou Eu mais Livre, então – Diário de um preso político angolano, com as notas que escreveu para preencher a solidão do isolamento na prisão de Calomboloca, a uns 70 quilómetros de Luanda.

A obra reproduz dois dos três cadernos de apontamentos clandestinos que Luaty escreveu. O primeiro – um diário – cobre o período de 3 a 16 de Julho de 2015, as primeiras duas semanas de prisão e foi passado para o exterior. As autoridades prisionais confiscaram o segundo. O terceiro, breve, contém uma reflexão longa sobre o perdão, algumas notas e uma entrada de 24 de Agosto.

Os textos são um registo da banda sonora da vida em Calomboloca seguida da cela 21. Luaty estava em isolamento, sem luz natural. O que ele escreve é o que sente e vive. E o que ouve. Tinha um tempo de banhos de sol e recebia visitas em alguns dias. Restava a solidão.

O activista utilizou a leitura e escrita como espaço de liberdade em confinamento solitário. «Sou mais livre então na solidão do meu degredo do que tu que vives preso à escuridão do medo» – escreve numa rima.

Luaty escreveu muito, intensamente, sobre quase tudo: o dia-a-dia da prisão, os sonhos, as saudades, as lutas com as autoridades prisionais, listas de lembretes e livros, listas de víveres, esboços de letras, esquissos das paredes da cela e da prisão, a compaixão e respeito dos guardas e as arbitrariedades e caprichos da direcção, notas sobre leituras… «Posso ler e escrever... Sem dúvida dois dos maiores prazeres que um preso pode ter», escreve no primeiro parágrafo do diário.

O terceiro caderno tem um texto intitulado «Tratado sobre o perdão». Luaty passa em revista os anos de guerra, a corrupção endémica e institucionalizada, a «complexa teia de interesses» à volta da cúpula do poder.

«Parece-nos sensato que, ao invés de vingança e perseguições, se promova e cultive doravante a ideia do perdão e da amnistia como forma de pacificar os corações e se poder começar da estaca zero» – propõe.

Angola é «um barco enferrujado», mas a mudança necessária passa pelo perdão: «Perdoar é uma demonstração de coragem» porque «a violência é sempre uma estupidez» – diz.

Com uma condição: os infractores têm de se retractar. «É preciso saber o que se perdoa e isso pressupõe confissão», um acto «nobre e patriótico».

E conclui: «E para se atingir a verdadeira paz é preciso, necessário, essencial, purgar os rancores que carregamos nos nossos corações.»

Um roteiro possível para uma Angola democrática e de direito.

2 de março de 2017

DIOCESES PORTUGUESAS SOLIDÁRIAS COM O SUDÃO DO SUL


Quatro dioceses portuguesas expressaram solidariedade com os povos do Sudão do Sul ao decidir partilhar com eles o produto da renúncia quaresmal.

Os bispos de Aveiro, Santarém, Funchal e Portalegre-Castelo Branco anunciaram nas suas mensagens da quaresma que o produto da renúncia quaresmal todo ou em parte vai ser destinado à população do Sudão do Sul.

Os católicos são convidados a preparar a Páscoa através de sacrifícios pessoais em favor de terceiros.

«Para pôr em prática a misericórdia para com os mais vulneráveis vamos destinar a renúncia quaresmal à população do Sudão do Sul a viver uma situação aflitiva onde falta tudo: casas (tendas), comida, água, medicamentos e outras necessidades urgentes», escreveu D. Manuel Pelino, bispo de Santarém.

«Temos um canal seguro para chegar à realidade concreta: o Superior Provincial dos missionários combonianos que orienta a missão nesse país», acrescentou.

Dom António, Bispo de Aveiro, destinou metade da renúncia quaresmal para as crianças sul-sudanesas através do superior provincial dos combonianos no país mais jovem do mundo.

Dom António Carrilho, bispo do Funchal, e Dom Antonino Dias, prelado de Portalegre-Castelo Branco, também dividem o produto da solidariedade dos fiéis com a população do Sudão do Sul.

Os bispos responderam ao apelo que o Papa Francisco lançou a 22 de fevereiro em favor do «martirizado» Sudão do Sul.

«Neste momento, é mais necessário do que nunca o empenho de todos a não ficar somente nas declarações, mas a tornar concretas as ajudas alimentares e a permitir que possam chegar às populações sofredoras. Que o Senhor ampare esses nossos irmãos e os que atuam para ajudá-los», apelou o Papa argentino.

Mas há outros povos em necessidade que vão beneficiar da solidariedade quaresmal dos católicos portugueses: Angola e Iraque (Porto), crianças de São Salvador da Bahia-Brasil (Viana do Castelo), Síria (Beja e Guarda), Moçambique e Bolívia (Lamego), Timor-Leste (Forças Armadas e Segurança), Iraque (Guarda) e refugiados na Turquia (Viseu).

Outros destinatários da partilha da Quaresma são crianças em pobreza extrema (Angra), crianças e jovens desprotegidos (Coimbra), centro de apoio à vida (Vila Real), refugiados (Setúbal e Leiria), grávida em risco (Leiria) e militares e polícias em situações graves (Forças Armadas e Segurança).

Lisboa e Évora vão usar o dinheiro nos respectivos seminários.

O Papa Francisco escreve na mensagem para a Quaresma que a partilha da renúncia quaresmal promove a unidade da família humana, abrindo as portas ao frágil e ao pobre.

«Encorajo todos os fiéis a expressar esta renovação espiritual, inclusive participando nas Campanhas de Quaresma que muitos organismos eclesiais, em várias partes do mundo, promovem para fazer crescer a cultura do encontro na única família humana», sublinha o Papa.

É bonito ver a Igreja Portuguesa cada vez mais atenta e solidária com quem mais sofre aquém e além-fronteiras.

24 de fevereiro de 2017

CARTA AOS SUL-SUDANESES


«DOU-VOS A MINHA PAZ» (João 14, 27)

Queridas irmãs e irmãos no Sudão do Sul,

Saudamos-vos no nome de Jesus.

São Daniel Comboni tinha um grande amor por vós, «o primeiro amor» da sua juventude.

Nós, os líderes dos Missionários Combonianos no mundo inteiro, temos o mesmo amor a bater nos nossos corações. Sofremos convosco nestes tempos indizíveis de miséria e morte, e seguimos a vossa situação com grande preocupação.

O sonho venturoso do Dia da Independência foi estilhaçado pela guerra que rebentou em Juba e, como um fogo na floresta, alastrou-se lentamente a todo o país.

O sangue de milhares de civis e militares mortos grita pela paz; os feridos e as mulheres violadas precisam de tratamento, conforto e justiça.

Rezamos sinceramente para que a paz regresse ao Sudão do Sul!

Rezamos pelos vossos líderes políticos: que eles vão além dos interesses pessoais ou de grupo, e entrem num diálogo nacional profundo de perdão, reconciliação e reparação!

Rezamos pelos vossos líderes religiosos: que eles vos guiem pelos caminhos do perdão às pastagens de paz!

Suplicamos que os cristãos tornem para Jesus; «Ele é a nossa paz, Ele que, dos dois povos, fez um só e destruiu o muro de separação, a inimizade: na sua carne» (Efésios 2, 14).

O Papa Francisco fez um forte apelo em nome do Sudão do Sul a 22 de fevereiro de 2017. Ele está preocupado «com as dolorosas notícias que chegam do martirizado Sudão do Sul» onde «um conflito fratricida» e uma severa crise alimentar «condenam à morte de fome milhões de pessoas, entre elas muitas crianças.»

«Neste momento, é mais do que nunca necessário o empenho de todos a não se limitar apenas em declarações, mas a tornar concretas as ajudas alimentares e a permitir que elas possam chegar às populações que sofrem. Que o Senhor sustente estes nossos irmãos e aqueles que trabalham para ajudá-los» – disse o Papa.

Seguindo a iniciativa do Papa, rogamos à comunidade internacional que vos continue a assistir com comida e medidas práticas de segurança para alivar o vosso grande sofrimento.

Pedimos as bênçãos de Deus para cada um de vós através da intercessão de Santa Josefina Bakhita e de São Daniel Comboni.

Os superiores provinciais e de delegação e os membros da administração geral
dos Missionários Combonianos reunidos em Roma.

24 de fevereiro de 2017

PAPA QUER VISITAR SUDÃO DO SUL


O Papa quer visitar o Sudão do Sul antes do fim do ano para chamar a atenção para a crise que o país vive e estar próximo do povo que sofre os horrores da guerra civil desde dezembro de 2013.

A notícia foi tornada pública pelos líderes católicos do país numa mensagem pastoral no final de um encontro de três dia que terminou na quinta-feira em Juba.

«Com grande alegria, queremos informar-vos que o Santo Padre Papa Francisco espera visitar o Sudão do Sul ainda este ano», os líderes das sete dioceses do Sudão do Sul anunciaram.

«O Santo Padre está profundamente preocupado com os sofrimentos do povo do Sudão do Sul».

A mensagem diz que os sul-sudaneses estão sempre presentes nas orações do Papa.

«A sua vinda aqui seria um símbolo concreto da sua preocupação paternal e da sua solidariedade com os vossos sofrimentos», sublinham os clérigos.

A visita do Papa também vai atrair a atenção do mundo para a situação crítica do país.

Os líderes católicos propõem um programa de oração para que a visita se concretize.

«Usemos os próximos meses com fruto para começar a transformação da nossa nação», concluem a mensagem pastoral.

Na audiência geral de quarta-feira o Papa Francisco fez um forte apelo em favor das vítimas da fome no Sudão do Sul.

«Suscitam particular preocupação as dolorosas notícias que chegam do martirizado Sudão do Sul, onde ao conflito fratricida se junta agora a uma grave crise alimentar que condena à morte de fome milhões de pessoas, entre elas muitas crianças», disse.

O papa pediu o empenho de todos para irem além das palavras e «tornar concretas as ajudas alimentares e a permitir que elas possam chegar às populações que sofrem.»

O Governo do Sudão do Sul declarou a 20 de fevereiro o estado de fome em dois condados do antigo estado de Unity, afetando cerca de 100 mil pessoas.

Dados a UNICEF indicam que mais de um milhão de crianças sofrem de malnutrição aguda.

135 organismos humanitários afirmaram que necessitam de mais de 1,5 mil milhões de euros para assistir e proteger 7,5 milhões de pessoas afetadas pelo conflito, crise económica e choque climático.

Os líderes católicos dizem que o país está atado por uma crise humanitária de fome, insegurança e dificuldades económicas.

«Não há dúvida que esta fome é provocada pelo homem por causa da insegurança e por uma administração económica pobre», escrevem.

Os líderes denunciam «mortes, violações, pilhagens, deslocamentos, ataques a igrejas e destruição de propriedades continuam em todo o país.»

Acusam tanto as forças do governo como as da oposição de executarem políticas de terra queimada e de atacarem os civis com punições coletivas.

«Há uma grande falta de respeito pela vida humana», denunciam.

Os líderes religiosos sublinham que a igreja tem sido particularmente afetada.

«Padres, irmãs e outras pessoas têm sido molestadas. Alguns dos programas da nossa rede de rádios foram removidos. Igrejas foram queimadas. Há menos de duas semanas, a 14 de fevereiro, oficiais de segurança tentaram fechar a nossa libraria católica. Molestaram o nosso pessoal e confiscaram vários livros», denunciam.

A mensagem pastoral conclui com um apelo: «Pedimos que vos mantenhais fortes espiritualmente e exerciteis moderação, tolerância, perdão e amor. Trabalhai pela justiça e paz; rejeitai violência e vingança»

Três bispos residenciais, dois eméritos, dois administradores apostólicos, um coordenador diocesano e um vigário geral reuniram-se em Juba de 21 a 23 de fevereiro com o núncio apostólico para o Quénia e o Sudão do Sul.

17 de fevereiro de 2017

TRÊS OLHARES PARA UM JUBILEU


Na Carta por ocasião do 150.º aniversário do Instituto Comboniano o Conselho Geral (CG) propõe-nos três olhares:
  1. Um olhar sobre o passado: recordando os primeiros passos;
  2. Um olhar realista sobre o presente: chamados a testemunhar o Reino de Deus;
  3. Um olhar de esperança para o futuro.
Três formas do verbo olhar que nos dão uma panorâmica geral do Instituto que nasceu qual um grão de mostarda, cresceu e hoje abriga nos seus ramos (Mt 13, 31-32) pessoas mais que pássaros.


1. Recordando os primeiros passos: um olhar sobre o passado

1. Comboni foi pai à força: o Plano para a Regeneração da África previa o concerto das forças eclesiais em favor da África Central. Só os Camilianos e as Irmãs francesas de São José da Aparição e alguns leigos aderiram a essa sinergia.

O Cardeal Barnabó foi taxativo: «Meu caro Comboni, de duas uma: ou me garantes por escrito que vais viver por mais 35 anos, ou me estabeleces solidamente esse colégio de Verona, de modo que dê bons missionários para a África. Tanto num como noutro caso, tens possibilidade de desenvolver uma grande actividade missionária na África Central. Porém, se não me não organizas e pões em andamento o colégio de Verona ou se te acontece algum acidente que te leve para o outro mundo, talvez a tua bela obra acabe por se desfazer em fumo!» (E 2568).

2. Nigrícia: o organismo fundado a 1 de junho de 1867 em Verona chamava-se Instituto para as Missões da Nigrícia. A 1 de janeiro de 1872 funda o Instituto das Pias Madres da Nigrícia.

Comboni usa Nigrícia em vez de África: mais que uma geografia é uma antropologia – «os povos mais abandonados e infelizes do universo» como Comboni descreve os habitantes da África interior (E 2591).

Ligar o Instituto exclusivamente à África – como queriam alguns missionários da África oriental no Capítulo de 2003 com a junção do ad nigriziam aos outros ad – é redutor da visão de Comboni. Os mais abandonados e infelizes são os destinatários do Instituto (a RV 5 fala da inseparabilidade do Instituto com a África. Eu prefiro falar da «vínculo inseparável» com os «mais necessitados e abandonados»).

Um cuidado a ter ao falou-se das situações de nigrícia como o lugar carismático dos combonianos: alguns confrades e consorores africanas levaram a mal tal linguagem: com razão.

3. Na origem do Instituto há o encontro: a vocação missionária de Comboni começa no encontro com os Mártires do Japão (via Santo Afonso Mª de Ligório) aos 15 anos; dois anos mais tarde encontra o Sudão do Sul através do P. Ângelo Vinco, missionário de Don Mazza (o Don Congo) entre os Baris de Gondokoro, à frente da Juba de hoje: «Foi em Janeiro de 1849, quando, sendo estudante de Filosofia, jurei aos pés do meu venerado superior, P. Nicolau Mazza, consagrar toda a minha vida ao apostolado da África Central – juramento a que, graças a Deus, nunca faltei nas mais variadas circunstâncias – e desde aquele momento só pensei em preparar-me para tão santa empresa. Assim, em 1857, quando estava no auge o primeiro período da missão, fui enviado com outros companheiros sacerdotes a Cartum e às estações do Nilo Branco, onde entre as mais duras provas me encontrei mais de uma vez à beira do túmulo» (E 4083).

Comboni recorda a origem da sua vocação «nigriciana» 27 anos depois no Relatório Geral sobre o Vicariato Apostólico da África Central ao cardeal Alexandre Franchi, escrito em Roma a 15 de Abril de 1876.

A 1ª experiência missionária entre os Kich ou Ciec (um subgrupo dinca) de Santa Cruz (em Yirol Este de hoje) durou apenas 11 meses (fora as viagens de ida e volta). Um fracasso que Comboni transforma numa nova visão para a evangelização da África – o Plano.

Recordamos o início da homilia de 11 de maio de 1873 em Cartum: «Estou muito contente de finalmente me encontrar de novo entre vós, depois de tantas vicissitudes penosas e de tantos ansiosos suspiros. O primeiro amor da minha juventude foi para a infeliz Nigrícia e, deixando tudo o que me era mais querido no mundo, vim, faz agora dezasseis anos, a estas terras para oferecer o meu trabalho como alívio para as suas seculares desgraças. Depois, a obediência fez-me voltar para a Europa, dada a minha enfraquecida saúde, que os miasmas do Nilo Branco em Santa Cruz e em Gondokoro tinham incapacitado para a acção apostólica. Parti para obedecer; porém, entre vós deixei o meu coração e, tendo-me recomposto como Deus quis, os meus pensamentos e os meus actos foram sempre para convosco».

Este é o primeiro olhar: «Esta sua experiência recorda-nos a importância de manter-nos fiéis a um ideal, lembrando que como os marinheiros se deixavam guiar pelas estrelas se queriam chegar ao porto, nós temos de deixar-nos guiar pelos ensinamentos do Evangelho se queremos ser pessoas coerentes e fiéis. A vocação missionária e a pertença a uma família missionária são um dom, não são mérito nosso. Somos missionários porque Deus foi bom e quis servir-se de nós para mostrar o seu rosto paterno a tantos irmãos e irmãs que ainda não o conhecem», escreve o CG.


2. Olhamos com realismo o presente: chamados a testemunhar o Reino de Deus
Quando Comboni morreu o Instituto estava muito reduzido. A mahdia deu-lhe mais uma machadada. Século e meio depois continuamos a ser um instituto pequeno e a diminuir. Vamos desanimar e deitar a toalha no chão? Acho que não. A história do Instituto empurra-nos para a frente, para a missão e não para a sobrevivência do homo combonianus!

A Síntese Temática para Discernimento preparada pela Comissão Pré-capitular dizia no n.º 92: «Esta diminuição faz-nos tomar consciência de que a reorganização do Instituto é necessária sobretudo em vista de um serviço de qualidade à missão. O desafio maior é viver esta situação não como sinal de declínio, mas como uma experiência de debilidade evangélica (kenosis) e uma chamada do Espírito para uma requalificação essencial e criativa, sob o signo da alegria».

Esta é uma visão de fé que «deve estimular-nos a ser testemunhas fiéis da bondade e da misericórdia de Deus entre os últimos, aqueles que a sociedade esqueceu» fazendo memória dos missionários, «“parábolas existenciais”, pontos de referência nas diversas actividades que desempenhamos» (DC’ 15, 14).

O que nos leva ao «versículo perdido» que fecha a evocação de Elias no livro de Ben Sira: «Felizes os que te viram e os que morreram no amor; pois, nós também viveremos certamente» (48, 11).

É fundamental fazer memória dessas «parábolas existenciais»: os processos de beatificação do P. Ezequiel Ramin e do Ir. Josué dei Cás juntamente com os dos padres Bernardo Sartori e Giuseppe Ambrosoli, do bispo Antonio Maria Roveggio e da irmã Giuseppina Scàndola (que deu a vida para salvar o P. Giuseppe Beduschi) recordam-nos que vivemos por eles.

O CG desafia-nos a «a ser testemunhas do Reino de Deus onde quer que somos mandados. Por isso é necessário ser sempre fiéis à Palavra e seguir um programa sério de uma renovação contínua no nosso caminho de discipulado» baseado na conversão – metanóia (ir além da mente, da razão até ao coração de Deus). Um convite à conversão que está sempre connosco! Não somos obra-prima acabada, somos peças em construção. Sempre!

As cruzes – o viveiro das obras de Deus – são os sinais de Deus ao longo do caminho: «Eu sou feliz na cruz, que levada de boa vontade por amor de Deus gera o triunfo e a vida eterna» (E 7246). Isto não é uma visão pietista das dificuldades, mas uma mística missionária muito forte.

As dificuldades – e a falta de trabalhadores – levaram Comboni a descobrir a força da intercongregacionalidade, a necessidade de trabalhar em rede como resposta à mentalidade fradesca… Este é outro caminho indicado pelo Capítulo (DC ’15, 46.5).


3. Olhamos para o futuro com esperança

«Coragem para o presente e sobretudo para o futuro!». O desafio de Comboni no leito de morte é-o hoje no leito da vida eterna!

Mudança precisa-se – passar do fazer missão ao ser missão: «Devemos “tornar-nos missão” anunciando a alegria do Evangelho em solidariedade com os povos, fazendo-nos promotores de reconciliação e de diálogo, redescobrindo a espiritualidade das relações a nível pessoal, institucional, social e ambiental (DC ’15, n.º 20)».

Este é um roteiro missionário exigente: tornar-se missão é alegria, solidariedade, promoção de diálogo e reconciliação através da mística do encontro com Deus, com as pessoas, com a natureza e connosco próprios…

Vivemos em tempos de grande recessão e depressão vocacional. Temos duas alternativas: recitar o Nunc demittis e reclinar-nos placidamente no leito da morte ou continuar a viver a nossa vocação de discípulos missionários combonianos chamados a viver a alegria do Evangelho no Portugal de hoje segunda as forças e as capacidades de cada um. A idade média dos missionários combonianos em Portugal é de 67,74 anos...

Comboni descreveu o Instituto como opus dei (obra de Deus)  muito antes de o P. Josemaría Escrivá de Balaguer se apossar do termo: «Creio que é obra de Deus e que nela está verdadeiramente a mão de Deus» (E 1567)! Mais tarde acrescenta: «A nossa santa obra é obra de Deus, embora se realize entre aflições, angústias e espinhos. Os caminhos da divina Providência são surpreendentes, mas salutares, sobretudo quando se trata da salvação das almas e do chamamento à fé» (E 5308). Deixemos que Deus faça a sua parte. Nós temos que fazer a nossa: «Ai de mim se eu não evangelizar» (1Cor 9, 16)!

O desafio definitivo: viver o ano jubilar «como uma oportunidade para aprofundar e estender as nossas raízes, revigorar o nosso tronco e continuar a ser uma árvore que dá bons frutos, frutos de justiça, de paz e de caridade, para contribuir para o crescimento do Reino de Deus» (Carta do CG).

7 de fevereiro de 2017

CELEBRAR GRATIDÃO


Celebrar o 150.º aniversário da fundação do Instituto por S. Daniel Comboni é muito pessoal. É a celebração de uma graça muito diversificada que me acompanhou desde os meus primeiros anos, e que eu fui aprendendo a apreciar e entender profundamente ao longo dos acontecimentos e diferentes fases da minha caminhada missionária. Para mim, esta celebração é gratidão, em especial a minha gratidão para com S. Daniel Comboni, pelas maneiras como o Instituto conformou profundamente e enriqueceu a minha vida. Gostaria de partilhar somente três entre muitas razões para esta minha gratidão.


Experiência de Deus e fé

No seu Plano para a Regeneração da África, Daniel Comboni deixa bem claro que vive a sua missão, incluindo todas as iniciativas que a missão o leva a assumir, como um compartilhar da única missão de Deus.

Refletindo e rezando a sua primeira e profundamente difícil experiência de missão na África Central, descobre que lá, circundado pela perda e desastre aparente, ele acabou de facto conhecendo o Deus vivo, um Deus-em-comunidade e um Deus em missão, um Deus que sai até aos confins da terra, levando-nos com Ele, se o deixarmos. É por isto mesmo que, quando Comboni funda o seu Instituto, imagina-o como um «pequeno Cenáculo», Pentecostes atual, um lugar onde os humanos somos introduzidos no mistério missionário da Trindade.

É esta a razão porque a verdadeira vida deste Instituto é uma vida no Espírito, e pela qual um modo adequado de celebrar os 150 anos significa que o melhor ainda está para vir. É esta a razão pela qual pode muito bem acontecer que a fragilidade e limites atuais do Instituto, em vez de constituírem obstáculo à missão, podem ser a forma de descobrir onde e como o Espírito nos está conduzindo em direção ao futuro. Por outras palavras, esta celebração é tanto do futuro como é do passado.


Esta obra é católica

Eu nasci na Índia, de mãe Irlandesa e pai Escocês, e assim penso que não é estranho eu ser especialmente grato pelo facto de S. Daniel Comboni, logo de início, querer que o seu Instituto fosse internacional, ou «Católico», como ele gostava de dizer. O Deus que ele descobriu e experimentou era um Deus para o mundo inteiro, envolvendo a toda a Igreja numa missão dirigida a todos os continentes, nações, línguas e culturas. Somente sendo aberto a membros de todas as nações é que este Instituto podia – Comboni sentiu e entendeu com clareza – ser testemunha efetiva e credível da missão de Deus no mundo.

Este caminho nunca foi, nem será fácil para nós Missionários Combonianos, e já tivemos as nossas lutas e falhas ao longo da história. Há, no entanto, algo muito belo pois, algumas vezes apesar de nós mesmos, sempre acabámos voltando atrás, de regresso ao desejo e intuição do nosso fundador. No fundo dos nossos corações, sabemos que somos chamados a ser uma pequena semente no mundo daquela família pela qual o Pai anseia e deseja.

Como é evidente, eu estou profundamente agradecido a muitos missionários combonianos. Foi-me dada a graça e a oportunidade de pertencer a este Instituto, as quais eu devo, sem dúvida alguma, à intuição e visão do Fundador.


Uma missão para todo o discípulo
Ao celebrarmos 150 anos desde que Daniel Comboni teve a coragem de fundar o seu Instituto, somente podemos admirar-nos ante a vastidão, vitalidade e acuidade da sua visão. De novo, logo desde o início, ele foi claro, tanto no pensar com no agir, em como Deus tinha partilhado a sua missão com a igreja inteira, com todos e cada um dos batizados e apesar das muitas dificuldades que encontrou, manteve-se sempre firme no seu propósito e visão.

Cada bispo, sublinhou, foi chamado e ordenado para aceitar a responsabilidade pela evangelização do mundo inteiro e não somente pela sua diocese. Foi, pois, ao Concílio Vaticano I, para convencer disto os bispos. O seu Instituto não devia ser constituído somente por padres, mas também por leigos totalmente dedicados à missão. Os Irmãos que tiveram uma contribuição tão rica durante estes 150 anos, sem os quais este Instituto não seria comboniano.

Dentro da mesma dinâmica, Daniel Comboni envolveu também mulheres na missão desde o início e fundou o Instituto das suas Irmãs. Os dois institutos são dois pulmões do mesmo corpo e o conjunto somente pode respirar e viver bem quando esta verdade é vivida na prática diária da missão de comboniana. O Fundador lançou mão de leigos, mulheres e homens, de outros Institutos missionários e grupos, comunidades de Irmãs contemplativas; antes de ser teoria, esta foi para Comboni a realidade da missão, uma realidade que continua a desafiar e provocar.

Nesta linha de pensamento, um aspeto particularmente belo e evocativo da fundação do nosso Instituto por S. Daniel Comboni são os relacionamentos e as amizades. Ele conviveu com tantas figuras de grandes missionários do seu tempo: S. João Bosco, S. Arnold Jansen, fundador dos Missionários do Verbo Divino, com o Pe. Jules Chevalier, fundador dos Missionários do Sagrado Coração, etc. Também nisto a celebração dos 150 anos nos desafia e nos orienta para o futuro.


Obrigado e Sim

Tal com o Papa Francisco diz, ao início de A alegria do Evangelho, a alegria do evangelizador sempre brilha contra o pano de fundo da memória agradecida (EG 13). É esta alegria e este tipo de memória que me enche e me entusiasma mais ainda hoje do que no dia em que encontrei Daniel Comboni, há muitos anos. De forma simples, estou contente por este santo missionário ter feito o que fez.

P. David Glenday, missionário comboniano

6 de fevereiro de 2017

MANUAL DE JUSTIÇA E PAZ


O Departamento de Justiça e Paz dos Missionários Combonianos no Sudão do Sul publicou um Manual de Justiça e Paz em cinco línguas.

A obra, preparada pelo comboniano brasileiro P. Raimundo Nonato Rocha dos Santos, foi publicada em bari, dinca, nuer, árabe e inglês.

O subtítulo descreve o manual como uma ferramenta para os comités paroquiais de justiça e paz.

O P. Raimundo, coordenador provincial do sector, explica que o manual «é uma instrumento para formação, reflexão e ação.»

Descreve a obra como «uma tentativa para fornecer algumas linhas de ação e de treino para indivíduos, comunidades e comités que estão ou querem envolver-se no ministério de Justiça, Paz e Integridade da Criação (JPIC)». 

O manual pode ser útil para seminaristas, pessoas em casas de formação e outras instituições de ensino e é gratuito.

4 de fevereiro de 2017

SUDÃO DO SUL: ÚLTIMAS NOVIDADES

Deslocados pela guerra em Rimenze (Yambio)

Esse ano começou bem, em relativa paz. Porém, infelizmente nos últimos dez dias, tem havido conflitos armados em algumas regiões. Na semana passada houve confrontos entre as forças do exército e a oposição armada em Malakal, uma das regiões mais afetadas pela guerra. Há informações de que mais de 25 civis foram mortos e o número pode ser bem maior. Não se sabe quantos militares perderam a vida. Muita gente teve que fugir e o acesso para as ajudas humanitárias ficou mais difícil ainda.

Houve conflitos também nos arredores de Wau e tem havido saques nas residências dessa cidade. Durante o dia muita gente vai para suas casas, mas passa a noite acampada nas bases da ONU ou no pátio da catedral. São milhares nestas condições.

Continuam conflitos também na região de Equatória (Yei, Yambio e Kajo-Keji), próximo à fronteira com Uganda e o Congo. A população dessa área continua a deixar o país e se refugiar nos países vizinhos. Muita gente caminha por dias e noites pelo mato por medo do exército e dos rebeldes que bloqueiam as estradas. Tem havido muita morte de civis, mulheres violentadas, saques, roubo de gado e outros bens e casas e povoados queimados. Os mais pessimistas chegam a falar em potencial genocídio.

Em Kajo-Keji temos uma missão comboniana e era um dos lugares mais pacíficos do país com muitas escolas de referência nacional funcionando. Há informações de que os rebeldes estão nessa área. Testemunhas afirmam que na manhã de domingo, dia 21 de janeiro, um grupo de soldados do governo chegou a uma capela onde os cristãos realizavam o culto dominical. Teriam dito que procuravam por rebeldes. O povo assustado saiu da capela e começou a correr. Os militares atiraram e mataram seis pessoas, inclusive o catequista e liderança da comunidade. Eram civis inocentes que estavam rezando.

Isso provocou mais medo e pânico. A população começou a deixar a região num êxodo em massa, cerca de 90% da população de Kajo-Keji se tornou refugiada em Uganda. As escolas fecharam. A agência para refugiados da ONU informa que mais de 52.600 pessoas se refugiaram em Uganda, só em janeiro, chegando a quase 700.000 refugiados, a maioria mulheres e crianças.

A paróquia do Sagrado Coração de Jesus, coordenada pelos combonianos em Kajo-Keji, vai celebrar a missa deste domingo e fechar a igreja porque o povo já deixou a região. Na última missa participaram apenas 21 pessoas, nenhuma mulher ou criança. Os missionários passarão a acompanhar a população refugiada no outro lado da fronteira, na Uganda, oferecendo assistência pastoral.

Juba, a capital, segue em relativa paz. O ambiente está calmo. A cidade conta com um grande contingente de soldados. Os rebeldes não ousariam atacar Juba. No entanto, o povo sofre com a carestia e incerteza sobre o futuro. O governo segue falando em ‘diálogo nacional’ para a paz, mas ainda não se vê resultados positivos. Espera-se que as igrejas possam contribuir no processo de paz e reconciliação, o que, aliás, já estão fazendo.

Há expectativas de uma visita do Papa Francisco ao Sudão do Sul nesse ano e a esperança de que sua presença possa contribuir ainda mais com o processo de paz e reconciliação.

P. Raimundo Rocha, Juba, Sudão do Sul

3 de fevereiro de 2017

MÁSCARAS

© Fernando Sousa

As máscaras são um assunto sério!

Relacionamos máscaras com adereços de Carnaval (para corsos e bailes da quadra) ou disfarce de bandidos, ladrões e forças especiais de segurança. Na África, as máscaras representam uma realidade cultural, social e religiosa tão vasta e variada como o continente. Museu de arte africana que se preze tem de incluir, obrigatoriamente, uma mostra de máscaras.

Os entendidos derivam a palavra «máscara» de dois étimos: masca (palavra latina que significa fantasma) ou maskharah (termo árabe que quer dizer palhaço ou homem disfarçado). Mas o seu significado simbólico na África é muito mais vasto e está relacionado com rituais e cerimónias.

Os Africanos fazem e usam máscaras desde o Paleolítico, há mais de dez mil anos, para assinalarem nascimentos, ritos de iniciação, casamentos e funerais; sementeiras e colheitas; para preparar a guerra e a paz; para pedirem chuva e sorte para a caça; para invocarem a ajuda das divindades, dos antepassados, dos animais protectores da comunidade, os tótemes; para entreter; para ensinar.

Milhares de etnias de norte a sul idealizam e produzem uma variedade imensa de máscaras, com simbologias tão diversas como as circunstâncias e as latitudes em que são usadas.

Fazem-nas de materiais diversos: madeira (o material mais à mão e adequado porque as florestas são a habitação dos espíritos), couro, barro, têxteis, metais (sobretudo cobre e bronze), marfim. Podem ser pintadas, decoradas com dentes de animais, pêlos, erva seca, ossos, cornos, penas, conchas e outros materiais.

Vêm em muitas formas e feitios: algumas cobrem só o rosto do portador, outras a cabeça como um chapéu ou como um capacete; há máscaras que tapam a cabeça e o tronco ou de corpo inteiro em prolongamentos de tecido ou erva seca.

Podem ser realistas ou abstractas e estilizadas, mas o seu significado vai muito além da mera concepção estética desde o grotesco assustador à delicadeza estilizada da beleza feminina. As máscaras africanas influenciaram artistas plásticos como Picasso.

Os artistas-artesãos são na maioria dos casos uma elite prezada porque «ligam» ao sobrenatural. Aprendem a arte com os mais velhos e – como os pintores dos ícones cristãos – têm de passar por rituais de purificação (podem incluir jejum e abstinência) antes de deitar mãos à obra.

Os portadores das máscaras são seleccionados, porque intermedeiam entre a comunidade e a deidade. Durante o transe da dança dizem-se possuídos pelo espírito que a máscara representa. Por vezes, necessitam de tradutores que interpretem os movimentos e os sons que produzem nas danças mascaradas sagradas.

A exibição das máscaras é um evento multimédia: as danças rituais dos mascarados requerem banda sonora com instrumentos tradicionais e cantares, coros. Podem ser políticas (quando o mascarado é um chefe) e pedagógicas (para passar aos mais novos valores da comunidade como a humildade, paciência, sabedoria, conceitos de estética, representar mitos, histórias, etc.).

Uma nota final: na África do Sul, escravos de algumas etnias usavam máscaras com expressões cómicas para – durante o Carnaval – poderem dizer mal dos patrões na própria cara sem serem identificados e punidos. Pois claro: é Carnaval, ninguém leva a mal!

13 de janeiro de 2017

SILÊNCIO


O realizador norte-americano Martin Scorsese transformou Silêncio, a ficção mais aclamada do católico japonês Shusaku Endo, no «filme da sua vida».

Silêncio conta a odisseia física e espiritual de dois jesuítas portugueses: Sebastião Rodrigues e Francisco Garupe.

À volta de 1640 embarcaram para o Japão para assistir os católicos barbaramente perseguidos pelo poder desde 1614, altura em que os missionários foram expulsos do país.

Queriam encontrar o seu mentor, o P. Cristóvão Ferreira. Relatos de comerciantes holandeses contavam que o jesuíta tinha renunciado a fé em vez de receber a coroa gloriosa do martírio.

Os padres Rodrigues e Garupe vão a Goa, passam por Macau e entram clandestinamente no Japão com a ajuda de um guia – Kichijiro – que faz a união entre os diversos blocos do filme.

Scorsese fez de Silêncio um filme tenso, intenso e extenso que prende, questiona, choca, agride, espanta durante duas horas e 41 minutos.

As torturas a que os cristãos foram submetidos para calcar o «fumie» – uma placa metálica de Cristo – e renegar a fé ou aceitar uma morte cruel gritam bem alto que a maldade humana tem requintes brutais infinitos.

A minha mente derivava, ao ver as execuções nas praias japonesas, para as costas da Líbia onde membros do Daesh executaram cristãos com a mesma crueldade.

Endo dizia-se um católico japonês num fato ocidental desajustado.

A sua produção literária é um esforço para apresentar um Cristo aceitável aos nipónicos: impotente, maternal, compassivo e companheiro dos sofredores, com um poder incrível de auto-sacrifício – como explica o P. Adelino Ascenso na sua magistral dissertação doutoral.

O romance, publicado em 1966, questiona o silêncio de Deus perante a tão desesperada situação dos cristãos perseguidos, os mártires do Japão.

O P. Rodrigues acaba por calcar o «fumie» e renegar a fé para salvar alguns cristãos torturados à sua frente.

O Crucificado diz da placa de bronze ao jesuíta português: «Calca, calca. É para ser calcado por ti que estou aqui».

O sistema japonês, sofisticado e requintado, acabou por ser mais forte que o missionário e quebrou-o como tinha quebrado ao P. Ferreira.

O P. Rodrigues casou e passou o resto da vida como budista.

Periodicamente, com a mulher, tinha que pisar a imagem de Cristo e assinar uma confissão de descrença.

Mas o missionário português continua a acreditar no seu íntimo e absolve pela enésima vez Kichijiro – o judas da narrativa que trai a Deus, à família, ao P. Rodrigues.

Continua a pedir e a receber a absolvição para depois negar a Deus até ser apanhado com uma medalha escondida num amuleto.

Kichijiro foi condenado à morte.

Rodrigues morre no fim do filme e vai a cremar como um budista. Com um detalhe: as suas mãos aconchegam o crucifixo artesanal que um cristão lhe ofereceu enquanto as chamas ameaçam o cadáver no interior de uma urna cilíndrica.

Os vizinhos comentam que a viúva não derramou uma única lágrima pelo defunto.

Foi ela que lhe colocou o velho crucifixo na mão?

10 de janeiro de 2017

NATAL, BOMBA OU HUMILDE SEMENTE?


Queridos amigos,

Encontro-me há quatro meses na minha nova comunidade comboniana de Castel d’Azzano (Verona-Itália). Estou bem e contente.

Poderia dizer que este Natal é para mim uma outra ocasião para renascer, dada a nova realidade de condições de vida, de residência, de comunidade, de colegas... Somos cinquenta confrades idosos ou doentes. Quase todos de venerável idade. O P. Efrém é o nosso decano, com quase 97 anos. Eu recuperei uma minha antiga prerrogativa de ser o mais jovem membro da comunidade, a ser adicionada àquela de ser o único doente de E.L.A. no instituto!

A nossa comunidade é uma verdadeira “sala de parto.” Em 2016 deu à luz 10 novos “santos” para o céu. Um bonito um recorde! A este ritmo em cinco anos chegaremos todos ao Paraíso!...

A nossa comunidade é também uma grande “Arca de Noé” missionária, devido à diversidade humana de seus membros; à variada amostra de surdos, cegos, mudos, aleijados, mancos... e de toda a espécie de doenças que existe debaixo do sol; mas especialmente pela diversificada e extraordinária riqueza de experiências de missão.

Vim aqui encontrar velhos amigos, conhecidos durante a minha peregrinação missionária; entre eles alguns colegas de missão, como o P. Luis, famoso pelas suas façanhas de caçador, e o P. Lino, que eu apelidei de Schumacher: guiava a toda a velocidade para “sobrevoar os buracos da estrada”, dizia ele! Nenhum dos dois, no entanto, se recorda que trabalhámos juntos no Gana. A memória, a uma certa idade, prega-nos algumas partidas! Infelizmente, o P. Luis perdeu-a há 23 anos durante uma operação de cirurgia. Desde então, passa a vida vagueando pelos corredores dizendo: “perdi a memória”, mas não pára de buscá-la, dia e noite, remexendo nas gavetas dos nossos quartos... à caça de doces!

Mas vamos ao assunto desta carta: os votos de Natal. Não é fácil falar do Natal neste nosso contexto atual duma sociedade de idosos e de gente cansada, sem crianças, nem mesmo… o menino Jesus, que desapareceu do nosso presépio!

Não obstante o peso dos anos e das canseiras, partimos também nós para Belém. Se o recenseamento é feito “cada qual na sua cidade”, queremos que a nossa seja Belém, a terra de Maria e de José, dos pobres e dos humildes. Não iriamos escolher a Roma pagã e imperial do poder e da riqueza, ou a Atenas dos filósofos e dos inteligentes, nem mesmo a velha Jerusalém do culto formal e farisaico! Queremos que o nosso nome seja registrado em Belém, com o de José e de Maria! Desde Belém, pois, envio o nosso abraço natalício.

Que desejar-vos como mensagem de Natal? Para permanecer em tema de atualidade, espero que o Menino, colocado por Maria e José na manjedoura do vosso coração, seja como… uma BOMBA que exploda em mil estilhaços de amor e de carinho, para atingir toda a vossa existência e a de quantos encontrardes pelos caminhos da vossa vida! Sim, o Menino traz consigo a potência duma ‘bomba nuclear’, capaz de destruir todas as outras bombas criadas pelo egoísmo humano e de cobrir tudo e todos com a sua irradiação de luz e de calor, para que o nosso mundo possa conhecer uma nova era de paz e de fraternidade!

Não me faço, porém, muitas ilusões. Sei que a nossa vida diária, com tantos problemas e preocupações, não pode ser sempre uma explosão de alegria e de otimismo contagiantes. Então gostaria de formular um desejo alternativo: que o Menino, na sua pequenez, seja como uma SEMENTE de ternura lançada em nossos corações. Bem cuidada, com tempo e paciência, vai conseguir o milagre, talvez menos vistoso mas não menos surpreendente, de multiplicar-se com uma fecundidade maravilhosa. Sim, o nosso coração é um campo de sementes; multiplica o que nele é semeado, tanto o trigo como as ervas daninhas! Cada um recolherá do que semeou. Na manjedoura de Belém (em hebraico, “casa do pão”), encontramos o bom trigo de Deus. Recolhamo-lo e espalhemo-lo ao nosso redor, com o sorriso amigo e um gesto concreto de generosidade! E será sempre Natal!

E para o novo ano 2017? Estejam todos os teus desejos diante do Senhor! (Salmo 37, 10). “Se o teu desejo está diante d’Ele, o Pai, que vê em secreto, te escutará. O teu desejo é a tua oração. Se o teu desejo é contínuo, contínua é também a tua oração. Se não quiseres parar de orar, não deixes de desejar “ (Santo Agostinho). Eis, pois, os meus votos para o novo ano: um coração cheio de desejos, desejos realmente grandes!

Com amizade,
P. Manuel João Pereira Correia
Missionários Combonianos - Centro Alfredo Fiorini 
Via Oppio, 29
37060 CASTEL D’AZZANO VR (Itália)
Tel. (0039) 045 8521511 - 3911773617

6 de janeiro de 2017

ÀS ARMAS


Os países africanos gastam mais de 40 mil milhões de dólares por ano com a defesa.

A globalfirepower.com publica todos os anos uma série de tabelas analíticas dos gastos de 126 poderes militares modernos, incluindo 30 africanos. A leitura cruzada dos dados pode ser aborrecida, mas é essencial para entender a realidade.

Os 30 países de África que integram a lista gastaram juntos cerca de 40 mil milhões de dólares na segurança em 2015. Nada que se compare com os 581 mil milhões que os Estados Unidos da América necessitaram para manter a supremacia militar global, mas mesmo assim é muito mais do que investiram no desenvolvimento.

Por países, a Argélia leva a dianteira com um orçamento de 10,57 mil milhões de dólares por ano; seguem-se a África do Sul (4,6 mil milhões) e o Egipto (4,4 mil milhões). Angola, Marrocos, Líbia, Sudão e Nigéria registam gastos entre os 4,1 e 2,3 mil milhões.

Em termos de classificação, a Argélia ocupa a posição 22 entre os 126 países mais gastadores. A África do Sul está no 43.º lugar e o Egipto no 45.º Angola, na posição número 47, está à frente de Portugal, que ocupa a posição 49.ª com um gasto de 3,8 mil milhões com a defesa.

Note-se que o Sudão do Sul paga 545 milhões de dólares pela sua máquina de guerra. Ocupa a posição 84.ª na tabela mundial, acima dos vizinhos Etiópia (90.º), Uganda (94.º), República Democrática do Congo (106.º) e República Centro-Africana (126.º). Contudo, em termos de produto interno bruto, o país está na cauda das economias mundiais.

O dinheiro despendido na defesa, contudo, não corresponde ao músculo militar. Se a Argélia é o que mais gasta, o Egipto é de longe a primeira potência militar africana e a décima segunda na escala dos 126 países listados pela Global fire power. A Etiópia, que ocupa a 90.ª posição quanto a gastos, é a terceira força militar em África e 42.ª a nível mundial depois da Argélia (que ocupa a 26.ª posição global).

No que respeita à aviação, o Egipto com 13 444 unidades tem a primeira força aérea da África e a sétima do mundo, acima do Reino Unido, que ocupa a posição número 12. Seguem-se-lhe a Argélia, Marrocos e Angola, nas posições globais 26, 33 e 35, respectivamente.

Comparando as marinhas, o Egipto detém a mais poderosa frota naval africana e a sexta do mundo, apesar de ter só mais 657 quilómetros de costa que Portugal. Marrocos, Nigéria e Argélia vêm a seguir.

O poderio militar e a deriva securitária devido a conflitos internos em alguns países africanos têm custos muito elevados sobretudo para economias mais débeis e são os mais pobres quem mais sofre as consequências. O dinheiro tão necessário para o desenvolvimento acaba no poço sem fundo da guerra.

O Sudão do Sul é exemplar: quase metade dos dinheiros que o Parlamento de Juba alocou no orçamento para 2017 foram para a defesa. A outra metade mal dá para os salários da função pública, e as despesas da saúde, educação, infra-estruturas e outros gastos fundamentais numa economia com a hiperinflação anual de 830 por cento.

Não admira, portanto, que apesar do crescimento que a economia africana regista, o número dos pobres continue a crescer: grande parte da riqueza é para pagar a pesada factura (ocidental) do armamento a credores, traficantes e fornecedores. A paz fica mais barata.

5 de janeiro de 2017

NATAL MISSIONÁRIO ITINERANTE





Um dos missionários da missão em Nyal, no Sudão do Sul, o comboniano mexicano P. Fernando Galarza, e um bom grupo de pessoas aguardavam a chegada do helicóptero a serviço das Nações Unidas que aterrissaria na poeirenta pista de pouso de Nyal, no Sudão do Sul, às 11.00 da manhã do dia 21 de dezembro de 2016. Entre os passageiros estava P. Raimundo Rocha, missionário comboniano brasileiro que chegaria à missão de Nyal para celebrar o natal com as comunidades afetadas pela guerra civil naquela região do Sudão do Sul nas duas semanas seguintes.

Celebrar o natal do Senhor num contexto de guerra é uma experiência que o P. Raimundo repete há quatro anos. Ele e seus companheiros missionários primeiro celebraram o natal com deslocados de guerra em Leer, em 2013, quando a guerra civil começava a ganhar contornos nos seus primeiros dez dias de confrontos. O natal entre os deslocados de guerra se repetiu em 2014, dessa vez na capital Juba, onde dezenas de milhares de deslocados ainda são mantidas nas bases de proteção da ONU. Fugindo dos conflitos e a procura de proteção, muita gente não pode celebrar a festa do nascimento de Jesus no ano anterior. Em 2014 foi como celebrar um «duplo natal».

O P. Raimundo manteve seu natal missionário itinerante em 2015. Dessa vez ele se juntou aos deslocados de guerra na base de proteção de civis da ONU, em Rubkona e Bentiu, que passam de cem mil. Em 2016 o missionário celebrou o natal entre as comunidades afetadas pela guerra pela quarta vez. Esse último natal foi celebrado na missão de Nyal, numa área relativamente calma da sua antiga missão em Leer.

Entre alguns aspectos comuns desse natal missionário itinerante está a alegria. O Natal é sempre uma festa muito alegre para o povo sul-sudanês que se junta aos milhares para esse grande evento. Além disso, o reencontro de P. Raimundo com o povo da missão de Leer e a celebração das festividades natalinas tem proporcionado momentos de grande alegria tanto para o povo quanto para o próprio missionário nessas idas e voltas da missão.

Outra característica comum dessa missão é a esperança de paz. As celebrações natalinas dos últimos quatro anos foram cheias de esperança e anseio por paz. Nem mesmo o ambiente hostil, ameaçador, às vezes tenso e incerto, resiste à poderosa força de paz trazida pelo Menino Jesus. Além disso, a acolhida, hospitalidade, generosidade e partilha do povo Nuer são sempre autênticas e constantes, apesar do ambiente de pobreza e muita necessidade.

Porém, para o P. Raimundo, esse natal foi mais especial. Poder retornar à sua antiga missão e celebrar com seu povo não tem preço e nada lhe tira a grande alegria vivida. O mesmo diga-se do povo que teve um natal mais alegre e de maior esperança de paz.

As comunidades são distantes e os três missionários em Nyal se dividiram para melhor servir ao povo. O P. Jacob Solomon, comboniano etíope, se deslocou à comunidade mais distante que leva um dia de caminhada para alcançar. O e. Fernando caminhou um pouco mais de seis horas para chegar a outro centro missionário. O P. Raimundo permaneceu na sede da missão, em Nyal, e se deslocou às comunidades mais próximas, localizadas a três horas de caminhada.

Nem a distância, o suor, o calo no pé impedem a alegria de ir ao encontro do povo em missão e anunciar-lhes o Evangelho em sua própria língua. É lindo de ver os jovens realizarem suas marchas com bandeiras, tambores e cantos numa profunda demonstração de orgulho de sua fé. Cada vez que o missionário seguia para uma nova comunidade, eles o acompanhavam como seus «guardiões» e diziam: «Vamos levar o nosso padre até a próxima comunidade». Lindo de ver também era o sorriso enorme das mães das quase setecentas crianças que foram batizadas. As dezenas de jovens que receberam a primeira Eucaristia e o Crisma o faziam com a convicção de quem está determinado a seguir Jesus Cristo.

Era comum, porém, ver jovens armados, como se estivessem prontos para o combate, mesmo não havendo conflito nas proximidades. Muitos deles ainda com rosto de criança, reflexo da triste realidade das «crianças-soldados». A cada dia chegava mais deslocados de guerras vindos de outras áreas. Rostos sofridos, estômagos vazios, longas caminhadas, horas a fio sentados em canoas pequenas feitas de palmeiras que seguem pelos pântanos do rio Nilo. Gente a procura de proteção, alimento, saúde... ou simplesmente procurando parentes. Muitos querem deixar o país e não conseguem.

Cada pessoa tem uma estória pra contar. Quantos já perderam a vida! Quantas mulheres violentadas! Quantas casas queimadas! Tudo isso para quê? Tudo fruto da maldade de corações gananciosos que querem poder e riqueza à custa de vidas inocentes. Ao longo desses anos de sofrimento o povo aprendeu a desenvolver mecanismos para lidar com esse tipo de situação e adquiriu uma enorme resiliência que lhes permite seguir adiante. Soma-se a isso a fé no Deus da vida, da misericórdia e da paz.

O Sudão do Sul começa o novo ano em relativa paz, apesar das incertezas e a ameaça da fome. Nesse contexto de guerra, os missionários continuam sendo presença solidária no meio desse povo sofrido e ajudam a construir a paz e a promover a justiça e reconciliação. O natal missionário itinerante não só anuncia o nascimento do Salvador e é fonte de alegria e esperança, como também é uma forma de não-violência ativa em situações de conflitos. O povo aprende que a verdadeira paz não se impõe com armas, ódio e perseguição. Ela chega na fragilidade de um Menino, o Emanuel, Príncipe da Paz.

P. Raimundo Rocha, mccj
Missionário Comboniano em Juba, Sudão do Sul

2 de janeiro de 2017

CARTA POR OCASIÃO DO 150.º ANIVERSÁRIO DO INSTITUTO COMBONIANO


O Reino do Céu é semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. É a mais pequena de todas as sementes; mas, depois de crescer, torna-se uma árvore, a ponto de virem as aves do céu abrigar-se nos seus ramos (Mt 13, 31-32)

1 de Janeiro de 2017

Caros confrades,

Saudamos-vos com alegria e gratidão no início deste novo ano!

A 1 de Junho de 1867 Mons. Daniel Comboni fundou em Verona o «Instituto para as Missões da Nigrícia» que, transformado em Congregação religiosa a 28 de Outubro de 1885, se tornou de direito pontifício a 7 de Junho de 1895.


1. Recordando os primeiros passos (um olhar sobre o passado)

Relendo as origens do nosso Instituto, é-nos difícil imaginar no que se tornaria com o passar do tempo. O texto do Evangelho acima referido faz referência aos planos de Deus, amante da pedagogia que parte de baixo. Um Deus que se serve daquilo que aos olhos do mundo conta pouco mas que, na sua mente divina, se torna projecto e se concretiza com a colaboração humana. Precisamente como a pequena semente do Evangelho, na qual está contido já uma grande árvore.

À morte do nosso Fundador os missionários contavam-se pelos dedos de uma mão. Aquela mão-cheia dos primeiros filhos foi acompanhada, nos primeiros anos, por sacerdotes da Companhia de Jesus. Catorze anos depois eles contribuíram para lançar os fundamentos do nosso Instituto, procurando dar à Congregação uma fisionomia e um rosto próprios. No fim do século dezanove o Instituto contava 18 sacerdotes, 21 Irmãos e 21 estudantes candidatos ao sacerdócio, sessenta ao todo.


As chamadas de Deus

Nós, pertencentes à família comboniana, sabemos que Daniel Comboni sentiu a chamada de Deus quando era ainda muito jovem, aluno do colégio Mazza, antes de tudo lendo o testemunho dos Mártires do Japão e depois ouvindo o testemunho de Don Angelo Vinco (E 4083), o missionário que, acabado de chegar da África Central, semeou no coração daqueles rapazes a paixão pelo seu trabalho. E Comboni, não obstante a idade, tomou a decisão que nunca mais abandonaria: dedicar toda a sua vida a anunciar o Evangelho aos povos africanos que – como intuía – tinham uma grande necessidade de conhecer a Boa Nova. Assim, ainda mazziano trabalhou intensamente pela missão africana, vivendo de modo apaixonado a sua pertença àquelas irmãs e irmãos ainda desconhecidos.

Entretanto as notícias sobre aquilo que acontecia aos seus companheiros mazzianos no continente africano, em vez de desencorajá-lo, impeliram-no a unir-se ao pequeno grupo dos missionários que a 10 de Setembro de 1857 partiu para a África – Giovanni Beltrame, Francesco Oliboni, Angelo Melotto, Alessandro Dal Bosco, Isidoro Zilli – sustentados pelas palavras de Don Nicola Mazza, que se tornaram para eles uma bênção e um desafio: «promovei sempre e somente a glória de Deus, que tudo o mais é vaidade. Colocamos a nossa missão sob a protecção da Virgem Imaculada e de São Francisco Xavier, o grande apóstolo das Índias». Aquela curta experiência de apenas dois anos em África marcou profundamente a vida de Daniel Comboni (E 465). O seu coração permaneceu ali ao mesmo tempo que ele não pensava senão em tudo o que tinha conhecido em primeira pessoa. Foi algo de semelhante ao que aconteceu com o carácter baptismal: a África tornou-se nele uma marca indelével, a ponto de não ter querido renunciar à possibilidade de regressar para lá (E 3156) e, entretanto, continuou a trabalhar activamente pelo bem da missão africana.

Como aconteceu com outros fundadores no seu percurso vocacional, também São Daniel Comboni sentiu a necessidade de dar força à primeira chamada e trabalhar no continente dos seus sonhos e, embora cumprindo a promessa feita a «Don Congo» (Don Nicola Mazza) de consagrar a sua existência à causa da África, foi obrigado pelas circunstâncias a tornar-se fundador de uma família missionária.

Esta sua experiência recorda-nos a importância de manter-nos fiéis a um ideal, lembrando que como os marinheiros se deixavam guiar pelas estrelas se queriam chegar ao porto, nós temos de deixar-nos guiar pelos ensinamentos do Evangelho se queremos ser pessoas coerentes e fiéis. A vocação missionária e a pertença a uma família missionária são um dom, não são mérito nosso. Somos missionários porque Deus foi bom e quis servir-se de nós para mostrar o seu rosto paterno a tantos irmãos e irmãs que ainda não o conhecem.

Agradecemos a Deus também pelo testemunho de tantos missionários que nos precederam e ofereceram a sua vida pela missão. Eles são os elos de uma longa cadeia de que fazemos parte, que nos reporta às origens, à fonte de onde nascemos. Pertencemos a uma família de santos de que devemos ser orgulhosos. Somos fruto do amor apaixonado do nosso Fundador pela missão, herdeiros de uma vocação que brota do coração traspassado de Deus, que nos coloca numa atitude de saída (EG, 27) e nos leva até às periferias existenciais da história. Alguns de nós foram abençoados com o dom do martírio, expressão máxima de doação, como nos recorda o Evangelho: Não há maior amor do que dar a vida pelos seus amigos (Jo 15, 13).


2. Olhamos com realismo o presente: chamados a testemunhar o Reino de Deus
Depois de um século e meio, continuamos a ser um Instituto pequeno: atendendo às estatísticas, nunca ultrapassamos na nossa história os dois mil membros, mas isto não deve desencorajar-nos, pelo contrário, deve estimular-nos a ser testemunhas fiéis da bondade e da misericórdia de Deus entre os últimos, aqueles que a sociedade esqueceu. Não obstante a nossa «pequenez», não podemos esquecer todo o bem que Deus fez e continua a fazer através dos nossos missionários. É o que nos recorda também o último Capítulo: Os missionários combonianos identificados, generosos e dispostos a dar a vida por Cristo e pela missão são muitos; sem ruído gastam-se todos os dias nos serviços que lhes são confiados. A presença dos missionários que são testemunhas do Ressuscitado no meio dos pobres e marginalizados, é uma bênção que nos recorda a razão de ser da nossa opção de vida. Eles são «parábolas existenciais», pontos de referência nas diversas tarefas que desempenhamos (DC 2015, nº 14).

Somos chamados a ser testemunhas do Reino de Deus onde quer que somos mandados. Por isso é necessário ser sempre fiéis à Palavra e seguir um programa sério de uma renovação contínua no nosso caminho de discipulado.


Conversão

E todavia, olhando para o passado, temos de reconhecer que nem sempre fomos fiéis. Muitas vezes, obrigados pelos desafios ou pelo medo, recuámos perante as adversidades e as provações. Por vezes afastámo-nos da intuição primigénia e acomodámo-nos na segurança das nossas escolhas, pensando salvar a nossa vida e não a dos nossos irmãos e irmãs mais abandonados.

O «Jubileu da Misericórdia» encerrou há pouco: pedimos a Deus, fonte de caridade, que tenha misericórdia das nossas incoerências e dos nossos pecados, pessoais e institucionais, e conceda a todos o dom da conversão, condição para acolher o Reino de Deus que vem (Mc 1,15), para acolher a sua Palavra e ser pessoas felizes pela vocação recebida (cf. DC 2015, nº 4).


As cruzes, sinais no caminho


Quando falamos de felicidade, não queremos dizer que não haverá nuvens no horizonte. As dificuldades, mais tarde ou mais cedo, apresentam-se sempre na vida. São Daniel Comboni chamava-as «cruzes» e todos sabemos que, à medida que avançava, os problemas que se lhe apresentavam tornavam-se cada vez maiores; mas até das nuvens mais negras pode sair água límpida. Do mesmo modo, as experiências difíceis podem tornar-se o cadinho em que se purificam os nossos sonhos e os nossos programas. Pensamos nos confrades que se encontram em situações de violência, de pobreza extrema, de perseguição e perigos constantes: tudo isto nos causa sofrimento, porque nos sentimos próximos a eles e nos afeiçoamos às pessoas e aos lugares, mas sabemos também que é garantia da autenticidade do nosso serviço missionário.

Comboni gostava de repetir que as obras de Deus nascem e crescem aos pés da cruz. É interessante redescobrir sempre de novo que as cruzes, para o nosso Pai fundador, em vez de serem obstáculos no caminho eram sinais que lhe indicavam a meta. As cruzes garantiam-lhe que estava a caminhar na direcção certa. Pedimos a Deus poder fazer nossas as palavras de São Daniel: «Eu sou feliz na cruz que levada de boa vontade por amor de Deus gera o triunfo e a vida eterna» (E 7246).

Recordamos que quando, por falta de pessoal missionário, a missão africana corria o risco de não continuar porque o Instituto Mazza não podia mais apoiá-la, outros Institutos, graças a Deus, se uniram ao esforço de Comboni. Em primeiro lugar, os Camilianos, depois as Irmãs de São José da Aparição, membros de outros Institutos e leigos que acreditavam no seu projecto.

O amor pela missão extravasa, inunda e fecunda os corações e as vontades para os empurrar na mesma direcção. Deste modo a primeira intuição do nosso Fundador torna-se uma bela realidade e vai ao encontro de numerosos irmãos e irmãs que encontra no seu caminho. Por isso é importantíssimo também hoje aprender a trabalhar «em rede», compreender que as iniciativas, mesmo se belas e necessárias, se ligadas a uma só pessoa dificilmente continuam. O nosso Fundador, com o seu testemunho, procurou envolver tantas pessoas e fazê-las participar na missão. Muitas vezes teve de pôr de parte as diferenças de pensamento ou pontos de vista, para fazer com que os colaboradores permanecessem na missão, convicto de que só o trabalho em comunhão tem um futuro, porque se inspira no Deus Trino que se revela como família.


3. Olhamos para o futuro com esperança
Animemo-nos, pelas circunstâncias presentes e mais ainda pelos dias que virão, são as palavras pronunciadas por São Daniel Comboni antes de morrer, de acordo com o material recolhido pelos seus biógrafos.

Somos convidados a olhar para o futuro com esperança. Vivemos momentos difíceis mas as provações, como aludimos acima, não devem desencorajar-nos, certos de que o Senhor nos acompanhou, nos acompanha e continuará a fazê-lo, como nos recorda o Evangelho: «Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos» (Mt 28, 19-20).

O último Capítulo Geral convidou-nos não só a converter-nos mas também a sonhar um novo modo de compreender e de viver a missão. Devemos «tornar-nos missão» anunciando a alegria do Evangelho em solidariedade com os povos, fazendo-nos promotores de reconciliação e de diálogo, redescobrindo a espiritualidade das relações a nível pessoal, institucional, social e ambiental (DC ’15, nº 20). Neste 150.º aniversário de fundação, desejamos recordar aquilo que todos nós temos a peito, isto é, o convite do Capítulo ao renovamento do Instituto, também através do aprofundamento da Regra de Vida segundo o percurso que nos será oferecido e fazendo nossos os desafios propostos, como a interculturalidade, a ministerialidade, a reorganização, etc. Tudo isto nos permitirá requalificar a nossa vida e o serviço que oferecemos à Igreja, à sociedade e ao nosso Instituto.

Vivamos este 150.º aniversário como uma oportunidade para aprofundar e estender as nossas raízes, revigorar o nosso tronco e continuar a ser uma árvore que dá bons frutos, frutos de justiça, de paz e de caridade, para contribuir para o crescimento do Reino de Deus.

Programa a nível da DG para 2017:

  • Carta do CG para lançar o Ano Jubilar do 150.º aniversário do nosso Instituto e apresentação do LOGO oficial.
  • Preparação de seis subsídios bimestrais que serão publicados na Família Comboniana para sublinhar três etapas da história do Instituto:
a) uma reflexão sobre as nossas origens;
b) um olhar e reflexão sobre o momento presente;
c) acolher os novos paradigmas e desafios da missão.
  • Celebração do Simpósio em Roma (25 de Maio a 1 de Junho)
  • Encontro dos Conselhos Gerais da Família Comboniana (2 de Junho)
  • Uma celebração particular a 10 de Outubro
  • Iniciativas várias
  • Encerramento do Ano Jubilar
Convidamos todas as circunscrições a organizar outras iniciativas in loco para que sejam ocasiões de animação missionária e, sobretudo, de renovamento do ideal missionário e do sentido de pertença ao nosso Instituto Comboniano.

Boas celebrações e feliz aniversário!

O CONSELHO GERAL

DESTRELADO


O jornalista, escritor e dramaturgo brasileiro consagrado Nelson Rodrigues intitulou as suas memórias A menina sem estrelas publicadas em novembro de 2016 pela Tinta da China. 

As 81 crónicas foram originalmente publicadas no jornal brasileiro Correio da Manhã entre fevereiro e maio de 1967.

Os textos misturam amor, morte e sexo, os ingredientes primordiais da vida. 

Complexo e compacto, no que diz respeito aos conteúdos, o livro é contudo de leitura fácil e agradável dado o estilo eloquente em que grafa os seus pensamentos, sentimentos e apontamentos.

O assassinato do irmão, a primeira visão da nudez feminina e a iniciação num bairro de prostituição, a fome que não lhe permitia o luxo do ódio, a experiência num sanatório para curar a tuberculose, estórias de traição, adultério, suicídio e homicídio, a cegueira da filha que não podia ver as estrelas, as inseguranças e a necessidade constante do reconhecimento literário – tudo isto confessa com uma simplicidade honesta e desarmante como que num exercício de psicoterapia.

Nelson Rodrigues começou a exercer o jornalismo aos 13 anos. Fala com saudades do jornalismo criativo e adjectivado, criativo. Queixa-se que a objectividade e o copy-desk mataram a emoção no jornalismo.

Há uma referência repetida à literatura portuguesa. Os Maias são evocados amiúde. Para Nelson Rodrigues, o suicido de Antero Quental foi o seu último poema.

Das muitas frases lapidares que burilou anoto uma que me tocou: «só os profetas enxergam o óbvio».

Nelson Rodrigues nasceu em 1912 e faleceu em 1980.

Uma janela para um Brasil distante, mas interessante; uma reflexão honesta e exposta, em primeira pessoa, sobre a tensão do viver, amar e morrer; uma obra que merece uma leitura atenta sobre o mistério humano.

31 de dezembro de 2016

A FORÇA DA NÃO-VIOLÊNCIA


O papa repropõe a não-violência como método evangélico para uma «política para a paz» baseado no Sermão da Montanha. Uma proposta ousada e corajosa que nos devolve às origens do cristianismo e responde aos desafios de «uma terrível guerra mundial aos pedaços» em curso.

«Hoje, ser verdadeiro discípulo de Jesus significa aderir também à sua proposta de não-violência», destaca Francisco.

A mensagem do papa para o 50º Dia Mundial da Paz de 2017 – que se celebra a 1 de janeiro – faz uma leitura holística da experiência de todos os dias e revela o fio subtil que nos «cose»: os conflitos que preenchem noticiários e telejornais são os mesmos que enchem o meu coração.

Não há violências maiores e menores, nem violências de estimação. O coração humano é o campo de batalha onde a violência e a paz se defrontam, onde nasce o conflito. Daí que o papa proponha um roteiro cordial para o superar: admitir a violência que cada um carrega no coração e buscar a cura na misericórdia de Deus, através da solidariedade «como estilo para fazer a história e construir a amizade social».

A família é o primeiro laboratório da paz. A não-violência aprende-se de pequenino em casa na forma de lidar com os conflitos e atritos através do diálogo, respeito, busca do bem do outro, misericórdia e perdão.

A paz na família gera a paz entre a família das nações!

O desarmamento começa com palavras gentis, de sorrisos, gestos mínimos de paz e amizade, o pequeno caminho do amor de Teresa de Lisieux, que conduzem ao desarmamento global.

A violência dá sempre mais violência para gáudio e ganho de uns tantos «senhores da guerra» desviando recursos tão urgentes para a grande multidão dos pobres de hoje!

O Papa apela ao desarmamento, à proibição e abolição das armas nucleares juntamente com o fim da violência doméstica e do abuso sobre mulheres e crianças, do descarte das pessoas, dos danos do meio ambiente e do vencer a todo o custo.

«A violência não é o remédio para o nosso mundo dilacerado», afirma com veemência.

António Guterres, secretário-geral designado da ONU, defendeu no discurso de juramento a reforma do sistema de manutenção de paz das Nações Unidas.

Notou que os capacetes azuis muitas vezes são chamados a manter uma paz que não existe e propôs um continuum de paz baseado na prevenção, resolução de conflitos, manutenção e construção da paz e desenvolvimento.

A «ética da fraternidade e da coexistência pacífica» não seria mais efectiva para proteger e manter a paz entre os povos? Resultou na África do Sul e é incomparavelmente mais barata que a solução militar.

22 de dezembro de 2016

COMOVER


São Daniel Comboni e o Papa Francisco conjugam o verbo comover para porem em palavras as experiências pessoais profundas do mistério do natal.

O fundador descreveu aos pais numa longa carta o que sentiu ao visitar Belém em outubro de 1857: «Finalmente, à tardinha chegámos a Belém. Meu Deus! Mas onde quis nascer J. C.? Contudo eu quis nessa mesma tarde descer à afortunada gruta que viu nascer o Criador do mundo. Entrei, e embora o nascimento seja mais alegre que a morte, fiquei mais COMOVIDO que no Calvário ao pensar na complacência de um Deus que se humilhou até ao ponto de nascer num estábulo» (Escritos 111).

Por seu turno, o Papa Francisco anota na exortação pós-sinodal Amoris lætitia (A alegria do amor): «A encarnação do Verbo numa família humana, em Nazaré, COMOVE com a sua novidade a história do mundo» (AL 65).

A Infopédia da Porto Editora define comover como «afetar, causando uma adesão profunda». A raiz etimológica latina commovere indica mobilizar, mover ou mexer-se com.

Hoje, é comum celebrar-se o Natal do Senhor sem o Senhor do Natal. Passou-se do Natal de Jesus ao natal das coisas, da contemplação ao consumo. A estridência das cores, dos tons e dos sabores abafa o murmúrio da melodia mística da glória a Deus e paz na Terra.

Passados tantos natais, a contemplação da encarnação do Senhor ainda te comove? Ou a inércia do suceder dos dias adormeceu o coração? Os magos e os pastores moveram-se com Jesus para a gruta de Belém. Para onde te move Jesus, hoje?

A virgem do Natal, a mãe de Belém convida-nos a (re)viver o Natal com um olhar contemplativo que reordena tudo no coração: «Quanto a Maria, conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração» (Lucas 2, 19).

O mistério da Encarnação é um processo abrangente e largo, que pede um coração grande e um olhar profundo para além do momento!

«Precisamos de mergulhar no mistério do nascimento de Jesus, no sim de Maria ao anúncio do anjo, quando foi concebida a Palavra no seu seio; e ainda no sim de José, que deu o nome a Jesus e cuidou de Maria; na festa dos pastores no presépio; na adoração dos Magos; na fuga para o Egipto, em que Jesus participou no sofrimento do seu povo exilado, perseguido e humilhado; na devota espera de Zacarias e na alegria que acompanhou o nascimento de João Baptista; na promessa que Simeão e Ana viram cumprida no templo; na admiração dos doutores da lei ao escutarem a sabedoria de Jesus adolescente», escreve o papa argentino no nº 65 da Amoris lætitia.

E prossegue: «E, em seguida, penetrar nos trinta longos anos em que Jesus ganhava o pão trabalhando com suas mãos, sussurrando a oração e a tradição crente do seu povo e formando-Se na fé dos seus pais, até fazê-la frutificar no mistério do Reino. Este é o mistério do Natal e o segredo de Nazaré, cheio de perfume a família! É o mistério que tanto fascinou Francisco de Assis, Teresa do Menino Jesus e Charles de Foucauld, e do qual bebem também as famílias cristãs para renovar a sua esperança e alegria».

Comover-se com o mistério da Encarnação, celebrar o natal com emoção é isto: deixar-se mover com Jesus que nasce despojado, fora da cidade «envolto em panos e deitado numa manjedoura» para ser «uma grande alegria para o povo»: «Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor» (Lucas 2, 11).

Só um olhar humilde e contemplativo, vazio de ideias feitas e de categorias mentais e sociais calcificadas, é capaz de ver o Menino de Belém encarnar nos bebés refugiados, traficados, famintos, doentes, ameaçados pelos herodes de hoje. E são tantos…

Como ontem no Campo dos Pastores, em Belém, hoje o anjo diz: «Não temais!» (Lucas 2, 10). O medo amarra, sufoca, mata! E há tantos medos, tantas ameaças no horizonte carregado de populismo extremado de 2017.

Diz-nos o Senhor: «Celebrai dias de alegria, e cantai a sua glória» (Tobite 13, 8b).

Que assim seja no teu natal e em todos os dias do novo ano.

Boas festas!

15 de dezembro de 2016

MENSAGEM DE NATAL


Os meus olhos viram a Salvação (Lc 2, 30)

Caros irmãos em Cristo,

Recebei um abraço fraterno por ocasião da celebração do mistério da Encarnação de Nosso Senhor.

O Natal oferece-nos um tempo propício para contemplar Deus na fragilidade e na esperança de que um mundo novo é possível. Somos chamados a descobrir os sinais da presença de Deus num mundo ofuscado pela violência sem sentido que destrói a humanidade e torna incerto o futuro. Neste último ano seguimos com preocupação a situação da Síria e de alguns países nos quais estamos presentes, Sudão do Sul, República Centro-africana, República Democrática do Congo, Etiópia, Eritreia, Moçambique, México, Colômbia… A presença dos nossos confrades nestas situações é sinal de que estamos convictos de que Deus está também ali, por muito limitada que possa ser a nossa actividade missionária. O Natal é também uma oportunidade para dar vigor à nossa vida fraterna, aprendendo a olhar o outro com os olhos do Pai, caminhando como família que sabe perdoar e aceitando-nos tal como somos.

Os fenómenos migratórios atingiram proporções excepcionais por causa das guerras e das profundas desigualdades económicas. Milhões de pessoas vêem-se obrigadas a sair da segurança das suas casas em busca de uma vida digna. O nosso Instituto está a empenhar-se cada vez mais com esta realidade para ser sinal da presença de Deus que recria a vida e abre o coração à solidariedade numa sociedade cada vez mais fechada em si mesma.

O Natal é semente de esperança porque o próprio Deus se faz história para a transformar e recriar numa nova direcção. Isto compreende-se melhor da parte das vítimas, dos pobres, dos sem-terra e dos sem-tecto. O nosso fundador fez da sua vida um projecto de amor e causa comum com os últimos; toda a sua existência foi configurada pela paixão que brota do Evangelho através de uma relação íntima com o Pai. O nosso Instituto nasce desta experiência fecunda de Daniel Comboni que luta incansavelmente contra a injustiça que os mais abandonados sofrem.

Deus incarnou na fragilidade. Também nós hoje, como Instituto, nos sentimos frágeis, mas é a partir desta fraqueza que somos mais criativos e abertos à acção do Espírito. Sentimos necessidade de escutar, acolher e assumir aquilo que Jesus nos diz neste momento particular, que é também tempo de salvação. Esperamos que a celebração do Natal nos ajude a incarnar o nosso carisma dentro de cada uma das realidades em que nos encontramos para ser presença criativa e sinais do Reino.

O Conselho Geral deseja-vos um Natal de 2016 repleto de bênçãos e um 2017 rico de iniciativas que nos motivem a colaborar com o plano que Deus leva por diante através de nós.

O Conselho Geral