20 de julho de 2008

MANGALA


Residência paroquial
© JVieira

Hoje fui à missa a Mangala e adorei!
A paróquia, fundada em 1999, fica a uma hora e um quarto de Juba, na outra margem do Nilo Branco na estrada que pode vir a ligar Juba com Cartum.
A picada está em bom estado de conservação e bem guardada pelo SPLA, a tropa do Sul. Há troços que permitem viajar a 120 quilómetros por hora sem qualquer problema.
Dois seminaristas foram comigo para me ensinar o caminho. Para a próxima posso ir sozinho porque não há nada que enganar.
Um colega brasileiro, o padre Wellington, que trabalha mais a norte com os Nuer - e que está de passagem por Juba - veio connosco e fez sucesso com as suas dinâmicas com os jovens.
A igreja paroquial de Mangala é um velho nim, uma árvore frondosa e retorcida pelo tempo. Os bancos são as bobinas de metal que no passado eram usadas pela fábrica de fiação de algodão que entretanto fechou por causa da guerra.
Umas 100 pessoas tomaram parte na celebração que foi conduzida em bari – a língua local – e árabe. A maioria eram jovens!
Não percebi absolutamente nada do que se disse, cantou e rezou, mas vim com o coração cheio de paz. Os cânticos eram lindos, as pessoas estavam concentradas e ignoravam as motorizadas que passavam ao lado.
É lindo rezar com a gente simples e sentir toda a natureza a participar do louvar da comunidade: desde as aves com os seus trinados às cabras com os balidos.
Impressionou-me também a pobreza da «casa paroquial»: uma colecção de cabanas – que fazem de refeitório, quartos privados, casa-de-banho… Não há luz nem gerador.
Mas os três padres que assistem aquela paróquia impressionaram-me com o acolhimento e com a tranquilidade que deixavam transparecer. Talvez se trate da comunidade mais pobre da arquidiocese de Juba – juntamente com a missão que os combonianos estão a iniciar em Tali, no extremo da diocese – mas não deixa de ser um lugar cheio de vida.
A paróquia tem uma escola elementar até ao oitavo ano com quase 200 alunos e está colocada entre as melhores da região a nível de resultados do exame nacional do oitavo ano - o pároco, P. Lourenço Lodu, informou-me, orgulhoso.
Durante a missa chamou-me a atenção a «procissão» de gente a carregar sacos de comida e caixas de óleo da USAID.
Na quarta-feira um grupo de Mundaris atravessou o rio, tomou conta da administração de Mangala e começou a esvaziar o armazém do Programa de Alimentação Mundial.
As comunidades Bari e Mundari davam-se bem e casavam entre si. Mas os políticos estão a usar as diferenças tribais para fins menos claros – lamentou o P. Lourenço.

19 de julho de 2008

PARABÉNS


Nelson «Madiba» Mandela celebrou ontem 90 anos com os pobres no coração, apelando aos mais ricos da África do Sul para recordarem os deserdados.
«Há muita gente na África do Sul que é rica e que pode partilhar a riqueza com os menos afortunados que não foram capaz de conquistar a pobreza», disse Mandela.
Maldela passou os anos em Qunu, a aldeia natal, no Cabo Oriental, onde costumava guardar o gado. E lamentou que a pobreza ainda tenha uma pressão tão grande nas zonas rurais.
Madiba é o meu herói. Atravessou o inferno de Robben Island com o coração liberto de ódio e vingança e transformou um país profundamente dividido num imenso arco-íris.
Parabéns, Madiba!

17 de julho de 2008

TERTÚLIA

© GADO

O Cônsul Geral dos Estados Unido em Juba, Christopher Datta, convidou os jornalistas a trabalhar nos órgãos de comunicação da cidade para uma troca de ideias sobre as eleições gerais previstas para o próximo ano.
Uma dúzia de profissionais da informação (da rádio e jornais) aceitámos o convite e passámos quase duas horas, trocando impressões e informações.
Umas cervejas ou copos de vinho tinto ensopados com amêndoas e chamuças ajudaram a compor o ambiente.
A grande revelação: todas as tardes um membro da segurança do governo do Sul do Sudão visita a estação da rádio pública para ler o boletim árabe de notícias antes de este ir para o ar. E antes uma cópia do noticiário era enviada todos os dias para o ministro da Defesa.
Depois as estórias de casos de corrupção foram mais que muitas e abrangeram todos os sectores da sociedade: membros do governo, do exército, privados, sindicato de jornalistas… E o sentimento de impotência por não se poder revelar as razões porque os salários das tropas e dos professores estarem em atraso.
A maioria não acredita que as eleições previstas até Abril de 2009 venham a acontecer no próximo ano. Primeiro, é preciso que os resultados do recenseamento estejam prontos e os técnicos ainda nem sequer começaram a processar os dados recolhidos. Andam a aprender a usar «scaners» que processam 3000 documentos por hora, mas se avariarem têm que ser reparados por alguém que venha da Inglaterra.
A grande questão: o que é vai acontecer no referendo de 2011? Há quem pense que a auscultação da vontade popular sobre o futuro do Sul do Sudão – federação ou independência – nunca venha a acontecer. Uma nova guerra civil ou a declaração unilateral de independência podem ser alternativas ao exercício democrático.
Outra ideia em discussão: se o SPLM ganhar as eleições, os árabes aceitarão que Salva Kiir Mayardit seja presidente do Sudão? As dúvidas são mais que muitas.
A tertúlia foi um sucesso e decidiu-se repetir o encontro todos os meses. E o vinho tinto e as chamuças caíram muito bem depois de um dia de trabalho!

16 de julho de 2008

AL-BASHIR


O Juiz-Instrutor Luis Moreno-Ocampo, apresentou ao Tribunal Penal Internacional uma nota de culpa contra o presidente do Sudan na segunda-feira e requereu um mandado internacional de captura contra el-Bashir.
O juiz argentino acusou o presidente Omar el-Bashil de dirigir uma campanha de genocídio contra as tribos Fur, Masalit and Zaghawa, sendo responsável pela morte de 35 mil pessoas na região do Darfur.
Al-Bashir é acusado de crimes de genocídio e de guerra e crimes contra a humanidade.
O Governo sudanês reagiu mal à nota de culpa e ameaça que a situação no Darfur pode piorar ao mesmo tempo que não reconhece a jurisdição do TPI sobre o país.
A Liga Árabe diz hoje que a situação é muito séria e perigosa e que a decisão de indiciar o presidente sudanês foi tomada de ânimo leve.
Por seu turno, a União Africana alerta que a possível detenção do presidente al-Bashir pode criar um vazio de poder e uma situação semelhante à que se vive no Iraque.
A ONU, por seu turno, começou a retirar pessoal não essencial para a Etiópia e Uganda, temendo represálias, ao mesmo tempo que diz que tanto a missão no Darfur (UNAMID) como no Sudão (UNMIS) continuam com as actividades normais.
O Juiz Moreno-Ocampo conduziu a investigação no Darfur a pedido do Conselho de Segurança da ONU.

15 de julho de 2008

PROMISES

© JVieira

You promised Heaven and Earth,
The Sun and the Moon,
Stars and Galaxies.
And when the curtain fell at the last act
what remained?
The applause of sweet-sour memories,
a handful of nothing.
Yet, this is the stuff that makes life move on.

Thanks, anyway! Always!

14 de julho de 2008

SORRISO

© Cylia Sierra

No dia em que passar por ti e não te sorrir, será o dia em que precisarei de um sorriso teu.

Autor desconhecido

13 de julho de 2008

DARFUR

NAS MALHAS DA GUERRA

Ouvi distintamente o retinir de um contentor de água vazio no caminho pedregoso que me levava a Hai el Salam. Não olhei para trás; apenas me desloquei para a beira do caminho. O burro parou ao meu lado e uma voz convidou-me a subir para a carroça. Quem não conhece, em Nyala, a tão familiar carroça da água, que, desde manhãzinha ao pôr-do-sol, vai palmilhando ruas, caminhos e vielas na cidade e arredores?
Os meus olhos procuraram, em vão, um lugar onde me sentar. Mas não fiz disso motivo para recusar tão amável convite. Agradeci a mão do condutor que me ajudou a subir e, facilmente, ajeitei-me ao seu lado.
A carroça da água faz parte do quotidiano do Darfur. Fenómeno que se lhe possa comparar só o rakcha, triciclo motorizado com uma cobertura de lona, funcionando legalmente como meio de transporte público.
Sentado ao lado do jovem condutor, os meus olhos fixam-se na carroça, como se a vissem agora pela primeira vez. É uma caixa de folha metálica que o ferreiro transformou em contentor de água, assentando num eixo e duas rodas descartadas dos automóveis na sucata.
Naquela tarde, parece que não havia mais ninguém na rua onde a gente pusesse os olhos senão no estrangeiro sentado no topo da carroça-contentor de água. Os comentários abundaram, mas logo me habituei ao refrão:
- Maagul?! Shuf el khauaja el gharib da...! Possivel?! Não é coisa que se veja num estrangeiro!
Ao passar por casa da Farida, lá estava ela com os seus dois pequenos que a tinham chamado à porta. Deles ouvi palavras simpáticas:
- Wallahi jamil, ia abuna; queda quaiiess! Bonito de verdade, padre; assim está bem!.
De língua solta e palavra fácil, o Sabri – é este o nome do aguadeiro – não pára de falar, conversando simultaneamente comigo e os muitos amigos pelo caminho.
O animal de carga também faz parte da conversa mas, acaso não fosse pelo movimento do chicote no ar, não executaria prontamente as ordens do condutor.
- O burro vai num bailinho porque, graças a Deus, o contentor está vazio. Mas, quando está cheio, também tem força para mostrar. Ao voltarmos do poço do wadi, terás ocasião de ver que é verdade.
Outras carroças, irmãs da nossa, cruzam a passo lento e pesado. Vêm do poço do wadi, onde compraram água para mais um turno. Param à entrada desta e daquela porta, aligeirando a carga ao animal, a troco de 10 guirish por cada jerrican de água. O Sabri antecipou-se à minha pergunta e disse em forma de protesta:
- Preço demasiado barato. Além disso, o burro também não trabalha sem comer!
- Apesar de tudo, vejo que não tens urgência em mudar de emprego.
- Porque sei cativar a simpatia dos clientes. Se não fossem as gorjetas, já teria desistido.
O cruzamento à nossa frente, sem polícia nem semáforos, naquele momento, tornou-se demasiado pequeno e transformou-se enorme numa confusão. Um camião, automóveis ligeiros, carroças de cavalos, rakchas... Mas os burros com os seus contentores de água são a maioria. Está claramente visto ser eles a causa principal do engarrafamento e caos no tráfico. Os insultos enchem o ar, quase abafando o som das buzinas. Vêem-se chicotes e varapaus a querer fustigar não somente – pelo que parece – o dorso dos animais.
- Eh, Sabri, pára o animal! Vê lá onde te vais meter.
Mas o hábil condutor não necessitou da minha admonição. O asno obediente cortou à direita, na pequena e última oportunidade que lhe restou.
- Não achas que sois demasiadosos vendedores de água aqui em Nyala?
- Somos vários milhares. Há trabalho para todos e o número tende a aumentar. Desde que os Janjauids começaram os massacres nas aldeias é muito perigoso e arriscado viver fora da cidade. Mas aqui pode-se viver e trabalhar com certa segurança, mesmo que os aviões e helicópteros voem, baixinho, por cima das nossas cabeças.
- O teu nome árabe – Sabri – tem a ver com alguém que tem muita paciência, mas vejo também que a coragem é parte da tua bagagem.
- Por mais ruído e piruetas que façam no ar, o burro já se habituou. E eu também já não me assusto como antes.
Seguiram-se uns instantes de silêncio que Sabri interrompeu, com desilusão e tristeza:
- Não só não me assusto como antes mas quase não me importa saber se são aviões que vão atacar ou que vão socorrer. Às patrulhas dos soldados da paz (UNAMID) que vou encontrando no meu caminho tenho vontade de lhes gritar:
- Ide embora e não vos importeis com a paz no Darfur! Deixai cair sobre nós o destino dos muitos milhares de irmãos nossos que foram mortos nesta terra amaldiçoada!
A sua conversa continuou mas, desta vez, dirigida ao companheiro diário que puxa a carroça:
- Tu não sabes deste assunto, pois não?!.. És burro, mas vives feliz!
Depois de uma breve pausa, o meu amigo respirou fundo, olhou-me de frente e continuou no mesmo tom de desespero:
- Eu sei que a submissão a Deus é a base da nossa religião muçulmana. Porém, sinto uma revolta enorme quando recito a primeira sura do Alcorão em que louvo a grandeza de Deus Allahu Akbar, Deus é o Maior, ou simplesmente quando, na linguagem comum, agradeço com a frase típica também do sagrado Alcorão: El hamdu lillah, Graças a Deus. Acho impossível que, com tudo o que está a acontecer nesta terra do Darfur, Deus esteja do nosso lado.
Não obstante a fragilidade do momento e a delicadeza da questão para um muçulmano, ousei provocar o meu interlocutor:
- Será Deus que não está do nosso lado, ou serão os autores da guerra que não estão do lado de Deus?
Sabri não era dono de si mesmo para controlar as palavras que há pouco tinha pronunciado. Sinto o seu olhar confuso e exausto penetrar até ao fundo da minha alma. Tenho consciência da minha pobreza, mas sei que possuo um tesouro. O meu desejo e alegria é que a paz e a reconciliação que levo dentro de mim, fruto do Espírito de Jesus Cristo em quem eu creio, seja partilhado com este meu amigo sofredor.
O silêncio durou ainda alguns instantes. O animal, espontaneamente, parou. Penso no grupo de cristãos que estarão à minha espera. Mas, na presente circunstância, talvez eu seja melhor cristão se abdicar do meu apontamento para estar com Sabri.
Ele, muito agradecido, opôs-se totalmente:
- Gostaria de ir contigo até ao wadi mas, então, fica para outro dia. Obrigado pela boleia!”
- Foi bom estar contigo, khauaja, estrangeiro Desculpa lá a palavra, pois tu não és um khauaja como os outros. Sei que os cristãos te chamam abuna, mas eu não fui habituado assim. A nossa amizade não há-de ficar por aqui. Hei-de aparecer, um dia, na tua igreja, in cha Allah.
Mais uns minutos a pé e estou com o grupo dos pais dos baptizandos no centro católico de Hai el Salam.
Quando aviões e helicópteros voam baixinho, por cima das nossas cabeças, já não assustando o animal nem o seu dono...
Quando a vista e o ouvido ficam insensíveis e a pessoa se habitua à rotina da guerra...
Diz-se que o homem é um animal de hábitos. Deus nos livre de certos hábitos de consequências mortais.
Temo que muita gente aqui no Darfur se esteja a habituar à guerra. Há mortes pela espada ou catana, mortes pelo fogo, mortes pelas balas das kalashnikovs, mortos pela fome, pela tortura ou doença acelerada. Mas há outras mortes que não só a morte física. Vêem-se corpos ambulantes, mortos para uma vida digna dos humanos, aprisionados pela rede em que a guerra os deixou.
Os traumas psicológicos estão na ordem do dia. No momento em que escrevo está a decorrer um curso para animadores na sede da nossa diocese, em El Obeid. Nyala enviou três participantes que, por sua vez virão a contribuir para restabelecer, a nível local, a dignidade humana e o bem-estar psíquico das pessoas traumatizadas pela guerra.
Não era este o tema do encontro sobre o baptismo, programado para aquele dia em Hai el Salam, mas ficou a ser.
Sabri, não importa se me chamas khauaja ou abuna. O meu desejo é que encontres a paz contigo próprio; tu e tantos outros a quem a guerra apanhou nas malhas da sua rede.
Amigo simpático da carroça da água, não morreste às mãos dos Janjauid; não queiras agora ficar morto, privando-te da dignidade própria dos humanos e do teu bem-estar psíquico. A partir de hoje serás um dos beneficiários do serviço paroquial de Nyala, em favor dos traumatizados da guerra.
Fico à tua espera, como prometeste, in cha Allah!

Feliz Martins
Nyala - Darfur

9 de julho de 2008

DEATH


«Dying is not a sin» was the only thing she had come to say to him, and she gently placed her hand on her son’s glistening forehead, whereupon he closed his eyes and let his last tear fall. The last tear is death’s beginning.

Gil Courtemanche em «A Sunday at the Pool in Kigali»

8 de julho de 2008

DIAMANTE

© JVieira

A Ir. Mary Batchelor celebrou a 2 de Julho as Bodas de Diamante de vida religiosa. Esta australiana de 80 anos é freira há 60 nas Filhas de Nossa Senhora do Sagrado Coração.
«Deus tem-me levado sobre as asas de uma águia», diz ao rever a sua longa vida.
A Ir. Mary é dona de um sorriso lindo e de uma vitalidade enorme.
Teve cinco irmãos e três irmãs. Três escolheram o sacerdócio e ela e outra irmã a vida religiosa.
Durante 40 anos dedicou-se à educação em escolas católicas na Austrália.
Aos 60 anos decidiu fazer as malas e rumar a África. Esteve sete anos na África do Sul. Depois veio para o Sul do Sudão e desde então tem vivido na missão de Mapuordit, na diocese de Rumbek. É a directora das duas escolas da missão – básica e secundária – que contam com 1500 alunos.
Os alunos chamam-lhe «Mary our diamond», Mary, o nosso diamante.
Durante as celebrações, alguém lhe disse que Mapuordit era o seu novo nome.
Os anciãos dedicaram-lhe uma canção em dinka comparando-a a uma vaca leiteira que alimenta a toda a gente.
A Ir. Mary achou piada à comparação. Olhando para trás, disse que se tivesse de começar de novo, escolhia a mesma forma de vida.

6 de julho de 2008

HEARTS

Being a human being is not a simple business. Our hearts are cauldrons full of diverse feelings: restlessness, emptiness, nostalgia, longing, alienation, paranoia, and loneliness. As the cauldron is stirred by the events of our lives, these feelings rise to the surface, and we find ourselves pushed and pulled in many directions all at the same time. The result, unless understood for what it really is, is a painful confusion and tension. This can easily lead to a lot of inexplicable unhappiness as we wonder why we are so restless and divided, why we cannot simply settle down and be relaxed.
Ronald Rolheiser em «The Restless Heart»

28 de junho de 2008

27 de junho de 2008

CARTA ABERTA

Irmão Fernando Acedo com um ancião sidama © JVieira

Meu querido Fernando,
Esta manhã fiquei muito triste quando o meu provincial veio dizer-me que tu partiste para a casa do Pai ontem ao fim do dia.
Apeteceu-me chorar... Tinhas só 66 anos!
O padre Tesfay telefonou esta tarde de Adis-Abeba e contou-me que ontem chegaste do trabalho e foste para o quarto. Foram ver de ti porque não apareceste para o jantar. Encontraram-te morto na cama talvez por paragem cardíaca.
Um turbilhão de memórias desfilou dentro de mim com a notícia da tua morte.
Recordei a primeira – e única vez – que me cortaste o cabelo.
Tinhas chegado da fronteira com a Somália de assistir refugiados. Passaste lá uma semana a viver debaixo do teu camião apesar da chuva. Fomos para frente da casa e em cinco minutos deixaste-me pelado!
Recordo as vezes que passava por Teticha – a tua missão e a tua casa – e como me recebias com carinho. Enchias o carro de favas, repolhos, batatas, o que tinhas na horta. Querias ensinar os Sidama a variar a alimentação e o teu quintal era o campo de experiências.
Recordo o teu amor pelos Sidamas – a tua família alargada. Os artigos que escreveste, as fotos e filmes que fizeste, os ritos em que participaste, o teu envolvimento na pastoral, a tua dedicação às construções de capelas, escolas… Até em Juba trabalhaste seis meses, ajudando na recuperação da nossa casa.
Recordo sobretudo a tua dedicação, o teu empenho, o teu sentido se compromisso com a tua vocação. A fidelidade à oração.
E o teu carácter de espanhol bravo! Chamávamos-te Hombre, porque essa palavra saía sempre nas frases em inglês!
Fernando, vais ser sepultado amanhã em Teticha ao lado do teu amigo Gualberto, atrás da igreja. Ficas entre os teus, as pessoas que amaste, serviste, a grande família Sidama. Isso faz-me imensamente feliz.
Nunca imaginaste que o cantinho que preparaste com tanto carinho para o Gualberto seria também a tua última morada.
E o teu irmão, a tua cunhada e o Ramón vão estar no teu funeral. Eu também através das asas da oração.
Fica em paz!
Obrigado pela tua amizade. Aprendi muito de ti e trago-te no coração.
Intercede por nós junto de Deus.
Joe teu irmão

26 de junho de 2008

AMOR ALENTEJANO

Ao chegar a casa diz o alentejano à mulher:
- Querida, hoje vou amarti...
Responde a mulher:
- Até podes ir a Júpiter! Ê cá por mim vou dormiri ...

Obrigado, Luis!

25 de junho de 2008

CALÇAS

As mulheres do condado de Yei, no Sul do Sudão, foram proibidas de usar calças e tops curtos e apertados.
O comissário do condado, David Lokonga, disse à Sudan Radio Service que a proibição pretende promover um estilo decente de roupa entra as jovens de Yei.
O Comissário disse que calças muito justas e de corte baixo, deixando de fora parte das cuequinhas e topes que deixam mais a descoberto do que cobrem estavam a «estragar» as jovens das áreas rurais.
O comissário disse que desde que a lei foi aprovada há um mês as jovens de Yei voltaram a usar saias e vestidos.
Pudera! Algumas jovens contaram à Sudan Radio Service que soldados e outros homens têm agredido mulheres vestidas de maneira considerada não apropriada!
E o comissário diz que as restrições à indumentária feminina não são um ataque à liberdade. As autoridades têm o direito de interpretar as leis de maneira a proteger o interesse público – Lokonga dixit.

23 de junho de 2008

PRATA

© Cylia Sierra :: JVieira

Os católicos da arquidiocese de Juba preparam para celebrar as Bodas de Prata da liderança do arcebispo Lukudu Loro com pompa e circunstância.
O arcebispo Lukudu celebra 25 anos de pastor de Juba a 31 de Julho.
Uma comissão especial preparou uma oração pelo arcebispo que é recitada em todas as missas depois da comunhão desde 1 de Junho até 31 de Julho.
Entretanto, nove comissões estão a programar as celebrações que começam a 27 de Julho com adoração vésperas solenes na paróquia de S. José. Há também uma procissão do Santíssimo Sacramento e um encontro do arcebispo com jornalistas entre outras actividades.
No dia 31 de Julho o arcebispo será recebido na catedral pelos anciãos da comunidade e recebe uma bênção tradicional antes de celebrar o pontifical do jubileu.
O arcebispo Paolino Lukudu Loro é Bari e nasceu em Luri, Kworijik, em 1940. É missionário comboniano e foi ordenado em 1970. Em 1974, foi nomeado administrador apostólico de El Obeid e seu bispo nove anos mais tarde.
O arcebispo Lukudu está ao leme de Juba desde 31 de Julho de 1983, durante todo o período da segunda guerra civil de 1984 até 2005.

22 de junho de 2008

LONELINESS

© JVieira

We are many different persons who make up the human race. Regardless of our differences, and regardless of whatever hand of cards life has dealt us, our hearts all speak the same language, the language of love. Part of the language of love, though, is also the language of pain and loneliness. We yearn for full, all-consuming love and ecstatic union with God or with others. Reality, however, does not always deal in dreams and yearnings. Consequently, we go through life experiencing not just love, but frustration, restlessness, tension, and loneliness, as well. In life, all of us are somewhat frustrated in our deep desire to share our being and our richness with others. We live knowing that others do not fully know and understand us and that others can never fully know understand us, that they are “out there” and we are “in here”.
Ronald Rolheiser em «The Restless Heart»

17 de junho de 2008

MENINO



Menino sorriso
do tempo
em que o tempo
era e não era
aprendeste a sorrir.
Menino doçura
dos passeios no campo
do chapinhar na água
do caminhar
sem ter pressa de voltar.
Menino meiguice
do colinho da mamã
do sol de Inverno
e das noites á lareira...
Menino lindo
que cresceste
no tempo
que o tempo trouxe
guardas no sorriso
a meiguice de criança
e no olhar a doçura
das manhãs de primavera
quando a saudade
se faz presente
do tempo de ser... Menino.

Shukran, DairHilail

16 de junho de 2008

UFF

Desde quinta-feira que as emissões da rádio Bakhita se transformaram num imenso desafio à improvisação.
DJPro, o programa que controla a emissão, entrou em autofagia – começou a «comer» ficheiros em alta velocidade – e não havia maneira de os técnicos italianos que o instalaram descobrirem o que se passava para resolver o problema.
Valeu-nos hoje um informático sudanês com formação no Egipto para restaurar a maior parte das funções do dito cujo. O compilador dos boletins noticiosos ainda não funciona, mas pelo menos temos acesso ao banco de dados da estação: canções, gravações, publicidade (infelizmente ainda muito pouca).
Até hoje lá tivemos que inventar soluções com um programa desenhado para editar sons e que acabou a ser usado para manter a emissão no ar. Apesar de alguns cortes e soluços.
A necessidade aguça o engenho!

12 de junho de 2008

DARFUR

Um catequista foi brutalmente assassinado perto de Nyala, no Sul do Darfur, no sábado à noite.
Um desconhecido chamou o catequista Joseph Duang às 23h00 à rua e matou-o com um tiro em Bileli, perto do campo de deslocados de Kalma.
O suposto assassino está preso.
O catequista Duanga, um deslocado da guerra civil, deixa a viúva grávida e sete filhos. Pertencia à etnia dinka e aguardava transporte para poder regressar ao Sul do Sudão.
Joseph Duanga é mais uma vítima da anarquia que assola o Darfur. Há muitas armas nas mãos de civis e parece que ninguém as consegue controlar.
O banditismo está a dificultar cada vez mais o dia-a-dia dos deslocados e dos agentes humanitários que os assistem.

9 de junho de 2008

ABRIR ASPAS

© JVieira

Is love this misguided need to have you beside me most of the time? Is love this safety I feel in our silences? Is it this belonging, this completeness?
Chimamanda Ngozi Adichie em «Half of a Yellow Sun»

DARFUR

© REUTERS

Crianças do Darfur a viverem em campos de refugiados no Chade estão a ser vendidas como soldados a grupos de rebeldes da região.
A denúncia vem num relatório da organização Waging Peace sedeada em Londres.
Waging Peace disse que tem provas suficientes para testemunhar que crianças – sobretudo rapazes dos 9 aos 15 anos – são raptadas em pleno dia e vendidas a grupos armadas que operam no Leste do Chade e no Darfur.
O grupo de direitos humanos denuncia que os chefes dos campos de refugiados são cúmplices no rapto e venda de crianças sob a sua guarda.
Comandantes do Movimento de Justiça e Igualdade, rebeldes do Darfur que a 10 de Maio atacaram Omdurman – a cidade gémea de Cartum, estão envolvidos no tráfico de crianças-soldados bem como grupos de rebeldes chadianos e membros dos exércitos do Sudão e do Chade.
Waging Peace acusa as tropas da União Europeia de passividade perante a situação. A forca europeia foi enviada para o Chade e para a Republica Centro-Africana para proteger os refugiados do Darfur.
As Nações Unidas calcularam em 2007 que entre 7,000 a 10,000 crianças-soldados foram recrutadas à força no Leste do Chade.

6 de junho de 2008

EQUILÍBRIOS


«A Fine Balance», o terceiro romance de Rohinton Mistry, conta uma década de história da Índia através das venturas e desventuras de quatro personagens: dois costureiros intocáveis (Ishvar e Om), uma viúva (Dina) e um estudante (Maneck).
A estória junta as quatro personagens em Bombaim, a grande cidade, em casa de Dina, ao mesmo tempo que faz uma apresentação detalhada das sinergias que teceram a sociedade indiana durante os últimos anos de Indira Gandhi.
A leitura de «A Fine Balance» transforma-se numa experiência humana cada vez mais intensa e arrebatadora a cada virar de página apesar de um fim infeliz.
Mistry usa uma narrativa simples, mas os caracteres são complexos e levados ao limite.
A minha forma de vida tem-me posto em contacto com muitas experiências humanas diferentes. Esta foi uma que me tocou profundamente.
Obrigado Skye por este presente de Natal, uma maneira diferente de narrar a vida.

4 de junho de 2008

FCP GLOBAL


© JVieira
Estávamos uma dúzia de jornalistas na sala de imprensa da presidência do Sul do Sudão. Aguardávamos a chamada para cobrirmos mais uma visita ao Presidente Salva Kir.
O camarada da Rádio do Sul do Sudão estava bem vestido como sempre. Um emblema azul no alfinete da gravata chamou-me a atenção. Aproximei-me e confirmei as suspeitas: o alfinete tinha o emblema do Fequepê. Um Sudanês do Sul a usar um alfinete azul e branco para segurar a gravata.
O FC Porto é, de facto, uma equipa global – mesmo que este ano fique de fora da Liga dos Campeões!
Ficará mesmo?

2 de junho de 2008

SERVIÇO ÁRABE

© JVieira

Bakhita Radio voltou hoje a emitir o noticiário em árabe de Juba, depois de uma longa paragem.
Victoria Ismail Wani é a responsável pela tradução e gravação das notícias.
O boletim é um sumário alargado do noticiário em inglês e vai para o ar às 20h00 e 22h00.

Victória, 25 anos, fez o curso de Desenvolvimento e Comunicação da Universidade de Juba. Além de traduzir e gravar as notícias em árabe de Juba, vai também integrar a equipa que anima o programa Juba Sunrise das 7h00 às 10h00 da manhã.

1 de junho de 2008

LOVE

© JVieira
This was love: a string of coincidences
that gathered significance and became miracles.

Chimamanda Gnozi Adichie em «Half of a Yellow Sun»

29 de maio de 2008

CAPACETES AZUIS

As missões de manutenção de paz da ONU fazem hoje 60 anos.
Então, os Capacetes Azuis provinham de uma mão cheia de países europeus e americanos e eram militares não armados a monitorizar linhas de cessar-fogo.
Hoje, são mais de 110 mil, homens e mulheres colocados em zonas de conflito em todo o mundo. Vêm de 120 países.
No Sudão há 9278 Capacetes Azuis militares e 657 polícias a servir na UNMIS, a Missão das Nações Unidas no Sudão.
Há ainda 2460 sudaneses e 950 civis estrangeiros, incluindo 208 voluntários da ONU de 109 países a serviço da missão.
Estes dados não incluem a força híbrida de paz da ONU e da União Africana no Darfur, UNAMID.
Os Capacetes Azuis “treinam a polícia, desarmam ex-combatentes, apoiam eleições e ajudam a construir instituições estatais. Constroem pontes, reparam escolas, assistem vítimas de cheias e protegem mulheres da violência sexual. Defendem os direitos humanos e promovem igualdade de género” – Ban Ki-moon escreveu na mensagem para assinalar a efeméride
Por outro lado, em seis décadas mais de 2400 Capacetes Azuis, homens e mulheres, morreram ao serviço da paz.

28 de maio de 2008

PARLAMENTO

© JVieira


A Assembleia Legislativa do Sul do Sudão iniciou hoje em Juba a sua primeira sessão de 2008.
O presidente Salva Kiir criticou a Assembleia pela lentidão com que legisla e pediu aos parlamentares que produzam rapidamente leis anti-corrupção e de segurança pública, dois males que preocupam o presidente.
O presidente Kiir falou dos recentes ataques das tropas do Governo do Sudão à cidade de Abyei como crime contra a humanidade. Os combates entre tropas do Norte e do Sul do Sudão reduziram a cidade a escombros e fizeram mais de 50 mil deslocados.
A grande vedeta da abertura do ano parlamentar foi a
página electrónica da Assembleia do Sul do Sudão, preparada e oferecida pela Awepa, Associação de Parlamentares Europeus para a África, e lançada hoje.

LEIS DA IMPRENSA


O Ministério da Informação e Difusão do Governo do Sul do Sudão esteve a discutir um pacote legislativo para o sector num seminário que durou três dias.
O Ministros Gabriel Changson Chang apresentou os quatro projectos-lei: Organização do Ministério da Informação e Difusão, Serviço de Difusão Público do Sul do Sudão, Autoridade Independente para a Difusão, e Direito à Informação.
O ministro Changson disse que o Governo do Sul do Sudão não quer relacionar-se com a informação como o de Cartum que continua a fechar jornais e a prender jornalistas. Contudo, pediu aos profissionais do sector que exerçam restrição e auto-censura!
Os futuros diplomas foram discutidos por ministros estaduais da Informação e respectivos secretários, directores gerais de estações e rádio e televisão, proprietários de meios de comunicação social e organizações.
Artigo XIX, uma organização para a promoção do direito à informação e a liberdade de expressão, saudou o pacote legislativo ao mesmo tempo que critica a lei orgânica do ministério por lhe dar demasiado poder.

21 de maio de 2008

CONVENÇÃO

A segurança era apertada © Paul Jimbo

A Segunda Convenção do SPLM (Movimento de Libertação do Povo do Sudão na sigla em inglês) terminou a noite passada com a reeleição de Salva Kiir Mayardit como presidente do movimento.
Os cerca de 1500 delegados também elegeram 240 membros para o Conselho de Libertação Nacional - o presidente escolhe 35 - e aprovaram a Constituição e o Manifesto do Movimento.
O Conselho de Libertação Nacional vai nomear o secretário-geral e os três vice-presidentes do movimento.
A Convenção, que começou a 15 de Maio no Centro Cultural de Nyakuron, em Juba, tinha como objectivo transformar o SPLM num partido político nacional, capaz de disputar as eleições de 2009 com o NCP (Partido do Congresso Nacional), o parceiro sénior no Governo de Unidade Nacional.
O SLPM é o braço político do SPLA (Exército de Libertação do Povo do Sudão) que lutou durante 21 anos contra Cartum pela partilha do poder e das riquezas naturais do Sul do Sudão.
A abertura da Segunda Convenção do SPLM estava prevista para 10 de Maio, mas foi adiada por causa do ataque-surpresa do Movimento de Justiça e Igualdade (JEM, na sigla em inglês) do Darfur a Omdurman, a cidade gémea de Cartum, do outro lado do Rio Nilo, nesse dia.
Os trabalhos da Convenção foram atrasados pelo reatar dos combates entre as tropas do SPLA e do Governo em Abyei, um enclave rico em petróleo, reivindicado tanto pelo Norte como o Sul.
Os combates, que começaram na noite de 13 de Maio, reduziram a cidade de Abyei a escombros e fizeram entre 30 e 50 mil deslocados. Não se sabe ainda quantas pessoas pereceram nas batalhas.
A Primeira Convenção do SPLM decorreu em Abril de 1994, em Chukudum, no Estado de Equatoria Oriental, durante a guerra civil.

20 de maio de 2008

LÁGRIMAS


Lágrimas
que te vão no pensamento
que escorrem por vezes
por entre o teu sorriso feito luz
feito pedaços de ti...
Elas vêm devagarinho
desamparadas
anunciando
uma dor...
que mais não é
que saudade...
E caem
sem pressa de serem
sem intuito de ficarem
lágrimas apenas...
Num grito mudo
que se liberta
e tu voltas
como se nunca tivesses ido
embarcado
nas lágrimas que se fizeram...

Shukran, DairHilail

19 de maio de 2008

GERADOR

© Cylia Sierra Salcido

A Rádio Bakhita conta desde hoje com um novo gerador para fornecer electricidade à estação.
A nova máquina é mais forte e mais adequada às condições climatéricas de Juba e vai possibilitar manter a emissão contínua das 7h00 da manhã até às 10h30 da noite logo que o gerador que substituiu seja reparado e colocado no transmissor.
A rede pública de electricidade é insuficiente para as necessidades da população e os apagões são frequentes.
Entretanto, uma jovem jornalista começou a fazer exercícios práticos de tradução para relançar o serviço árabe das notícias a partir de 1 de Junho. Inshah Allah!

18 de maio de 2008

TRINDADE


Trindade de Rublev

Os cristãos acreditam que Deus é Trindade, porque acreditam que Deus é amor! Se Deus é amor, ele tem que amar alguém. Não existe amor de nada, um amor que não é dirigido a alguém.
… Em cada amor há sempre três realidades ou sujeitos: o que ama, o que é amado e o amor que os une.
… Sabemos que a felicidade e a infelicidade na Terra dependem muito da qualidade das nossas relações interpessoais. A Trindade revela o segredas do bom relacionamento. O Amor, nas suas formas diferentes, é o que faz uma relação bonita, livre e gratificante. Assim vemos como é importante que Deus seja visto principalmente como amor e não como poder: o amor dá, o poder domina.
P. Raniero Cantalamessa
Homilia para o Domingo da Santíssima Trindade.

BEM-VINDO

Sejas bem-vindo, João Bernardo! Parabéns, Sandra e Miguel.

15 de maio de 2008

RATAZANAS


O Sul do Sudão vai usar uma variedade especial de ratazanas africanas («pouched rats») para descobrir minas anti-pessoais colocadas na região durante a guerra civil que durou 21 anos e terminou em 2005 com a assinatura do Acordo Global de Paz.
As ratazanas, que têm um olfacto muito apurado, estão a ser treinadas na Tanzânia.
«Uma ratazana pode desminar 100 metros quadrados em 20 minutos enquanto um especialista humano necessita de dois dias», disse Sam Apiliga, presidente da Organização do Sul do Sudão contra as Minas.
O uso de ratazanas em desminagem foi desenvolvido na Bélgica por uma companhia chamada Apopo e testado com êxito em Moçambique.

11 de maio de 2008

RUAH


RUAH, Espírito Santo de tantos nomes, meu Amor,
é admirável saborear de novo que falar de Ti e contigo
me revela muito do Teu próprio jeito de estar presente e agir.
Não te impões, não é esse o jeito de Deus.
A Tua presença em nós acontece de mansinho,
Com ternura amorosa que nos abre ao amor do Abba
para nos deixarmos gerar continuamente como filhos!

O Teu poder, Ruah, é todo ternura e encanto,
apelo à maravilha, do amor do ABBA!

Não actuas em nós, meu Ruah,
Impondo a tua presença!
Não nos “pões a jeito” do Abba, à força de braços.
O Teu poder é doce, meigo,
Suave, feminino, maternal…
Por isso és poderosíssimo
Com aquele poder que só o Amor é capaz de ter,
Maior que todas as violências,
Maior que o pecado, a desilusão ou a morte.
E nesse encanto que provocas em mim,
Nessa insinuação do Teu olhar íntimo,
Nesse sussurro da Palavra que não deixas que termine
Eu sinto-me renascer…
Assim muito em silêncio,
como que nascendo inteiro dentro de mim,
Nascendo das tuas próprias mãos,
e abandonando-me N’Elas…Oh Ruah, meu Amor,
há coisa melhor do que saber
que estou a ser gerado continuamente
pelo amor do Abba como Seu filho?!
Oh Ruah… continuamente…
sentir que a Tua acção em mim tem este fim
de me gerar continuamente
como filho do Abba, ao jeito de Jesus…
Com esse poder amoroso, Ruah,
continua a fazer de mim o que quiseres.
Tu que és “o Amor de Deus derramado nos nossos Corações”,
Faz acontecer no meu íntimo d
e maneira sempre nova o Evangelho de Jesus!
Ruah…
Espírito Santo…
AMO-TE!
(Adaptado por Nyny de Textos de Rui Santiago)

DONS


E repousará sobre ele o Espírito do SENHOR, o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do SENHOR.
(Isaías 11, 2)

9 de maio de 2008

DARFUR


AJUDEM A FECHAR O TEATRO

O telefone tocou e o padre Jervas foi mais rápido do que eu a atendê-lo. Eis a boa notícia: finalmente a linha telefónica voltou. Já não era sem tempo! Foram dias a fio sem qualquer tipo de comunicações: desde o correio normal ao electrónico e telefone. Além disso, é comum algumas estradas serem fechadas ao trânsito.
As ligações aéreas, essas não têm falhado. Sobretudo – e infelizmente – as que são programadas pela mão diabólica de uma elite que escolheu a morte de outrem como prioridade. Há momentos em que o céu de Nyala é um palco assustador. As cores brancas dos aviões e helicópteros da paz misturam-se no ar com as cores esverdeadas das máquinas da guerra. Uns são comandados pelas forças da paz, UNAMID (MISSÃO DAS NAÇÕES UNIDAS E DA UNIÃO AFRICANA NO DARFUR na sigla em inglês); os outros são comandados pelo governo sudanês. Entre eles parece não haver intenções de combate. Uma atitude dificil de classificar. Medo ou respeito mútuo? Tolerância ou indiferença? Paz ou guerra? Será, talvez, o que se ouve dizer da boca de um qualquer Zé Ninguém que passa na rua e olha para o ar: “Cada um trabalha para o seu patrão que, pelos vistos, é muito rico”. E o Zé Alguém responde: “São marionetas da guerra…"
O povo darfuri ama o seu céu azul celeste, com a variante do cinzento nublado, durante a curta estação das chuvas. Venha tambem o céu das tempestades de areia a despejar a tão incómoda poeira, pois também é parte do nosso clima. Mas não nos obriguem a ser actores de um teatro em cujo ponto de mira está a extinção do povo da tribo Fur e outros seus vizinhos!
Onde está Deus e a beleza da sua criação?! Os darfuris já não são o reflexo da beleza original de Deus e o seu brilho é cada vez mais ténue. A comunidade cristã de Nyala, uma e outra vez, faz da sua oração um grito de revolta contra os crimes e abusos à mão solta neste Darfur sem rei nem roque. No entanto, ficamos gratos a Deus, à medida que vamos aprendendo que Ele não deixará de responder, a seu tempo e modo, à oração de seus filhos.
Se bem que não é absolutamente grave para a vida do missionário a ausência de comunicações, este silêncio – que já durava quatro dias – trouxe uma certa apreensão. Estávamos ansiosos de (boas) notícias. As palavras do Jervas ao telefone são poucas e entrecortadas. No seu rosto leio preocupação. Não me é difícil adivinhar, certeiro, por onde vai a conversa. Já os salamaleques dos amigos que há pouco encontrara na rua traziam, tambem, rumores do mesmo tom.
Quem tinha ligado era o jovem padre Lucas, sudanês, da tribo Maban. É o pároco de El Fasher, a segunda das três paróquias católicas em toda a região do Darfur.
Observo o padre Jervas que pousa, lentamente e com certa renitência, o auscultador. Não me surpreende ouvi-lo dizer que nem sequer conversaram à vontade. A cidade de El Fasher, neste momento, perdeu toda a segurança. O padre Lucas não exclui que haja escutas telefónicas.
Os Janjauids – agora oficialmente com o novo nome de “exército das fronteiras” – revoltaram-se contra o governo em protesto pelos salários em atraso. Tomaram conta dos lugares estratégicos da cidade, especialmene o suq (mercado público) que continua fechado há três dias. Levam o que lhes apetece, estragam e destroem. Os comerciantes, apesar de quase todos armados, não ousam oferecer resistência, pois os Janjauids estão por todos os cantos e não há por onde escapar vivo. No entanto, três personalidades que ocupavam postos-chaves na cidade foram assassinados em suas próprias casas.
Dez dias mais tarde, o padre Lucas fez-nos a surpresa de uma visita facilitda pelos aviões da UNAMID. Foram três dias que lhe fizeram bem ao corpo e ao espírito, entre os seus amigos de Nyala, onde passou vários anos da sua juventude aquando estudante da escola secundária.
Trouxe-nos notícias frescas. “Já há alguma segurança em El Fasher, mas as pessoas ainda têm muito medo de sair à rua. No domingo em que o suq ainda se encontrava sitiado pelos Janjauids não apareceu vivalma na igreja. Os que vivíamos na casa paroquial – três irmãs do Bom Pastor, o diácono e eu – representámos toda a comunidade paroquial na celebração da eucaristia."
Não me saem da mente as palavras que o governador de El Fasher vai repetindo ao povo darfuri e a todo o Sudão através dos meios de comunicação social: “O nosso povo – finalmente – vive em segurança, estabilidade e paz. Os desalojados estão a voltam para as suas aldeias. O acampamento de Abu Chok está a ficar vazio."
É preciso muita coragem para mentir tão descaradamente!
A reportagem televisiva sobre o tão falado campo de refugiados de Abu Chok, em El Fasher, foi uma montagem falsa. E não pode enganar ninguém, porque a verdade é conhecida por toda a gente. Os desalojados, apesar de serem intimidados pelas autoridades, não saíram do campo. Nem de Abu Chok nem dos outros 85 campos espalhados pelo Darfur.
Ir para onde, se as suas aldeias destruidas e queimadas ainda não foram restabelecidas? Evoco as palavras da Hicham que, entre lágrimas, dizia a um dos agentes da organização dos Médicos Sem Fronteiras: “Vivemos com extremas dificuldades no campo. Mas enquanto não tiver um lugar seguro onde habitar com as minhas duas filhas, ninguém me arranca daqui”.
Ela chora o marido e o filho que morreram num ataque dos Janjauids, nos arredores de Kas, pequena cidade no caminho de Nyala para Geneina.
Desde o início do conflito armado, em 2003, o Darfur tem sido testemunha de um bom número de personalidades internacionais e diplomatas que vieram para facilitar a paz aos cidadãos. Fizeram-se acordos, ouviram-se promessas de paz que ainda não trouxeram os frutos desejados. Falta vontade política.
O presidente da república sudanesa, Omar El Bashir, é famoso pelos truques que inventa cada dia para atrasar, a seu favor, a solução do grave conflito nesta zona do Oeste do Sudão. E a comunidade internacional parece ter, infelizmente, acertado o passo com o presidente. As organizações internacionais são impedidas de actuar livremente no terreno e os seus veículos são, mesmo dentro da cidade, alvo de pilhagem e sequestro.
Finalmente, desde Janeiro 2008 começaram a chegar elementos das forças híbridas da paz, a UNAMID. Mas ainda nada de palpável e concreto mudou. Não se vêem acções de desarmamento individual ou colectivo, como era de esperar.
A comunidade internacional deixa passar o tempo, dando a impressão de estar a pactuar com o vil dinheiro do petróleo, do urânio e outros interesses politicos. Em conversa com o Samuel, um sargento da UNAMID meu amigo, compreendi que os próprios soldados da paz estão cansados do trabalho rotineiro de todos os dias, conscientes de que o seu patrulhamento muito dificilmente ajudará a trazer a paz ao Darfur.
Na quarta-feira passada, dia de folga para o sargento Samuel, pus-me a caminho do quartel dos Capacetes Azuis. Queria fazer-lhe uma visita surpresa. Mas quem ficou surpreendido fui eu pelas palavras que não esperava à porta de entrada:
“Ah, o nigeriano? Já acabou os seis meses de serviço. Embarcou ontem com o seu grupo. O novo batalhão da Nigéria chegará amanhã.”
Batalhão que parte, batalhão que chega. Para executar ordens de chefes que não têm a coragem de avançar com uma solução radical e definitiva para a calamidade fantasma que é o Darfur. Matar e ser morto, neste quadrante do planeta, não é fingimento ou truque artístico de palco de teatro. É a realidade quotidiano dos últimos cinco anos.
Senhoras e senhores, por favor, não comprem mais bilhetes! Ajudem-nos a fechar o teatro do Darfur!
Feliz da Costa Martins
Missionário Comboniano em Nyala DARFUR

6 de maio de 2008

FUNERAIS

Presidente Salva Kiir profere o discurso durante o funeral © JVieira

Juba celebrou hoje os funerais do Ministro da Defesa do Governo do Sul do Sudão, General Dominic Dem Deng, do Conselheiro Presidencial Dr. Justine Yaac e das respectivas esposas, que pereceram no acidente aéreo de 2 de Maio perto de Rumbek.
Durante os discursos, os familiares das vítimas pediram às autoridades que garantissem a segurança aérea na região.
O Presidente do Sul do Sudão, Salva Kiir Mayardit, reconheceu que a região se transformou na sucata de aviões, automóveis e motorizadas pondo em perigo a segurança pública.
A 2 de Maio, um bimotor com 19 passageiros e dois tripulantes a bordo, despenhou-se perto de Rumbek onde pretendia aterrar de emergência devido a uma falha nos motores.
Além dos dois membros do Governo e respectivas esposas, o avião transportava de Wau para Juba oficiais do SPLA que tinham participado no congresso do SPLM no Estado de Warap. Não houve sobreviventes.

4 de maio de 2008

MÃE

© JVieira
Mãe: hoje é o seu dia. Parabéns. Obrigado pelos miminhos, pelo amor, pela estima. Em si e através de si eu celebro a maternidade de todas as mães do mundo.
Amo-a!

NILO

© JVieira

Glória a ti, pai da vida
Deus secreto que brotas de secretas trevas
Inundas os campos criados pelo Sol
Dessedentas o gado
Impregnas a terra
Estrada celeste, desces do alto
Amigo das searas, fazes crescer as espigas
Deus que revelas, ilumina as nossas moradas.
Hino Egípcio de 2000a.C.

30 de abril de 2008

FÉRIAS





© JVieira

Hoje voltei a Juba depois de duas semanas no Quénia. Passei dez dias em Nairobi e cinco em Mombaça. Uma maravilha!
Em Nairobi, celebrava a missa na casa das combonianas às 6h45 – ia a pé para escutar os pássaros e sentir-me parte da mole humana que caminhava apressada em silêncio todos os dias para o trabalho. São milhares e não têm dinheiro para os transportes porque não têm trabalho fixo.
Durante o dia caminhava, via filmes, lia, rezava. Convivia com os colegas, comia e dormia! E fazia compras.
Em Mombaça, estive com um colega e com um casal jovem italiano que está a adoptar uma criança queniana. Vivíamos na Maristella, uma casa comboniana a bordejar o mar num local isolado a mais.
Comíamos peixe fresco todos os dias, ia nadar, apanhava sol, caminhava na barreira de coral, lia e rezava.
Adorei contemplar o nascer da Lua sobre as águas tranquilas do Índico e gozar o silêncio acolhedor do lugar.
Apreciei estes dias de férias, mas é tão bom voltar a casa. Apesar dos 35 graus que fazia quando o avião aterrou! Em Nairobi as temperaturas são bem mais baixas e tem chovido bastante.
Já estava com muitas saudades da gente com quem vivo e trabalho!
Venho retemperado e pronto para voltar à rotina diária de editor da redacção da Rádio Bakhita.
Houve algumas mudanças: a Gladys resolveu trocar a «caça» de notícias pela angariação de apólices de seguro. Uma pena, porque a jovem ugandesa é uma jornalista de raça. Mas como pagamos mal…
Entretanto, dois sudaneses que estiveram a frequentar o curso do Centro de Formação da Rede Católica de Rádios do Sudão estão a fazer um estágio na redacção. E perspectiva-se a entrada de mais dois jornalistas, uma colega de Gladys e um queniano tarimbado na arte das notícias.

27 de abril de 2008

SILÊNCIO

Estou no Quénia desde o dia 16 de Abril para fazer um control médico e férias.
Está tudo bem comigo. Obrigado a todos pela preocupação.
O meu silêncio advém do facto de não ter acesso ao Gmail nem ao Jirenna a partir de minha casa por causa de um virus que bloqueia alguns servidores.
Volto a Juba quarta-feira!
Bom domingo!
Ah! Esta manhã o padre disse na homilia que cada amigo é uma fonte de vida! Obigado, amig@.

BIO-COMBUSTÍVEIS


© "Saturday Nation" – Nairobi (Quénia)

14 de abril de 2008

CONFUSÃO

O Presidente do Uganda, Yoweri Museveni, decidiu visitar o seu homólogo do Sul do Sudão, Salva Kiir Mayardit, e deixou Juba à beira de um ataque de nervos.
Primeiro, por motivos de segurança, o Aeroporto Internacional de Juba foi encerrado ao tráfico aéreo durante quase todo o dia.
Segundo, muitas ruas da cidade estavam interditas total ou parcialmente ao trânsito.
Terceiro, o tráfico era dirigido por polícias, polícia militar e seguranças à paisana. Era só apitos, berros e confusão. Vi-me à rasca para conseguiu entrar na rádio com o carro. O polícia que controlava o trânsito não falava inglês e o meu árabe acaba depois de meia dúzia de palavras. Safou-me um segurança depois de se certificar que a estação estava a 100 metros do cruzamento onde me encontrava.
Quarto, muitas das lojas ao longo das ruas por onde passou a caravana presidencial estiveram encerradas ao público!
Quinto, além das tropas do Sul do Sudão, também havia soldados ugandeses a fazer segurança nas ruas de Juba.
Sexto, heli-canhões da Força Aérea Ugandesa patrulharem os céus de Juba e escoltaram o jacto presidencial ao aterrar e levantar em Juba.
O Presidente Museveni veio discutir a questão da recusa de Joseph Kony, o líder do LRA, de assinar o Tratado Final de Paz com o Governo do Uganda.
O Presidente mimoseou o líder rebelde com alguns títulos pouco amigos e ameaçou que o Uganda e o Sul do Sudão têm recursos suficientes para acabarem com a sublevação do LRA.
Por seu turno, o Presidente Kiir disse que o acordo de Paz ainda não está morto.

DIÁCONOS

© JVieira
O Núncio Apostólico para o Sudão ordenou ontem três diáconos da arquidiocese de Juba.
O Arcebispo Leo Boccardi disse durante a homilia que a ordenação foi o ponto alto da visita pastoral de cinco dias que fez a Juba.
Dom Leo recordou aos três seminaristas que o diácono é um servidor.
A ordenação foi uma celebração colorida levou duas horas e meia.
Além do Núncio mais três prelados estiveram presentes na ordenação: o arcebispo de Juba e os bispos de Torit e Yei.
Os três diáconos vão continuar a formação pastoral e serão ordenados padres no fim do ano.

13 de abril de 2008

RECENSEAMENTO

O Governo do Sul do Sudão decidiu adiar o 5º Recenseamento da População do Sudão na área sob a sua jurisdição.
A contagem dos habitantes do Sudão estava prevista começar na terça-feira e terminar no fim do mês.
O Ministro da Informação, Gabriel Changson, disse que a decisão foi tomada pelo Conselho de Ministros do Governo semi-autónomo.
As razões para o adiamento sine die são várias: dois milhões de deslocados sulistas ainda se encontram em Cartum, a fronteira entre o norte e o sul ainda não foi demarcada, o Governo central não entregou todos os fundos orçamentados para o exercício.
O Governo de Cartum reagiu condenando o adiamento do Recenseamento no Sul do Sudão, dizendo que as objecções do SPLM já tinham sido discutidas.
Com a chegada da estação das chuvas, o Recenseamento no Sul do Sudão não deverá ter lugar antes do fim do ano.
O Recenseamento é um exercício fundamental para determinar os cadernos e círculos eleitorais para as eleições de 2009 e o Referendo de 2011 além de determinar o Orçamento para as diversas regiões do país.

11 de abril de 2008

VIDA

© Domenica Venanzio

Deste-me tudo,
Dei-me todo.
Amei
E fui amado.
Estamos quites.
Se morrer logo
Parto feliz
Não pelo que fiz
Mas pela multidão
Que trago no coração.

9 de abril de 2008

NÚNCIO

© Cylia Sierra

O Núncio Apostólico para o Sudão chegou esta manhã a Juba para uma visita oficial de cinco dias à arquidiocese.
O Arcebispo Leo Boccardi foi recebido no Aeroporto Internacional de Juba por Dom Paulino Lukudu Loro, arcebispo de Juba, pelo Presidente da Assembleia Legislativa do Sul do Sudão, pelo Ministro de Assuntos Presidenciais, individualidades políticas e religiosas, dançarinos tradicionais e jornalistas.
A caravana dirigiu-se depois para a paróquia de São José onde o arcebispo de Juba recebeu o núncio e este saudou a multidão que se juntou na paróquia.
O Arcebispo Boccardi disse que como embaixador do Papa a sua missão tem duas dimensões: uma política e outra pastoral.
O núncio fez uma visita de cortesia ao governo do Estado de Central Equatoria e ao Presidente do Governo do Sul do Sudão, General Salva Kiir Mayardit.
Dom Leo visitou ainda o túmulo de John Garang.
Para os dias seguintes o núncio vai visitar duas paróquias fora de Juba, ter encontros com o clero diocesano, religiosos, movimentos católicos e profissionais católicos.
No domingo ordena três seminaristas de diáconos e participa numa tarde cultural.
A visita encerra domingo à noite com um jantar.

6 de abril de 2008

5 de abril de 2008

VOLTOU

A luz pública voltou hoje aos estúdios da Rádio Bakhita depois de uma ausência de seis meses! Seja bem-vinda, dona Electricidade
A última vez que a estação foi alimentada pela corrente pública foi em ... Outubro. Claro que celebrámos com regozijo a ligação dos pilotos das três fases!
Durante os últimos seis meses a factura de gasóleo da estação rondou os mil euros mensais. Os dois geradores – na estação e no transmissor – «bebem» 1000 litros de fuel por mês, o que torna o projecto Bakhita cada vez mais caro e difícil de manter.
Até porque apesar de já sermos uma marca de peso na cidade – a própria concorrência confessou à directora da cadeia que os nossos noticiários são melhores que os deles – as entradas de publicidade teimam em aparecer.

4 de abril de 2008

REJAF

© JVieira

Rejaf é o meu paraíso em Juba.
O local fica a cerca de 15 quilómetros a sul de Juba e foi aí que os Combonianos fundaram a primeira missão nos anos 20 do século passado.
Construíram uma igreja à escala de catedral, uma escola primária, um dispensário e duas residências para a comunidade masculina e feminina. Tudo em tijolos-burro feitos no local. Milhões deles.
Rejaf era um centro importante e populoso, mas a guerra civil e os ataques do LRA (o Exército de Resistência do Senhor, movimento rebelde do norte do Uganda) obrigaram os habitantes a refugiar-se em Juba.
Os missionários também construíram uma horta a um quilómetro da missão, na margem direita do Nilo Branco.
Esse é o meu espaço predilecto.
Descobri-o por altura do Natal. Foi lá que fizemos o piquenique do pessoal que trabalha na arquidiocese.
Um lugar aprazível. Velhas e frondosas mangueiras dão-lhe a sombra necessária. Do outro lado do rio, há uma colina cónica que empresta o nome.
Junto ao quintal da missão há uma pequena enseada onde se pode nadar. Vou lá à sexta-feira, o meu dia de folga.
A primeira vez que fui lá, causei algum rebuliço entre os outros nadadores. Não é todos os dias que têm um branco cheio de pelos a nadar com eles.
Agora já sou parte da paisagem. Tratam-me pelo nome e hoje até me deram uma manga.
O Nilo Branco tem uma corrente muito forte, mas a enseada resguarda-me de ir parar a Cartum!
No passado havia hipopótamos na área. Agora não. Dizem que mais a cima há crocodilos. Mas onde nado só vi uma vez uma pequena serpente.
E o pôr-do-sol em Rejaf é uma experiência única e indizível! Música para os meus sentidos, para o meu coração.
Rejaf é o meu paraíso, um oásis de paz e de serenidade. Onde me sinto bem comigo e com a vida! E que tenho partilhado com pessoas que são importantes para mim.