20 de maio de 2016

Sudão do Sul: MISSIONÁRIA MORRE, BALEADA POR SOLDADOS

Uma missionária morreu hoje em Nairobi, Quénia, após ter sido baleada por soldados em Yei, no Sudão do Sul, no início da semana.

A Irmã Veronika Terézia Racková, das Missionárias Servas do Espírito Santo, foi baleada por uma patrulha do exército quando regressava do transporte urgente de uma parturiente da clínica que dirigia para o hospital à uma da manhã de segunda-feira.

A ambulância estava devidamente sinalizada.

A missionária tinha 58 anos e era natural da Eslováquia. Dirigia o Centro de Saúde Santa Bakhita, da diocese de Yei, desde 2010.

Foi ferida com gravidade no estômago e na bacia e foi evacuada para Nairobi na segunda-feira devido à gravidade dos ferimentos.

Dom Erkolano Lodu Tombe, bispo de Yei, anunciou esta tarde na catedral de Cristo-Rei que a Ir. Veronika não resistiu aos ferimentos e faleceu no Harvester Hospital em Nairobi.

O bispo disse que a Ir. Veronika lhe confidenciou antes de ser evacuada de helicóptero para o Quénia que não resistiria aos ferimentos.

O Ministro da Informação do Estado de Yei River, Stephen Lodu Onesimo, condenou o incidente como «ato indisciplinado e bárbaro».

Disse que três soldados suspeitos de disparar sobre a ambulância foram presos na segunda-feira e vão ser julgados.

A Ir. Maria Jerly Renacia, superiora das Missionárias Servas do Espírito Santo na Etiópia e no Sudão do Sul, disse que a morte da Ir. Veronika abalou as outras irmãs presentes no país, mas não iam abandonar o país.

«Esperamos continuar a servir os necessitados desta grande nação da África apesar deste incidente infeliz», disse à Rádio Easter, a emissora católica de Yei.

A província da Etiópia e Sudão do Sul postou uma mensagem de agradecimento no Facebook intitulada «Preciosa é, na verdade, uma vida dada pela Missão.»

«Muito obrigado pelas vossas preciosas orações e apoio demonstrado. Apesar de estarmos em dor e tristeza profundas pela morte da Ir. Veronika, oferecemos paz, cura e compaixão às pessoas no Sudão do Sul a quem ela deu a sua vida, especialmente aqueles que a feriram. Que o Amor do DEUS Trino seja semeado em cada coração», diz a mensagem.

A Ir. Veronika trabalhou na Itália, Holanda, Alemanha, Áustria, Irlanda, Reino Unido, Indonésia e Gana antes de chegar ao Sudão do Sul.

Que reste no abraço terno e eterno de Deus. Que a sua vida seja semente de paz no Sudão do Sul.

6 de maio de 2016

PARABÉNS, MESTRE


O irmão comboniano António Manuel Nunes Ferreira defendeu com sucesso a sua dissertação académica para o grau de Mestre em Enfermagem.

O júri da Escola Superior de Saúde de Viseu atribuiu a nota de 18 valores à dissertação «Conhecimentos sobre o VIH-sida nos clientes de um hospital de Lakes State-Sudão Do Sul.»

O Ir. Nunes passou mês e meio naquele hospital no verão passado para recolher a informação necessária para o trabalho.

O novo mestre fez também uma especialização em enfermagem comunitária.

O Ir. Nunes tem 44 anos, nasceu no Brasil e é de Vilã Chã, Vila do Conde.

Depois dos votos temporários em 1997, fez o Curso de Ministério Social em Nairobi (Quénia) e a licenciatura de enfermagem no Instituto Piaget de Viseu.

Vai regressar ao Sudão do Sul, onde trabalha desde 2006, para ensinar enfermagem no Instituto Católico de Formação de Saúde (CHTI na sigla em inglês) de Wau.

O Instituto superior é dirigido pela organização católica Solidariedade com o Sudão do Sul.

Trata-se de um consórcio de mais de 200 institutos religiosos femininos e masculinos para formar professores, enfermeiros, obstetras, agricultores locais e líderes de comunidade no país mais jovem do mundo.

O CHTI de Wau, no noroeste do Sudão do Sul, tinha 95 estudantes nos cursos de enfermagem e obstetrícia no ano escolar de 2015.

Os alunos vêm de todo o país.

Parabéns, Mestre Nunes!

2 de maio de 2016

MALDIÇÃO BRANCA


O albinismo afecta e põe em risco a vida de milhares de pessoas.

O albinismo é uma doença rara hereditária caracterizada pela (quase) ausência de melanina, a proteína que gera os pigmentos que dão cor à pele, olhos e cabelo para proteger o organismo dos raios solares. As pessoas afectadas por essa patologia têm pele e cabelos muito claros.

O albinismo tem uma incidência maior na África Subsariana, embora esteja espalhado por todo o mundo e discrimine milhares de pessoas. Na Europa e na América, afecta uma em cada 17 a 20 mil pessoas, mas na África a sul do Sara a incidência é quatro vezes maior e na África Oriental 12 vezes.

Na África, as pessoas com albinismo são duplamente discriminadas. Por falta de protecção contra os raios ultravioletas, têm problemas de visão e sofrem graves queimaduras de pele. A maioria acaba por falecer de cancro entre os 30 e os 40 anos.

A superstição é outra ameaça: há famílias que matam os bebés com albinismo porque são considerados maldição; os feiticeiros, por seu turno, crêem que a pele branca tem poderes mágicos – e a das crianças ainda mais – e usam órgãos dessas pessoas para feitiços.

Ikponwosa Ero, perita independente da ONU para a defesa dos direitos humanos de pessoas com albinismo, publicou em Março um relatório em que denuncia o cabo das tormentas que essas pessoas têm de dobrar.

«Mitos perigosos alimentam estes ataques contra pessoas inocentes: muitos acreditam erradamente que pessoas com albinismo não são seres humanos, mas fantasmas ou sub-humanos que não podem morrer, mas só desaparecem», disse na apresentação do relatório.

O documento denuncia que pessoas com albinismo são vítimas de graves mutilações e morte a machete para recolha de partes do corpo, incluindo dedos, braços, pernas, genitais e ossos, usadas em rituais de feitiços, poções e amuletos. Um negócio macabro: uma perna pode valer 1780 euros e um cadáver inteiro 66 850.

A perita nigeriana, que também tem albinismo, disse que entre Agosto, quando assumiu o cargo, e Março foram registados 40 ataques em sete países africanos, na maioria contra crianças. A Tanzânia e o Quénia são os países mais violentos para quem sofre da falta de pigmentação. No Malauí, grupos criminosos autodenominados «caçadores de albinos» estão activos desde 2015 e desde Janeiro já atacaram 34 pessoas e mataram 11.

Em Tete, Moçambique, sete crianças com albinismo foram raptadas desde Dezembro. Lurdes Ferreira, porta-voz do comando distrital da polícia, disse que se trata de «um crime organizado transfronteiriço e por isso fomos incapazes de prender os raptores».

As campanhas eleitorais podem representar um perigo acrescido por haver registo de políticos que pedem a feiticeiros que os ajudem a ganhar e estes recorrerem a órgãos de pessoas que sofrem de albinismo para potenciar os feitiços como aconteceu no Gana, Senegal, Costa do Marfim e Quénia.

A senhora Ero propõe desenvolver e fortalecer medidas específicas para prevenir e pôr fim às agressões contra as pessoas com albinismo, incluindo campanhas de consciencialização e compreensão da sua condição e a definição de quadros jurídicos internacionais.

26 de abril de 2016

MISERICÓRDIA: O HORIZONTE DA MISSÃO


No registo do evangelista Marcos, Jesus, antes de regressar ao Pai, deu um mandato claro aos 11 apóstolos: «Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura» (Marcos 16,15). E conclui: «Eles partiram a pregar por toda a parte e o Senhor cooperava com eles, confirmando a sua palavra com os milagres que a acompanhavam» (Marcos 16,19-20).

Da conclusão do Evangelho segundo Marcos, sublinho dois aspectos fundamentais: um, somos discípulos-missionários com a obrigação de anunciar a Boa-Nova em toda a parte e a toda a criação; dois, o Senhor ressuscitado coopera com os missionários e valida a sua palavra, porque a missão é de Deus e eles são colaboradores humildes da Trindade Santíssima.

Francisco escreve na bula O rosto da misericórdia (MV na sigla em latim) – que proclama o Jubileu Extraordinário da Misericórdia – que a misericórdia é essencial no serviço missionário da Igreja «para ir ao encontro de todas as pessoas levando-lhes a bondade e a ternura de Deus» (MV 5).

O Senhor revelou-se a Moisés no Sinai como «Deus misericordioso e clemente, vagaroso na ira, cheio de bondade e de fidelidade» (Êxodo 34,6).

O Papa argentino destaca que a misericórdia é também o conteúdo da proclamação missionária que é uma experiência cordial: «A Igreja tem a missão de anunciar a misericórdia de Deus, coração pulsante do Evangelho, que por meio dela deve chegar ao coração e à mente de cada pessoa» (MV 12).

Esta metáfora da missão como diálogo de corações que pulsam ao compasso da misericórdia divina é muito feliz e desafiante!

Esta ideia já a tinha enunciado na exortação apostólica A alegria do evangelho (EG na sigla em latim): a Igreja «vive um desejo inexaurível de oferecer misericórdia, fruto de ter experimentado a misericórdia infinita do Pai e a sua força difusiva» (EG 24).

E acrescenta: «A Igreja deve ser o lugar da misericórdia gratuita, onde todos possam sentir-se acolhidos, amados, perdoados e animados a viverem segundo a vida boa do Evangelho» (EG 114).

Francisco nota ainda que «onde houver cristãos –, qualquer pessoa deve poder encontrar um oásis de misericórdia» (MV 12).

Os milagres que testemunham e acompanham a Palavra anunciada são as obras de misericórdia. «A pregação de Jesus torna-se novamente visível nas respostas de fé que o testemunho dos cristãos é chamado a dar» (MV 16) porque «a misericórdia de Deus não é uma ideia mas uma realidade concreta» (MV 6), sublinha Francisco.

No dizer do Papa, as 14 obras de misericórdia – sete corporais e sete espirituais – representam «uma maneira de acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida perante o drama da pobreza, e de entrar cada vez mais no coração do Evangelho, onde os pobres são os privilegiados da misericórdia divina» (MV 15).

O papa que veio de longe proclama «o bálsamo da misericórdia como sinal do Reino de Deus já presente no meio de nós» (MV 5). Mas Deus também tem a sua obra de misericórdia: o grande dom da salvação que nos oferece por pura graça (EG 112).

A prática da misericórdia é o horizonte da missão e faz prova da vida cristã: «a pregação de Jesus apresenta-nos estas obras de misericórdia, para podermos perceber se vivemos ou não como seus discípulos» (MV 15), arremata Francisco.

A misericórdia e as suas obras são a prova dos nove dos discípulos-missionários de Jesus e a chave para a vida bendita (Mateus 25, 31-46).

22 de abril de 2016

CONTRA O TRÁFICO HUMANO


A irmã Gabriella Bottani, missionária comboniana, é a responsável por Talitha Kum, a Rede Internacional da Vida Consagrada contra o tráfico humano, fundada em 2009. Em conversa com a Além-Mar, fala sobre o trabalho que fazem os consagrados em favor destes irmãos que vivem em situações semelhantes à escravatura.


Como é que qualificas o estado do tráfico de pessoas hoje?
O tráfico de pessoas é hoje um fenómeno que tem vindo a aumentar em todas as suas modalidades, seja na exploração sexual, como nos fenómenos da exploração laboral, trabalho forçado, casamento forçado, mendicância, tráfico para extracção de órgãos, tráfico para o envolvimento em actividades criminosas como meninos-soldados e também o tráfico de droga. Essas realidades criminosas vêm-se entrelaçando entre elas. É um fenómeno que tem vindo a crescer e também é cada vez mais difícil definir com clareza os lugares de origem e de destino ou de trânsito. O tráfico está a acontecer em todos os lugares, tráfico interno, tráfico transnacional. Há cada vez mais pessoas envolvidas. Homens, crianças, mulheres são utilizados para fins lucrativos. O tráfico, sobretudo de seres humanos, mas também o tráfico de armas e drogas, são das actividades ilícitas mais lucrativas que existem.


O tráfico de drogas, seres humanos e armas não são os pilares da economia subterrânea, mas da economia real do mundo de hoje. Como é que se pode contrastar esta realidade? Há alguma maneira de nos relacionarmos com os traficantes para tentar controlar este fenómeno de exploração?


Na minha experiência, o trabalho directo com os traficantes é muito difícil porque são actividades criminosas e também acaba por ser muito complexo e muito perigoso. O impacto também vai ser muito difícil para uma efectiva mudança. Mas essas actividades criminosas existem e subsistem porque são sustentadas por uma mentalidade e uma realidade que permitem a essas associações criminosas actuarem. Sustentam-se na corrupção, na indiferença, na ganância, no desejo de fazer dinheiro. Acho que temos de trabalhar mais as causas para as reduzir e todas aquelas áreas de vulnerabilidade; também aqueles elementos culturais da nossa época fazem com que essas organizações criminosas continuem a actuar. Penso sobretudo no exemplo mais simples, na questão da tentativa de reduzir a procura, que é uma das actividades que nós, como rede Talitha Kum, estamos a apoiar, reduzir a procura de sexo a troco de dinheiro. Porque, efectivamente, se as pessoas são traficadas e têm nesse sentido uma oferta é porque há procura, e reduzindo a procura nós esperamos também reduzir o impacto da consequência do tráfico. É por isso que projectos educativos, programas educativos e mudança de mentalidade são fundamentais.


Uma das características do tráfico de pessoas, armas e drogas é a organização extrema e minuciosa que faz com que consigam redes de infiltração, de angariação, de transporte. A esta organização extrema qual é o tipo de resposta que dá a Talitha Kum?
A primeira resposta é não ficarmos isolados, é ficarmos juntos, juntar as forças e acreditar, ter fé e esperança que podemos fazer algo. Não ficar passivos nem indiferentes diante dessas coisas. Por vezes o medo paralisa-nos, bloqueia-nos. Acredito que a primeira mensagem, a primeira força de uma rede é perceber que juntos podemos fazer algo, podemos mudar as coisas, não deixar um espaço tão grande para essas organizações criminosas e do mal.

A outra mensagem é o próprio nome Talitha Kum, que significa “levanta-te”. Esse levantar-se tem a força da Palavra de Deus, mas também tem a força de todos nós que quando nos relacionamos como verdadeiros irmãos e irmãs, quando conseguimos resgatar a nossa dignidade e sabemos que a dignidade do nosso irmão ou irmã é também a nossa dignidade. É um levantar-se diante dessas situações, mas também um levantar-se para contrastar com todas aquelas situações que estão efectivamente, como dizia antes, a favorecer o tráfico de pessoas.


Isso quer dizer que esta palavra que Jesus pronunciou há 2000 anos e que é tradição cristã conservou na língua original, o aramaico, talitha kum, levanta-te, continua a ser uma ordem dada hoje a quem?

A todos nós, acredito. Por vezes, tenho a impressão que somos muito negativos, já não acreditamos que é possível algo de diferente. Temos um olhar muito fechado e muito pessimista das realidades. O nosso tempo é um tempo complexo, de grandes mudanças epocais, mas isso não pode matar a esperança cristã. Esse «levanta-te» é dito para todos nós, temos de arriscar verdadeiramente, levantar a cabeça.

20 de abril de 2016

JUBA REZA PELA PAZ


A arquidiocese católica de Juba organizou um tríduo de oração pela paz no país mais jovem do mundo que regressou aos infernos da guerra civil há 28 meses.

Dom Paolino Lukudu Loro, o arcebispo comboniano de Juba, convocou três dias de oração «pela implementação pacífica do acordo que conduz à paz duradoura no Sudão do Sul.»

O tríduo de oração pela paz decorre de 20 a 22 de abril e conclui com a procissão e missa presidida pelo arcebispo Lukudu no dia 23, na catedral de Santa Teresa, em Juba.

O convite foi enviado numa carta do secretário-geral da arquidiocese, P. Gabriel Acida, a todas as paróquias e comunidades religiosas.

«Com a perspectiva da esperança e paz sobre o Sudão do Sul […] cada paróquia é convidada a dedicar um tríduo de oração especial pela paz no Sudão do Sul», diz a mensagem do arcebispo.

Uma crise política grave mergulhou o Sudão do Sul num conflito étnico armado violento a 15 de dezembro de 2013, depois de oito anos de paz.

Os números da crise são aterradores: mais de 50 mil mortos e 2,3 milhões forçados a abandonar os lares - 1,7 milhões deslocados internos e 648 mil refugiados na Etiópia, Quénia, Uganda e Sudão. Quase 200 mil pessoas estão nos campos de protecção de civis nas bases das forças da ONU em condições muito difíceis.

As forças em confronto, lideradas pelo presidente Salva Kiir Mayardit e o ex-vice-presidente Riek Machar Teny, assinaram um acordo de cessação de hostilidades em agosto de 2015 que devia dar origem a um governo de unidade nacional chefiado pelo presidente Kiir com Machar como primeiro vice-presidente.

Machar devia chegar a Juba vindo de Gambela, na Etiópia a 18 de abril. Numa entrevista à Al Jazeera acusou o governo de Juba de bloquear o seu regresso.

A repórter da estação televisiva do Qatar no Sudão do Sul, Annea Cavell, diz que a situação em Juba é caótica e não se conhece a razão porque Machar ainda não chegou à capital.

Adiantou que o primeiro vice-presidente indigitado quer trazer armamento extra com o contingente de 260 soldados que o acompanha e que o governo não concorda.

O Grupo de Trabalho para a Justiça Transicional publicou hoje uma declaração expressando «preocupação profunda» pela demora na formação do governo de transição e a implementação do acordo para a resolução do conflito no Sudão do Sul.

O grupo, de sete organizações da sociedade civil, pede ao governo e à oposição que estabeleçam imediatamente o governo de unidade e  iniciem um programa abrangente de justiça transicional e reconciliação no Sudão do Sul.

ROSTOS DE MISERICÓRDIA


O Ano da Vida Consagrada (AVC) foi um tempo favorável que o Papa jesuíta deu aos consagrados para revisitarem a consagração em três dimensões: Evangelho, Profecia e Esperança. Entretanto, começou o Jubileu Extraordinário da Misericórdia. 
Francisco afirmou na homilia da missa de encerramento do AVC, a 2de fevereiro, na Basílica de São Pedro, que «agora como um rio, ele [o AVC] conflui no mar da misericórdia, neste imenso mistério de amor que continuamos a experimentar através do Jubileu extraordinário.»

Este desaguar da consagração na misericórdia que interpelações coloca às consagradas e consagrados, hoje?

Sublinho duas frases do Papa argentino: em A alegria do Evangelho, número 114, escreve que «a Igreja deve ser o lugar da misericórdia gratuita, onde todos possam sentir-se acolhidos, amados, perdoados e animados a viverem segundo a vida boa do Evangelho». E no número 12 de O rosto da misericórdia – a bula de proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia – ajunta: «Nas nossas paróquias, nas comunidades, nas associações e nos movimentos – em suma, onde houver cristãos –, qualquer pessoa deve poder encontrar um oásis de misericórdia.»

Cada comunidade religiosa é chamada, pois, a ser um oásis da misericórdia gratuita e acolhedora de Deus para dentro e para fora. O mundo de hoje necessita de rostos e corações misericordiosos que falem de Deus através de uma linguagem existencial lida por todos. Muitas congregações de vida consagrada nasceram para dar corpo às obras de misericórdia.

Dom João Braz de Aviz, disse a 28 de janeiro que o Papa «já pediu» que os consagrados «entrem no movimento de estabelecer, aprofundar e viver a misericórdia de Deus», no contexto do Jubileu: «Ser rosto da misericórdia do Pai, testemunhas e construtores de uma fraternidade autenticamente vivida.»

O cardeal brasileiro estava a falar durante a apresentação do encontro que conclui o AVC de 28 de janeiro a 2 de fevereiro e reuniu cerca de 4000 consagradas e consagrados para aprofundarem o tema «Vida consagrada em comunhão. O fundamento comum na diversidade das formas.»

Mas a misericórdia começa em casa! O Papa Francisco na audiência geral de encerramento do AVC, a 1 de fevereiro, foi muito mais contundente: «E se, neste Ano da Misericórdia, cada um de vós conseguisse nunca ser o terrorista mexeriqueiro ou mexeriqueira, seria um sucesso para a Igreja, um grande sucesso de santidade! Tende coragem! Proximidade.»

E que tem a Laudato Si’ a ver com tudo isto? A vida consagrada respira a espiritualidade ecológica de que fala o Papa no capítulo VI da encíclica, sob o título «Educação e espiritualidade ecológicas.»

Comunhão universal, sobriedade, paz interior, harmonia com a criação, atitude de coração são alguns dos temas que inspiraram os nossos avôs na Vida Consagrada desde Antão, Pacómio e Bento até aos nossos dias.

Por isso, o Papa escreva no número 214: «espero também que, nos nossos seminários e casas religiosas de formação, se eduque para uma austeridade responsável, a grata contemplação do mundo, o cuidado da fragilidade dos pobres e do meio ambiente.»

16 de abril de 2016

PADRE RAPTADO NO DARFUR


Um padre ortodoxo foi raptado por desconhecidos e encontra-se desaparecido no Darfur, Sudão, desde quinta-feira, 14 de abril.

O P. Feliz da Costa Martins, missionário comboniano a trabalhar em Nyala, no Sul do Darfur, enviou uma mensagem aos amigos denunciando que o seu amigo e vizinho Padre Gabriel Anthony «foi raptado por homens armados. O seu paradeiro é desconhecido.»

O P. Gabriel é egípcio e pertence à Igreja Copta, da comunhão ortodoxa, reconhecida pelo Governo sudanês.

É pároco da Igreja copta-ortodoxa de Santa Maria em Nyala.

Ismail Yahya Abdallah, comissário do Condado de Nyala-Norte, disse ao jornal digital Sudan Tribune que o P. Gabriel foi raptado por três desconhecidos armados em pleno dia em frente ao aviário que a paróquia tem perto do campo de deslocados de Atash.

Negou que o incidente tivesse ligação religiosa ou terrorista.

«É foi um ato criminoso de um grupo armado para obter resgate», disse.

Abdallah explicou que os serviços de segurança estão empenhados em localizar os raptores e libertar o sacerdote.

O P. Feliz sublinha que «estas notícias de sequestros são coisa normal aqui no Darfur, mas quando nos toca de perto, o nosso sofrimento é muito maior.»

«Quando o cativeiro é prolongado por vários meses, as marcas ficam gravadas para toda a vida», comenta.

O P. Feliz conclui a mensagem: «Esperemos, pelo menos, que o devolvam com vida. Convido-vos a rezar para que não desfaleça física, moral ou espiritualmente.»

O Darfur, a Casa dos Fur, no oeste sudanês, é palco de um genocídio contra as populações não árabes por parte do regime de Cartum desde 2003.

7 de abril de 2016

TRAGÉDIA COM NOME DE INOCÊNCIA


Fenómeno climático cíclico ameaça com fome dezenas de milhões de africanos.

El Niño, um fenómeno climático oceânico e atmosférico natural que acontece cada dois a sete anos e pode durar até 15 meses, intimida quase 50 milhões de africanos com o espectro da fome, doença e morte. A Organização Meteorológica Mundial anunciou que o evento «excepcionalmente forte» já está a perder força, mas vai sentir-se até Agosto.

O fenómeno geoclimático é resultado do aumento da temperatura das águas no Pacífico Central, que altera os ventos alísios na região do Equador, afectando as correntes atmosféricas com alterações graves nos ciclos do clima. Chamam-lhe El Niño – O Menino, porque costuma começar por volta do Natal na área marítima do Peru.

O episódio provoca tanto secas como inundações extremas: enquanto Somália, Quénia e Sul da Etiópia sofrem com chuvas torrenciais, os vizinhos Sudão do Sul, Sudão, Eritreia, Jibuti e Nordeste etíope são cenários de secas severas.

O El Niño afecta toda a África: a oriente, onde a coordenadora dos assuntos humanitários da ONU calcula que ameaça a segurança alimentar de 22 milhões de pessoas; a ocidente, sobretudo na bacia do lago Chade – com 9,2 milhões a precisarem de assistência humanitária; e a sul, com 49 milhões expostos aos efeitos do fenómeno climático.

Os especialistas afirmam que o evento de 2015-2016 é o mais severo e longo dos últimos 35 anos. A ONU calculou que, em Fevereiro, 20,4 milhões de pessoas sofriam de insegurança alimentar severa na Etiópia, Sudão do Sul, Sudão, Somália, Burundi, Jibuti e Uganda. A UNICEF, a organização das Nações Unidas para a infância, divulgou que o El Niño deixou 11 milhões de crianças da África Oriental e Austral sob a ameaça da fome, sede e doença.

A situação da Etiópia é paradigmática: no princípio do ano havia 10 milhões de pessoas ameaçadas pela fome – tanto quanto a população de Portugal. Em Junho, o contador pode chegar aos 18 milhões. Apesar de viver a seca mais severa dos últimos 50 anos, as mudanças políticas, económicas e sociais que o país viveu desde 1991 estão a atenuar os efeitos do El Niño e as consequências não são tão mortíferas como a crise de 1984-1985, que originou o grande abraço de solidariedade do Live Aid.

O fenómeno tem impacto na saúde pública e na educação. As inundações são prenúncio de epidemias de malária, diarreia e cólera. Por outro lado, as chuvas torrenciais destroem escolas, estradas e pontes. Muitas escolas são usadas para alojar as populações afectadas pelo mau tempo. A malnutrição está a afastar cerca de 2,5 milhões de crianças etíopes do ensino.

Uma nota final: a Etiópia é pátria de secas cíclicas, mas também fornece 85 por cento das águas da bacia do Nilo. Bastava construir um sistema de transferência das zonas mais aquáticas para as mais secas para quebrar o ciclo de fome, miséria e morte. Mas dá mais nas vistas a caridadezinha mediatizada em tempo de calamidade do que o investimento silencioso dos dadores numa infra-estrutura que faria a diferença para dezenas de milhões de etíopes.

6 de abril de 2016

ACOLHER FAZ BEM À EUROPA



Cerca de 40 missionárias e missionários combonianos a servir nas províncias da Europa participaram no Simpósio de Limone 2016, um acontecimento organizado pelo Grupo Europeu de Reflexão Teológica que decorreu em Limone, terra natal de São Daniel Comboni, nas margens do Lago Garda, Itália, de 29 de março a 2 de abril. «Migração e Missão» era o tópico deste ano. Refugiados e migrantes têm que ser tratados como irmãos e irmãs e vistos como uma oportunidade para construir uma sociedade mais plural e para reforçar o diálogo inter-religioso. Que a União Europeia pare a venda de armas e contribua para pôr fim às injustiças e às guerras. Esta é a mensagem da declaração da Família Comboniana, assinada pelos participantes no Simpósio:

Apelo da Família Comboniana: ACOLHER FAZ BEM À EUROPA
Nós, combonianos, combonianas, seculares combonianas e leigos combonianos presentes em várias nações da Europa, no termo do simpósio em Limone Sul Garda (29 de março – 2 de abril de 2016), dedicado ao tema «Migração e Missão», queremos reafirmar a nossa solidariedade ao lado dos nossos irmãos e irmãs que chegam até nós fugindo de guerras, perseguições, ditaduras e crises ambientais.

Queremos reafirmar que o acolhimento do estrangeiro, fortemente sublinhado pelo Papa Francisco, – «os prófugos são a carne viva de Cristo» – é uma exigência fundamental do Evangelho. Desejamos também sublinhar que a abertura ao outro, na sua diversidade cultural e religiosa, é uma ocasião de crescimento que enriquece a nossa identidade de seres humanos e cristãos.

Estamos preocupados com a crescente penetração na sociedade de preconceitos e sentimentos islamófobos propagandeados por políticos e intelectuais, através de simplificações grosseiras, que parecem não distinguir entre Islão e terrorismo islâmico, insinuando frequentemente que a violência está inscrita na própria religião islâmica. Tais preconceitos e atitudes hostis reforçam nos nossos irmãos e irmãs muçulmanos sentimentos de exclusão, com um efeito particularmente destrutivo sobre os jovens da segunda geração de migrantes que mais facilmente se arriscam a acabar nas fileiras do Estado Islâmico.

Desejamos reafirmar o nosso empenho a favor do diálogo inter-religioso, do aprofundamento de outras fés e do empenho comum na construção de uma sociedade fundada no respeito da diversidade e da pluralidade religiosa. Para nós só pode haver uma humanidade no plural.

Como membros da Família Comboniana na Europa queremos exprimir a condenação inequívoca do recente acordo entre a União Europeia e a Turquia (18 de março de 2016) sobre a questão dos migrantes. O encerramento das fronteiras em várias nações europeias para impedir a entrada aos prófugos e a recusa dos chamados imigrantes irregulares são uma clara violação das convenções internacionais que sancionam o direito de asilo. Estamos convencidos de que a presença de imigrantes nos nossos países é um enriquecimento social, cultural, religioso e, não menos, económico.

Enquanto a Europa está empenhada em construir barreiras para bloquear o êxodo dos prófugos – êxodo determinado sobretudo das guerras no Médio Oriente e Líbia – muito pouco está a ser feito para acabar com os conflitos armados que estão na raiz das migrações forçadas. Pedimos, portanto, aos nossos governos que interrompam a venda de armas às nações em guerra e exerçam pressão para que as partes em confronto cheguem a negociar uma solução pacífica.

Como Família Comboniana confessamos o nosso silêncio perante o escândalo da corrida ao rearmamento global e reconhecemos a nossa cumplicidade com este sistema económico-financeiro que permite a poucos de ter quase tudo, privando grande parte da humanidade do necessário, e que tem necessidade das armas e das guerras para se perpetuar.

Como cristãos, discípulos de Jesus de Nazaré, renovamos o empenho para construir um mundo mais justo, vivível para todos.

Limone Sul Garda, sábado, 2 de Abril de 2016

5 de abril de 2016

MONTES NUBA SOB FOGO CERRADO


Os Montes Nuba, no sul do Sudão, estão sob ataque cerrado por parte das tropas sudanesas que tentam conquistar meia dúzia de postos-chave controlado por forças hostis ao Governo de Cartum.

Fontes locais dizem que o exército e a aviação desencadearam desde meados de março um ataque de grande envergadura contra a área controlada por forças rebeldes desde junho de 2011.

Os ataques já fizerem dezenas de baixas em ambos os lados.

Os combates ameaçam as missionárias e missionários presentes na região para oferecer serviços humanitários essenciais de saúde, educação, pastoral e rádio.

Evette Ann Seib, superiora provincial das Combonianas no Sudão do Sul, lançou o alerta: «A situação nos Montes Nuba está muito má.».

Na mensagem que escreveu disse que a frente de batalha está a uma hora de Guidel, a missão onde está presente uma comunidade de Combonianas, um padre dos Apóstolos de Jesus e um médico voluntário americano.

«As irmãs ouvem o barulho das batalhas e estão tensas e com medo», sublinhou.

Angelina Nyakuru, enfermeira comboniana que trabalha no Hospital Mãe da Misericórdia de Guidel, disse que os aviões da força aérea sobrevoam a área constantemente.

«Estamos a experimentar a proteção de Deus, mas a verdade é que ainda estamos a viver com medo, porque todos os dias os “pássaros” sobrevoam a área durante todo o dia, assustando e matando.»

O hospital recebeu a 4 de abril 120 feridos e está superlotado.

«O pessoal do hospital está exausto», disse.

O conflito reacendeu-se nos Montes Nuba depois de umas eleições estaduais em junho de 2011 contestadas pelos rebeldes afetos ao partido que governa o Sudão do Sul.

Nuba Reports documentou mais de 3740 bombas lançadas pelos aviões de Cartum sobre os Montes Nuba desde abril de 2012.

17 de março de 2016

MISERICORDIADOS PARA MISERICORDIAR


O Papa Francisco pôs, desde o início do seu pontificado, toda a Igreja a misericordiar, um verbo novo que é tão eterno como o próprio Deus.

O tema da misericórdia é para o Papa Bergoglio um tema essencial, fundante, seminal. Escolheu-o como mote episcopal e papal: miserando atque elegendo (com misericórdia, escolheu-o), uma frase tirada do sermão de São Beda Venerável sobre a vocação de Mateus. Um tema essencial para o Papa argentino, porque é a chave para entrar no mistério do Deus da aliança que se revela a Moisés como «SENHOR! SENHOR! Deus misericordioso e clemente, vagaroso na ira, cheio de bondade e de fidelidade» (Êxodo 34, 6).

A vocação é um acto de amor e de misericórdia da parte de Deus-Trindade. Ao responder «Eis-me aqui» aceitamos explicitamente a misericórdia do Senhor, que no seu amor, nos chama a anunciar e viver: misericordiados para misericordiar. Somos todos missionários da misericórdia, «misericordiosos como o Pai» (Lucas 6, 36).

O Senhor chama-nos, consagra-nos, faz-nos sagrados, separados com Ele, quer-nos para si para nos devolver inteiros e por inteiro uns aos outros. As obras de misericórdia corporais e espirituais são actos de adoração ao Senhor da Vida através do serviço concreto aos mais necessitados: os famintos, sedentos, nus, peregrinos, enfermos, presos e mortos; os mal-aconselhados, ignorantes, errantes, tristes, injuriosos, fracos, vivos e defuntos.

Ao proclamar o Ano Santo Extraordinário da Misericórdia, o Papa Francisco pôs na ordem do dia um tema fundamental do Cristianismo: a misericórdia, coração sensível que se dá aos míseros, que atravessa e permeia a experiência cristã: «A misericórdia é o primeiro atributo de Deus. É o nome de Deus», afirma o papa argentino.

A misericórdia é também palavra transversal e convergente da oração da liturgia, termo que qualifica a relação de Deus com cada pessoa e com toda a criação. Neste ano jubilar, tenho dado conta como a palavra misericórdia está frequentemente nos nossos lábios para preencher a nossa mente e o nosso coração: na Eucaristia, nos Salmos, nas orações várias…

Repetir Kyrie eleison, ao ritmo lento da respiração sossegada e do coração tranquilo, pode ser o mantra do ano santo, o respiro de uma vida inteira.

A misericórdia é o caminho para nos tornarmos mais como Deus: ao «Sede perfeitos como o Pai do Céu é perfeito» (Mateus 5, 48), Lucas contrapõe «Sede misericordiosos como o Pai» (Lucas 6, 36), a palavra de ordem para este ano santo.

A misericórdia é também um tema eminentemente comboniano. São Daniel Comboni usa o termo misericórdia(s) e misericordioso/a(mente) 87 vezes nos Escritos (E).

Transcrevo dois breves trechos que nos abrem outras tantas perspectivas para misericordiar em chave comboniana: «O missionário confia na misericórdia de Deus e, disposto à luta, parte para o campo de trabalho guiado pela esperança, que não o abandona nunca» (E 4946); «Deus é misericórdia, caridade e justiça, e saberá tirar destas providenciais vicissitudes o maior bem para a África» (E 6098).

Os nossos líderes recordaram na Carta à Família Comboniana no Jubileu da Misericórdia – que escreveram para propor «uma jornada de oração-contemplação da Misericórdia de Deus em Comboni» a 17 de Março, – que a oração pessoal, a vida sacramental, a direcção espiritual e o encontro com os irmãos são as avenidas que nos levam à casa grande da misericórdia de Deus.

Não há uma misericórdia desencarnada, asséptica, etérea: Deus dá-no-la mediada, suada, sofrida, reciprocada, através da mística do encontro, porque nos carregamos mutuamente no coração. É o traje eclesiástico que nos distingue: «revesti-vos, pois, de sentimentos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de paciência, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se alguém tiver razão de queixa contra outro» (Colossenses 3, 12-13).

O comboniano vive sob o olhar misericordioso de Deus e da comunidade: «o dom da misericórdia torna-nos capazes de sair de nós mesmos, de viver gestos de ternura e de ser caridosos entre nós: ou seja, de realizar obras de caridade espiritual e corporal entre nós», recordam os nossos líderes. E começa em casa!

Finalmente, justiça e misericórdia parecem dois temas difíceis de conciliar, mas são a cara e a coroa do único mistério de Deus. «A justiça é mais justa com misericórdia», disse o Papa Francisco.

Comboni intuiu a ligação intrínseca entre misericórdia e justiça: «Deus é misericórdia, caridade e justiça», escreveu (E 6098). E rezou a Maria durante a visita que fez ao Santuário de Nossa Senhora de La La Salete, na França: «Virgem divina, […] vieste aqui para transformar a justiça em misericórdia» (E 1640).

Que a Paz do Ressuscitado e a sua misericórdia estejam contigo nesta Páscoa e sempre.

4 de março de 2016

OBRIGADO, VALENTINO


O irmão comboniano Valentino Fabris faleceu a 28 de fevereiro em Verona. Tinha 93 anos. Viveu 69 como missionário no Sudão e no Sudão do Sul.

Em 2013, com 90 anos, decidiu regressar a Verona, Itália, devido a problemas de saúde.

Conheci-o pela primeira vez em dezembro de 2006 em Nairobi, na viagem para o Sudão do Sul. Nessa altura escrevi um texto no blogue intitulado Valentino Valentão! Impressionou-me deveras.

Nessa altura, com 84 anos, estava a terminar uma igreja na diocese de Rumbek. Depois mudou-se para Juba para cuidar da sede provincial no Sudão do Sul entretanto transferida de Nairobi. Resolvias muitos problemas com um mágico bocado de câmara de ar!

O Ir. Valentim era um conversador nato: passei muitas horas a ouvir as suas aventuras desde o noviciado – em que construiu os apliques em metal para a igreja de Rajaf, no outro lado do rio, à frente de Juba – até aos tempos da guerra civil. A guerra obrigou-o a fugir de Nzara mas nunca lhe apagou o amor pelo Sudão do Sul.

O Ir. Valentim amava e respeitava profundamente os africanos. Sempre! Bastava sentar-me com ele debaixo de um pé de manga e escutar as suas estórias para se dar conta de como amava as pessoas. E como reagia com os missionários menos respeitadores…

O Ir. Valentim era um homem culto: lia imenso – sobretudo história – e processava o que lia através das suas conversas. Todos os dias, depois do trabalho, sentava-se a ler e a conversar num espaço que ele mesmo preparou debaixo dos pés de manga: um homem inteligente e perspicaz.

O Ir. Valentim tinha uma paixão grande pelos desportos de velocidade, sobretudo fórmula 1 e motos GP. Não perdia uma corrida na TV e conhecia os ases da velocidade pelo nome. Contava que adorava «esticar» a velha mota no domingo à tarde quando era mais novo num bocado de picada mais plano. E tinha imensas estórias do tempo em que era o condutor do bispo.

Estive com ele a última vez há um ano. Ficou muito orgulhoso porque o fui visitar de propósito à Casa-mãe, em Verona. Conversamos sobre a situação horrível que se vivia no Sudão do Sul que ele seguia. Achei-o melhor, mais saudável e desperto.

Uma trombose levou-o, de repente. Sei que está no abraço terno e eterno de Deus a interceder pelos Sudões e pela congregação.

Presto-lhe a minha homenagem fraterna.

Descansa em paz, grande Valentão!

2 de março de 2016

CONTINENTE (TELE)MÓVEL


A rede móvel revolucionou as telecomunicações e a vida em África das megacidades à aldeia mais perdida.

Vivi na Etiópia durante os últimos oito anos da década de 1990. Nessa altura, para fazer uma chamada tinha de andar 80 quilómetros até ao posto telefónico mais próximo. Entretanto, os feixes hertzianos chegaram e já podia telefonar de casa, mas só de dia: o sistema era alimentado por energia solar e as baterias não carregavam para assegurar ligações nocturnas.

Voltei à África seis anos mais tarde e encontrei uma revolução no sector das telecomunicações com a introdução das redes móveis de telefone. Hoje, mais de 630 milhões de africanos usam telemóvel. No virar da década, serão 930 milhões. Aparelhos baratos (sobretudo cópias vindas da China) democratizaram o seu uso. O sector dá emprego a cinco milhões de pessoas e gera 13,8 mil milhões de euros por ano em taxas para os cofres públicos.

Um estudo recente do Pew Search Center indica que 80 por cento dos africanos usam o telemóvel para enviar mensagens, 53 por cento fazem fotos e vídeos e 30 por cento transferem dinheiro através dele. Só 19 por cento se ligam às redes sociais via celular.

Os telemóveis produziram uma viragem radical na vida dos africanos das grandes cidades às aldeias mais remotas. Ilustro três áreas em jeito de exemplo: economia, agricultura e serviço público.

No Quénia, um operador de redes móveis criou o M-Pesa, um serviço de transferências de dinheiro via SMS que movimenta anualmente o equivalente a mais de 22,8 milhões de euros por cerca de 20 milhões de assinantes. É um serviço muito útil para quem está de fora do sistema bancário: os assinantes recebem salários, pagam contas e recolhem pagamentos através de uma simples SMS.

Os agricultores das zonas remotas podem seguir os preços do mercado pela rede móvel e fazer melhores negócios. E também melhorar a produção: o biólogo e investigador português Fernando Miguel Sousa criou um programa para telemóveis para ajudar os produtores de algodão do Sul do Burkina Faso a melhorar solos e modos de cultivo.

O telemóvel também é útil para divulgação de mensagens de interesse público como campanhas de vacinação. No Sudão do Sul, uma organização não-governamental criou uma ferramenta de SMS para receber relatórios sobre casos de violência sexual e de género.

Prevê-se que o acesso à Internet através dos telemóveis aumente até vinte vezes nos próximos quatro anos, na África. Hoje, só 15 por cento usam a net nos celulares, mas o preço dos smartphones e da transferência de dados hão-de baixar.

A expansão do acesso à Internet coloca alguns desafios com o franquear das portas a áreas problemáticas como a pornografia, o jogo e negócios ilícitos. Alguns governos tratam o sector com suspeição e à mínima perturbação social desligam os serviços de SMS ou mesmo todas as redes. São males colaterais da revolução que transformou a África no continente móvel. Até porque, se não houver rede, o celular é um leitor de música barato para alegrar a vida!

6 de fevereiro de 2016

PRENDA AFRICANA


A vida consagrada, que floriu no deserto egípcio, é a grande prenda da África à Igreja e ao mundo.

O Ano da Vida Consagrada – que estreou a 30 de Novembro de 2014 e terminou em Roma a 2 de Fevereiro e em Fátima cinco dias depois – foi proclamado pelo Papa Francisco para «fazer memória agradecida do passado, viver o presente com paixão e abraçar o futuro com esperança».

A memória das raízes da vida consagrada leva-nos às areias do deserto egípcio e às margens do Nilo onde ensaiaram os primeiros passos e ganhou forma.

Por volta do ano 280, Antão, ou António, após a morte dos pais, decidiu vender os bens da família, distribuir o dinheiro pelos pobres e dedicar-se à oração no silêncio, vivendo primeiro na periferia da sua aldeia e depois num cemitério. Quinze anos mais tarde, atravessou o Nilo e internou-se no deserto, ocupando as ruínas de um fortim abandonado para rezar, ler as Escrituras e lutar com Satanás. As tentações de Santo Antão são uma referência temática na arte ocidental de Bosch (século XV – que pode ser admirado no Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa) a Salvador Dalí (século XX).

Aos 55 anos, Antão aceita o desafio maior de iniciar no monte Pispir, a uma centena de quilómetros a sul do Cairo, outros homens na vida solitária com Deus. Tornou-se o pai e mestre dos monges. Faleceu em 356 com a bonita idade de 105 anos, segundo algumas crónicas.

Entretanto, em 323, São Pacómio (292-346) iniciou em Tabenese, no Alto Egipto, a primeira comunidade monástica masculina por razões de segurança, ao que parece: os monges solitários em lugares desertos eram presa fácil para os salteadores. Dezassete anos mais tarde, fundou o primeiro mosteiro feminino para a sua irmã Maria. Do deserto egípcio, a vida consagrada estendeu-se à Síria, à Etiópia, ao mundo.

Quase 1700 anos depois, a vida consagrada em África está viva e recomenda-se como reconheceu o Cardeal João Bráz de Assiz, prefeito brasileiro da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, durante a conferência «Vida Consagrada em África, ontem, hoje e amanhã» que em Setembro reuniu em Nairobi mais de 1000 participantes dos 168 institutos femininos e 78 masculinos presentes no Quénia.

Tentei descobrir os totais das congregações e respectivos membros em África, mas apesar de algumas mensagens electrónicas para diversos departamentos do Vaticano e outros contactos, apenas consegui a informação genérica de que o número de consagrados e consagradas (locais e estrangeiros) no continente ronda os 80 mil e a crescer. A crescer e a debater-se com alguns problemas concretos como a sobrevivência económica, o exercício da autoridade e os desafios da globalização do individualismo. Daí a convocação do Cardeal Assiz em Nairobi: «Temos de refazer a nossa vida comunitária na espiritualidade da comunhão.»

A vida consagrada começou no Norte de África como procura individual e comunitária de Deus no silêncio e solidão dos desertos externos e interiores através da frugalidade austera de uma vida mínima. Acabou no serviço dedicado aos mais pobres e necessitados, o lugar que Deus habita com especial predilecção.

30 de janeiro de 2016

DONA LURDINHAS

O SMS, curto mas certeiro. Atingiu-me no coração como um soco no estômago: «Olá. Faleceu a Lurdinhas do Pinheiro. Beijinhos.»

Caminhando pela rua, fui fazendo memória da bênção que a dona Lurdinhas foi para mim, o que ela representa na minha história pessoal.

Foi a minha professora da sexta classe. Deu-me muita confiança e coragem!

Às vezes convidava-me a liderar a oração do meio-dia ou a escrever os problemas para casa no quadro negro. Eu ficava com o livro com os resultados! Um grupo de alunos juntámos-nos muitas vezes para resolver os problemas e chegarem ao resultado da solução!

Acima de tudo, foi a Dona Lurdinhas que me pôs em contacto com o missionário comboniano que visitou a Escola Primária de Cinfães em 1972.

O P. Arnaldo Baritusio encontrou-se só com os alunos da quarta para lhes falar de Comboni, dos combonianos e das missões. Eu andava na sexta. A Dona Lurdinhas sabia do meu desejo de ser missionário e apresentou-me ao P. Arnaldo. Fiz o estágio em VN Famalicão nesse mesmo verão e … aqui estou!

Devo à Dona Lurdinhas um reconhecimento muito grande pela sua amizade e pela sua oração. Acompanhou-me sempre. Quando nos encontrávamos, interessava-se pelo que eu fazia, gostava de ouvir as minhas hstórias. Falava dos seus alunos preferidos: o Amílcar, o Álvaro, a Luísa, eu... Às vezes até parecia que se sentia culpada pela minha forma de vida… Achava que eu sofria muito por andar sempre longe. Mas eu sossegava-a: não sou um mártir mas um homem feliz!

Infelizmente, por conjuntura de agenda não vou estar fisicamente presente do derradeiro adeus. Mas hoje já rezei o terço por ela e amanhã ofereço a Eucaristia.

A Dona Lurdinhas está no abraço terno e eterno de Deus a interceder por nós. É uma santa!

NOVO BISPO COMBONIANO


O Papa Francisco nomeou o comboniano espanhol Padre Miguel Ángel Ayuso Guixot bispo titular de Luperciana na sexta-feira, anunciou o Vaticano.

Dom Miguel Ángel nasceu em Sevilha e tem 63 anos. Foi ordenado padre em 1980 e fez serviço missionário no Egito e no Sudão até 2002.

Tem uma licenciatura em Estudos Árabes e Islamística pelo Pontifício Instituto de Estudos Árabes e Islamística (PISAI) de Roma e um doutoramento em teologia dogmática pela Universidade de Granada.

Ensinou Islamologia desde 1989 em Cartum, Cairo e no PISAI (Roma) que dirigiu até 2012.

Presidiu a vários encontros de diálogo interreligioso no Egito, Sudão, Quénia, Etiópia e Moçambique.

É secretário do Pontifício Conselho para o Diálogo Interreligioso desde 30 de junho de 2012 por nomeação do Papa Bento XVI.

Fala espanhol, árabe, inglês, francês e italiano.

A nomeação de Dom Miguel Ángel elevar para 21 o total de bispos combonianos: 12 italianos, quatro espanhóis e um do Sudão, Sudão do Sul, Eritreia, Brasil e México, respetivamente. Têm dioceses na África (10), América Latina (4) e Médio Oriente (1). Um trabalha no Vaticano e cinco estão jubilados.

Luperciana é uma antiga sé episcopal na Tunísia que entretanto deixou de existir. Dom João Evangelista Pimentel Lavrador foi o seu titular até ser nomeado bispo coadjutor de Angra do Heroísmo em Setembro passado.

Os bispos sem diocese (como os funcionários do Vaticano e os auxiliares das dioceses) normalmente são titulares de antigas dioceses perdidas na memória.

9 de janeiro de 2016

IDENTIDADE E MISSÃO


O Conselho Geral escolheu «Discípulos missionários combonianos ao serviço da alegria do Evangelho no mundo de hoje» como tema inspirador do XVIII Capítulo Geral depois de auscultar os superiores de circunscrição em fevereiro de 2014.

O tema – que parecia vago e genérico – revelou-se essencial porque deslinda a nossa identidade (Discípulos missionários combonianos) e missão (ao serviço da alegria do Evangelho no mundo de hoje) e tornou-se fonte de inspiração que uniu as mentes e os corações dos 67 capitulares como o atestam os Documentos Capitulares 2015 (DC’15).

Nesta curta reflexão, proponho-me «ler» os referidos documentos à luz do tema que os inspirou.

Discípulos missionários: o Papa recordou aos capitulares o essencial da sua vocação: chamados por Jesus para estar com Ele e serem enviados. Esta é a grande tensão que acompanha toda a nossa vida: somos discípulos missionários. O ponto de partida da nossa vocação é o chamamento amoroso e misericordioso do Senhor. A vocação não é uma escolha individual: «Ninguém tome esta honra para si mesmo, mas somente quem é chamado por Deus», lemos na Carta aos Hebreus (5,4). Parte do encontro pessoal – mas não privado – com o Senhor no contexto da comunidade (DC’15, 2) e dura a vida toda: «cada comboniano, desde o tempo do acompanhamento vocacional, cultiva o encontro com o Senhor através da oração constante» (DC’15, 48.1). Jesus é a porta de entrada para o encontro com a vida, com os outros: «é necessário manter os olhos fixos em Jesus Cristo que nos introduz na contemplação do mistério de Deus mas também no mistério do homem» (DC’15, 28).

A missão é a outra face da nossa identidade: somos enviados para testemunhar o amor do Pai através «da linguagem nova [… da] ternura, misericórdia, simplicidade, humildade» (DC’15, 48,4). Esta é a essência da nossa missão. Assim, «sonhamos com um Instituto de missionários «em saída» (EG 20), peregrinos com os mais pobres e abandonados (RV 5), que evangelizam e são evangelizados através da partilha pessoal e comunitária da alegria e da misericórdia, cooperando no desenvolvimento de uma humanidade reconciliada com Deus, com a criação e com os outros (EG 74)» (DC’15, 21).

Combonianos: o carisma de São Daniel Comboni, «nosso pai na missão» (DC’15, 3) inspira-nos no percurso missionário: «Seguindo as pegadas de Daniel Comboni, atingimos as periferias do sofrimento entre os mais pobres e não evangelizados. Este é o horizonte da nossa missão», dizem os DC’15 no número de abertura. O n.º 48.1. indica a necessidade de viver o encontro com Cristo «no dom carismático de São Daniel Comboni.» A família comboniana é descrita «como lugar carismático» (DC’15, 34) para cumprir a intuição profética do fundador e o Capítulo propõe o trabalho em rede (DC’15, 45.3) e com novas formas de comunhão, incluindo comunidades comuns (DC’15, 44.14).

Ao serviço: somos chamados a caminhar de patrões ou protagonistas auto-referenciais da missão para seus servidores: «membros de uma Igreja ministerial que evangeliza enquanto comunidade, somos provocados a converter-nos ao serviço e à colaboração» (DC’15, 25). E desafiados a ousar com a coragem «novas formas de fraternidade e de serviço» (DC’15, 43). Um serviço que pede requalificação (DC’15, 45.1, 46.2) e especialização (DC’15, 60), vivido na pequenez e docilidade ao Espírito (DC’15, 40). O serviço e a colaboração são os carris da nossa conversão. O cuidado mútuo é parte do serviço missionário a que somos chamados e inclui «a coragem da correcção fraterna» (DC’15, 31). O trabalho em rede (DC’15, 45.3) é o novo nome da colaboração.

Da alegria: Os DC’15 são um hino à alegria: usam o termo dez vezes. A Introdução destaca que a alegria brota da doação de vida a Jesus e ao seu povo e incluiu o preço do martírio (DC’15, 4). No número 33 lemos: «Sentimos necessidade de recuperar o sentido de pertença, a alegria e a beleza de ser verdadeiro “cenáculo de apóstolos”, comunidade de relações profundamente humanas». Isto porque, como escreve Paulo aos Romanos (14, 17), «o reino de Deus […] é justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo.» A saída é sublinhada como «fonte da nossa alegria» (DC’15, 28). Se a alegria se afigura demasiado estridente para espiritualidades mais sisudas, por ser substituída pela graça – que em grego partilha com a alegria a mesma raiz.

Do Evangelho: O Evangelho é o fundamento da vocação, da vida comum e da missão. É, primeiro, Palavra de Deus para nós, «escutada, vivida, celebrada e anunciada, que toque e inspire todas as dimensões da nossa vida missionária nos âmbitos pessoal, comunitário, de missão, economia e governo (EG 174)» (DC’15, 30), «meditada e partilhada» (DC’15, 48.2). Que nos remete para a lectio divina como oração típica individual e comunitária do missionário e essencial para o discernimento evangélico. A partilha do Evangelho da alegria é também o serviço missionário a que somos chamados na Europa: «ter “a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho” (EG 20)» (DC’15, 46.1).

No mundo: na nossa vida comunitária e pessoal há uma tensão a resolver entre a necessidade de privacidade e a chamada à proximidade, entre recolhimento e acolhimento, recato e relação. O Papa Francisco preconiza uma Igreja «em saída», que deixa a zona de conforto para chegar às periferias humanas e geográficas. Os DC’15 também realçam um ponto assente da antropologia cristã: «O apelo a sair de si mesmos e ir ao encontro dos outros sublinha a visão cristã de pessoa como ser em relação, em contraposição com uma cultura individualista cada vez mais invasiva» (DC’15, 27). As comunidades combonianas são desafiadas a ser «lugares de acolhimento com uma atitude “em saída”, abertas aos que são atraídos pelo nosso testemunho missionário: isto nos ajudará a viver relações renovadas» (DC’15, 48.3), espaços acolhedores e atrativos (DC’15, 48.3), vocacionais (DC’15, 37), de animação missionária e laboratórios da interculturalidade (DC’15, 47.6), o chão teológico e sagrado onde operamos. A proximidade às pessoas e sobretudo aos pobres é reconhecida como «fonte importante da vida espiritual» (DC’15, 48.1).

De hoje: o hoje de Deus, da humanidade e da natureza, é o lugar teológico da missão. DC’15, 22 diz: «Queremos continuar à escuta de Deus, de Comboni e da humanidade, para colher e apontar na missão de hoje os sinais dos tempos e dos lugares». Viver o hoje do serviço missionário é viver em estado permanente de discernimento, assente «[n]a colegialidade, subsidiariedade, co-responsabilidade, interacção entre as circunscrições e uma liderança partilhada.» (DC’15, 41). Daniel Comboni «chama-nos a ser um “pequeno cenáculo de apóstolos” (E 2648), sempre prontos a actualizar o nosso carisma perante os novos desafios missionários» (DC’15, 3). Os desafios não nos atemorizam: desafiam-nos a caminhos novos de conversão.

É esta a graça maior do XVIII Capítulo Geral que, por intercessão de São Daniel Comboni, peço a Deus para nós e para o Instituto.

5 de janeiro de 2016

SOCIEDADE CIVIL


A sociedade civil africana representa um contraponto às oligarquias que sugam as riquezas dos respectivos países.

O julgamento dos 17 activistas angolanos acusados de planear um golpe de Estado para derrubar o Governo – e sobretudo a greve de fome de 36 dias de Luaty Beirão em Outubro do ano passado – ilustram a força que a sociedade civil africana tem como contrapeso às oligarquias que esvaziam os cofres públicos em proveito próprio e das clientelas que as sustêm. Beirão teve o mérito de manter o regime de Luanda sob o radar internacional por mais de um mês.

Os activistas angolanos, alguns deles filhos de notáveis do regime, foram detidos enquanto discutiam o texto «Ferramentas para destruir o ditador e evitar nova ditadura – Filosofia política da libertação para Angola», uma adaptação que Domingos da Cruz fez da obra Da Ditadura à Democracia que Gene Sharp escreveu em 1994. Os arguidos passaram mais de 100 dias em prisão preventiva até o julgamento começar a 16 de Novembro em Luanda. Classificam o encontro em que foram detidos como uma discussão académica, mas estão a ser julgados por conjura para derrubar o presidente José Eduardo dos Santos, há trinta e seis anos no poder. Beirão, um cantor rap, durante o julgamento definiu o regime como «uma pseudodemocracia que encobre uma ditadura».

A sociedade civil africana começou a tornar-se notada e activa há duas décadas com o advento do multipartidarismo no continente. Grupos de cidadãos começaram a manifestar do Cairo ao Cabo uma inquietação crescente com a corrupção crónica que seca as economias nacionais e afecta as vidas dos cidadãos. No Senegal, derrubam em 2012 Abdoulaye Wade. Criaram organismos locais e alianças internacionais. Neste contexto, nasce em 1993 em Berlim a Transparency International para combater o impacto negativo da corrupção na África Oriental e que publica o temido Índice da Percepção de Corrupção anual. Mais tarde, surgiu nos Estados Unidos a plataforma Global Integrity para partilhar informação em tempo real sobre corrupção. O anglo-sudanês Mo Ibrahim, empresário bilionário do sector das telecomunicações, iniciou uma fundação para promover e premiar a boa governação no continente.

Durante a minha permanência no Sudão do Sul, relacionei-me com muitos membros da sociedade civil que promoviam a democracia, o Estado de direito, o acesso à justiça, os direitos humanos (sobretudo da criança e da mulher), a liberdade de expressão, as questões ambientais…

Em geral, eram jovens bem preparados e entusiastas. Dedicavam-se com generosidade vibrante às suas causas.

Também vi as suas dificuldades: a dependência crónica de financiamentos externos, a violência (física e legal) que o Estado usava para os confrontar e os esquemas para os neutralizar, absorvendo-os no aparelho governativo. Presto a minha homenagem a Isaiah Abraham, pastor e bloguista, crítico do Governo e defensor da democracia, silenciado por uma bala assassina em Dezembro de 2012 depois de várias ameaças de morte.

A sociedade civil tem um papel preponderante na consolidação da democracia em África. O relatório da Comissão de Inquérito da União Africana sobre a violência que marcou os últimos dois anos do Sudão do Sul advoga um maior envolvimento dessas organizações no processo de paz e reconciliação para lhes dar o necessário contexto cultural.

A Igreja também a reconhece como parceiro crucial no desenvolvimento dos Africanos. O papa emérito Bento XVI escreveu na exortação Africae Munus (O Serviço da África, n.º 79) que «a Igreja, agindo em colaboração com todos os outros componentes da sociedade civil, deve denunciar a ordem injusta que impede os povos africanos de consolidarem a própria economia e “de atingirem o desenvolvimento em conformidade com os seus traços culturais próprios”».

18 de dezembro de 2015

VENERÁVEL GIUSEPPE AMBROSOLI


O Papa Francisco aprovou um decreto que reconhece as virtudes heróicas do servo de Deus Giuseppe Ambrosoli, o médico da caridade, tornando mais próxima a sua beatificação.

A notícia foi publicada no Boletim de Imprensa no sítio do Vaticano.

Giuseppe Ambrosoli nasceu a 25 de julho de 1923 no norte da Itália. Filho de um industrial do mel, fez o curso de medicina durante os anos conturbados da segunda guerra mundial.

Em 1951, decidiu entrar para o Instituto dos Missionários Combonianos depois de frequentar um curso de medicina tropical em Londres. Foi ordenado em dezembro de 1955.

Partiu para o Uganda em 1956 com 32 anos, um mês e meio depois da ordenação. Foi enviado para Gulu, no norte do Uganda.

Em 1961 foi transferido para a missão de Kalongo, entre o povo Acholi. Ali fundou o hospital que serviu como médico-cirurgião por mais de 30 anos.

«Deus é amor, há um próximo que sofre e eu sou o seu servo», dizia.

As pessoas chamavam-lhe «doctor ladit», o grande médico.

Faleceu a 27 de março de 1987 em Lira depois de os soldados o terem forçado a evacuar o hospital devido à guerra civil. Tinha 65 anos.

O hospital de Kalongo foi reaberto dois anos depois com o nome de Dr. Ambrosoli Memorial Hospital.

Na mesma audiência privada com o Cardieal Angelo Amato, Prefeito da Congregação das Causas dos Santos, o Papa Francisco também autorizou a publicação de mais três decretos.

Um reconhece um milagre atribuído à Beata Teresa de Calcutá, que lhe abre as portas da canonização. 

Os outros dois validam as virtudes heróicas de mais dois Servos de Deus: o leigo alemão Enrico Hahn e  Adolfo Lanzuela Martínez dos Irmãos das Escolas Cristãs.

MÃE DE MISERICÓRDIA


Eleusa - Mãe de misericórdia

O Ano Santo Extraordinário da Misericórdia começou a 8 de dezembro. Uma feliz coincidência: porque nesse dia fez 50 que o grande Concílio Ecuménico Vaticano II encerrou; e porque a Igreja celebra a solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Maria.

Há quase mil anos que invocamos Maria como mãe da misericórdia. A salve-rainha saiu da alma de Hermano Contrato, um monge alemão, por volta do ano 1050. Eram tempos difíceis os que se viviam nessa altura: guerras, pestes, fome. A Europa era «um vale de lágrimas.»

Maria é a mãe de misericórdia, porque na sua conceção imaculada, livre do pecado original, foi receptáculo da misericórdia de Deus de uma forma especial para ser a nova arca da aliança, a mãe do Salvador.

Na anunciação – os cristãos orientais chamam-lhe a evangelização de Maria – o anjo Gabriel saúda a virgem de Nazaré, chamando-lhe cheia de graça (Lucas 1, 28); cheia do amor do amado – como também pode ser traduzido.

Maria, a mãe de misericórdia, é a cheia de graça para ser a mãe de Deus. Um rosto que o Papa Francisco nos convida a contemplar para redescobrir o carinho do Pai: «O pensamento volta-se agora para a mãe de misericórdia. A doçura do seu olhar nos acompanhe neste Ano Santo, para podermos todos nós redescobrir a alegria da ternura de Deus.»

Hoje também vivemos dias muito complicados: terrorismo, violência, cristãos perseguidos e mortos, desemprego ou subemprego, fenómenos meteorológicos extremos, grandes massas de refugiados à procura de um poiso seguro…

A aldeia global tornou-se num vale de lágrimas... Pedimos à Mãe que volte para nós os seu olhar misericordioso e que interceda pelos seus filhos e filhas, ela que esmagou a cabeça da serpente.

O Papa Francisco escreveu em O rosto da misericórdia, a bula de proclamação do Ano Santo que «a misericórdia é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado.»

Por outro lado, Zacarias – o pai de João Batista – proclama o Natal de Jesus como «visita misericordiosa do nosso Deus» (Lucas 1, 78), uma misericórdia que se estende de geração em geração como Maria cantou no Magnificat (Lucas 1, 50), a oração do génio feminino. Uma misericórdia acolhedora que faz memória (Luca 1, 54).

O presente maior que podemos trocar neste natal é a experiência de misericórdia. «Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia», proclamou Jesus no sermão das bem-aventuranças (Mateus 5, 7).

Aprender a viver sob o olhar misericordioso de Deus e dos outros, a chave para uma vida mais humana e mais feliz.

É difícil viver a misericórdia, pode-se argumentar. Mas, como Maria, também estamos cheios da graça de Deus, da sua bondade e da sua glória, para podermos ser misericordiosos como Ele é misericordioso» (Lucas 6, 36), porque este é o caminho para sermos santos/perfeitos como Ele é santo/perfeito (Mateus 5, 48).

Um Ano Santo da Misericórdia cheio de misericórdia para ti, para mim, para todos!

13 de dezembro de 2015

10 PROBLEMAS DO PAPA


O Papa Francisco causou furor quando há um ano, no discurso de boas-festas aos cardeais e colaboradores da cúria romana para a troca de bons votos de natal, desancou nos burocratas do Vaticano e listou e explicou as quinze doenças que afetam os seus colaboradores mais diretos.

A resposta dos ofendidos demorou, mas chegou pela mão anónima de alguém que escreveu uma carta aberta de advento enumerando os dez problemas do magistério do papa Francisco.

A carta foi publicada a 27 de novembro pela Focus, uma revista alemã. 

O autor parece ser um monsenhor alemão reformado que trabalhou muitos anos na cúria romana já que se assina «Um capelão de vossa santidade.»

O autor diz que se escudou no anonimato por medo das represálias do papa aos seus ex-superiores no Vaticano.

Para ele, os dez «aspetos problemáticos» do governo do papa argentino são: atitude emocional e anti-intelectual que dificulta o tratamento das questões teóricas e doutrinais; autoritarismo; populismo de mudança; conduta pessoal que critica predecessores; pastoralismo; exposição exagerada da simplicidade de vida; particularismo que opõe os objectivos e propostas da Igreja universal aos pontos de vista de parte da Igreja; desejo de espontaneidade constante; falta de claridade sobre as inter-relações de liberdade religiosa, política e económica; e, finalmente, meta-clericalismo.

O autor começa por acusar o papa de não conhecer a Cúria por dentro mas por fora ou por cima. Chama os teólogos escolhidos por Francisco de incompetentes. E sublinha que «fé sem doutrina não existe.»

Acusa o papa de desdenhar ensinamentos teóricos e de ser autoritário, instalando um clima de medo no Vaticano.

Recorda que na Igreja as mudanças são lentas e muitas das declarações papais suscitam expectativas erradas.

Acusa o papa de falta de humildade ao querer reinventar o ministério petrino e recriar a herança da fé.

Diz ao papa que não precisa de mostrar constantemente a simplicidade de vida e aconselha-o a comprar ou pedir que lhe ofereçam um carro ecológico que é muito mais caro.

Classifica de cómica a atitude de subjugar os obejtivos e propostas da Igreja universal aos pontos de vista de uma parte da Igreja.

Critica a espontaneidade constante do papa e classifica a sua linguagem de não-profissional porque é mal entendida e exige clarificações constantes por parte dos colaboradores. Recorda que os papas têm que ser menos espontâneos que os pastores.

Diz que o papa está a favorecer estados fortes nas áreas da economia e do social e que a Igreja deve defender instituições não governamentais e ajudar as pessoas a cuidar da própria vida, porque «o estado social pode tornar-se demasiado poderoso, e com isso, demasiado paternalístico, autoritário e iliberal.»

Finalmente, acusa o papa Francisco de se desinteressar pelo clero e que o clericalismo que critica é mais fantasma que real.

Recorda que o papa «deve servir a continuidade e Tradição da Igreja» e pede-lhe que reduza «as suas inovações e provocações». Aconselha-o a usar o advento para refletir sobre o seu ministério, e que aprenda mais dos colaboradores porque «como ele, muitos têm dificuldade com o modo como às vezes fala e atua.»

A impressão com que eu fico é que esta carta que levou um ano a chocar, no fundo, é a voz descontente dos burocratas mais conservadores da cúria romana que perderam a segurança e o poder a que estavam acostumados. É normal que o efeito-Francisco gere ondas de choque negativas! E que o modo mais espontâneo latino-americano contraste com o rigorismo oficial.

Choca-me sobremaneira a acusação final de que o papa é incapaz de lidar com a crítica e que reage com cólera. Esta não é a imagem que irradia com a sua postura bondosa e acolhedora. Pode ser uma punhalada traiçoeira de um «falcão ferido». Os animais feridos são muito perigosos...

3 de dezembro de 2015

PRESÉPIO NEGRO


Se Jesus tivesse nascido em África, teria sobrevivido à primeira infância e chegado à idade adulta?

Enternecem-me as representações africanas do presépio, esculpidas ou pintadas. Singelas, lineares, às vezes minimalistas, outras vezes com explosões de cor, luz e movimento como os ícones etíopes da natividade que tanto me fascinam: olhares enormes, redondos, contemplativos; corpos solenes; mãos esguias, adoradoras; uma paleta de cores ricas de vida: amarelos, azuis, encarnados, brancos… Cabeças e asas de anjos a anunciar a grande alegria: nasceu-vos um Salvador!

O presépio é uma criação plástica de Francisco de Assis. Montou-o pela primeira vez com figuras de barro em 1223 na floresta de Grécio, no Lácio italiano. Com o andar do Cristianismo através das muitas culturas, foi ajuntando matizes e materiais locais que aprofundam o mistério da encarnação: Jesus faz-se homem em cada raça, é mistério intercultural.

Há um pensar que me vara o coração com um estremecimento apertado: se, em vez de nascer em Belém da Judeia, Jesus tivesse nascido, por exemplo, em Bentiu – no Sudão do Sul, Bourem – no Mali, Bongor – no Chade, Blama – na Serra Leoa, ou no Bailundo – em Angola, que azo teria de chegar à idade adulta?

A infância africana continua sob céus pesados apesar dos grandes progressos na assistência sanitária das últimas décadas. A Unicef, a agência da ONU para a infância, denuncia que no Sahel, no Nordeste da África, a crise alimentar ameaça cerca de 6,4 milhões de crianças de má nutrição aguda, afectando o seu desenvolvimento integral; que 2,4 milhões de crianças estão a ser atingidas pela crise na República Centro-Africana; que mais de 2,5 milhões de crianças sofrem de má nutrição severa aguda na República Democrática do Congo; que a guerra étnica no Darfur e nos montes Nuba, no Sudão, deixou as crianças vulneráveis às doenças e à fome, incluindo 1,2 milhões que sofrem de má nutrição aguda.

As estatísticas da mortalidade infantil são ainda mais tremendas: a Organização Mundial de Saúde diz que na África 8,1 % das crianças morrem antes de fazerem cinco anos. Em números redondos, em 2013, faleceram 2,9 milhões de crianças africanas com menos de cinco anos, um contador implacável de cinco crianças a morrer por cada minuto que passa.

A ONG Child Mortality documenta que, na África Subsariana, uma em cada 12 crianças morre antes dos cinco anos (nos países ricos o rácio é de uma por 147). Por países, em Angola perecem 15,7 % das crianças antes dos cinco anos, no Chade 13,9 %, na Somália 13,7 %, na República Centro-Africana 13 % e no Mali 11,5 %. Portugal tem uma taxa de mortalidade infantil de 0,4 %: morrem quatro crianças por cada mil nascimentos antes dos cinco anos.

O que é que mata os bebés africanos? Infecções, pneumonias, diarreias, malária, má nutrição e outras doenças facilmente tratáveis com medicamentos baratos e vacinas. Mas as crianças continuam a morrer...

Relacionada com a natividade africana está também a mortalidade materna. Os números são do Banco Mundial e da ONU e respeitam ao ano de 2013: na Serra Leoa, o país com o índice mais elevado, morrem 1100 mães por 100 mil partos vivos. Segue-se o Chade com 980, a vizinha República Centro-Africana com 880, o Burundi com 740 e o Sudão do Sul e a República Democrática do Congo com 730. Em Portugal, a mortalidade materna é de oito mães por cada 100 mil nascimentos. As mamãs morrem de complicações antes, durante e depois do parto, porque os governos canalizam os recursos para a guerra, descurando a saúde pública. Muitas são demasiado jovens para gerar filhos...

O Papa Francisco escreveu uma frase muito eloquente na exortação apostólica A Alegria do Evangelho: «Na sua encarnação, o Filho de Deus convida-nos à revolução da ternura!»

São estas as minhas saudações natais!

29 de novembro de 2015

PORTA SANTA DE BANGUI


O Papa Francisco abre hoje a primeira Porta Santa do Jubileu Extraordinário da Misericórdia na catedral de Bangui, a capital da República Centro-africana.

O Papa Francisco chegou a Bangui esta manhã a Bangui sob fortes medidas de segurança para uma visita de dois dias.

«Vim como um peregrino de paz e um apóstolo de esperança», disse à chegada.

O Papa esteve num campo de deslocados e tem encontros agendados com as comunidades evangélicas e muçulmanas na capital. Vai participar num serviço de confissões inserido na dinâmica do Ano Santo e celebrar a Eucaristia do Primeiro Domingo do Advento na catedral católica.

O Ano Santo da Misericórdia abre oficialmente a 8 de dezembro, mas o papa aproveitou a visita à República Centro-africana para levar o evento às periferias do sofrimento humano.

A República Centro-africana vive em clima de violência e guerra civil sem precedentes desde 2012.

A crise já originou o maior número de deslocados da história do país.

A visita do Papa a Bangui encerra a sua primeira viagem africana que o levou ao Quénia e Uganda.

21 de novembro de 2015

ORAÇÃO PELA PAZ


Deus, nosso Pai,
A Ti pertencem o Céu e a Terra.
Nada é impossível para Ti,
Porque Tu és Todo-poderoso.
Em Tua bondade, enviaste o Teu Filho para salvar o mundo,
Nós rejeitámo-l'O e cruci­cámo-l'O.
Tu O ressuscitaste dos mortos,
Porque Tu és o Senhor da Vida.
Jesus Cristo, depois da Tua ressurreição,
Apareceste aos Teus apóstolos dizendo: “A paz esteja convosco”.
Concede a Tua paz ao nosso país e ao mundo inteiro,
Porque Tu és o Príncipe da Paz.
Protege os desamparados e os pobres que choram.
Ajuda as viúvas e os órfãos que têm esperança em Ti.
Cura os corações partidos e fez justiça aos oprimidos,
Porque Tu és o nosso único Salvador.
Espírito Santo, faz de nós os construtores da paz.
A paz que é amor e justiça, verdade e dignidade, respeito e unidade.
Que essa paz esteja nos nossos corações, palavras e acções.
Porque tu és o Deus do Amor.
Imaculada Conceição,
Rogai por nós.
Santa Maria, Mãe da República Centro-Africana, Rainha da Paz,
Intercedei por nós.
Anjos da guarda,
Protegei-nos!
Oração na capela de Centro de Acolhimento Missionário em Bangui

20 de novembro de 2015

#REZARPELAPAZ


No domingo, 22 de novembro, vamos todos rezar pela paz!

A iniciativa #RezarPelaPaz partiu da Fundação AIS como resposta aos recentes ataques terroristas em Paris.

Em Portugal, a jornada decorre no Santuário de Cristo-Rei, em Almada, a partir das 16h00.

O evento abre com a exposição do Santíssimo Sacramento, continua com o terço e termina com a celebração da Eucaristia.

#RezarPelaPaz é uma resposta à onda de violência que se abateu sobre França, Síria, Líbia, Iraque e República Centro-africana.

Os ataques terroristas em Paris são o mais recente episódio de uma “terceira guerra mundial em parcelas”, como classifica o Papa a onda de violência global.

Os participantes são também convidados a rezar pelo sucesso da primeira visita do Papa Francisco a África. O roteiro incluiu o Quénia, Uganda e a República Centro-africana, e decorre de 22 a 28 de novembro.

A República Centro-africana vive em espasmos de violência desde 2013.

Bangui, a capital, foi sacudida por mais uma onda de violência sectária há duas semanas.

O Papa devia abrir a primeira Porta Santa do Jubileu Extraordinário da Misericórdia na catedral de Bangui.

12 de novembro de 2015

DEUS COMIGO



A candidata presidencial Maria de Belém Roseira foi a convidada de Maria João Avillez nas conversas sobre Deus desta quarta-feira na Capela do Rato.

Maria de Belém explicou que foi educada na fé: «A minha casa era uma casa onde se vivia a vida religiosa. A educação era católica.»

Explicou que o sentido da existência de Deus e sobretudo o Anjo da Guarda «era uma forma de a pessoa perante os riscos não estar permanentemente assustada.»

Deus não é distante, mas está connosco, uma segunda pele. «Se alguém está connosco, está connosco sempre nas certezas e nas dúvidas e dá força e resistência. Deus é uma referência com a qual entro em diálogo permanente», explicou.

Maria de Belém afirmou que a religião é uma forma de estar mais inteligente e com mais responsabilidade de estar e de ser numa relação de protecção.

«A religião é algo que implica amor, cuidado e afecto relativamente ao outro», afirmou.

Explicou que a sua relação com Deus não é dogmática mas passional. Por isso, não vai à missa aos domingos, mas «quando acha que deve ir, quando é importante ir.»

Define-se profundamente cristã e diz que a mensagem central do cristianismo é a obrigação de cuidar por quem não tem, uma atitude que aprendeu da mãe desde a infância, a matriz em que foi criada.

Aliás, explicou que a sua passagem pelo ministério da saúde inseriu-se nessa atitude.

Entende que a prática da fé se traduz mais na acção que em formalismos. Preocupa-se mais com a substância das coisas que com a forma e as rotinas: «Tentar guardar o sentimento de (in)justiça que temos quando somos crianças, a sensibilidade de sentir o que está certo e errado»

Maria de Belém sublinhou que no âmbito da família a Igreja deve preocupa-se mais com que as pessoas façam o bem em vez de se preocupar com comportamentos. A Igreja devia estar muito mais próxima da vida e dos problemas das pessoas, desejou.

Fez uma apreciação muito interessante da Doutrina Social da Igreja, uma interpelação permanente contra a instrumentalização das pessoas em função da economia. Parte de conceitos que sublinham a transcendência do ser humano.

Explicou que para ela o Papa Francisco apareceu no momento oportuno e necessário e, por isso, prova de que Deus existe.

Durante a participação nas reuniões da pastoral da família, no Vaticano, ficou com a ideia de que o Papa João Paulo II era prisioneiro de uma corte: a organização impunha-lhe modelos de comportamento apesar de o seu corpo já não responder.

Maria de Belém afirmou que a fé não lhe vai atrapalhar o exercício da presidência da república.

Finalmente, explicou que reza mais por palavras próprias mas gosta do pai-nosso e da ave-maria.

10 de novembro de 2015

LMC PARTE PARA R.CENTRO-AFRICANA


©JVieira

A Leiga Missionária Comboniana (LMC) Maria Augusta Pacheco Pires partiu para a República Centro-africana a 9 de novembro para um período de dois anos de missão entre o povo pigmeu.

A Maria Augusta tem 60 anos, é professora e vivia em Janeiro de Baixo, Pampilhosa da Serra.

Chega à República Centro-africana a tempo de receber o Papa Francisco que visita Bangui, a capital, a 29 e 30 de novembro, durante a primeira viagem apostólica à África que o leva também ao Quénia e Uganda.

O Papa, no dia 29, abre na catedral de Bangui a primeira Porta Santa do Ano Jubilar da Misericórdia.

Dom Virgílio do Nascimento Antunes, bispo de Coimbra, presidiu à cerimónia de envio a 25 de outubro na paróquia de Janeiro de Baixo.

A celebração foi preparada por uma semana de animação missionária nas escolas de Pampilhosa da Serra e de Dornelas do Zêzere, em quatro lares de idosos e nas missas celebradas nas paróquias vizinhas.

A Maria Augusta regressa à comunidade internacional LMC de Mongoumba onde já trabalhou durante dois anos e meio entre 2008 e 2010.

Vai fazer comunidade com a LMC algarvia Élia Gomes. Mais tarde, juntar-se-á uma LMC polaca.

Em Mongoumba, os LMC trabalham sobretudo com o marginalizado povo pigmeu Aka na educação, evangelização e saúde, integrados na missão comboniana local.

A Maria Augusta tem uma longa folha de serviço missionário de mais de uma dúzia de anos: além dos dois anos e meio em Mongoumba esteva quase mais dez a ensinar no norte de Moçambique.

Mongoumba fica a cerca de 200 quilómetros a sul de Bangui, na entrada da floresta equatorial junto aos rios Lobaye e Ubangi, afluentes do Congo. Faz fronteira com os dois Congos.

A RCA vive tempos conturbados desde março de 2013 quando as milícias muçulmanas Seleka, ajudadas por rebeldes chadianos e sudaneses do Darfur, tomaram conta do poder.

A comunidade internacional interveio para parar a matança dos cristãos e obrigou o presidente muçulmano a resignar.

Os Anti-balaka são a resposta violenta aos Seleka e atacam sobretudo os muçulmanos.

Embora pareça uma guerra religiosa, a crise na RCA é uma luta pelo poder político e económica que vai para além das fronteiras do país.

A paróquia comboniana de Nossa Senhora de Fátima, em Bangui, funciona como campo de refugiados para os cristãos. 

Jovens muçulmanos atacaram a área no final de outubro, apesar de estar protegida pelas forças internacionais.

O P. Moses Otii Alir, missionário comboniano ugandês a servir na paróquia de Fátima, fez um relatório detalhado da situação dramática vivida no bairro cristão dias antes da chegada do Papa Francisco.