10 de janeiro de 2017

NATAL, BOMBA OU HUMILDE SEMENTE?


Queridos amigos,

Encontro-me há quatro meses na minha nova comunidade comboniana de Castel d’Azzano (Verona-Itália). Estou bem e contente.

Poderia dizer que este Natal é para mim uma outra ocasião para renascer, dada a nova realidade de condições de vida, de residência, de comunidade, de colegas... Somos cinquenta confrades idosos ou doentes. Quase todos de venerável idade. O P. Efrém é o nosso decano, com quase 97 anos. Eu recuperei uma minha antiga prerrogativa de ser o mais jovem membro da comunidade, a ser adicionada àquela de ser o único doente de E.L.A. no instituto!

A nossa comunidade é uma verdadeira “sala de parto.” Em 2016 deu à luz 10 novos “santos” para o céu. Um bonito um recorde! A este ritmo em cinco anos chegaremos todos ao Paraíso!...

A nossa comunidade é também uma grande “Arca de Noé” missionária, devido à diversidade humana de seus membros; à variada amostra de surdos, cegos, mudos, aleijados, mancos... e de toda a espécie de doenças que existe debaixo do sol; mas especialmente pela diversificada e extraordinária riqueza de experiências de missão.

Vim aqui encontrar velhos amigos, conhecidos durante a minha peregrinação missionária; entre eles alguns colegas de missão, como o P. Luis, famoso pelas suas façanhas de caçador, e o P. Lino, que eu apelidei de Schumacher: guiava a toda a velocidade para “sobrevoar os buracos da estrada”, dizia ele! Nenhum dos dois, no entanto, se recorda que trabalhámos juntos no Gana. A memória, a uma certa idade, prega-nos algumas partidas! Infelizmente, o P. Luis perdeu-a há 23 anos durante uma operação de cirurgia. Desde então, passa a vida vagueando pelos corredores dizendo: “perdi a memória”, mas não pára de buscá-la, dia e noite, remexendo nas gavetas dos nossos quartos... à caça de doces!

Mas vamos ao assunto desta carta: os votos de Natal. Não é fácil falar do Natal neste nosso contexto atual duma sociedade de idosos e de gente cansada, sem crianças, nem mesmo… o menino Jesus, que desapareceu do nosso presépio!

Não obstante o peso dos anos e das canseiras, partimos também nós para Belém. Se o recenseamento é feito “cada qual na sua cidade”, queremos que a nossa seja Belém, a terra de Maria e de José, dos pobres e dos humildes. Não iriamos escolher a Roma pagã e imperial do poder e da riqueza, ou a Atenas dos filósofos e dos inteligentes, nem mesmo a velha Jerusalém do culto formal e farisaico! Queremos que o nosso nome seja registrado em Belém, com o de José e de Maria! Desde Belém, pois, envio o nosso abraço natalício.

Que desejar-vos como mensagem de Natal? Para permanecer em tema de atualidade, espero que o Menino, colocado por Maria e José na manjedoura do vosso coração, seja como… uma BOMBA que exploda em mil estilhaços de amor e de carinho, para atingir toda a vossa existência e a de quantos encontrardes pelos caminhos da vossa vida! Sim, o Menino traz consigo a potência duma ‘bomba nuclear’, capaz de destruir todas as outras bombas criadas pelo egoísmo humano e de cobrir tudo e todos com a sua irradiação de luz e de calor, para que o nosso mundo possa conhecer uma nova era de paz e de fraternidade!

Não me faço, porém, muitas ilusões. Sei que a nossa vida diária, com tantos problemas e preocupações, não pode ser sempre uma explosão de alegria e de otimismo contagiantes. Então gostaria de formular um desejo alternativo: que o Menino, na sua pequenez, seja como uma SEMENTE de ternura lançada em nossos corações. Bem cuidada, com tempo e paciência, vai conseguir o milagre, talvez menos vistoso mas não menos surpreendente, de multiplicar-se com uma fecundidade maravilhosa. Sim, o nosso coração é um campo de sementes; multiplica o que nele é semeado, tanto o trigo como as ervas daninhas! Cada um recolherá do que semeou. Na manjedoura de Belém (em hebraico, “casa do pão”), encontramos o bom trigo de Deus. Recolhamo-lo e espalhemo-lo ao nosso redor, com o sorriso amigo e um gesto concreto de generosidade! E será sempre Natal!

E para o novo ano 2017? Estejam todos os teus desejos diante do Senhor! (Salmo 37, 10). “Se o teu desejo está diante d’Ele, o Pai, que vê em secreto, te escutará. O teu desejo é a tua oração. Se o teu desejo é contínuo, contínua é também a tua oração. Se não quiseres parar de orar, não deixes de desejar “ (Santo Agostinho). Eis, pois, os meus votos para o novo ano: um coração cheio de desejos, desejos realmente grandes!

Com amizade,
P. Manuel João Pereira Correia
Missionários Combonianos - Centro Alfredo Fiorini 
Via Oppio, 29
37060 CASTEL D’AZZANO VR (Itália)
Tel. (0039) 045 8521511 - 3911773617

6 de janeiro de 2017

ÀS ARMAS


Os países africanos gastam mais de 40 mil milhões de dólares por ano com a defesa.

A globalfirepower.com publica todos os anos uma série de tabelas analíticas dos gastos de 126 poderes militares modernos, incluindo 30 africanos. A leitura cruzada dos dados pode ser aborrecida, mas é essencial para entender a realidade.

Os 30 países de África que integram a lista gastaram juntos cerca de 40 mil milhões de dólares na segurança em 2015. Nada que se compare com os 581 mil milhões que os Estados Unidos da América necessitaram para manter a supremacia militar global, mas mesmo assim é muito mais do que investiram no desenvolvimento.

Por países, a Argélia leva a dianteira com um orçamento de 10,57 mil milhões de dólares por ano; seguem-se a África do Sul (4,6 mil milhões) e o Egipto (4,4 mil milhões). Angola, Marrocos, Líbia, Sudão e Nigéria registam gastos entre os 4,1 e 2,3 mil milhões.

Em termos de classificação, a Argélia ocupa a posição 22 entre os 126 países mais gastadores. A África do Sul está no 43.º lugar e o Egipto no 45.º Angola, na posição número 47, está à frente de Portugal, que ocupa a posição 49.ª com um gasto de 3,8 mil milhões com a defesa.

Note-se que o Sudão do Sul paga 545 milhões de dólares pela sua máquina de guerra. Ocupa a posição 84.ª na tabela mundial, acima dos vizinhos Etiópia (90.º), Uganda (94.º), República Democrática do Congo (106.º) e República Centro-Africana (126.º). Contudo, em termos de produto interno bruto, o país está na cauda das economias mundiais.

O dinheiro despendido na defesa, contudo, não corresponde ao músculo militar. Se a Argélia é o que mais gasta, o Egipto é de longe a primeira potência militar africana e a décima segunda na escala dos 126 países listados pela Global fire power. A Etiópia, que ocupa a 90.ª posição quanto a gastos, é a terceira força militar em África e 42.ª a nível mundial depois da Argélia (que ocupa a 26.ª posição global).

No que respeita à aviação, o Egipto com 13 444 unidades tem a primeira força aérea da África e a sétima do mundo, acima do Reino Unido, que ocupa a posição número 12. Seguem-se-lhe a Argélia, Marrocos e Angola, nas posições globais 26, 33 e 35, respectivamente.

Comparando as marinhas, o Egipto detém a mais poderosa frota naval africana e a sexta do mundo, apesar de ter só mais 657 quilómetros de costa que Portugal. Marrocos, Nigéria e Argélia vêm a seguir.

O poderio militar e a deriva securitária devido a conflitos internos em alguns países africanos têm custos muito elevados sobretudo para economias mais débeis e são os mais pobres quem mais sofre as consequências. O dinheiro tão necessário para o desenvolvimento acaba no poço sem fundo da guerra.

O Sudão do Sul é exemplar: quase metade dos dinheiros que o Parlamento de Juba alocou no orçamento para 2017 foram para a defesa. A outra metade mal dá para os salários da função pública, e as despesas da saúde, educação, infra-estruturas e outros gastos fundamentais numa economia com a hiperinflação anual de 830 por cento.

Não admira, portanto, que apesar do crescimento que a economia africana regista, o número dos pobres continue a crescer: grande parte da riqueza é para pagar a pesada factura (ocidental) do armamento a credores, traficantes e fornecedores. A paz fica mais barata.

5 de janeiro de 2017

NATAL MISSIONÁRIO ITINERANTE





Um dos missionários da missão em Nyal, no Sudão do Sul, o comboniano mexicano P. Fernando Galarza, e um bom grupo de pessoas aguardavam a chegada do helicóptero a serviço das Nações Unidas que aterrissaria na poeirenta pista de pouso de Nyal, no Sudão do Sul, às 11.00 da manhã do dia 21 de dezembro de 2016. Entre os passageiros estava P. Raimundo Rocha, missionário comboniano brasileiro que chegaria à missão de Nyal para celebrar o natal com as comunidades afetadas pela guerra civil naquela região do Sudão do Sul nas duas semanas seguintes.

Celebrar o natal do Senhor num contexto de guerra é uma experiência que o P. Raimundo repete há quatro anos. Ele e seus companheiros missionários primeiro celebraram o natal com deslocados de guerra em Leer, em 2013, quando a guerra civil começava a ganhar contornos nos seus primeiros dez dias de confrontos. O natal entre os deslocados de guerra se repetiu em 2014, dessa vez na capital Juba, onde dezenas de milhares de deslocados ainda são mantidas nas bases de proteção da ONU. Fugindo dos conflitos e a procura de proteção, muita gente não pode celebrar a festa do nascimento de Jesus no ano anterior. Em 2014 foi como celebrar um «duplo natal».

O P. Raimundo manteve seu natal missionário itinerante em 2015. Dessa vez ele se juntou aos deslocados de guerra na base de proteção de civis da ONU, em Rubkona e Bentiu, que passam de cem mil. Em 2016 o missionário celebrou o natal entre as comunidades afetadas pela guerra pela quarta vez. Esse último natal foi celebrado na missão de Nyal, numa área relativamente calma da sua antiga missão em Leer.

Entre alguns aspectos comuns desse natal missionário itinerante está a alegria. O Natal é sempre uma festa muito alegre para o povo sul-sudanês que se junta aos milhares para esse grande evento. Além disso, o reencontro de P. Raimundo com o povo da missão de Leer e a celebração das festividades natalinas tem proporcionado momentos de grande alegria tanto para o povo quanto para o próprio missionário nessas idas e voltas da missão.

Outra característica comum dessa missão é a esperança de paz. As celebrações natalinas dos últimos quatro anos foram cheias de esperança e anseio por paz. Nem mesmo o ambiente hostil, ameaçador, às vezes tenso e incerto, resiste à poderosa força de paz trazida pelo Menino Jesus. Além disso, a acolhida, hospitalidade, generosidade e partilha do povo Nuer são sempre autênticas e constantes, apesar do ambiente de pobreza e muita necessidade.

Porém, para o P. Raimundo, esse natal foi mais especial. Poder retornar à sua antiga missão e celebrar com seu povo não tem preço e nada lhe tira a grande alegria vivida. O mesmo diga-se do povo que teve um natal mais alegre e de maior esperança de paz.

As comunidades são distantes e os três missionários em Nyal se dividiram para melhor servir ao povo. O P. Jacob Solomon, comboniano etíope, se deslocou à comunidade mais distante que leva um dia de caminhada para alcançar. O e. Fernando caminhou um pouco mais de seis horas para chegar a outro centro missionário. O P. Raimundo permaneceu na sede da missão, em Nyal, e se deslocou às comunidades mais próximas, localizadas a três horas de caminhada.

Nem a distância, o suor, o calo no pé impedem a alegria de ir ao encontro do povo em missão e anunciar-lhes o Evangelho em sua própria língua. É lindo de ver os jovens realizarem suas marchas com bandeiras, tambores e cantos numa profunda demonstração de orgulho de sua fé. Cada vez que o missionário seguia para uma nova comunidade, eles o acompanhavam como seus «guardiões» e diziam: «Vamos levar o nosso padre até a próxima comunidade». Lindo de ver também era o sorriso enorme das mães das quase setecentas crianças que foram batizadas. As dezenas de jovens que receberam a primeira Eucaristia e o Crisma o faziam com a convicção de quem está determinado a seguir Jesus Cristo.

Era comum, porém, ver jovens armados, como se estivessem prontos para o combate, mesmo não havendo conflito nas proximidades. Muitos deles ainda com rosto de criança, reflexo da triste realidade das «crianças-soldados». A cada dia chegava mais deslocados de guerras vindos de outras áreas. Rostos sofridos, estômagos vazios, longas caminhadas, horas a fio sentados em canoas pequenas feitas de palmeiras que seguem pelos pântanos do rio Nilo. Gente a procura de proteção, alimento, saúde... ou simplesmente procurando parentes. Muitos querem deixar o país e não conseguem.

Cada pessoa tem uma estória pra contar. Quantos já perderam a vida! Quantas mulheres violentadas! Quantas casas queimadas! Tudo isso para quê? Tudo fruto da maldade de corações gananciosos que querem poder e riqueza à custa de vidas inocentes. Ao longo desses anos de sofrimento o povo aprendeu a desenvolver mecanismos para lidar com esse tipo de situação e adquiriu uma enorme resiliência que lhes permite seguir adiante. Soma-se a isso a fé no Deus da vida, da misericórdia e da paz.

O Sudão do Sul começa o novo ano em relativa paz, apesar das incertezas e a ameaça da fome. Nesse contexto de guerra, os missionários continuam sendo presença solidária no meio desse povo sofrido e ajudam a construir a paz e a promover a justiça e reconciliação. O natal missionário itinerante não só anuncia o nascimento do Salvador e é fonte de alegria e esperança, como também é uma forma de não-violência ativa em situações de conflitos. O povo aprende que a verdadeira paz não se impõe com armas, ódio e perseguição. Ela chega na fragilidade de um Menino, o Emanuel, Príncipe da Paz.

P. Raimundo Rocha, mccj
Missionário Comboniano em Juba, Sudão do Sul

2 de janeiro de 2017

CARTA POR OCASIÃO DO 150.º ANIVERSÁRIO DO INSTITUTO COMBONIANO


O Reino do Céu é semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. É a mais pequena de todas as sementes; mas, depois de crescer, torna-se uma árvore, a ponto de virem as aves do céu abrigar-se nos seus ramos (Mt 13, 31-32)

1 de Janeiro de 2017

Caros confrades,

Saudamos-vos com alegria e gratidão no início deste novo ano!

A 1 de Junho de 1867 Mons. Daniel Comboni fundou em Verona o «Instituto para as Missões da Nigrícia» que, transformado em Congregação religiosa a 28 de Outubro de 1885, se tornou de direito pontifício a 7 de Junho de 1895.


1. Recordando os primeiros passos (um olhar sobre o passado)

Relendo as origens do nosso Instituto, é-nos difícil imaginar no que se tornaria com o passar do tempo. O texto do Evangelho acima referido faz referência aos planos de Deus, amante da pedagogia que parte de baixo. Um Deus que se serve daquilo que aos olhos do mundo conta pouco mas que, na sua mente divina, se torna projecto e se concretiza com a colaboração humana. Precisamente como a pequena semente do Evangelho, na qual está contido já uma grande árvore.

À morte do nosso Fundador os missionários contavam-se pelos dedos de uma mão. Aquela mão-cheia dos primeiros filhos foi acompanhada, nos primeiros anos, por sacerdotes da Companhia de Jesus. Catorze anos depois eles contribuíram para lançar os fundamentos do nosso Instituto, procurando dar à Congregação uma fisionomia e um rosto próprios. No fim do século dezanove o Instituto contava 18 sacerdotes, 21 Irmãos e 21 estudantes candidatos ao sacerdócio, sessenta ao todo.


As chamadas de Deus

Nós, pertencentes à família comboniana, sabemos que Daniel Comboni sentiu a chamada de Deus quando era ainda muito jovem, aluno do colégio Mazza, antes de tudo lendo o testemunho dos Mártires do Japão e depois ouvindo o testemunho de Don Angelo Vinco (E 4083), o missionário que, acabado de chegar da África Central, semeou no coração daqueles rapazes a paixão pelo seu trabalho. E Comboni, não obstante a idade, tomou a decisão que nunca mais abandonaria: dedicar toda a sua vida a anunciar o Evangelho aos povos africanos que – como intuía – tinham uma grande necessidade de conhecer a Boa Nova. Assim, ainda mazziano trabalhou intensamente pela missão africana, vivendo de modo apaixonado a sua pertença àquelas irmãs e irmãos ainda desconhecidos.

Entretanto as notícias sobre aquilo que acontecia aos seus companheiros mazzianos no continente africano, em vez de desencorajá-lo, impeliram-no a unir-se ao pequeno grupo dos missionários que a 10 de Setembro de 1857 partiu para a África – Giovanni Beltrame, Francesco Oliboni, Angelo Melotto, Alessandro Dal Bosco, Isidoro Zilli – sustentados pelas palavras de Don Nicola Mazza, que se tornaram para eles uma bênção e um desafio: «promovei sempre e somente a glória de Deus, que tudo o mais é vaidade. Colocamos a nossa missão sob a protecção da Virgem Imaculada e de São Francisco Xavier, o grande apóstolo das Índias». Aquela curta experiência de apenas dois anos em África marcou profundamente a vida de Daniel Comboni (E 465). O seu coração permaneceu ali ao mesmo tempo que ele não pensava senão em tudo o que tinha conhecido em primeira pessoa. Foi algo de semelhante ao que aconteceu com o carácter baptismal: a África tornou-se nele uma marca indelével, a ponto de não ter querido renunciar à possibilidade de regressar para lá (E 3156) e, entretanto, continuou a trabalhar activamente pelo bem da missão africana.

Como aconteceu com outros fundadores no seu percurso vocacional, também São Daniel Comboni sentiu a necessidade de dar força à primeira chamada e trabalhar no continente dos seus sonhos e, embora cumprindo a promessa feita a «Don Congo» (Don Nicola Mazza) de consagrar a sua existência à causa da África, foi obrigado pelas circunstâncias a tornar-se fundador de uma família missionária.

Esta sua experiência recorda-nos a importância de manter-nos fiéis a um ideal, lembrando que como os marinheiros se deixavam guiar pelas estrelas se queriam chegar ao porto, nós temos de deixar-nos guiar pelos ensinamentos do Evangelho se queremos ser pessoas coerentes e fiéis. A vocação missionária e a pertença a uma família missionária são um dom, não são mérito nosso. Somos missionários porque Deus foi bom e quis servir-se de nós para mostrar o seu rosto paterno a tantos irmãos e irmãs que ainda não o conhecem.

Agradecemos a Deus também pelo testemunho de tantos missionários que nos precederam e ofereceram a sua vida pela missão. Eles são os elos de uma longa cadeia de que fazemos parte, que nos reporta às origens, à fonte de onde nascemos. Pertencemos a uma família de santos de que devemos ser orgulhosos. Somos fruto do amor apaixonado do nosso Fundador pela missão, herdeiros de uma vocação que brota do coração traspassado de Deus, que nos coloca numa atitude de saída (EG, 27) e nos leva até às periferias existenciais da história. Alguns de nós foram abençoados com o dom do martírio, expressão máxima de doação, como nos recorda o Evangelho: Não há maior amor do que dar a vida pelos seus amigos (Jo 15, 13).


2. Olhamos com realismo o presente: chamados a testemunhar o Reino de Deus
Depois de um século e meio, continuamos a ser um Instituto pequeno: atendendo às estatísticas, nunca ultrapassamos na nossa história os dois mil membros, mas isto não deve desencorajar-nos, pelo contrário, deve estimular-nos a ser testemunhas fiéis da bondade e da misericórdia de Deus entre os últimos, aqueles que a sociedade esqueceu. Não obstante a nossa «pequenez», não podemos esquecer todo o bem que Deus fez e continua a fazer através dos nossos missionários. É o que nos recorda também o último Capítulo: Os missionários combonianos identificados, generosos e dispostos a dar a vida por Cristo e pela missão são muitos; sem ruído gastam-se todos os dias nos serviços que lhes são confiados. A presença dos missionários que são testemunhas do Ressuscitado no meio dos pobres e marginalizados, é uma bênção que nos recorda a razão de ser da nossa opção de vida. Eles são «parábolas existenciais», pontos de referência nas diversas tarefas que desempenhamos (DC 2015, nº 14).

Somos chamados a ser testemunhas do Reino de Deus onde quer que somos mandados. Por isso é necessário ser sempre fiéis à Palavra e seguir um programa sério de uma renovação contínua no nosso caminho de discipulado.


Conversão

E todavia, olhando para o passado, temos de reconhecer que nem sempre fomos fiéis. Muitas vezes, obrigados pelos desafios ou pelo medo, recuámos perante as adversidades e as provações. Por vezes afastámo-nos da intuição primigénia e acomodámo-nos na segurança das nossas escolhas, pensando salvar a nossa vida e não a dos nossos irmãos e irmãs mais abandonados.

O «Jubileu da Misericórdia» encerrou há pouco: pedimos a Deus, fonte de caridade, que tenha misericórdia das nossas incoerências e dos nossos pecados, pessoais e institucionais, e conceda a todos o dom da conversão, condição para acolher o Reino de Deus que vem (Mc 1,15), para acolher a sua Palavra e ser pessoas felizes pela vocação recebida (cf. DC 2015, nº 4).


As cruzes, sinais no caminho


Quando falamos de felicidade, não queremos dizer que não haverá nuvens no horizonte. As dificuldades, mais tarde ou mais cedo, apresentam-se sempre na vida. São Daniel Comboni chamava-as «cruzes» e todos sabemos que, à medida que avançava, os problemas que se lhe apresentavam tornavam-se cada vez maiores; mas até das nuvens mais negras pode sair água límpida. Do mesmo modo, as experiências difíceis podem tornar-se o cadinho em que se purificam os nossos sonhos e os nossos programas. Pensamos nos confrades que se encontram em situações de violência, de pobreza extrema, de perseguição e perigos constantes: tudo isto nos causa sofrimento, porque nos sentimos próximos a eles e nos afeiçoamos às pessoas e aos lugares, mas sabemos também que é garantia da autenticidade do nosso serviço missionário.

Comboni gostava de repetir que as obras de Deus nascem e crescem aos pés da cruz. É interessante redescobrir sempre de novo que as cruzes, para o nosso Pai fundador, em vez de serem obstáculos no caminho eram sinais que lhe indicavam a meta. As cruzes garantiam-lhe que estava a caminhar na direcção certa. Pedimos a Deus poder fazer nossas as palavras de São Daniel: «Eu sou feliz na cruz que levada de boa vontade por amor de Deus gera o triunfo e a vida eterna» (E 7246).

Recordamos que quando, por falta de pessoal missionário, a missão africana corria o risco de não continuar porque o Instituto Mazza não podia mais apoiá-la, outros Institutos, graças a Deus, se uniram ao esforço de Comboni. Em primeiro lugar, os Camilianos, depois as Irmãs de São José da Aparição, membros de outros Institutos e leigos que acreditavam no seu projecto.

O amor pela missão extravasa, inunda e fecunda os corações e as vontades para os empurrar na mesma direcção. Deste modo a primeira intuição do nosso Fundador torna-se uma bela realidade e vai ao encontro de numerosos irmãos e irmãs que encontra no seu caminho. Por isso é importantíssimo também hoje aprender a trabalhar «em rede», compreender que as iniciativas, mesmo se belas e necessárias, se ligadas a uma só pessoa dificilmente continuam. O nosso Fundador, com o seu testemunho, procurou envolver tantas pessoas e fazê-las participar na missão. Muitas vezes teve de pôr de parte as diferenças de pensamento ou pontos de vista, para fazer com que os colaboradores permanecessem na missão, convicto de que só o trabalho em comunhão tem um futuro, porque se inspira no Deus Trino que se revela como família.


3. Olhamos para o futuro com esperança
Animemo-nos, pelas circunstâncias presentes e mais ainda pelos dias que virão, são as palavras pronunciadas por São Daniel Comboni antes de morrer, de acordo com o material recolhido pelos seus biógrafos.

Somos convidados a olhar para o futuro com esperança. Vivemos momentos difíceis mas as provações, como aludimos acima, não devem desencorajar-nos, certos de que o Senhor nos acompanhou, nos acompanha e continuará a fazê-lo, como nos recorda o Evangelho: «Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos» (Mt 28, 19-20).

O último Capítulo Geral convidou-nos não só a converter-nos mas também a sonhar um novo modo de compreender e de viver a missão. Devemos «tornar-nos missão» anunciando a alegria do Evangelho em solidariedade com os povos, fazendo-nos promotores de reconciliação e de diálogo, redescobrindo a espiritualidade das relações a nível pessoal, institucional, social e ambiental (DC ’15, nº 20). Neste 150.º aniversário de fundação, desejamos recordar aquilo que todos nós temos a peito, isto é, o convite do Capítulo ao renovamento do Instituto, também através do aprofundamento da Regra de Vida segundo o percurso que nos será oferecido e fazendo nossos os desafios propostos, como a interculturalidade, a ministerialidade, a reorganização, etc. Tudo isto nos permitirá requalificar a nossa vida e o serviço que oferecemos à Igreja, à sociedade e ao nosso Instituto.

Vivamos este 150.º aniversário como uma oportunidade para aprofundar e estender as nossas raízes, revigorar o nosso tronco e continuar a ser uma árvore que dá bons frutos, frutos de justiça, de paz e de caridade, para contribuir para o crescimento do Reino de Deus.

Programa a nível da DG para 2017:

  • Carta do CG para lançar o Ano Jubilar do 150.º aniversário do nosso Instituto e apresentação do LOGO oficial.
  • Preparação de seis subsídios bimestrais que serão publicados na Família Comboniana para sublinhar três etapas da história do Instituto:
a) uma reflexão sobre as nossas origens;
b) um olhar e reflexão sobre o momento presente;
c) acolher os novos paradigmas e desafios da missão.
  • Celebração do Simpósio em Roma (25 de Maio a 1 de Junho)
  • Encontro dos Conselhos Gerais da Família Comboniana (2 de Junho)
  • Uma celebração particular a 10 de Outubro
  • Iniciativas várias
  • Encerramento do Ano Jubilar
Convidamos todas as circunscrições a organizar outras iniciativas in loco para que sejam ocasiões de animação missionária e, sobretudo, de renovamento do ideal missionário e do sentido de pertença ao nosso Instituto Comboniano.

Boas celebrações e feliz aniversário!

O CONSELHO GERAL

DESTRELADO


O jornalista, escritor e dramaturgo brasileiro consagrado Nelson Rodrigues intitulou as suas memórias A menina sem estrelas publicadas em novembro de 2016 pela Tinta da China. 

As 81 crónicas foram originalmente publicadas no jornal brasileiro Correio da Manhã entre fevereiro e maio de 1967.

Os textos misturam amor, morte e sexo, os ingredientes primordiais da vida. 

Complexo e compacto, no que diz respeito aos conteúdos, o livro é contudo de leitura fácil e agradável dado o estilo eloquente em que grafa os seus pensamentos, sentimentos e apontamentos.

O assassinato do irmão, a primeira visão da nudez feminina e a iniciação num bairro de prostituição, a fome que não lhe permitia o luxo do ódio, a experiência num sanatório para curar a tuberculose, estórias de traição, adultério, suicídio e homicídio, a cegueira da filha que não podia ver as estrelas, as inseguranças e a necessidade constante do reconhecimento literário – tudo isto confessa com uma simplicidade honesta e desarmante como que num exercício de psicoterapia.

Nelson Rodrigues começou a exercer o jornalismo aos 13 anos. Fala com saudades do jornalismo criativo e adjectivado, criativo. Queixa-se que a objectividade e o copy-desk mataram a emoção no jornalismo.

Há uma referência repetida à literatura portuguesa. Os Maias são evocados amiúde. Para Nelson Rodrigues, o suicido de Antero Quental foi o seu último poema.

Das muitas frases lapidares que burilou anoto uma que me tocou: «só os profetas enxergam o óbvio».

Nelson Rodrigues nasceu em 1912 e faleceu em 1980.

Uma janela para um Brasil distante, mas interessante; uma reflexão honesta e exposta, em primeira pessoa, sobre a tensão do viver, amar e morrer; uma obra que merece uma leitura atenta sobre o mistério humano.

31 de dezembro de 2016

A FORÇA DA NÃO-VIOLÊNCIA


O papa repropõe a não-violência como método evangélico para uma «política para a paz» baseado no Sermão da Montanha. Uma proposta ousada e corajosa que nos devolve às origens do cristianismo e responde aos desafios de «uma terrível guerra mundial aos pedaços» em curso.

«Hoje, ser verdadeiro discípulo de Jesus significa aderir também à sua proposta de não-violência», destaca Francisco.

A mensagem do papa para o 50º Dia Mundial da Paz de 2017 – que se celebra a 1 de janeiro – faz uma leitura holística da experiência de todos os dias e revela o fio subtil que nos «cose»: os conflitos que preenchem noticiários e telejornais são os mesmos que enchem o meu coração.

Não há violências maiores e menores, nem violências de estimação. O coração humano é o campo de batalha onde a violência e a paz se defrontam, onde nasce o conflito. Daí que o papa proponha um roteiro cordial para o superar: admitir a violência que cada um carrega no coração e buscar a cura na misericórdia de Deus, através da solidariedade «como estilo para fazer a história e construir a amizade social».

A família é o primeiro laboratório da paz. A não-violência aprende-se de pequenino em casa na forma de lidar com os conflitos e atritos através do diálogo, respeito, busca do bem do outro, misericórdia e perdão.

A paz na família gera a paz entre a família das nações!

O desarmamento começa com palavras gentis, de sorrisos, gestos mínimos de paz e amizade, o pequeno caminho do amor de Teresa de Lisieux, que conduzem ao desarmamento global.

A violência dá sempre mais violência para gáudio e ganho de uns tantos «senhores da guerra» desviando recursos tão urgentes para a grande multidão dos pobres de hoje!

O Papa apela ao desarmamento, à proibição e abolição das armas nucleares juntamente com o fim da violência doméstica e do abuso sobre mulheres e crianças, do descarte das pessoas, dos danos do meio ambiente e do vencer a todo o custo.

«A violência não é o remédio para o nosso mundo dilacerado», afirma com veemência.

António Guterres, secretário-geral designado da ONU, defendeu no discurso de juramento a reforma do sistema de manutenção de paz das Nações Unidas.

Notou que os capacetes azuis muitas vezes são chamados a manter uma paz que não existe e propôs um continuum de paz baseado na prevenção, resolução de conflitos, manutenção e construção da paz e desenvolvimento.

A «ética da fraternidade e da coexistência pacífica» não seria mais efectiva para proteger e manter a paz entre os povos? Resultou na África do Sul e é incomparavelmente mais barata que a solução militar.

22 de dezembro de 2016

COMOVER


São Daniel Comboni e o Papa Francisco conjugam o verbo comover para porem em palavras as experiências pessoais profundas do mistério do natal.

O fundador descreveu aos pais numa longa carta o que sentiu ao visitar Belém em outubro de 1857: «Finalmente, à tardinha chegámos a Belém. Meu Deus! Mas onde quis nascer J. C.? Contudo eu quis nessa mesma tarde descer à afortunada gruta que viu nascer o Criador do mundo. Entrei, e embora o nascimento seja mais alegre que a morte, fiquei mais COMOVIDO que no Calvário ao pensar na complacência de um Deus que se humilhou até ao ponto de nascer num estábulo» (Escritos 111).

Por seu turno, o Papa Francisco anota na exortação pós-sinodal Amoris lætitia (A alegria do amor): «A encarnação do Verbo numa família humana, em Nazaré, COMOVE com a sua novidade a história do mundo» (AL 65).

A Infopédia da Porto Editora define comover como «afetar, causando uma adesão profunda». A raiz etimológica latina commovere indica mobilizar, mover ou mexer-se com.

Hoje, é comum celebrar-se o Natal do Senhor sem o Senhor do Natal. Passou-se do Natal de Jesus ao natal das coisas, da contemplação ao consumo. A estridência das cores, dos tons e dos sabores abafa o murmúrio da melodia mística da glória a Deus e paz na Terra.

Passados tantos natais, a contemplação da encarnação do Senhor ainda te comove? Ou a inércia do suceder dos dias adormeceu o coração? Os magos e os pastores moveram-se com Jesus para a gruta de Belém. Para onde te move Jesus, hoje?

A virgem do Natal, a mãe de Belém convida-nos a (re)viver o Natal com um olhar contemplativo que reordena tudo no coração: «Quanto a Maria, conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração» (Lucas 2, 19).

O mistério da Encarnação é um processo abrangente e largo, que pede um coração grande e um olhar profundo para além do momento!

«Precisamos de mergulhar no mistério do nascimento de Jesus, no sim de Maria ao anúncio do anjo, quando foi concebida a Palavra no seu seio; e ainda no sim de José, que deu o nome a Jesus e cuidou de Maria; na festa dos pastores no presépio; na adoração dos Magos; na fuga para o Egipto, em que Jesus participou no sofrimento do seu povo exilado, perseguido e humilhado; na devota espera de Zacarias e na alegria que acompanhou o nascimento de João Baptista; na promessa que Simeão e Ana viram cumprida no templo; na admiração dos doutores da lei ao escutarem a sabedoria de Jesus adolescente», escreve o papa argentino no nº 65 da Amoris lætitia.

E prossegue: «E, em seguida, penetrar nos trinta longos anos em que Jesus ganhava o pão trabalhando com suas mãos, sussurrando a oração e a tradição crente do seu povo e formando-Se na fé dos seus pais, até fazê-la frutificar no mistério do Reino. Este é o mistério do Natal e o segredo de Nazaré, cheio de perfume a família! É o mistério que tanto fascinou Francisco de Assis, Teresa do Menino Jesus e Charles de Foucauld, e do qual bebem também as famílias cristãs para renovar a sua esperança e alegria».

Comover-se com o mistério da Encarnação, celebrar o natal com emoção é isto: deixar-se mover com Jesus que nasce despojado, fora da cidade «envolto em panos e deitado numa manjedoura» para ser «uma grande alegria para o povo»: «Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor» (Lucas 2, 11).

Só um olhar humilde e contemplativo, vazio de ideias feitas e de categorias mentais e sociais calcificadas, é capaz de ver o Menino de Belém encarnar nos bebés refugiados, traficados, famintos, doentes, ameaçados pelos herodes de hoje. E são tantos…

Como ontem no Campo dos Pastores, em Belém, hoje o anjo diz: «Não temais!» (Lucas 2, 10). O medo amarra, sufoca, mata! E há tantos medos, tantas ameaças no horizonte carregado de populismo extremado de 2017.

Diz-nos o Senhor: «Celebrai dias de alegria, e cantai a sua glória» (Tobite 13, 8b).

Que assim seja no teu natal e em todos os dias do novo ano.

Boas festas!

15 de dezembro de 2016

MENSAGEM DE NATAL


Os meus olhos viram a Salvação (Lc 2, 30)

Caros irmãos em Cristo,

Recebei um abraço fraterno por ocasião da celebração do mistério da Encarnação de Nosso Senhor.

O Natal oferece-nos um tempo propício para contemplar Deus na fragilidade e na esperança de que um mundo novo é possível. Somos chamados a descobrir os sinais da presença de Deus num mundo ofuscado pela violência sem sentido que destrói a humanidade e torna incerto o futuro. Neste último ano seguimos com preocupação a situação da Síria e de alguns países nos quais estamos presentes, Sudão do Sul, República Centro-africana, República Democrática do Congo, Etiópia, Eritreia, Moçambique, México, Colômbia… A presença dos nossos confrades nestas situações é sinal de que estamos convictos de que Deus está também ali, por muito limitada que possa ser a nossa actividade missionária. O Natal é também uma oportunidade para dar vigor à nossa vida fraterna, aprendendo a olhar o outro com os olhos do Pai, caminhando como família que sabe perdoar e aceitando-nos tal como somos.

Os fenómenos migratórios atingiram proporções excepcionais por causa das guerras e das profundas desigualdades económicas. Milhões de pessoas vêem-se obrigadas a sair da segurança das suas casas em busca de uma vida digna. O nosso Instituto está a empenhar-se cada vez mais com esta realidade para ser sinal da presença de Deus que recria a vida e abre o coração à solidariedade numa sociedade cada vez mais fechada em si mesma.

O Natal é semente de esperança porque o próprio Deus se faz história para a transformar e recriar numa nova direcção. Isto compreende-se melhor da parte das vítimas, dos pobres, dos sem-terra e dos sem-tecto. O nosso fundador fez da sua vida um projecto de amor e causa comum com os últimos; toda a sua existência foi configurada pela paixão que brota do Evangelho através de uma relação íntima com o Pai. O nosso Instituto nasce desta experiência fecunda de Daniel Comboni que luta incansavelmente contra a injustiça que os mais abandonados sofrem.

Deus incarnou na fragilidade. Também nós hoje, como Instituto, nos sentimos frágeis, mas é a partir desta fraqueza que somos mais criativos e abertos à acção do Espírito. Sentimos necessidade de escutar, acolher e assumir aquilo que Jesus nos diz neste momento particular, que é também tempo de salvação. Esperamos que a celebração do Natal nos ajude a incarnar o nosso carisma dentro de cada uma das realidades em que nos encontramos para ser presença criativa e sinais do Reino.

O Conselho Geral deseja-vos um Natal de 2016 repleto de bênçãos e um 2017 rico de iniciativas que nos motivem a colaborar com o plano que Deus leva por diante através de nós.

O Conselho Geral


14 de dezembro de 2016

«UM RAMO SAIRÁ DO TRONCO DE JESSÉ, UM REBENTO BROTARÁ DE SUAS RAÍZES»


Citando passagem do profeta Isaías 11, 1, o bispo comboninao dom Odelir Magri de Chapecó presta solidariedade às famílias e aos sobreviventes da tragédia com a Chapecoense.

Irmãos e irmãs
Povo de Deus da Diocese de Chapecó
Familiares das vítimas e dos sobreviventes.

Desde que chegou até nós a notícia deste dramático acidente envolvendo os jogadores da Chape, equipe técnica, Diretoria, profissionais dos meios de comunicação (jornal, TV, rádio); especialmente em Chapecó, temos experimentado e vivido dois tipos de sentimentos. Primeiro, lembrar que no dia 28 de novembro entramos na noite em um clima de alegria, de festa e de muita expectativa com a final da Copa Sul Americana que se aproximava. Já estava entalado na nossa garganta o desejo de poder começar a gritar: É CAMPEÃO.

No dia 29, porém, acordamos ou fomos acordados com a derradeira informação de que o avião que transportava a Chape havia caído na Colômbia. E aos poucos com a confirmação da verdade e as proporções dramáticas do acontecido, um sentimento de tristeza, de perda, de dor e do luto invadiu nossas almas, nossos corações, nossos lares, nossa cidade, nossa torcida, enfim, a família chape.

Foi difícil acreditar. Mas, infelizmente era a mais pura verdade! Confirmados 71 mortos e 6 sobreviventes do trágico acidente com o avião da companhia LaMia.

De repente. Tudo mudou. E algumas perguntas não querem calar. Mas como? Por quê? Para quê? Meu Deus...

E daquele momento em diante passamos a experimentar, sentir, viver a força da solidariedade, da comunhão e da oração. Nesse sentido como não se lembrar do gesto de nossos irmãos Colombianos, representando os mais diversos gestos de compaixão e solidariedade de todos os povos, raças e credos.

E um texto da Palavra de Deus das leituras do dia do acidente, (terça feira dia 28 de novembro, 1ª semana de advento), ficou especialmente para nós de Chapecó, como uma luz, uma resposta de sentido na fé e um sinal de esperança. «Um ramo sairá do tronco de Jessé, um rebento brotará de suas raízes» (Is, 11,1).

A CHAPE representa essa árvore que cresceu, criou raízes, ficou grande, bela e estava no auge de sua colheita. À sua sombra de abrigava e celebrava a Família Chape. Naquela noite essa árvore foi atingida, foi decepada, foi machucada. Mas a árvore não morreu. Do seu tronco nascerá um broto (um rebento) que crescerá, dará muitos frutos e um deles será NOVAS ALEGRIAS. Esta é nossa esperança. EU ACREDITO!

Eu acredito porque o clube Chape representa hoje no Brasil uma experiência humilde e vitoriosa. É uma Equipe ou uma experiência de sucesso alicerçada numa organização e gestão séria de recursos humanos e financeiros. Representa a certeza de que em nosso país ainda existem pessoas e cidadãos do bem, que sonham e lutam por objetivos comuns. A Chape representa a possibilidade do esporte trazer alegrias a um povo sem depender do investimento de bilhões.

Nesse momento histórico que vive o nosso país, tão desacreditado e marcado por exemplos de corporativismo para o mal, com a aprovação de leis que legalizam a morte de inocentes, de corrupção vergonhosa, de falta de ética em todos os níveis e classes, especialmente entre muitos agentes políticos. Eis um pequeno e humilde exemplo a ser seguido, sem achar que tudo está perfeito.

Aos sucessores desse time de guerreiros e campeões, fica a honra, o dever moral e o compromisso de substituí-los à altura, lutando sempre juntos, até a morte se preciso for, pela VITÓRIA da Vida, do Bem comum, da competência e da honestidade.

Então será possível gritar novamente: É CAMPEÃO também ao nosso Brasil!

Portanto, juntos, hoje como família de Deus, como família Chape, sem distinção de credo, de raça ou de nacionalidade... vamos fortalecer nossa corrente de solidariedade e a fé na VIDA.

"Vamos Chape, Chape, Chape..."

Força Família Chape!
Dom Odelir José Magri
Bispo diocesano de Chapecó, SC

8 de dezembro de 2016

OLHAR IMACULADO


O Papa Francisco termina a Carta Apostólica Misericordia et misera na conclusão do jubileu extraordinário da misericórdia com estas palavras: «Sobre nós permanecem pousados os olhos misericordiosos da Santa Mãe de Deus. Ela é a primeira que abre a procissão e nos acompanha no testemunho do amor. A Mãe da Misericórdia reúne a todos sob a protecção do seu manto, como a quis frequentemente representar a arte. Confiemos na sua ajuda materna e sigamos a indicação perene que nos dá de olhar para Jesus, rosto radiante da misericórdia de Deus» (MM 22).

Um parágrafo cheio, redondo e profundo!

Vivemos sob o olhar misericordioso da Imaculada Virgem Maria que abre a procissão, o itinerário santo do amor.

O Cardeal-arcebispo John Njue de Nairobi repete que viemos de longe e vamos para longe. Eu sou mais específico: viemos de Deus e vamos para Deus. Este é o roteiro sagrado, a procissão que Maria abre e em que todos participamos.

Nessa procissão vamos sob o manto protetor de Maria, o pálio que nos protege e resguarda – a todos.

Maria abre o caminho e indica o olhar de Jesus, o «rosto radiante da misericórdia de Deus». «Fazei tudo o que Ele vos disser», repete hoje o que disse ontem aos serventes das bodas de Caná.

Algumas igrejas protestantes criticam a superlativação de Maria, produto de muitas teologias e práticas católicas e ortodoxas, transformando-a numa semidivindade, distante da nossa realidade humana.

Mas Maria é sobretudo mulher, mulher-menina, menina-mãe!

São Paulo diz que «Deus enviou seu Filho, nascido de mulher» (Gálatas 4, 4). Jesus dirige-se por duas vezes à mãe chamando-lhe simplesmente mulher em Caná (João 2, 4) e no Calvário (João 19, 26), no início e no fim da vida pública.

O evangelho da anunciação – os ortodoxos chamam à anunciação a evangelização de Nossa Senhora – apresenta Maria como uma mulher como nós. Uma mulher de Nazaré de onde para Natanael/Bartolomeu não vinha nada de bom (João 1, 46), da Galileia dos gentios, gente mestiçada com pagãos.

Esta é a primeira condição da Senhora da Anunciação: mulher-menina marginalizada e descriminada. Como tantas mulheres-meninas que passam cabisbaixas e apressadas pelos ecrãs das nossas televisões e computadores a fugir da Síria, da Eritreia, do Sudão, do Paquistão, da guerra, da violência, da pobreza, da fome, da morte.

Gabriel chamou-lhe cheia de graça, cheia do amor do amado, e Maria ficou perturbada com tal saudação. Não parecia muito virada para florilégios, não se deixava levar por palavras sumptuosas. Podem fazer bem ao ego, mas não passam disso!

O anjo explicou-lhe que Deus achou-a com graça e escolheu-a para ser a mãe de Jesus, «grande e filho do Altíssimo».

Maria-menina questiona a possibilidade de ser mãe: «Como será isso se não conheço homem?» Estava prometida, era noiva mas ainda não casara, não coabitava.

O relato da anunciação apresenta uma Maria ao nosso nível: que se espanta, perturba, questiona, duvida. Mulher que sente a solidão. O versículo 38 termina com este apontamento que a liturgia deixou de fora: «E o anjo retirou-se de junto dela». No fim da anunciação ficou só!

Esta é a menina-mulher que depois de encontrar as respostas para o espanto e para as dúvidas diz: «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra».

Frederico Lourenço traduz: «Eis a escrava do Senhor. Aconteça-me segundo a sua palavra».

O Mestre Eckhart, místico dominicano alemão do século XIII-XIV escreve no Tratado do discernimento: «Quando o Anjo apareceu a Nossa Senhora: tudo o que ela e ele possam ter conversado, nunca a teria transformado em mãe de Deus; mas assim que ela renunciou à sua vontade, ela tornou-se logo numa verdadeira mãe da palavra eterna e concebeu Deus nesse momento que se tornou no deu filho por natureza».

Maria ao abrir a procissão, aponta para o roteiro sagrado do eu para o tu, o recentramento redentor. Este ícone mariano é muito actual e desafiante para os dias de hoje, marcados pela cultura do selfie, do auto-retrato no centro de tudo, do individualismo globalizado e paralisante.

Esta é Senhora da Conceição que hoje celebramos!

O dogma católico proclama desde 1854 que Maria foi concebida sem pecado original. Um dogma recente mas uma verdade de fé que vem do Concílio de Basileia em 1439.

Para nós portugueses tem um significado especial: Nossa Senhora da Conceição é padroeira e rainha de Portugal desde 1646 quando Dom João IV a coroou no Solar de Vila Viçosa! Desde então os nossos réis e rainhas deixaram de usar a coroa real.

Celebrar a Imaculada Conceição é reconhecer que como Maria somos gratificados por Deus – todos somos cheios de graça, todos somos beneficiários da sua misericórdia.

Mas, como nota o mestre Eckhart, não podemos ficar pela conversa fiada! Na procissão da fé, temos que sair da zona de conforto do eu, recentrar-nos no Tu, deixar-nos encher e preencher por Deus, deixar-nos «cobrir pela força do Altíssimo» para sermos geradores de Jesus-Palavra hoje, «um hino de louvar da sua glória» (Efésios 1, 12).

E esta a graça que peço à Imaculada Conceição para cada um de nós hoje na sua festa.

Ámen.

7 de dezembro de 2016

NÓMADA(S)


Carlos de Foucauld viveu Deus com os nómadas do Sara.

A 1 de Dezembro faz 100 anos que Carlos de Foucauld, o Irmãozinho Carlos de Jesus, foi assassinado em Tamanrasset, no Sul do Sara argelino, ao que parece num momento de pânico de um dos bandidos que o sequestraram.

Carlos nasce em 1858 no seio de uma família aristocrata e muito cristã em Estrasburgo, Leste de França. Órfão de pai e mãe aos seis anos, é criado pelo avô materno, que também perde mais tarde.

Abandona a fé e vive uma vida dissoluta de boémio rico. Em 1876, entra no exército e vai para a Argélia. Entre 1883 e 1884, explora os desertos de Marrocos e da Argélia por conta própria, disfarçado de rabi pobre: percorre 3000 quilómetros em onze meses. Os muçulmanos e judeus impressionam-no com o acolhimento e a prática da fé, reavivando o fogo de Deus no seu coração.

Regressa a França e torna-se explorador de Deus. É monge trapista entre 1890 e 1897 na França e na Síria. Depois muda-se para a Terra Santa: as Clarissas empregaram-no como sacristão e hortelão. «Fixei-me em Nazaré. Abracei aqui a existência humilde e obscura de Deus, operário de Nazaré», explica.

Em 1900, regressa a França para ser ordenado. «Acabo de ser ordenado sacerdote e ando a fazer tudo para ir continuar no Sara “a vida escondida de Jesus em Nazaré”, não para pregar, mas para viver na solidão, a pobreza, o humilde trabalho de Jesus, empenhando-me a fazer o bem às almas não pela palavra, mas pela oração, pela oferta do Santo Sacrifício, pela penitência e pela prática da caridade», explica numa carta.

Em 1901, volta à Argélia e fixa-se em Beni Abbès, perto da fronteira com Marrocos. Cumpre um sonho: «Quero habituar todos os habitantes – cristãos, muçulmanos, judeus, idólatras – a verem em mim um irmão, o irmão universal. Começaram a chamar a esta casa “fraternidade”, e isso é para mim um louvor», explica. A fraternidade torna-se um oásis de amor para escravos, pobres, soldados, doentes, viajantes.

Em 1904, a busca pessoal leva-o a Tamanrasset, no coração do Sara argelino, para viver entre os Tuaregues dos montes Hoggar. Estuda a língua, escreve um dicionário, publica uma recolha de milhares de poemas, traduz os Evangelhos. Vai para o Hoggar sobretudo «para levar o evangelho aos mais abandonados, não pregando, mas vivendo-o».

O Irmãozinho Carlos, o nómada de Deus, encontra-o entre os Tuaregues, os nómadas do deserto. «O meu ermitério está num cume de onde se avista praticamente todo o Hoggar e está no meio de montanhas agrestes. O horizonte, que parece não ter fim, faz pensar na infinidade de Deus», descreve.

Passa o dia a servir as pessoas – «Presto serviços naquilo que posso, esforço-me por mostrar que os amo» – mas anseia pela noite: «Logo que o Sol se põe, há um grande silêncio que é tão gostoso.»

Os Tuaregues acolhem-no como um marabu, um homem de Deus. Moussa, o chefe tuaregue seu amigo, recorda-o como um pobre no meio deles. «O meu apostolado deve ser o da bondade», anota no diário em 1909.

O Irmãozinho Carlos de Jesus, o irmão universal, morreu só e sem seguidores. Bento XVI beatificou-o a 13 de Novembro de 2005. Hoje, uma vintena de famílias espirituais inspiram-se no seu estilo de seguimento escondido de Jesus em Nazaré no trabalho humilde e na contemplação.

6 de dezembro de 2016

MENSAGEM DOS COMBONIANOS DA AMÉRICA E DA ÁSIA ÀS JUVENTUDES

No final do encontro dos superiores novos e atuais das circunscrições combonianas da América e Ásia, que se realizou de 22 a 26 de Novembro, em São Paulo, no Brasil, os 13 missionários escreveram uma mensagem dirigida aos jovens dos dois continentes.

Escrevemos a vocês, jovens.

Vocês têm sede de vida plena e de valores autênticos. Seu desejo nos interpela, nos desafia a partilhar convosco as razões de nossa esperança.

Acreditamos em sua força e vitalidade para cuidarmos juntos desse mundo, conforme o projeto de amor de Deus.

Escrevemos desde as periferias do continente americano e da Ásia. As fronteiras são nossa casa.

Como missionários, tentamos assumir o desafio de Papa Francisco: uma Igreja em saída, que caminha junto aos pobres e aos que não conhecem a alegria do Evangelho.

Uma vida doada a Jesus e a seu povo é uma vida bela. Nas fronteiras do sofrimento humano, experimentamos o «gosto espiritual de estarmos próximos à vida das pessoas» (EG 268). Queremos ser testemunhas e profetas de relações fraternas, fundadas no perdão e na misericórdia.

Estamos inquietos e preocupados pela situação de nossos continentes.

O resultado das eleições nos Estados Unidos reforça, mundo afora, uma onda de intolerância e racismo. Representa a falência da política e da democracia por causa do medo e da hegemonia do poder financeiro. Essa economia saqueia os bens comuns, devasta, corrompe e mata.

Nas zonas onde trabalhamos está aumentando a violência, no campo e nas periferias urbanas. Em América Central e México as 'pandillas' e o tráfico ceifam a vida das juventudes. Os defensores de direitos humanos, dos povos indígenas e da mãe terra são executados para calar a boca aos movimentos sociais e à Igreja, quando se manifesta com profecia. Em Colômbia, apesar do esforço desmedido para promovermos uma cultura de reconciliação, nos surpreendeu o resultado de um referendum que mais uma vez pode adiar os acordos de paz.

Em Ásia, sentimo-nos pequenos frente aos desafios de um imenso continente e à complexidade do diálogo entre as culturas e as religiões. Porém, é esse o caminho para promover o encontro e descobrir Deus vivo na humanidade.

É no coração dessa história que os cristãos se envolvem como comunidade, acompanham, frutificam e festejam! Sem medo, ousando tomar a iniciativa.

Aprendemos muito ao lado das juventudes, trabalhando juntos na solidariedade às vítimas do terremoto no Equador, ou enfrentando a violência nas paróquias de periferia de Lima, em Peru. Rezamos convosco e descobrimos o rosto de Deus em nossas casas de formação. Admiramos sua determinação no Brasil, onde estão ocupando mais de mil escolas em protesto não-violento contra as medidas antipopulares do governo.

Vos pedimos desculpa se não estamos sempre à altura de sua coragem. Queremos abrir mais nossas casas ao encontro convosco, porque vocês renovam nossa paixão missionária.

Caminhemos juntos! Nos ajudem a sonhar e promover a justiça e a paz, a cuidar da mãe terra assim como nosso Pai cuidou de nós até aqui.

Padre Ezequiel Ramin, jovem missionário comboniano que doou a vida junto aos indígenas e às famílias sem terra no Brasil, nos inspire e provoque sempre. Ele nos disse: «Tenham um sonho. Sigam somente um sonho. Uma vida que tem um sonho se renova dia após dia».

São Paulo, Brasil – 25 de novembro de 2016
Os missionários combonianos de América e Ásia

28 de novembro de 2016

SÃO TIAGO DE ANTAS DEDICA IGREJA NOVA


A paróquia de São Tiago de Antas, em Vila Nova de Famalicão, dedicou e inaugurou a nova igreja no primeiro domingo do advento através de uma celebração bem preparada e colorida segundo o ritual da solene sagração e bênção em missa pontifical.

O novo templo em forma oval com a capacidade para sentar 500 pessoas começou a ser construído em dezembro de 2010.

Dom Jorge Ortiga, arcebispo primaz de Braga, presidiu à sagração solene e bênção do novo templo, acompanhado por uma vintena de padres, quatro diáconos e uma grande multidão que enchia a nova igreja, incluindo individualidades locais.

Durante a homilia o arcebispo deu os parabéns à comunidade pela obra levantada e sublinhou a necessidade de continuar a trabalhar para pagar os empréstimos.

Recordou que a forma oval da igreja faz lembrar os braços humanos, o abraço de Jesus à comunidade e o abraço de acolhimento da comunidade às pessoas que procuram o novo templo para se encontrarem com Deus.

A igreja está decorada com alguns anéis exteriores que, no dizer do Arquiteto Hugo Correia – que desenhou a construção – representam a coroa de espinhos.

Dom Jorge recordou que a comunidade tem de sair ao encontro dos coroados de espinhos de hoje.

Frisou que o facto de os Missionários Combonianos estarem à frente da paróquia desde 2009 faz com que a saída seja global, mais para além da comunidade humana da paróquia.

O P. Agostinho Carvalho Alves, missionário comboniano, é o pároco de São Tiago de Antas há sete anos e liderou a construção desde o início.

No discurso de agradecimento sublinhou que «a comunidade cristã de Antas dispõe de espaço amplo, luminoso e cómodo para celebrar a sua fé condignamente e de locais adequados para seus compromissos pastorais.»

A celebração terminou com um verde de honra.

A nova igreja tem dois pisos.

O piso superior é destinado às celebrações litúrgicas, amplo e bem iluminado. Tem como pano de fundo a imagem estilizada do Senhor Ressuscitado sobre uma cruz de luz, ladeada pelos retábulos de São Tiago e da Imaculada Conceição.

O piso inferior contra com salas para a catequese e um salão multiusos para 200 pessoas além de instalações sanitárias e arrumos.

A nova igreja está bem integrada através de um arranjo paisagístico bem conseguido que a relaciona com grande harmonia com a igreja românica do século XIII e com o espaço circundante.

19 de novembro de 2016

Ir. ANTÓNIO SILVA: TRIBUTOS

Ir. ANTÓNIO FIGUEIREDO DA SILVA
Santa Eulália (Seia) 1-5-1936; Viseu 16-11-2016

P. Arlindo Pinto (Itália): Mais um comboniano e amigo a quem o Senhor da Vida decidiu chamar para a Felicidade eterna, na casa do Pai, a morada prometida para cada um dos filhos e filhas de Deus! Com algumas lágrimas, recordo tantos bons momentos passados juntos, sobretudo nas cidades moçambicanas de Maputo e Beira. Que Deus de misericórdia infinita o acolha no seu Amor eterno. O meu último abraço, nesta terra, querido irmão Silva.

P. José Manuel Brites (Brasil):
Rezemos pelo nosso amigo irmão Silva! Foi ele que me acolheu em Moçambique! Agradecer pelo jeito serviçal e alegre de viver! Que contemple a Glória do Pai.

Equipa coordenadora LMC: Em nome dos Leigos Missionários Combonianos, expressamos o nosso profundo pesar pelo falecimento do irmão Silva. Foi um privilégio para muitos de nós ter conhecido, trabalhado e privado com uma pessoa tão bela e dinâmica. Hoje a FC perde um exemplo de dedicação sem medida à Missão e ao seu Instituto. Ganha o céu, que hoje conta com mais uma alma, e que certamente rezará e velará por todos nós. O Senhor já o acolheu junto de Si e goza agora da sua morada eterna.

P. Claudino Gomes (Lisboa):
Exprimo à Província toda e à família de sangue do Ir. António Silva os meus sentimentos. O Irmão deu-se com alma e coração toda a sua vida. Foi uma doação sincera, revestida das características da sua personalidade (como acontece com cada um de nós). Oxalá eu possa ser fiel até ao fim, como ele.

Maria José Martins (LMC-Portugal): Foi uma honra conviver com o Irmão Silva. O céu está em festa para o receber. Obrigada pela pessoa maravilhosa com que nos habituámos a privar. Estamos todos de luto.

Ir. Lurdes Ramos (IMC-Viseu):
Os nossos sentidos pêsames pela partida para a casa do Pai do irmão António Silva de todas as Irmãs da Província Europa e em particular de Portugal. Com certeza que já está a gozar do imenso bem que fez como missionário, seja em Portugal que em Moçambique.

Flávio Soares (LMC-Portugal): Uma notícia que abanou o meu dia e ficará presente. Sinto-me agradecido pelo dom da sua vida, embora as nossas vidas se tenham cruzado pouco. A sua alegria é a prova de uma vida feliz e de amor ao outro. Mais uma estrelinha no céu.

P. José Arieira (RD do Congo): Quero unir-me à Província Portuguesa na oração pelo nosso querido Ir. Silva. Recordo os meus primeiros anos de sacerdote em que tive a alegria trabalhar com ele na animação missionária. O seu zelo missionário e paixão pela missão contagiou-me seja nos encontros de colaboradoras que fizemos juntos, seja nos dias missionários. Que o Senhor o acolha na sua misericórdia.

Mário Breda (LMC-Portugal): Foi uma surpresa que não esperava, apesar de o irmão Silva já se encontrar ultimamente debilitado. Mas aceitava a sua doença com serenidade e paz. Perdemos a sua presença sempre dedicada e o seu sorriso terno, que nos habituámos a ter nos encontros em Viseu. Continua presente nos nossos corações.

P. Bruno Brunelli (Itália): Tenho a certeza que este nosso irmão está a gozar plenamente a vida com Cristo porque deu um bom testemunho e espalhou alegria e verdadeira animação missionária por onde passou. Irmão António, intercede por nós. Obrigado.

P. Feliz Martins (Sudão): O Ir. António Silva foi-se e desapareceu deste mundo. Não foi ao acaso nem se perdeu da sua família nem dos amigos, nem de ninguém. Não se perdeu. Foi para casa, a casa do Pai, a sua casa. Mas sabemos quanto dolorosa é a partida e a separação para nós, sua família religiosa e, mais ainda, a sua família de sangue. Diante da nossa fraqueza e impotência, neste momento de dor, venha de Deus a grande consolação. A Ele peço e rezo na Santa Eucaristia pelo nosso Ir. A. Silva e por toda a sua querida família.

P. José Vieira (Lisboa): O Ir. Silva era conhecido pelo «corredor do Maputo» pela generosidade com que se dedicava ao serviço missionário. Damos graças a Deus pela sua vida, pele seu sorriso e pelo seu zelo missionário. Pedimos a misericórdia do Pai: que o acolha no abraço terno e eterno. Descansa em paz, Mano!

Neuza Francisco (LMC-Portugal):
Como foi bom a partilha da vida com o Irmão Silva. Sim, para mim um exemplo de dedicação de trabalho de ajuda de disponibilidade e amor para com o outro. Como são belos os Dons de Deus, e como Lhe estou grata por ter cruzado o seu caminho... Permanece no coração daqueles que com ele privaram. Juntos em oração...

Ir. Franca Venturi (IMC – Lisboa): Com as Irmãs da comunidade de Lisboa e de toda a nossa Zona de Portugal apresento os nossos sentimentos pelo falecimento do Ir. Silva que recordamos pela sua disponibilidade e dedicação missionária. Em comunhão de fé e oração pela alma do nosso Irmão.

P. António Carlos Ferreira (Filipinas): Os meus profundos sentimentos de dor pelo falecimento do Ir. António Silva. Estou unido à sua família de sangue e família espiritual comboniana em oração para que Deus console a todos, especialmente os que lhe eram mais próximos. Paz à sua alma. Descanse em paz.

P. Manuel dos Anjos (Moçambique): Que o Ir. António Silva descanse em Deus, e reze por nós todos, especialmente os velhotes, ele que foi escolhido como primogénito da Comunidade de Viseu.

Escolásticos Torres José Bonjesse e Mponda Joao Mponda (Peru):
Toca o nosso sentimento de tristeza quando lembramos o seu rosto físico e quando lembramos de tudo que fez por nós. Na comunidade da Beira estavam ele e P. Emílio. Os dois nos acompanharam na nossa caminhada vocacional desde inicio até ao pré-postulantado. O irmão António Silva era como mãe da casa nas catequeses e as viagens que fazíamos era com ele. Sempre disposto para trabalhar, com o rosto sempre entusiasmado. Irmão António Silva era uma pessoa organizada e responsável. Entretanto, queremos agradece-lhe por tudo quanto nos deu, sobretudo o seu afeto que tinha por nós e pelos valores que nos transmitiu. Agradecemos a Deus que lhe deu a vontade e a força de seguir a sua missão.

P. Luis Albuquerque (Moçambique): Estamos unidos a toda a província portuguesa pela morte do Ir. Silva. Por um lado, «a certeza da morte nos entristece, conforta-nos a promessa da imortalidade». Assim dizemos no prefácio da missa de defuntos. Perdemos uma pessoa na terra, mas ganhámos um intercessor no céu, porque apesar das nossas faltas e limites em corresponder à vontade de Deus, sabemos que a sua misericórdia é infinita.

Rufina Garcia (LMC-Portugal): «Os amigos não morrem: andam por aí, entram por nós dentro quando menos se espera e então tudo muda: desarrumam o passado, desarrumam o presente, instalam-se com um sorriso num canto nosso e é como se nunca tivessem partido. É como, não: nunca partiram» (António Lobo Antunes). E, porque o sorriso era uma constante, no Irmão Silva, agradeçamos ao Senhor a passagem deste querido Irmão pela vida de todos nós.

Ir. Aristides Holgado (Granada-Espanha): Ao final foi o Ir. Silva, não pensava eu que estava já para marchar. O vi em Viseu no último encontro que tivemos, mas embora fraquito não me pareceu assim para ir tão cedo aos braços do Pai. Que Deus o tenha na sua gloria. O conheci na Beira em janeiro de 1976. O meu mais sentido pêsame a toda a província portuguesa.

Ir. Alberto Lamana (Conselho geral-Roma): Ayer hemos recordado en la oración al Ir. António Figueiredo da Silva. Estamos cercanos a tu Provincia en el momento de recordar un Hermano que nos deja un bello testimonio de fidelidad y amor a la misión. Que el Señor lo acoja en su seno e interceda por nosotros.

Carolina Fiúza (LMC-Portugal): Ânimo. Haja ânimo pela vida deste nosso irmão que, certamente, está num lugar maior e melhor. Recordo-o com a sua voz e expressões sempre muito doces. Permanece entre nós. Um abraço forte a todos. Estamos juntos.

P. Jeremias Martins (Vigário Geral-Roma): Obrigado pela noticia triste da passagem do Irmão Silva. Foi um grande missionário. Muito zelo e dedicação, sempre pronto a socorrer a todos. Era conhecido como "o correio do Maputo" pelo trabalho que fazia para tantos institutos. Que descanse em paz. O Senhor lhe dará a recompensa de tantos trabalhos e também das grandes lutas que travava sempre que tinha de mudar de comunidade ou província. Rezo por ele e família e também por cada um de vós.

16 de novembro de 2016

PROFECIA DA INTERCONGREGACIONALIDADE


Pertencemos a uma sociedade feita de grandes contrastes: vivemos numa aldeia globalizada, à distância de um clique, cada vez mais ensimesmados, medrosos, inseguros. As campanhas eleitorais para a permanência do Reino Unido na União Europeia e as presidenciais americanas são dois exemplos recentes de como o medo e o egoísmo cortam as asas do sonho e da cidadania.

O Papa Francisco descreve o planeta em que vivemos como um mundo «dilacerado pelas guerras e a violência, ou ferido por um generalizado individualismo que divide os seres humanos e põe-nos uns contra os outros, visando o próprio bem-estar» (EG 99).

Por outro lado, na Carta Apostólica às pessoas consagradas para proclamação do Ano da Vida Consagrada, define a profecia como a especialidade da vida consagrada. «Espero que “desperteis o mundo”, porque a nota característica da vida consagrada é a profecia» (nº 2), diz-nos.

Estas duas citações enquadram bem a dimensão profética da intercongregacionalidade. Num mundo marcado pelo individualismo globalizado as consagradas e consagrados são chamados a despertar a sociedade para a mística do encontro e da convivialidade através de sinais proféticos de comunhão.

A intercongragacionalidade – o trabalho conjunto de congregações diferentes em prol do bem comum – é uma maneira de ser profecia num mundo cada vez mais virado para a imagem. Somos chamados a passar do selfie narcisista da moda ao retrato completo (e complexo) do conjunto.

Não é um sonho novo! Daniel Comboni propô-la como o caminho para «fortalecer» a evangelização da África Central há mais de 150 anos. Explica que o Plano para a Regeneração da África através da África – que escreveu em 1874 – «tende a pôr em jogo em favor da África todos os elementos e forças já existentes do catolicismo e criar mais» (Escritos 1343).

Conseguiu arrolar as Irmãs de São José da Aparição e os Camilianos durante uma dúzia de anos, mas acabou por ter que fundar os dois institutos combonianos para o levar para a frente, insurgindo-se contra a «mentalidade fradesca» que fechava o horizonte dos institutos no umbigo nos próprios interesses.

A intercongrecionalidade é uma maneira prática de usar os recursos humanos dos institutos – a envelhecer e a diminuir – em favor de sonhos comuns, do passar cada um por si e Deus por todos ao todos por um e um por todos, para fazer mais e fazer melhor, sinais concretos de que o Reino já está no meio de nós.

São Paulo diz que os carismas são plural mas partilham a origem comum no Espírito Santo e estão ordenados para o bem comum (1 Coríntios 12, 4-11). A intercongregacionalidade, vivida como gesto profético, não dilui ou anula as inspirações carismáticas históricas de cada instituto, mas celebra a complementaridade e subsidiariedade dos muitos carismas para o bem de todos.

Hoje, há bastantes e lindas experiências de intercongregacionalidade.

A que melhor conheço é Solidariedade com o Sudão do Sul (na foto) que vi nascer: 30 pessoas (17 mulheres e 13 homens de 15 países dos cinco continentes, leigos e consagrados de 17 congregações), apoiadas por 260 congregações a nível de direção geral e umas 30 ONGs formam professores, enfermeiros, obstetras, agricultores e líderes comunitários no país mais jovem do mundo há oito anos, vivendo, trabalhando e celebrando juntos em quatro comunidades.

O Ir. António Nunes, um enfermeiro comboniano, faz parte desse consórcio. «Estou a viver esta nova maneira de ser comboniano: tenho a dizer que tem sido uma agradável surpresa! Os meus receios de viver numa comunidade de freiras e frades de outras congregações foi-se dissipando com o tempo... Afinal de contas o viver em comunidade tem muito a ver com o que nos une: a missão que Jesus nos deixou», atesta.

Na Itália, há pelo menos duas comunidades femininas intercongregacionais dedicadas ao acolhimento dos refugiados e uma comunidade mista que sensibiliza a Igreja e sociedade locais para os acolher.

No Brasil, há muito que noviças e noviços fazem parte do caminho formativo juntos durante sessões temáticas de formação prolongadas.

É interessante notar que o Papa convida os mosteiros de clausura a federarem-se e a «promover casas de formação inicial comuns a vários mosteiros» nas disposições da Constituição Apostólica Vultum Dei quaerere sobre a vida contemplativa feminina de 29 de junho deste ano.

Finalmente, a intercongregacionalidade só faz sentido se for um exercício de comunhão eclesial à volta de uma acção comum. Não pode ser assumida como estratégia de sobrevivência. Quando deixamos de nos preocupar com o carisma e usamos as energias para a autopreservação estamos condenados ao fracasso.

A intercongregacionalidade pode parecer um grande desafio, mas – como escreveu o António – torna-se fácil e dissipa todos os receios se partir do dominador comum que nos une: de Jesus e do seu Evangelho como a Regra de Vida que todos partilhamos.

12 de novembro de 2016

860 PORTUGUESES EM VOLUNTARIADO MISSIONÁRIO


Em 2016, cerca de 860 portugueses envolveram-se em acções de voluntariado missionário a curto, médio e longo prazo no país e no estrangeiro. Quase dois terços são mulheres.

Os números vêm da FEC, a fundação Fé e Cooperação, a ONGD da Conferência Episcopal que dinamiza a Rede do Voluntariado Missionário desde 2002.

341 voluntários portugueses partiram para os espaços lusófonos da África, América Latina e Ásia. Desses, 305 estão envolvidos em projectos de curta duração (de 15 dias a seis meses) e 36 assumiram compromissos de sete meses até dois ou mais anos.

Cabo Verde é o grande destino dos voluntários missionários portugueses: 119. Os restantes estão repartidos por Moçambique (66), São Tomé e Príncipe (64), Angola (40), Guiné-Bissau (25), Timor-Leste (13) e Brasil (12). Dois partiram para a República Centro Africana.

A maioria dos voluntários tem entre 18 e 35 anos, 73 por cento são mulheres e 27 por cento homens.

Setenta são repetentes.

85 por cento são estudantes, recém-licenciados ou pessoas empregadas que usam as férias para se dedicarem ao voluntariado missionário internacional.

14 pessoas deixaram o emprego e nove pediram licença sem vencimento para poderem partir. 

Os voluntários fazem muitas coisas nas missões. Um quarto dedica-se à educação e formação, 15 por cento a actividades de pastoral e 13 por cento à animação sociocultural.

Em Portugal, 519 jovens e adultos realizam ao longo do ano acções de regularidade assegurada que pode ir de uma vez por dia a uma vez por semana ou por mês ou a uma semana por ano.

Lisboa e Vale do Tejo é a zona mais coberta com 126 voluntários em acção. O Minho, Douro Litoral, Beiras e Alentejo em conjunto beneficiam da acção de 298 pessoas.

Dois terços dos voluntários no país desenvolve actividades de animação sociocultural e de trabalho na área da educação com crianças e jovens. O resto assistem idosos e famílias.

Segundo os dados da FEC, desde 2003 4677 pessoas participaram em projectos internacionais de voluntariado missionário, uma média de 334 pessoas por ano.

2014 foi o ano com mais voluntários no estrangeiro: 548 ao todo. 514 desenvolveram projectos de um a seis meses e 34 até dois anos ou mais.

2004 foi o ano recorde em estadas de longa duração: 99 ao todo.

11 de novembro de 2016

ÚLTIMAS DO SUDÃO DO SUL


Daqui a cerca de um mês (15 de dezembro) serão três anos desde que uma crise política desencadeou a guerra civil e crise económica responsáveis por milhares de mortes e por uma crise humanitária sem precedentes no Sudão do Sul.

Infelizmente a situação parece piorar a cada dia. O acordo de paz assinado em agosto de 2015 parece não se sustentar mais. As forças do governo e as forças rebeldes continuam a combater-se. Não são confrontos intensos como antes, mas há violência em várias regiões.

O líder da oposição declarou guerra ao governo, caso o acordo de paz não seja retomado.

Estamos no fim da estação chuvosa. Muita gente acredita que com o aproximar da estação seca, os conflitos vão-se intensificar. As forças combatentes estão a preparar-se para mais ofensivas, ou seja, a guerra continua.

A impressão que se tem é que o governo quer continuar no poder e a oposição quer tirar o governo à força.

Como consequência, muita gente continua a deixar o país. O número de refugiados já passa de um milhão.

Dezenas de milhares continuam sob proteção das Nações Unidas em diversos campos pelo país.

Há ainda muitos deslocados que sobrevivem no mato ou em áreas isoladas por medo de ataques e saques.

A crise económica agravou-se e a inflação chega a 700% ao ano. Há muita gente passando fome e doente.

Além disso, a insegurança tem aumentado. Há muito roubo e assaltos a residências, geralmente com vítimas.

Discurso de ódio e incitação à violência entre as diferentes tribos têm aumentado.

Viajar também ficou perigoso. São constantes os assaltos nas estradas e também com vítimas, inclusive mulheres e crianças.

Os criminosos podem ser bandidos ou rebeldes que promovem ataques e depois fogem.

Ser jornalista aqui passou a ser profissão perigosa. Alguns perderam a vida, outros foram presos e torturados e teve quem se viu obrigado a deixar o país. Rádios já foram fechadas várias vezes. Jornais deixaram de circular.

Os serviços básicos funcionam precariamente. Em tudo a população paga um preço muito alto pela guerra gananciosa mantida pelos (des)governantes.

Protestar é muito perigoso. O povo sofre em silêncio, mas está revoltado.

Há, porém, notícias boas e sinais de vida e esperança.

Recentemente foi inaugurado o «Centro para a Paz Bom Pastor», resultado de muita luta e solidariedade das congregações religiosas. Este centro tem a finalidade de investir na formação de lideranças e promoção da paz e reconciliação. Está em pleno funcionamento.

Além disso, o Papa Francisco convidou o Conselho das Igrejas Cristãs para uma reunião sobre a situação do país. Foi muito boa. O Papa quer visitar o Sudão do Sul e ajudar a resolver a crise.

Por fim, as igrejas continuam a sua presença solidária junto ao povo sofredor, até mesmo em situações de riscos. Isso anima o povo.

Aqui em Juba não tem havido combates, mas sentimos que a situação não está boa.

Continuamos nossas orações e esforços para uma solução pacífica dos conflitos e fim da crise. Contamos com as orações e solidariedade de vocês. Com muita gratidão receba um fraterno abraço e as bênçãos e o axé de Deus.

P. Raimundo Rocha, missionário comboniano em Juba


10 de novembro de 2016

CLEPTOCRATAS


As elites sul-sudanesas fazem fortunas com a guerra civil.

The Sentry, um projecto do actor George Clooney e do activista John Prendergast para desmontar o sistema de financiamento dos conflitos africanos mais letais, publicou em Setembro um relatório-investigação sobre a guerra civil que destrói o país mais jovem do continente intitulado «Crimes de guerra não deviam compensar – para parar o saque e a destruição no Sudão do Sul».

O documento usa umas 30 vezes as palavras «cleptocrata» e «cleptocracia» para descrever as elites sul-sudanesas de ambos os lados da trincheira. O termo vem de «cleptos», vocábulo grego para roubo/roubar. Cleptocrata é um governante ladrão e cleptocracia um governo de ladrões.

Os investigadores estudaram as contas e os bens patrimoniais dos líderes político-militares mais influentes, incluindo o presidente Salva Kiir, o seu opositor Riek Machar (ambos na foto), o chefe do Estado-Maior-General Paul Malong e o seu adjunto para a logística, general Malek Reuben. A conclusão? Todos os actores e familiares directos enriqueceram e muito com a guerra civil por meio de negócios obscuros em violação da lei.

As 66 páginas do relatório indispuseram-me muito. Cobri eventos de alguns dos investigados. Nós, missionários e missionárias da Casa Comboni, jantámos duas vezes com Kiir, nosso vizinho. Presidi a algumas missas na Catedral de Juba com o presidente sentado num sofá da frente e trocámos algumas palavras. Inclusive, no fim de uma conferência de imprensa, dirigiu-se para me saudar, para espanto dos camaradas da informação.

Tinha Kiir por pessoa de bem. Admirei o modo como guiou o Sul até ao referendo de autodeterminação de 2011 apesar das muitas armadilhas montadas pelo Governo de Cartum para descarrilar o processo. Surpreendeu-me a crise política que gerou no início de 2013 numa luta intestina para controlar o poder através da manipulação do partido, ele que dera sinais de não querer concorrer às eleições de 2015. Nunca me ocorreu nas análises mais sombrias que usasse a guerra para consolidar o domínio sobre os vastos recursos e negócios do país.

Kiir durante a guerra construiu um grande rancho em Luri, a 16 quilómetros de Juba, e tem uma mansão de luxo num bairro chique de Nairobi. O relatório diz que ele e membros da família detêm participações em duas dúzias de empresas ligadas ao petróleo, mineração, construção civil, apostas, operações cambiais, telecomunicações, aviação... Um filho de 12 anos é dono de 25 por cento do capital de uma sociedade financeira!

Outros figurões do regime e da oposição também têm grandes propriedades no Quénia, Uganda e Austrália, participações em múltiplas empresas, parentes chegados a viverem em grande luxo fora do país como mostram nas páginas nas redes sociais. O KCB (o Banco Comercial do Quénia) é a instituição de referência para transferências nebulosas.

Entretanto, o cidadão comum sofre violência, fome e morte com casas, gado e cultivos destruídos e mulheres e meninas violadas pelas forças de ambas as partes numa orgia de crueldade. A guerra já matou 300 mil pessoas, deslocou 2,7 milhões e tem 4,8 milhões sob ameaça da fome desde 15 de Dezembro de 2013.

Ban Ki-moon, o secretário-geral da ONU, foi contundente na última assembleia geral, em finais de Setembro: «No Sudão do Sul, os líderes traíram o seu povo.» Traíram, sim, pela ganância e corrupção. Infelizmente o Sudão do Sul não é a única cleptocracia africana.

3 de novembro de 2016

Sudão do Sul: LADRÕES ASSALTAM CENTRO DE PAZ


Ladrões assaltaram à mão armada um centro de paz católico inaugurado há duas semanas perto de Juba, a capital do Sudão do Sul.

Um grupo armado não identificado entrou no Centro de Paz Bom Pastor no domingo à tarde exigindo telemóveis, computadores e carteiras aos presentes.

Alguns os trabalhadores ugandeses foram espancados, mas os religiosos residentes e hóspedes não foram molestados.

O roubo aconteceu pelas 19h30 de domingo em Kit, uma localidade a cerca de 14 quilómetros de Juba na margem direita do Nilo Branco.

Uma fonte missionária disse que os residentes do Centro estão bem.

Depois do roubo os presentes fizeram uma breve oração em conjunto e reportaram o incidente às autoridades locais que enviaram uma força para proteger as instalações.



Disse que os ladrões assediaram os religiosos e leigos que se encontravam no Centro de Paz.

O superior provincial dos Missionários Combonianos no Sudão do Sul Daniel Moschetti divulgou uma nota a negar a notícia.

Qualificou a notícia como um ato de propaganda.

O incidente foi um roubo à mão armada, «uma situação normal em Juba hoje», escreveu.

O P. Moschetti adiantou que o Centro está a funcionar normalmente.

A população local está a pedir uma esquadra da polícia em Kit.

O Centro de Paz Bom Pastor foi construído pela Associação de Religiosos do Sudão do Sul com ajudas do exterior.

O Centro foi inaugurado a 15 de outubro pelo Núncio Apostólico do Quénia e do Sudão do Sul, Arcebispo Charles Daniel Balvo.

O centro é dirigido por uma equipa de três padres, uma irmã e um irmão de cinco nacionalidades e congregações.

Funciona como um centro de espiritualidade e de cura de traumas para religiosos e leigos do Sudão do Sul,