11 de setembro de 2015
CAPÍTULO: TRÊS PRIMEIROS DIAS
O XVIII Capítulo Geral dos Missionários Combonianos, que está a decorrer em Roma, começou na manhã de segunda-feira com a apresentação do Estatuto do Capítulo pelo P. Pietro Ciuciulla, membro da Comissão Pré-capitular. Este documento é um instrumento que guia o desenvolvimento do Capítulo e é útil para a planificação das suas diversas fases. À tarde, o trabalho foi feito a nível de grupos continentais para ver e sugerir mudanças, emendas ou moções para o melhorar.
De volta à aula, os capitulares partilharam pontos de vista e cada grupo apresentou as respetivas propostas. No dia seguinte, continuou-se com a votação das diferentes emendas até o Estatuto ser finalmente aprovado. A mudança principal em relação ao Capítulo anterior é que se dá mais tempo à fase de discernimento feito em grupos e assim se consegue uma metodologia mais adequada ao fim pretendido. Evidenciou-se o desejo de que este Capítulo não caia na tentação de produzir um documento longo, mas que se concentre no conteúdo de um texto focado sobre algumas prioridades do Instituto.
Depois da aprovação do calendário dos trabalhos, a sessão da tarde de terça-feira, 8 de setembro, foi dedicada ao discernimento em grupos para encontrar as pessoas mais adequadas para cada um dos serviços do Capítulo.
O dia concluiu com a eleição dos quatro escrutinadores.
Na quarta-feira, 9 de setembro, a sessão começou com a eleição dos oficiais e continuou durante todo o dia.
Conselho da Presidência: P. Enrique Sánchez, presidente; P. Giuseppe Moschetta e P. Manuel Augusto Lopes Ferreira.
Secretário-geral: P. Pietro Ciuciulla.
Moderadores: P. Pedro Andrés Miguel, P. Joseph Mumbere Musanga, Ir. Alberto Degan e P. Rogelio Bustos.
Comissão especial: P. Rafael Ponce (coordenador), P. Dario Bossi e P. Jeremias dos Santos Martins.
A Comissão central é constituída pelo Secretário-geral, os quatro moderadores e o coordenador da Comissão especial. Coordenam o trabalho do Capítulo.
Escrutinadores: Ir. Matthias Adossi, Ir. Dessu Yisrashe, Ir. Humberto da Silva Rua e P. Felix Cabascango.
Comunicadores: Ir. Alberto Lamana (coordenador), P. Jean Claude Kobo e P. Efrem Tresoldi.
Comissão litúrgica: P. Roberto Turyiamureeba, Ir. Jean Marie Mwamba e P. Alcides Costa.
Comissão recreativa e cultural: P. Juan Armando Goicochea, P. Karl Peinhopf e P. Ramon Vargas.
O dia concluiu com a celebração de vésperas da solenidade de São Pedro Claver, patrono do Instituto.
5 de setembro de 2015
PRONTOS!
Os capitulares concluíram a semana de introdução e estão prontos para iniciar o Capítulo com a abertura solene na eucaristia de domingo, 6 de setembro.
A semana começou com a apresentação dos 67 capitulares, 10 observadores e facilitador presentes. Cada continente preparou uma passagem bíblica e um símbolo para o representar. Em grupos, os participantes partilharam sentimentos, medos e expectativas. Conversão, diálogo e simplicidade foram as palavras-chave mais repetidas.
O XVIII Capítulo Geral tem por tema «Discípulos missionários combonianos chamados a viver a alegria do Evangelho no mundo de hoje» inspirado em A alegria do Evangelho do Papa Francisco. Dom Marcelo Semeraro, bispo de Albano e secretário do grupo dos nove cardeais que assistem o Papa, explicou as linhas de força da exortação apostólica no segundo dia. No terceiro, orientou um retiro sobre o capítulo Evangelizadores com Espírito.
Nos últimos dois dias da semana de introdução, o facilitador, Irmão Enzo Biemmi, debruçou-se sobre as atitudes necessárias para um capítulo de discernimento e comunhão. A Comissão Pré-Capitular apresentou os esboços do Estatuto e do programa do Capítulo e o documento Síntese temática para o discernimento.
Dois detalhes: a DSP ofereceu um ícone de São Daniel Comboni do padre Sieger Köder para presidir ao Capítulo. As Irmãs Missionárias Combonianas enviaram uma vela que arde na Sala Capitular durante os trabalhos.
Algumas curiosidades: 52 por cento dos capitulares tomam parte no evento pela primeira vez. 34 capitulares são de origem europeia, 20 africanos e 13 das Américas (51% europeus e 49% não europeus).
3 de setembro de 2015
MALDIÇÃO DO MINÉRIO
A África é depósito de cerca de um terço dos recursos naturais do planeta: tem 80 por cento das reservas de platina, fornece mais de metade dos diamantes brutos comercializados, produz 40 por cento do ouro; um quinto do tântalo usado em telemóveis, computadores e outros produtos de tecnologia digital vem da República Democrática do Congo, que tem metade das reservas globais de cobalto, um mineral necessário para a produção de superligas usadas na aviação; a Guiné-Conacri possui uma das maiores reservas de bauxite, o minério com que se faz o alumínio, a liga que domina a indústria global; Nigéria e Angola extraem juntas mais de quatro milhões de barris de crude por dia...
Com tanta riqueza a jorrar das entranhas da África, como é possível haver tantos pobres na região?
Li o livro A Pilhagem de África de Tom Burgis para tentar perceber o que se passa no continente. Burgis é um jornalista de investigação que escreve sobre «senhores da guerra, oligarcas, multinacionais, contrabandistas e o roubo da riqueza africana». Analisou a indústria da extracção de recursos naturais em vários países – incluindo Angola, República Democrática do Congo, Nigéria, Guiné-Conacri e Níger – e encontrou um padrão que se repete: estrangeiros extraem riquezas imensas que as elites partilham para enriquecimento próprio. Chama-lhe «a maldição dos recursos».
Os governantes celebram contratos opacos com multinacionais ou investidores sem rosto em condições especiais a troco de favores pessoais. As mineradoras são isentas de impostos, pagam uma taxa mínima pelo que extraem e movem capitais por meio de engenharias financeiras que defraudam o erário púbico dos países produtores.
As populações locais sofrem as consequências da mineração: deslocações forçadas, poluição, empobrecimento. Os ganhos? Esses vão direitinhos para os bolsos dos investidores e dos detentores do poder, políticos e militares, e respectivas clientelas.
Governantes corruptos criam sistemas paralelos para gerir contratos através de esquemas nebulosos. A indústria extractiva mantém no poder «dinossauros da corrupção» como Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, da Guiné Equatorial, e José Eduardo dos Santos, de Angola, ambos no poder há 36 anos, e Robert Mugabe, do Zimbabué, presidente há 35 anos. O Banco Mundial documentou a existência de um saco azul de mais de 32 mil milhões de dólares da venda de petróleo angolano para o regime cuidar das clientelas.
A exportação de matérias-primas e a importação de bens de consumo também empobrece a economia africana: o processamento dos minerais chega a aumentar o seu valor até 400 vezes.
Depois há a violência por parte das autoridades ou de rebeldes para controlar as jazidas – como aconteceu com os diamantes de sangue em Angola e Serra Leoa e acontece no Zimbabué e no Leste da República Democrática do Congo. E de grupos que lutam para tentar aceder ao bolo das riquezas naturais ou para defender o direito a uma vida melhor.
Há também a constante chinesa: empresas estatais e privadas que oferecem crédito barato a regimes africanos párias, cobrando as dívidas em género: petróleo e minerais. A economia chinesa aumentou oito vezes entre 2000 e 2012 e devora quantidades enormes de crude e minerais para se alimentar. Durante o mesmo período o volume de negócios da China com a África cresceu de 13 mil milhões de dólares para 180 mil milhões. A China está a financiar dois terços das obras públicas africanas e empresta mais dinheiro ao continente que o Banco Mundial.
Esta situação tem de mudar! O cardeal ganês Peter Turkson disse ser «moralmente inaceitável, politicamente perigoso, ambientalmente insustentável e economicamente injustificável que os povos em vias de desenvolvimento continuem a alimentar o desenvolvimento dos países mais ricos à custa do seu presente e do seu futuro».
27 de agosto de 2015
DESPERTAR
Combonianos, Combonianas e Leigos Missionários Combonianos, iniciaram o espaço DESPERTAR em Janeiro de 2013 para acompanhar crianças e adolescentes no seu crescimento integral em Fetais, paróquia de Camarate, Loures.
«Este projeto foi sonhado desde o início como Família Comboniana, pois acreditamos que o futuro da missão, onde quer que estejamos, seja o de trabalharmos, pensarmos e estarmos presentes em conjunto», disse a Ir. Ida Colombo, Superiora Provincial das Irmãs Combonianas da Europa.
Uma dúzia de voluntários, jovens e adultos, ajudam cerca de 40 utentes dos sete aos 17 anos a fazer os trabalhos de casa todos os dias das 17h00 às 19h00. Brincam e dão explicações de português, inglês e matemático, e muito carinho. Há também aulas de dança africana e de teatro.
No fim do ano letivo os utentes fazem uma semana de campo de férias na quinta do noviciado europeu em Santarém.
Mariazinha, 34 anos, mãe de quatro filhos, chegou da Guiné-Bissau em 2012. «Estou contente, não só por causa da escola, mas também com o comportamento dos meus filhos, gosto dos valores que recebem aqui», disse sobre o DESPERTAR.
Imigrantes das antigas colónias portuguesas em Africa, com alguns asiáticos, brasileiros e ciganos, começaram a fixar-se em Camarate a partir dos anos 80. Um terço dos alunos da escola secundária são de nacionalidade estrangeira.
DESPERTAR está no processo de legalização canónica e civil para se poder aceder a fundos oficiais e alargar a ação a outros setores da população.
23 de agosto de 2015
CONSAGRAD@S PEDALAM PORTUGAL
© Arq.º Samuel Silva, Sofia Vasconcelos
Os consagrados, religiosos e seculares, preparam-se para iniciar a volta a Portugal com um velocípede a 24 pernas.
O «sinal itinerante» foi benzido e testado na sexta-feira nos Carvalhos e está pronto para ligar os mosteiros de clausura e os lugares de mártires, santos e santas da vida consagrada do país.
A iniciativa da CIRP, Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal, insere-se no Ano da Vida Consagrada.
O P. Artur Teixeira, presidente da CIRP, explica que «para além de ser um inédito e excelente meio de transporte saudável e de imprevisíveis (des)encontros, este velocípede de 12 lugares evocará outro grupo de apóstolos, congregará consagrados e consagradas de todos os Institutos Religiosos e Seculares que desejarem e puderem afetiva e efetivamente pedalar conjuntamente pelos caminhos lusitanos humano-divinos, ousa facilitar novos diálogos nos areópagos comuns da vida quotidiana dos nossos concidadãos e concidadãs, romper com preconceitos sobre quem somos e o que fazemos, testemunhar genuína fraternidade, desafiante multiculturalidade, enriquecedora complementaridade na diversidade de carismas, através da alegria e fascínio do seguimento de Jesus Cristo e da dedicação ao próximo, exercitando a gramática da proximidade e contagiando o abraço de Deus para todos e para cada pessoa.»
«Procuraremos visitar os mosteiros de clausura e ainda os lugares mais significativos na vida de mártires e santos/as que nos precederam na vida consagrada em Portugal. Contamos com a melhor cooperação das autoridades rodoviárias e de segurança neste itinerário, bem como com a compreensão de todos quantos circulam nas estradas que partilharemos. Confiamo-nos à proteção de Nossa Senhora de Fátima, a cujo Santuário na Cova da Iria esperamos chegar a 7 de fevereiro de 2016, na peregrinação nacional de encerramento do Ano da Vida Consagrada em Portugal», conclui.
A CIRP recebe até 31 de agosto sugestões para designar o velocípede.
Amarante acolhe a primeira etapa da Volta a Portugal do Ano da Vida Consagrada.
Os consagrados, religiosos e seculares, interessados em pedalar pelas estradas de Portugal, podem contactar Mário Alves (919 857 472), o condutor do velocípede.
20 de agosto de 2015
PENEDO DA CHIEIRA
© JVieira
Musgo e mimosas escondem uma relíquia histórica da fé em Cinfães que merece ser mais conhecida e estudada.
O Penedo da Chieira fica no pinhal do topo da quinta homónima nos arredores da vida de Cinfães junto à estrada para Sandes.
A rocha apresenta um conjunto de insculturações rupestres de datação e interpretação difíceis.
Ao centro encontra-se uma família: o pai de bastão, a mãe com um livro e o filho com uma coroa rodeados por um friso com um disco no canto externo direito. Especialistas pensam tratar-se de uma representação da Sagrada Família de Nazaré. Mas pode representar uma família romana. No local foram encontrados vestígios arqueológicos que testemunham a sua presença.
A representação tem uma legenda inferior de leitura difícil mas que parece terminar com DLXI (561 em numeração romana).
Os motivos simbólicos insculturados na parte inferior são de leitura difícil. O lado esquerdo do penedo apresenta traços de letras.
O Penedo da Chieira está classificado como imóvel de valor concelhio ou monumento de interesse municipal.
O imponente monumento encontra-se num estado de abandono lamentável. À atenção da Câmara Municipal de Cinfães: o nosso património cultural e arqueológico merece mais atenção.
O Penedo da Chieira fica no pinhal do topo da quinta homónima nos arredores da vida de Cinfães junto à estrada para Sandes.
A rocha apresenta um conjunto de insculturações rupestres de datação e interpretação difíceis.
Ao centro encontra-se uma família: o pai de bastão, a mãe com um livro e o filho com uma coroa rodeados por um friso com um disco no canto externo direito. Especialistas pensam tratar-se de uma representação da Sagrada Família de Nazaré. Mas pode representar uma família romana. No local foram encontrados vestígios arqueológicos que testemunham a sua presença.
A representação tem uma legenda inferior de leitura difícil mas que parece terminar com DLXI (561 em numeração romana).
Os motivos simbólicos insculturados na parte inferior são de leitura difícil. O lado esquerdo do penedo apresenta traços de letras.
O Penedo da Chieira está classificado como imóvel de valor concelhio ou monumento de interesse municipal.
O imponente monumento encontra-se num estado de abandono lamentável. À atenção da Câmara Municipal de Cinfães: o nosso património cultural e arqueológico merece mais atenção.
5 de agosto de 2015
PASSADIÇOS DO PAIVA
Os passadiços do rio Paiva, perto de Alvarenga, integrados no Arouca Geopark, são um convite para uma incursão a pé pela natureza no seu melhor!
O percurso de 8645,78 metros espreguiça-se pela margem esquerda do Paiva entre a praia do Areinho e a ponte de Espiunca, quase todo feito sobre passadiços de madeira ancorados na rocha.
É uma experiência única caminhar sob a fresca vegetação local ao som do rumorejo das águas do rio a contar segredos aos seixos e pedras do seu leito e do chilrear alegre dos pássaros.
A meio do percurso, na praia do Vau, há um bar alcandorado na rocha que também serve «vistas panorâmicas».
Mais à frente, há uma ponte suspensa por cabos a desafiar o medo, mas não faz parte do percurso pedonal: é mais um apêndice para quem gosta explorar o rio de outro ponto de vista.
O trajeto conta ainda com três postos SOS – como os das autoestradas – e uma patrulha de algumas jovens identificadas com T-shirts brancas. Tem também um número de placas informativas sobre a fauna e flora da região.
A surpresa – e a dificuldade – esperam os caminheiros (e ontem eram mesmo muitos) no início – ou na parte final do percurso (dependendo de onde se começa): a escalada do monte que o rio contorna. Do lado sul há uns duzentos degraus e meio quilómetro de terra batida por entre eucaliptos a crescer para negociar o desnível de 139 metros. Na vertente norte, o desnível é de quase 146 metros: é preciso fazer cerca de 500 degraus serpenteando a encosta.
Quem não gosta de escalar a montanha – ou já não tem fôlego – pode fazer o percurso da Espiunca à praia do Vau e voltar para trás: mais ou menos oito quilómetros.
Fiz o percurso com a minha mana e duas sobrinhas a partir do fim: deixamos um carro no Areinho e fomos no outro para Espiunca para deixar a escalada para o fim já com os músculos bem quentes.
A experiência foi de cortar a respiração e … a subida do monte ainda mais! A descida para o Areinho foi um anticlímax: o caminho empoeirado de terra serpenteia num eucaliptal em flagrante contraste com o percurso junto ao rio rico em frondosa e variada vegetação local.
Acabamos a caminhada que durou menos de duas horas e meia com um mergulho nas águas puras e cálidas do Paiva, acolhidos por peixinhos que brincavam à nossa volta.
Depois foi o piquenique.
Dois reparos: o estacionamento nas duas pontas do percurso é pequeno e os carros têm que ficar ao longo da estrada nacional. No Areinho não há bancos nem mesas: quem quiser fazer um piquenique tem que se sentar na areia fina, nas escadas de acesso ou … de pé.
O percurso apresenta um grau de dificuldade elevado devido à escalada, mas vale bem a suadela. Adorei e aconselho!
20 de julho de 2015
TESTEMUNHOS DE FÉ
Naquela manhã de fins de junho, enquanto desfrutava a linda e inspiradora música de fundo que se ouvia no interior da Sé de Viseu, vi duas senhoras aproximar-se. Pensando certamente que eu fosse o guarda da Sé, uma delas, de véu na cabeça e sandálias na mão, dirigiu-se a mim e, como a querer perguntar qualquer coisa disse, muito respeitosamente: «Desculpe…»
Uma palavra que ficou suspensa no ar talvez à espera da minha reacção. Instantaneamente a minha memória transportou-me ao Egito e Sudão, onde tenho vivido mais de duas dezenas de anos como missionário comboniano, levando-me também, ainda que só imaginariamente, até aos outros países do Médio Oriente. Aí, onde a maioria esmagadora é de religião islâmica, as mulheres andam geralmente de cabeça coberta (e por vezes todo o rosto). Além disso, o tão elevado respeito pelo sagrado, vai até ao ponto de obrigar cada muçulmano, homem ou mulher, a fazer a sua oração oficial de pés descalços.
Procurei tranquilizar a senhora: «Esteja à vontade; você está na casa de Deus, que é também a sua casa.»
A sua companheira apressou-se a querer explicar. Soube então que eram turistas oriundas do Egito, uma católica e a outra muçulmana. Não tardou muito que a nossa conversa passara da língua inglesa à árabe. Souberam então que eu não só não era o guarda de segurança nem tão pouco o cicerone do grande monumento religioso que elas visitavam.
«Mas não se preocupe», gracejou a Khadija que, entretanto, mais confiante, calçava as sandálias. Senti a sua delicadeza ao querer serenar-me pelo facto de eu não poder ser-lhes de ajuda completa na sua visita ao tão importante monumento. A sua amiga mostrou-me o livro-guia turístico da cidade de Viseu enquanto me dizia: aconteceria o mesmo connosco se um dia nos encontrássemos com turistas de visita às Pirâmides do Cairo, no Egito. Somente um perito cicerone ou o livro-guia poderia ser a ajuda de forma rigorosamente desejada, concluiu.
As duas senhoras continuaram o seu giro com calma e tranquilidade no interior da Sé. Para minha surpresa notei que o altar do Santíssimo Sacramento não fora para elas tão-somente um qualquer objecto de curiosidade turística. A minha admiração quedou-se já não tanto pela Mariam que eu via ajoelhada durante longos minutos em frente do referido altar mas, sobretudo, pela sua companheira muçulmana que a imitou em gesto profundo de adoração. Antes de sair quiseram ainda passar por mim, pedindo imensa desculpa por ter disturbado a minha oração. Mas distúrbio não tinha havido, absolutamente; pelo contrário, foi uma ocasião que fez reacender em mim a certeza da realidade que o nosso mundo de hoje, afinal, não está tão perdido e sem religião como se ouve banalmente dizer.
Não me sinto, todavia, de pôr um ponto final e ficar por aqui. Porque a verdade é que este episódio tinha sido somente o primeiro de entre outros naquela manhã em que fora privilegiadamente convidado a louvar a Deus. Turistas que deixavam transparecer uma fé não inferior à de qualquer devoto peregrino.
Foi o caso de um simpático grupo de umas duas dezenas de latino-americanos que febrilmente e com vivacidade se espalharam por toda a catedral, cochichando os seus comentários. A um certo momento, o notório e distinto chefe do grupo, com um simples gesto de autoridade reuniu toda a sua gente à volta do altar do Santíssimo Sacramento. Foi um espaço distinto onde vi muitos deles ajoelhar-se e, durante vários minutos, só se ouviu a música gregoriana que permeava todo e qualquer espaço recôndito da majestosa catedral.
Tinha passado meia hora sem que eu notasse a presença de mais alguém no interior do templo. Mas naquele momento tocou um telemóvel, destoando e ofendendo a beleza musical que seduzia o ouvido e o coração. Um homem levanta-se e atende em voz baixa o telefone, ao mesmo tempo que caminha a passos largos para a porta de saída. Minutos mais tarde, o fulano entra novamente e ajoelha-se no mesmo banco de antes. E ali ficou, imóvel.
Já estava a ser meio-dia. O guarda de segurança apareceu discretamente. «Desculpem, é hora de fechar», disse, com delicadeza.
Dirigi-me para a porta. O senhor do telemóvel destoante adiantou-se, esperando-me à saída. E, num português espanholado, falou: «Peço imensa desculpa.»
Sorri para ele. Depois de uma breve pausa, ele disse ainda com humildade: «Por el ruído del telefono.»
Já não há religião? Este mundo de hoje está perdido? Os testemunhos que acima referi não são histórias inventadas. Tenho-os como sinais enviados por Deus a sugerir-nos que há que colher e cultivar na nossa vida um certo optimismo e esperança. O mundo não está perdido. Não queiramos nós fazê-lo perder.
P. Feliz da Costa Martins
Missionário comboniano no Darfur, em férias em Viseu!
10 de julho de 2015
SINAIS
Surpreendeu-me um tweet do The Guardian, um diário laico de esquerda, a pedir estórias e fotos de freiras e monjas.
Encontrei a resposta para tal curiosidade numa notícia no The Independent: 45 mulheres entraram para a vida religiosa em 2014: 18 para conventos de clausura e 27 para congregações de vida ativa. O título é sugestivo: Descontentamento com vida moderna provoca pico em número de mulheres a entrar para conventos.
Razões? A Ir. Cathy Jones, promotora nacional de vocações para a vida religiosa no Secretariado Nacional das Vocações, disse ao diário londrino que o aumento vem «do crescimento de uma cultura das vocações na Igreja» através de fins-de-semana vocacionais mais atrativos e da presença dos religiosos em festivais da juventude.
O P. Christopher Jamison, diretor no Secretariado Nacional das Vocações da Conferência Episcopal de Inglaterra e Gales, diz que «há um vazio no mercado para o sentido na nossa cultura e uma das maneiras em que as mulheres podem encontrar aquele sentido é através da vida religiosa.»
O jornalista Pablo J. Ginés faz uma análise interessante deste surto de interesse pela vida consagrada em terras de sua majestade através de um artigo publicado no blogue Religión en libertad.
Nota que, em 2004, na Grã-Bretanha, sete mulheres entraram para a vida religiosa; em 2014 foram 45 mais uma dúzia de rapazes.
Aponta cinco razões para o fenómeno: as congregações voltaram às raízes e têm uma identidade mais clara; melhoraram o processo de acolhimento convidando sem pressionar e discernindo sem recrutar; organizam retiros, encontros e programas vocacionais em conjunto que motivam os jovens a empenhar-se por um mundo melhor, promovendo o discernimento e voluntariado; usam mais a internet e as redes sociais com páginas mais atrativas e de qualidade gráfica para oferecer experiências de ir e ver sem compromisso; a conferência episcopal preparou equipas de guias vocacionais, formadas por religiosos e leigos, através do Secretariado Nacional das Vocações, para convidar e acompanhar os jovens no discernimento vocacional.
Em Portugal também há alguns sinais interessantes. A CIRP encomendou à IPSOS-APEME uma Gramática da proximidade para a vida consagrada inserida no Barómetro da Vida Consagrada, uma das iniciativas para o Ano da Vida Consagrada.
O Dr. Carlos Liz, que dirige o estudo, apresentou os resultados das investigações do primeiro trimestre durante a Assembleia da CIRP em Abril em Fátima.
71% dos jovens dos 18 aos 34 anos considera-se «bastante ou relativamente interessado» pelo tema espiritualidade e religião, 50% afirma-se católico e 20% diz ser a-religioso. Os jovens vivem a sua espiritualidade visitando locais de culto quando viajam (75%) e através de filmes, séries e livros (70%). Só 30% dizem participar em cultos organizados.
Os jovens associam a expressão vida consagrada a votos e vida eclesial (29%) e a conceitos como vida realizada com felicidade e equilíbrio interior (16%) ligada a Deus e ao sagrado (12%).
O Dr. Liz disse aos superiores maiores que os religiosos não devem ter medo de propor os votos/consagração aos jovens porque o conceito tem «sex appeal».
Em tempos de vocações magras, estes são sinais que nos fazem viver o presente com dedicação, confiança e esperança.
O papa Francisco convida-nos a aprender a linguagem dos jovens e a encontrámo-los onde estão (Evangelii Gaudium 105). Este é o efeito-Francisco: para surfar a onde de simpatia global que o papa argentino está a gerar temos que sair de nós mesmos, das nossas «torres-de-marfim» e das nossas zonas de conforto, pegar na prancha da fé e fazer-nos ao mar-alto da juventude com alegria!
O papa é claro e provocante: «Para ser evangelizadores com espírito é preciso também desenvolver o prazer espiritual de estar próximo da vida das pessoas, até chegar a descobrir que isto se torna fonte duma alegria superior. A missão é uma paixão por Jesus, e simultaneamente uma paixão pelo seu povo» (Evagelii Gaudium 268).
Este é o caminho para a pastoral vocacional: ir ao encontro dos jovens onde estão através da linguagem que entendem – que é a linguagem deles. São nativos do digital: vivem e comunicam através das redes móveis e internet. Por isso, a net e sobretudo as redes sociais são espaços onde devemos estar cada vez mais presentes com qualidade.
Reitero a proposta do secretariado das vocações de usar as seis paróquias que servimos como uma plataforma para a pastoral vocacional juvenil. As equipas JIM querem colaborar nesse processo de cultura vocacional comboniana e é urgente usar as sinergias que geram!
Depois, cada comunidade comboniana devia ser um espaço «vinde ver», convidativo e aberto, que chama por atração, convidando os jovens a entrarem e estarem connosco num exercício de hospitalidade vocacional desinteressada.
A espiritualidade do Coração trespassado do Bom Pastor (João 19, 34) pode servir também de ícone para uma comunidade «vinde ver»: uma comunidade trespassada, aberta, em saída, um coração escancarado, uma torrente de «sangue e água» para a vida plena de todos (João 10, 10), um coração que sangra e sofre com os corações trespassados de hoje; um coração que alivia os fatigados e oprimidos (Mt 11, 28-30), que acolhe os que andam à procura de sentido para as suas vidas, uma irmandade de corações que entusiasmam e fascinam (Cfr. Evagelii Gaudium 106).
7 de julho de 2015
PROPOSTA DE DESCANSO E AVENTURA
A África atrai desde tempos imemoriais viajantes e aventureiros e oferece roteiros de férias tão diferentes quanto os seus 54 países.
Heródoto, o pai da História (nasceu onde é hoje a Turquia em 485 a. C. e morreu em 425 a. C.), fez ao Egipto a sua primeira viagem e também passou pela Líbia. O continente africano tem 120 sítios património da humanidade, dos quais 35 são naturais, 80 culturais e cinco de ambas as naturezas. Apesar das tragédias, continua de braços abertos para quem o quiser visitar.
A África está encaixada em quatro mares tão diferentes como os seus nomes: Mediterrâneo, Atlântico, Índico e Vermelho, salpicados de inúmeras ilhas exóticas e destinos românticos. O turista pode trabalhar para o bronze em extensas praias de águas mansas (Tanzânia, Quénia, Moçambique, Gâmbia, Gana...), visitar ruínas históricas nas horas quentes (Tunísia e Líbia), mergulhar com mais de 1000 espécies de peixes e 300 de corais (golfo de Aqaba, Egipto) ou com tubarões (África do Sul).
Para os amantes da Natureza, a oferta inclui as cataratas de Vitória, uma cortina majestosa de água com 1,7 quilómetros de comprimento e 108 metros de altura que liga a Zâmbia e o Zimbabué; os safaris onde os cinco grandes (leão, leopardo, rinoceronte, elefante e búfalo) convivem (Quénia, Tanzânia, África do Sul e Botsuana); a observação de gorilas nos montes Virunga, entre a República Democrática do Congo, Ruanda e Uganda; viagens de balão sobre a planície de Serengeti (partilhada pela Tanzânia e Quénia) para seguir as migrações dos gnus; imersões étnicas no Vale do Omo, na Etiópia, lar para umas 50 tribos com formas de vida primordiais.
De entre os lugares históricos, destacam-se as pirâmides de Gizé (Egipto) e a vizinha Esfinge com mais de 5000 anos. Mas também há pirâmides mais pequenas e templos antigos em Méroe, no Sudão. A cidade de Djenné, no Mali, começou a ser habitada há 2265 anos e tem uma mesquita medieval impressionante. As grandes ruínas do Zimbabué, com mais de 1000 anos, afirmam a grandeza da civilização banta.
A Etiópia oferece quatro destinos património da humanidade: Axum (ruínas do palácio imperial, estelas e túmulos do século VI), Harar (a quarta cidade santa do Islão, construída no século XIII), as 11 igrejas de Lalibela (talhadas na rocha no mesmo século) e os Castelos de Gondar (construções indo-portuguesas dos séculos XVI e XVII).
O Forte de Jesus (construído no século XVI em Mombaça, Quénia), a Ilha de Moçambique (do mesmo século) e a cidade velha de Ribeira Grande (do século XVIII em Cabo Verde) são alguns dos marcos deixados pelos Portugueses no continente africano com o forte de Elmina (construído em 1482 no Gana), a cidade de Mazagão (em Marrocos) e duas pontes na Etiópia.
Os amantes da montanha também têm muitos percursos e escaladas possíveis desde a cordilheira dos Atlas (4167 metros) aos montes Simien na Etiópia (4450 metros), Kilimanjaro, na Tanzânia (o tecto de África, com 5896 metros), monte Quénia (5199 metros), Rwenzori ou monte da Lua no Uganda (5109 metros) e Drakensberg ou monte do Dragão, na África do Sul (3482 metros).
Os mercados são destinos exóticos pela combinação de cores, aromas e artesanato. Os bazares de Fez e Marraquexe (em Marrocos), do bairro do Cairo islâmico (no Egipto), Merkato de Adis-Abeba (na Etiópia, o maior mercado africano ao ar livre) e o mercado de Zanzibar (Tanzânia) são referências cimeiras.
Os amantes de férias radicais podem tentar a mítica ligação Cairo-Cabo em duas e quatro rodas, saltar com cordas de 111 metros da ponte das Cataratas de Vitória (bangee) ou fazer a caravana do sal de Tombuctu a Toudenni, no deserto do Mali, em 40 dias de camelo. Muitos rios africanos têm trechos de sonho para a prática de canoagem e rafting para os viciados em adrenalina.
Aqui ficam alguns indicadores para umas férias diferentes num continente que tem o lindo costume de se exceder na arte da hospitalidade.
2 de julho de 2015
LOUVADO SEJAS
Laudo si’, Louvado sejas, a segunda carta encíclica do Papa Francisco, é um documento inovador e cheio de surpresas sobre o cuidado que a casa comum requer.
O seu coração palpita no nº 139: «Quando falamos de “meio ambiente”, fazemos referência também a uma particular relação: a relação entre a natureza e a sociedade que a habita. Isto impede-nos de considerar a natureza como algo separado de nós ou como uma mera moldura da nossa vida. Estamos incluídos nela, somos parte dela e compenetramo-nos. [...] É fundamental buscar soluções integrais que considerem as interações dos sistemas naturais entre si e com os sistemas sociais. Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise sócio-ambiental. As diretrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza.»
Esta é a primeira novidade a sublinhar: Francisco propõe uma «ecologia integral» que inclua o meio ambiente e as pessoas, sobretudo os mais pobres: a pobreza e a degradação ambiental andam de mãos dadas e não se pode resolver uma se solucionar a outra.
Mas o Papa argentino brinda-nos com muitas mais surpresas.
Normalmente, os documentos papais têm um título em latim formado pelas duas ou três palavras de abertura. Louvado sejas tem um título em italiano: Laudato si’, do Cântico das Criaturas de Francisco de Assis a quem foi buscar o nome e a inspiração.
Os documentos papais são habitualmente endereçados aos bispos, aos padres, aos consagrados e aos fiéis. Às vezes os homens de boa vontade também são incluídos entre os destinatários. Louvado sejas não é dedicado a ninguém em particular, é uma encíclica católica no seu sentido mais extenso: é para todas as pessoas que habitam a casa comum.
Mas há mais! As notas de fim de página quer pela posição quer pelo corpo da letra – normalmente mais pequena que o do texto – passam facilmente despercebidas. As 172 notas que pontuam a Louvado sejas revelam uma encíclica ecuménica e colegial.
Francisco integra no «magistério social da Igreja» (nº 15) os ensinamentos do Patriarca Ecuménico Bartolomeu, de 19 conferências episcopais continentais, nacionais (incluindo a portuguesa na nota 124) e regionais; faz uma chamada para Ali al Khawwas (nota 159), um pensador muçulmano, e cita dois documentos seculares: Declaração do Rio (1992) e Carta da Terra (2000).
O grosso das citações, contudo, vem do magistério do Santo Padre João Paulo II (39), de Bento XVI (28), do próprio Papa Francisco (18) que remete frequentemente para a exortação Evangelii Gaudium, A alegria do Evangelho, o documento programático do seu pontificado.
São Basílio Magno, São Justino, São João XXIII, Beato Paulo VI, São Tomás de Aquino, São Boaventura, São João da Cruz, Dante (o génio da literatura italiana), Tomás de Celano, historiógrafo de Francisco de Assis, o pensador francês Paul Ricoeur e o teólogo católico Romano Guardini também são fontes de inspiração para o Papa argentino.
Cita alguns documentos do Concílio Vaticano II, do Pontifício Conselho Justiça e Paz, o Catecismo da Igreja Católica e o Documento de Aparecida.
Ao contrário dos seus antecessores, Francisco não se cita continuamente, mas dialoga com todas as avenidas do pensamento humano, religiosas e seculares, na procura de alternativa à cultura do consumismo e do descarte.
A própria apresentação da encíclica aos jornalistas, a 18 de junho, trilhou terrenos novos. O cardeal ganês Peter Turkson fez a apresentação geral do documento, seguido pelas intervenções de um leigo e duas leigas que apresentaram as respetivas leituras da Louvado sejas a partir das suas perspetivas profissionais.
Pena foi que alguns cardeais e bispos das cadeiras da frente se tivessem ido embora quando a primeira mulher começou a apresentar a sua reflexão.
A estrutura da encíclica segue o modelo do ver, julgar e agir, um sistema analítico que a América Latina ofertou ao mundo.
Os capítulos I e II fazem o ponto da situação ecológica vis-à-vis com a proposta bíblica; os capítulos III e IV denunciam a raiz humana da crise ecológica e propõem uma ecologia integral; e os capítulos V e VI apresentam linhas de orientação e ação, e uma educação e espiritualidade ecológicas.
O Papa avalia a questão ecológica integrando diversas perspetivas do saber, e faz propostas muito concretas para uma ecologia integral que conjugue os fatores ambientais, económicos e sociais através do repensar dos modelos de desenvolvimento, produção e consumo no cuidar da casa comum de que todos somos condóminos.
Propõe o uso de transportes públicos (nº 153), grandes «percursos de diálogo» que nos tirem da espiral de destruição (nº 163), substituição dos combustíveis fósseis (nº 165), uma nova gestão internacional dos oceanos (nº 175), uma baixa de consumo dos países ricos (nº 193), conversão de modelos de desenvolvimento global (nº 196), diálogo inter-religioso para enfrentar a crise ecológica (nº 201).
Aponta ainda uma cidadania ecológica através da educação para um estilo de vida sustentável.
«A educação na responsabilidade ambiental pode incentivar vários comportamentos que têm incidência direta e importante no cuidado do meio ambiente, tais como evitar o uso de plástico e papel, reduzir o consumo de água, diferenciar o lixo, cozinhar apenas aquilo que razoavelmente se poderá comer, tratar com desvelo os outros seres vivos, servir-se dos transportes públicos ou partilhar o mesmo veículo com várias pessoas, plantar árvores, apagar as luzes desnecessárias…» escreve no nº 211.
Já perto do fim, o papa argentino faz uma ligação profunda entre a paz interior e atitude ecológica, muito próxima do conceito bíblico de shalom, paz, harmonia : «A paz interior das pessoas tem muito a ver com o cuidado da ecologia e com o bem comum, porque, autenticamente vivida, reflete-se num equilibrado estilo de vida aliado com a capacidade de admiração que leva à profundidade da vida. A natureza está cheia de palavras de amor», anota no nº 225.
Francisco pede uma atitude de coração atenta e plenamente presente como caminho para uma ecologia integral.
«Jesus ensinou-nos esta atitude, quando nos convidava a olhar os lírios do campo e as aves do céu, ou quando, na presença dum homem inquieto, «fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele» (Mc 10, 21). De certeza que Ele estava plenamente presente diante de cada ser humano e de cada criatura, mostrando-nos assim um caminho para superar a ansiedade doentia que nos torna superficiais, agressivos e consumistas desenfreados» (nº 226).
Boa leitura da Louvado sejas!
1 de julho de 2015
FASE 1 CUMPRIDA
A Comissão Pré-capitular concluiu a primeira fase dos trabalhos para preparar o XVIII Capítulo Geral dos Missionários Combonianos que vai decorrer de 6 de setembro a 4 de outubro na Casa Generalícia em Roma.
A reunião magna do Instituto vai congregar 67 capitulares e 10 observadores que vão rever o último sexénio, preparar o programa para os próximos seis anos e escolher um Conselho Geral que o execute.
«Discípulos Missionários Combonianos chamados a viver a alegria do Evangelho no mundo de hoje» é o tema inspirativo.
Os oito membros da Comissão reviram os Estatutos do Capítulo e prepararam o documento de trabalho intitulado Síntese Temática para o Discernimento.
Para tal leram as relações da Direção Geral, dos continentes e das circunscrições mais os contributos enviados por confrades individualmente e por grupos.
Tentaram valorizar ao máximo os materiais enviados e de facilitar o processo capitular que vai continuar reunindo todos os capitulares a partir de 31 de agosto.
Durante os últimos dez dias, a comissão terminou a Síntese Temática para o Discernimento, ajustou a proposta de programa do Capítulo e traduziu os diversos materiais em inglês e espanhol, que, com o italiano, são as línguas oficiais do Capítulo.
O programa da Semana de Preparação para o Capítulo, que decorre de 31 de agosto a 4 de setembro, também está pronto.
Tem três vertentes: um dia para a apresentação dos capitulares e delegados; dois dias com Dom Marcello Semeraro – bispo de Albano e secretário do Grupo de Cardeais Consultores do Papa – que vai fazer duas reflexões e um retiro sobre A Alegria do Evangelho, e dois dias para um primeiro contacto com a proposta de andamento do Capítulo, Estatutos e Síntese Temática para o Discernimento.
A Comissão também concelebrou com o Papa Francisco a missa do Corpo e Sangue de Cristo na esplanada da Basília de São João de Laterão e fez uma manhã de retiro para rezar a proposta de documento de trabalho.
Os oito elementos da comissão voltam a Roma a 23 de agosto para ultimar os preparativos e receber os capitulares.
23 de junho de 2015
IMIGRANTES
Os imigrantes são notícia diária em Itália. Ou porque foram remidos às ondas do mar, apinhados em embarcações precárias. Ou porque foram recambiados pela França, Suíça ou Áustria porque não têm papeis. Ou porque vivem em condições miseráveis nas rochas da praia que separa a França da Itália ou nas estações centrais de principais do país à espera de uma viagem para o sonhado Norte da Europa.
Arrepia a alma e faz revolver as entranhas tanto sofrimento e tanta indiferença!
A Itália, com ilhas junto à Líbia, é a porta mais à mão da fortaleza Europa. Mas a maioria não quer ficar na «bota» italiana até porque as possibilidades de trabalho já foram tomadas pelos que chegaram mais cedo.
Os imigrantes pedem o direito de livre circulação para ir para norte para a Alemanha, Suécia e países vizinhos.
A Suíça, a Áustria e a França blindaram as fronteiras e recambiam para a Itália todos os indocumentados que apanham a tentar passar a pé através dos antigos trilhos do contrabando, de autocarro ou comboio.
Em Ventimigla, na fronteira costeira com a França, houve confrontos violentos entre a polícia e os imigrantes que esperam uma abertura para entrar na pátria da liberdade, igualdade e fraternidade de outros tempos.
O presidente italiano Sergio Mattarella pede acolhimento e solidariedade para quem foge da guerra e da fome.
O papa Francisco pediu perdão pelas pessoas e instituições «que fecham a porta a esta gente que procura vida, uma família, que procura custódia.»
Matteo Salvini, líder da extrema direita italiana, responde ao papa que não precisa de ser perdoado.
Aliás, a extrema direita agitou o fantasma da insegurança causada pelos imigrantes durante a campanha eleitoral para as eleições locais que decorreu há três semanas.
O papa propõe que em junho rezemos para que os imigrantes e refugiados sejam acolhidos e respeitados nos países onde chegam.
«Rezemos por tantos irmãos e irmãs que procuram refúgio longe da sua terra, que procuram uma casa onde possam viver sem medo para que sejam respeitados na sua dignidade», rogou o papa na audiência geral de quarta-feira passada.
16 de junho de 2015
APADRINHAMENTOS
© CGomes
A proposta foi apresentada aos participantes da Semana de Estudos da Vida Consagrada pelo comboniano P. Claudino Ferreira Gomes, que visitou a a região em dezembro e janeiro.
A assembleia-geral da CIRP, a Conferência de Institutos Religiosos de Portugal, fez seu o gesto solidário em abril.
O P. Artur Teixeira, presidente da CIRP, anunciou que a Conferência, depois de recolher donativos junto dos membros, decidiu pagar o curso de 11 irmãs, cinco irmãos e sete leigos/as que frequentam Ciências Religiosas nas Faculdades Africanas Bakhita da diocese de Butembo-Beni.
Cada curso curta 1500 euros e a CIRP já enviou 11.500 para pagar o primeiro ano dos 23 bolseiros.
O P. Artur Teixeira, presidente da CIRP, anunciou que a Conferência, depois de recolher donativos junto dos membros, decidiu pagar o curso de 11 irmãs, cinco irmãos e sete leigos/as que frequentam Ciências Religiosas nas Faculdades Africanas Bakhita da diocese de Butembo-Beni.
Cada curso curta 1500 euros e a CIRP já enviou 11.500 para pagar o primeiro ano dos 23 bolseiros.
A universidade comprometeu-se a enviar a ficha de cada bolseiro juntamente com a informação semestral sobre o seu aproveitamento escolar.
O número de bolseiros pode aumentar.
A diocese de Butembo tem um grande número de vocações locais e de leigos dispostos a trabalhar na pastoral mas falta-lhe os recursos financeiros para os formar.
Os apadrinhamentos são um gesto de comunhão para celebrar o Ano da Vida Consagrada.
3 de junho de 2015
COMISSÃO PRÉ-CAPITULAR
O superior geral, P. Enrique Sánchez, agradeceu a disponibilidade dos membros. Pediu que se concentrem no trabalho, pondo de lado outras preocupações.
Os membros do Conselho Geral apresentaram os termos de referência para a agenda de trabalhos.
A Comissão Pré-capitular é composta por oito membros: três superiores de circunscrição (da RD Congo, Chade e Portugal) e cinco delegados ao Capítulo (padres representantes do México, Brasil, Egito-Sudão e Espanha e um irmão da Itália).
Cabe à comissão rever os Estatutos do Capítulo, e elaborar o instrumento de trabalho e delinear o esboço do programa da reunião magna sexenal do Instituto.
Além disso, tem que compilar todos os documentos relacionados com o Capítulo (relações das circunscrições, da direção geral e dos continentes bem como contributos pessoais e coletivos enviadas pelos confrades) para os colocar à disposição dos capitulares.
Cabe-lhe também rever questões relacionadas com a logística do evento e com a semana de preparação do mesmo que decorre de 31 de Agosto a 4 de Setembro.
A comissão já terminou a análise dos Estatutos e começou a ler as relações enviadas ao Capítulo.
Hoje, começa um trabalho de dois dias com o Ir. Enzo Biemmi, facilitador do Capítulo, para acertar metodologias de trabalho.
A comissão espera ter o trabalho concluído dentre quatro a seis semanas.
O XVIII Capítulo Geral dos Missionários Combonianos decorre de 6 de Setembro a 4 de Outubro na casa generalícia em Roma sob o tema inspirador «Discípulos missionários combonianos, chamados a viver a alegria do Evangelho no mundo de hoje.»
O ato magno de governo do Instituto analisa o caminho feito nos últimos seis anos, prepara um programa geral para o próximo sexénio e escolhe a equipa (Conselho Geral) que o vai executar.
2 de junho de 2015
#todossomospessoas
Grupos católicos reagiram com indignação ao cinismo dos políticos que vêem o Mediterrâneo como fosso anacrónico da Fortaleza Europa.
Doze grupos católicos organizaram a acção #todossomospessoas a 26 de Abril, um murro na mesa da indiferença, para denunciar a morte de quase 900 pessoas afogadas no Mediterrâneo, uma semana antes, quando uma traineira se afundou com a maioria dos passageiros fechada nos porões.
O Papa Francisco pediu decisão e rapidez aos líderes europeus para travarem a tragédia sucessiva que matou 5200 pessoas nos últimos 15 meses. As vítimas «são homens e mulheres como nós, irmãos que procuram uma vida melhor, famintos, perseguidos, feridos, explorados, vítimas de guerras. Procuram uma vida melhor, procuravam a felicidade», afirmou o papa argentino.
O cardeal alemão Reinhard Max, que preside à Comissão dos Episcopados da União Europeia, declarou que «esta nova catástrofe no Mediterrâneo constitui uma derrota para tudo o que faz da União Europeia uma comunidade de valores».
O Conselho Europeu respondeu ao clamor da opinião pública disponibilizando nove milhões de euros por mês para patrulhar as fronteiras mediterrânicas e ajudar a Tunísia, Sudão e Egipto a cortarem o acesso à Líbia. É de lá que embarcam 90 por cento dos imigrantes que usam o mar para chegarem ao sonho europeu. As rotas terrestres que vão desaguar à costa líbia nascem no Gana, Nigéria, Níger, Mali, Marrocos, Argélia, Somália, Eritreia, Egipto...
Também decidiu destruir embarcações que possam ser usadas por traficantes e colocar agentes da Europol no terreno para desmantelar as redes de tráfico humano.
A resposta foi rápida mas é curta! Os líderes europeus insistem numa resposta securitária em vez de gizarem um plano humanitário que tenha em conta as situações de morte e pobreza que empurram os imigrantes para a Europa.
A Organização Internacional das Migrações contabilizou 1750 mortes no Mediterrâneo nos primeiros quatro meses de 2015, um número 30 vezes maior que no ano anterior. Nessa altura, a Itália tinha de pé a operação Mare Nostrum para patrulhar o mar e socorrer os náufragos junto à costa africana. A missão era cara e a comunidade dos 28 não quis pagar a fatura. Foi substituída pela operação Triton, que trouxe a intervenção militar para junto da costa italiana e um aumento exponencial de naufrágios e afogamentos.
Depois, quem semeia ventos colhe tempestades: os dirigentes ocidentais foram lestos no apoio à queda do regime do coronel Muamar Kadhafi, desresponsabilizando-se porém das consequências do vazio do poder. Agora o país está nas mãos das milícias e do Estado Islâmico.
Em 2014, 218 mil pessoas chegaram à Europa através do Mediterrâneo. O negócio do transporte de imigrantes ilegais gera entre 300 e 600 milhões de euros por ano. É controlado por uma parceria que junta traficantes internacionais, milícias líbias e o crime organizado italiano. Uma só embarcação pode render 80 mil euros aos passadores.
O Serviço Jesuíta aos Refugiados-Portugal teme que as tragédias no Mediterrâneo cresçam em número e gravidade e pede uma resposta «urgente e rápida» aos 28 Estados-membros da União Europeia.
O organismo católico propõe que as operações de resgate no Mediterrâneo sejam alargadas e que a vida humana se sobreponha aos imperativos de segurança. Sugere a criação de corredores seguros e legais de acesso à União Europeia, incluindo a distribuição de vistos humanitários e o combate ao tráfico de pessoas. Pede também mais solidariedade efectiva e responsabilidade entre os Estados-membros da União para acolher e integrar os imigrantes.
A resposta às tragédias constantes nas águas mansas do Mediterrâneo também passa por aí!
29 de maio de 2015
INFLUENTE
© JVieira
A revista Time colocou um médico-voluntário católico norte-americano entre as 100 pessoas mais influentes no mundo em 2015.
Tom Catena, 50 anos, está incluído na lista de 21 personalidades pioneiras lado a lado com artistas, astronautas, cientistas, ativistas políticos, atores, feministas, escritores, transexuais e jornalistas.
O Dr. Tom – como todos lhe chamam – dirige o Hospital Mãe da Misericórdia, nos Montes Nuba, sul do Sudão, desde 2008.
Conheci-o dois anos depois quando fui a Gidel fazer uma formação aos jornalistas da rádio local.
Parco em palavras, leva uma vida austera de monge. Vem para a missa das sete já com as roupas do hospital, para iniciar logo o trabalho: consultas e cirurgias.
Faz mais de mil operações por ano ao som de música: uma escolha eclética que inclui trechos clássicos, gospel, rock & roll, country e baladas.
O hospital, construído pela diocese sudanesa de El Obeid, com o empenho do bispo comboniano Macram Max, tem 350 camas e serve cerca de 700 mil pessoas.
O governo de Cartum proíbe o trabalho de ONGs nos montes Nuba e continua a bombardear impiedosamente a região ano após ano desde abril de 2012.
Nuba Reports contou já 3740 bombas largadas de aviões militares contra alvos civis.
O jornalista que traçou o perfil do Dr. Tom chama-lhe santo. Um santo dedicado a Jesus e ao povo nuba que serve através da medicina.
Quando vai aos Estados Unidos não para de denunciar o genocídio dos árabes de Cartum contra os negros dos Montes Nuba.
Cartum sabe que o Dr. Tom é uma voz incómoda. Tentou calá-la em Maio de 2014 com um ataque de dois MIGs ao hospital. O seu quarto ficou bastante danificado mas o doutor estava nas trincheiras com pessoal e pacientes.
O Dr. Tom diz que sente paz quando vem do serviço e isso basta-lhe.
Desafia o perigo em Gidel com um grupo de irmãs combonianas – que trabalham com ele no hospital, na rádio, na pastoral e na educação – e dois padres africanos. Gente dedicada, os meus heróis!
26 de maio de 2015
G3 PORTUGUESAS MATAM NO SUDÃO DO SUL
Small Arms Survey encontrou metralhadoras ligeiras de fabrico português entre o armamento apreendido pela Missão das Nações Unidas para o Sudão do Sul (UNMISS) em Malakal e Nasir.
O organismo publicou um relatório a 22 de Maio intitulado «Weapons destroyed by UNMISS in Malakal, Upper Nile, December 2014» (Armamento destruídos pela UNMISS em Malakal, Nilo Superior, Dezembro 2014).
As forças da UNMISS desarmaram civis que procuraram refúgio em campos de proteção nas cidades de Bentiu, Pariang, Malakal, Nasir, Wau e Bor.
O relatório identifica G3 fabricadas na antiga fábrica de Braço de Prata entre 134 armas destruídas em Malakal.
O batalhão indiano a servir na força da ONU em Malakal destruiu as armas a 12 de Dezembro.
O relatório indica que a maioria das armas eram metralhadoras ligeiras do tipo AK 47 com origem na antiga União Soviética, Bulgária, Polónia e China.
As metralhadoras G3 apreendidas em Malakal foram fabricadas em Portugal e Irão.
Uma das G3 na imagem tinha a referência G3FMP025040, indicando ter origem na Fábrica Militar Portuguesa (FMP) de Braço de Prata.
Também havia armamento alemão (pistolas e metralhadoras)entre o armamento destruído.
A guerra civil voltou ao Sudão do Sul a 15 de Dezembro de 2013 quando soldados de origem dinca e nuer da guarda presidencial se envolveram em combates em Juba.
Nos últimos 18 meses mais de um milhão e meio de pessoas, incluindo 802 mil crianças, foram deslocadas pelos combates nos estados de Jonglei, Upper Nile e Unity. Outros 500 mil procuraram refúgio nos países vizinhos.
Não há números para as vítimas do conflito político e étnico, mas as estimativas apontam para mais de 50 mil mortos.
A Missão Press, Associação da Imprensa Missionária, denunciou em 2002 que Portugal era uma placa giratória no tráfico de armas ligeiras para a África.
A iniciativa das revistas missionárias recolheu mais de 95 mil assinaturas a pedir que Assembleia da República legislasse sobre a matéria.
Small Arms Survey é uma organização não-governamental suíça que se dedica à investigação do uso de armas ligeiras.
22 de maio de 2015
PREPARAÇÃO DO CAPÍTULO
Os representantes das circunscrições combonianas europeias ao Capítulo estão reunidos para preparar a participação na assembleia magna da congregação missionária.
Cinco provinciais, 12 delegados capitulares e o vigário-geral estão em Limone, no norte de Itália, de 20 a 26 de maio para se preparar para o XVIII Capítulo Geral com a ajuda de alguns especialistas.
O XVIII Capítulo Geral está agendado para Roma de 6 de Setembro a 4 de Outubro sob o tema «Discípulos Missionários Combonianos chamados a viver a alegria do Evangelho no mundo de hoje.»
Limone, alcandorada na margem do Lago Garda, é a terra natal de São Daniel Comboni, o fundador da família comboniana.
Os participantes começaram por apresentar as relações que as respetivas circunscrições prepararam para o Capítulo.
O teólogo Carmelo Dotolo conduziu uma jornada de reflexão sobre o tema «Os combonianos e a Evangelii gaudium», a exortação apostólica do Papa Francisco que dá o mote para o XVIII Capítulo Geral.
Enzo Biemmi, facilitador do evento, ajudou os capitulares europeus a entrar no espírito do Capítulo e nas mudanças propostas às dinâmicas do evento.
Os participantes estão também analisar os novos estatutos do Capítulo.
No domingo, visitam a comunidade de Bressanone, no Alto Adige, a segunda casa histórica dos Combonianos na Itália, iniciada em 1895.
A casa-mãe foi aberta em Verona em 1892.
A assembleia dos capitulares da Europa termina com a elaboração de algumas propostas concretas a apresentar ao Capítulo Geral.
O Capítulo é assembleia magna da congregação, celebrada cada seis anos.
Avalia o percurso feito pelo Instituto nos seis anos anteriores, lança o programa para o sexénio seguinte e elege o Conselho Geral que o vai executar.
16 de maio de 2015
PARA A VIDA DO MUNDO
©
AMaravilha
1. A festa da Ascensão do Senhor é a festa da nossa missão. Jesus regressa ao Pai – «está sentado à sua direita» – e passa-nos o testemunho: «Como o Pai me enviou também eu vos envio a vós» (João 20, 21). Mas o ator principal da evangelização do mundo é o Espírito Santo: «Recebereis a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas […] até aos confins da terra» (Actos 1, 8).
2. A Igreja nasce do regresso de Jesus ao Pai através da vinda do Espírito Santo para sair pelos caminhos do mundo e da vida.
No princípio da criação, o Espírito pairava sobre as águas. No princípio da Igreja o Espírito paira sobre todos os discípulos para ir, sair da zona de conforto, dos medos, das seguranças e fazer-se ao mundo inteiro para pregar a boa nova que temos um Pai comum que quer bem a toda a criação: não só às pessoas mas a todos os seres, «a toda a criação [que] geme e sofre as dores de parto até ao presente» (Romanos 8, 22).
A missão da Igreja é cósmica, o seu campo de evangelização é o universo inteiro. Pregamos o evangelho a toda a criatura através de vidas sóbrias, simples e saudáveis, combatendo o consumismo, a poluição, o uso incontido dos bens da terra.
Quando calcorreava os caminhos das montanhas da Etiópia e me cruzava com uma cobra perguntava como lhe poderiam pregar a boa nova… A ecologia é parte essencial da ética cristã.
Todas as nossas decisões diárias, por mais simples e individuais que sejam, têm um efeito no todo, nas pessoas e no meio ambiente.
3. Jesus nota que ir e pregar leva ao crer e à salvação. Esta é a responsabilidade de cada cristão: se não anunciar, se não viver a fé, se não a testemunhar está a negar a outros os caminhos da salvação.
Daí a expressão do Papa Francisco na Exortação Apostólica A alegria do Evangelho: «Todos somos chamados a dar aos outros o testemunho explícito do amor salvífico do Senhor, que, sem olhar às nossas imperfeições, nos oferece a Sua proximidade, a Sua Palavra, a Sua força, e dá sentido à nossa vida» (EG 121)
4. Jesus fala dos milagres da pregação: curas, novas línguas, redimir o mal. Estes milagres são de hoje, são o testemunho da presença do Senhor ressuscitado na comunidade evangelizadora, presença que ajuda os missionários do amor do Pai a superar as dificuldades do ambiente, da saúde, a aprender as línguas para anunciarem o amor de Deus, sobretudo a linguagem do amor encarnado.
Mas o maior milagre dá-se no coração do anunciador porque a bela e boa nova da salvação é também nova boa e bela para si! O seu coração é o laboratório da graça. Daí a advertência de São Daniel Comboni nas Regras do Instituto para as Missões da Nigrícia de 1871: «Com os olhos postos unicamente no seu Deus, que lhe serve de impulso, [o missionário] tem em todas as circunstâncias com que nutrir-se e alimentar abundantemente o seu coração» (Escritos, par. 2702).
5. A celebração da primeira profissão religiosa na solenidade da Ascensão sinaliza, numa coincidência feliz, a ligação permanente entre consagração e missão. A Regra de Vida dos Missionários Combonianos assinala-a no nº 10: «Os Missionários Combonianos do Coração de Jesus são uma comunidade de irmãos chamados por Deus e a Ele consagrados mediante os conselhos evangélicos de castidade, pobreza e obediência, para o serviço missionário no mundo, segundo o carisma de Daniel Comboni.»
Somos consagrados para o serviço missionário. Os conselhos evangélicos de castidade, pobreza e obediência não nos fecham na concha da virtude rigorista e satisfeita, auto-referencial, mas abrem-nos à missão através da vulnerabilidade: o missionário é casto para amar a todos e a todas de coração inteiro; pobre para partilhar; obediente para discernir em comunidade o projeto concreto de Deus para a realidade onde vive!
6. O P. Manuel João Correia escreveu na Além-Mar de Maio: «A vida consagrada tem por missão ser testemunha da beleza da gratuidade do amor (numa sociedade onde predomina o interesse e o proveito), da pureza do amor (num mundo onde tudo é comercializável e se pode vender e comprar), da força do amor (num regime de generalizada e acrítica adaptação à ideologia dominante).»
7. Jesus veio «para que tenham vida e a tenham em abundância» (João 10, 10). A missão evangelizadora da Igreja insere-se neste movimento de revitalização – São Daniel Comboni chamar-lhe-ia regeneração – do mundo marcado pelo individualismo narcisista globalizado.
A profissão evangélica da castidade, pobreza e obediência como modo de vida é a fonte da nossa fecundidade apostólica: a vida que recebemos de Jesus casto, pobre e obediente para ser repartida com todos a começar pelos mais pobres e abandonados de hoje.
8. As bênçãos de Deus para o Mateus e o Quisito! Que os conselhos evangélicos que ides professar pela primeira vez por um ano sejam por toda a vida para o serviço missionário da Igreja através da Congregação comboniana que vos recebe com muita alegria como irmãos mais novos!
3. Jesus nota que ir e pregar leva ao crer e à salvação. Esta é a responsabilidade de cada cristão: se não anunciar, se não viver a fé, se não a testemunhar está a negar a outros os caminhos da salvação.
Daí a expressão do Papa Francisco na Exortação Apostólica A alegria do Evangelho: «Todos somos chamados a dar aos outros o testemunho explícito do amor salvífico do Senhor, que, sem olhar às nossas imperfeições, nos oferece a Sua proximidade, a Sua Palavra, a Sua força, e dá sentido à nossa vida» (EG 121)
4. Jesus fala dos milagres da pregação: curas, novas línguas, redimir o mal. Estes milagres são de hoje, são o testemunho da presença do Senhor ressuscitado na comunidade evangelizadora, presença que ajuda os missionários do amor do Pai a superar as dificuldades do ambiente, da saúde, a aprender as línguas para anunciarem o amor de Deus, sobretudo a linguagem do amor encarnado.
Mas o maior milagre dá-se no coração do anunciador porque a bela e boa nova da salvação é também nova boa e bela para si! O seu coração é o laboratório da graça. Daí a advertência de São Daniel Comboni nas Regras do Instituto para as Missões da Nigrícia de 1871: «Com os olhos postos unicamente no seu Deus, que lhe serve de impulso, [o missionário] tem em todas as circunstâncias com que nutrir-se e alimentar abundantemente o seu coração» (Escritos, par. 2702).
5. A celebração da primeira profissão religiosa na solenidade da Ascensão sinaliza, numa coincidência feliz, a ligação permanente entre consagração e missão. A Regra de Vida dos Missionários Combonianos assinala-a no nº 10: «Os Missionários Combonianos do Coração de Jesus são uma comunidade de irmãos chamados por Deus e a Ele consagrados mediante os conselhos evangélicos de castidade, pobreza e obediência, para o serviço missionário no mundo, segundo o carisma de Daniel Comboni.»
Somos consagrados para o serviço missionário. Os conselhos evangélicos de castidade, pobreza e obediência não nos fecham na concha da virtude rigorista e satisfeita, auto-referencial, mas abrem-nos à missão através da vulnerabilidade: o missionário é casto para amar a todos e a todas de coração inteiro; pobre para partilhar; obediente para discernir em comunidade o projeto concreto de Deus para a realidade onde vive!
6. O P. Manuel João Correia escreveu na Além-Mar de Maio: «A vida consagrada tem por missão ser testemunha da beleza da gratuidade do amor (numa sociedade onde predomina o interesse e o proveito), da pureza do amor (num mundo onde tudo é comercializável e se pode vender e comprar), da força do amor (num regime de generalizada e acrítica adaptação à ideologia dominante).»
7. Jesus veio «para que tenham vida e a tenham em abundância» (João 10, 10). A missão evangelizadora da Igreja insere-se neste movimento de revitalização – São Daniel Comboni chamar-lhe-ia regeneração – do mundo marcado pelo individualismo narcisista globalizado.
A profissão evangélica da castidade, pobreza e obediência como modo de vida é a fonte da nossa fecundidade apostólica: a vida que recebemos de Jesus casto, pobre e obediente para ser repartida com todos a começar pelos mais pobres e abandonados de hoje.
8. As bênçãos de Deus para o Mateus e o Quisito! Que os conselhos evangélicos que ides professar pela primeira vez por um ano sejam por toda a vida para o serviço missionário da Igreja através da Congregação comboniana que vos recebe com muita alegria como irmãos mais novos!
NEOPROFESSOS
© AMaravilha
Os noviços Mateusz Adam Poreba, 23, da Polónia, e Quisito Orlando Veloso, 26, de Moçambique, professaram uma vida de castidade, pobreza e obediência segundo a Regra de Vida dos Missionários Combonianos.
O padre Gianni Gaiga, representante do vigário-geral para a Polónia, presidiu à celebração.
Estiveram presentes na festa muitos vizinhos do Jardim de Cima, missionários e missionárias membros dos quatro ramos da família comboniana, representantes das comunidades de Gualdim, Santarém, Lamorosa, Telhal, Maia e VN Famalicão, locais onde os noviços viveram as diversas fases do noviciado.
Os neoprofessos, numa mensagem conjunta, descreveram a primeira profissão religiosa como «dia com Cristo e com a Igreja.»
Reconheceram que não foi por mérito próprio que chegaram a «este dia impar» e que a caminhada não foi «tudo mel: houve muitas alegrias e também tristezas.»
O Quisito recordou que perdeu ambos os pais em Moçambique enquanto fazia o noviciado em Santarém.
Deixaram uma mensagem singela: «Somente temos a dizer-vos algo: alegrai-vos sempre no Senhor!»
E foi o que aconteceu depois da celebração com um lanche-convívio oferecido e partilhado pelos participantes.
O Quisito, depois de umas férias em Moçambique, vai terminar o curso de teologia em São Paulo, Brasil, enquanto o Mateusz, depois de um tempo na Polónia, ruma a Nairobi, Quénia, para o mesmo fim.
Os quatro noviços do primeiro ano – três moçambicanos e um português – continuam a sua formação com as experiências pastorais e de trabalho em Lamarosa, Telhal, Maia e VN Famalicão.
Deixaram uma mensagem singela: «Somente temos a dizer-vos algo: alegrai-vos sempre no Senhor!»
E foi o que aconteceu depois da celebração com um lanche-convívio oferecido e partilhado pelos participantes.
O Quisito, depois de umas férias em Moçambique, vai terminar o curso de teologia em São Paulo, Brasil, enquanto o Mateusz, depois de um tempo na Polónia, ruma a Nairobi, Quénia, para o mesmo fim.
Os quatro noviços do primeiro ano – três moçambicanos e um português – continuam a sua formação com as experiências pastorais e de trabalho em Lamarosa, Telhal, Maia e VN Famalicão.
6 de maio de 2015
REZAR PELO SUDÃO DO SUL
©Paul Jeffrey
O Conselho Mundial das Igrejas propôs para domingo, 10 de maio, uma jornada de oração pelas vítimas do conflito no Sudão do Sul.
Duas facções do SPLM, o partido no poder no Sudão do Sul desde 2005, lutam entre desde 15 de Dezembro de 2013. O conflito político, que assumiu contornos étnicos, matou mais de 50 mil pessoas e deslocou um milhão e meio de pessoas. Cerca de 500 mil pessoas procuraram refúgio nos países vizinhos.
O conflito paralisou a economia do mais jovem e de um dos mais pobres países do mundo: os produtos alimentares e os combustíveis são cada vez mais escassos e caros.
As partes beligerantes já assinaram um número de acordos de paz mas o conflito não dá sinais de abrandar.
«Com o conflito violento a entrar no décimo sétimo mês, os sul-sudaneses esperam numa dor atroz pelo regresso da paz», disse Olav Fykse Tvei, secretário-geral do Conselho Mundial das Igrejas, no convite que enviou às igrejas para se unirem na jornada de oração pelo Sudão do Sul.
«Os líderes das Igrejas estão a desempenhar um papel significativo para trazer a paz ao Sudão do Sul. As igrejas representam as pessoas e a sociedade civil e poderiam unir o país. Por isso, o Conselho Mundial das Igrejas convida a igrejas-membros e os cristãos do mundo inteiro a oferecerem orações especiais para restaurar a esperança de todos os que foram afectados pelo conflito e fortalecer todas as iniciativas bem-intencionadas», acrescentou.
O Conselho preparou materiais litúrgicos, que incluem uma apresentação fotográfica sobre a vida no Sudão do Sul e esta oração:
Deus, nosso Pastor,
nós te agradecemos pelo tua misericórdia para com a República do Sudão do Sul,
pela nascimento da nova nação,
pela liberdade para determinar o futuro do país.
Louvamos-te pela orientação que dás ao povo do Sudão do Sul,
por lhes dares força e resistência entre guerras e conflitos étnicos.
Agradecemos-te a presença e o papel profético das tuas igrejas
e pelo Conselho das Igrejas do Sudão do Sul,
pelo envolvimento incansável da comunidade regional e internacional
e de todas as pessoas de boa vontade
para que a paz e a justiça ganhem raízes no Sudão do Sul.
Deus todo-poderoso,
lamentamos que a paz sustentável não tenha sido ajudada no Sudão do Sul.
As vidas das pessoas correm perigo,
todo o país grita de dor.
Rezamos pelos líderes das partes em conflito.
Toca as profundezas do seu ser
para que possam sentir a abundância da tua paz e amor.
Abre o seu olhar interior
para que vejam o sofrimento das pessoas comuns.
Move os seus corações
para que tenham compaixão e confiança para com os inimigos.
Capacita-os para mudarem os seus interesses pessoais
num desejo ardente para trazer reconciliação e paz.
Rezamos pela Igreja e pelo Conselho das Igrejas do Sudão do Sul.
Ajuda-os fielmente a proclamar a tua boa nova,
a confortar os que se lamentam.
Que sejam portadores genuínos do teu amor.
Dá-lhes uma visão profética e a coragem
para assegurarem que as vozes silenciosas dos sul-sudaneses são escutadas,
para nomear o que está mal na sociedade
e para procurar incansavelmente a justiça e a paz.
Bom Pastor,
acreditamos que estás sempre com o povo do Sudão do Sul,
que és sempre o seu refúgio e força.
Mesmo nos momentos mais escuros, inflamas a nossa esperança de ressurreição.
Cremos que estás a guiar o povo do Sudão do Sul para pastagens verdejantes,
um país onde a paz e o amor são os alicerces da vida
e a justiça a base para a sua acção comum.
Rezamos para que seques as suas lágrimas e transformes o medo em celebração alegre.
Tu vais abençoar a terra do Sudão do Sul abundantemente
e trazer vida em plenitude para todos.
Na tua misericórdia, escuta a nossa oração através de Jesus Cristo,
o nosso Senhor ressuscitado,
que vive e reina contigo na unidade do Espírito Santo,
um só Deus agora e para sempre.
Ámen.
4 de maio de 2015
TERRA DE MÁRTIRES
Os 21 mártires da Líbia
África continua a ser fecundada pelo sangue dos mártires, semente de novos cristãos e seiva de uma igreja que testemunha o Ressuscitado.
Extremistas líbios ligados ao Estado Islâmico publicaram na Internet, em Fevereiro, imagens cruentas e pavorosas em que degolavam 21 imigrantes egípcios nas praias de Sirte, tingindo de sangue as águas do Mediterrâneo. A razão? Eram cristãos coptas.
Os mártires de Sirte encontram-se quase no fim de uma longa fita do tempo cor de sangue que marca o martírio dos cristãos africanos que viveram a fé até ao fim. A contagem começou a 17 de Julho de 180, quando cinco mulheres e sete homens cristãos foram executados em Cartago, onde é hoje a Tunísia, pelos soldados romanos por se terem recusado a prestar culto ao imperador.
Ao longo dos tempos milhares de outros cristãos continuaram a regar com o seu sangue o solo africano individualmente ou em grupo às mãos dos impérios ou religiões. A lista que se segue não é exaustiva.
Os franciscanos contam no seu martirológio 13 frades, mortos em Marrocos e Ceuta, em 1220 e 1227.
Na Etiópia, depois da expulsão dos jesuítas ibéricos em 1632, um número de seguidores de Inácio de Loyola e de Francisco de Assis foram mortos nas praias do Mar Vermelho ou na Abissínia por tentarem voltar à terra do Preste João. Cinco são venerados como beatos: dois capuchinhos franceses (um deles de origem portuguesa), executados em Gondar em 1638 e três franciscanos, mortos na mesma cidade em 1716. Os imperadores etíopes pagavam em ouro o peso das cabeças de católicos degolados pelos «caçadores de missionários» costeiros.
No Uganda, 23 jovens anglicanos e 22 católicos foram executados em Namugongo entre finais de 1885 e inícios de 1887 pelo rei do Buganda.
A revolta dos Simbas, em 1964, no que é hoje a República Democrática do Congo, fez mais de duas centenas de mártires, incluindo a beata Anuarite Clementina, 27 missionários dehonianos e quatro combonianos.
Aliás, a família comboniana conta com 22 missionários mortos em África, duas irmãs e 20 padres e irmãos. Mais de metade deram a vida no Uganda.
O sítio thereligionofpeace.com fez o levantamento dos cristãos martirizados no continente desde o fatídico 11 de Setembro de 2001 e documenta a execução de mais de 4000 cristãos em 16 dos 54 países da África: Nigéria, Líbia, Quénia, Sudão, Níger, Egipto, Somália, República Centro-Africana, Uganda, República Democrática do Congo, Camarões, Tanzânia, Tunísia, Mali, Etiópia e Eritreia.
A Nigéria é o país mais hostil aos cristãos apesar de quase metade dos Nigerianos serem baptizados. A organização Open Doors indica na 2015 World Watch List que extremistas muçulmanos do Boko Haram mataram 2484 cristãos em 2014. Espera-se que o novo presidente, Muhammadu Buhari, tenha mais êxito que o seu antecessor, o cristão Goodluck Jonathan, para estancar a violência extremista no Norte do país.
Há ainda os chamados mártires «brancos», aqueles que morreram silenciosamente de doenças, porque decidiram permanecer em climas agrestes, como São Daniel Comboni, que faleceu em Cartum, Sudão, aos 50 anos de idade, em 1881, vítima das febres tropicais.
Os cristãos africanos continuam a fertilizar o continente com o seu sangue e a Igreja continua a crescer a olhos vistos. Segundo o Anuário Católico, o livro de estatísticas da Igreja, a África teve mais 4,9 milhões de católicos em 2013, representando um terço do crescimento global desse ano.
O Papa Francisco durante as celebrações da Páscoa recordou os cristãos perseguidos a quem chamou «os mártires do nosso século». Sublinhou que talvez sejam mais numerosos que os primeiros mártires e pediu à comunidade internacional que «não vire os olhos para o outro lado, que não assista de forma silenciosa e passiva a tal inaceitável crime que constitui uma preocupante violação dos direitos humanos mais elementares.»
Extremistas líbios ligados ao Estado Islâmico publicaram na Internet, em Fevereiro, imagens cruentas e pavorosas em que degolavam 21 imigrantes egípcios nas praias de Sirte, tingindo de sangue as águas do Mediterrâneo. A razão? Eram cristãos coptas.
Os mártires de Sirte encontram-se quase no fim de uma longa fita do tempo cor de sangue que marca o martírio dos cristãos africanos que viveram a fé até ao fim. A contagem começou a 17 de Julho de 180, quando cinco mulheres e sete homens cristãos foram executados em Cartago, onde é hoje a Tunísia, pelos soldados romanos por se terem recusado a prestar culto ao imperador.
Ao longo dos tempos milhares de outros cristãos continuaram a regar com o seu sangue o solo africano individualmente ou em grupo às mãos dos impérios ou religiões. A lista que se segue não é exaustiva.
Os franciscanos contam no seu martirológio 13 frades, mortos em Marrocos e Ceuta, em 1220 e 1227.
Na Etiópia, depois da expulsão dos jesuítas ibéricos em 1632, um número de seguidores de Inácio de Loyola e de Francisco de Assis foram mortos nas praias do Mar Vermelho ou na Abissínia por tentarem voltar à terra do Preste João. Cinco são venerados como beatos: dois capuchinhos franceses (um deles de origem portuguesa), executados em Gondar em 1638 e três franciscanos, mortos na mesma cidade em 1716. Os imperadores etíopes pagavam em ouro o peso das cabeças de católicos degolados pelos «caçadores de missionários» costeiros.
No Uganda, 23 jovens anglicanos e 22 católicos foram executados em Namugongo entre finais de 1885 e inícios de 1887 pelo rei do Buganda.
A revolta dos Simbas, em 1964, no que é hoje a República Democrática do Congo, fez mais de duas centenas de mártires, incluindo a beata Anuarite Clementina, 27 missionários dehonianos e quatro combonianos.
Aliás, a família comboniana conta com 22 missionários mortos em África, duas irmãs e 20 padres e irmãos. Mais de metade deram a vida no Uganda.
O sítio thereligionofpeace.com fez o levantamento dos cristãos martirizados no continente desde o fatídico 11 de Setembro de 2001 e documenta a execução de mais de 4000 cristãos em 16 dos 54 países da África: Nigéria, Líbia, Quénia, Sudão, Níger, Egipto, Somália, República Centro-Africana, Uganda, República Democrática do Congo, Camarões, Tanzânia, Tunísia, Mali, Etiópia e Eritreia.
A Nigéria é o país mais hostil aos cristãos apesar de quase metade dos Nigerianos serem baptizados. A organização Open Doors indica na 2015 World Watch List que extremistas muçulmanos do Boko Haram mataram 2484 cristãos em 2014. Espera-se que o novo presidente, Muhammadu Buhari, tenha mais êxito que o seu antecessor, o cristão Goodluck Jonathan, para estancar a violência extremista no Norte do país.
Há ainda os chamados mártires «brancos», aqueles que morreram silenciosamente de doenças, porque decidiram permanecer em climas agrestes, como São Daniel Comboni, que faleceu em Cartum, Sudão, aos 50 anos de idade, em 1881, vítima das febres tropicais.
Os cristãos africanos continuam a fertilizar o continente com o seu sangue e a Igreja continua a crescer a olhos vistos. Segundo o Anuário Católico, o livro de estatísticas da Igreja, a África teve mais 4,9 milhões de católicos em 2013, representando um terço do crescimento global desse ano.
O Papa Francisco durante as celebrações da Páscoa recordou os cristãos perseguidos a quem chamou «os mártires do nosso século». Sublinhou que talvez sejam mais numerosos que os primeiros mártires e pediu à comunidade internacional que «não vire os olhos para o outro lado, que não assista de forma silenciosa e passiva a tal inaceitável crime que constitui uma preocupante violação dos direitos humanos mais elementares.»
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