31 de janeiro de 2008

DIRECTORA

© JVieira

Cecilia Sierra Salcido é a directora da Rádio Bakhita. Esta missionária comboniana nasceu no México há 40 anos e passou os últimos oito no Norte e no Sul do Sudão.
A Ir. Cecília, Cecy para os amigos, fez uma licenciatura em comunicação e jornalismo nos Estados Unidos e dirigiu os gabinetes de informação da arquidiocese de Cartum e da diocese de Wau.
Emtretanto, mudou-se para Juba e lançou-se com entusiasmo e dedicação no projecto da Rádio Bakhita. Primeiro, envolveu-se na selecção e formação do pessoal. Depois, há um ano que dirige a estação verificando se está ao nível dos desafios.
«O Sul do Sudão está numa fase de transição e a situação é deveras sensível», explica.
E acrescenta: «Como directora desta estação na capital do Sul do Sudão, uma das funções que desempenho com diligência é a supervisão dos tópicos e conteúdos dos programas. Sei que a firmeza e a sabedoria são elementos essenciais para enfrentar a situação complexa da região.» A Ir. Cecília reconhece que os desafios para gerir a Rádio Bakhita são muitos.
«A nossa estação está no ar há quase um ano e os funcionários e formandos esforçam-se por desenvolver o seu potencial entre as perturbações da inconsistência. Fornecimento instável de electricidade, insegurança e falta de estruturas adequadas numa cidade e num país em recuperação são outras barreiras», esclarece.
«A nossa audiência e proeminência na cidade crescem de dia para dia; e nas crises políticas e sociais em que a cidade de Juba se viu envolvida eu senti a responsabilidade e o poder que estão no processamento e carregamento de uma emissão, em carregar no botão e soltar a mensagem», confessa com o seu habitual sorriso aberto e luminoso.
Os desafios são muitos e o futuro parece assustador. Mas a Rádio Bakhita provou em quase um ano no ar – a 8 de Fevereiro completa 12 meses de emissão regular – que de facto afecta e efectua. Durante este tempo atestou que pode acelerar o processo de reconciliação, de desenvolvimento e de construção de paz numa região que vive sob a ameaça de um novo conflito.

MEDO MAIOR

© JVieira

O nosso medo mais profundo não é que sejamos inadequados. O nosso medo mais profundo é que nós somos poderosos sem limite. É a nossa luz, não a nossa escuridão que mais nos assusta. Perguntamos a nós próprios: Quem sou eu para ser brilhante, esplendoroso, talentoso, fabuloso? De facto, quem é que não o dever ser? És uma criança de Deus. Fazer-te pequeno não serve o mundo.
Não há nada de esclarecido em fazer-te pequeno para que as outras pessoas não se sintam inseguras à tua volta. Nós devemos brilhar como as crianças.
Nascemos para manifestar a glória de Deus que está dentro de nós. Não está só em alguns de nós, está em todos. E quando deixamos a nossa luz brilhar, inconscientemente permitimos a outras pessoas fazerem o mesmo.
Ao sermos libertados do nosso próprio medo, a nossa presença automaticamente liberta outros.
Marianne Williamson
em «Return To Love: Reflections on the Principles of A Course in Miracles»

30 de janeiro de 2008

PORTUGUÊS

Em Londres há um velho barbeiro, tipo conservador. Um dia, um florista vai lá cortar o cabelo. Depois do corte, quando vai pagar o barbeiro diz:
- Lamento, mas não posso aceitar o seu dinheiro. O que fiz foi um serviço à comunidade.
O florista ficou satisfeito e foi-se embora.
Na manhã seguinte, ao chegar a loja o barbeiro encontrou uma dúzia de flores e um cartão que dizia "Obrigado".
Um dia, um polícia vai lá cortar o cabelo. Depois do corte, quando vai pagar o barbeiro diz:
- Lamento, mas não posso aceitar o seu dinheiro. O que fiz foi um serviço à comunidade.
O polícia ficou satisfeito e foi-se embora.
Na manhã seguinte, ao chegar a loja o barbeiro encontrou uma dúzia de «doughnuts» e um cartão que dizia "Obrigado".
Um dia, um português vai lá cortar o cabelo. Depois do corte, quando vai pagar o barbeiro diz:
- Lamento, mas não posso aceitar o seu dinheiro. O que fiz foi um serviço à comunidade.
O português ficou satisfeito e foi-se embora.
Na manhã seguinte, ao chegar à loja, adivinha o que o barbeiro encontrou à porta? Uma dúzia de portugueses à espera para cortar o cabelo!!!

Obrigado, Anabela

18 de janeiro de 2008

ASFALTO

© Martina Santschi

Os primeiros dois quilómetros de asfalto em Juba abriram no sábado ao tráfego, um acontecimento relevante para uma cidade com 60 quilómetros de arruamentos estilo picada!
Metade da May Avenue, que liga a Assembleia Legislativa do Sul do Sudão à rotunda para o aeroporto, foi alcatroada. Na outra metade as obras decorrem a bom ritmo.
As obras – que se prolongam há mais de dois meses e deviam estar prontas no Natal – têm deixado os condutores de Juba à beira de um ataque de nervos.
Todos os dias têm que inventar percursos paralelos, porque a progressão dos trabalhos vai fechando alguns cruzamentos.
O tráfico é obrigado a circular pelas vias secundárias, cheias de buracos e por entre palhotas pondo em perigo os peões e a mecânica das viaturas.
May Avenue e a avenida do Aeroporto formam a espinha dorsal da rede viária de Juba.
Ah! Nestes dias tem chovido e algumas secções asfaltadas transformam-se em pequenas piscinas. A drenagem é um problema sério para os engenheiros nestas paragens.
As chuvas, por outro lado, fizeram baixar a temperatura. O que é sempre agradável no Equador!

15 de janeiro de 2008

QUÉNIA

«Vizinhos, não se preocupem. É só uma pequena desavença interna» by Gado

Ninguém previa que as eleições presidenciais e parlamentares do Quénia dessem no que deram: a vitória de Mwai Kibaki e a subsequente onda de violência que varreu o país de lés a lés.
Os quenianos foram às urnas a 27 de Dezembro de 2007. Dois dias depois, a Comissão Eleitoral do Quénia, suspendeu a contagem. Nessa altura, Raila Odinga, o candidato da oposição, tinha uma vantagem confortável sobre o presidente cessante Mwai Kibaki.
Quando a dita comissão anunciou os resultados finais, a 30 de Dezembro, Kibaki foi proclamado vencedor com cerca de 231 mil votos a mais que Odinga. Kibaki recebeu 4.584.721 votos e Odinga 4.352.993.
Observadores internacionais, especialmente da União Europeia, puseram em causa o sistema de contagem dos votos e a validade dos resultados.
Entretanto, o Quénia foi posto a ferro e fogo e numa semana quase 700 pessoas foram mortas, milhares feridas e 300 mil deslocadas.
As mediações têm sido muitas. O presidente da União Africa, o arcebispo Desmond Tutu, o ex-secretário geral da ONU, Kofi Annan, tentaram trazer os campos de Kibaki e Odinga para a mesa das negociações.
Em vão. Kibaki imediatamente assumiu o poder e propôs a Odinga um Governo de Unidade Nacional. Odinga, por seu turno, quer que Kibaki se demita e que o país vá a votos outra vez dentro de três meses sob o controlo da comunidade internacional.
Entretanto, a União Europeia anunciou que pode cortar nas ajudas ao Quénia como forma de protesto pelo modo como decorreram as eleições.

9 de janeiro de 2008

TRÊS ANOS DE PAZ

© JVieira

O Acordo Global de Paz – CPA na sigla em inglês, assinado pelo Governo de Cartum e o SPLA, o Exército de Libertação do Povo do Sudão, faz hoje três anos.
Três anos de paz para o Sul do Sudão depois de 21 anos de guerra civil com um balanço arrepiante: dois milhões de mortos e quatro milhões de deslocados, quase metade da população sulista.
O CPA, assinado em Naivasha – Quénia, a 9 de Janeiro de 2005, pôs termo à segunda guerra civil no sul e inaugurou um novo modelo político no Sudão: um país com dois sistemas.
O Norte, árabe e maioritariamente muçulmano, é governado pela Charia. O Sul, negro e cristão ou tradicional, é laico, governado por um governo semi-autónomo, com parlamento próprio, e segue a Lei Comum inglesa.
A paz, assinada há três anos, é contudo ainda muito frágil porque os protocolos mais quentes do CPA continuam à espera de implementação.
A fronteira que separava o norte do sul do Sudão a 1 de Janeiro de 1956, data da independência, ainda não foi demarcada por causa dos poços de petróleo. Os árabes querem puxá-la para baixo o mais que podem!
O estatuto e a fronteira do enclave de Abyei – território rico em petróleo ocupado por povos do Sul que os ingleses deslocar à força para norte da fronteira de 1956 – ainda não foram resolvidos e os cidadãos continuam sem administração civil, à espera que os dividendos da paz cheguem na forma de desenvolvimento.
Os militares do norte deviam ter abandonado o sul a 9 de Julho de 2007. Mas permaneceram junto aos poços do petróleo. O novo prazo de 31 de Dezembro para o deslocamento das forças também foi ignorado. Finalmente, antes de ontem decidiram partir e entregar a segurança da área às Unidades Integradas Conjuntas, formadas por militares do Norte e do Sul, como está previsto no CPA.
Por outro lado, a partilha dos dividendos do petróleo é tudo menos transparente. O Sul devia receber metade dos lucros da exploração do crude na sua área mas não tem maneira de verificar os dados que o Governo central lhe envia. E o orçamento é feito a partir dos dividendos do petróleo.
Finalmente, o recenseamento nacional tem sido adiado sucessivamente. Espera-se que venha a acontecer em Abril, a última data avançada pela respectiva comissão. Sem contagem da população não pode haver eleições – previstas para este ano, mas adiadas para 2009 – nem o referendo de 2011, em que os sulistas vão escolher entre a independência e o modelo actual de um estado, dois sistemas.
O protelar da execução do CPA levou o SPLM – Movimento de Libertação do Povo do Sudão –, a abandonar o governo de unidade nacional em Outubro, mergulhando o país numa grave crise política.
A comunidade internacional interveio, e o SPLM voltou ao governo a 28 de Dezembro depois de acertar com o Partido do Congresso Nacional – NCP em inglês – novas datas para a implementação dos protocolos em falta.
O Sul do Sudão viveu uma situação político-militar extremamente volátil durante os dois meses que o SPLM esteve fora do Governo de Cartum. O presidente do Sudão, Omar el Bashir, chegou mesmo a pedir às Forças de Defesa Popular – as milícias que apoiaram as tropas de Cartum durante a guerra civil no Sul – que reabrissem os campos de treino para receber mujahedin – guerreiros muçulmanos – para preparar qualquer eventualidade.
A pressão da comunidade internacional, encabeçada pelo presidente Bush, obrigou os parceiros do governo de unidade nacional a retomar o caminho do diálogo, da negociação e da governação conjunta.
Mas o espectro da guerra continua no ar. Uma guerra por procuração. Desde o Natal que membros de uma tribo árabe de pastores – os Misseriya – continuam a atacar as forças do SPLA no estado de Northern Bahr el-Ghazal com a desculpa de que as forças sulistas não lhes permitem levar o gado para as pastagens tradicionais a sul da fronteira durante a estação seca.
O Ministros dos Assuntos do SPLA, encarregado da defesa do Sul, disse no domingo numa conferência de imprensa que quer descobrir quem está a atacar as suas forças. Os atacantes usam cavalos, mas também pickups armados com metralhadoras pesadas. Pastores normalmente não têm acesso a esse tipo de equipamento militar, acrescentou.
O petróleo pode ser uma bênção, mas acaba por ser muitas vezes uma maldição. E o Sul do Sudão é rico em «ouro negro» que está a financiar uma autêntica revolução arquitectónica em Cartum.

8 de janeiro de 2008

AMIGOS

© JVieira

Talvez os sexos sejam mais parecidos do que pensamos … e então a grande renovação do nosso mundo consiste nisto: que o homem e a mulher, libertados de sentimentos falsos e aversões, possam unir-se como amigos, vizinhos, mais do que amantes – como irmãos e irmãs.

Rainer Maria Rilke

4 de janeiro de 2008

ANO NOVO

A celebração da passagem de ano foi mais do mesmo. Como na noite de Natal, a Cecilia e eu preparámos um «PowerPoint» para liderar a oração de acção de graças que fizemos. Canções, poemas, textos bíblicos, orações, silêncio, partilha. O título: 2007 um tempo para recordar, 2008 um tempo para começar de novo. A oração demorou uma hora e meia.
Depois da oração fizemos a ceia da passagem de ano. Estávamos as duas comunidades, um padre vizinho, um hóspede e uma militar americana nossa amiga.
A refeição foi simples: umas empadas, bolo, torrões de amendoim e de sésamo, bolachas, cerveja, refrigerantes. A americana trouxe duas garrafas de champanhe da sua terra para a meia-noite.
Depois dos abraços de Feliz Ano Novo partilhamos o desejo que cada um fez ao cair das doze badaladas – mais ou menos porque cada relógio estava acertado pelo próprio fuso horário!!! O meu desejo é óbvio: que em 2008 a redacção da Rede Católica de Rádios do Sudão se estabeleça e solidifique para não ter de estar sempre a começar de novo.
Celine Dion tem uma canção que retrata o que sinto neste momento. Chama-se «These are special times». O Natal e Ano Novo deste ano foram tempos especiais, que me deixaram extasiado e em paz. Um bom começo.
Estes dias também foram de trabalho extra. O jornalista com quem eu trabalho embora ainda não tivesse direito (porque é contratado) meteu férias e pôs-se a andar para o Uganda para estar com a família. O trabalho sobrou para mim, mas mesmo assim foi feito.

1 de janeiro de 2008

2008 ABENÇOADO


© JVieira

O SENHOR te abençoe e te guarde;
O SENHOR faça resplandecer o seu rosto sobre ti,
e tenha misericórdia de ti;
O SENHOR faça resplandecer o seu rosto sobre ti,
e tenha misericórdia de ti.
(Números 6: 24-26)

30 de dezembro de 2007

NATAL


O Natal deste ano foi uma longa celebração.
No dia 24, depois do jantar – um jantar normal – as duas comunidades reunimo-nos na capela para uma hora de oração com alguns amigos. Um momento tranquilo. Fomos guiados por um «powerpoint» que preparei com a Ir. Cecília, a directora da rádio. Acolhemos Jesus, recordámos outros natais em latitudes diferentes, rezamos pelas nossas famílias, pelo Sul do Sudão, pela paz.
Depois da oração, fizemos uma ceia de Natal na casa das irmãs. A Ir. Sandra fez um bolo – é uma óptima doceira –, a Ir. Domenica fez torrão de umas sementes locais, a Ir. Cecilia preparou «piña colada», as outras irmãs prepararam diferentes acepipes. A ceia foi um espaço de convívio e fraternidade. Houve também troca de presentes. O Menino Jesus foi bom para comigo: trouxe-me uma garrafa de tinto alentejano (Vinha do Monte). Como é que ele sabe que eu gosto da «pomada» alentejana?
Depois da ceia fomos à Missa do Galo: à paróquia ou à Sé. Eu fui à Sé com dois irmãos e desfrutei daquela hora e meia de oração comunitária, a meia-luz. Senti-me mesmo bem. Respirava uma serenidade e uma paz indizíveis.
De regresso a casa, encontrámos as ruas de Juba cheias de gente nova, vestidos para a festa, a passear na escuridão. Um fenómeno que também se repete na Páscoa. As as motorizadas a zumbir por todo o lado! Com pequenos choques de permeio.
No dia 25, a Ir. Cecília e eu fomos convidados a participar na festa de Natal da Selma – uma algarvia – e do Marc (australiano). Fomos depois do trabalho – porque a Rádio Bakhita não fecha!!! – e conhecemos gente interessante que trabalha para a ONU ou com ONG.
No dia seguinte, Skye – a correspondente da Reuters – convidou-nos para panquecas. Uma hora bem passada a conversar com novos amigos.
No dia 28 o pessoal da arquidiocese de Juba juntou-se com o arcebispo para o piquenique do Natal.
O sítio – Rejaf – é encantador: um bosque de mangueiras junto ao Nilo Branco.
O piquenique foi uma mistura de convívio, discursos, jogos, almoço…
O arcebispo Paolino Lukudu Loro disse que gostava que o pessoal da arquidiocese se sentisse feliz. Também revelou que o processo de paz que o Sul do Sudão está a viver é um desafio grande para a Igreja: alguns padres, irmãos e irmãs abandonaram o apostolado para trabalharem para o Governo ou organismos humanitários.
No fim do piquenique fez-se a geminação de comunidades – a comunidade gémea dos combonianos é um padre americano Maryknoll que vive do outro lado da rua e que celebra a missa e toma o pequeno almoço connosco – e foram eleitos os amigos do ano. A minha amiga chama-se Ir. Georgina Nyayath e pertence a uma congregação local.
Ah! Descobri que é seguro nadar no Nilo em Rejaf. Um padre que trabalhou na paróquia, disse-me que costumava nadar lá, que os crocodilos não chegam àquela parte. Já tenho onde passar as manhãs de sexta-feira, o meu dia de folga.
Rejaf – uma missão construída pelos combonianos nos anos trinta – fica a 14 quilómetros de Juba na outra margem do Nilo Branco.

25 de dezembro de 2007

EU, MENINA... E ELE

© JVieira

Eu, menina, sentado na calçada sob um sol envergonhado, observava a movimentação das pessoas em volta e tentava compreender o que ocorria.
– Que é o Natal? – indagava-me, em silêncio.
Eu, menina, ouvira falar que aquele era o dia em que o Menino Jesus, vinha deixar-nos as prendas... mas como poderia uma criança acabada de nascerfazer isso?
Perguntava-me eu em silêncio... e pensei que nessa noite não iria dormir. Ficaria ali ao relento esperando o Menino Jesus... e os meus presentes...
Até o podia ajudar! Como conseguiria Ele com tantos presentes, sim porque os miúdos são uns chatinhos, a pedir tanta coisa...
E eu, menina, concluía que não deveria ser isso o Natal.
Talvez fosse um dia especial, em que as pessoas abraçassem seus familiares e fossem mais cordiais umas com as outras. Talvez fosse o dia da fraternidade e do perdão.
– Mas, então por quê eu, aqui sentada, não recebo sequer um sorriso, e as pessoas correm apressadas de um lado para o outro, cheias de sacos e saquinhos, embrulhos e embrulhinhos – inquiria-me, perplexa.
– E por que trabalha a polícia no Natal?
E eu, menina, entendia que não devia ser assim...
Imaginava que talvez o Natal fosse um dia mágico em que as pessoas enchiam as igrejas em busca de Deus.
– Então, porque não saem de lá melhores do que entraram? – debatia-me, na ânsia de compreender aquela ocasião enigmática.
Via risos, mas eram gargalhadas que escondiam tanta tristeza e ódio, tanta amargura e sofrimento...
E eu, menina, mergulhada em tão profundas reflexões, vi aproximar-se um homem. Era um belo homem. Não era gordo nem magro, tão alto quanto baixo, nem branco nem preto, nem pardo, amarelo ou vermelho.
Era apenas um homem com olhos cor de ternura e um sorriso em forma de carinho que, numa voz com tom de afago, saudou-me:
– Olá, menina!
– Olá! – respondi, meio tímida. Achava impossível que alguém conseguisse ver-me ali, no meio da correria em que andavam...
E, num quase êxtase de admiração, vi-o acomodar-se a meu lado, na calçada, sob o sol envergonhado.
Eu, menina, na naturalidade de menina, aceitei-o como amigo num olhar. E atirei-lhe a pergunta que me inquietava e entristecia:
– O que é o Natal?
Ele, sorrindo ainda mais, respondeu-me, sereno:
– É o meu aniversário!
– O que dizes? O teu Aniversário? Então e o que andas por aqui a fazer? Porque não estás em casa onde estão os teus familiares?
– Essa – falou-me, apontando a multidão que corria – é a minha família.
Eu, menina, não compreendi.
– Também tu fazes parte da minha família... – acrescentou, aumentando a confusão.
– Não te conheço! – rebati.
– É por que nunca te falaram de mim. Mas eu conheço-te. E amo-te...
Estremeciam-me de emoção aquelas palavras, na minha fragilidade de menina.
– Deves estar triste! – comentei. – Estás só no dia do teu aniversário...
– Neste momento estou contigo! – respondeu-me, meneando a cabeça negativamente.
E conversamos. Uma conversa de poucas palavras, muito silêncio, muitos olhares e um inefável transbordar de sentimentos, naquela prece que fazia arder o coração e a própria alma.
O sol entregou o céu às estrelas.
E conversamos. Eu, menina, e Ele.
E Ele falava-me, e eu amava-o. E eu absorvia-o. E eu sentia-o.
Eu, menina: cordas. Ele: artista. E fez-se a melodia entre nós!...
E eu, menina, sorri...
Quando a noite cedeu vez à madrugada, enquanto piscavam as luzes que adornavam as casas, Ele ergueu-se e pressenti que era a despedida. Suspirava, de alma renovada.
Abracei-o pela cintura, dizendo:
– Toma o meu presente... Feliz aniversário!
Ergueu-me no ar, com seus braços fortes-fracos, tão fortes quanto a paz, e disse-me:
– Presenteia-me compartilhando este abraço com a minha família, que também é tua... Ama-os com respeito. Respeita-os com ternura. Sê terno com carinho. Acaricia-os com justeza. Julga-os com amor... E tem um feliz Natal!
Porque não quisesse vê-lo ir-se embora, saí a correr pela rua. Abandonei-o, levando-o para sempre no mais íntimo do coração. Fui em busca de braços que aceitassem os meus...
E eu, menina, nunca mais o vi. Mas aquele Amigo da noite de Natal: Jesus... ficou sempre o MEU AMIGO!
E eu, menina, sorri...

24 de dezembro de 2007

BOAS FESTAS

Moses Wanjiuki © JVieira

Esta é a voz do meu amado; ei-lo aí, que já vem.
O meu amado fala e me diz: «Levanta-te, meu amor, e vem. O tempo de cantar chega. Levanta-te, meu amor, e vem. Mostra-me a tua face, faz-me ouvir a tua voz, porque a tua voz é doce, e a tua face graciosa.»
Cântico dos Cânticos, 2, 8. 10. 12b. 13-14)

Neste Natal Jesus convida-te a ires até Ele, porque és @ seu/sua amad@. Aceita o desafio e vai! Acolhe-o e ama-o no teu próximo!
Feliz Natal cheio da ternura de Deus-Menino.

22 de dezembro de 2007

SUL DO SUDÃO EM NÚMEROS

Os resultados de um levantamento-piloto de 100 famílias do Sul do Sudão – dez agregados por estado – apresentam uma imagem chocante da saúde na região.
102 crianças morrem em cada 1000 partos.
13,5 por cento das crianças do Sul do Sudão morrem antes de chagarem aos cinco anos.
2,7 por cento das crianças estão totalmente imunizadas através de vacinas.
32,98 por cento da população sofre de mal nutrição.
2054 mulheres morrem em cada 100 mil partos, a taxa de mortalidade maternal mais elevada do mundo.
Em média cada família está a cerca de 45 minutos de um ponto de água.
13,1 por cento da população tem acesso a água tratada.
16 por cento das crianças frequentam a escola primária e 1,9 por cento completam-na.
16,7 por cento das mulheres casam antes dos 15 anos e 40,7 por cento antes dos 18.
42,4 por centos dos homens são polígamos.

ANGEL CORAZÓN

© JVieira

The Angel of the Lord was sent to me!
She does not have wings
but her heart flies
and makes mine fly too
with her inspiration and radiance
in a hug of wonderment and belonging.
I called my Angel Corazón.
I was living aloft
and God sent Corazón
to pull me down
with the gravity of her pro–vocations
and the weight of her suffered wisdom.
We built our holy ground
by the mighty river
and there we share our lives
over a beer.
We have walked hand in hand,
heart in heart,
the path of disclosure and acceptance,
of vulnerability.
My Angel awakened my tenderness,
rekindled my endearment and attention,
warmed up my heart,
brought me peace and self-acceptance.
My Corazón made me present
and available
and I became an Angel too.
I love Corazón,
my guardian Angel and my Sister.
Yet, my Angel is not mine.
She has other hearts to tender
and I am thankful for that too.
Angel Corazón,

Amorcito,
is God’s blessing
and his loving gift.
Shukran!
Cheers, Great Mate!
Cheers, Compañera.


Bishoftu - Ethiopia, December 14, 2007
Tahesas 4, 2000 ALH

LEITURAS

JESUS DE NAZARÉ

Bento XVI apresenta no primeiro volume «Jesus de Nazaré» a sua «busca pessoal pelo rosto do Senhor.»
O Papa escreve que Jesus é importante porque trouxe Deus.
Pegando nas narrativas evangélicas e cruzando-as com outros textos bíblicos através do método de exegese canónica, Bento XVI aborda alguns temas fundamentais da vida de Jesus: baptismo, tentações, Evangelho do Reino de Deus, Sermão da Montanha, o Pai-nosso, discípulos, a mensagem das parábolas, as imagens principais do Evangelho de João, a confissão de Pedro e a transfiguração e finalmente, a identidade de Jesus.
O livro cruza textos, debate opiniões, explora questões relevantes de outros saberes sobre o mistério de Jesus.
Apesar de ser de leitura algo difícil – não é fácil a um teólogo abordar questões de técnicas exegese – a obra é uma reflexão preciosa sobre o Jesus histórico.

Aguarda-se agora o segundo volume que, entre outros assuntos, promete abordar as narrativas da infância de Jesus.

19 de dezembro de 2007

ETIÓPIA

Missa em rito etíope © JVieira

Os 12 dias que passei na Etiópia foram de uma bênção. Revi amigos, revisitei lugares que me dizem muito, descansei, rezei e regressei retemperado.
A primeira impressão ao chegar a Adis Abeba é que a cidade se tornou num enorme estaleiro tantas são as obras de vulto em construção: edifícios, bairros sociais, fábricas, ruas… Uma diferença abissal da realidade que encontrei em 1993. Nessa altura, a capital da Etiópia era uma cidade decrépita feita de zinco enferrujado e com as ruas todas esburacadas.
E o serviço público também melhorou muito. Antes para renovar a carta de condução etíope precisava de uma manhã de guiché em guiché. Era sempre um problema encontrar a pasta com os meus documentos, porque não é fácil transcrever nomes estrangeiros em caracteres amáricos. Agora está tudo informatizado e em meia hora tinha o documento renovado de novo na mão!
O retiro foi uma experiência rica. Durante uma semana os 13 participantes convivemos com os textos de Isaac de Nínive, um monge do século VII.
O tema do retiro foi a luta que cada um de nós trava para viver a vocação cristã e nos transformarmos em epifania do Amor de Deus para quem connosco convive.
A frase que mais me marcou foi a definição de contemplação: não é êxtase mas «instasys», uma jornada ao mais profundo de nós mesmos – onde Deus habita – e não fora de nós. Uma intuiçaõ interessante.
O local do retiro – Galilee Centre – é um lugar especial junto ao lago Babu Gaya, cheio de flores e pássaros exóticos. Aí fez muitos retiros, encontros profundos com a minha realidade pessoal e com outras pessoas – que recordei!
Em Babu Gaya, assisti a um fenómeno curioso: uma manhã muitos peixes nadavam à tona da água de barriga para cima. Foi a bênção para os pescadores de ocasião: apanhavam «tellapia» à mão cheia.
Pensei que alguém detonou alguma carga explosiva no lago para atordoar os peixes. Mas um vizinho explicou que uma vez por ano os peixes vêm à tona por causa do frio!
Uma explicação que não satisfez os meus colegas de natação. Nessa tarde nadei sozinho, porque os três padres e a irmã que me acompanhavam ao banho diário, recearam que tivessem posto algum produto no lago para apanhar os peixes.
O retiro foi também um contacto novo com a tradição litúrgica ortodoxa. No Sul do país – onde trabalhei como missionário durante quase oito anos – usamos a liturgia latina traduzida na língua local. A missa (dia sim dia não) e a oração da tarde eram celebradas no rito etíope em inglês. Uma linguagem bem diferente, colorida e cheia de incenso e de pedidos de perdão pelos pecados.
Como não há desertos sem oásis, duas noites fui beber uma cerveja com uma missionária e um missionário meus amigos. A minha estada era curta e foi a única maneira de celebrarmos a amizade e trocarmos informação sobre o que temos feito.
Em Adis Abeba, participei na festa de 60 anos de vida missionária da Ir. Bona, uma comboniana italiana que se repartiu pelo Líbano, Israel e o povo sidama da Etiópia. Uma mulher cheia de energia – apesar dos 87 anos – e com um sorriso acolhedor.
Ah! Para quem está habituado ao calor e ao pó, na Etiópia fazia bastante frio em Dezembro. Quando cheguei ao aeroporto, às oito da noite, as pessoas vestidas com casacões pesados ficavam a olhar para mim intrigadas porque vinha com uma T-shirt fina e chinelos. Mas não sentia o frio, porque o corpo ainda estava cheio do calor de Juba.
Contudo, a primeira coisa que fiz quando cheguei a Galilee Centre foi ir ao mercado local comprar uma camisola. Como a língua da área pertence à família oromo, desenrasquei-me com o guji que ainda recordo. As pessoas achavam castiço um estrangeiro falar oromo e não saber palavra de amarico – a língua comum na Etiópia.
Agora estou de volta a Juba. Mais descansado e recauchutado para continuar a enfrentar os desafios que o projecto da rádio nos continua a colocar – sobretudo a fidelização dos jornalistas que trabalham comigo!
Mas é mesmo bom estar de volta a casa!

5 de dezembro de 2007

ATÉ JÁ


Lago Babu Gaya Debre Zeit Etiópia © JVieira

Durante os próximos 12 dias estou no lago Babo Gaya (o ancião do cachibo), na Etiópia, em retiro. Retomarei as postagens logo que regressar a Juba. Obrigado pela visita. Também rezo por si!

AMOR | DOR

Também o « sim » ao amor é fonte de sofrimento, porque o amor exige sempre expropriações do meu eu, nas quais me deixo podar e ferir. O amor não pode de modo algum existir sem esta renúncia mesmo dolorosa a mim mesmo, senão torna-se puro egoísmo, anulando-se deste modo a si próprio enquanto tal.
Bento XVI em «Spe Salvi», Nº 38

2 de dezembro de 2007

AMOR

Não é a ciência que redime o homem. O homem é redimido pelo amor. Isto vale já no âmbito deste mundo. Quando alguém experimenta na sua vida um grande amor, conhece um momento de «redenção» que dá um sentido novo à sua vida. Mas, rapidamente se dará conta também de que o amor que lhe foi dado não resolve, por si só, o problema da sua vida. É um amor que permanece frágil. Pode ser destruído pela morte. O ser humano necessita do amor incondicionado. Precisa daquela certeza que o faz exclamar: «Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor» (Rom 8,38-39). Se existe este amor absoluto com a sua certeza absoluta, então – e somente então – o homem está «redimido», independentemente do que lhe possa acontecer naquela circunstância. É isto o que se entende, quando afirmamos: Jesus Cristo «redimiu-nos». Através d'Ele tornamo-nos seguros de Deus – de um Deus que não constitui uma remota «causa primeira» do mundo, porque o seu Filho unigénito fez-Se homem e d'Ele pode cada um dizer: «Vivo na fé do Filho de Deus, que me amou e Se entregou a Si mesmo por mim» (Gal 2,20).
Bento XVI em «Spe Salvi», nº 26

30 de novembro de 2007

Santa Bakhita


UM MODELO DE ESPERANÇA

Santa Bakhita é um exemplo moderno de esperança e um modelo de encontro com Deus, escreveu o Papa na sua última encíclica.
Bento XVI afirma na carta encíclica «
Spe Salvi» - «Na esperança fomos salvos», publicada hoje no Vaticano, que Santa Bakhita é um exemplo contemporâneo de vida cristã.
«Josefina
Bakhita, uma africana canonizada pelo Papa João Paulo II [o] exemplo de uma santa da nossa época pode, de certo modo, ajudar-nos a entender o que significa encontrar pela primeira vez e realmente este Deus», escreve o Papa.
Bento XVI faz um breve resumo da vida de Santa Bakhita para explicar como a escrava do Darfur se tornou em santa e exemplo de esperança.
O papa escreve que quando Bakhita foi para Itália, descobriu em Jesus um novo patrão, que a libertou e ela sentiu necessidade de partilhar a sua experiência através de algumas missões em que participou.
«A libertação recebida através do encontro com o Deus de Jesus Cristo, sentia que devia estendê-la, tinha de ser dada também a outros, ao maior número possível de pessoas», explica Bento XVI.
E conclui o Papa: «A esperança, que nascera para ela e a « redimira », não podia guardá-la para si; esta esperança devia chegar a muitos, chegar a todos.»
A encíclica «Spe Salvi» foi publicada hoje em oito línguas: latim, português, inglês, italiano, alemão, espanhol, polaco e francês.
O documento está dividido em 50 parágrafos e tem 40 citações.
«Spe Salvi» é a segunda carta encíclica publicada por Bento XVI. Há dois anos o papa tinha escrito «Deus Charitas Est», Deus é amor.