2 de fevereiro de 2015

O CANCRO DA CORRUPÇÃO



Trinta e seis países africanos encontram-se na área vermelha da tabela mundial da corrupção, uma doença mortal que exige um combate global contra o tráfico de dinheiro.

A Transparency International, um grupo com sede em Berlim, publicou em Dezembro o Índice da Percepção da Corrupção 2014, uma tabela elaborada por especialistas no sector público, que classifica 175 países de muito limpos a altamente corruptos.

A África sai muito mal no índex: a Somália partilha o título de país mais corrupto com a Coreia do Norte e o Sudão, o Sudão do Sul, a Líbia e a Eritreia também estão entre os dez mais corruptos. Trinta e seis dos seus 45 países – a Guiné Equatorial ficou de fora – estão abaixo da posição 80, a linha vermelha do mapa.

O Botsuana é o país africano mais limpo e partilha a posição 31 do índice com Chipre, Portugal e Porto Rico. Os países-arquipélagos e a África Austral em geral também se afirmam pela positiva. Bem pior estão os maiores produtores de petróleo: a Nigéria ocupa a posição 136, Angola a 161 e a Líbia a 166.

Quanto a mexidas em relação a 2013, Angola, Malauí e Ruanda protagonizaram as quedas mais acentuadas, enquanto a Costa do Marfim, Egipto, Mali e Suazilândia melhoraram substancialmente as respetivas posições.

Os países mais limpos são a Dinamarca, Nova Zelândia, Finlândia, Suécia, Noruega e Suíça.

A corrupção é um cancro mortal que mina o crescimento económico e social da grande maioria dos países africanos por meio da apropriação de dinheiros e bens públicos para fins privados com a conivência de paraísos fiscais. Os dinheiros que deviam ser usados para o bem comum acabam em contas privadas de bancos offshore por mecanismos de lavagem de capitais gerados por subornos pagos a políticos ou desviados do erário público, por falta de leis anticorrupção e instituições com capacidade para sentar os corruptos no banco dos réus.

A fundação, em 2013, do Centro Anticorrupção do Commonwealth-África, com sede em Gaborone, no Botsuana, foi um passo importante. O centro propõe-se reduzir a corrupção em 19 países africanos membros da Comunidade das Nações por meio da formação, investigação e iniciativas políticas.

A Comissão Económica das Nações Unidas para a África calcula que o continente perde entre 41 e 121,3 mil milhões de euros por ano com o movimento ilícito de capitais que acabam nos países desenvolvidos, imensamente mais do que os cerca de 24,6 mil milhões de euros que esses países dão à África em ajuda humanitária.

A transferência ilícita de capitais é usada pelas multinacionais que, por meio de redes financeiras complexas, escondem os ganhos nos países em desenvolvimento, evitando impostos e investidores que falsificam os valores das importações e exportações para sonegar taxas aduaneiras.

A Health Poverty Action calcula que a África perde por ano 28,9 mil milhões de euros em transferências ilícitas e que as multinacionais fazem 37,9 mil milhões com investimentos no continente.

A corrupção também chegou às Igrejas. Simeon Okah, um pastor protestante nigeriano que mantém uma cruzada intensa contra a corrupção no seu país, disse que o mal é tão endémico na Nigéria, que «na igreja temos quase sempre de rezar com um olho aberto, porque, em alguns lugares, alguns dos encarregados do peditório e do conselho económico roubam as esmolas».

A corrupção é um crime que atenta contra o desenvolvimento, a democracia, a prosperidade, o bem comum e os direitos humanos em países parcos em recursos financeiros para prover os cidadãos mais pobres com vidas melhores. Para a estancar, são necessários sistemas legais internacionais contra a lavagem de capitais e os paraísos fiscais, os ambientes financeiros propícios aos parasitas que desviam para contas privadas os dinheiros públicos.

1 de fevereiro de 2015

BEM-AVENTURADOS OS CONSAGRADOS


BEM-AVENTURADOS OS CONSAGRADOS
que partem felizes rumo às periferias existenciais
onde Deus está ausente,
que suplicam, silenciosamente,
mãos solidárias e mensageiros da esperança!

BEM-AVENTURADOS OS CONSAGRADOS
que percorrem, com alegria,
o caminho do seguimento de Jesus,
com passos firmes de conversão e audácia!

BEM-AVENTURADOS OS CONSAGRADOS
que respiram o ar puro do Espírito
que os torna sinais luminosos na cidade humana!

BEM-AVENTURADOS OS CONSAGRADOS
em caminho de êxodo obediente e alegre,
cheios de entusiasmo, mesmo por sendas difíceis!

BEM-AVENTURADOS OS CONSAGRADOS
construtores vigilantes da sua identidade,
capazes de parar no caminho,
para repousar em Deus!

BEM-AVENTURADOS OS CONSAGRADOS
que partem ao encontro dos que estão longe,
portadores credíveis da Boa Nova do Evangelho!

BEM-AVENTURADOS OS CONSAGRADOS
que sondam os horizontes do nosso tempo,
numa visão ampla dos sinais de Deus na história!

BEM-AVENTURADOS OS CONSAGRADOS
que tecem seus dias como escolhas evangélicas,
que revigoram o carácter profético da sua vocação!


29 de janeiro de 2015

JE SUIS RIEN…


O jornal satírico Charlie Hebdo publicou uma caricatura do Profeta Maomé em lágrimas com o cartaz «Je suis Charlie» e a legenda «Tudo está perdoado».

A capa apareceu uma semana depois do ataque de dois radicais islâmicos ao semanário parisiense que mataram uma dúzia de pessoas, incluindo oito jornalistas, a sete de Janeiro.

A edição teve pelo menos sete milhões de cópias vendidas em todo o mundo de vai continuar a ser reproduzida.

A caricatura de Maomé provocou uma onda de protestos no Sudão, Mauritânia, Nigéria, Argélia, Níger, Mali, Somália, Senegal, Paquistão, Jordânia, Faixa de Gaza, Iémen, Líbano, Chechénia, etc.

Os protestos mais violentos tiveram lugar no Níger: dez pessoas foram mortas e pelo menos 45 igrejas incendiadas. Os números são da BBC.

Um analista político explicou no Porto Canal como se chegou ao ataque: começou com Emanuel Kant e foi expondo como o laicismo francês tomou forma relegando o religioso para a esfera do privado e promovendo a sátira anti-religiosa como direito absoluto de expressão.

O comentador concluiu o seu longo arrazoado perante a entrevistadora atónita com um ditado popular: «Estavam mesmo a pedi-las!»

Estes acontecimentos – as mortes e a sátira laica – entristecem-me.

Nada justifica a morte de uma pessoa! Contudo, o respeito que a sociedade laica exige deve ser equilibrado com o respeito pelo outro, incluindo a sua (des)crença.

Os laicos do Charlie Hedbo, que se descreve como «jornal irresponsável» – incendiaram mais uma vez com os sentimentos dos muçulmanos radicais e foram os cristãos do Níger que levaram por medida.

O Islão proíbe a reprodução de Deus – e por arrastamento a de Maomé.

Os satiristas do Charlie Hebdo sabem disso, mas insistem em exercer o direito de liberdade de expressão caricaturando o Profeta.

A liberdade laica absoluta tem que tem que ter em conta a liberdade daqueles que achincalha, incluindo os cristãos.

Como disse o Papa Francisco no regresso da viagem às Filipinas, «na liberdade de expressão há limites. […] Não se pode provocar, não se pode insultar a fé dos outros, não se pode ridicularizar a fé.»

26 de janeiro de 2015

LMC EM PORTUGAL: 17 ANOS DE HISTÓRIA E MISSÃO

A ÉLIA GOMES é do Algarve está em MONGOUMBA, na República Centro Africana

A 25 de janeiro de 1998, na Maia, iniciou-se o caminho de discernimento e formação para leigos que, imbuídos e movidos pelo espírito de S. Daniel Comboni, se sentiam chamados à Missão, os Leigos Missionários Combonianos ou LMC em Portugal.

Começamos muitos e, com o tempo, só alguns fizeram caminho. No entanto, hoje, 17 anos depois, olhamos para trás e agradecemos a Deus o caminho feito, os formadores e responsáveis que nos acompanharam e acompanham, o tanto que lutamos para afirmar a vocação missionária como vocação que toca igualmente aos leigos, o tanto que vivemos e partilhamos…

Nestes 17 anos, 17 leigos missionários combonianos viveram a sua vocação além fronteiras: em Moçambique, no Brasil e na República Centro-Africana. Hoje, com uma dezena de formandos, continuamos a acreditar que a missão se faz por quantos se entregam e ousam dizer sim ao chamamento de Deus, seguindo os passos de Comboni, os passos deste “pai da África” que acreditou e lutou pela missão africana numa época em que todos desacreditavam deste projeto.

Hoje, o «salvar a África com a África» continua a mover-nos e, juntos, continuamos a pedir ao Senhor da messe que continue a mandar operários para a sua messe. De facto, a messe é imensa e os operários são demasiado poucos para responder a tão vasta obra missionária.

Atualmente, os Leigos Missionários Combonianos – a nível internacional – estão presentes em 19 países. De Portugal, temos duas LMC além fronteiras: a Márcia Costa em Moçambique e a Élia Gomes na RCA.

Pela especificidade destas missões (a escola industrial em Moçambique e a situação dos pigmeus na RCA), nem sempre é fácil respondermos a todas as necessidades (tanto por falta de gente como por falta de meios), mas contamos que, com a ajuda, oração e disponibilidade de todos quantos Deus for chamando, poderemos continuar a fazer causa comum com estes povos e a anunciar o Evangelho.

Juntos fazemos e vivemos a vocação e a missão. Continuemos o caminho!
LMC

18 de janeiro de 2015

ITINERÁRIO PRINCIPAL

© JVieira

A narrativa dos primeiros chamamentos de Jesus segundo o evangelista João que a liturgia nos propõe como palavra da salvação para hoje tem um número de pontos intrigantes e relevantes.

O texto evangélico (João 1, 35-42) coloca João Batista parado do outro lado do Jordão com dois discípulos. Ao ver Jesus passar diz: «Eis o Cordeiro de Deus.»

Cordeiro, na pobreza de palavras do aramaico, falado por João e por Jesus, também quer dizer servo, filho e pão! Jesus é tudo isso: cordeiro de Deus, servo, filho, pão repartido para a salvação do mundo.

A evocação de Jesus-Cordeiro de Deus leva-nos ao capítulo 12 do Livro do Êxodo, à cena da ceia pascal. Cada família tinha que matar um cordeiro de um ano sem mancha para marcar a casa com o seu sangue e escapar ao anjo da morte; e comer a sua carne para ganhar força para a longa viagem de libertação. Jesus, o cordeio de Deus, marca-nos com o seu sangue, faz-nos pertença de Deus, tirando-nos do pecado. É também o pão para o nosso caminhar!

Depois, para ver Jesus passar é preciso estar parado! A nossa vida tornou-se num corrupio onde há pouco espaço e tempo para o outro. Temos que parar para ver Jesus passar. E ouvir: «Que quereis?», as primeiras palavras de Jesus no Evangelho de João.

São as palavras que Jesus nos dirige hoje aos que enchemos as igrejas e aos que ficaram em casa. São palavras novas e cheias de memória, de história.

Os discípulos responderam: «Onde moras?» Querem conhecer o Jesus doméstico, queriam ser seus íntimos. Não o convidaram para um copo, para uma conversa fiada, mas quiseram ir a sua casa.

E Jesus responde: «Vinde ver!»

Todos somos convidados a ver onde Jesus vive! Ele hoje vive nos pobres, nos refugiados, nos indocumentados, nos abusados, nos violentados, nos doentes terminais, nos ladrões, nos drogados, nos jihadistas… É aí, nas periferias da sociedade e da história, que somos chamados a ficar com Jesus, a permanecer depois da hora décima, as quatro da tarde, a partilhar a noite…

E de onde regressamos para anunciar: «Encontrámos o Ungido!» e levar outros a Jesus como André, o chamado-chamador, fez com Pedro seu irmão.

E dá-se o milagre do novo nome que é identidade e missão: «Tu és Simão, filho de João. Chamar-te-ás Cefas», pedra esburacada, caverna que dá protecção a quem precisa. Não rocha firme, mas comida pela erosão, pelo tempo.

A rocha firme é o Senhor!

5 de janeiro de 2015

ROSAS & ESPINHOS


As flores são bonitas e podem produzir riqueza, mas também podem ser um problema. Por exemplo, as da África Oriental, que chegam a Portugal.

Em Dezembro de 2005 visitei a Etiópia com dois jornalistas amigos. Enquanto viajávamos de Adis-Abeba para Awassa, chamou-me a atenção uma linha extensa de estufas que não estavam junto ao lago Zwai cinco anos antes, quando deixei o país. A maioria estava ainda em acabamento, mas algumas já estavam a operar. Como sou muito curioso parei e fui ver o que crescia nelas. Eram flores!

A floricultura é uma indústria que está a criar grandes raízes na África Oriental, sobretudo no Vale de Rift, que também é o berço da humanidade. O Quénia está à cabeça da produção: em 2014, exportou 125 mil toneladas de flores, sobretudo para a Europa, e embolsou 432 milhões de euros. As flores sustentam cerca de dois milhões de famílias quenianas.

Mas a Etiópia está a posicionar-se como concorrente directa do Quénia: a mão-de-obra é mais barata, há mais segurança para os trabalhadores estrangeiros e o Governo está a incentivar o investimento internacional com um pacote de benesses: não cobra impostos durante cinco anos nem custos alfandegários à maquinaria importada e facilita o acesso ao crédito. O clima e a abundância de solos e de água são outros argumentos de peso.

Em 1997, o país tinha duas pequenas companhias privadas a produzir flores, mas hoje conta com 84 – 70 delas com capitais estrangeiros, sobretudo da Holanda, Índia, Reino Unido e Grécia.

Setenta por cento das flores da Etiópia acabam na Holanda, mas também na Nigéria, Sudão e Omã. A Portugal chegam, através da Holanda, rosas, próteas, hibiscos, helicónias, cravos. Em 2001, a indústria facturou 537 mil euros. Dez anos depois já ia nos 145 milhões. Em 2016, projecta ganhar 448 milhões. Nos últimos cinco anos, criou cem mil postos de trabalho, sobretudo para mulheres, e reduziu a taxa de criminalidade.

A Etiópia é o segundo produtor africano e o quarto mundial não europeu de flores. Tanzânia, Uganda, Ruanda, Zimbabué, Namíbia e África do Sul são outros países africanos com alguma expressão produtiva.

Mas as rosas têm espinhos e a floricultura não foge à regra. As condições de trabalho nas estufas são precárias, muitos trabalhadores recebem menos de um euro por dia e não têm equipamento adequado para manusear os químicos que os envenenam e aos solos e águas. As mulheres não têm direito a licença de parto e arriscam-se a perder o trabalho quando dão à luz. Os trabalhadores vivem alojados em instalações superlotadas e inadequadas, o que pode levar à difusão da sida.

Por outro lado, a indústria necessita de muita água – um pé de rosa «bebe» um litro e meio por dia e o Quénia produz 72 milhões por ano (um terço chega à Europa) – e não é amiga do ambiente. O lago de Naivasha, no Centro do Quénia, alimenta a produção intensiva de flores e o seu nível está a baixar, muitos peixes aparecem mortos e a vida selvagem diminui nas suas margens.

As flores são um produto de luxo e o seu mercado depende da disponibilidade financeira da Europa – que a crise do euro limitou – e dos preços do petróleo já que o seu transporte se faz exclusivamente de avião. A produção do Quénia registou uma quebra em consequência da retracção do mercado europeu e está a abrir-se à Rússia, ao Japão e à Coreia do Sul.

A indústria tenta soluções inovadoras para limitar os danos ambientais, e sobretudo a pressão de organizações não governamentais que a têm debaixo do radar, e melhorar as condições de trabalho.

No Quénia as rosas já são produzidas em caixas em vez do solo e usam cinzas vulcânicas como fertilizante, insectos para controlar pestes e fibras de coco para baixar o consumo de água. Os defensores da indústria sublinham que há uma grande procura de flores na Europa e que a sua criação na África Oriental, em lugar do Velho Continente, produz menos dióxido de carbono por haver mais luz e melhores temperaturas. Mas ainda se está longe de uma floricultura orgânica, amiga do produtor e do ambiente.

18 de dezembro de 2014

MISSIONÁRIOS CONSAGRADOS


Os votos de uma freira de clausura ou de um frade de uma ordem mendicante são iguais aos votos de um comboniano mas também são diferentes! Somos consagrados através dos votos de castidade, pobreza e obediência para o serviço missionário no mundo.

A consagração é a forma de sermos missionários. Esta é uma reflexão que somos chamados a aprofundar durante o Ano da Vida Religiosa!

Podemos entender os votos pela negativa como interditos, áreas proibidas, fora dos limites: sou casto, não exerço a minha genitalidade; sou pobre, não gasto dinheiro comigo; sou obediente, não faço a minha vontade. Esta é uma maneira de entender a consagração e que geralmente gera negatividade, pessoas azedas e legalistas com quem é difícil viver e conviver.

A Regra de Vida ao dizer que a consagração religiosa está ao serviço da evangelização, faz missionários os votos de castidade, pobreza e obediência, porque eles nos abrem ao serviço da missão.

O P. Francisco Pierli tratou deste tema em profundidade no livro Come eredi – Como herdeiros. A obra apresenta linhas de espiritualidade missionária comboniana que merecem ser revisitadas 22 anos depois!

No capítulo A consagração do comboniano, hoje insere uma longa reflexão sobre os votos «combonianos» (as aspas são dele) depois de escrever sobre a consagração como iniciativa do amor gratuito e geradora de comunhão.

Começa pela obediência que «com o seu dinamismo de informação, reflexão e discernimento comunitário, é um antídoto formidável para o individualismo e ativismo», favorecendo a corresponsabilidade e a participação.

Depois diz que «sem a experiência da pobreza, da insegurança e da ausência de poder não se pode viver a missão» e nota que a partilha de todos os bens com os confrades é outro aspeto importante da pobreza para ultrapassar a lógica do «meu».

A Regra de Vida fala também da pobreza como trabalho diário sério e empenhado (RV 27, 2) e como partilha de bens materiais e de experiências de fé (RV 27, 3).

Finalmente, Pierli sublinha que «o fundamento do voto de castidade é um amor profundo, um coração apaixonado por Jesus Cristo, por Comboni, pelos confrades e pela gente». E afirma: «Nós fazemos o voto de castidade porque queremos que Ele, Bom Pastor, possa continuar a amar em nós e através de nós, porque queremos que o nosso corpo sexuado e casto seja em certo sentido sacramento do amor de Deus».

O missionário é obediente para discernir, pobre para partilhar e casto para amar a todos de coração inteiro!

Desta maneira, os votos não nos «protegem» das pessoas e do mundo, mas lançam-nos no coração do mundo para o serviço missionário, para anunciar o Reino que é de justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Carta aos Romanos 14: 17).

16 de dezembro de 2014

ESPELHO OU ESPONJA?


Havia um homem que tinha dois filhos e uma vinha! E disse aos filhos para irem trabalhar para a vinha. 

Um disse que não ia, mas foi; o outro disse que ia mas não pôs lá os pés!

Jesus inventou esta estória que Mateus conta no capítulo 21, versículos 28 a 32, para dizer aos líderes judeus, os que disseram sim mas não foram, que os colectores de taxas e as prostitutas – os que disseram não, mas se arrependeram e foram para a vinha – é que fizeram a vontade do Pai da vinha.

Porque acolheram o convite de João Batista à conversão.

Esta estorinha diz que o primeiro trabalho na vinha do Senhor – de que todos somos humildes trabalhadores  – é a conversão. Ou, como escreve o Papa Francisco em A alegria do evangelho, «a Igreja não evangeliza, se não se deixar continuamente evangelizar» (Nº 174).

Como evangelizamos? Como o espelho ou como a esponja?

Explico: o espelho reflecte a luz do sol sem se deixar tocar por ela nem a tocar. A esponja embebe-se de água para depois a libertar ao mesmo tempo que fica encharcada!

Podemos espelhar  a Palavra para os outros ou podemos encharcar-nos dela para depois a partilharmos. Mesmo que tenhamos de ser espremidos...

A conversão em grego diz-se metanóia, que significa ir para além do conhecimento, de nós mesmos, passar da racionalidade que tudo justifica ao coração que a todos ama.

Vivemos numa sociedade ensimesmada. A moda dos selfies é um indicador do narcisismo que cultivamos, o euismo. 

A conversão tira-nos do centro e centra-nos nos outros. Outro modo de conjugar o verbo amar!

10 de dezembro de 2014

JÁ NÃO ESCRAVOS, MAS IRMÃOS

MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO PARA A CELEBRAÇÃO DO
XLVIII DIA MUNDIAL DA PAZ (1º DE JANEIRO DE 2015)


1. No início dum novo ano, que acolhemos como uma graça e um dom de Deus para a humanidade, desejo dirigir, a cada homem e mulher, bem como a todos os povos e nações do mundo, aos chefes de Estado e de Governo e aos responsáveis das várias religiões, os meus ardentes votos de paz, que acompanho com a minha oração a fim de que cessem as guerras, os conflitos e os inúmeros sofrimentos provocados quer pela mão do homem quer por velhas e novas epidemias e pelos efeitos devastadores das calamidades naturais. Rezo de modo particular para que, respondendo à nossa vocação comum de colaborar com Deus e com todas as pessoas de boa vontade para a promoção da concórdia e da paz no mundo, saibamos resistir à tentação de nos comportarmos de forma não digna da nossa humanidade.

Já, na minha mensagem para o 1º de Janeiro passado, fazia notar que «o anseio duma vida plena (…) contém uma aspiração irreprimível de fraternidade, impelindo à comunhão com os outros, em quem não encontramos inimigos ou concorrentes, mas irmãos que devemos acolher e abraçar».[1] Sendo o homem um ser relacional, destinado a realizar-se no contexto de relações interpessoais inspiradas pela justiça e a caridade, é fundamental para o seu desenvolvimento que sejam reconhecidas e respeitadas a sua dignidade, liberdade e autonomia. Infelizmente, o flagelo generalizado da exploração do homem pelo homem fere gravemente a vida de comunhão e a vocação a tecer relações interpessoais marcadas pelo respeito, a justiça e a caridade. Tal fenómeno abominável, que leva a espezinhar os direitos fundamentais do outro e a aniquilar a sua liberdade e dignidade, assume múltiplas formas sobre as quais desejo deter-me, brevemente, para que, à luz da Palavra de Deus, possamos considerar todos os homens, «já não escravos, mas irmãos».


À escuta do projecto de Deus para a humanidade

2. O tema, que escolhi para esta mensagem, inspira-se na Carta de São Paulo a Filémon; nela, o Apóstolo pede ao seu colaborador para acolher Onésimo, que antes era escravo do próprio Filémon mas agora tornou-se cristão, merecendo por isso mesmo, segundo Paulo, ser considerado um irmão. Escreve o Apóstolo dos gentios: «Ele foi afastado por breve tempo, a fim de que o recebas para sempre, não já como escravo, mas muito mais do que um escravo, como irmão querido» (Flm 15-16). Tornando-se cristão, Onésimo passou a ser irmão de Filémon. Deste modo, a conversão a Cristo, o início duma vida de discipulado em Cristo constitui um novo nascimento (cf. 2 Cor 5, 17; 1 Ped 1, 3), que regenera a fraternidade como vínculo fundante da vida familiar e alicerce da vida social.

Lemos, no livro do Génesis (cf. 1, 27-28), que Deus criou o ser humano como homem e mulher e abençoou-os para que crescessem e se multiplicassem: a Adão e Eva, fê-los pais, que, no cumprimento da bênção de Deus para ser fecundos e multiplicar-se, geraram a primeira fraternidade: a de Caim e Abel. Saídos do mesmo ventre, Caim e Abel são irmãos e, por isso, têm a mesma origem, natureza e dignidade de seus pais, criados à imagem e semelhança de Deus.

Mas, apesar de os irmãos estarem ligados por nascimento e possuírem a mesma natureza e a mesma dignidade, a fraternidade exprime também a multiplicidade e a diferença que existe entre eles. Por conseguinte, como irmãos e irmãs, todas as pessoas estão, por natureza, relacionadas umas com as outras, cada qual com a própria especificidade e todas partilhando a mesma origem, natureza e dignidade. Em virtude disso, a fraternidade constitui a rede de relações fundamentais para a construção da família humana criada por Deus.

Infelizmente, entre a primeira criação narrada no livro do Génesis e o novo nascimento em Cristo – que torna, os crentes, irmãos e irmãs do «primogénito de muitos irmãos» (Rom 8, 29) –, existe a realidade negativa do pecado, que interrompe tantas vezes a nossa fraternidade de criaturas e deforma continuamente a beleza e nobreza de sermos irmãos e irmãs da mesma família humana. Caim não só não suporta o seu irmão Abel, mas mata-o por inveja, cometendo o primeiro fratricídio. «O assassinato de Abel por Caim atesta, tragicamente, a rejeição radical da vocação a ser irmãos. A sua história (cf. Gen 4, 1-16) põe em evidência o difícil dever, a que todos os homens são chamados, de viver juntos, cuidando uns dos outros».[2]

Também na história da família de Noé e seus filhos (cf. Gen 9, 18-27), é a falta de piedade de Cam para com seu pai, Noé, que impele este a amaldiçoar o filho irreverente e a abençoar os outros que o tinham honrado, dando assim lugar a uma desigualdade entre irmãos nascidos do mesmo ventre.

Na narração das origens da família humana, o pecado de afastamento de Deus, da figura do pai e do irmão torna-se uma expressão da recusa da comunhão e traduz-se na cultura da servidão (cf. Gen 9, 25-27), com as consequências daí resultantes que se prolongam de geração em geração: rejeição do outro, maus-tratos às pessoas, violação da dignidade e dos direitos fundamentais, institucionalização de desigualdades. Daqui se vê a necessidade duma conversão contínua à Aliança levada à perfeição pela oblação de Cristo na cruz, confiantes de que, «onde abundou o pecado, superabundou a graça (…) por Jesus Cristo» (Rom 5, 20.21). Ele, o Filho amado (cf. Mt 3, 17), veio para revelar o amor do Pai pela humanidade. Todo aquele que escuta o Evangelho e acolhe o seu apelo à conversão, torna-se, para Jesus, «irmão, irmã e mãe» (Mt 12, 50) e, consequentemente, filho adoptivo de seu Pai (cf. Ef 1, 5).

No entanto, os seres humanos não se tornam cristãos, filhos do Pai e irmãos em Cristo por imposição divina, isto é, sem o exercício da liberdade pessoal, sem se converterem livremente a Cristo. Ser filho de Deus requer que primeiro se abrace o imperativo da conversão: «Convertei-vos – dizia Pedro no dia de Pentecostes – e peça cada um o baptismo em nome de Jesus Cristo, para a remissão dos seus pecados; recebereis, então, o dom do Espírito Santo» (Act 2, 38). Todos aqueles que responderam com a fé e a vida àquela pregação de Pedro, entraram na fraternidade da primeira comunidade cristã (cf. 1 Ped 2, 17; Act 1, 15.16; 6, 3; 15, 23): judeus e gregos, escravos e homens livres (cf. 1 Cor 12, 13; Gal 3, 28), cuja diversidade de origem e estado social não diminui a dignidade de cada um, nem exclui ninguém do povo de Deus. Por isso, a comunidade cristã é o lugar da comunhão vivida no amor entre os irmãos (cf. Rom 12, 10; 1 Tes 4, 9; Heb 13, 1; 1 Ped 1, 22; 2 Ped 1, 7).

Tudo isto prova como a Boa Nova de Jesus Cristo – por meio de Quem Deus «renova todas as coisas» (Ap 21, 5)[3] – é capaz de redimir também as relações entre os homens, incluindo a relação entre um escravo e o seu senhor, pondo em evidência aquilo que ambos têm em comum: a filiação adoptiva e o vínculo de fraternidade em Cristo. O próprio Jesus disse aos seus discípulos: «Já não vos chamo servos, visto que um servo não está ao corrente do que faz o seu senhor; mas a vós chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi ao meu Pai» (Jo 15, 15).


As múltiplas faces da escravatura, ontem e hoje

3. Desde tempos imemoriais, as diferentes sociedades humanas conhecem o fenómeno da sujeição do homem pelo homem. Houve períodos na história da humanidade em que a instituição da escravatura era geralmente admitida e regulamentada pelo direito. Este estabelecia quem nascia livre e quem, pelo contrário, nascia escravo, bem como as condições em que a pessoa, nascida livre, podia perder a sua liberdade ou recuperá-la. Por outras palavras, o próprio direito admitia que algumas pessoas podiam ou deviam ser consideradas propriedade de outra pessoa, a qual podia dispor livremente delas; o escravo podia ser vendido e comprado, cedido e adquirido como se fosse uma mercadoria qualquer.

Hoje, na sequência duma evolução positiva da consciência da humanidade, a escravatura – delito de lesa humanidade[4] – foi formalmente abolida no mundo. O direito de cada pessoa não ser mantida em estado de escravidão ou servidão foi reconhecido, no direito internacional, como norma inderrogável.

Mas, apesar de a comunidade internacional ter adoptado numerosos acordos para pôr termo à escravatura em todas as suas formas e ter lançado diversas estratégias para combater este fenómeno, ainda hoje milhões de pessoas – crianças, homens e mulheres de todas as idades – são privadas da liberdade e constrangidas a viver em condições semelhantes às da escravatura.

Penso em tantos trabalhadores e trabalhadoras, mesmo menores, escravizados nos mais diversos sectores, a nível formal e informal, desde o trabalho doméstico ao trabalho agrícola, da indústria manufactureira à mineração, tanto nos países onde a legislação do trabalho não está conforme às normas e padrões mínimos internacionais, como – ainda que ilegalmente – naqueles cuja legislação protege o trabalhador.

Penso também nas condições de vida de muitos migrantes que, ao longo do seu trajecto dramático, padecem a fome, são privados da liberdade, despojados dos seus bens ou abusados física e sexualmente. Penso em tantos deles que, chegados ao destino depois duma viagem duríssima e dominada pelo medo e a insegurança, ficam detidos em condições às vezes desumanas. Penso em tantos deles que diversas circunstâncias sociais, políticas e económicas impelem a passar à clandestinidade, e naqueles que, para permanecer na legalidade, aceitam viver e trabalhar em condições indignas, especialmente quando as legislações nacionais criam ou permitem uma dependência estrutural do trabalhador migrante em relação ao dador de trabalho como, por exemplo, condicionando a legalidade da estadia ao contrato de trabalho... Sim! Penso no «trabalho escravo».

Penso nas pessoas obrigadas a prostituírem-se, entre as quais se contam muitos menores, e nas escravas e escravos sexuais; nas mulheres forçadas a casar-se, quer as que são vendidas para casamento quer as que são deixadas em sucessão a um familiar por morte do marido, sem que tenham o direito de dar ou não o próprio consentimento.

Não posso deixar de pensar a quantos, menores e adultos, são objecto de tráfico e comercialização para remoção de órgãos, para ser recrutados como soldados, para servir de pedintes, para actividades ilegais como a produção ou venda de drogas, ou para formas disfarçadas de adopção internacional.

Penso, enfim, em todos aqueles que são raptados e mantidos em cativeiro por grupos terroristas, servindo os seus objectivos como combatentes ou, especialmente no que diz respeito às meninas e mulheres, como escravas sexuais. Muitos deles desaparecem, alguns são vendidos várias vezes, torturados, mutilados ou mortos.


Algumas causas profundas da escravatura

4. Hoje como ontem, na raiz da escravatura, está uma concepção da pessoa humana que admite a possibilidade de a tratar como um objecto. Quando o pecado corrompe o coração do homem e o afasta do seu Criador e dos seus semelhantes, estes deixam de ser sentidos como seres de igual dignidade, como irmãos e irmãs em humanidade, passando a ser vistos como objectos. Com a força, o engano, a coacção física ou psicológica, a pessoa humana – criada à imagem e semelhança de Deus – é privada da liberdade, mercantilizada, reduzida a propriedade de alguém; é tratada como meio, e não como fim.

Juntamente com esta causa ontológica – a rejeição da humanidade no outro –, há outras causas que concorrem para se explicar as formas actuais de escravatura. Entre elas, penso em primeiro lugar na pobreza, no subdesenvolvimento e na exclusão, especialmente quando os três se aliam com a falta de acesso à educação ou com uma realidade caracterizada por escassas, se não mesmo inexistentes, oportunidades de emprego. Não raro, as vítimas de tráfico e servidão são pessoas que procuravam uma forma de sair da condição de pobreza extrema e, dando crédito a falsas promessas de trabalho, caíram nas mãos das redes criminosas que gerem o tráfico de seres humanos. Estas redes utilizam habilmente as tecnologias informáticas modernas para atrair jovens e adolescentes de todos os cantos do mundo.

Entre as causas da escravatura, deve ser incluída também a corrupção daqueles que, para enriquecer, estão dispostos a tudo. Na realidade, a servidão e o tráfico das pessoas humanas requerem uma cumplicidade que muitas vezes passa através da corrupção dos intermediários, de alguns membros das forças da polícia, de outros actores do Estado ou de variadas instituições, civis e militares. «Isto acontece quando, no centro de um sistema económico, está o deus dinheiro, e não o homem, a pessoa humana. Sim, no centro de cada sistema social ou económico, deve estar a pessoa, imagem de Deus, criada para que fosse o dominador do universo. Quando a pessoa é deslocada e chega o deus dinheiro, dá-se esta inversão de valores».[5]

Outras causas da escravidão são os conflitos armados, as violências, a criminalidade e o terrorismo. Há inúmeras pessoas raptadas para ser vendidas, recrutadas como combatentes ou exploradas sexualmente, enquanto outras se vêem obrigadas a emigrar, deixando tudo o que possuem: terra, casa, propriedades e mesmo os familiares. Estas últimas, impelidas a procurar uma alternativa a tão terríveis condições, mesmo à custa da própria dignidade e sobrevivência, arriscam-se assim a entrar naquele círculo vicioso que as torna presa da miséria, da corrupção e das suas consequências perniciosas.


Um compromisso comum para vencer a escravatura

5. Quando se observa o fenómeno do comércio de pessoas, do tráfico ilegal de migrantes e de outras faces conhecidas e desconhecidas da escravidão, fica-se frequentemente com a impressão de que o mesmo tem lugar no meio da indiferença geral.

Sem negar que isto seja, infelizmente, verdade em grande parte, apraz-me mencionar o enorme trabalho que muitas congregações religiosas, especialmente femininas, realizam silenciosamente, há tantos anos, a favor das vítimas. Tais institutos actuam em contextos difíceis, por vezes dominados pela violência, procurando quebrar as cadeias invisíveis que mantêm as vítimas presas aos seus traficantes e exploradores; cadeias, cujos elos são feitos não só de subtis mecanismos psicológicos que tornam as vítimas dependentes dos seus algozes, através de chantagem e ameaça a eles e aos seus entes queridos, mas também através de meios materiais, como a apreensão dos documentos de identidade e a violência física. A actividade das congregações religiosas está articulada a três níveis principais: o socorro às vítimas, a sua reabilitação sob o perfil psicológico e formativo e a sua reintegração na sociedade de destino ou de origem.

Este trabalho imenso, que requer coragem, paciência e perseverança, merece o aplauso da Igreja inteira e da sociedade. Naturalmente o aplauso, por si só, não basta para se pôr termo ao flagelo da exploração da pessoa humana. Faz falta também um tríplice empenho a nível institucional: prevenção, protecção das vítimas e acção judicial contra os responsáveis. Além disso, assim como as organizações criminosas usam redes globais para alcançar os seus objectivos, assim também a acção para vencer este fenómeno requer um esforço comum e igualmente global por parte dos diferentes actores que compõem a sociedade.

Os Estados deveriam vigiar por que as respectivas legislações nacionais sobre as migrações, o trabalho, as adopções, a transferência das empresas e a comercialização de produtos feitos por meio da exploração do trabalho sejam efectivamente respeitadoras da dignidade da pessoa. São necessárias leis justas, centradas na pessoa humana, que defendam os seus direitos fundamentais e, se violados, os recuperem reabilitando quem é vítima e assegurando a sua incolumidade, como são necessários também mecanismos eficazes de controle da correcta aplicação de tais normas, que não deixem espaço à corrupção e à impunidade. É preciso ainda que seja reconhecido o papel da mulher na sociedade, intervindo também no plano cultural e da comunicação para se obter os resultados esperados.

As organizações intergovernamentais são chamadas, no respeito pelo princípio da subsidiariedade, a implementar iniciativas coordenadas para combater as redes transnacionais do crime organizado que gerem o mercado de pessoas humanas e o tráfico ilegal dos migrantes. Torna-se necessária uma cooperação a vários níveis, que englobe as instituições nacionais e internacionais, bem como as organizações da sociedade civil e do mundo empresarial.

Com efeito, as empresas[6] têm o dever não só de garantir aos seus empregados condições de trabalho dignas e salários adequados, mas também de vigiar por que não tenham lugar, nas cadeias de distribuição, formas de servidão ou tráfico de pessoas humanas. A par da responsabilidade social da empresa, aparece depois a responsabilidade social do consumidor. Na realidade, cada pessoa deveria ter consciência de que «comprar é sempre um acto moral, para além de económico».[7]

As organizações da sociedade civil, por sua vez, têm o dever de sensibilizar e estimular as consciências sobre os passos necessários para combater e erradicar a cultura da servidão.

Nos últimos anos, a Santa Sé, acolhendo o grito de sofrimento das vítimas do tráfico e a voz das congregações religiosas que as acompanham rumo à libertação, multiplicou os apelos à comunidade internacional pedindo que os diversos actores unam os seus esforços e cooperem para acabar com este flagelo.[8] Além disso, foram organizados alguns encontros com a finalidade de dar visibilidade ao fenómeno do tráfico de pessoas e facilitar a colaboração entre os diferentes actores, incluindo peritos do mundo académico e das organizações internacionais, forças da polícia dos diferentes países de origem, trânsito e destino dos migrantes, e representantes dos grupos eclesiais comprometidos em favor das vítimas. Espero que este empenho continue e se reforce nos próximos anos.


Globalizar a fraternidade, não a escravidão nem a indiferença

6. Na sua actividade de «proclamação da verdade do amor de Cristo na sociedade»,[9] a Igreja não cessa de se empenhar em acções de carácter caritativo guiada pela verdade sobre o homem. Ela tem o dever de mostrar a todos o caminho da conversão, que induz a voltar os olhos para o próximo, a ver no outro – seja ele quem for – um irmão e uma irmã em humanidade, a reconhecer a sua dignidade intrínseca na verdade e na liberdade, como nos ensina a história de Josefina Bakhita, a Santa originária da região do Darfur, no Sudão. Raptada por traficantes de escravos e vendida a patrões desalmados desde a idade de nove anos, haveria de tornar-se, depois de dolorosas vicissitudes, «uma livre filha de Deus» mediante a fé vivida na consagração religiosa e no serviço aos outros, especialmente aos pequenos e fracos. Esta Santa, que viveu a cavalo entre os séculos XIX e XX, é também hoje testemunha exemplar de esperança[10] para as numerosas vítimas da escravatura e pode apoiar os esforços de quantos se dedicam à luta contra esta «ferida no corpo da humanidade contemporânea, uma chaga na carne de Cristo».[11]

Nesta perspectiva, desejo convidar cada um, segundo a respectiva missão e responsabilidades particulares, a realizar gestos de fraternidade a bem de quantos são mantidos em estado de servidão. Perguntemo-nos, enquanto comunidade e indivíduo, como nos sentimos interpelados quando, na vida quotidiana, nos encontramos ou lidamos com pessoas que poderiam ser vítimas do tráfico de seres humanos ou, quando temos de comprar, se escolhemos produtos que poderiam razoavelmente resultar da exploração de outras pessoas. Há alguns de nós que, por indiferença, porque distraídos com as preocupações diárias, ou por razões económicas, fecham os olhos. Outros, pelo contrário, optam por fazer algo de positivo, comprometendo-se nas associações da sociedade civil ou praticando no dia-a-dia pequenos gestos como dirigir uma palavra, trocar um cumprimento, dizer «bom dia» ou oferecer um sorriso; estes gestos, que têm imenso valor e não nos custam nada, podem dar esperança, abrir estradas, mudar a vida a uma pessoa que tacteia na invisibilidade e mudar também a nossa vida face a esta realidade.

Temos de reconhecer que estamos perante um fenómeno mundial que excede as competências de uma única comunidade ou nação. Para vencê-lo, é preciso uma mobilização de dimensões comparáveis às do próprio fenómeno. Por esta razão, lanço um veemente apelo a todos os homens e mulheres de boa vontade e a quantos, mesmo nos mais altos níveis das instituições, são testemunhas, de perto ou de longe, do flagelo da escravidão contemporânea, para que não se tornem cúmplices deste mal, não afastem o olhar à vista dos sofrimentos de seus irmãos e irmãs em humanidade, privados de liberdade e dignidade, mas tenham a coragem de tocar a carne sofredora de Cristo,[12] o Qual Se torna visível através dos rostos inumeráveis daqueles a quem Ele mesmo chama os «meus irmãos mais pequeninos» (Mt 25, 40.45).

Sabemos que Deus perguntará a cada um de nós: Que fizeste do teu irmão? (cf. Gen 4, 9-10). A globalização da indiferença, que hoje pesa sobre a vida de tantas irmãs e de tantos irmãos, requer de todos nós que nos façamos artífices duma globalização da solidariedade e da fraternidade que possa devolver-lhes a esperança e levá-los a retomar, com coragem, o caminho através dos problemas do nosso tempo e as novas perspectivas que este traz consigo e que Deus coloca nas nossas mãos.

Vaticano, 8 de Dezembro de 2014.

FRANCISCUS

[1] N. 1.
[2] Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2014, 2.
[3] Cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 11.
[4] Cf. Discurso à Delegação internacional da Associação de Direito Penal (23 de Outubro de 2014): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 30/X/2014), 9.
[5] Discurso aos participantes no Encontro mundial dos Movimentos Populares (28 de Outubro de 2014): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 06/XI/2014), 9.
[6] Cf. Pontifício Conselho «Justiça e Paz», La vocazione del leader d’impresa. Una riflessione (Milão e Roma, 2013).
[7] Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate, 66.
[8] Cf. Mensagem ao Senhor Guy Rydes, Director-Geral da Organização Internacional do Trabalho, por ocasião da 103ª sessão da Conferência da O.I.T. (22 de Maio de 2014): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 05/VI/2014), 7.
[9] Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate, 5.
[10] «Mediante o conhecimento desta esperança, ela estava “redimida”, já não se sentia escrava, mas uma livre filha de Deus. Entendia aquilo que Paulo queria dizer quando lembrava aos Efésios que, antes, estavam sem esperança e sem Deus no mundo: sem esperança porque sem Deus» ( Bento XVI, Carta enc. Spe salvi, 3).
[11] Discurso aos participantes na II Conferência Internacional « Combating Human Trafficking: Church and Law Enforcement in partnership» (10 de Abril de 2014): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 17/IV/2014), 8; cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 270.
[12] Cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 24; 270.

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1 de dezembro de 2014

ATRASO DE VIDA

Mercado de Juba - Sudão do Sul

A África continua na cauda do desenvolvimento humano apesar de ter uma das economias mais activas e crescentes do globo.

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) publicou, em Julho, o Relatório do Desenvolvimento Humano 2014. O documento, cujos dados se reportam a Novembro de 2013, inclui o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que classifica 187 países tendo em conta a longevidade, educação e rendimento nacional bruto por pessoa em quatro categorias: muito elevado (49), elevado (53), médio (42) e baixo (43).

Noruega, Austrália, Suíça, Holanda e Estados Unidos estão no topo do índice do IDH e o Níger, a República Democrática do Congo (ex-Zaire), República Centro-Africana, Chade e Serra Leoa são os mais atrasados. Portugal partilha a posição 41 com o Chile.

Os 52 países africanos – com excepção do Sudão do Sul e a Somália, excluídos por falta de dados – ficaram entre os países de desenvolvimento humano baixo (35), médio (12) e elevado (5). Cabo Verde (123) e São Tomé e Príncipe (142) estão no escalão médio e Angola (149) (na foto), Guiné-Bissau (177) e Moçambique (178) no escalão baixo.

O índice deixa alguns indicadores de esperança. Comparando os dados de 2010 com os de 2013 dos países subsarianos, a esperança de vida à nascença passou de 55,2 para 56,8 anos, os anos de escolaridade esperados de 9,4 para 9,7 e o rendimento nacional bruto por cabeça de 2935 para 3152 dólares.

O documento também põe a nu uma grande assimetria no desenvolvimento global: um bebé ao nascer na Serra Leoa tem uma esperança de vida de 45,6 anos e no Japão 83,6; uma criança ao matricular-se na Eritreia espera poder passar 4,1 anos na escola e na Austrália 19,9; o rendimento nacional bruto por pessoa na República Democrática do Congo é de 444 dólares e no Qatar de 119 029. O índice de mortalidade materna na África anda pelas 474 mortes por 100 mil nascimentos e 11 por cento das adolescentes entre os 15 e os 19 anos são mães.

O relatório indica que a África precisa de mais emprego e protecção social para consolidar os ganhos do seu desenvolvimento humano e combater a pobreza. Setenta e sete por cento dos assalariados têm emprego vulnerável e 40,1 por cento dos trabalhadores por conta de outrem ganham menos de um euro por dia. Para aumentar os postos de trabalho, é necessário passar de uma economia agrícola para a indústria e reforçar o sector de serviços por meio de uma política de escolarização que prepare a mão-de-obra necessária. A África do Sul, ao introduzir o abono de família, reduziu a pobreza infantil de 43 para 34 por cento.

As catástrofes naturais ou geradas por conflitos também são um travão ao desenvolvimento da África. A título de exemplo, os confrontos recentes no Sudão do Sul deslocaram mais de 1,8 milhões de pessoas, pararam a agricultura nas zonas de conflito e baixaram substancialmente a produção de petróleo. Em 2010, a floricultura do Quénia perdeu mais de 1,3 milhões de dólares por dia e cerca de 5000 postos de trabalho em consequência da erupção de um vulcão islandês que lançou o caos no tráfico aéreo e parou o escoamento de flores para os mercados internacionais.

O Relatório do Desenvolvimento Humano 2014 também revela uma realidade preocupante: apesar de a economia africana registar um grande crescimento, 72 por cento da população subsariana vive em situação de pobreza e arredada da participação política e assim impedida de contribuir para uma melhor distribuição da riqueza nacional. O desenvolvimento económico está a acentuar as disparidades sociais e do novo-riquismo esbanjador. A África precisa urgentemente de uma política de protecção social que inclua apoio à primeira infância através da saúde e educação, emprego aos jovens, subsídios aos desempregados e assistência de saúde e pensões aos idosos para melhorar o seu desenvolvimento humano.

15 de novembro de 2014

POLÍCIA MEXICANA ENCONTRA CORPO DE PADRE UGANDÊS


A polícia mexicana encontrou os restos mortais de um missionário ugandês desaparecido há mais de seis meses em Guerrero, no sudoeste do país.

Os restos mortais do padre John Ssenyondo foram encontrados numa vala comum com mais uma dúzia de corpos.

O padre foi identificado pelo registo dentário, disse o P. Victor Aguilar, vigário-geral da diocese de Chilpancingo-Chilapa, no estado de Guerrero.

O P. Ssenyondo foi sequestrado por desconhecidos a 30 de Abril depois de celebrar a missa em Santa Cruz, numa comunidade indígena que paroquiava há três anos.

O P. Aguilar disse que desconhecia o motivo do sequestro.

«A violência no estado é generalizada», explicou.


Fonte anónima disse que o pároco tinha recusado o baptismo ao filho de um casal em união de facto que fazia parte do crime organizado.

A casa do sacerdote ugandês tinha sido assaltada antes e noutra ocasião levaram-lhe o veículo e os haveres pessoais.

O P. Ssenyondo trabalhava no México há cinco anos.

Tinha 55 anos.

Tinha deixado a congregação dos Missionários Combonianos e planeara juntar-se oficialmente ao clero da diocese de Chilpancingo-Chilapa em Junho passado.

O corpo foi encontrado numa vala comum em Ocotlán, a 2 de novembro, enquanto a polícia procurava os restos mortais de 43 estudantes que desapareceram a 26 de Setembro.

O Provincial comboniano do Uganda Sylvester Hategetk’Imana disse que a família do P. Ssenyondo está ansiosa: quer saber o que as autoridades vão fazer com os restos mortais do familiar assassinado.

13 de novembro de 2014

ABRAÇO DE DEUS

© JVieira

«CHAMADOS A LEVAR A TODOS O ABRAÇO DE DEUS»

Nota Pastoral da CEP sobre o Ano da Vida Consagrada

1. Anúncio feliz do Ano da Vida Consagrada

No final de um encontro com os Superiores Gerais dos Institutos Religiosos no dia 29 de novembro de 2013 em Roma, o Papa Francisco anunciou que o ano de 2015 seria dedicado à Vida Consagrada. Esta proposta para toda a Igreja insere-se também no contexto da celebração dos 50 anos do Concílio Vaticano II, designadamente por ocasião do cinquentenário do Decreto «Perfectae Caritatis» sobre a conveniente renovação da Vida Religiosa.

Dois meses mais tarde, a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica (CIVCSVA), traçou os principais objetivos e algumas iniciativas já previstas para celebrarmos com qualidade o Ano da Vida Consagrada.

«Fazer memória agradecida do passado» é o primeiro objetivo desta celebração. Os 50 anos que separam do Concílio são momento de graça para a Vida Consagrada, que percorreu um caminho de renovação guiada pelo Espírito, vivendo as suas fraquezas e infidelidades como experiência da misericórdia e do amor de Deus.

O segundo objetivo é «abraçar o futuro com esperança». As crises atuais e as incertezas no amanhã devem ser assumidas como desafio e ocasião favorável para os consagrados crescerem em profundidade como homens e mulheres de esperança.

Esta esperança impele-nos a «viver o presente com paixão», terceira finalidade a ter em conta na preparação e celebração deste Ano: uma paixão de enamoramento, de verdadeira amizade, de comunhão; uma paixão por evangelizar a própria vocação e testemunhar a beleza do seguimento de Cristo; uma paixão para despertar o mundo com testemunho profético, em presenças significantes nas periferias geográficas e existenciais da pobreza.

O Ano da Vida Consagrada coincide, em grande parte, com as celebrações do 5.º Centenário do nascimento de Santa Teresa de Jesus, nascida em Ávila a 28 de março de 1515. Figura de grande mulher e de consagrada a Cristo na vida contemplativa, para todos é modelo de progredir na intimidade com Deus pelo exercício perseverante de oração, alcançando assim qualidade apostólica a sua intensa atividade de reformadora da vida carmelita e de toda a Igreja.


2. Vida Consagrada no coração da Igreja

Com esta Nota Pastoral, não pretendemos fazer aqui uma reflexão teológica sobre a Vida Consagrada no mistério e na comunhão da Igreja, mas apenas comungar desta proposta pastoral que o Papa Francisco lançou para toda a Igreja universal e para as Igrejas locais. No mesmo sentido da exortação apostólica Vita Consecrata de João Paulo II, cheios de gratidão damos graças ao Espírito pela abundância de formas de vida consagrada.

A designação «Vida Consagrada» refere-se a um comum horizonte eclesial em que se articulam, de forma complementar, carismas e instituições: ordens e institutos religiosos dedicados à contemplação ou às obras de apostolado; sociedades de vida apostólica; institutos seculares e outros grupos de consagrados; formas novas ou renovadas de vida consagrada; a Ordem das Virgens, as viúvas e os eremitas consagrados; todos aqueles que, no segredo do seu coração, se entregam a Deus com uma especial consagração (cf. Vita Consecreta, 2).

A Vida Consagrada está colocada mesmo no coração da Igreja, como elemento decisivo para a missão, visto que exprime a íntima natureza da vocação cristã. E continua a ser um dom precioso e necessário também no presente e para o futuro do povo de Deus, porque pertence intimamente à sua vida, santidade e missão. Os consagrados são chamados a assumir, na radicalidade do seu ser, a mesma exigência que é feita a todos os discípulos de Cristo, no horizonte das bem-aventuranças: «Sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste» (Mt 5,48).

Muitas iniciativas concretas de carácter universal foram já anunciadas. O Papa Francisco presidirá à abertura das celebrações em 30 novembro deste ano, primeiro domingo do Advento, e haverá uma assembleia plenária da CIVCSVA sobre a novidade na Vida Consagrada a partir do Vaticano II. Estão previstos diversos encontros internacionais em Roma para noviços, jovens religiosos e religiosas, formadores e formadoras, superiores e ecónomos gerais e provinciais. Haverá ainda um congresso internacional de teologia da vida consagrada e uma amostra internacional sobre a vida consagrada como evangelho na história humana. Há várias sugestões para as irmãs contemplativas, entre elas uma «cadeia mundial de oração entre os mosteiros». Alguns documentos sobre diversas áreas específicas estão igualmente em preparação e em reelaboração, como a Instrução «Mutuae relationes», que dá critérios diretivos para as relações mútuas entre os Bispos e os Religiosos na Igreja. E quase a concluir as celebrações do Ano da Vida Consagrada, não faltará uma solene concelebração presidida pelo Papa, em finais de 2015, nos 50 anos do Decreto «Perfetae caritatis».


3. Um ano de bênção e de graça


Na nossa missão de Pastores, queremos cuidar com particular estima daqueles e daquelas que seguem Jesus Cristo nesta forma radical de existência cristã que é a vocação à Vida Consagrada. A partir dos nossos organismos diocesanos mais especificamente ocupados com as formas de Vida Consagrada e em coordenação com a Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal (CIRP) e com a Conferência Nacional dos Institutos Seculares de Portugal (CNISP), desejamos que este Ano seja verdadeiramente um ano de graça, tendo sempre na mente e no coração os três objetivos atrás delineados para toda a Igreja: fazer memória agradecida do passado, abraçar o futuro com esperança, viver o presente com paixão.

Olhando a nossa realidade em Portugal, destacamos algumas ações que já são comuns: a Semana do Consagrado, instituída pela Conferência Episcopal, que principia a 26 de janeiro e encerra com a Festa da Apresentação do Senhor e o Dia do Consagrado a 2 de fevereiro, em que procuramos estar presentes como Pastores das Igrejas locais; o Dia Mundial de Oração pela Vida Consagrada Contemplativa. Procuraremos refletir e atualizar para a Igreja em Portugal as orientações contidas na Instrução «Mutuae relationes». Acompanhamos ainda com atenção as iniciativas conjuntas promovidas pelos organismos coordenadores da Vida Consagrada em Portugal, particularmente a CIRP e a CNISP, como as semanas de estudo sobre a Vida Consagrada, as suas assembleias gerais, as atividades fomentadas pelas suas comissões nacionais e secretariados regionais, as muitas planificações em cada instituto e dalguns em comum.


4. Celebrar a Vida Consagrada na comunhão da Igreja

Neste conjunto de celebrações, queremos avivar o Dia do Consagrado, instituído universalmente em 1997 por São João Paulo II, para “ajudar toda a Igreja a valorizar sempre mais o testemunho das pessoas que escolheram seguir a Cristo mais de perto, mediante a prática dos conselhos evangélicos e, ao mesmo tempo, ser para as pessoas consagradas uma ocasião propícia para renovar os propósitos e reavivar os sentimentos, que devem inspirar a sua doação ao Senhor”. Os três objetivos, então por ele apontados para viver este dia, podem sintonizar com o que se pretende ao longo deste especial ano de graça: responder à íntima necessidade de louvar mais solenemente o Senhor e agradecer-Lhe o grande dom da Vida Consagrada, que enriquece e alegra a comunidade cristã com a multiplicidade dos seus carismas e com os frutos de edificação de tantas existências, totalmente doadas à causa do Reino; promover o conhecimento e a estima pela Vida Consagrada, por parte de todo o povo de Deus, fazendo com que a doutrina sobre ela seja mais largamente e mais profundamente meditada e assimilada por todos os membros do povo de Deus; convidar as pessoas consagradas a celebrar em conjunto e solenemente as maravilhas que o Senhor realizou nelas, para descobrir a beleza e a diversidade dos dons difundidos pelo Espírito no seu género de vida, e tomar consciência mais viva da sua insubstituível missão na Igreja e no mundo.


5. A alegria do Evangelho no coração da Vida Consagrada

Todas as celebrações ao longo deste ano apontarão para a vocação e a missão que a Vida Consagrada, de modo permanente nas suas variadas formas, é chamada a ser e realizar, ao espelhar o modo de vida de Jesus Cristo, hoje, e empenhar-se, já, na construção do Reino dos céus. No dizer do Papa Francisco no referido encontro com os Superiores Gerais, os consagrados e consagradas são desafiados a estar e a marcar presença em variadas situações para despertar o mundo: «A Igreja deve ser atrativa. Despertar o mundo! Sede testemunho de um modo diferente de fazer, de agir, de viver! É possível viver de um modo diferente neste mundo. Estamos a falar de uma visão escatológica, dos valores do Reino encarnados aqui, nesta terra. Trata-se de deixar tudo para seguir o Senhor. Não, não quero dizer radical. A radicalidade evangélica não é somente dos religiosos: pede-se a todos. Mas os religiosos seguem o Senhor de maneira especial, de modo profético. Espero de vós este testemunho. Os religiosos devem ser homens e mulheres capazes de despertar o mundo».

A vida de consagração em castidade, pobreza e obediência, seguindo de perto o estilo de vida de Jesus Cristo, é um tesouro para a vida e missão da Igreja. Fazemos nossas estas palavras do Concílio Vaticano II: «o sagrado Concílio confirma e louva os homens e mulheres, Irmãos e Irmãs que nos mosteiros, escolas, hospitais ou missões, embelezam a Igreja com a sua perseverante e humilde fidelidade na mencionada consagração e prestam generosamente às pessoas os mais variados serviços» (Lumen gentium, n. 46).

Desejamos que todas as iniciativas deste Ano da Vida Consagrada sejam assumidas com interioridade na santidade, com coerência na vida comunitária, com testemunho na missão. O encanto, a alegria e o entusiasmo no seguimento de Cristo, assumidos por todos os consagrados e consagradas na sua existência como discípulos missionários e por todas as formas de vida consagrada, constituirão certamente fermento e atração de novas vocações à Vida Consagrada. Acolhendo os reiterados apelos do Papa Francisco para serem «chamados e levar a todos o abraço de Deus» e «transformados na alegria do Evangelho», os consagrados poderão contribuir de modo especial para despertar o mundo ou os mundos por eles habitados.

Confiamos à Virgem Maria a renovação espiritual e apostólica das pessoas consagradas e dos institutos de Vida Consagrada para testemunharem Jesus Cristo com uma existência transfigurada.

Fátima, 13 de novembro de 2014

Conferência Episcopal Portuguesa

4 de novembro de 2014

CIMETERIUM NOSTRUM


Os Romanos chamavam mare nostrum – o nosso mar – ao Mediterrâneo. A bacia mediterrânica tornou-se o cimeterium nostrum – o nosso cemitério – para milhares de africanos e médio-orientais que morreram na rota do sonho europeu.

A Organização Internacional para as Migrações (OIM) publicou em finais de Setembro o relatório «Viagens fatais – Rastreando vidas perdidas durante as migrações». 

O documento revela que entre Janeiro e Setembro deste ano 3072 pessoas morreram no Mediterrâneo, quase cinco vezes mais que em 2013. Vinham das costas da Líbia, Egipto e Argélia, em embarcações sobrelotadas e inadequadas. Mais de 40 por cento eram africanos subsarianos e do Corno de África (Somália, Etiópia, Jibuti e Eritreia). Outros 30 por cento eram do Médio Oriente, sobretudo da Síria, e do Norte de África.

The Migrantes Files documentou que, nos últimos catorze anos, mais de 22 mil pessoas encontraram a morte ao tentar chegar ilegalmente à Europa através dos desertos e do mar.

Entre Janeiro e Agosto, a Itália contabilizou 112 mil imigrantes que chegaram às suas fronteiras sem papéis, quase três vezes mais do que em 2013. Fogem da pobreza, de guerras, de regimes repressivos, de perseguições políticas e religiosas.

Vêm da República Democrática do Congo, Camarões, Guiné, Serra Leoa, Libéria, Senegal, Mali, Níger, Tunísia, Chade, Sudão, Etiópia, Eritreia, Somália ou Líbia. O coronel Kadhafi acolheu 2,5 milhões de trabalhadores subsarianos para fomentar o seu pan-africanismo. Depois da sua morte, em 2011, viram-se malqueridos pelas milícias que ocuparam o vazio político. Muitos decidiram tentar a sorte no eldorado europeu, outros regressaram às suas terras.

Isaias Afewerki transformou a Eritreia num campo de concentração e dois a cinco mil eritreus saem por mês, a salto, do país. São na maioria jovens desertores para escapar aos trabalhos forçados do serviço militar. Tornam-se presa fácil para bandos armados que os «caçam» no Leste sudanês e no Sinai para exigir resgates na ordem dos 17 mil euros. Entre 2009 e 2013, 25 a 30 mil eritreus foram sequestrados e um terço morreu em cativeiro porque as famílias não tinham meios para pagar a remição. O «negócio macabro», que inclui tráfico de órgãos, gera 460 milhões de euros por ano.

O Papa Francisco, quando visitou Lampedusa, em Julho do ano passado, para «chorar os mortos» do Mediterrâneo, denunciou «a globalização da indiferença» que faz perder o sentido da responsabilidade fraterna. «Estamos habituados ao sofrimento dos outros», disse, enquanto pediu perdão pela indiferença dos corações anestesiados a viver «na bolha de sabão do bem-estar».

Paradoxalmente, somos um continente que ganhou forma através de migrações sucessivas, mas desconsideramos a imigração. Descendemos dos Lusitanos, que vieram do cruzamento de povos locais com iberos do Norte de África e de celtas da Europa Central. Também temos sangue romano, suevo, visigodo, magrebino. Somos um povo e um continente de emigrantes que buscaram – e buscam – uma vida melhor noutras paragens, mas não queremos os de fora.

A IOM diz que as missões de busca e salvamento que as marinhas de guerra levam a cabo no Mediterrâneo para impedir mais tragédias não chegam. É preciso mudar a legislação sobre a imigração legal, criar corredores seguros para refugiados, aumentar quotas de asilo e levar à justiça os traficantes que fazem milhões à custa da esperança de quem sonha com uma vida melhor. E a ajudar a criar condições económicas sustentadas que fixem as pessoas.

«Tende a coragem de acolher aqueles que procuram uma vida melhor», apelou o Papa Francisco para os habitantes de Lampedusa. E também à Europa! Até porque com o índice de natalidade que temos, vão ter de ser os imigrantes a garantir as nossas reformas.

26 de outubro de 2014

AMOR-CHAVE


Os centros de interpretação são uma ferramenta recente para explicar lugares históricos que o evangelho deste domingo me recordou.

Conta Mateus (22: 34-40) que um doutor da lei propôs um debate a Jesus sobre qual era o maior mandamento da lei.

Os dez mandamentos que Deus deu a Moisés em duas pedras no Monte Sinai, no tempo de Jesus tinham sido fragmentados em 613 leis: 365 proibições (tantas como os dia do ano) e 248 obrigações (tantas como os ossos do corpo – pensava-se).

Um judeu piedoso contemporâneo de Jesus vivia num sobressalto constante: com isto estou a cumprir ou a contradizer a lei? Não é fácil recordar de cor 613 prescrições.

Daí a pergunta do legista: Qual das 613 leis é a mais importante?

Jesus responde juntando uma frase do Livro do Deuteronónio (6:5) - «Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente», parte da Shemá, a oração que os hebreus recitam duas vezes por dia, - com outra frase do Levítico (19:18): «Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.»

E diz que os dois mandamentos – que são iguais e parte um do outro – encerram não só a lei mas também os profetas: isto é, todas as Escrituras.

O amor é a palavra-passe que abre o segredo da experiência de Deus e o centro de interpretação da vida cristã: não se pode separar a relação com Deus da relação com as pessoas, porque o amor a uma parte abre-nos forçosamente à outra.

O amor é a chave da vida, é a palavra-passe para abrir a nossa felicidade pessoal e comunitária.

Ama e és feliz!

23 de outubro de 2014

DOXOLOGIA


No verão de 1980 passei um mês no Hospital de São João de Deus em Montemor-o-Novo. A estada no centro ortopédico infantil foi parte do noviciado, o tempo de formação para a vida missionária comboniana.

No hospital havia um capelão, um padre já idoso, que costumava perguntar aos pequenos acamados:

-Meu menino, o que é o Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo?

Os miúdos respondiam com olhares arregalados.

-É uma doxologia, meu menino! – repetia o capelão, sorridente, a esfregar as mãos.

Foi assim que eu aprendi que o Glória ao Pai se chamava doxologia.

Esta palavra vem do grego e quer dizer palavra de louvor, glorificação.

Muitos anos mais tarde, a 6 de Outubro de 2003, o Cardeal Gabriel Zubeir de Cartum presidiu a uma missa de acção de graças na Basílica de São Pedro, no Vaticano.

No dia anterior, Daniel Comboni, o primeiro bispo de Cartum e fundador dos Combonianos, tinha sido canonizado pelo Papa (agora São) João Paulo II.

O Cardeal Zubeir confidenciou durante a homilia que muitas vezes rezava o terço de uma forma muito sua: em vez das 50 ave-marias dizia 50 glórias-ao-pai.

Estas duas estórias vieram-me à memória esta manhã quando orava com o passo-a-rezar de hoje.

A reflexão convidava os orantes a repetir o Glória ao Pai várias vezes durante o dia.

Este tem sido o meu mantra durante os últimos anos: deixar ecoar no pensamento, lenta e repetidamente: Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio, agora e sempre. Ámen!

Dá-me paz, serenidade! E apeteceu-me partilhá-lo contigo. 

17 de outubro de 2014

RIO DE ALEGRIA

Nilo Branco ©JVieira

O Papa escreveu a mensagem para o Dia Mundial das Missões 2014 – que se celebra no domingo, 19 de outubro – sob o signo da alegria. De facto, ele repete a palavra 27 vezes, ecoando a exortação de Paulo: «Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos!» (Filipenses 4:4). O vocábulo amor aparece dez vezes. Alegria e amor são os ingredientes com que se faz a missão.

Francisco define o Dia Mundial das Missões como uma «celebração de graça e alegria» através de «orações e gestos concretos de solidariedade» para com as igrejas jovens.

A evangelização é um rio de alegria em que os baptizados são convidados a navegar e a alimentar através de uma peregrinação interior ao «primeiro amor» para perseverar com o Senhor e fazer a sua vontade, partilhando a fé, a esperança e a caridade evangélica.

Tomando como ícone a narrativa lucana do regresso jovial dos 72 da primeira experiência missionária (Lucas 10:17-23), o Papa recorda que Jesus disse aos discípulos para se alegrarem não pelo que fizeram – a vitória limpa sobre o demónio – mas por terem os seus nomes inscritos nos céus, por experimentarem o amor de Deus e poderem partilhá-lo.

«Os discípulos são aqueles que se deixam conquistar mais e mais pelo amor de Jesus e marcar pelo fogo da paixão pelo Reino de Deus, para serem portadores da alegria do Evangelho. Todos os discípulos do Senhor são chamados a alimentar a alegria da evangelização», nota o Papa argentino.

E ajunta: «A alegria do Evangelho brota do encontro com Cristo e a partilha com os pobres» através de uma «vida fraterna intensa, baseada no amor a Jesus e atenta às necessidades dos mais desfavorecidos.»

O Papa recorda que os bispos são os primeiros responsáveis pelo anúncio, devem favorecer a unidade da diocese e cuidar que o anúncio chegue aos seus lugares mais remotos e às periferias.

E ressalva dois aspectos:

· os LEIGOS «são chamados a assumir um papel cada vez mais relevante na difusão do Evangelho»;

· «a alegre participação na missão ad gentes» através da contribuição económica pessoal «para que a própria oferta material se torne instrumento de evangelização de uma humanidade edificada no amor».

Uma nota final; o Papa Francisco é claro: a missão ad gentes é obra de todos os baptizados e as igrejas locais e os leigos são os principais agentes da evangelização.

Pela primeira vez o Papa não refere explicitamente os missionários nem as Obras Missionárias Pontifícias na mensagem para o Dia Mundial das Missões.

Os institutos missionários – que foram os protagonistas da missão do século XIX e parte do XX – depois do Vaticano II passaram o estandarte do protagonismo às igrejas locais, onde se inserem, de que são parte e que servem.

Não quer dizer que os institutos missionários cumpriram a sua missão e que expirou o seu prazo de validade. Tanto os institutos missionários como as obras pontifícias são elementos acessórios no processo de evangelização, não são atores. Cumpre-se a palavra de João em relação a Jesus: «É necessário que ele cresça e eu diminua» (João 3:30).

Uma nota eclesiológica: o Papa define a IGREJA como uma casa para muitos, mãe para todos os povos, parteira de um mundo novo, como Maria, «modelo de uma evangelização humilde e jubilosa.»

Um Dia Mundial das Missões muito feliz para ti.

10 de outubro de 2014

COMO JESUS, COMO COMBONI


A Igreja «deu» à família comboniana a segunda parte do capítulo décimo do Evangelho segundo São João (versículos 11 a 16) para celebrarmos a solenidade de São Daniel Comboni, oferecendo o bom pastor do coração trespassado como o modelo de serviço missionário.

Jesus apresenta-se nesta porção dos Evangelhos como o pastor belo, o bom pastor que dá a vida (João 10:11), que oferece a vida pelas ovelhas (João 10:15). Antes tinha proclamado o coração do seu ministério: «Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância» (João 10:10).

Jesus cumpre a promessa de Deus ao seu povo através da profecia de Jeremias: «Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração» (Jeremias 3:15). Ele é o bom pastor do coração trespassado que nos envia para sermos sua presença no tempo e no espaço. Jesus é o belo pastor, o bom pastor, o grande pastor (Hebreus 13: 20), o supremo pastor (1 Pedro 5:4).

Antes de mais, Jesus recupera a figura do pastor. No seu tempo, o ofício de guardador de rebanhos tinha perdido a mística dos tempos antigos. Os pastores viviam com os rebanhos – e dos rebanhos – 24 horas por dia e não guardavam a pureza religiosa. Faziam parte dos excomungados, publicanos e pecadores, excluídos do templo.

Também distingue entre pastores e mercenários. São duas maneiras, duas atitudes de servir: o primeiro dá a vida, o segundo foge dos lobos «porque não se preocupa com as ovelhas.»

Por outro lado, Jesus é o pastor que conhece as ovelhas e elas o conhecem como ele e o Pai se conhecem mutuamente: dois planos numa teia tecida de linhas do mesmo conhecimento, que no dizer bíblico não é acumulação de informação, mas relação, intimidade, entranhamento.

A Regra de Vida dos Missionários Combonianos proclama no nº 21 que «o missionário comboniano é chamado a seguir Cristo, isto é, a estar com Ele e a ser mandado por Ele ao mundo, partilhando o seu destino.» E no nº 21.1 especifica que «o encontro pessoal com Cristo é o momento decisivo da vocação do missionário. Só depois de ter descoberto que foi amado por Cristo e conquistado por Ele, pode deixar tudo e ficar com Ele.»

Daí a necessidade de um serviço missionário de proximidade, sem distâncias higiénicas nem trincheiras ou barreiras. Escreve o Papa Francisco: «Com obras e gestos, a comunidade missionária entra na vida diária dos outros, encurta as distâncias, abaixa-se – se for necessário – até à humilhação e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo. Os evangelizadores contraem assim o “cheiro das ovelhas”, e estas escutam a sua voz» (A Alegria do Evangelho 24).

Jesus não mora preso num lugar, numa ideia. É caminho, saída. Tem outros redis a atender, outras ovelhas a reunir para que haja «um só rebanho e um só pastor» (João 10:16). Este é outro requisito do serviço missionário: deixar tudo – zonas de conforto, projetos pessoais, protagonismos pedantes – para se abrir ao projeto de Deus de construir uma família global através da comunhão, da inclusão, à volta do bom pastor do coração aberto que é nascente de vida e gruta de sossego para os cansados e oprimidos.

Estas foram também as atitudes que coseram a vida e a missão de São Daniel Comboni. A homilia que proferiu em Cartum a 11 de Maio de 1873 é um texto fundamental que deixa transparecer os seus valores referenciais. Cito três parágrafos:

«Tende a certeza de que a minha alma vos corresponde com um amor ilimitado para todo o tempo e para todas as pessoas. Eu volto para o meio de vós para nunca mais deixar de ser vosso e totalmente consagrado para sempre ao vosso maior bem. O dia e a noite, o Sol e a chuva encontrar-me-ão igualmente e sempre disposto a atender as vossas necessidades espirituais; o rico e o pobre, o são e o doente, o jovem e o velho, o patrão e o servo terão sempre igual acesso ao meu coração. O vosso bem será o meu e as vossas penas serão também as minhas» (Escritos 3158).

«Quero partilhar a vossa sorte e o dia mais feliz da minha existência será aquele em que eu possa dar a vida por vós. Não ignoro a gravidade do peso que lanço sobre mim, já que, como pastor, mestre e médico das vossas almas, terei de velar por vós, instruir-vos e corrigir-vos; defender os oprimidos sem prejudicar os opressores, reprovar o erro sem censurar o que erra, condenar o escândalo e o pecado sem deixar de ter compaixão pelos pecadores, procurar os transviados sem encorajar o vício: numa palavra, ser ao mesmo tempo pai e juiz. Mas resigno-me a isso, na esperança de que todos vós me ajudareis a levar este peso com júbilo e com alegria em nome de Deus» (Escritos 3159).

«Meus filhos, eu confio-vos neste dia solene à piedade dos Corações de Jesus e de Maria, e, no acto de oferecer por vós o mais aceitável dos sacrifícios ao Altíssimo Deus, rogo humildemente que seja derramado sobre as vossas almas o sangue da redenção, para as regenerar, para as sarar, para as embelezar na medida da vossa necessidade, a fim de que esta santa missão seja fecunda para a vossa salvação e para a glória de Deus» (Escritos 3164).

Leigas e leigos, seculares, irmãs e irmãos, padres: todos exercemos ministérios, somos servidores. O modelo do bom pastor do coração trespassado é o percurso ministerial que somos chamados a trilhar para sermos pastores segundo o coração de Deus.

8 de outubro de 2014

MENTIRA BOA


«A boa mentira» conta a odisseia horrenda de sete irmãos e uma irmã que a guerra civil forçou a abandonar a aldeia natal em Bahr el Ghazal, no Sudão do Sul. 

Depois de mais de mil quilómetros a pé – dois morreram e um foi preso pelos soldados sudaneses – chegaram ao campo de refugiados de Kakuma, no norte do Quénia. O terceiro irmão faleceu de exaustão à chegada. Os quatro sobreviventes, três rapazes e uma rapariga, tiveram a sorte de serem remetidos para os Estados Unidos.

A saga das oito crianças dincas foi repetida até à exaustão por mais de 20 mil rapazes e algumas raparigas com idades entre os sete e o 17 anos, dincas e nueres, no final dos anos 80. Primeiro, caminharam a pé para a Etiópia. Quando regime de Menguistu caiu, em 1991, foram corridos a tiro e dirigiram-se para Kakuma. Foram apodados de lost boys, crianças perdidas, pelos trabalhadores humanitários.

Muitos miúdos fugiram do inferno da segunda guerra civil que consumiu o Sudão do Sul entre 1983 e 2005. Outros foram enviados pelos pais para poderem estudar.

O SPLA, o Exército de Libertação do Povo do Sudão, criou com as crianças nos campos de refugiados o Red Army, Exército Vermelho, um grupo de crianças-soldados.

Conheci o padre Benjamin Madol, da diocese de Rumbek, que acompanhou durante três meses um grupo de crianças a pé até à Etiópia. Depois foi o capelão dos campos de refugiados no sul do país.

Em 2001, os Estados Unidos começaram a transportar jovens sul-sudaneses retidos em Kakuma sem futuro mas o ataque às Torres Gémeas congelou o programa. 

Cerca de 4000 foram realojados nos EUA.

«A boa mentira» filme narra os perigos – fome, sede, doenças, soldados, feras – que os sobreviventes venceram na marcha pungente através de um pacto que todos repetiram: «Eu quero viver, não quero morrer!»

Nos Estados Unidos tiveram que reaprender a viver tentando manter-se fiéis aos valores tradicionais.

À agente de emprego que os recebeu chamaram carinhosamente Ayardit, grande vaca branca.

O filme termina com uma reviravolta que me apanhou de surpresa. E com um provérbio africano: «Se queres ir depressa vai sozinho, se queres ir longe vai junto.»

«A boa mentira» estreia a 9 de Outubro e vale bem a pena ser visto. Estive na ante-estreia no dia 7.

7 de outubro de 2014

INOVAÇÃO PASTORAL


253 pessoas, incluindo cardeais, bispos, religiosos, peritos, casais e representantes de outras igrejas, estão a participar no Sínodo extraordinário sobre «os desafios pastorais da família, no contexto da evangelização.» A assembleia começou a 5 de Outubro e vai até 19.

O instrumento de trabalho para a assembleia explica que o sínodo vai tratar de três âmbitos: o evangelho da família a ser proposto nas circunstâncias actuais; a pastoral familiar a ser aprofundada face aos novos desafios; a relação generativa e educativa dos pais em relação aos filhos (nº 158).

Há muitas expectativas para o sínodo já que a situação dos divorciados, recasados e juntos coloca desafios pastorais a que a Igreja tem sentido alguma dificuldade em responder.

Há um ponto assente: Jesus era contra o divórcio. A evidência bíblica é conclusiva: «Não separe o homem aquilo que Deus uniu» (Marcos 10:9).

No tempo de Jesus, o judaísmo permitia o divórcio: «Moisés permitiu escrever carta de divórcio e despedir a mulher» ( Marcos 10:4), disseram os fariseus a Jesus depois de lhe perguntarem se era permitido a um homem repudiar a sua mulher. No entender de Jesus, a dispensa de Moisés estava relacionada com a dureza de coração dos crentes (Marcos 10: 5).

Mateus, no capítulo 19 do seu evangelho, relata o mesmo episódio, mas ajunta um detalhe: «Se alguém se divorciar da sua mulher - excepto em caso de união ilegal - e casar com outra, comete adultério» (Mateus 19:9). O texto recorda o princípio de que Jesus era contra o divórcio excepto no caso de «porneia» traduzido aqui por união ilegal, mas que também pode ser imoralidade sexual, fornicação, prostituição.

Paulo, diz à comunidade de Corinto que se uma pessoa foi baptizada e o cônjuge não, podem continuar casados excepto se a parte não crente decidir deixar o matrimónio para preservar a paz (1 Coríntios 7, 12-17). Paulo junta contudo que este é o seu pensar, não o de Jesus. Nos versículos 10 e 11 tinha escrito: «Aos que já estão casados, ordeno, não eu, mas o Senhor, que a mulher não se separe do marido; se, porém, está separada, não se case de novo, ou, então, reconcilie-se com o marido; e o marido não repudie a sua mulher.»

Na Primeira Carta a Timóteo, Paulo diz que os candidatos a «episkopon» (bispo) têm que ser maridos de uma só mulher (1 Timóteo 3:2) Para os diáconos essa exigência não é mencionada (1 Timóteo 3:8). Na Carta a Tito, Paulo recorda que os candidatos a «presbyterous» (padre) devem ser também maridos de uma só mulher (Tito 1: 6). Estas exigências dão a entender que na comunidade cristã havia homens polígamos.

Estes três textos exemplificam como as primeiras comunidades cristãs se mantiveram fiéis ao ensinamento do Senhor que proibia o divórcio e encontraram respostas pastorais inovadoras para as situações concretas que viviam.

Jesus, em Mateus 13:52, conclui o discurso das parábolas do reino com este dito: «todo o doutor da Lei instruído acerca do Reino do Céu é semelhante a um pai de família, que tira coisas novas e velhas do seu tesouro.»

Dom Manuel Clemente disse que o sínodo não vai promulgar o «divórcio católico.» Nem pode! Espera-se é que os participantes na assembleia sinodal digam «coisas novas» para responder aos novos desafios que a família cristã vive hoje e não se limitem a repetir «coisas velhas».

2 de outubro de 2014

AFRICANOS MISSIONÁRIOS

Ir. Tiberh Zerezghi, Missionária Comboniana eritreia, com crianças de Bahia, Brasil

A África passou de terra de missão a Igreja missionária aberta a todo o mundo, incluindo Portugal.

No Verão de 1969, Paulo VI esteve em Campala, a capital do Uganda, para participar no encerramento de um simpósio organizado pelos bispos africanos. Na homilia lançou um apelo decisivo ao continente: «Africanos, sede missionários de vós próprios!»

A Igreja africana aceitou o desafio de ser missionária «em casa» e fora dela: africanas e africanos saíram em missão para outros continentes, incluindo para Portugal, onde ministram em comunidades religiosas e paróquias.

Apesar de não haver estatísticas disponíveis para quantificar a missionariedade do Continente Negro, há alguns indicadores que nos permitem entrever essa realidade.

Tomemos, a título de exemplo, a congregação dos Apóstolos de Jesus, a primeira congregação missionária africana. Foi fundada a 22 de Agosto de 1968 em Moroto, no Uganda, pelo bispo Sisto Mazzoldi e o padre João Marengoni. Estes dois missionários combonianos italianos também fundaram as Irmãs Evangelizadoras de Maria em 1975. O bispo Mazzoldi já tinha fundado as Irmãs do Sagrado Coração e os Irmãos de São Martinho de Porres, no Sudão (hoje do Sul). O padre Marengoni começou os Evangelizadores Contemplativos do Coração de Cristo no Quénia em 1986.

Os Apóstolos de Jesus contam com 381 padres e irmãos e estão presentes em mais de 60 comunidades distribuídas por 76 dioceses: 23 dos Estados Unidos da América, 12 do Uganda, 10 da Tanzânia, 8 do Quénia, 7 da África do Sul, 4 do Sudão do Sul, 3 da Inglaterra, 2 da Etiópia e da Itália e 1 da Austrália, Botsuana, Cuba, Alemanha e Sudão, respectivamente.

O mesmo se passa com as Irmãs Evangelizadoras de Maria, que também foram a primeira congregação missionária feminina africana. São cerca de 250 e vivem em 33 comunidades no Uganda, Tanzânia, Quénia, ilha de Zanzibar, Sudão do Sul, África do Sul, Cuba e Estados Unidos. Dedicam-se à evangelização, educação e promoção humana.

Por outro lado, em França, em Outubro de 2011, havia 847 padres africanos a trabalhar em dioceses francesas. Um quarto era da RD Congo.

Esta partilha de recursos humanos entre as igrejas particulares africanas e com a igreja universal foi preconizada por João Paulo II em A Igreja em África (n.º 129), a exortação apostólica que escreveu depois do primeiro sínodo sobre a Igreja no continente em 1994.

Candidatos africanos também representam um novo fôlego para muitos institutos masculinos e femininos, inclusive aqueles que nasceram para evangelizar a África, como os Missionários Combonianos, e já desempenham funções de liderança. Os seis noviciados combonianos na África, Europa e América têm 78 noviços, dos quais 66 são africanos. O panorama repete-se quanto a estudantes de Teologia: dos 128 seminaristas maiores, 110 são africanos.

O padre Don Bosco Ochieng, um espiritano do Quénia, passou quase dez anos incardinado na diocese de Rumbek, no Sudão do Sul. Hoje é o director da Agência Católica de Notícias para a África. Para ele, «África é uma Igreja missionária e vibrante para si mesma e para o mundo. O facto de africanos estarem a cuidar de paróquias na Europa e nas Américas é outra evidência de que os africanos são missionários».

A presença cada vez mais numerosa de africanas e africanos em institutos de origem europeia renova o próprio carisma com novas maneiras de o viver e operar: os africanos têm uma maneira própria de ser que afecta, enriquece e desafia a vida dos seus institutos. A internacionalização não pode ser apenas decorativa ou estatística, mas leva necessariamente à releitura dos carismas através de novas expressões de vida comunitária e de serviço missionário, nem sempre pacificamente aceites pelos membros mais velhos, europeus na maioria...