9 de abril de 2008

NÚNCIO

© Cylia Sierra

O Núncio Apostólico para o Sudão chegou esta manhã a Juba para uma visita oficial de cinco dias à arquidiocese.
O Arcebispo Leo Boccardi foi recebido no Aeroporto Internacional de Juba por Dom Paulino Lukudu Loro, arcebispo de Juba, pelo Presidente da Assembleia Legislativa do Sul do Sudão, pelo Ministro de Assuntos Presidenciais, individualidades políticas e religiosas, dançarinos tradicionais e jornalistas.
A caravana dirigiu-se depois para a paróquia de São José onde o arcebispo de Juba recebeu o núncio e este saudou a multidão que se juntou na paróquia.
O Arcebispo Boccardi disse que como embaixador do Papa a sua missão tem duas dimensões: uma política e outra pastoral.
O núncio fez uma visita de cortesia ao governo do Estado de Central Equatoria e ao Presidente do Governo do Sul do Sudão, General Salva Kiir Mayardit.
Dom Leo visitou ainda o túmulo de John Garang.
Para os dias seguintes o núncio vai visitar duas paróquias fora de Juba, ter encontros com o clero diocesano, religiosos, movimentos católicos e profissionais católicos.
No domingo ordena três seminaristas de diáconos e participa numa tarde cultural.
A visita encerra domingo à noite com um jantar.

6 de abril de 2008

5 de abril de 2008

VOLTOU

A luz pública voltou hoje aos estúdios da Rádio Bakhita depois de uma ausência de seis meses! Seja bem-vinda, dona Electricidade
A última vez que a estação foi alimentada pela corrente pública foi em ... Outubro. Claro que celebrámos com regozijo a ligação dos pilotos das três fases!
Durante os últimos seis meses a factura de gasóleo da estação rondou os mil euros mensais. Os dois geradores – na estação e no transmissor – «bebem» 1000 litros de fuel por mês, o que torna o projecto Bakhita cada vez mais caro e difícil de manter.
Até porque apesar de já sermos uma marca de peso na cidade – a própria concorrência confessou à directora da cadeia que os nossos noticiários são melhores que os deles – as entradas de publicidade teimam em aparecer.

4 de abril de 2008

REJAF

© JVieira

Rejaf é o meu paraíso em Juba.
O local fica a cerca de 15 quilómetros a sul de Juba e foi aí que os Combonianos fundaram a primeira missão nos anos 20 do século passado.
Construíram uma igreja à escala de catedral, uma escola primária, um dispensário e duas residências para a comunidade masculina e feminina. Tudo em tijolos-burro feitos no local. Milhões deles.
Rejaf era um centro importante e populoso, mas a guerra civil e os ataques do LRA (o Exército de Resistência do Senhor, movimento rebelde do norte do Uganda) obrigaram os habitantes a refugiar-se em Juba.
Os missionários também construíram uma horta a um quilómetro da missão, na margem direita do Nilo Branco.
Esse é o meu espaço predilecto.
Descobri-o por altura do Natal. Foi lá que fizemos o piquenique do pessoal que trabalha na arquidiocese.
Um lugar aprazível. Velhas e frondosas mangueiras dão-lhe a sombra necessária. Do outro lado do rio, há uma colina cónica que empresta o nome.
Junto ao quintal da missão há uma pequena enseada onde se pode nadar. Vou lá à sexta-feira, o meu dia de folga.
A primeira vez que fui lá, causei algum rebuliço entre os outros nadadores. Não é todos os dias que têm um branco cheio de pelos a nadar com eles.
Agora já sou parte da paisagem. Tratam-me pelo nome e hoje até me deram uma manga.
O Nilo Branco tem uma corrente muito forte, mas a enseada resguarda-me de ir parar a Cartum!
No passado havia hipopótamos na área. Agora não. Dizem que mais a cima há crocodilos. Mas onde nado só vi uma vez uma pequena serpente.
E o pôr-do-sol em Rejaf é uma experiência única e indizível! Música para os meus sentidos, para o meu coração.
Rejaf é o meu paraíso, um oásis de paz e de serenidade. Onde me sinto bem comigo e com a vida! E que tenho partilhado com pessoas que são importantes para mim.

31 de março de 2008

MUÇULMANOS

© JVieira

Os Muçulmanos ultrapassaram pela primeira vez os católicos em termos de aderentes e são agora o grupo religioso mais numeroso do mundo.
Os Muçulmanos representam 19,2 por cento da população mundial enquanto os Católicos se quedam pelos 17,4 por cento fazendo fé nas estatísticas do Anuário Católico publicado nestes dias. Os números referem-se a 2006.
«Pela primeira vez na história, não deixamos de estar no topo: os Muçulmanos ultrapassaram-nos», disse Monsenhor Vittorio Fromente, editor do Anuário Católico.
Contudo, as estatísticas publicadas pelo Vaticano indicam que os Cristãos no seu conjunto – Católicos, Protestantes e Ortodoxos – representam 33 por cento da população mundial.

28 de março de 2008

CAMPO VOCACIONAL

© JVieira

Cerca de 70 jovens estão a participar num campo vocacional organizado pelos oito institutos religiosos presentes em Juba em colaboração com o clero local.
Os participantes, mais rapazes que raparigas, vêm das paróquias de Juba e arredores.
O encontro decorre na paróquia de Gumbu, a 14 quilómetros de Juba, na outra margem do Nilo Branco.
O campo vocacional começou na terça-feira e termina no domingo. Os participantes estão a reflectir sobre a vocação em geral, sobre o sacerdócio e sobre os carismas dos diferentes institutos presentes em Juba para projectarem o próprio futuro.
Oração, palestras, desporto, vídeos e convívio são actividades do programa diário que os jovens seguem.
Na quinta-feira feira fui visitá-los – a manhã foi dedicada ao carisma comboniano – e fiquei encantado com o clima de alegria, camaradagem e empenho que encontrei.

Apesar de a chuva estar a dificultar as coisas.
Os salesianos estão a recuperar a paróquia de Gumbu, mas as instalações ainda são bastante precárias.
Os jovens estão alojados em algumas construções rudimentares que servem de escola, igreja e sala de reuniões.
A população abandonou a aldeia devido aos ataques dos rebeldes do Norte do Uganda e só agora é que estão a voltar a casa.
A paz entre o LRA (Exército de Resistência do Senhor) e o governo ugandês vai ser assinada a 5 de Abril em Juba pondo termo a mais de 20 anos de guerra, morte e destruição.

25 de março de 2008

PIQUENIQUE


Na Segunda-feira de Páscoa as duas comunidades combonianas de Juba organizaram um piquenique para celebrar a ressurreição do Senhor como comunidade apostólica.
O lugar escolhido foi Kwarejik, uma paróquia iniciada pelos Combonianos nos anos 50. Hoje é servida pelo clero local.
Kwarejik fica a uns 20 quilómetros de Juba, por detrás do aeroporto, e é famosa pelas suas frondosas mangueiras.
Foi debaixo de algumas dessas árvores que celebrámos a missa e depois comemos frango no churrasco regado por cerveja turca com informação em português. A globalização em acto!
Alguns locais, sobretudo crianças e jovens, passavam e paravam a ver-nos a comer e a conviver. E receberam rebuçados (alawa), a maneira tradicional de marcar a Páscoa e outras datas importantes.
As celebrações pascais em Juba foram intensas.
Na Quinta-feira Santa fizemos uma vigília de adoração na capela da Casa Comboni. Rezámos o tema «A Luta» durante duas horas, com cânticos, reflexões e silêncios acompanhando Jesus no Getsémani.
A celebração da Paixão do Senhor, na Sexta-feira Santa, levou mais de duas horas e meia. Só a adoração da Cruz durou 75 minutos.
A vigília pascal – que começou antes do sol se pôr – prolongou-se por mais de três horas e juntou mais de dois milhares de católicos em missa campal. O presidente da celebração fez uma homilia de quase meia hora, isto depois de termos escutado as oito leituras proclamadas em inglês, árabe e bari.
No Domingo de Páscoa presidi à eucaristia na Igreja de São José Operário, a terceira vez que me convidaram como celebrante principal desde que cheguei a Juba há 15 meses.
É a comunidade católica mais pequena de Juba. Os fiéis foram deslocados de Liria, a uns 60 quilómetros a sul de Juba, durante a guerra civil.

23 de março de 2008

PÁSCOA | EASTER

Páscoa!
Passagem. Peregrinação. Paz. Primavera.
Imagens e sentimentos que a celebração do Mistério Pascal de Jesus evoca no meu coração.
Cada ano fazemos memória do mistério central da nossa fé.
E somos convidados a participar da ressurreição do Senhor acolhendo a Paz que Ele oferece a todos.
A paz do Ressuscitado é o dom maior que Ele nos faz. Integração e harmonia.
Paz nos nossos corações, Paz em Juba, Paz no Sul do Sudão, Paz no Darfur, Paz onde a guerra continua a matar.
Uma Santa Páscoa na Paz de Jesus Ressuscitado!

Easter!
Passover. Pilgrimage. Peace. New beginning.
Images and feelings that my heart recalls through the celebration of Jesus Paschal Mystery.
Every year we make memory of the central mystery of our faith.
And we are invited to partake in Jesus’ Resurrection welcoming his Peace.
The Peace of the Risen One is the biggest gift He offers us.
Integration, wholeness, harmony.
Peace in our hearts, Peace in Juba, Peace in Southern Sudan, Peace in Darfur, Peace where war keeps on killing.
A holy Easter in the Peace of the Risen One!

21 de março de 2008

PONTE

© Cylia Sierra Salcido

As obras de substituição da ponte de Juba finalmente começaram.
Em Dezembro de 2006 uma faixa de rodagem sobre o Nilo Branco ruiu parcialmente sob o peso de um camião carregado de cimento. Felizmente não houve vítimas a lamentar.
Desde então só se circula por um canal sobre o rio. Às vezes as coisas complicam-se como num domingo em que todos os que estávamos a atravessar a ponte tivemos que fazer marcha atrás porque um comandante do exército do Sul do Sudão decidiu que não podia esperar a vez para entrar na cidade. O tabuleiro é muito estreito e os camionistas viram-se à nora para recuar!
A ponte já tem mais de 25 anos. Por isso, o Governo do Sul do Sudão encomendou um novo tabuleiro em metal para substituir a velha travessia. Os contentores com as partes da ponte estiveram retidos no porto de Mombaça, Quénia, durante bastantes meses porque o Governo não pagava a encomenda.
As obras começaram há algum tempo e estão a decorrer a bom ritmo.
A ponte de Juba é de importância vital para o abastecimento da cidade, sendo a única travessia sobre o Nilo Branco em centenas de quilómetros.

16 de março de 2008

DARFUR

O presidente do Sudão, Omar al Bashir disse em entrevista por um jornal dos Emirados Árabes Unidos que a crise do Darfur é fabricada.
Al Bashir disse que o que está por detrás da crise do Darfur são novas jazidas de petróleo e urânio.
O presidente sudanês acusou o Oeste de tentar controlar o crude do país como parte da estratégia para controlar o mundo.
As mais de 200 mil vítimas do conflito e os milhões de deslocados decerto que não partilham da mesma opinião.

14 de março de 2008

SONHO

Naquela tarde de meados de Março, o panorama da praça El Maulid, na cidade de Nyala, no Sul do Darfur, era de uma tristeza indizível.
Eu e outros sobreviventes da cruel batalha que aconteceu em pleno dia, procurávamos reconhecer e identificar familiares e amigos – os nossos mortos.
Vagueava, sem rumo, entre os corpos naquele campo de sangue. Para mim, tudo se tinha tornado indiferente. A maior das preciosidades perdera o seu valor e a vida tinha o mesmo rosto da morte. Confuso e semiconsciente, nem saberia dizer o nome das pessoas amadas que procurava naquele lugar hediondo.
Sem saber porquê, encontro-me de joelhos perante aquele corpo esfacelado e de rosto irreconhecivel. Uma bomba tinha-lhe feito o coração nos pedaços que marcavam de sangue o chão e alguns corpos à volta.
Homens, mulheres e crianças deambulavam, em marcha fúnebre, por toda a praça. Chegavam perto de nós e quedavam-se a olhar com ar de mistério e reverência, como que a confirmar algo de que eu próprio não tinha a certeza.

Deles ia ouvindo palavras de consolação por aquele morto.
Para aquela gente não havia dúvida que o corpo que jazia ali junto a mim naquele chão ensopado de sangue, era meu pai, meu irmão, minha mãe, minha filha...
Palavras que eu não corregi, aceitando-as como uma verdade que não soube negar.
Quem foi o autor deste massacre? A malvadez dos janjauids, especialmente em extremos de loucura e raiva, não deixava dúvida a ninguém. Mas onde estavam os capacetes azuis, as forças de manutenção de paz do Darfur?
«São poucos e não podem acudir a tudo» – era, entre lágrimas, a resposta resignada de alguns.

Outros, porém, já sem lágrimas para chorar, engrossavam o caudal das suas vozes em protestos de raiva que queriam chegasse às presidências do governo do Sudão em Cartum e da Organização das Nações unidas em Nova Iorque.
Uma rajada de metralhadora colou, num gesto instantâneo e automático, os nossos corpos ao chão. Foram minutos longos como as horas, onde os vivos se juntaram aos mortos. Não se viu um movimento nem se ouviu um ai, não fosse de novo soltar-se o gatilho da arma fatal e vigilante do inimigo. Quem se levantaria ainda vivo?


De um salto, fiquei sentado na cama. Enxuguei o corpo, ainda não convencido que era mesmo suor ou sangue. Felizmente, não passou de um sonho.

Feliz da Costa Martins
Missionário Combonianoem Nyala (Darfur)

9 de março de 2008

HORA H

O Sudão prepara-se para a Hora H do processo de paz: o 5º Recenseamento da População, marcado para a noite de 14 para 15 de Abril. A cotagem dos habitantes de todo o Sudão decorrerá entre 15 e 30 de Abril.
O recenseamento é a pedra de toque do Tratado Global de Paz, assinado em 2005 pelo Governo e os rebeldes do Sul depois de uma guerra civil de mais de 20 anos.
Determina a partilha do poder e das riquezas entre o norte e o sul. Determina os círculos e cadernos eleitorais para as eleições gerais marcadas para 2009 e para o referendo de 2011. Determina o orçamento geral do Estado.
O acordo de paz estipula que o recenseamento devia ser feito até 9 de Julho de 2007. Mas tem sido repetidamente adiado. Contudo, espera-se que a última data decretada pelo Presidente Omar al Bashir seja final.
Mas primeiro, há que demarcar a fronteira que dividia o norte do sul a 1 de Janeiro de 1956, altura da independência do país. E definir o estatuto de Abyei, uma região especial rica em petróleo.
Por outro lado, o Sul tem experimentado alguma insegurança crescente à medida que o dia 15 de Abril se aproxima.
Houve ataques a civis nos estados de Central e Western Equatoria com algumas vítimas mortais. Foram atribuídos a rebeldes do LRA, o grupo que durante 20 anos combateu no norte do Uganda e que se prepara para assinar a paz com o Governo em Juba sob a mediação do vice-presidente do Sul do Sudão.
Testemunhas garantem que os guerrilheiros são abastecidos por helicópteros ao entardecer. Milícias usadas e abastecidas por Cartum para criar insegurança e terror no Sul? É uma hipótese viável
.
Entretanto, desde o Natal que na zona de Abyei a tribo nómada de pastores Misseriya continua a travar violentos combates com o SPLA, o exército do Sul do Sudão.

Os Misseriyas são árabes do Norte que durante a estação seca trazem o gado para as pastagens do Sul. Este ano apresentaram-se com metralhadoras pesadas montadas em «pick-ups» e sistemas de comunicação sofisticados. Os recontros sucedem-se ao longo do rio Kiir. No último fim-de-semana mais de 60 árabes foram mortos.
Alguns políticos do Sul dizem que os pastores usam o mesmo tipo de armamento que o exército sudanês e que estes os usam para tentarem puxar a fronteira mais a sul e ficar com a maior parte dos poços de petróleo no norte.
Há ainda a notar que a secção de finanças da sede da Comissão de Recenseamento do Sul do Sudão ardeu duas vezes em menos de um ano. Causa? Curto-circuito. O resultado do inquérito do primeiro incêndio ainda não é conhecido. Coincidência ou sabotagem? Vá-se lá saber!
Finalmente, a Comissão de Recenseamento do Sul do Sudão acusa o governo nacional de não libertar as verbas necessárias para poder realizar o exercício tentando asfixiar a sua operacionalidade. O presidente da Comissão disse na sexta-feira que está à espera de 7,2 milhões de dólares que foram prometidos mais 4,5 milhões para cobrir o deficit.
O recenseamento vai ser feito por 14 mil enumeradores só no Sul.
Uma coisa é certa, quanto mais o Sudão se aproxima do dia 15 de Abril, mais violência e insegurança são esperadas.
Porque os árabes não vão facilmente abrir mão do petróleo do Sul que está por detrás do «boom» económico que Cartum tem vivido nos últimos anos. E se o Sul do Sudão não tiver pelo menos um terço da população do país perde direito a metade dos proveitos do crude extraído na região.
Se a data não for respeitada, entretanto chegam as chuvas e a contagem terá de ser adiada para finais de 2008 ou princípio de 2009, altura em que muitas partes do Sul do Sudão deixam de ficar isoladas do resto do país.

5 de março de 2008

VIRGIN BIRTH

© JVieira

The perennial paradox
Peculiar to this Father and Son
Specialists in confounding
Human wisdom withdrawn from wonder.
A virgin gives birth
Not to sterility but
To a Messiah.

Now what has virginity to do with giving birth?
Nothing!
When wisdom wastes words wandering
towards the truth that will not set you free.

Virginity and inconsummation
incomplete heart and flesh
wrestling with a God who has no flesh
and who won’t let flesh
meet flesh
Aches, waiting completeness
To stave off sterility
Truly the unforgivable sin against
The spirit of life which is holy.

But sterility becomes pregnant
with yearning
for the spirit that sleeps
with God in the night
and impregnates with messianic spirit
those patient enough to yearn
and sweat lonely tears
rather than ruin gift
with impatience.

Only virgin’s wombs bring forth messiahs
They alone live in advent
waiting, a delaying bridegroom
late, hopelessly, beyond the 11th hour.
Still, the virgin’s womb waits
Refusing all counterfeit lovers and
all impatience
which demands
flesh on flesh and
a divine kingdom on human terms.

Messiahs are only born
in virginity’s space
within virginity’s patience
which lets
God be God
and
love be gift.


Ronald Rolheiser em «Forgotten among the Lilies»

3 de março de 2008

NOTÍCIAS AO CAFÉ

Paul Jimbo lê as notícias com Olet Cris a controlar a emissão © JVieira

A Rádio Bakhita deu hoje mais um passo com o primeiro boletim matutino de notícias.
O noticiário é preparado e lido pelo jornalista Paul Jimbo e vai para o ar em directo às 9h00.
A primeira edição correu bem, embora necessite de algumas afinações: introdução de um separador acústico entre as notícias e uma base musical para dar «cor» ao espaço informativo. O boletim é «confeccionado» com as notícias produzidas pela redacção de Bakhita no dia anterior e por despachos de agências e dos jornais electrónicos do dia.
O próximo passo será a introdução do serviço árabe de notícias. Já esteve no ar mas por duas vezes os tradutores-locutores desapareceram de circulação e a experiência teve que ser descontinuada!

24 de fevereiro de 2008

PARABÉNS

© JVieira

Querida Biju, bem-vinda aos entas! Um beijão de parabéns e de saudades do Mano Belho!

22 de fevereiro de 2008

PAZ NO UGANDA


© JVieira

As delegações do Governo Ugandês e do LRA (Exército de Resistência do Senhor na sigla em inglês) assinaram esta tarde em Juba o Protocolo de Implementação do Acordo sobre Soluções Globais.
O Dr. Joaquim Chissano foi uma das dez testemunhas do acto na qualidade de enviado especial do Secretário-geral da ONU para o Norte do Uganda.
A assinatura do documento é um passo importante na resolução do conflito que há 20 anos semeia a morte e a destruição no Norte do Uganda e alastrou ao Sul do Sudão, RD Congo e República Centro Africana.
Ontem à tarde a delegação do LRA tinha abandonado as conversações de paz que são mediadas pelo Vice-presidente do Governo do Sul do Sudão, Dr. Riek Machar.
O LRA queria cinco ministérios, cinco embaixadores e 20 lugares importantes na administração nacional além de exigir que o Tribunal Penal Internacional retirasse as acusações contra os líderes dos rebeldes. Nenhuma das exigências faz parte do documento assinado esta tarde.
Até agora as delegações assinaram o Protocolo de Cessação de Hostilidades, o Protocolo de Soluções Globais (Princípios e Implementação) e o Protocolo de Responsabilização e Reconciliação (Princípios e Implementação).
Falta discutir e assinar os Protocolos de Cessar-fogo Permanente e de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração.
O Dr. Riek Machar disse no final da cerimónia desta tarde que o cessar-fogo deveria ser assinado esta noite.
O último protocolo será rubricado até ao fim do mês, altura em que se prevê que as conversações terminem depois de dois anos e meio.
Entretanto, esta manhã quando fui nadar a Rejaf, a 10 quilómetros de Juba, encontrei no local uma patrulha ugandesa fortemente armada à procura de rebeldes do LRA – disse-me um dos soldados. A patrulha era parte de um destacamento de 50 soldados. Paz e guerra!

COELHOS

Obrigado, Helen! Um efeito muito giro.

20 de fevereiro de 2008

FORMAÇÃO

© JVieira

O Centro Comboni de Formação para os Média abriu hoje em Juba com um curso propedêutico de inglês e aulas de auto-descoberta.
O Centro é parte da Rede Católica de Rádios do Sudão e destina-se a preparar apresentadores e jornalistas para as oito estações que estão para abrir nas dioceses do Sul do Sudão e nos Montes Núbios.
A Ir. Paola Moggi, directora da Rede, disse que o centro de formação pretende desenvolver as capacidades de produção rádio dos candidatos.
“O Centro Comboni de Formação para os Média tenta dar formação sistemática a alguns candidatos enviados pela Rede Católica de Rádios do Sudão e outras instituições”, explicou a Ir. Paola.
O Centro oferece um curso propedêutico de inglês e computadores aos candidatos que necessitam de melhorar as suas capacidades nestas duas áreas antes de entrar no curso.
Auto-descoberta, sociologia e ética são cursos fundamentais. Os alunos também aprendem jornalismo, produção de rádio, ética e leis dos média.
Para começar há nove candidatos matriculados no primeiro curso que dura um ano.

16 de fevereiro de 2008

MERCADOS

© JVieira

O Comissário do Condado de Juba anunciou ontem que os dois maiores mercados da cidade vão ser transferidos.
Albert Pitia Pendetore disse que o mercado de Konyo-Konyo – um nome interessante para os espanhóis – passa para a margem direita do Nilo Branco, fora da cidade, e o mercado de Custom para o sopé de Jebel Kujur, a Montanha dos Espíritos, que guarda Juba a Oeste.
O projecto foi posto à consideração dos ouvintes do programa Bits & Pieces Rádio Bakhita transmite das 17h15 até às 19h00, e as linhas de telefone não tiveram descanso.
Os cidadãos de Juba não querem ver os mercados relegados para a periferia da cidade com todos os inconvenientes que isso acarreta.
O Comissário Pitia diz os mercados são ilegais. Custom está em terreno da Universidade de Juba e a Instituição quer edificar no local o Hospital Escolar Dr John Garang. Konyo-Konyo é uma zona residencial.
Os mercados são o local de abastecimento mais popular de Juba. As lojas são mais caras e não têm tanta disponibilidade de produtos.
Os comerciantes são maioritariamente ugandeses.
Entretanto, à volta dos mercados cresceu uma rede de hotéis baratos, bares, quiosques, barbearias, prostituição…
O Comissário Pitia anunciou na mesma altura que proibiu a venda de bebidas alcoólicas fortes em pequenos sacos de plástico produzidas no Uganda.

13 de fevereiro de 2008

PLASTIC ROSES

© JVieira

The Man who invented the plastic rose is dead,
Behold his mark.
His undying flawless blossoms never close
But guard his grave unbending through the dark.
He understood neither beauty nor flowers,
Which catch our hearts in nets as soft as sky
And bind us with a thread of fragile hours,
Flowers are beautiful because they die.
Beauty without the perishable pulse
Is dry and sterile, an abandoned stage
With false forests. But the results
Support this man’s invention. He knows his age;
A vision of our tearless time discloses
Artificial men sniffing plastic roses.
Peter Meinke (1964)

10 de fevereiro de 2008

TAÇA AFRICANA

O Egipto lá levou o «caneco» da Taça Africana das Nações ao derrotar os Camarões por um golo sem resposta.
Os «Faraós» mostraram ser uma equipa consistente, forte e realista, jogando q.b. para despacharem a concorrência.
Ganharam a final contra os Camarões devido a um erro defensivo de palmatória do capitão dos leões indomáveis. Antes, tinham obrigado o guarda-redes camaronês a duas defesas de recurso e mandado uma bola ao poste.
O «caneco» ficou em boas mãos e o Egipto sagrou-se campeão africano por duas vezes consecutivas. Os Faraós já têm seis taças africanas na cristaleira nacional. Um record.
O outro record pertence a Samuel Eto’o. Com cinco golos marcados transformou-se no artilheiro do torneio e também no melhor marcador de sempre da competição.
A Taça Africana das Nações foi uma mostra de bom futebol cheio de golos, de grandes jogadas e de um público colorido e especial. Três semanas de bola bem passadas.

O futebol africano está bem e recomenda-se!

9 de fevereiro de 2008

DO LIVRO DOS SALMOS

Finalmente recebi a obra póstuma de Mário Castrim, «Do Livro dos Salmos», que a viúva, a Alice Vieira me enviou (com dois chocolates).
Pensei que a encomenda-postal se tivesse perdido nas confusões pós-
eleitorais do Quénia – o correio chega-nos a Juba via Nairobi – mas não. Já tinha pedido a um amigo uma nova cópia.
E como estou feliz por ter nas mãos o último livro do Mário! É uma obra notável de um homem notável.
O Mário Castrim, crítico de televisão e escritor, era um comunista assumido. Recordo que quando começou a colaborar na revista «Audácia» com uma rubrica mensal «O Lugar do Televisor» - os seus textos estão compilados em três volumes editados pela «Além-Mar» - alguns colegas ficaram muito zangados. Um comunista a escrever para miúdos numa revista católica?
Mas o Mário era um homem de fé e lia a Bíblia todos os dias. Desse amor pelas Escrituras saiu a sua leitura pessoal dos 150 salmos, – que dedicou ao Arlindo Pinto – o director que o acolheu – e aos missionários combonianos. A casa dos combonianos em Lisboa também se tornou sua casa.
Reli muitas vezes o manuscrito que tinha na direcção da «Além-Mar». E era sempre assaltado pelo sentimento de que o livro merecia uma editora com mais fôlego para dar aos salmos do Mário a projecção que merecem. A Alice aceitou o desafio.
O livro demorou a sair, mas finalmente a Campo das Letras publicou-o com ilustrações de Rogério Ribeiro.
Um livro de uma profundidade indizível e de uma simplicidade desarmante de um homem de quem tenho muitas saudades e de quem guardo grandes recordações.
Hoje, ao regressar do trabalho a pé – conseguimos despachar-nos às cinco da tarde da Rádio Bakhita pela primeira vez num ano – partilhava com a Cecy, a directora, que com o Mário aprendi a comunicar através da linguagem dos afectos.
Ia visitá-lo ao Hospital dos Capuchos onde estava internado por causa de uma pneumonia que o havia de levar. A certa altura já não podia falar, por estar entubado. Segurava-me na mão e sorria e eu também. E ficávamos assim entretidos a olhar um para o outro.
E quando a Alice o visitava eram impressionante ver a corrente de amor que circulava entre os dois. Uma experiência e amizade únicas.
Obrigado, Mário, pela tua fé e pela tua amizade. Obrigado, Alice, pelo teu carinho e preocupação. Obrigado pelo livro e também pelos chocolates!

8 de fevereiro de 2008

RÁDIO BAKHITA

P. Martin Ochaya, Secretário-Geral da Arquidiocese de Juba,
entrega à directora da estação, Ir. Cecília Sierra,
o bolo para a festa de anos da Rádio Bakhita
© JVieira

ANO UM

A Rádio Bakhita completa hoje um ano de emissões regulares. Começou a 8 de Fevereiro de 2007. Nessa altura estávamos no ar das 17h00 às 21h00. Os programas eram pré-gravados e a emissão levava uma eternidade a preencher.
Hoje estamos no ar das 7h00 às 13h00 e das 16h00 às 22h30. Parte da emissão é feita em directo com a colaboração activa dos ouvintes através do telefone ou telemóveis. Produzimos 30 programas diferentes por semana em inglês, árabe e algumas línguas locais. Os temas e os públicos-alvo são muito variados.
A apresentadora do «Juba Sunrise» costuma dizer que o programa é um momento agradável. Um momento que dura três horas!
Para celebrar o primeiro ano de vida, fizemos uma pequena festa com os funcionários e alguns amigos.
Evocamos o caminho feito: as dificuldades e as conquistas. Veio-me à mente uma imagem da Bíblia Judaica: o povo de Israel, depois de 40 anos a caminhar pelo deserto, diz que apesar do caminho feito os pés não lhes incharam nem as roupas se rasgaram. Porque Deus caminhou com eles.
Deus também caminhou connosco.
As peripécias foram muitas. Inconsistência no fornecimento de energia eléctrica, problemas técnicos relacionados com a delicadeza da tecnologia digital num ambiente muito quente, cheio de pó e de mãos pesadas… A formação e fidelização dos apresentadores e jornalistas. Mas conseguimos estar no ar todos os dias. Um feito.
Mas o mais importante foi o ambiente de família que conseguimos construir num espaço que é cada vez mais a nossa casa!
O ex-ministro da Informação, Dr. Samson Kwaje, disse em depoimento que um dia tinha o rádio ligado e pensava que estava a sintonizar a Voz da América. Afinal era Bakhita. Um cumprimento muito generoso.

6 de fevereiro de 2008

REFORÇOS

© JVieira

Desde 4 de Fevereiro que a redacção da Rádio Bakhita conta com dois reforços de monta: Paul Jimbo e Gladys Lanyero.
Trata-se de dois jornalistas que iniciaram o período de experiência de três meses.
Paul é queniano, tem 30 anos, é casado, e exerce há uma década a profissão de jornalista. Era o correspondente do «Sudan Mirror», um jornal sobre o Sul do Sudão, publicado em Nairobi e dirigido por um ex-missionário irlandês.
Gladys tem 23 anos, solteira e é do Uganda. Tem uma licenciatura em Jornalismo e uma universidade de Campala.
Agora já posso respirar um bocadinho, porque ambos são capazes de recolher, tratar e escrever notícias e editar textos.
Entretanto, o meu último colaborador – Milla – desapareceu sem deixar rasto. Era o sexto jornalista que trabalhava comigo. Pagava o seu salário a meias com o jornal local «The Juba Post». Uma semana depois, os editores do jornal descobriram que Milla foi para Cartum tentar encontrar um trabalho melhor.
Uma das dificuldades que encontro é fidelizas as pessoas. Investimos nelas e quando contamos com os seus serviços, partem para «parte incerta».
A vinda da Gladys e do Paul foram, de facto, uma grande prenda de anos!

1 de fevereiro de 2008

REFRACÇÕES


MENINOS DE TODAS AS CORES

Era uma vez um menino branco, chamado Miguel, que vivia numa terra de meninos brancos e dizia:
– É bom ser branco, porque é branco o açúcar, tão doce; porque é branco o leite, tão saboroso; porque é branca a neve, tão linda.
Mas certo dia o menino partiu numa grande viagem e chegou a uma terra onde todos os meninos são amarelos. Arranjou uma amiga, chamada Flor de Lótus que, como todos os meninos amarelos, dizia:
– É bom ser amarelo; porque é amarelo o Sol; e amarelo o girassol mais a areia amarela da praia.
O menino branco meteu-se num barco para continuar a sua viagem e parou numa terra onde todos os meninos são pretos. Fez-se amigo de um pequeno caçador, chamado Lumumba que, com os outros meninos pretos, dizia:
– É bom ser preto, como a noite; preto como as azeitonas; preto como as estradas que nos levam a toda a parte.
O menino branco entrou depois num avião, que só parou numa terra onde todos os meninos são vermelhos. Escolheu, para brincar aos índios, um menino chamado Pena de Águia. E o menino vermelho dizia:
– É bom ser vermelho; da cor das fogueiras; da cor das cerejas; e da cor do sangue bem encarnado.
O menino branco foi correndo mundo até uma terra onde todos os meninos são castanhos. Aí fazia corridas de camelo com um menino chamado Ali-Bábá, que dizia:
– É bom ser castanho; como a terra do chão, os troncos das árvores, é tão bom ser castanho como o chocolate.
Quando o menino voltou à sua terra de meninos brancos, dizia:
– É bom ser branco como o açúcar; amarelo como o Sol, preto como as estradas, vermelho como as fogueiras, castanho da cor do chocolate.
Enquanto, na escola, os meninos brancos pintavam em folhas brancas desenhos de meninos brancos, ele fazia grandes rodas com meninos sorridentes de todas as cores.

Luísa Ducla Soares em Audácia

31 de janeiro de 2008

DIRECTORA

© JVieira

Cecilia Sierra Salcido é a directora da Rádio Bakhita. Esta missionária comboniana nasceu no México há 40 anos e passou os últimos oito no Norte e no Sul do Sudão.
A Ir. Cecília, Cecy para os amigos, fez uma licenciatura em comunicação e jornalismo nos Estados Unidos e dirigiu os gabinetes de informação da arquidiocese de Cartum e da diocese de Wau.
Emtretanto, mudou-se para Juba e lançou-se com entusiasmo e dedicação no projecto da Rádio Bakhita. Primeiro, envolveu-se na selecção e formação do pessoal. Depois, há um ano que dirige a estação verificando se está ao nível dos desafios.
«O Sul do Sudão está numa fase de transição e a situação é deveras sensível», explica.
E acrescenta: «Como directora desta estação na capital do Sul do Sudão, uma das funções que desempenho com diligência é a supervisão dos tópicos e conteúdos dos programas. Sei que a firmeza e a sabedoria são elementos essenciais para enfrentar a situação complexa da região.» A Ir. Cecília reconhece que os desafios para gerir a Rádio Bakhita são muitos.
«A nossa estação está no ar há quase um ano e os funcionários e formandos esforçam-se por desenvolver o seu potencial entre as perturbações da inconsistência. Fornecimento instável de electricidade, insegurança e falta de estruturas adequadas numa cidade e num país em recuperação são outras barreiras», esclarece.
«A nossa audiência e proeminência na cidade crescem de dia para dia; e nas crises políticas e sociais em que a cidade de Juba se viu envolvida eu senti a responsabilidade e o poder que estão no processamento e carregamento de uma emissão, em carregar no botão e soltar a mensagem», confessa com o seu habitual sorriso aberto e luminoso.
Os desafios são muitos e o futuro parece assustador. Mas a Rádio Bakhita provou em quase um ano no ar – a 8 de Fevereiro completa 12 meses de emissão regular – que de facto afecta e efectua. Durante este tempo atestou que pode acelerar o processo de reconciliação, de desenvolvimento e de construção de paz numa região que vive sob a ameaça de um novo conflito.

MEDO MAIOR

© JVieira

O nosso medo mais profundo não é que sejamos inadequados. O nosso medo mais profundo é que nós somos poderosos sem limite. É a nossa luz, não a nossa escuridão que mais nos assusta. Perguntamos a nós próprios: Quem sou eu para ser brilhante, esplendoroso, talentoso, fabuloso? De facto, quem é que não o dever ser? És uma criança de Deus. Fazer-te pequeno não serve o mundo.
Não há nada de esclarecido em fazer-te pequeno para que as outras pessoas não se sintam inseguras à tua volta. Nós devemos brilhar como as crianças.
Nascemos para manifestar a glória de Deus que está dentro de nós. Não está só em alguns de nós, está em todos. E quando deixamos a nossa luz brilhar, inconscientemente permitimos a outras pessoas fazerem o mesmo.
Ao sermos libertados do nosso próprio medo, a nossa presença automaticamente liberta outros.
Marianne Williamson
em «Return To Love: Reflections on the Principles of A Course in Miracles»

30 de janeiro de 2008

PORTUGUÊS

Em Londres há um velho barbeiro, tipo conservador. Um dia, um florista vai lá cortar o cabelo. Depois do corte, quando vai pagar o barbeiro diz:
- Lamento, mas não posso aceitar o seu dinheiro. O que fiz foi um serviço à comunidade.
O florista ficou satisfeito e foi-se embora.
Na manhã seguinte, ao chegar a loja o barbeiro encontrou uma dúzia de flores e um cartão que dizia "Obrigado".
Um dia, um polícia vai lá cortar o cabelo. Depois do corte, quando vai pagar o barbeiro diz:
- Lamento, mas não posso aceitar o seu dinheiro. O que fiz foi um serviço à comunidade.
O polícia ficou satisfeito e foi-se embora.
Na manhã seguinte, ao chegar a loja o barbeiro encontrou uma dúzia de «doughnuts» e um cartão que dizia "Obrigado".
Um dia, um português vai lá cortar o cabelo. Depois do corte, quando vai pagar o barbeiro diz:
- Lamento, mas não posso aceitar o seu dinheiro. O que fiz foi um serviço à comunidade.
O português ficou satisfeito e foi-se embora.
Na manhã seguinte, ao chegar à loja, adivinha o que o barbeiro encontrou à porta? Uma dúzia de portugueses à espera para cortar o cabelo!!!

Obrigado, Anabela

18 de janeiro de 2008

ASFALTO

© Martina Santschi

Os primeiros dois quilómetros de asfalto em Juba abriram no sábado ao tráfego, um acontecimento relevante para uma cidade com 60 quilómetros de arruamentos estilo picada!
Metade da May Avenue, que liga a Assembleia Legislativa do Sul do Sudão à rotunda para o aeroporto, foi alcatroada. Na outra metade as obras decorrem a bom ritmo.
As obras – que se prolongam há mais de dois meses e deviam estar prontas no Natal – têm deixado os condutores de Juba à beira de um ataque de nervos.
Todos os dias têm que inventar percursos paralelos, porque a progressão dos trabalhos vai fechando alguns cruzamentos.
O tráfico é obrigado a circular pelas vias secundárias, cheias de buracos e por entre palhotas pondo em perigo os peões e a mecânica das viaturas.
May Avenue e a avenida do Aeroporto formam a espinha dorsal da rede viária de Juba.
Ah! Nestes dias tem chovido e algumas secções asfaltadas transformam-se em pequenas piscinas. A drenagem é um problema sério para os engenheiros nestas paragens.
As chuvas, por outro lado, fizeram baixar a temperatura. O que é sempre agradável no Equador!

15 de janeiro de 2008

QUÉNIA

«Vizinhos, não se preocupem. É só uma pequena desavença interna» by Gado

Ninguém previa que as eleições presidenciais e parlamentares do Quénia dessem no que deram: a vitória de Mwai Kibaki e a subsequente onda de violência que varreu o país de lés a lés.
Os quenianos foram às urnas a 27 de Dezembro de 2007. Dois dias depois, a Comissão Eleitoral do Quénia, suspendeu a contagem. Nessa altura, Raila Odinga, o candidato da oposição, tinha uma vantagem confortável sobre o presidente cessante Mwai Kibaki.
Quando a dita comissão anunciou os resultados finais, a 30 de Dezembro, Kibaki foi proclamado vencedor com cerca de 231 mil votos a mais que Odinga. Kibaki recebeu 4.584.721 votos e Odinga 4.352.993.
Observadores internacionais, especialmente da União Europeia, puseram em causa o sistema de contagem dos votos e a validade dos resultados.
Entretanto, o Quénia foi posto a ferro e fogo e numa semana quase 700 pessoas foram mortas, milhares feridas e 300 mil deslocadas.
As mediações têm sido muitas. O presidente da União Africa, o arcebispo Desmond Tutu, o ex-secretário geral da ONU, Kofi Annan, tentaram trazer os campos de Kibaki e Odinga para a mesa das negociações.
Em vão. Kibaki imediatamente assumiu o poder e propôs a Odinga um Governo de Unidade Nacional. Odinga, por seu turno, quer que Kibaki se demita e que o país vá a votos outra vez dentro de três meses sob o controlo da comunidade internacional.
Entretanto, a União Europeia anunciou que pode cortar nas ajudas ao Quénia como forma de protesto pelo modo como decorreram as eleições.

9 de janeiro de 2008

TRÊS ANOS DE PAZ

© JVieira

O Acordo Global de Paz – CPA na sigla em inglês, assinado pelo Governo de Cartum e o SPLA, o Exército de Libertação do Povo do Sudão, faz hoje três anos.
Três anos de paz para o Sul do Sudão depois de 21 anos de guerra civil com um balanço arrepiante: dois milhões de mortos e quatro milhões de deslocados, quase metade da população sulista.
O CPA, assinado em Naivasha – Quénia, a 9 de Janeiro de 2005, pôs termo à segunda guerra civil no sul e inaugurou um novo modelo político no Sudão: um país com dois sistemas.
O Norte, árabe e maioritariamente muçulmano, é governado pela Charia. O Sul, negro e cristão ou tradicional, é laico, governado por um governo semi-autónomo, com parlamento próprio, e segue a Lei Comum inglesa.
A paz, assinada há três anos, é contudo ainda muito frágil porque os protocolos mais quentes do CPA continuam à espera de implementação.
A fronteira que separava o norte do sul do Sudão a 1 de Janeiro de 1956, data da independência, ainda não foi demarcada por causa dos poços de petróleo. Os árabes querem puxá-la para baixo o mais que podem!
O estatuto e a fronteira do enclave de Abyei – território rico em petróleo ocupado por povos do Sul que os ingleses deslocar à força para norte da fronteira de 1956 – ainda não foram resolvidos e os cidadãos continuam sem administração civil, à espera que os dividendos da paz cheguem na forma de desenvolvimento.
Os militares do norte deviam ter abandonado o sul a 9 de Julho de 2007. Mas permaneceram junto aos poços do petróleo. O novo prazo de 31 de Dezembro para o deslocamento das forças também foi ignorado. Finalmente, antes de ontem decidiram partir e entregar a segurança da área às Unidades Integradas Conjuntas, formadas por militares do Norte e do Sul, como está previsto no CPA.
Por outro lado, a partilha dos dividendos do petróleo é tudo menos transparente. O Sul devia receber metade dos lucros da exploração do crude na sua área mas não tem maneira de verificar os dados que o Governo central lhe envia. E o orçamento é feito a partir dos dividendos do petróleo.
Finalmente, o recenseamento nacional tem sido adiado sucessivamente. Espera-se que venha a acontecer em Abril, a última data avançada pela respectiva comissão. Sem contagem da população não pode haver eleições – previstas para este ano, mas adiadas para 2009 – nem o referendo de 2011, em que os sulistas vão escolher entre a independência e o modelo actual de um estado, dois sistemas.
O protelar da execução do CPA levou o SPLM – Movimento de Libertação do Povo do Sudão –, a abandonar o governo de unidade nacional em Outubro, mergulhando o país numa grave crise política.
A comunidade internacional interveio, e o SPLM voltou ao governo a 28 de Dezembro depois de acertar com o Partido do Congresso Nacional – NCP em inglês – novas datas para a implementação dos protocolos em falta.
O Sul do Sudão viveu uma situação político-militar extremamente volátil durante os dois meses que o SPLM esteve fora do Governo de Cartum. O presidente do Sudão, Omar el Bashir, chegou mesmo a pedir às Forças de Defesa Popular – as milícias que apoiaram as tropas de Cartum durante a guerra civil no Sul – que reabrissem os campos de treino para receber mujahedin – guerreiros muçulmanos – para preparar qualquer eventualidade.
A pressão da comunidade internacional, encabeçada pelo presidente Bush, obrigou os parceiros do governo de unidade nacional a retomar o caminho do diálogo, da negociação e da governação conjunta.
Mas o espectro da guerra continua no ar. Uma guerra por procuração. Desde o Natal que membros de uma tribo árabe de pastores – os Misseriya – continuam a atacar as forças do SPLA no estado de Northern Bahr el-Ghazal com a desculpa de que as forças sulistas não lhes permitem levar o gado para as pastagens tradicionais a sul da fronteira durante a estação seca.
O Ministros dos Assuntos do SPLA, encarregado da defesa do Sul, disse no domingo numa conferência de imprensa que quer descobrir quem está a atacar as suas forças. Os atacantes usam cavalos, mas também pickups armados com metralhadoras pesadas. Pastores normalmente não têm acesso a esse tipo de equipamento militar, acrescentou.
O petróleo pode ser uma bênção, mas acaba por ser muitas vezes uma maldição. E o Sul do Sudão é rico em «ouro negro» que está a financiar uma autêntica revolução arquitectónica em Cartum.

8 de janeiro de 2008

AMIGOS

© JVieira

Talvez os sexos sejam mais parecidos do que pensamos … e então a grande renovação do nosso mundo consiste nisto: que o homem e a mulher, libertados de sentimentos falsos e aversões, possam unir-se como amigos, vizinhos, mais do que amantes – como irmãos e irmãs.

Rainer Maria Rilke

4 de janeiro de 2008

ANO NOVO

A celebração da passagem de ano foi mais do mesmo. Como na noite de Natal, a Cecilia e eu preparámos um «PowerPoint» para liderar a oração de acção de graças que fizemos. Canções, poemas, textos bíblicos, orações, silêncio, partilha. O título: 2007 um tempo para recordar, 2008 um tempo para começar de novo. A oração demorou uma hora e meia.
Depois da oração fizemos a ceia da passagem de ano. Estávamos as duas comunidades, um padre vizinho, um hóspede e uma militar americana nossa amiga.
A refeição foi simples: umas empadas, bolo, torrões de amendoim e de sésamo, bolachas, cerveja, refrigerantes. A americana trouxe duas garrafas de champanhe da sua terra para a meia-noite.
Depois dos abraços de Feliz Ano Novo partilhamos o desejo que cada um fez ao cair das doze badaladas – mais ou menos porque cada relógio estava acertado pelo próprio fuso horário!!! O meu desejo é óbvio: que em 2008 a redacção da Rede Católica de Rádios do Sudão se estabeleça e solidifique para não ter de estar sempre a começar de novo.
Celine Dion tem uma canção que retrata o que sinto neste momento. Chama-se «These are special times». O Natal e Ano Novo deste ano foram tempos especiais, que me deixaram extasiado e em paz. Um bom começo.
Estes dias também foram de trabalho extra. O jornalista com quem eu trabalho embora ainda não tivesse direito (porque é contratado) meteu férias e pôs-se a andar para o Uganda para estar com a família. O trabalho sobrou para mim, mas mesmo assim foi feito.

1 de janeiro de 2008

2008 ABENÇOADO


© JVieira

O SENHOR te abençoe e te guarde;
O SENHOR faça resplandecer o seu rosto sobre ti,
e tenha misericórdia de ti;
O SENHOR faça resplandecer o seu rosto sobre ti,
e tenha misericórdia de ti.
(Números 6: 24-26)

30 de dezembro de 2007

NATAL


O Natal deste ano foi uma longa celebração.
No dia 24, depois do jantar – um jantar normal – as duas comunidades reunimo-nos na capela para uma hora de oração com alguns amigos. Um momento tranquilo. Fomos guiados por um «powerpoint» que preparei com a Ir. Cecília, a directora da rádio. Acolhemos Jesus, recordámos outros natais em latitudes diferentes, rezamos pelas nossas famílias, pelo Sul do Sudão, pela paz.
Depois da oração, fizemos uma ceia de Natal na casa das irmãs. A Ir. Sandra fez um bolo – é uma óptima doceira –, a Ir. Domenica fez torrão de umas sementes locais, a Ir. Cecilia preparou «piña colada», as outras irmãs prepararam diferentes acepipes. A ceia foi um espaço de convívio e fraternidade. Houve também troca de presentes. O Menino Jesus foi bom para comigo: trouxe-me uma garrafa de tinto alentejano (Vinha do Monte). Como é que ele sabe que eu gosto da «pomada» alentejana?
Depois da ceia fomos à Missa do Galo: à paróquia ou à Sé. Eu fui à Sé com dois irmãos e desfrutei daquela hora e meia de oração comunitária, a meia-luz. Senti-me mesmo bem. Respirava uma serenidade e uma paz indizíveis.
De regresso a casa, encontrámos as ruas de Juba cheias de gente nova, vestidos para a festa, a passear na escuridão. Um fenómeno que também se repete na Páscoa. As as motorizadas a zumbir por todo o lado! Com pequenos choques de permeio.
No dia 25, a Ir. Cecília e eu fomos convidados a participar na festa de Natal da Selma – uma algarvia – e do Marc (australiano). Fomos depois do trabalho – porque a Rádio Bakhita não fecha!!! – e conhecemos gente interessante que trabalha para a ONU ou com ONG.
No dia seguinte, Skye – a correspondente da Reuters – convidou-nos para panquecas. Uma hora bem passada a conversar com novos amigos.
No dia 28 o pessoal da arquidiocese de Juba juntou-se com o arcebispo para o piquenique do Natal.
O sítio – Rejaf – é encantador: um bosque de mangueiras junto ao Nilo Branco.
O piquenique foi uma mistura de convívio, discursos, jogos, almoço…
O arcebispo Paolino Lukudu Loro disse que gostava que o pessoal da arquidiocese se sentisse feliz. Também revelou que o processo de paz que o Sul do Sudão está a viver é um desafio grande para a Igreja: alguns padres, irmãos e irmãs abandonaram o apostolado para trabalharem para o Governo ou organismos humanitários.
No fim do piquenique fez-se a geminação de comunidades – a comunidade gémea dos combonianos é um padre americano Maryknoll que vive do outro lado da rua e que celebra a missa e toma o pequeno almoço connosco – e foram eleitos os amigos do ano. A minha amiga chama-se Ir. Georgina Nyayath e pertence a uma congregação local.
Ah! Descobri que é seguro nadar no Nilo em Rejaf. Um padre que trabalhou na paróquia, disse-me que costumava nadar lá, que os crocodilos não chegam àquela parte. Já tenho onde passar as manhãs de sexta-feira, o meu dia de folga.
Rejaf – uma missão construída pelos combonianos nos anos trinta – fica a 14 quilómetros de Juba na outra margem do Nilo Branco.

25 de dezembro de 2007

EU, MENINA... E ELE

© JVieira

Eu, menina, sentado na calçada sob um sol envergonhado, observava a movimentação das pessoas em volta e tentava compreender o que ocorria.
– Que é o Natal? – indagava-me, em silêncio.
Eu, menina, ouvira falar que aquele era o dia em que o Menino Jesus, vinha deixar-nos as prendas... mas como poderia uma criança acabada de nascerfazer isso?
Perguntava-me eu em silêncio... e pensei que nessa noite não iria dormir. Ficaria ali ao relento esperando o Menino Jesus... e os meus presentes...
Até o podia ajudar! Como conseguiria Ele com tantos presentes, sim porque os miúdos são uns chatinhos, a pedir tanta coisa...
E eu, menina, concluía que não deveria ser isso o Natal.
Talvez fosse um dia especial, em que as pessoas abraçassem seus familiares e fossem mais cordiais umas com as outras. Talvez fosse o dia da fraternidade e do perdão.
– Mas, então por quê eu, aqui sentada, não recebo sequer um sorriso, e as pessoas correm apressadas de um lado para o outro, cheias de sacos e saquinhos, embrulhos e embrulhinhos – inquiria-me, perplexa.
– E por que trabalha a polícia no Natal?
E eu, menina, entendia que não devia ser assim...
Imaginava que talvez o Natal fosse um dia mágico em que as pessoas enchiam as igrejas em busca de Deus.
– Então, porque não saem de lá melhores do que entraram? – debatia-me, na ânsia de compreender aquela ocasião enigmática.
Via risos, mas eram gargalhadas que escondiam tanta tristeza e ódio, tanta amargura e sofrimento...
E eu, menina, mergulhada em tão profundas reflexões, vi aproximar-se um homem. Era um belo homem. Não era gordo nem magro, tão alto quanto baixo, nem branco nem preto, nem pardo, amarelo ou vermelho.
Era apenas um homem com olhos cor de ternura e um sorriso em forma de carinho que, numa voz com tom de afago, saudou-me:
– Olá, menina!
– Olá! – respondi, meio tímida. Achava impossível que alguém conseguisse ver-me ali, no meio da correria em que andavam...
E, num quase êxtase de admiração, vi-o acomodar-se a meu lado, na calçada, sob o sol envergonhado.
Eu, menina, na naturalidade de menina, aceitei-o como amigo num olhar. E atirei-lhe a pergunta que me inquietava e entristecia:
– O que é o Natal?
Ele, sorrindo ainda mais, respondeu-me, sereno:
– É o meu aniversário!
– O que dizes? O teu Aniversário? Então e o que andas por aqui a fazer? Porque não estás em casa onde estão os teus familiares?
– Essa – falou-me, apontando a multidão que corria – é a minha família.
Eu, menina, não compreendi.
– Também tu fazes parte da minha família... – acrescentou, aumentando a confusão.
– Não te conheço! – rebati.
– É por que nunca te falaram de mim. Mas eu conheço-te. E amo-te...
Estremeciam-me de emoção aquelas palavras, na minha fragilidade de menina.
– Deves estar triste! – comentei. – Estás só no dia do teu aniversário...
– Neste momento estou contigo! – respondeu-me, meneando a cabeça negativamente.
E conversamos. Uma conversa de poucas palavras, muito silêncio, muitos olhares e um inefável transbordar de sentimentos, naquela prece que fazia arder o coração e a própria alma.
O sol entregou o céu às estrelas.
E conversamos. Eu, menina, e Ele.
E Ele falava-me, e eu amava-o. E eu absorvia-o. E eu sentia-o.
Eu, menina: cordas. Ele: artista. E fez-se a melodia entre nós!...
E eu, menina, sorri...
Quando a noite cedeu vez à madrugada, enquanto piscavam as luzes que adornavam as casas, Ele ergueu-se e pressenti que era a despedida. Suspirava, de alma renovada.
Abracei-o pela cintura, dizendo:
– Toma o meu presente... Feliz aniversário!
Ergueu-me no ar, com seus braços fortes-fracos, tão fortes quanto a paz, e disse-me:
– Presenteia-me compartilhando este abraço com a minha família, que também é tua... Ama-os com respeito. Respeita-os com ternura. Sê terno com carinho. Acaricia-os com justeza. Julga-os com amor... E tem um feliz Natal!
Porque não quisesse vê-lo ir-se embora, saí a correr pela rua. Abandonei-o, levando-o para sempre no mais íntimo do coração. Fui em busca de braços que aceitassem os meus...
E eu, menina, nunca mais o vi. Mas aquele Amigo da noite de Natal: Jesus... ficou sempre o MEU AMIGO!
E eu, menina, sorri...

24 de dezembro de 2007

BOAS FESTAS

Moses Wanjiuki © JVieira

Esta é a voz do meu amado; ei-lo aí, que já vem.
O meu amado fala e me diz: «Levanta-te, meu amor, e vem. O tempo de cantar chega. Levanta-te, meu amor, e vem. Mostra-me a tua face, faz-me ouvir a tua voz, porque a tua voz é doce, e a tua face graciosa.»
Cântico dos Cânticos, 2, 8. 10. 12b. 13-14)

Neste Natal Jesus convida-te a ires até Ele, porque és @ seu/sua amad@. Aceita o desafio e vai! Acolhe-o e ama-o no teu próximo!
Feliz Natal cheio da ternura de Deus-Menino.

22 de dezembro de 2007

SUL DO SUDÃO EM NÚMEROS

Os resultados de um levantamento-piloto de 100 famílias do Sul do Sudão – dez agregados por estado – apresentam uma imagem chocante da saúde na região.
102 crianças morrem em cada 1000 partos.
13,5 por cento das crianças do Sul do Sudão morrem antes de chagarem aos cinco anos.
2,7 por cento das crianças estão totalmente imunizadas através de vacinas.
32,98 por cento da população sofre de mal nutrição.
2054 mulheres morrem em cada 100 mil partos, a taxa de mortalidade maternal mais elevada do mundo.
Em média cada família está a cerca de 45 minutos de um ponto de água.
13,1 por cento da população tem acesso a água tratada.
16 por cento das crianças frequentam a escola primária e 1,9 por cento completam-na.
16,7 por cento das mulheres casam antes dos 15 anos e 40,7 por cento antes dos 18.
42,4 por centos dos homens são polígamos.

ANGEL CORAZÓN

© JVieira

The Angel of the Lord was sent to me!
She does not have wings
but her heart flies
and makes mine fly too
with her inspiration and radiance
in a hug of wonderment and belonging.
I called my Angel Corazón.
I was living aloft
and God sent Corazón
to pull me down
with the gravity of her pro–vocations
and the weight of her suffered wisdom.
We built our holy ground
by the mighty river
and there we share our lives
over a beer.
We have walked hand in hand,
heart in heart,
the path of disclosure and acceptance,
of vulnerability.
My Angel awakened my tenderness,
rekindled my endearment and attention,
warmed up my heart,
brought me peace and self-acceptance.
My Corazón made me present
and available
and I became an Angel too.
I love Corazón,
my guardian Angel and my Sister.
Yet, my Angel is not mine.
She has other hearts to tender
and I am thankful for that too.
Angel Corazón,

Amorcito,
is God’s blessing
and his loving gift.
Shukran!
Cheers, Great Mate!
Cheers, Compañera.


Bishoftu - Ethiopia, December 14, 2007
Tahesas 4, 2000 ALH

LEITURAS

JESUS DE NAZARÉ

Bento XVI apresenta no primeiro volume «Jesus de Nazaré» a sua «busca pessoal pelo rosto do Senhor.»
O Papa escreve que Jesus é importante porque trouxe Deus.
Pegando nas narrativas evangélicas e cruzando-as com outros textos bíblicos através do método de exegese canónica, Bento XVI aborda alguns temas fundamentais da vida de Jesus: baptismo, tentações, Evangelho do Reino de Deus, Sermão da Montanha, o Pai-nosso, discípulos, a mensagem das parábolas, as imagens principais do Evangelho de João, a confissão de Pedro e a transfiguração e finalmente, a identidade de Jesus.
O livro cruza textos, debate opiniões, explora questões relevantes de outros saberes sobre o mistério de Jesus.
Apesar de ser de leitura algo difícil – não é fácil a um teólogo abordar questões de técnicas exegese – a obra é uma reflexão preciosa sobre o Jesus histórico.

Aguarda-se agora o segundo volume que, entre outros assuntos, promete abordar as narrativas da infância de Jesus.

19 de dezembro de 2007

ETIÓPIA

Missa em rito etíope © JVieira

Os 12 dias que passei na Etiópia foram de uma bênção. Revi amigos, revisitei lugares que me dizem muito, descansei, rezei e regressei retemperado.
A primeira impressão ao chegar a Adis Abeba é que a cidade se tornou num enorme estaleiro tantas são as obras de vulto em construção: edifícios, bairros sociais, fábricas, ruas… Uma diferença abissal da realidade que encontrei em 1993. Nessa altura, a capital da Etiópia era uma cidade decrépita feita de zinco enferrujado e com as ruas todas esburacadas.
E o serviço público também melhorou muito. Antes para renovar a carta de condução etíope precisava de uma manhã de guiché em guiché. Era sempre um problema encontrar a pasta com os meus documentos, porque não é fácil transcrever nomes estrangeiros em caracteres amáricos. Agora está tudo informatizado e em meia hora tinha o documento renovado de novo na mão!
O retiro foi uma experiência rica. Durante uma semana os 13 participantes convivemos com os textos de Isaac de Nínive, um monge do século VII.
O tema do retiro foi a luta que cada um de nós trava para viver a vocação cristã e nos transformarmos em epifania do Amor de Deus para quem connosco convive.
A frase que mais me marcou foi a definição de contemplação: não é êxtase mas «instasys», uma jornada ao mais profundo de nós mesmos – onde Deus habita – e não fora de nós. Uma intuiçaõ interessante.
O local do retiro – Galilee Centre – é um lugar especial junto ao lago Babu Gaya, cheio de flores e pássaros exóticos. Aí fez muitos retiros, encontros profundos com a minha realidade pessoal e com outras pessoas – que recordei!
Em Babu Gaya, assisti a um fenómeno curioso: uma manhã muitos peixes nadavam à tona da água de barriga para cima. Foi a bênção para os pescadores de ocasião: apanhavam «tellapia» à mão cheia.
Pensei que alguém detonou alguma carga explosiva no lago para atordoar os peixes. Mas um vizinho explicou que uma vez por ano os peixes vêm à tona por causa do frio!
Uma explicação que não satisfez os meus colegas de natação. Nessa tarde nadei sozinho, porque os três padres e a irmã que me acompanhavam ao banho diário, recearam que tivessem posto algum produto no lago para apanhar os peixes.
O retiro foi também um contacto novo com a tradição litúrgica ortodoxa. No Sul do país – onde trabalhei como missionário durante quase oito anos – usamos a liturgia latina traduzida na língua local. A missa (dia sim dia não) e a oração da tarde eram celebradas no rito etíope em inglês. Uma linguagem bem diferente, colorida e cheia de incenso e de pedidos de perdão pelos pecados.
Como não há desertos sem oásis, duas noites fui beber uma cerveja com uma missionária e um missionário meus amigos. A minha estada era curta e foi a única maneira de celebrarmos a amizade e trocarmos informação sobre o que temos feito.
Em Adis Abeba, participei na festa de 60 anos de vida missionária da Ir. Bona, uma comboniana italiana que se repartiu pelo Líbano, Israel e o povo sidama da Etiópia. Uma mulher cheia de energia – apesar dos 87 anos – e com um sorriso acolhedor.
Ah! Para quem está habituado ao calor e ao pó, na Etiópia fazia bastante frio em Dezembro. Quando cheguei ao aeroporto, às oito da noite, as pessoas vestidas com casacões pesados ficavam a olhar para mim intrigadas porque vinha com uma T-shirt fina e chinelos. Mas não sentia o frio, porque o corpo ainda estava cheio do calor de Juba.
Contudo, a primeira coisa que fiz quando cheguei a Galilee Centre foi ir ao mercado local comprar uma camisola. Como a língua da área pertence à família oromo, desenrasquei-me com o guji que ainda recordo. As pessoas achavam castiço um estrangeiro falar oromo e não saber palavra de amarico – a língua comum na Etiópia.
Agora estou de volta a Juba. Mais descansado e recauchutado para continuar a enfrentar os desafios que o projecto da rádio nos continua a colocar – sobretudo a fidelização dos jornalistas que trabalham comigo!
Mas é mesmo bom estar de volta a casa!

5 de dezembro de 2007

ATÉ JÁ


Lago Babu Gaya Debre Zeit Etiópia © JVieira

Durante os próximos 12 dias estou no lago Babo Gaya (o ancião do cachibo), na Etiópia, em retiro. Retomarei as postagens logo que regressar a Juba. Obrigado pela visita. Também rezo por si!

AMOR | DOR

Também o « sim » ao amor é fonte de sofrimento, porque o amor exige sempre expropriações do meu eu, nas quais me deixo podar e ferir. O amor não pode de modo algum existir sem esta renúncia mesmo dolorosa a mim mesmo, senão torna-se puro egoísmo, anulando-se deste modo a si próprio enquanto tal.
Bento XVI em «Spe Salvi», Nº 38

2 de dezembro de 2007

AMOR

Não é a ciência que redime o homem. O homem é redimido pelo amor. Isto vale já no âmbito deste mundo. Quando alguém experimenta na sua vida um grande amor, conhece um momento de «redenção» que dá um sentido novo à sua vida. Mas, rapidamente se dará conta também de que o amor que lhe foi dado não resolve, por si só, o problema da sua vida. É um amor que permanece frágil. Pode ser destruído pela morte. O ser humano necessita do amor incondicionado. Precisa daquela certeza que o faz exclamar: «Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor» (Rom 8,38-39). Se existe este amor absoluto com a sua certeza absoluta, então – e somente então – o homem está «redimido», independentemente do que lhe possa acontecer naquela circunstância. É isto o que se entende, quando afirmamos: Jesus Cristo «redimiu-nos». Através d'Ele tornamo-nos seguros de Deus – de um Deus que não constitui uma remota «causa primeira» do mundo, porque o seu Filho unigénito fez-Se homem e d'Ele pode cada um dizer: «Vivo na fé do Filho de Deus, que me amou e Se entregou a Si mesmo por mim» (Gal 2,20).
Bento XVI em «Spe Salvi», nº 26

30 de novembro de 2007

Santa Bakhita


UM MODELO DE ESPERANÇA

Santa Bakhita é um exemplo moderno de esperança e um modelo de encontro com Deus, escreveu o Papa na sua última encíclica.
Bento XVI afirma na carta encíclica «
Spe Salvi» - «Na esperança fomos salvos», publicada hoje no Vaticano, que Santa Bakhita é um exemplo contemporâneo de vida cristã.
«Josefina
Bakhita, uma africana canonizada pelo Papa João Paulo II [o] exemplo de uma santa da nossa época pode, de certo modo, ajudar-nos a entender o que significa encontrar pela primeira vez e realmente este Deus», escreve o Papa.
Bento XVI faz um breve resumo da vida de Santa Bakhita para explicar como a escrava do Darfur se tornou em santa e exemplo de esperança.
O papa escreve que quando Bakhita foi para Itália, descobriu em Jesus um novo patrão, que a libertou e ela sentiu necessidade de partilhar a sua experiência através de algumas missões em que participou.
«A libertação recebida através do encontro com o Deus de Jesus Cristo, sentia que devia estendê-la, tinha de ser dada também a outros, ao maior número possível de pessoas», explica Bento XVI.
E conclui o Papa: «A esperança, que nascera para ela e a « redimira », não podia guardá-la para si; esta esperança devia chegar a muitos, chegar a todos.»
A encíclica «Spe Salvi» foi publicada hoje em oito línguas: latim, português, inglês, italiano, alemão, espanhol, polaco e francês.
O documento está dividido em 50 parágrafos e tem 40 citações.
«Spe Salvi» é a segunda carta encíclica publicada por Bento XVI. Há dois anos o papa tinha escrito «Deus Charitas Est», Deus é amor.

22 de novembro de 2007

HOSPITAL DO SENHOR

Fui ao Hospital do Senhor fazer um check-up de rotina e constatei que estava doente.
Quando Jesus mediu a minha pressão, verificou que estava em baixa de TERNURA.
Ao medir a temperatura, registrou 40º de EGOISMO.
Fiz um eletrocardiograma e foi diagnosticado que precisava de uma PONTE de AMOR, pois a minha veia estava bloqueada e não estava a abastecer o meu CORAÇÃO VAZIO.
Passei pela ortopedia, pois estava com dificuldade de andar lado a lado com o meu irmão, e não consegui abraçá-lo por ter fracturado o braço ao tropeçar na minha VAIDADE.
Constatou-se Miopia, pois não conseguia enxergar além das APARÊNCIAS.
Queixei-me de não poder ouví-lo e diagnosticou bloqueio em decorrência das PALAVRAS VAZIAS do dia-a-dia.
Obrigado SENHOR, por não me teres cobrado a consulta, pela tua grande MISERICÓRDIA. Prometo, ao sair daqui, somente usar Remédios Naturais, que me indicaste e que estão no receituário do TEU EVANGELHO.
Vou tomar, diariamente, ao levantar, CHÁ DE AGRADECIMENTO; ao chegar ao trabalho vou beber uma colher de sopa de BOM-DIA e, de hora em hora, um comprimido de PACIÊNCIA com um copo de HUMILDADE.
Ao chegar a casa, SENHOR, vou tomar diariamente uma injeção de AMOR e ao deitar duas cápsulas de CONSCIÊNCIA TRANQUILA.
Agindo assim, tenho a certeza que não ficarei mais doente e todos os dias serão de CONFRATERNIZAÇÃO E SOLIDARIEDADE.
Prometo prolongar este tratamento preventivo por toda a minha vida, para que, quando me chamares, que seja por MORTE NATURAL.
Obrigado, Senhor !!!

Obrigado, Anabela

NOME


21 de novembro de 2007

ALTA TEMPERATURA

O presidente do Sudão, Omar Hassan al-Bashir, pediu às Popular Defense Forces (PDF, as Forças de Defesa Popular) no sábado para treinarem «mujahideen» (combatentes muçulmanos) «não por causa da guerra, mas para estarem preparados para qualquer eventualidade.»
As PDF são milícias pró-Cartum que praticaram crimes contra civis (massacres e violações em massa) durante a guerra civil que terminou em 2005.
Pagan Amun, Secetário-Geral do Sudan People’s Liberation Movement (SPLM, Movimento de Libertação do Povo do Sudão, no poder no Sul do Sudão) respondeu à letra e disse que o SPLA (as forças armadas do sul) se encontra em mobilização geral e que está 100 vezes mais forte.
O duelo - até agora de palavras - entre os dois parceiros principais do governo de unidade nacional está a atingir proporções assustadoras desde que o SPLM abandonou o Governo Nacional em Outubro como protesto pela não implementação do Acordo Global de Paz (CPA na sigla inlesa).
Desta vez, o pomo da discórdia é o enclave de Abyei. A área, rica em petróleo, devia pertencer ao sul, de acordo com as conclusões da Comissão de Fronteiras de Abyei.
Os árabes não querem largar mão do petróleo de Abyei e de outras zonas de fronteira que continuam a ser ocupadas pelas forças armadas do norte, em violação flagrante do CPA.

15 de novembro de 2007

ABRAÇO

© JVieira

De repente me deu vontade de um abraço...
Uma vontade de entrelaço,
de proximidade...
de amizade, sei lá...
Talvez um aconchego,
que enfatize a vida e amenize as dores,
Deu vontade de poder rever saudade
de um abraço.
Só sei que me deu
vontade desse abraço.
Vinicius de Moraes

14 de novembro de 2007

DARFUR

GRUPOS ADEREM AO PROCESS DE UNIFICAÇÃO EM JUBA

Quatro grupos rebeldes do Darfur e seis indivíduos decidiram unificar-se sob a designação Sudan Liberation Movement/Army.
Na terça-feira, Sudan Liberation Movement/Army, Justice and Equality Movement – Field Revolutionary Command, Democratic Popular Front e Sudanese Revolutionary Front assinaram em Juba a «Carta de Unificação».
Numa nota à imprensa, nove líderes dos quatro grupos signatários dizem que os grupos vão-se unificar sob a designação Sudan Liberation Movement/Army, estabelecer uma comissão especial para iniciar e conduzir o processo de unificação e dissolver todas as organizações existente.
Hoje, seis dirigentes da facção A-Khamis do Sudan Liberation Movement/Army decidiram abandonar todos os seus títulos políticos e militares e unirem-se ao processo de unificação entre os grupos do Darfur a decorrer em Juba, no Sul do Sudão.
«[Nós acreditamos] que na unidade está a nossa força porque a unidade é a base para qualquer actividade política, social, humanitária e de desenvolvimento», os signatários escreveram numa nota distribuída à imprensa esta tarde.
O documento condena «mortes em massa, violações e genocídio perpetrados pelo Governo do National Congress Party dirigido por El-Bashir.»
O processo de unificação de Juba, mediado pelo Movimento de Libertação do Povo do Sul do Sudão (SPLM na sigla inglesa), pretende unir as muitas facções do Darfur antes de as conversações de paz recomeçarem na cidade Líbia de Sirte, em Dezembro.

7 de novembro de 2007

REFRACÇÕES


A CRIANÇA QUE VIA ESTRELAS

Era noite! Estava cansada de mais um dia de aulas, estudo, agitação e rotinas. Fiz os deveres, fui ao computador e apressei-me para ir para a cama. Tomei banho, lavei os dentes e vesti-me.
Já na cama, fechei os olhos e rapidamente se apagaram em mim todos os pensamentos.
Entrei num mundo, o meu mundo.
Tudo era claro. Ao longe via um fundo coberto de cores calmas: amarelo, cor-de-rosa bebé, azul bebé, cor-de-laranja.
Existia também uma quantidade infinita de flores e plantas nunca vistas. Talvez fossem plantas imaginárias que criamos no âmbito de uma ilusão!
De repente – e para meu espanto – encontrei uma criança que olhava o céu e em pleno dia dizia ver as estrelas.
Reparei também que estava rodeada de lindas borboletas que pareciam fazê-la voar.
Pensei: mas se este é um sitio meu que faz esta criança de pele clara e com a cara coberta de pintinhas aqui? Depressa afastei este pensamento e desatei a falar com ela. Estranhamente não tive curiosidade de saber quem era. Falámos de sonhos e de medos. Que pensamentos tão controversos, mas que nos elucidaram tanto.
– Fala de ti!, pedi.
– Pouco tenho a falar… Sabes bem que me conheces!
Fiquei intrigada com esta resposta, mas nem liguei muito. Afinal era uma criança e o que me poderia ensinar ela?
Como em sufoco ela diz-me:
– Na verdade estou aqui, porque existem coisas das quais já não te lembras. São passado mas constituem o teu presente e farão parte do teu futuro. Lembras-te do dia em que entraste para a escola e daquilo que sentiste; do orgulho que por tempos tiveste e voltaste a ter pelo teu pai; da alegria que exibiste quando soubeste que ias ter o teu primeiro primo; do que sentiste no primeiro dia no 5.º ano ao conhecer uma das pessoas mais importantes da tua vida; do que sentias de todas as vezes que chegavas a casa e Ela estava à tua espera; do orgulho que exibes pela tua mãe; de quão feliz o teu tio te faz; de quando chamaste pela primeira vez mana àquela que vês como melhor amiga; do dia em que te uniste firmemente à Cátia e à Ana; da leveza que sentes ao ouvir as músicas daqueles que bem conheces e que tanto te identificas; da adrenalina que sentes ao entrar no Estádio; do orgulho, esperança e vontade que sentes perto dos teus novos amigos; de todos aqueles que NOS fazem felizes próxima ou afastadamente…
Foi aqui que a interrompi!
– Nós? Mas afinal quem és tu?
– Eu? Sou a relação entre ti e os teus pensamentos mais puros, que a certo momento te viu sem eira nem beira e decidiu falar-te daquilo que eras, daquilo que era, daquilo que és, daquilo que sou, daquilo que fomos e daquilo que somos. Lembras-te do dia em que conseguiste ver as estrelas?
Foi então que percebi que as crianças são o relógio do mundo e quando já não há rumo possível, elas resolvem o problema acendendo a luz.
Carla Pereira

3 de novembro de 2007

SKYE

© JVieira

Skye Wheeler é a correspondente da Reuters no Sul do Sudão.
Nasceu no Quénia de um casal inglês.
É formada em filosofia, deu aulas de inglês durante algum tempo nas montanhas Nubas, Sudão, e acabou por se render ao jornalismo.
Skye é a minha jornalista favorita em Juba. Pela dedicação e pelo profissionalismo com que investiga e a escreve as suas histórias. E têm sido muitas distribuídas pela Reuters e pelo portal Gurtong que gere.
Usava uma mobilete para se deslocar, desafiando o pó, os buracos, o calor, a chuva.
Um dia o motor parou, cansado. Comprou uma mota, a mítica «Senke» que é montada a RD Congo e que enxameia as ruas de Juba.
Dois ou três dias depois fomos ao aeroporto cobrir a chegada de dois ministros de uma reunião importante da Etiópia. Durante a conferência de imprensa, roubaram-lhe a «Senke». Teve que gastar mais 700 dólares para comprar outra. Chama-lhe Mula. Uma mula obediente. Caiu algumas vezes com a mobilete, mas tem-se dado bem com a Mula.
Skye e eu somos os únicos jornalistas estrangeiros em Juba. Por isso, estabeleceu-se entre nós alguma cumplicidade que deu origem a uma bonita amizade. Partilhamos informações, contactos, alertas. Quando nos encontramos na cobertura de algum acontecimento, enquanto esperamos costumamos conversar sobre o que vivemos, o que sentimos, o que vimos. E a gente aqui espera mesmo. As conferências de imprensa costumam começar com uma ou mais horas de atraso.
O último encontro do presidente do governo do Sul do Sudão, Gen. Salva Kiir Myardit, com os jornalistas então foi o máximo.
Convocaram-nos para estarmos às 11h00 no ministério da Informação. Quando lá chegámos, disseram que a conferência de imprensa seria às 14h30 no Home and Way, o lugar mais chique de Juba.
Entretanto, um funcionário da presidência apareceu com um aviso público para ser divulgado pela rádio a dizer que a conferência estava marcada para a Assembleia Legislativa. Lá informaram-nos que seria às 17h00, mas que tínhamos que estar sentados no parlamento às 16h30.
Salva Kiir acabou por fazer uma curta declaração eram quase sete da tarde a dizer que o Sul não ia voltar à guerra com o Norte e que a actual crise política se havia de resolver quando os árabes decidissem começar a cumprir à risca o Acordo Compreensivo de Paz.
Estivemos todo o dia «presos» ao presidente para saber que as coisas se mantinham como estavam!