16 de setembro de 2014

COMBONIANA NA EVANGELIZAÇÃO DOS POVOS


A superiora geral das Irmãs Missionárias Combonianas foi nomeada membro da Congregação para a Evangelização dos Povos, anunciou a Sala de Imprensa do Vaticano no sábado.

A Ir Luzia Premoli é a primeira mulher a integrar a congregação romana encarregada da evangelização.

É brasileira, tem 59 anos e trabalhou em Moçambique de 1989 a 1997.

A Ir. Luzia é a primeira geral não italiana das missionárias combonianas.

Começou o seu mandato a 8 de dezembro de 2010.

«Sinto uma gratidão profunda pela confiança que me foi dada. Esta nomeação não é reconhecimento da minha pessoa, mas o que represento neste momento: nomeadamente as Irmãs Missionárias Combonianas», disse ao saber da nomeação.

E acrescentou: «Também acho que a minha nomeação está na linha do desejo do Papa Francisco de ter mais mulheres nos dicastérios vaticanos.»

O Papa Francisco restruturou a Congregação para a Evangelização dos Povos nomeando 20 novos membros: 6 cardeais, 10 bispos, 3 padres e uma freira.

Os novos membros vêm da Ásia (5) das Américas (5), África (2), da Europa (2), dos serviços diplomáticos (2) e da Austrália (1).

Com a Ir. Luzia há mais dois superiores gerais na Propaganda Fide: dos Frades Menores Franciscanos e dos Oblatas de Maria Imaculada.

O Papa nomeou ainda dois consultores: um bispo mexicano e outro espanhol da Opus Dei.

A Congregação supervisiona a propagação da Fé pelo mundo inteiro, com a específica competência de coordenar todas as forças missionárias, de proporcionar directivas para as missões, de promover a formação do clero e das hierarquias locais, de incentivar a fundação de novos Institutos missionários e de prover às ajudas materiais para as actividades missionárias.

15 de setembro de 2014

CARTA PARA OS 150 ANOS DO PLANO


O PLANO NA HISTÓRIA DOS FILHOS E FILHAS DE COMBONI
AO LONGO DESTES 150 ANOS

“Desde 1857, quando me encontra na missão dos Kich no Rio Branco, aqui na África Central, passei por todas as provas deste difícil apostolado. E tendo estado onze vezes a ponto de morrer por causa do clima e das enormes fadigas, vi‐me na necessidade de regressar à Europa, onde, após alguns anos, já restabelecido, pensei no modo de voltar a este campo de batalha para nele sacrificar a vida para a salvação dos negros. Foi a 18 de setembro de 1864 quando, ao sair do Vaticano, onde tinha assistido à beatificação de Margarida Maria Alacoque, me veio à mente apresentar à Santa Sé, a ideia do Plano para retomar o apostolado da África Central. O Sagrado Coração de Jesus fez-me superar todas as enormes dificuldades para realizar o meu Plano para a Regeneração da África, com a própria África” (Escritos 3302).

Aos membros dos Institutos combonianos
A todas as pessoas que se inspiram
no carisma de são Daniel Comboni

1. Cordial saudação
Queridas e queridos,
Com esta mensagem, queremos celebrar os 150 anos do Plano para a Regeneração da África, aquele Plano em relação ao qual Daniel Comboni sentiu a necessidade de fundar, em Verona, o Instituto das Missões para a Nigrizia, com a variedade de seus membros: homens e mulheres, religiosos e leigos.
Nascidos do Plano e para o Plano, não podemos esquecer que este é o legado que nos deixou o Pai Fundador, uma herança preciosa que, ainda hoje, a família comboniana quer acolher e conservar com profunda gratidão, responsabilidade e compromisso.
Nós, os responsáveis dos Institutos que ele fundou – Irmãs Missionárias Combonianas Pie Madri della Nigrizia e Missionários Combonianos do Coração de Jesus – e das outras expressões missionárias que se inspiram em seu carisma – Missionárias Seculares Combonianas e Leigos Missionários Combonianos – cientes também de tantas outras pessoas e grupos de leigos que, cada vez mais numerosos, e de várias maneiras, vivem connosco a paixão missionária comboniana, quisemos escrever esta carta para compartilhar uma pequena reflexão sobre o Plano que continua a acompanhar a nossa vida missionária e nos desafia a tornar‐nos resposta para as várias situações missionárias que vivemos hoje em todos os lugares onde estamos presentes.
Com esta carta, também queremos expressar o nosso desejo de mostrar a relevância e a validade das intuições que São Daniel Comboni foi capaz de reunir nas páginas do Plano, reconhecendo que foi um instrumento verdadeiro e eficaz para o trabalho missionário, realizado por tantos irmãos e irmãs durante estes 150 anos, primeiro na África e, posteriormente, em outras partes do mundo.
Queremos que a nossa reflexão seja, se possível, também uma forma de celebrar este aniversário, deixando‐nos tocar pelas urgências da missão que, apesar dos esforços consideráveis, realizados para levar o Evangelho a todos os que estão distantes, continuam a nos desafiar. Nós gostaríamos de ouvir de novo, por meio dos pensamentos impressos no Plano, o grito de São Daniel Comboni que nos chama para consagrarmos a nossa vida àqueles que são no mundo de hoje os mais pobres e os mais abandonados, que têm direito de receber o anúncio da Palavra.
Achamos que é também uma oportunidade para agradecer ao Senhor pelo dom do Espírito que trabalhou no coração do nosso Fundador e na vida de muitos de nós que foram capazes de realizar o Plano para a Regeneração da África com a alegre doação de suas vidas na missão e para a missão.
Esperamos que estas linhas sejam um convite para continuarmos a viver a nossa consagração com a mesma paixão que moveu são Daniel Comboni desde o momento da primeira redação.

2. O Plano: uma vida, mais que um documento
Uma das primeiras impressões que se tem na leitura do Plano é, sem dúvida, de ser confrontados com um texto onde se respira vida, onde há paixão intensa e um grande desejo de encontrar as formas mais adequadas para responder à necessidade que os homens e as mulheres de todos os tempos têm de se encontrarem com Deus.
O Plano, portanto, não é um documento frio com regras definidas, onde tudo foi planejado e calculado. Em suas páginas respira‐se um ar que expressa o sonho, o desejo, a urgência de transmitir vida e as intuições de quem crê na possibilidade de realizar o que muitos consideram impossível.
Percebe‐se um forte desejo de não abandonar a missão, especialmente no momento em que crescem as dificuldades e o futuro parece incerto. É um texto que exala a fragrância da fé, que encoraja a seguir em frente na certeza de que se trabalha para uma obra querida por Deus. No Plano fala‐se de um projeto que acompanha a vida e leva a concentrar todas as forças em uma única tarefa, de algo que se apropria de todo o coração, e não deixa espaço para outra obra que não seja a da missão. É uma ideia que vive com toda sua força mais no coração do que na cabeça: esta é uma forma concreta de traduzir em obra o amor que é reconhecido no coração.
O plano, na verdade, não nasceu na cabeça de Comboni, não é o resultado de sua especulação; ao contrário, nasceu do desejo de se tornar um instrumento de Deus para manifestar o amor a quem tem direito, todos seus filhos e filhas. Se nos lembramos do que Comboni escreveu em sua carta de 31 de Julho 1873, a Mons. De Girardin, vemos claramente que o Plano foi, antes de tudo, uma experiência e, em seguida, uma proposta por escrito.

3. Uma resposta missionária nascida da realidade
Ouçamos novamente o que nos diz Comboni: passei por todas as provas deste difícil apostolado... pensei no modo de voltar a este campo de batalha para nele sacrificar a vida para a salvação dos negros (Escritos 3302). O Plano não é uma simples estratégia pastoral, mas uma leitura e assimilação da realidade, cujos desafios tornam são Daniel criativo e capaz de realizar um trabalho que tenha chances de sucesso para a missão.
Esse vem, portanto, da capacidade de ler e compreender a realidade em que estamos presentes, e interagir com ela. Uma realidade marcada pela escravidão, pelos critérios de lucro e da exploração, da impossibilidade, para os africanos, de viverem de acordo com a sua dignidade. Uma realidade onde os valores do Reino foram ignorados ou negados. Nesse contexto, o Plano se revela como obra humilde e inteligente ao mesmo tempo. Ao olharmos para as nossas presenças missionárias e para a realidade dos ambientes em que atuamos, quantas vezes somos obrigados a reconhecer que a realidade, ainda hoje, não é muito diferente? Ainda hoje, na verdade, muitas vezes somos testemunhas de violência, violação dos direitos humanos, de exclusão e escravização de muitos dos nossos irmãos e irmãs.

4. Uma grande intuição
Lendo o Plano, é fácil descobrir uma multiplicidade de ideias, projetos, recursos a serem utilizados, que giram em torno de uma única ideia: é uma obra para a qual todos aqueles que se veem desafiados pela missão são chamados a contribuir, tornando a missão uma obra da Igreja.
“A Obra deve ser católica, não espanhola, francesa, alemã ou italiana. Todos os católicos devem ajudar os pobres negros, porque uma nação só, não pode socorrer toda a raça negra. As iniciativas católicas, como a do venerável Olivieri, a do Instituto Mazza, a do Padre Ludovico, a da Sociedade de Lião, etc., fizeram, sem dúvida, muito bem a um número de pessoas negras; porém, até agora, ainda não se começou a implantar o catolicismo na África e a fazê‐lo arraigar aí para sempre. Pelo contrário, como o nosso Plano, nós aspiramos a abrir a via da entrada da fé católica em todas as tribos de todo o território em que vivem os negros. E para obter isto, parece‐me, devem unir-se todas as obras até agora existentes, as quais, tendo desinteressadamente perante os olhos o nobre fim, deverão deixar de lado os seus interesses particulares (Escritos 944).
É uma obra em que não há espaço para os protagonismos ou para as pretensões de querer agir sozinhos. O Plano é um trabalho de colaboração que envolve todos aqueles que respondem com um coração generoso e deixa claro que a missão é um dom recebido e oferecido gratuitamente na alegria.
Comboni pensava em um grande “movimento missionário” para envolver todos e tudo na missão para a África, ele esperava encontrar “aprovação, apoio e ajuda no coração dos católicos de todo o mundo”. Por isso, ele percorreu longas distâncias, também pela Europa, pensando inclusive de chegar à América, para procurar colaboradores, ajudas económicas, apoio espiritual...
A partir deste impulso, surgiram os Institutos Combonianos, e, mais tarde, o Instituto das Missionárias Seculares Combonianas e os Leigos Missionários Combonianos. Mas a obra é ainda mais extensa e continua a inspirar e motivar tanto aqueles que adotaram uma forma de vida consagrada quanto quem, como batizado, sente‐se chamado para a missão. Continua para todos o desafio de como unir forças e vontade, para cooperar e dar um impulso contínuo à missão.

5. Inspirado por um encontro
“Creio que este plano è obra de Deus, porque me veio à mente a 15 de setembro, enquanto fazia o tríduo à Beata Alacoque; e no dia 18, em que essa serva de Deus foi beatificada, o Cardeal Barnabó terminava de ler o meu Plano. Trabalhei nele quase 60 horas seguidas” (Escritos 926).
O Plano, portanto, é o resultado de um longo processo de pesquisa, perguntas, consultas e da própria experiência difícil, mas não é só isso. Há um outro fator que não deve ser esquecido: é o resultado de um encontro com o Senhor, as horas dedicadas à oração, buscando a vontade de Deus em toda aquela aventura. Comboni não teve dúvida ao reconhecer que o Plano foi um dom de Deus, graça mediada por Maria, poder do Espírito que se mostrou generoso com suas inspirações. Neste sentido, o Plano é uma forma concreta de dizer que a obra missionária não é negócio humano. A missão é obra de Deus e, como todas as suas obras, exige muita fé, que só pode vir no silêncio da oração, no encontro que permite ouvir a vontade de Deus.

6. Uma experiência vivida pelas filhas e filhos de Comboni
6.1 Um olhar no passado, para melhor traçar o futuro
Não foram poucos esses filhos e filhas, a começar pelos primeiros 22 que a 29 de novembro de 1867, guiados por Daniel Comboni, partiram de Marselha com destino ao Egito. Eram dezesseis meninas africanas – nove das quais do Instituto Mazza em Verona –, três Irmãs de São José da Aparição e três religiosos Camilianos.
A primeira etapa da viagem era o Cairo, onde começaria a implementação do Plano, dando vida aos primeiros daqueles "Institutos preparatórios" que deveriam "circundar a África".
Dois anos depois, em 1869, também no Cairo, Daniel Comboni confiou a direção de um terceiro instituto, a "Sagrada Família", a quatro educadoras africanas, uma delas era a jovem Dinka Domitilla Bakhita. Era uma escola paroquial feminina e pública, aberta a meninas de todo rito e religião, incluindo o islamismo.
Foi um momento importante: o objetivo principal do Plano – Regenerar a África com a África – começava a se tornar realidade. Uma realidade que Comboni reforçou quatro anos depois, quando incluiu as jovens professoras africanas na expedição que, em 1873, ele mesmo guiou primeiro do Cairo a Cartum e em seguida de Cartum a El‐Obeid, onde confiou a Domitilla, Fortunata Quascè e Faustina Stampais a fundação da “Obra feminina” do Cordofão. Finalmente, em 1881, o Bispo Daniel enviou como pároco à comunidade promissora de Malbes, no Cordofão, Pe. António Dobale, da tribo dos Galla, um dos onze “meninos Negros” que o Instituto Mazza acolhera em 1860 e que em 1878 Propaganda Fide tinha ordenado sacerdote para a África Central.
Nesse ponto, Daniele Comboni se sentia satisfeito com seus missionários: padres, irmãs (Pie Madri della Nigrizia), leigos e leigas. Uma confiança merecida, como demonstrou o trágico acontecimento daquele outono de 1881, a morte inesperada do Fundador.
Naquele momento, manifestou‐se fortemente, para as Pie Madri della Nigrizia, a figura de Madre Bollezzoli que, com a carta de 18 de outubro de 1881, exortava firmemente as irmãs a permanecerem fortes seguindo as pegadas traçadas pelo Fundador: "não volteis atrás, mas caminhai corajosamente nas pegadas do vosso magnânimo Pai". E continuou a seguir a inspiração do Plano, formando, ao longo do tempo, centenas de irmãs que partiam para a missão na África.
A irrupção da Mahdia, quando os missionários e missionárias enfrentaram a prisão, o martírio, e o êxodo forçado, foi uma experiência forte que deixou sua marca e testou a fidelidade ao Plano de Comboni.
Aqueles que conseguiram fugir para o Egito com Mons. Sogaro, tiveram também que lidar com o momento delicado da "passagem", da transformação do Instituto originário a uma congregação religiosa masculina (1885).
E quando os primeiros Filhos do Sagrado Coração chegaram ao Egito, era evidente que algo havia mudado na escala de valores indicada pelo Fundador: agora, antes mesmo das necessidades da missão, era o espírito religioso – muito salientado durante o noviciado, pelos padres Jesuítas – que devia inspirar e orientar a vida da Comunidade.
Criava‐se uma dolorosa e sofrida tensão entre instituição e carisma. Naquele tempo de mudanças, os que mais sofreram e suportaram as consequências foram principalmente os leigos e as meninas africanas que, de alguma forma, viram‐se excluídos da instituição. Nem foi essa a única vez que pareceu diminuir a fidelidade ao carisma: não podemos deixar de registrar o fato doloroso da divisão dos combonianos em duas Congregações separadas.

6.2 Do Plano para a África e o mundo
Continuamos a dirigir o nosso olhar para a história: se a fidelidade ao Plano não se mostrava tão evidente entre os novos grupos de pessoas que continuavam a chegar ao Egito durante o tempo da diáspora, certamente não se podia dizer que tivesse diminuído o amor pela missão ou a paixão pela África.
Na verdade, o fim da Mahdia em 1898 viu todos os Filhos do S. Coração e as Pie Madri della Nigrizia prontos para retornar. Ademais, o Sudão, como território missionário, fora confiado à jovem congregação masculina (1894).
É só folhear as páginas de Nigrizia para ver a doação, por exemplo, dos vigários apostólicos Antônio Maria Roveggio e Francesco Saverio Geyer. O famoso barco da missão, recolocado em atividade, embora com nome diferente, retomou logo, ao longo do Nilo, a exploração do território que a Mahdia tinha forçado a abandonar. Em 1902 foi aberta, não muito longe de Gondokoro, entre os Shilluk, a missão de Lul.
Costanza Caldara (superiora geral das Pie Madri de 1901 a 1931) estava atenta às necessidades das novas missões; em 1900, Francesca Dalmasso e Maria Bonetti foram as primeiras entre as irmãs que estavam prontas, para retornarem ao Sudão e, se necessário, irem além. Nos anos seguintes, novas comunidades foram abertas em outros Países da Europa e Oriente Médio; e a partir dos anos cinquenta do século passado, as combonianas e os combonianos estenderam sua presença nas Américas.
Das meninas africanas que Daniel Comboni tinha acompanhado com cuidado, para que chegassem a “ser apóstolas na sua nação, com base no Plano” (Escritos 2012), infelizmente nada mais se falou. Isto nos leva a compreender como um aspecto da instituição, em um certo tempo, tenha sido deixado de lado. Em parte é ainda assim: também hoje temos dificuldade para sairmos de um determinado protagonismo institucional a fim de valorizarmos a catolicidade do Plano, como Daniel Comboni desejou e previu.
O Plano, no entanto, não foi totalmente esquecido. Em torno de 1938, enquanto nas várias províncias e vicariatos da África Central confiados aos Filhos do S. Coração, multiplicavam‐se os seminários que recebiam jovens africanos, um grupo de moças ugandesas manifestava o desejo de se consagrar a Deus na jovem Igreja particular.
Graças à sensibilidade dos combonianos e combonianas no acompanhamento destes grupos – bem como de outros, que surgiram ao longo dos anos – ficamos felizes ao ver hoje que vários destes grupos tornaram‐se congregações locais autónomas, algumas com um forte espírito missionário expressado com comunidades em outros continentes, concretizando, deste modo, o sonho de Comboni.
Isso significa que, mesmo na ausência de uma declaração expressa das vontades, havia entre os filhos e filhas de São Daniel uma espiritualidade que sustentava a fidelidade ao espírito do Plano. Os Capítulos Gerais Extraordinários dos Institutos e a celebração dos centenários de fundação foram momentos fortes em que se fez uma profunda reflexão sobre a identidade carismática, sobre a espiritualidade e sobre o Plano de Comboni. Estes acontecimentos impulsionaram a pesquisa e o conhecimento direto dos Escritos de Comboni e da história dos Institutos. Em seguida, à luz dos documentos do Concílio Vaticano II e da expansão das congregações fora do continente Africano, iniciou‐se uma reflexão profunda sobre a identidade do carisma na fidelidade ao Plano, que envolveu todos os membros.
Ao longo dos anos, o trabalho – em conjunto – de “homens e mulheres”, como religiosos e religiosas, missionários e missionárias, trouxe alegria, ajuda mútua, crescimento, mas também fadiga, incompreensões e até mesmo divisões e feridas. Com a nova consciência da mulher sobre si mesma e de seu papel na Igreja e na sociedade, também as “Pie Madri della Nigrizia” reavaliaram o perfil que Comboni queria para elas no Plano: “Eu fui o primeiro a fazer com que colabore no apostolado da África Central o omnipotente ministério da mulher do Evangelho e da Irmã da caridade, que é o escudo, a força e a garantia do ministério do missionário” (Escritos 5284).
Ao continuarmos o nosso percurso histórico, vemos que nos anos cinquenta do século passado, por intuição de um Missionário Comboniano, teve início o Instituto das Missionárias Seculares Combonianas, com a finalidade da cooperação missionária, ou seja, suscitar iniciativas e envolver a todos na missão. Esta intuição foi confirmada pelo Concílio Vaticano II, que trouxe uma nova consciência laical, da sua vocação específica na missão e de seu protagonismo total na missão.
Isso é demonstrado pela última expressão na ordem do tempo: o nascimento dos Leigos Missionários Combonianos e pela formação de grupos de leigos e leigas que, inspirados pelo carisma comboniano, se sentem como enriquecimento para toda a Família comboniana e para a Igreja missionária.
O resultado mais evidente que o espírito do Plano continuou a dar é a abundância de vocações religiosas e laicais à missão, provenientes de países que antes eram considerados “terra de missão”. Temos diante de nós um grande dom que devemos olhar, conscientes de que nos desafia a abraçar sem reservas e com entusiasmo a interculturalidade da missão hoje.
Como podemos ver, é um longo, rico e às vezes fadigoso caminho da Família comboniana, um caminho que merece e exige mais atenção hoje. É para aumentar a consciência e a firme determinação de cada um para trabalhar e ser missionários e missionárias na perspectiva do Plano em sua mais íntima energia e originalidade.

6.3 Vitalidade e atualidade do Plano
Estamos todos de acordo em reconhecer que a Igreja vive hoje um momento especial em relação à sua consciência missionária. Papa Francesco, desde o início de seu pontificado, ao dar a seu ministério de Bispo de Roma, um tom peculiar, sublinhou a urgência, a importância e a necessidade, por parte de cada cristão a viver a vocação missionária. Seu convite para sair, para ir às periferias existenciais para encontrar os irmãos e irmãs mais pobres, está despertando em toda a Igreja um novo espírito, que nos torna conscientes do tesouro que temos no Evangelho e da importância de comunicá‐lo, para experimentar a alegria profunda.
Neste contexto de novo envio e de clareza sobre a necessidade de assumir a dimensão missionária do nosso batismo, estamos lidando com uma linguagem e uma proposta que fazem ver a missão como uma obra pertencente a todos, na medida em que nos reconhecemos discípulos de Jesus e associados à sua missão.
Este compromisso – dizem‐nos – não pode ser responsabilidade apenas de um pequeno grupo ou de alguns que se sentem particularmente chamados a dar a vida para a missão; ao contrário, é um compromisso e trabalho de toda a Igreja: aqui certamente aparece a grande atualidade e vitalidade do Plano.

6.4 Partir novamente como Família comboniana e com o espírito do Plano
Desde 1996, e especialmente desde 2003, Comboni Santo se reapresenta a todos nós mais vivo e mais presente do que nunca com seu carisma, fazendo‐nos reencontrar, para juntos festejá‐lo. Eventos como a beatificação e a canonização foram momentos privilegiados para um conhecimento e celebração que também permitiram reconciliação e renovação de forças em torno do pai comum. Com alegria pudemos ver que, para celebrar momentos tão importantes, para não dizer únicos, da história comboniana, estávamos novamente todos: Irmãs Missionárias Combonianas, Missionários Combonianos do Coração de Jesus, Missionárias Seculares Combonianas, Leigos Missionários Combonianos e outros grupos de Leigos e Leigas.
Unidos, também se diferentes, cada um com as próprias Constituições e um projeto específico de trabalho apostólico.
O evento do Aniversário que celebramos este ano, nos impulsiona a fazer memória do que já foi vivido, para um reavivamento que acolha os desafios e as perguntas que a realidade nossa e da vida missionária nos propõem. Comboni deixou‐nos um estilo de ministerialidade fortemente enraizado em sua experiência mística e na paixão para a pessoa e para a missão. Esta sua experiência e paixão são inseparavelmente presentes nos vários aspectos – espiritual, místico, profético e metodológico – do Plano para a Regeneração da África.
As rápidas mudanças no mundo de hoje e os desafios das Igrejas e dos povos com quem vivemos, fazem surgir em nós a urgência de aprofundar, através de uma reflexão sistemática, a nossa ministerialidade comboniana vivida como chamada profundamente enraizada em Deus, participação na maternidade/paternidade de Deus que gera vida em um dom total e gratuito, fraternidade com Jesus, entre nós e as pessoas que servimos na poeira do seu caminho, encarnação da nossa espiritualidade, presença na história junto dos pobres e dos excluídos, caminho com os povos, para que todos tenham vida e vida em abundância, consciência da temporaneidade de nossa presença e serviço, acreditando nas pessoas, nas suas capacidades de regenerar‐se e na metodologia do diminuir, para que os outros cresçam.
Por isso, é importante para nós assumir a justiça, a paz e a integridade da Criação (JPIC) e o diálogo e a reconciliação como valores transversais que permeiam todos os ministérios. É igualmente importante para nós a revisão da nossa metodologia nos ministérios: o fazer causa comum, o ser pedra escondida para que outros cresçam, a inculturação e a inserção, o compromisso de trabalhar em rede/colaboração (com Igrejas locais, com a Família comboniana, com outras congregações, com organizações várias), abertos ao novo que se move na consciência da sociedade e em suas expressões.
Na escolha dos nossos ministérios, é necessário que nos deixemos ser desafiados pelos desafios emergentes, em especial pelo fenómeno do tráfico de pessoas, particularmente de mulheres e meninos/as, pela imigração e refugiados, pela situação dos povos afrodescendentes, indígenas e pastores nómadas, para darmos respostas significativas hoje.
A reflexão sobre a missão em diálogo é de particular importância para cada um/a de nós, porque o mundo está se movendo em direção a um pluralismo religioso e cultural, desafiando as nossas convicções e nossa metodologia.
A herança carismática molda a nossa abordagem pastoral nos vários ministérios e abre as nossas mentes e os nossos corações para a dimensão essencial do diálogo, chamando-nos a "sermos um sinal do amor de Deus no mundo, que é amor sem nenhuma exclusão nem preferência". Somos chamados/as, portanto, a tornar‐nos sinal profético no diálogo e no serviço, ponte entre os povos, através da experiência cotidiana demissão, vivendo lado a lado com os povos de diferentes culturas e fé.
Este diálogo se manifesta nos gestos simples do cotidiano e no encontro com outras Igrejas e Comunidades cristãs, para se tornar um sinal de anúncio de Cristo, fonte de unidade; com as religiões nãocristãs, especialmente com as religiões tradicionais e o Islã, para ser sinal profético na busca comum de Deus; com as culturas, para transformar a humanidade através do compromisso comum de um mundo mais justo.
A espiritualidade herdada do Plano, este "sentir o próprio coração bater em uníssono com o Coração de Cristo", encoraja-nos a levar o "beijo da paz" a qualquer periferia geográfica e existencial, porque a África de Comboni tornou‐se critério para reconhecer no mundo onde estão os "mais pobres e abandonados" e onde estão as "pegadas do nosso magnânimo Pai", e continuarmos a ser fiéis ao seu Plano no hoje da história, após 150 anos.

7. Conclusão
Queridas e queridos,
Portanto, temos muitos motivos para comemorar este evento, tantas razões para sermos orgulhosos disso e desafiados ao mesmo tempo, tantas razões para refletir.
Com São Paulo, o grande apóstolo missionário, dizemos: E o próprio Senhor nosso Jesus Cristo e Deus nosso Pai, que nos amou, e pela sua graça nos deu uma eterna consolação e uma boa esperança, console os vossos corações e os confirme para toda boa obra e palavra” (2 Ts 2, 16‐17).
Muitos de nós somos movidos pelo dom que Jesus deu à sua Igreja e a cada um de nós em São Daniel Comboni e no fruto da sua criatividade obediente, o Plano para a regeneração da África. Trabalharemos com os olhos fixos no mesmo objetivo que Comboni tinha nos olhos e no coração, também se todos não faremos a mesma coisa ou não a faremos do mesmo modo. O reconhecimento mútuo, o respeito e a valorização da diversidade de serviços e de papéis fortalecerão a comunhão e permitirão que sejamos testemunhas no mundo missionário, de uma diversidade finalmente reconhecida e reconciliada.
Queremos, na verdade, que na Família comboniana de hoje haja espaço para a diversidade reconhecida na igualdade do estilo de vida; queremos aprender a reconhecer os talentos de cada grupo para fazê‐los frutificar em função do Reino, trabalhando em rede...
Que todos os nossos irmãos e irmãs santos e mártires, começando com os prisioneiros da Mahdia, nos ajudem. Ajude‐nos sobretudo nosso pai São Daniel que nos queria “santos e capazes”, capazes de relações novas e verdadeiramente evangélicas, capazes de vivermos a igualdade na diversidade, fazendo causa comum com os pobres e os excluídos, sem tirar‐lhes o direito de serem sujeito das próprias escolhas de vida e do próprio caminho de fé.
Só assim poderemos responder de forma eficaz aos grandes desafios emergentes que o mundo nos apresenta.
Roma, 15 de setembro de 2014
150 anos do Plano para a Regeneração da África

Os Missionários Combonianos do Coração de Jesus
As Irmãs Missionárias Combonianas
As Missionárias Seculares Combonianas
Os Leigos Missionários Combonianos

14 de setembro de 2014

PLANO PARA A REGENERAÇÃO DA ÁFRICA


Os Missionários Combonianos celebram a 15 de setembro os 150 anos da estratégia de São Daniel Comboni para a evangelização da África. Um esboço que começou como projeto de conversão e evoluiu para plano de regeneração.

Daniel Comboni intitulou o seu projeto para a evangelização da África «RESUMO DO NOVO PROJECTO da SOCIEDADE DOS SGDOS. CORAÇÕES DE JESUS E MARIA PARA A CONVERSÃO DA ÁFRICA PROPOSTO à S. CONGREGAÇÃO DE PROPAGANDE FIDE por P.e Daniel Comboni do Insto. Mazza 1864».

Na quarta edição, sete anos mais tarde, o título mudou para «PLANO PARA A REGENERAÇÃO DA ÁFRICA PROPOSTO POR P.e DANIEL COMBONI MISSIONÁRIO APOSTÓLICO DA ÁFRICA CENTRAL SUPERIOR DOS INSTITUTOS DE NEGROS DO EGIPTO QUARTA EDIÇÃO Verona Tipografia Episcopal de A. Merlo 1871 REGENERAÇÃO DA ÁFRICA COM A ÁFRICA.»

A mudança é significativa a vários títulos…

EDIÇÃO DE 1864

Dois olhares sobre a África: Comboni no Prólogo contrasta o olhar dos exploradores do século XIX e a do filantropo cristão: os primeiros querem desvendar os mistérios da África nos campos do conhecimento e do comércio enquanto os últimos olham para s condição dos africanos e procuram uma resposta através da «fraterna comiseração» e «eficácia da cooperação» «para o melhoramento da sua triste sorte» (E 801).

Decentralização: Comboni advoga a decentralização da missão para a conversão dos negros da Europa para as periferias da África (E 806) e fala da necessidade de um novo projecto, um novo «caminho possível» (E 809-810).Ele acredita que a «caridade do Evangelho pode oferecer ajudas e remédios comuns para a regeneração dos negros» (E 811). Apesar de o título indicar a conversão dos negros, a sua regeneração já está na mente de Comboni.

Global: O projecto é global, para toda a África, e inclui institutos masculinos e femininos, seminários, universidades, escolas técnicas de especialização (E 813; 838; 839).

Subsidiariedade: a evangelização da África é obra dos africanos; os institutos religiosos assistem na formação de catequistas, professores ou mestres e artesãos (E (823).

Inculturação: Exige dos institutos participantes a inculturação de um governo adaptado às condições locais (E 825). O curso básico para a formação de padres devia ser reduzido de 12 para seis até oito anos devido ao «amadurecimento precoce» dos africanos (E 831).

Mulher: A mulher tem um papel essencial: a regeneração da grande família dos negros «depende absolutamente» da «sociedade feminina africana» (E 829). Sugere a criação de Virgens da Caridade para o ensino e o ministério feminino (E 833).

Comité: Comboni propõe o estabelecimento de um comité de eclesiásticos e leigos para gerir e financiar o empreendimento missionário (E 841-842).



EDIÇÃO DE 1871

A IV edição fala de plano em vez de projeto e de regeneração em vez de conversão. O plano é mais cordial: «coração que bate», «amor que faz partir»… (E 2742).

O texto é mais longo e detalhado (a 1.ª edição tem 4,444 palavras e a 4.ª 5,378)

Salvar a África com a África: A visão de Comboni toma forma nesta edição e é incorporada no título. Trata-se de uma das frases de Comboni mais repetidas pelos jovens sul-sudaneses. Usando a linguagem moderna, a missão deve empoderar os africanos a serem os fatores da sua própria história (Ver E 3302).

Plano para planos: O Plano é um primeiro momento que vai dar origem a novas ideias, luzes, instituições, planos para o desenvolvimento do «ministério evangélico» (E 2788).

Eclesial: o plano vê a missão africana como uma obra católica que envolve toda a Igreja dos quatro cantos do mundo (E 2791).

Origens: A evangelização da África Central começou e, 1848 com os jesuítas e franciscanos. O Plano de Comboni tem raízes no seu amor incondicional pelos africanos e no falhanço da missão de Santa Cruz entre os Dincas do Sudão do Sul entre 14 de Fevereiro de 1858 e 15 de Janeiro de 1859. O mesmo aconteceu à missão de Gondokoro entre os Baris, onde se encontra hoje Juba. Comboni nota com tristeza que «a missão da África Central está quase morta» (E 942). A ideia surgiu em Colónia na Alemanha em 1863 (E 909) e desenvolveu-se numa viagem de comboio entre Colónia e Mogúncia (Mainz) (E 942). Foi escrito entre 15 e 18 de Setembro de 1864, em Roma, durante a preparação para a beatificação da irmã Margarida Maria Alacoque. Sessenta horas de escrita. «Como um relâmpago, iluminou-se-me a ideia de propor para a cristianização dos pobres negros um novo plano» para dar «maior vitalidade e solidez» à missão da África Central (E 4799). O plano também foi inspirado por Maria, como Comboni disse no Santuário Francês de La Salette (E 1639).

Colaboração: a missão precisa da ajuda de «muitos homens peritos» e Comboni quer «unir e utilizar no meu plano todos os que trabalham em favor da África» (E 942). A obra deve ser católica (E 944).

Funcionou: Numa carta ao Cardeal Alexandre Francchi Comboni que antes do Plano dois terços dos missionários morriam durante os primeiros dois anos de cada expedição. Depois do plano, em quatro anos ninguém morreu: os 15 missionários gozavam de boa saúde. Infelizmente a situação veio a alterar-se no final da sua vida.

O Plano expressa a necessidade de pensar globalmente em ordem para agir localmente.

12 de setembro de 2014

RÁDIO BAKHITA

© MLogel

Os serviços de segurança nacional do Sudão do Sul devolveram as chaves da Rádio Bakhita à Arquidiocese de Juba depois de manterem a estação encerrada quase um mês.

Rádio Bakhita - A Voz da Igreja em Juba foi silenciada a 16 de agosto por ter transmitido uma notícia que, segundo a segurança nacional, expressava o ponto de vista dos rebeldes na oposição armada ao regime de Salva Kiir Mayardit.

A 15 de agosto as tropas do governo atacaram posições dos rebeldes do SPLM-na-Oposição em Bentiu, usando crianças entre as tropas segundo denunciou Human Rights Watch.

Para o governo, o ataque foi iniciado pela oposição.

O editor Ocen David foi libertado depois de quatro dias de prisão numa sala sem luz com mais de 50 detidos acusados de apoiar a oposição liderada pelo ex-vice presidente Riek Machar Teny.

Ocen encontra-se em Campala, Uganda, a recuperar dos maus tratos que sofreu durante a detenção.

As duas fações do SPLM, o partido que detém o poder no Sudão do Sul desde 2005, digladiam-se desde 15 de dezembro.

Mais de 20 pessoas morreram no conflito e cerca de um milhão e meio foram deslocadas pela luta pelo poder que assumiu contornos étnicos entre nueres e dincas, as principais etnias do Sudão do Sul.

Na quinta-feira, 4 de setembro, o presidente Salva Kiir Mayardit prometeu a Dom Paolino Lukudu Loro, Arcebispo de Juba, que as chaves da Rádio Bakhita lhe seriam entregues antes de domingo.

No domingo, 7 de setembro, o ministro da informação Michael Makuei acusou Bakhita de ser financiada por estrangeiros e de «distribuir literatura subversiva», de ultrapassar o seu mandato de estação religiosa ao transmitir programas políticos, organizando fóruns diretos sem controlar o conteúdo das chamadas…

O ministro disse que a rádio tinha uma licença para transmitir programas religiosos e devia cingir a sua programação a essa área e que o seu encerramento era um aviso às outras estações privadas das Nações Unidas e do governo americano.

As mesmas acusações tinham sido feitas pelo então ministro do interior Gier Chuang, hoje na oposição ao Presidente Kiir, em 2009, quando chamou a Ir. Cecília Sierra, diretora de Bakhita, e eu, diretor de informação, à pedra.

A lei do Sudão do Sul só prevê rádios públicas e privadas. As últimas podem ser comerciais ou comunitárias. A lei não contempla rádios religiosas.

A Voz da Igreja fez a primeira transmissão experimental a 24 de Dezembro de 2006 e começou emissões regulares em Juba a 8 de fevereiro de 2007.

Foi a primeira das nove estações da Rede Católica de Rádios: oito no Sudão do Sul e uma nos Montes Nubas, no Sudão, em território controlado pelos rebeldes do SPLM-Norte.

A Voz do Amor, a rádio da diocese católica de Malakal, foi saqueada e destruída em fevereiro pelas forças da oposição.

7 de setembro de 2014

PRIMEIROS VOTOS




O. P. Ítalo Scoccia, comboniano italiano, fez hoje os seus primeiros votos na Congregação dos Missionários Combonianos durante a Assembleia Provincal. E deixou-nos o seu testemunho.

Chamo-me Italo, tenho 64 anos de idade e sou noviço comboniano. Nasci a 11 de Setembro de 1949 na Itália. Os meus pais, Adino Scoccia e Clara Marinelli, eram agricultores pobres. Éramos uma família rica de fé. O meu pai nas noites de inverno sentava-me nos seus joelhos perto da lareira e, depois de rezar o terço em família, contava-me a história de Jesus que me comovia e fazia chorar. Embora pobre, sentia-me uma criança feliz, rodeada de muito carinho.

Aos oito anos, depois de escutar o testemunho de um missionário, manifestei, pela primeira vez, o desejo de ser missionário na África. Acabada a escola primária ingressei nos Salesianos de Loreto, para ser missionário, motivado mais pela devoção a Nossa Senhora que por um discernimento vocacional. Em 1966, aos dezasseis anos, fui admitido ao Noviciado em Lanúvio de Roma, onde comecei a discernir mais seriamente a minha vocação. Em 1968, durante os meus votos temporários, estudei no Liceu de Genzano de Roma. Em 1969 renovei os votos por um segundo triénio e fui destinado a Terni para o tirocínio prático. Tive as primeiras responsabilidades educativas, comecei os estudos universitários de Letras e Filosofia em Perugia, e experimentei a vida de uma comunidade religiosa real com muito trabalho, com muitas gratificações e também algumas desilusões no apostolado.

Quando estava preparado para fazer os votos perpétuos, no dia 27 Abril de 1972 morreu o meu único irmão Renato. Entrei em crise e, depois de um longo tempo de discernimento, saí dos Salesianos para, de acordo com os meus superiores e com o bispo da minha diocese, entrar no seminário regional de Ancona. Antes de entrar no seminário, passei um ano com os meus pais e depois de um ano de seminário fiz um ano de serviço militar em Treviso. Durante os estudos teológicos fiz experiências pastorais e estudei música no Conservatório Gioacchino Rossini de Pésaro. Antes da ordenação sacerdotal já estava de acordo com um missionário Fidei Donum da minha diocese para ir para a missão, num futuro próximo.

Em 1979 fui ordenado sacerdote pelo Papa João Paulo II. Trabalhei como vice-pároco na maior paróquia da diocese, em Castelraimondo. Além disso, ensinei religião na escola pública e música no seminário. Sentia-me realizado. Porém, o desejo mais forte era da missão. Em 1985 com a bênção dos meus pais e a autorização do Vigário Geral, deixei tudo e fui para Lima, Peru, como sacerdote fidei donum, para uma paróquia onde já trabalhavam outros dois sacerdotes. Os pobres, a vida comunitária, a pastoral e todas as vivências e atividades em ambiente de igreja que vive entre os últimos e mais atribulados da periferia de Lima fizeram-me mudar o meu modo de crer, de orar, de atuar.... Alegrei-me com as pequenas conquistas dos pobres e neles reconheci a acção de Cristo Ressuscitado. Aí encontrei esse povo que sofre e que crê e nele pareceu-me tocar a «carne de Cristo açoitado». Por isso o amei como a nenhum outro povo. Considero os doze anos de vida missionária no Peru como os melhores que eu vivi até agora, apesar de algumas sombras e erros.

No dia1 de Janeiro 1997, o meu pai faleceu de repente e minha mãe ficou sozinha. E eu que não havia deixado a missão nem com as ameaças dos terroristas, voltei para minha diocese e levei a minha mãe para morar comigo. A 14 Março de 2012 faleceu também a minha mãe e eu fiquei só. Imediatamente anunciei ao meu bispo a minha vontade de voltar para a missão. Entrei também contacto com o meu amigo Comboniano, Pe. Daniele Moschetti, que me orientou para o superior da província italiana. Juntos mandaram-me fazer uma experiência no Sudão do Sul e depois de diálogos e consultas o superior provincial e o meu bispo puseram-se de acordo para o meu ingresso no Noviciado Europeu de Santarém, em 19 agosto 2013.

As motivações que me levaram a optar pelos Combonianos foram: o método missionário de São Daniel Comboni de «Salvar África com África», a opção missionária da sua congregação de testemunhar o evangelho entre os pobres mais pobres, opção que eu tinha amadurecido no Peru, e finalmente a esperança de realizar a minha vocação missionária ad gentes, que senti desde pequeno, que nunca esqueci e que, para mim, é o melhor presente da minha vida.

Este tempo do Noviciado é um grande dom do Coração de Jesus. Estou contente por ter muito tempo de oração e uma comunidade que me ajuda a discernir e fazer a vontade de Deus. Sinto-me bem acolhido. Procuro partilhar o que sou e sei em solidariedade com os meus colegas sem distinção. Se Deus quiser, em Setembro faço a minha Profissão Religiosa e sonho ser enviado ao Sudão do Sul, «a missão do coração».

Rezem por mim.
P. Italo Scoccia

29 de agosto de 2014

MILAGRE DO SOL


Quando o Sol se põe em África, mesmo assim continua a iluminar milhões de pessoas que têm na sua energia uma alternativa amiga do ambiente e do desenvolvimento.

À noite, o continente, visto de um satélite, assemelha-se a um enorme buraco negro com alguns pontos de luz no Norte e sobretudo a Sul, pois 600 milhões de africanos ainda não têm electricidade e, os que a têm, pagam-na duas a três vezes mais cara que noutras regiões em desenvolvimento, apesar de viverem rodeados de fontes de energia fósseis e renováveis.

A tecnologia solar veio fazer luz na noite africana. Armazenada em baterias, alimenta hospitais, estações de rádio, escolas, lares, moinhos, bombas de água, frigoríficos, fogões, rádios, telemóveis, lanternas...

Há organizações caritativas empenhadas no fornecimento de lanternas solares e pequenos sistemas de iluminação para casas e estabelecimentos de ensino para acabar com a iluminação a petróleo até 2020. Os benefícios são imensos: os estudantes fazem os deveres de casa com boa luz e sem sofrerem com o fumo das lâmpadas a querosene e as famílias vêem as despesas reduzidas – o petróleo para cozinhar e alumiar queima um quinto do orçamento familiar. A economia local e a segurança também beneficiam: os negócios ficam abertos até tarde sem o barulho, a poluição e as despesas dos geradores e os clientes podem movimentar-se em ruas e mercados iluminados e seguros.

A energia solar é limpa, mas exige grandes investimentos porque ainda é uma tecnologia muito cara. Em termos reais, custa muito menos produzir um quilowatt de electricidade a partir do sol do que usando gasóleo, mas o investimento inicial é muito grande: um sistema doméstico simples com três a seis lâmpadas, mais tomadas para alimentar uma televisão, custa entre 500 a 1000 euros.

A África é extremamente rica em horas de sol e já há países a tirar partido dessa fartura natural. Quase um terço dos países africanos (16 em 54) está já a pôr em prática iniciativas amigas do ambiente, com a África do Sul à frente.

A África do Sul já produz 238 megawatts de origem solar e, em 2030, quer chegar aos 18 gigawatts para reduzir a dependência do carvão. O Projecto Jasper Power, financiado pela Google, vai fornecer energia de origem solar a 30 mil casas por 10 milhões de euros.

Marrocos quer que, em 2020, as energias renováveis forneçam 42 por cento das necessidades do país contra os oito por cento de hoje. O sistema custa 9000 milhões de dólares e vai usar tecnologia fotovoltaica e termal para produzir electricidade em cinco locais.

A Mauritânia quer derivar 10 por cento das suas necessidades de energia fotovoltaica e o Gana conta ter uma produção solar de 155 megawatts no fim do ano que vem.

Grupos de mulheres do Uganda, Ruanda e Sudão do Sul estão a receber formação para poderem gerir sistemas solares domésticos. No Uganda, 90 por cento da população não tem electricidade e no vizinho Sudão do Sul a percentagem é ainda maior.

No Quénia, Richard Turere, um jovem maasai de 13 anos, inventou um pastor solar para manter à noite os leões longe das manadas: um painel solar, uma bateria e uma linha de luzes intermitentes de lanternas chegam para assustar os felinos.

A União Europeia também tem planos para se abastecer de energia solar nos desertos do Norte de África. O projecto já está em andamento em Marrocos, unido a Espanha por uma linha submarina.

A administração Obama lançou a iniciativa Power Africa em 2013 para levar luz a 20 milhões de pessoas na África Subsariana. O Governo norte-americano aplicou sete mil milhões de dólares no projecto e espera que a iniciativa privada contribua com os restantes 14 mil milhões. O Power Africa já está a financiar a produção de electricidade limpa na Etiópia, Gana, Quénia, Libéria, Nigéria e Tanzânia aproveitando o sol e os ventos.

20 de julho de 2014

SILÊNCIO

© JVieira

Somos filhas e filhos de uma cultura palavrosa, barulhenta. Pessoas e ideias tendem a ser avaliadas em escalas de decibéis, a publicidade entra-nos pelos olhos e pelos ouvidos, os políticos são malabaristas de semânticas esvaziadas de referências ideológicas e sem pinta de compromisso social, os fazedores de opinião não dão tréguas à inteligência do cidadão comum, os relações públicas sufocam-nos, os telemóveis mandam na nossa vida, o tiquetaquear inexorável dos segundos afoga. 

Vivemos em plena idade digital com os vícios intactos da oralidade de onde viemos.

Na segunda leitura deste domingo, Paulo escreve aos cristãos de Roma – e aos de qualquer lugar e tempo: «O Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza, porque não sabemos que pedir nas nossas orações; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis» (Rm 8:26).

O Espírito Santo é o porta-voz das nossas orações, porque somos fracos e não sabemos o que pedir.

Reza por nós e connosco através de gemidos inefáveis, indizíveis, de silêncios. Porque é no silêncio da briza da tarde que Deus está presente – com o descobriu Elias, o pai dos profetas, no monte da aliança, o Horeb (1 Reis 19:13).

Estamos habituados à espiral do ruído mas é do silêncio das palavras e gemidos indizíveis que precisamos para escutar a Deus e a nós próprios.

Mwanito, a personagem mais jovem de Jesusalém, um romance de Mia Couto, é um afinador de silêncios, um fazedor de silêncios onde o seu pai, Silvestre Vitalício, vive depois de perder a mulher.

Couto acrescenta: «O silêncio é uma travessia. Há que ter bagagem para ousar essa viagem.»

Bom domingo.

15 de julho de 2014

SINAIS DE DEUS


No dia 29 de Maio de 2014 o campo de desalojados de Bileil foi testemunha de um horrendo e maléfico assalto a algumas das organizações e instituições humanitárias e de solidariedade. O ataque foi perpetrado por uma multidão enraivecida e furiosa que, desde há mais de uma década, tenta sobreviver nesse acampamento do Sul do Darfur.

O ataque ocorreu em pleno dia à vista de muitíssimas pessoas aparentemente indiferentes mas que, na verdade, apoiaram a operação que, astutamente planeada e dirigida, não foi segredo para ninguém, pois todos sabem quem foram os autores e os responsáveis destas e outras operações diabólicas semelhantes. Eles são os notoriamente e demasiado conhecidos janjauides que, por sua vez, integram as milícias do Governo desde o início do conflito armado no Darfur, em 2003. Geralmente, eles atacam o povo e/ou organizações humanitárias indistintamente; desta vez, porém, usaram a multidão contra as instituições humanitárias e de solidariedade numa cilada em que os mesmos cidadãos são, no fim de contas, as vítimas dos seus próprios atos. 

Há quase três anos que não frequento a zona de Bileil, a uns 18 quilómetros do centro da cidade de Nyala por  opção pessoal e por indicação do bispo da diocese de El Obeid. A razão é que, como estrangeiro branco, não é conveniente arriscar nem expor-me sem necessidade às autoridades sudanesas que normalmente procuram um pretexto para interromper a minha permanência na região. Deste modo, levariam a cabo o seu conhecido plano de impedir a continuidade da missão da igreja no país.

Por enquanto, não tem havido problemas de maior, pois o meu colega de missão, o padre etíope Asfaha, tem-me substituído excelentemente nesta tarefa. Ele também não deixa de ser estrangeiro no Sudão. Todavia, é naturalmente protegido graças à sua tez escura que lhe permite confundir-se natural e perfeitamente com a cor da pele da maioria dos nativos sudaneses. Este simples estratagema vai de acordo com as instruções de Jesus quando enviou os Apóstolos em missão: «...sede simples como as pombas e astutos como as serpentes.»

De todos os modos, não é dito que o futuro da evangelização neste país seja sempre claro e nítido. Devemos estar preparados para o menos desejável, mesmo para a interrupção da nossa presença como missionários no Sudão. Mas, no fim de contas, Deus é e será sempre o Senhor da messe e da evangelização. Assim, no caso hipotético da expulsão dos missionários por parte das autoridades do país – não o digo sem tristeza e mágoa – só teríamos que sacudir o pó dos nossos pés e avançar para outro lugar onde as pessoas aceitem a palavra de Jesus, como se lê no evangelho: «ide por todo o mundo e proclamai a Boa Nova...»

Mas voltemos ao incidente de Bileil. Dois dias depois do múltiplo assalto no campo de desalojados aí situado, o P. Asfaha visitou a escola Comboni que a igreja dirige no acampamento. Aí teve a oportunidade de ouvir directamente do director da escola, o Sr. Daúd, a triste e horrenda história a que me referi acima. A multidão de atacantes tinha completamente destruído as três instituições/organizações humanitárias com o conjunto das suas clínicas, armazéns de distribuição de alimentos e educação social a vários níveis. As suas construções foram literalmente arrasadas e os seus locais acabaram por ficar reduzidos a puro chão deserto. Os assaltantes não deixaram restos nem escombros. Até as folhas de zinco dos tetos e os tijolos das paredes levaram.

No meio de tanta malvadez há, no entanto, um lado bom e consolador que nos faz reflectir e dar graças a Deus: o facto de a escola básica Comboni de Bileil ter sido poupada à crueldade e agressão da populaça. A verdade é que, embora a multidão enraivecida se tivesse encaminhado decidida e apressadamente para a escola, as suas intenções diabólicas não foram executadas, porque muitas e muitas pessoas de boa vontade, na quase totalidade os pais dos alunos, acorreram com lanças, varapaus e outros instrumentos, inclusive algumas armas de fogo, para proteger aquela que era a escola dos seus filhos. O resultado positivo desta iniciativa veio à luz mas só depois da violenta confrontação com a grande e enfurecida massa humana com quem tiveram de medir forças à entrada do estabelecimento de ensino. É de louvar, no entanto, o não terem usado as armas de fogo.

A defesa da escola Comboni de Bileil por parte dos pais dos estudantes foi um exemplo que nos tocou a ponto de sentirmos dentro de nós o orgulho «santo» por não termos sido trabalhadores inúteis na vinha do Senhor.

Vale a pena semear. Para nós missionários que trabalhamos para a eternidade sem pretensões nem pressa em colher os frutos – no dizer de S. Daniel Comboni – é consolador recordar este evento. São flores a desabrochar no deserto do Darfur que vamos colhendo como sinais de Deus que se vai manifestando ao longo do caminho da missão.

Feliz da Costa Martins - Missionário Comboniano
Nyala, Darfur
Sudão

13 de julho de 2014

SABER COMER

E se o seu organismo não reconhecer aquilo que você come como um alimento? Defende-se, inflama-se, fica doente. É o que fazem muitos dos produtos que levamos à boca. Cristina Sales, médica e especialista em alimentação, garante que na origem da maioria das doenças que afetam o homem do século XXI está o que comemos e o modo como o fazemos. É que os alimentos são veículos de comunicação: dizem às células como devem comportar-se.

Precisamos de mudar a forma como nos alimentamos?

É obrigatório que o façamos porque a alimentação que a população dos países ocidentais, incluindo Portugal, passou a fazer nos últimos cinquenta anos é o que está na origem da maior parte das doenças endócrinas, metabólicas, autoimunes, degenerativas e alérgicas. As novas epidemias devem-se sobretudo aos estilos de vida e à alimentação que fazemos desde o pós-guerra.

A alimentação é decisiva para a saúde e o bem-estar mas está a provocar doenças e a aumentar a mortalidade precoce?

A geração dos nossos filhos terá uma esperança de vida mais reduzida do que a nossa por causa dos estilos de vida e da alimentação. Primeiro, os produtos altamente processados pela indústria alimentar conduzem a uma desnutrição em nutrientes fundamentais e ingerimos uma grande quantidade de calorias vazias. Segundo, são muito diferentes dos alimentos originais e o organismo não sabe lidar com eles, não os reconhece como alimentos. Depois, há uma sobrecarga tóxica inerente à alimentação que provém dos agroquímicos (da produção), dos conservantes, corantes e adoçantes que são adicionados para preservar os produtos durante mais tempo e para os manter bonitinhos.

São alimentos para ver…

Os produtos que nos chegam ao prato foram feitos para vender e não para comer. Não têm nada que ver com os alimentos que ingerimos e que nos fizeram viver e sobreviver ao longo de milhões de anos. Esta mudança ocorreu tão depressa que o organismo não está adaptado para gerir, digerir e assimilar estes produtos, pelo contrário, vê-os como substâncias estranhas e reage, inflamando-se.

Como é que podemos livrar-nos dessa teia?

As escolhas alimentares são condicionadas pela publicidade, as pessoas não são ensinadas a escolher. Quem é que é ensinado a consumir maçãs ou laranjas? Ninguém. A informação que passa de forma subliminar através dos anúncios da TV e dos jornais é que se deve beber sumo de maçã e de laranja. Mas se alguém ler os rótulos das embalagens verifica que contém imenso açúcar, frutose, acidificantes, etc., e o que falta é a maçã e a laranja. É preciso informar, ensinar e consciencializar a população.

A atitude da indústria alimentar tem de mudar?

No global sim, mas também depende do que a indústria faz. A conservação de alimentos através da congelação, por exemplo, é perfeita. Os legumes congelados são uma ótima opção, por vezes mais económica, e chegam ao consumidor mais frescos e com mais nutrientes do que os que são mantidos durante cinco ou seis dias nas cadeias de distribuição. Já quando falamos de alimentos que têm de levar uma quantidade enorme de aditivos para serem consumidos – é o caso das carnes de muito má qualidade e dos aproveitamentos que se fazem dos restos dos mariscos – é diferente. Sempre que tivermos de dobrar a língua muitas vezes para conseguir ler o que está escrito nos rótulos é porque não é comida. Não compre. Será qualquer coisa que do ponto de vista nutricional, químico e metabólico está muito longe do alimento original.

Está a falar de alimentos que duram ad eternum?

Por exemplo. Como é que duram? Fizeram-se estudos com hambúrgueres e batatas fritas – uns feitos em casa, com carne picada, e batatas que foram descascadas, outros com produtos processados e embalados – e verificou-se que ao fim de trinta ou quarenta dias alguns hambúrgueres se mantinham iguaizinhos. Não se degradaram, ao contrário dos que foram feitos em casa, que estavam estragados três dias depois. Ora alguém acha que uma coisa daquelas pode ser comida?

Quando ingerimos produtos desse tipo como é que o organismo reage?

Defende-se e inflama-se ou agarra naquelas coisas que não considera importantes e arruma-as nos depósitos de lixo, que são as células gordas. Estas, além de serem o nosso reservatório de energia, são também o depósito de substâncias tóxicas que o organismo não metaboliza ou não utiliza para impedir que entrem nos circuitos mais nobres. Esta acumulação de lixo cria bloqueios bioquímicos e alterações metabólicas que impedem as células de trabalhar em condições. Hoje ninguém sabe que consequências é que isto tem para o cérebro e o sistema imunitário e para o bom trabalho hepático e digestivo. Os circuitos da toxicidade são cruzados – se uma pessoa come de vez em quando um gelado, um iogurte, umas bolachas ou um sumo que tem um determinado corante é uma coisa, mas se o faz com regularidade, ao fim de seis meses já ultrapassou as doses suportáveis e entra em sobrecarga tóxica.

E o que é que acontece?

Veja-se o ácido fosfórico, um aditivo que está presente em alimentos de consumo diário, como os cereais de pequeno-almoço e os refrigerantes. Quem ingere estes produtos todos os dias, além de ficar com o sistema acidificado e perder cálcio (uma compensação do organismo que depois predispõe à osteoporose), também fica numa excitação – o ácido fosfórico é um estimulante cerebral e é óbvio que uma criança que de manhã come um prato de cereais chega à escola e não para quieta. O ácido fosfórico altera o comportamento e em determinadas concentrações é neurotóxico.

Como é que os alimentos atuam no organismo?

Os alimentos servem para construir tecido, osso, órgãos, etc., e para nos darem energia, mas o que as ciências da nutrição têm vindo a mostrar é que os alimentos são essencialmente moduladores do comportamento celular – são informadores das células, dizem-lhes como devem funcionar. Imagine que tem um prato com uma determinada quantidade de proteínas (peixe ou carne) e outra de hidratos de carbono. Só a proporção entre a quantidade de carne e batatas ingeridas vai informar o organismo da necessidade de produzir uma hormona ou outra, neste caso insulina (que é a hormona do armazenamento) ou glucagon (a hormona do desarmazenamento).

Explique lá melhor…

Se comer mais proteínas do que hidratos de carbono vai produzir mais glucagon e induzir o metabolismo a ir buscar gordura acumulada para disponibilizar às células, ou seja, vai desarmazenar. Mas se comer mais arroz, massa ou batatas vai dar uma ordem em sentido contrário, vai dizer que é precisa mais insulina e vai acumular gordura.

Mas se as pessoas forem ativas podem queimar essa energia…

Isso é outra coisa, o que importa reter é que na proporção hidratos de carbono/proteínas a quantidade de açúcar que chega aos sensores do tubo digestivo aciona imediatamente uma ordem de libertação de glucagon ou de insulina. Se a indicação é libertar glucagon, o organismo vai usar a gordura acumulada, se a ordem for para libertar insulina, o organismo vai armazenar gordura. Isto é pura informação.

Quem quer perder peso tem de saber isso, certo?

Se a pessoa tiver consciência da informação que dá ao corpo tem muito mais capacidade para o modular. Outro exemplo. A leptina, a hormona que sinaliza o apetite, que depende sobretudo do ritmo solar. Ora, uma pessoa equilibrada, que durma de noite e trabalhe de dia, produz mais leptina de manhã (e tem apetite) e ao fim do dia produz menor quantidade (o apetite diminui). Se uma pessoa comer muito à noite estraga este equilíbrio e a certa altura está sempre com fome porque inutilizou os sensores da leptina. Nós somos mamíferos e de noite, quando dormimos, não precisamos de comer. O nosso corpo tem a sabedoria para sinalizar o apetite em função da hora do dia – comer muito à noite estraga essa sinalização, faz ter apetite a toda a hora.

A alimentação é bioquímica?

Os alimentos são veículos de comunicação. Se fizer uma refeição de gordura saturada – uma sopa com um chouriço e depois um cozido à portuguesa – dá um sinal à cárdia (esfíncter entre o estômago e o esófago) para alargar e é assim que ocorrer o refluxo gastroesofágico e aparece a azia. A gordura saturada é um sinal que se dá à cárdia para se manter aberta. Se no dia seguinte a mesma pessoa só comer azeite ou gorduras de peixe não terá azia. Sabe porquê? É que o azeite ajuda a fechar a cárdia. Este é outro exemplo que ilustra a importância do conhecimento. Pessoas mais esclarecidas fazem escolhas mais acertadas.

A forma como nos alimentamos dita o comportamento das células?

Quando ingeridas, as gorduras saturadas e as gorduras ómega 6 (provenientes essencialmente dos animais e dos cereais, sobretudo da soja) são a estrutura a partir da qual as células fazem substâncias pró-inflamatórias. As gorduras ómega 3 – provenientes das algas e dos peixes – são as que permitem que as células produzam substâncias anti-inflamatórias. Se uma pessoa tem uma doença inflamatória (por exemplo, uma alergia, artrite ou doença autoimune) e come muita gordura saturada, esta vai funcionar como substrato para a fogueira e agravar o processo inflamatório da doença que já tem. Ao contrário, se a pessoa ingerir gorduras ómega 3, vai ser capaz de construir extintores de incêndio para que as suas células produzam anti-inflamatórios.

Há outros exemplos?

Se uma pessoa tem tendência depressiva porque não consegue produzir serotonina em quantidade suficiente, deve comer os alimentos que têm os aminoácidos precursores da serotonina – a carne de peru, por exemplo, é extremamente rica em triptofano, que é um precursor da serotonina. Se a pessoa souber isto, no outono, quando o tempo fica mais escuro, porque é que não há de comer mais carne de peru em vez de carne de vaca?

A alimentação e o processo digestivo podem agravar ou controlar certas doenças?

Sim, se uma pessoa tem uma predisposição genética para a diabetes, Alzheimer, etc., a doença só vai manifestar-se se o gene for ativado. Mas o que as pessoas precisam de saber é que os genes também podem ser desativados – é a modulação genética através da nutrigenética. Como? O que ativa ou suprime a expressão dos genes é a presença de determinados fitoquímicos, substâncias que também se encontram nos alimentos.

Podemos dizer que há alimentos anti-inflamatórios?

Claramente. Os que têm ómega 3 – sardinha, cavala e os peixes das águas frias do Norte. Algumas substâncias vegetais dos legumes (tomate), frutos (quivi) e especiarias (a curcuma, que confere a cor amarela ao caril) também têm efeito modulador de alguns genes pró-inflamatórios. Mas alimentos anti-inflamatórios devem ser consumidos, independentemente de se ter doença ou não. Hoje sabe-se que um cérebro com Alzheimer já está inflamado vinte anos antes da manifestação da doença. Todas as doenças degenerativas começam com processos inflamatórias, as autoimunes também. Não conhecemos é as causas.

Há substâncias que devem mesmo ser eliminadas da alimentação?

Os aditivos químicos. Falo das substâncias químicas que não são alimentos, que são usadas pela indústria alimentar e podem ser geradoras de inflamação em contacto com o organismo. A vida corrente não nos permite evitar todos os aditivos, mas se estivermos despertos para esta realidade teremos mais atenção, faremos escolhas mais saudáveis e ingerimos menores quantidades.

E as gorduras?

As gorduras ómegas 6, que se encontram nas margarinas e nos óleos e que são provenientes da soja, do milho e do amendoim, são claramente pró-inflamatórias. Precisamos de ómega 6 no organismo, mas em quantidades muito reduzidas. O problema é que a cadeia alimentar atual é geradora de uma alimentação extraordinariamente rica em ómega 6 e pobre em ómega 3. Basta pensar que, dantes, as galinhas e as vacas comiam erva, agora comem rações provenientes da soja; os peixes comiam algas, agora comem rações também com soja. Os produtos alimentares que usamos são essencialmente da linha produtora de ómega 6.

Nos supermercados temos centenas de alimentos à escolha. Precisamos de tanta coisa?

Não precisamos de tantos produtos alimentares, necessitamos é de maior diversidade alimentar. Essas centenas ou milhares de produtos que vemos nas prateleiras são provenientes de quatro ou cinco alimentos – cereais, lácteos, açúcares e gorduras – e da indústria de processamento. Se olharmos para a quantidade de legumes, frutos, oleaginosas e peixe que as pessoas comem no dia a dia verificamos que não há variedade alimentar, as pessoas comem quase sempre o mesmo. Já pensou na variedade de saladas que é possível fazer? Mas se perguntar a alguém qual é a que come diz-lhe alface e tomate.

No supermercado fazemos escolhas condicionadas pela publicidade e o marketing. Como podemos fugir a isso?

Só vai mudar com a informação dos cidadãos. Nos países do Norte da Europa, onde a população é muito mais esclarecida, não encontramos nos supermercados esta quantidade enorme de alimentos-lixo – basta verificar que o espaço ocupado por refrigerantes, cereais de pequeno-almoço e óleos alimentares é muito reduzido. Exatamente o oposto do que se passa em Portugal.

A crise económica e as dificuldades das famílias podem piorar ainda mais a alimentação dos portugueses?

Também pode acontecer o contrário. Numa altura em que todos sentimos uma necessidade absoluta de gerir muito bem os orçamentos familiares, devemos fazer listas de compras de forma racional. E antes de comprar certos produtos alimentares, é obrigatório perguntar: «Preciso mesmo disto? Vale a pena? Faz-me ficar mais forte, vital, inteligente? Tem mais nutrientes?» Ocasionalmente, podemos comprar os tais alimentos que não comportam nenhum valor acrescentado mas que agradam ao paladar, mas isso é num dia de festa.

De que produtos podemos e devemos mesmo prescindir quando vamos às compras?

Devemos tirar os refrigerantes, cereais com açúcar, pastelaria, óleos e margarinas – para cozinhar devemos usar o azeite, só azeite. Todos os refrigerantes são um estrago de dinheiro – as pessoas devem beber água. Os cereais com açúcar (os de pequeno-almoço e as bolachas) também são prescindíveis – devemos escolher cereais completos, integrais, que até são mais baratos. Compare-se o preço de uma caixa de cereais de pequeno-almoço com o de um pacote de flocos de aveia, que são altamente nutritivos. A aveia é muito mais barata e muito nutritiva.

Mas comprar carne magra e peixe gordo, frutos e hortaliças é muito mais dispendioso…

Mas há estratégias que podem ser implementadas. Uma é comprar carne de melhor qualidade e comer menos quantidade e menos vezes. É preferível comer carne três vezes por semana em vez de comer carne gorda todos os dias. Além disso, toda a gente ganha se fizer uma alimentação vegetariana dois dias da semana e em vez da carne comer, por exemplo, arroz de feijão ou grão-de-bico com massa. Se se acrescentar hortaliças, ervas aromáticas e azeite, podemos dizer que são refeições perfeitas. Menos carne, mas de melhor qualidade; mais peixe (incluindo cavala e sardinhas, frescas ou em conserva de azeite) e ovos (podem ser consumidos três ou quatro por semana) são opções a privilegiar.

Não retira massa, arroz ou batatas ao seu carrinho de compras?

Não, mas reduzo as quantidades ingeridas. No prato devemos ter pequenas porções de massa, arroz ou batatas e maior quantidade de hortaliças, legumes e leguminosas.

Fala-se muito na responsabilidade social da indústria farmacêutica, que ganha dinheiro à custa do tratamento dos doentes. E quanto à responsabilidade social da indústria alimentar, que ganha dinheiro atirando-nos para a doença?

A indústria alimentar está a fazer maus alimentos, mas a verdade é que as pessoas só compram o que querem. Sei que quanto menor é a informação maior é a permeabilidade ao marketing, mas o caminho também se faz através da informação dos cidadãos e da sua responsabilização. Custa-me imenso ver nas caixas de supermercado que as pessoas aparentemente mais pobres também são as que levam os carrinhos repletos de produtos inúteis e nefastos para a sua saúde. É preciso repensar a política alimentar e inovar.

Cristina Sales

A medicina que Cristina Sales exerce dá pelo nome de medicina funcional integrativa – reúne diferentes disciplinas, profissionais e recursos terapêuticos, é centrada na pessoa e procura entender onde estão os desequilíbrios que desencadeiam a doença. Para uns, trata-se de uma abordagem vanguardista, mais adaptada aos pacientes, ao tratamento e controlo das chamadas doenças da civilização. Para outros, a prática médica de Cristina Sales ainda gera alguma desconfiança. Quem não receia são os doentes que a procuram – sobretudo pessoas que vivem com doenças crónicas (alergias, enxaquecas, fadiga crónica, doenças inflamatórias, endócrinas, metabólicas e autoimunes) e que não encontraram resposta satisfatória para os problemas que as afetam. Uma consulta com a médica do Porto dura uma hora e não se marca de um dia para o outro. Porque os pacientes já são muitos e porque as palestras e conferências em que Cristina Sales é oradora convidada também são frequentes.

11 de julho de 2014

MONTE D0S PARADOXOS

Mesquita da Ascensão ©JVieira

Estive na Terra (cada vez menos) Santa uma semana como guia espiritual de 24 peregrinos – duas vezes o grupo dos 12 apóstolos – de 1 a 8 de Julho.

Entre os locais que tínhamos previsto visitar, um sábado, encontrava-se o Monte das Oliveiras, que domina Jerusalém, o Monte onde Jesus chorou por a cidade não ter reconhecido a paz que ele oferecia, o Monte da agonia; do beijo gelado da traição de Judas.

Já sentados no autocarro, a guia, uma judia com raízes no Uruguai, reuniu-se de emergência com o condutor, um palestiniano, e eu: fora informada pela agência para lhe trabalhava dde que não era seguro visitar a mesquita – sim, a mesquita – da ascensão, no cimo do Monte das Oliveiras, por na sexta-feira a área ter sido sido cenário de confrontos entre palestinianos que protestavam a morte violenta de um jovem queimado vivo em retaliação pelo assassínio de outros três judeus, por membros do Hamas, na Faixa de Gaza.

Durante uns instantes não houve acordo entre o motorista e a guia, aquele a afirmar que a visita era, sim, segura, com base em contactos que entretanto fizera, esta a insistir que não era, pondo objecções e seguindo as indicações da polícia.

Decidimos arriscar!

O cenário que nos esperava era arrasador. O monte chamado das Oliveiras, devia cheirar a azeite novo, à frescura das árvores milenares. Mas encontrámos as ruas juncadas de pequenos montes de areia, pedras de arenito atiradas pela raiva, estilhaçadas em milhares de grãos de areia contra o alcatrão negro e duro na batalha campal com as forças da (des)ordem.

Ao sair do autocarro fomos envolvidos por um cheiro nauseabundo a baganha podre. Alguém comentou: «Estes árabes são muito porcos!» Mas o cheiro não era a alguém privado da pópria água, era o rasto do odor deixado pelas granadas de gases que a polícia usara no dia anterior para dispersar os manifestantes…

Uma brigada de cantoneiros trabalhava afanosamente para limpar as ruas dos detritos da ira.

Visitámos o lugar onde a tradição diz que Jesus subiu ao céu. Era igreja, hoje é mesquita. Não tinha tecto, hoje tem uma cúpula de pedra. Mas os muçulmanos construíram um espaço de oração à direita para permitir aos cristãos celebrar o fim do ciclo de Jesus e o início da Igreja segundo a narrativa de São Lucas.

No domingo fizemos a Via-Sacra através da Via Dolorosa que serpenteia pelo Bairro Árabe de Jerusalém, o percurso que Jesus fez da Torre Antoniana até à pedreira da caveira – o Monte Calvário – onde foi crucificado num cruzamento de estradas como exemplo para os revolucionários que contestavam a dominação romana.

Perto de uma das portas que dá acesso à Esplanada do Templo onde se encontram as mesquita de Al Aqsa e da Rocha, um grupo de mulheres gritava Allah Wakbar! Deus é grande! Um dos peregrinos perguntou-me: «É um funeral não é, senhor padre?». Respondi que sim. Mas sabia que o pregão religioso era o protesto contra os seis palestinianos mortos por raides retaliatórios da aviação israelita contra o Hamas da Faixa de Gaza na noite de sexta-feira.

O pregão celebrava as mortes humanas atrás da grandeza de Deus!... A Terra de Jesus continua a ser um espaço cada vez menos santo. Dói. Dói de a visitar assim.

10 de julho de 2014

CINE ÁFRICA


Uma queniana levou a estatueta de melhor atriz secundária nos Óscares 2014 e voltou as atenções para o cinema africano.

Lupita Nyong’o foi galardoada com o Óscar de melhor atriz secundária pelo seu desempenho na película Doze Anos Escravo, que ainda não vi. A seguir, a revista People nomeou-a a pessoa mais bonita de 2014. As distinções abriram novos horizontes à atriz, esbelta e enxuta, de 31 anos e 1,65 m de altura, que nasceu no México, cresceu no Quénia, fez formação de teatro nos Estados Unidos, e despertaram a atenção sobre o bom cinema que se faz no continente.

A indústria cinematográfica africana começou a raiar na alvorada das independências e a película Borom Sarret (O Carroceiro), que o senegalês Ousmane Sembene rodou em 1963, é considerada o primeiro filme africano. A curta-metragem conta em 20 minutos a história de um condutor de carroças em Dacar, a capital do Senegal, numa parábola sobre os mecanismos da pobreza em África.

Os cineastas africanos empenharam-se em apresentar a cultura, a história e as estórias do continente para ultrapassar os estereótipos do tipo Tarzan produzidos pelos realizadores coloniais. «A primeira tarefa dos cineastas africanos é mostrar que os Africanos são seres humanos e ajudá-los a descobrir os seus valores, que podem ser postos ao serviço dos outros», proclamou o realizador Souleymane Cissé, do Mali.

O cinema africano independente foi crescendo e tornou-se presença constante no Festival de Cannes, na França, desde 1972, e noutros certames mundiais. Guardo a impressão forte que Yeelen (A Luz) de Cissé deixou em mim pela luminosidade e pelos enormes horizontes. O filme de 1987 narra a viagem de um jovem com poderes mágicos em busca de um tio para o ajudar a combater o pai feiticeiro que o queria aniquilar.

Hoje o cinema africano tem dois centros de produção maiores: Nigéria e África do Sul. Em 1972, Ola Balogun começou a adaptar ao cinema peças de teatro da cultura ioruba e deu origem a uma indústria que hoje faz mais de 590 milhões de dólares por ano. Os nigerianos produzem por ano mais de mil títulos em vídeo para o pequeno ecrã e estão quase a par de Bollywood, a indústria de cinema indiana, que lidera a produção mundial. Os filmes misturam amor, ação e feitiço, colando os telespectadores ao pequeno ecrã. O Gana segue o sistema de produção nigeriano, conhecido por Nollywood.

A África do Sul faz um cinema comercial mais do tipo de Hollywood e tira partido da diversidade de paisagens do país e dos custos de produção baixos. Tsotsi, a história de um delinquente juvenil de Joanesburgo, foi distinguido com o Óscar de melhor filme em língua estrangeira em 2006.

O cinema independente africano sofre de moléstias crónicas: dependência de fundos externos, falta de circuitos de distribuição e de salas de cinema. As películas africanas pouco mais conseguem fazer que os circuitos dos festivais do cinema, que têm quatro grandes eventos no próprio continente: o FESPACO, em Burkina Faso, um festival bienal desde 1969, o ZIFF, na ilha de Zanzibar, Tanzânia, o Cape Town World Cinema Festival, na África do Sul, e, desde 2012, o Luxor African Film Festival, no Egipto. Os poucos grandes cinemas africanos que restam vão sendo transformados em igrejas – como em Juba, clubes nocturnos ou armazéns, excepto no Quénia e na África do Sul, onde os cinemas são um dado cultural.

A indústria instituiu em 2005 os African Movie Academy Awards, com sede na Nigéria, para promover filmes, unir produtores, desenvolver novos valores, abrir canais de distribuição e criar cinemas rurais.

As novas gerações de produtores africanos estão a produzir um cinema mais intimista, filosófico e poético, em contraste com a vertente mais política dos pioneiros da Sétima Arte.

Zézé Gamboa, realizador angolano do Grande Kilapy – a história real de um Don Juan angolano antes da independência –, comentou que «muitas pessoas em Angola são analfabetas. Não podem ler livros, mas compreendem tudo sobre filmes, falam a língua, vêem as imagens. É um meio de desenvolvimento poderoso». Essa é a força do cinema africano: fala aos espectadores na linguagem que entendem. Quando o conseguem ver, sobretudo no pequeno ecrã em DVD piratas.

1 de julho de 2014

ASSISTÊNCIA HUMANITÁRIA


Os Missionários Combonianos no Sudão do Sul organizaram um voo humanitário para assistir cerca de 1000 vítimas da violência interétnica que afeta Leer desde Fevereiro.

A decisão foi tomada depois de uma visita à cidade pelo Superior Provincial, P. Daniel Mosquetti e do Irmão Nicola Bortoli a meados de Junho, para avaliar a situação humanitária e inspeccionar a missão católica.

Leer, a cidade natal de Riek Machar Teny, líder da oposição armada ao Presidente Salva Kiir Mayardit, foi tomada pelas forças do Governo, ajudadas por rebeldes do Darfur, em que a reduziram a cinzas a 2 de fevereiro.

Os rebeldes voltaram a ocupar os escombros em Abril.

O P. Moschetti diz num relatório que cerca de 6,000 famílias já regressaram do mato, mas que só as residências dos missionários e das missionárias, o jardim-de-infância, os edifícios da igreja e a escola técnica estão de pé com alguns danos menores.

Os edifícios foram totalmente saqueados.

Os edifícios estão ocupados por membros de organizações não-governamentais, das agências das Nações Unidas e por algumas famílias.

Os Médicos Sem Fronteiras voltaram a Leer em Maio e além de distribuir comida estão a reorganizar o hospital que foi totalmente destruído.

O Ir. Nicola fez parte de um grupo de nove missionários que teve que abandonar Leer na iminência do ataque governamental e andaram perdidos nos matos e pântanos da região até serem encontrados e resgatados a 20 de fevereiro.

Os dirigentes católicos locais pediram aos missionários que os assistissem com sorgo, lentilhas e açúcar.

O Ir. Nicola acompanhou um avião fretado com comida para cerca de 1,000 pessoas para fiscalizar a distribuição e vai permanecer em Leer até meados do mês.

Tanto as missionárias como os missionários estão dispostos a regressar a Leer logo que a segurança melhore.

Representantes do Governo, dos rebeles, da sociedade civil e das igrejas estão a negociar desde maio uma saída para o conflito de poder dentro do partido do Governo que rebentou a 15 de Dezembro em Juba e depressa escalou a três estados viziznho com populações dinca e nuer. Cerca de 20 mil pessoas foram mortas nos confrontos e mais de 1,2 milhões desalojadas.

O IGAD, a Autoridade Inter-regional para o Desenvolvimento, está a facilitar as negociações e deu dois meses aos intervenientes para formarem um governo de unidade nacional.

As cidades de Bor, Bentiu e Malakal, as capitais dos estados de Jonglei, Unidade e Nilo Superior foram completamente destruídas.

A diocese católica de Malakal foi também temporariamente fechada por causa dos violentos combates entre milícias nueres e tropas. Só a missão de Old Fangak, que fica numa zona remota acessível por ar ou por rio, é que continua a funcionar normalmente.

27 de junho de 2014

CORDIALIDADE


Como missionários somos chamados a explorar a cordialidade como atitude evangelizadora que brota da contemplação do Coração escancarado de Cristo e nos leva a ver o mundo e a missão através do olhar misericordioso do coração ao jeito de São Daniel Comboni.

O coração é um símbolo poderoso e constante na linguagem de Daniel Comboni. Nos Escritos, a palavra aparece 1046 vezes no singular e 229 vezes no plural.

No preâmbulo da quarta edição do Plano para a Regeneração da África Central, escreve: «O católico, habituado a julgar as coisas com a luz que lhe vem do alto, olhou a África não através do miserável prisma dos interesses humanos, mas do puro raio da sua fé [… e]sentiu que o seu coração palpitava mais fortemente; e uma força divina pareceu empurrá-lo para aquelas bárbaras terras, para apertar entre os seus braços e dar um ósculo de paz e de amor àqueles infelizes irmãos seus» (Escritos 2741).

Comboni contrasta assim a atitude cordial do «filantropo cristão» que acelera as batidas do coração perante a situação africana com os interesses das potências europeias que queriam civilizar a África e «obrigar a natureza a revelar também naquelas imensas regiões os tesouros virgens das suas enormes produções em benefício da família humana» (Escritos 2740).

E continua: «A desoladora ideia de ver suspensa, talvez por muitos séculos, a obra da Igreja em favor de tantos milhões de almas que gemem ainda nas trevas e na sombra da morte, deve ferir profundamente e magoar o coração de todo o devoto e fiel católico, inflamado do espírito da caridade de Jesus Cristo.» (Escritos 2752).

DO CÉREBRO AO CORAÇÃO

Foi o Papa Francisco que me despertou para a cordialidade como lugar teológico e virtude cristã. Ele emprega a palavra cordial oito vezes na Exortação A alegria do Evangelho (EG).

Como homens, estamos habituados a funcionar a partir da razão: somos mais cerebrais que cordiais, mais efetivos que afetivos. A conversão – metanoia em grego – significa literalmente ver para além (meta) da mente, intelecto razão (noia). Daí o grande convite e desafio de Jesus: «Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve» (Mt 11:28-30).

Somos convidados a caminhar do cérebro para o coração. A cordialidade – a capacidade de viver a partir do coração – leva-nos a aprender do coração manso e humilde de Cristo em contraste com a arrogância agressiva do «euismo» individualista globalizado e dominante que «favorece um estilo de vida que debilita o desenvolvimento e a estabilidade dos vínculos entre as pessoas» (EG 67), que em conjunto com a crise de identidade e o declínio de fervor debilita os evangelizadores (EG 78) e «divide os seres humanos e põe-nos uns contra os outros visando o próprio bem-estar» (EG 99), uma forma de hedonismo pagão (EG 193).

A sociedade contemporânea é altamente competitiva, agressiva, agressora e neurótica. No Sermão da Montanha, a magna carta do cristianismo que tanto tem impressionado não cristãos como Gandhi, Jesus recorda-nos que os mansos são felizes porque possuirão a terra (Mt 5:5).

Jesus também nos convida a viver a partir do coração: «Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício» (Mt 9:13). O que nos leva de novo às bem-aventuranças: «Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia» (Mt 5:7). E a outro dito de Jesus: «Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso» (Lc 6:36).

Misericórdia vem do latim, é composta por miser (mísero, infeliz) + cor (coração) e o sufixo ia e significando a capacidade de sentir a desgraça alheia. Este é o jeito de Deus, viver assim é ser imagem e semelhança de Deus!

A misericórdia é parte integrante da experiência cristã. Zacarias, o pai do Batista, bendiz o mistério da encarnação como visita do coração misericordioso do nosso Deus (Lc 1:78).

Daniel Comboni queria os seus missionários «santos e capazes». E define a capacidade como caridade: «Antes de tudo, devam ser santos, isto é, completamente alheios ao pecado e à ofensa a Deus, e humildes; isso não basta: precisam de ter caridade, que é a que os torna capazes» (Escritos 6655). Aliás, o amor é a via ordinária da experiência de Deus: «Aquele que não ama não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor» (1 Jo 4:8).

Celebrar o Coração de Cristo, é fazer memória da cordialidade misericordiosa de Jesus que veio para chamar não os justos mas os pecadores à «metanoia» (Lc 5:32), a ir para além da mente e viver a partir do coração porque Deus nos quer «discípulos missionários» (EG 89-90) segundo o seu coração (Act 13:22).