17 de setembro de 2007

LEITURAS

O DRAMA DE KIVU

«The Mission Song», de John le Carré, é um retrato do drama que o Leste da DR Congo tem vivido nas últimas décadas.
Abençoada – e amaldiçoada – com jazidas importantes de diamantes, tântalo, petróleo e outros minerais valiosos, a área tem sido palco de guerras constantes para pilhar as suas riquezas naturais. Uganda e Ruanda são reincidentes!
Com o fim da Guerra-fria, John le Carré voltou-se para temas mais significativos que as acções de espionagem em torno da União Soviética.
Depois de escrever «O Jardineiro Fiel» sobre testes ilegais de medicamentos novos em África, Le Carré com o romance «The Mission Song» aborda o drama da delapidação e morte constantes a que a província de Kivu tem sido votada.
Outros temas colaterais do romace mais recente de David John Moor Cornwell são o amor, jornalismo sensacionalista, racismo, sociedades muiti-culturais, ajuda internacional, segredos de estado … tudo misturado com espionagem, o ingrediente-base das receitas litrárias do novelista inglês.
Uma história de corrupção e morte contada através de Salvo, filho de um missionário irlandês e de uma congolesa, e tradutor-especialista em muitas das línguas faladas no ex-Zaire que se vê envolvido acidentalmente em mais um grande esquema de pilhagem do seu amado Kivu.
Obrigado, Manel Giraldes, por me teres recomendado esta estória surpreendente de denúncia da corrupção.

15 de setembro de 2007

ADÃO E EVA

Adão e Eva na versão talibã. Obrigado, Zezita!

GONDOKORO



Gondokoro é uma ilha comprida à frente de Juba em pleno Nilo Branco.
Trata-se de um lugar especial para a Igreja católica. Foi em Gondokoro que os primeiros missionários se estabeleceram no século XIX. Um deles, Ângelo Vinco, repousa algures na ponta norte.
No passado, os agricultores trabalhavam a ilha e habitavam na margem direita do Nilo. A ilha durante as cheias é parcialmente inundada, o que a torna muito fértil.
Os rebeldes do Norte do Uganda começaram a chegar às portas de Juba e os agricultores de Gondokoro refugiaram-se na ilha.
A paróquia de S. José construiu lá uma capela dedicada à Exaltação da Santa Cruz. A festa foi ontem e um colega e eu aceitamos o convite de estar presentes na missa.
O pároco alugou uma lancha de metal para levar o grupo de convidados para Gondokoro: o vigário-geral, algumas irmãs, padres, catequistas, acólitos.
A viagem – um autêntico cruzeiro – demorou quase uma hora. Deu para apreciar as flores lindas e os pássaros coloridos e até dois crocodilos jovens em plano banho de sol matinal.
O motor fora de bordo parou por três vezes. O rio anda cheio de lixo e a hélice de vez em quando ficava presa. Uma sensação esquisita sentir a embarcação à deriva na corrente do grande rio enquanto o piloto tentava resolver a situação.
Quando aportámos, um grupo de cristãos recebeu-nos com cânticos e grinaldas de flores para o pároco e para o vigário-geral.
Seguiu-se a eucaristia debaixo de frondosas mangueiras. O coro esteve à altura e a assembleia participava activamente cantando e dançando. Muito mais mexida que as comunidades da cidade que deixam as despesas da animação ao coro.
A festa continuou depois da missa. O meu colega e eu, contudo, tivemos que regressar a Juba para pôr no ar a homilia do vigário-geral.
A lancha vinha mais tarde. Por isso, tivemos que apanhar boleia de motorizada até ao ponto onde pequenas canoas de madeira ligam a ilha à cidade na parte mais estreita do canal do rio. A viagem de «boda-boda» - como aqui chamam às motorizadas-taxi - foi uma experiência radical. Os caminhos da ilha são estreitos e ladeados por capim alto. O piloto era perito o evitar motorizadas, bicicletas, pessoas e animais que disputam os estreitos sendeiros. Uma pequena cabra foi demasiado lenta e ficou a mancar da pancada que apanhou.
O mais impressionante era rodar junto ao rio, num caminho meio comido pelas águas, ou debaixo das mangueiras com ramos a rasar as cabeças… Vinte minutos de grandes emoções! Mas queremos voltar à ilha para descobrirmos a campa do nosso antepassado na missão.

12 de setembro de 2007

TENSÃO

O Sul do Sudão vive dias de tensão.
No domingo, rumores em Cartum e em Juba davam o presidente do Governo do Sul do Sudão, Salva Kiir, como morto num acidente aéreo.
O Presidente Kiir teve que fazer «prova de vida» para acalmar a população. Ao fim do dia andou a circular pelas ruas de Juba numa caravana fortemente guardada pela segurança pessoal e militar. À noite, foi à TV dizer que estava vivo e que os autores dos rumores são inimigos da paz.
Na segunda-feira, Salva Kiir inaugurou a segunda sessão da Assembleia Legislativa do Sul do Sudão com um discurso contundente.
«Estou preocupado porque pode ser que o Sudão poderá reverter para a guerra se não actuarmos agora com o nosso parceiro NCP», alertou o Presidente Kiir .
O NCP, Partido do Congresso Nacional, é parceiro do SPLM, o Movimento de Libertação do Povo Sudanês, no Governo de Unidade Nacional. O NCP é também responsável por todos os atrasos no cumprimento do CPA; o Acordo Global de Paz, assinado entre os líderes dos dois partidos a 9 de Janeiro de 2005 em Naivasha, Quénia.
Segundo o CPA, a linha que divide o Norte do Sul do Sudão já devia estar marcada, as tropas sudanesas deviam ter deixado o território do Sul e o recenseamento concluído. Até agora nada disto aconteceu.
Finalmente, ontem a polícia sudanesa assaltou e passou a pente fino os vários escritórios do SPLM em Cartum. As forças da ordem disseram que o exercício se integrava numa busca de armas por toda a cidade.
Os alarmes começam a soar. Há analistas que defendem que o dinheiro que o Governo do Sul do Sudão destina às suas forças armadas - 40 por cento do orçamento - não chega. É necessário mais dinheiro para a tropa nem que seja à custa dos serviços e do desenvolvimento, dizem.

11 de setembro de 2007

ANO 2000


A Etiópia prepara-se para receber o ano 2000 do seu calendário com pompa e circunstância.
O novo milénio começa amanhã às 6h00 da manhã.
Para assinalar o evento o Governo organizou o Festival do Milénio, uma mega-celebração que se estende a todo o país.
O palco das celebrações é a Sala de Concertos do Milénio onde vai decorrer um espectáculo durante toda a noite de hoje. A estrutura, junto ao aeroporto, leva 20 mil pessoas. Custou 10 milhões de dólares e daqui a meio ano vem abaixo.
Quem não conseguir entrar na sala, pode seguir o festival através de 15 ecrãs gigantes importados da China por 11 milhões de dólares. Onze ecrãs foram distribuídos pelas cidades mais importantes do país e os restantes quatro foram montados em Adis-Abeba.
A companhia eléctrica quis associar-se à festa e colocou 48 mil lâmpadas coloridas nas ruas da capital.
A Telecom etíope aproveitou a ocasião para disponibilizar 1.2 milhões de cartões SIM para telemóveis.
A Etiópia tem quase 77 milhões de habitantes segundo as estimativas de «The World Fact Book» editado pela CIA. É o segundo país mais populoso da África depois da Nigéria.
A nação etíope ocupa a posição número 170 no Índice de Desenvolvimento Humano. A tabela tem 177 países e é preparada todos os anos pelo Programa de Desenvolvimento da ONU.
O país celebra amanhã o ano 2000 porque segue o calendário Juliano, que foi substituído em 1582 pelo calendário Gregoriano.
O ano etíope tem 13 meses: 12 meses de 30 dias cada e um de cinco dias - ou seis se o ano é bissexto!
O dia etíope começa a ser contado às seis da manhã.

Feliz Ano Novo! Feliz Milénio, amigos!

9 de setembro de 2007

APRISIONADA

© JVieira
Sei...
que o que me prende
Me libertará
Passos errantes
De um estado
Aprisionado
pelas cordas da loucura

Quando o mundo gira
E eu fico quieta
Prisioneira
De mim
Esperando
Na quietude
No silêncio que escorre
Que se propaga
Nas planícies invisíveis
Que se desprendem

Enquanto
o mundo avança
Sem mim
DairHilail, em Loucuras

6 de setembro de 2007

DARFUR

KI-MOON CHOCADO COM DESLOCADOS

O Secretário-Geral das Nações Unidas disse ontem que estava «chocado e humilhado» depois da visita a um campo de refugiados perto de El Fasher, capital do Norte do Darfur.
Ban Ki-moon prometeu acelerar os esforços para trazer paz à região dilacerada pela guerra.
«Temos que trazer paz e desenvolvimento. Temos que proteger os direitos humanos. Temos que vos ajudar a todos a regressar às vossas casas e terras», Ban disse à multidão junta a um depósito de água no campo de deslocados.
De manhã, Ki-moon encontrou-se com uma delegação de deslocados internos em El-Fasher. Um grupo de mulheres tentou interromper o encontro gritando slogans em árabe contra a ONU no que parece ter sido uma manifestação orquestrada.
O chefe da ONU encontra-se hoje com o Presidente Al Bashir e com uma delegação parlamentar para discutir o processo de paz para o Darfur e no Sudão em geral.

5 de setembro de 2007

DARFUR

KI-MOON TEM PLANO DE PAZ TRIPLO

O Secretário-Geral das Nações Unidas encontra-se hoje no Darfur com três planos de acção: estabelecimento da força de paz, recomeço das conversações de paz e desenvolvimento e gestão de recursos naturais.
Ban Ki-moon revelou o seu projecto para pôr termo ao genocídio do Darfur num discurso proferido ontem à tarde na Universidade de Juba, no Sul do Sudão, durante a visita de um dia que fez à cidade.
O Secretário-Geral classificou a força conjunta das Nações Unidas e da União Africana uma das missões de paz mais importante da ONU.
A UNAMID representa o compromisso da comunidade internacional para contribuir para a paz no Darfur, disse o chefe das Nações Unidas. É também o primeiro passo para parar com o conflito na região.
Ban Ki-moon sublinhou que o conflito não tem solução militar e que as partes envolvidas têm que voltar às conversações para chegarem a uma solução política através de um acordo de paz.
«Eu quero ver-nos a começar uma nova e conclusiva ronda de negociações de paz o mais cedo possível, provavelmente em Outubro», Ki-moon disse.
Finalmente, a paz no Darfur passa pelo desenvolvimento e gestão dos recursos naturais.
«Qualquer solução real para os problemas do Darfur exige um desenvolvimento económico sustentado», sublinhou o chefe da ONU.A falta de água é uma das razões para o agravamento da situação no Darfur.

3 de setembro de 2007

MONALISA

Antes e depois de uma semana nos States!

2 de setembro de 2007

Darfur

© LUSA

A SITUAÇÃO PIORA

A situação humanitária do Darfur está a deteriorar-se cada vez mais com o aumento de deslocados, da violência contra agentes humanitários e dos casos mal nutrição.
O alerta foi lançado dia 31 de Agosto por Margareta Wahlström, coordenadora substituta do Auxílio de Emergência da ONU.
De 1 de Junho a 21 de Agosto, 55 mil pessoas foram obrigadas a deixar as suas aldeias. O total de deslocados desde Janeiro, no Darfur, já passou os 250 mil.
Por outro lado, dos 6,4 milhões que vivem no Darfur, 2,2 milhões são deslocados ou refugiados no Chade e quarto milhões dependem da assistência humanitária para sobreviverem.
Os ataques contra agentes humanitários aumentaram em 150 por cento, incluindo rapto de veículos, ataques a colunas de ajuda e outros actos de violência.
Margareta Wahlström disse ainda que os casos de mal nutrição ultrapassam os 17 por cento da população.
Ban Ki-moon chega amanhã ao Sudão para uma visita de cinco dias que o vai levar também ao Chade e à Líbia.
O Secretário Geral da ONU disse que quer ver por ele próprio o sofrimento dos povos do Darfur e as condições em que a força híbrida de paz da ONU e da União Africana vai operar.

1 de setembro de 2007

Solidariedade

© JVieira

África é a grande casa da solidariedade. Neste continente marcado por guerras e calamidades, ninguém se considera tão pobre que não tenha absolutamente nada para partilhar. Nem que seja uma mão cheia de tempo!
Há sempre lugar para mais um à volta da refeição frugal.
Há sempre lugar para mais um na cabana já à pinha pela família numerosa e pelos animais domésticos.
O Sul do Sudão onde trabalho vive uma onda histórica de acolhimento e solidariedade.
Vinte e um anos de guerra fizeram mais de dois milhões de mortos e quatro milhões de deslocados.
A paz chegou há dois anos. E com a paz o regresso. De acolhimento dos milhares de retornados que chegam em camiões, em barcaças Nilo abaixo, de avião.
Os deslocados internos e os refugiados regressam aos milhares e as suas comunidades de origem abrem alas e fazem festa. Festa genuína.
O ACNUR e parceiros dão um cabaz a cada família para os primeiros três meses. Mas são as gentes locais que dão a mão na construção do tukul, que há-de ser melhorado com o tempo. E ajudam a desbravar os matos para preparar campos.
No Darfur também era assim: pastores árabes e agricultores negros partilharam durante centenas de anos os escassos recursos naturais: água e pastagens.
Até que chegaram os senhores da guerra, os janjauid, nas asas dos cavalos e dos camelos e varreram o oeste sudanês a balas e fogo.
A boa vizinhança deu lugar ao genocídio: duzentos mil mortos, mais de dois milhões de deslocados, quatro milhões dependentes de ajuda externa, milhares de mulheres violadas…
A África é a casa da solidariedade porque é uma imensa família alargada. Desfigurada por doenças estranhas, genocídios, conflitos.
Mas também resgatada por sorrisos que acolhem, mãos abertas, corações em festa que recebem o hóspede como dom de Deus através de uma liturgia feita de gestos solidários, de partilhas e de afectos de quem se sente irmão, irmã.
E com aguardente e cerveja caseiras a rodos! Pois claro.

30 de agosto de 2007

Portugal 1 – Espanha 0

Dois agricultores, um português e um espanhol, conversam sobre as respectivas propriedades:
- Qual é o tamanho da sua herdade? - pergunta o espanhol.
- Para os padrões portugueses, o meu monte tem um tamanho razoável: trezentos hectares. E a sua?
- Olha, eu saio de casa de manhã, entro no jipe e ao meio-dia ainda não percorri metade da minha propriedade.
- Eu sei o que isso é - diz o português. Eu·também já tive um jipe espanhol. São uma porcaria! Só dão chatices!

Obrigado, Compadre!

CHINESES

© JVieira

Os Chineses estão a apostar forte em Juba. Os balões vermelhos para já marcam um restaurante e dois hotéis em construção. Mas a cidade foi visitada por uma delegação chinesa e é de esperar mais investimentos.
Para já, Juba pode deliciar-se com a cozinha chinesa no Wonderful Chinese Restaurant. O estabelecimento foi aberto durante a minha estada em Portugal.
O Juba Beijing Hotel está a ser construído com material pré-fabricado totalmente importado directamente da China em terreno cedido pelo Governo.
O hotel, situado numa das melhores zonas de Juba, entre o aeroporto e os ministérios, tem um período de validade de cinco anos.
O Juba Beijing abre com 60 quartos com duas camas, casa de banho e chuveiro cada. Mas vai ter 180. Uma noite vai custar entre 200 e 250 dólares. Pode parecer caro, mas um hóspede paga por uma noite numa tenda em Juba entre 90 e 200 dólares.
Juba continua a ser o faroest para empresários que querem fazer dinheiro rápido em investimentos sem grandes riscos.
Entretanto, uma empresa chinesa está a recuperar o Hospital Escolar de Juba. A estrutura de saúde tem 555 camas e oito médicos. Os paramédicos é que fazem a diferença. Durante os trabalhos de reconstrução a maioria dos doentes está internada em tendas ou … debaixo das árvores.

27 de agosto de 2007

Alentejo

Uma pesquisadora do IFADAP bate a uma porta num montezinho perdido no interior do Alentejo e pergunta ao agricultor...
- Esta terra dá trigo?
- Nassenhora - responde o alentejano.
- Dá batata?
- Tamém não!
- Dá feijao?
- Nunca deu um!
- Arroz?
- De manera nenhuma!
- Milho?
- Tá a gozar comigo?!
- Quer dizer que por aqui não adianta plantar nada?
- Ah! Se plantar já é diferente...

Obrigado, Zezita, por esta joia!

22 de agosto de 2007

Darfur

FORÇAS SUDANESAS ATACAM CAMPO DE REFUGIADOS

Forças sudanesas cercaram e atacaram ontem de manhã o campo de refugiados de Kalma. Fontes militares disseram que a acção se destinava a desalojar rebeldes acusados de ataques a postos da polícia.
«Às seis da manhã o Governo do Sudão despachou 2000 soldados para cercar o campo, soldados, polícia e serviços secretos das fronteiras», Abu Sharrad, porta-voz do campo de Kalma disse à Reuters.
Sharrad afirmou que as forças governamentais abriram fogo contra o campo mas não sabia se houve mortos ou feridos.
Uma fonte do exército acusou os rebeldes que atacaram postos da polícia nos campos de Kalma e de al-Salam de se esconderem no campo de refugiados.
Kalma, junto à cidade de Nyala, no Sul do Darfur, alberga quase 100 mil deslocados pela guerra.
Entretanto, o Departamento dos Direitos Humanos da ONU acusou milícias aliadas ao Governo da prática de crimes de guerra.
As milícias praticaram violações em massa e raptaram 50 mulheres durante um ataque à cidade de Deribat, na região de Jabel Marra no centro do Darfur.
As 50 mulheres foram reduzidas a escravas sexuais durante um mês.
A cidade de Deribat é controlada pelos rebeldes da facção do Exército de Libertação do Sudão que não assinou os acordos de paz em Maio de 2006.

Por Darfur

© LUSA


O DRAMA HUMANO ESQUECIDO

Em apenas quatro anos, morreram no Darfur, vítimas da guerra, da fome ou da doença pelo menos 200 mil pessoas na sua larga maioria civis indefesos.
Calcula-se que pelo menos 2,3 milhões de pessoas tenham sido obrigadas a deixar as suas casas. Mais de 4 milhões dependem exclusivamente da ajuda humanitária.
Os ataques às populações sucedem-se em redor dos próprios campos de deslocados.
Os agentes da ajuda humanitária são também alvos frequentes das milícias, que procuram paralisar a sua actuação, agravando ainda mais a situação de extrema debilidade de milhões de pessoas refugiadas.
Entretanto o conflito ultrapassou as fronteiras do Sudão, com mais de 200 mil darfurianos a fugirem para o Chade e para a República Centro-Africana, aonde continuam a ser perseguidos pelas milícias Janjauid.

A SITUAÇÃO ACTUAL
A decisão da ONU do envio de uma força híbrida de paz em conjunção com a União Africana (UNAMID) para a região, do dia 31 de Julho, muito embora tardia, vem finalmente trazer alguma esperança a estas populações.
Por outro lado, a maioria dos grupos em armas contra Cartum reuniu-se em Arusha, Tanzânia, e decidiu retomar as negociações de paz com o Governo.

QUE FAZER?

A pressão da sociedade civil é agora fundamental para conseguir a pronta articulação internacional e a mobilização dos meios humanos e materiais necessários ao rápido estabelecimento do contingente que garanta a segurança na região.
Por outro lado, a comunidade internacional tem que manter o Governo de Cartum sob pressão para voltar à mesa das negociações e negociar uma solução política para o Darfur.
A Plataforma pelo Darfur está a recolher assinaturas para colocar a questão do Darfur na Agenda da Cimeira Europa-África que decorre em Lisboa a 8 e 9 de Dezembro.

Assina AQUI a petição.
Circula a campanha através dos teus contactos.
Unimo-nos por Timor-Leste. Agora é a vez de dar a mão à população martirizada do Darfur.

17 de agosto de 2007

De volta

Estou de volta a Juba depois de uma viagem bem mais tranquila que a da ida! Só um pequeno contratempo: tinha 30 quilos na mala e a TAP obrigou-me a pagar dez quilos de excesso. Unhas de fome!
Juba continua no mesmo sítio, mas regista algumas mudanças.
Uma empresa japonesa está a alcatroar a rua que liga o porto do Nilo Branco ao mercado de Konyokonyo. Ao todo são 680 metros, o primeiro troço a ser asfaltado desde o início da guerra! Mas há mais 60 quilómetros à espera de um revestimento betuminoso. Os veículos e respectivos passageiros agradecem.
A chuva continua a cair certinha. É mau para os arruamentos mas boa para a agricultura. O nosso horto está um espectáculo: o milho já tem espigas, há feijão, amendoim, tomates, «kiavos»… O padre José Luís, comboniano mexicano, está de parabéns!

As ruas de Juba continuam na mesma: alisam-nas e depois a chuva encarrega-se de as estragar de novo!
De resto, os trabalhos de recuperação da Casa Comboni continuam a bom ritmo e a rádio Bakhita alargou o período de emissão da manhã das 11h30 até às 13h00.
Ah! E a Caty, a nossa gata, está grávida.

27 de julho de 2007

50 anos

Queridos Pais,
Há 50 anos iniciastes uma caminhada a dois. Juntou-vos o amor. Com a bênção de Deus, fomos cinco e agora somos 11.
Obrigado pelo vosso testemunho: por nos passardes o sentido da vida e da responsabilidade; por nos ensinardes que a paciência e o sacrifício dão frutos.
Obrigado pelos 50 anos de amor.
Um beijão cheio de ternura e um dia muito feliz para vocês.

22 de julho de 2007

Impostos

Há viagens assim

© JVieira

Tinha que vir a Portugal. Tanto podia voar de Juba através de Nairobi como de Adis-Abeba.
Por ser mais directo e por causa dos afectos escolhi o itinerário Juba – Adis-Abeba – Roma – Lisboa.
As surpresas começaram logo em Juba. Passei pelos trâmites habituais de qualquer check-in. Na pista dois membros da tripulação da Ethipian (re)faziam uma inspecção detalhada de cada passageiro à sombra da asa do Fokker 50. Alguns passageiros protestavam pela demora. Outros, com o patriotismo ferido, barafustavam contra os etíopes por não confiarem na segurança do aeroporto. Havia quem dissesse que ali era território sudanês, que os etíopes não tinham o direito de fazer uma busca tão detalhada de cada passageiro. Expliquei-lhes que a placa do aeroporto é considerada território internacional. A funconária etíope gradeceu a minha dica e o processo continuou com mais ou menos vozes discordantes.
Embarcámos e a viagem começou meia hora mais tarde mas o avião aterrou dentro do horário em Adis-Abeba. Eram 18h30.
Tinha combinado jantar com os meus colegas. O voo para Roma estava previsto às 00:07.
Dirigi-me ao funcionário que processa os pedidos de passageiros em trânsito que querem sair do aeroporto. Informaram-me que por ter de esperar menos de seis horas pela ligação não tinha direito a sair. Disse-lhes que tinha um jantar combinado e que estava disposto a pagar o visto. Que não me podiam dar um visto pela mesma razão. Até que um dos funcionários me disse com ar de quem não quer a coisa: «Se nos deres um presente…»

Dei-lhes os 20 dólares que custava o visto, carimbaram-me o cartão de embarque e escoltaram-me ao exterior.
Jantei com o único colega que estava na residência provincial, pusemos a conversa em dia – há dois anos que não passava por Adis - , fiz alguns telefonemas para saudar os amigos mais chegados e voltei ao aeroporto.
O embarque estava previsto para as 23h30, mas era quase 1h30 quando entrámos no Boing 767. Problemas técnicos levaram ao atraso na partida e … na chegada.
Tinha o voo para Lisboa às 6h50, hora em que o avião da Ethiopian aterrou em Roma com mais de hora e meia de atraso. Resultado: tive que refazer o bilhete e pagar 120 euros (100 de multa por não ter embarcado e 20 pelo processamento do novo bilhete). O voo seguinte era às 12h20.
Tinha muito que esperar! Tomei o pequeno-almoço, refiz o registo do bilhete e o check-in, pedi que vissem onde estava a minha mala porque tinha perdido o voo que constava da etiqueta, comprei o último romance do John le Carré - The Mission Song -
e dirigi-me para a porta B1 para esperar pelo embarque.
Uma necessidade «levou-me» à casa de banho. Quando regressei os colegas de voo tinham sumido da porta B1. Dirigi-me aos mostradores electrónicos. O voo da TAP para o Porto via Lisboa tinha desaparecido. No balcão da TAP não havia ninguém. Os funcionários do aeroporto diziam que visse nos mostradores a relocação de porta de embarque. Expliquei-lhes que o voo desapareceu da lista. Estavam tão estupefactos como eu.
Uma funcionária mais diligente telefonou para as informações do aeroporto e descobriu que o voo para Lisboa - Porto se processa através de uma porta de embarque que por engano estava destinada a um voo para Paris.
A viagem até Lisboa foi agradável. Vinha numa fila com uma família italo-cabo-verdiana. Conversámos sobre Palermo de onde vinham e de São Vicente para onde iam. Recordámos Cesária Évora, Lisboa. Meti-me com um miudito à minha frente que tinha uma cobra de pano e brincámos um bocado.
Chegámos a Lisboa dentro do horário previsto. O Espaço Schengen facilita as operações de desembarque. Dirigi-me ao tapete rolante para recolher a minha mala. Mas não houve sinais da mala vermelha que comprei para a reconhecer entre a bagagem dos outros passageiros.
Dirigi-me à Groundforce Portugal para declarar o desaparecimento da mala. Eram 15h34. A minha senha era a A262. Havia 20 números à minha frente.

O pessoal da Groundforce parecia estar a trabalhar no modo de economia de energia. Os números não rolavam no quadro electrónico. Alguns passageiros italianos começavam a perder a paciência com o compasso de espera nos seus planos.
Finalmente fui atendido por uma menina simpática passava das 17h30. Deu-me uma folha de papel com os dados do me processo, um número de telefone e um sítio na Internet para seguir a aventura da minha mala vermelha.
Esta manhã fui à procura da dita cuja na Internet. A malandra não dá sinais de vida virtual. Telefonei para o «call centre» - nome muito fino para quem nos dá música minutos sem fim – e disseram-me que como ainda não tinha passado 24 horas sobre o registo da ocorrência era normal não se saber onde a mala parava!
Tenho bem presente na memória o que a funcionária italiana me disse me Roma: «Não se preocupe com a sua mala. Ela vai consigo. Temos a política de embarcar as malas perdidas no voo imediato». Foi ontem à noite e a minha mala encarnada não chegou. Para a próxima vou mas é comprar uma mala azul e branca. Pode ser que dê mais sorte!!!

16 de julho de 2007

Darfur

CONFERÊNCIA LÍBIA RELANÇA OPTIMISMO

A conferência internacional sobre o roteiro de paz para o martirizado Darfur que decorreu este fim-de-semana na capital líbia, terminou com uma nota de optimismo.
«Estamos muito felizes porque este encontro terminou com uma mensagem, forte de paz e o início de negociações. Penso que agora vemos a luz no fundo do túnel», disse Jan Eliasson, enviado especial da ONU para o Darfur que partilhou a presidência do evento com Salim Ahmed Salim, o seu homólogo da União Africana (UA).
Said Djinnit, Comissário da UA para a Paz e Segurança, disse que os movimentos rebeldes do Darfur mostram vez mais a vontade de reatar o diálogo com Cartum e que o mês de Setembro deve ser crucial, MISNA noticia.
A declaração final da conferência de Tripoli revela que de 3 a 5 de Agosto os enviados especiais da ONU e da UA vão-se encontrar em Arusha, Tanzânia, com os líderes rebeldes que se recusaram a assinar o Tratado de Paz para o Darfur, de Maio do ano passado.
Jan Eliasson está optimista que o Governo do Sudão e os grupos rebeldes do Darfur se sentem à mesa das conversações de paz em Setembro.
A Conferência Internacional sobre o Darfur juntou diplomatas da ONU, da UA, da Liga Árabe, da União Europeia e de 18 países.

15 de julho de 2007

13 de julho de 2007

Sandra

Sandra Amado nasceu no Estado do Paraná, no Sul do Brasil. Aos 15 anos mudou-se com a família para a Rondónia à procura de vida melhor.
Tinha 19 anos quando conheceu as Missionárias Combonianas. Dois anos depois iniciou o processo de formação no instituto.
Depois de fazer os votos foi aprender inglês para Glasgow. A Eritreia foi a sua paragem seguinte. Estudou tigrinha, a língua nacional, dedicou-se à pastoral e ensinou moral e ética numa escola.
Passou pelos Estados Unidos para terminar a sua formação. Agora está em Juba e dá aulas de inglês aos alunos da Escola Secundária São Daniel Comboni. Além de pintar e de fazer uns bolos muito gostosos. E de eu ter com quem falar português!

Darfur

© Lusa
VIDAS REAIS

Samia Ramadan, 5 anos. Chora e pergunta todos os dias pelos irmãos que foram mortos pelos janjauid em Buram.

Zinat Abdu, 3 anos, diz que a casa onde vive agora é muito pobre comparada com aquela em que vivia em Bulbul e que no campo de refugiados de Kalma não tem ovelhas nem cabras para guardar e brincar… nem leite.

Abd el Wahab e a Raqui, 7 ou 8 anos, trabalham com e como os adultos à entrada do campo refugiados de Kalma a fazer tijolos: «Quero trabalhar aqui, fazer e vender muitos tijolos para fazer uma casa para mim e meus avós.» Os seus pais e resto da família foram mortos pelos janjauid.

Ramadan estava prestes a casar com Leila quando vieram os janjauid… Destruíram, queimaram e levaram-lhe a querida noiva que nunca mais chegou a ver. Depois de dois anos Leila ainda estará viva? Talvez escrava?

Abdu e Hachim bateram à porta da missão de Nyala era quase meia-noite. Afoitei-me e fui abrir. «Pedimos protecção por esta noite», dizem. Quase que falam ao mesmo tempo e têm pressa de entrar. «Os amigos dos jaunjauid sabem que estamos aqui na cidade». Abdu e Hachim fugiram de Greida onde se luta há 4 dias. Apareceu uma alma amiga que lhes deu guarida e protecção porque sabia o perigo que tanto eles como eu corríamos. Na manhã seguinte partiram para o sul. São sulistas e cristãos

Jamal viu-me à entrada do seu campo de refugiados em Kalma e perguntou: «Porque não multiplicais os esforços sanitários aqui? Falta de tudo, mas ao menos se houvesse algumas latrinas haveria muito menos risco de infecções e cólera…» É perigoso parar à entrada de um destes campos, eu sei. Mas eu queria ouvir alguém, falar, partilhar esperanças, pobrezas e riquezas. Que as há. De uma e outra parte. Num e noutro sentido.


P. Feliz Martins,
Missionário Comboniano no Darfur

12 de julho de 2007

Darfur

DIPLOMACIA DO GATO E DO RATO

A Secretária de Estado Norte-Americana disse ontem que é tempo de acabar com a diplomacia do gato e do rato do Sudão sobre o Darfur.
«Temos que nos manter resolutos para acabar com o sofrimento e a violência no Darfur. Já morreram pessoas de mais, demasiadas mulheres foram violadas, demasiadas crianças foram separadas das suas famílias», Condoleezza Rice disse aos participantes de uma reunião conjunta da Organização dos Estados Americanos e da União Africana em Washington DC.
«Não podemos deixar o Governo do Sudão continuar este jogo da diplomacia do gato e do rato, prometendo e depois negando. É nossa responsabilidade como nações de princípios, como democracias de princípios, obrigar o Sudão a prestar contas», a Dr.ª Rice advertiu.
Entretanto, Grã-bretanha, França e Gana prepararam o esboço de uma resolução sobre a força híbrida de paz da ONU e da União Africana para o Darfur.
A força vai chamar-se UNAMID e terá cerca de 26 mil elementos entre militares, polícias e civis. Deverá estar operacional do início de 2008 e terá um mandato inicial de um ano.

11 de julho de 2007

Parabéns

© JVieira
Parabéns, Anabela! A vida é um dom maravilhoso. Vive-a!

Lei antipiada



Este mundo está um lugar cada vez mais perigoso. Parece que dizer uma piada já só vai ser permitido entre as paredes de nossa casa – e é se elas estiverem devidamente insonorizadas, não vá o vizinho de baixo ou o de cima ou o do lado sentir-se ofendido.
Imaginem a gente a contar a última do Benfica, e logo o Ernesto, do 5.º esquerdo a bater-nos à porta prometendo queixa na Polícia, porque é sócio do "glorioso", daqueles que até tiveram direito a kit quando se inscreveram, e não admite que se brinque com coisas sérias.
Ou então a gente a contar o último trambolhão que deu para dentro de uma das muitas crateras que infestam os passeios da cidade, chamando nomes ao senhor presidente da câmara (presente e passado) e logo a D. Adelaide do 3.º, que tem uma cunhada que é prima de um afilhado da sogra de um motorista da CML, a avisar-nos que já enviou queixa para quem de direito e que em breve estaremos a ser chamados para declarações, a que se seguirá um processo disciplinar tendo em vista o nosso despedimento de qualquer coisa, de quê ao certo ainda não sabe, mas qualquer coisa, o que é preciso é sermos despedidos, depois se verá de quê.
Perante este descalabro é urgente tomar medidas para que este clima de desconfiança se resolva de uma vez por todas.
Por exemplo à semelhança daqueles guetos que se vão criando por aí para os viciados em tabaco, devia criar-se, em todos os cafés, bares, restaurantes, discotecas e afins, zonas para os viciados em piadolas contra o Governo.
Também nos transportes públicos, evidentemente, haveria áreas demarcadas para os desgraçados que não conseguissem estar mais de cinco minutos sem insultar o ministro da Saúde, e cinco segundos sem desancar na ministra da Educação.
Piadas contra o Sócrates, essas, só apresentando atestado médico, garantindo tratar-se de doença incurável – e para esses arranjava-se salas de chuto devidamente assistidas, em que cada um podia chutar piada atrás de piada até que a metadona começasse a surtir efeito.
Para além de nos proteger a todos desta verdadeira ameaça para a saúde pública, a lei antipiada ainda tinha a vantagem de criar postos de trabalho lado a lado com os fiscais da Emel, por exemplo, andaria o fiscal das piadas à cata de qualquer gargalhada mais dúbia que levasse à imediata detenção do prevaricador – caso não se encontrasse em local permitido por lei.
Por isso, aqui ofereço estas sugestões a todos os candidatos às próximas eleições de dia 15. Isto sem querer intrometer-me em assuntos partidários, claro, não vá o meu vizinho do rés-do-chão, que é mórmon e não vota, pressionar o administrador do condomínio a expulsar-me por estar a agredir as suas convicções...

Alice Vieira, Escritora
Obrigado, Zezita, por esta pérola da Alice

10 de julho de 2007

9 de Julho


9 de Julho representa uma espécie de ponte do Rubicão no Acordo Compreensivo de Paz (CPA) assinado entre o Governo Sudanês e o Exército de Libertação do Povo Sudanês (SPLA) a 9 de Janeiro de 2005.
O CPA impõe que a 9 de Julho de 2007 o V Censo Geral do Sudão esteja completo e o Exército Sudanês tenha retirado dos territórios abaixo da linha de divisão de 1 de Janeiro de 1956 entre o Norte e o Sul do Sudão e as forças do SPLA acima dessa linha.
O 9 de Janeiro passou, o Censo foi adiado para Janeiro - insha Allah - e as Forças Armadas Sudanesas recusam-se a abandonar os campos de petróleo do Sul do Sudão.
O porta-voz das Forças Armadas Sudanesas, Osman al-Aghbash, declarou ao jornal dos militares que 3000 tropas vão permanecer nas áreas de extração de crude depois do 9 de Julho.
Por seu turno, o SPLA continua nas Montanhas Núbias e no Estado de Blue Nile, a norte da linha de fronteira.
Dr. Samson Kuaje, Ministro da Informação do Governo do Sul do Sudão, explicou que o movimento de tropas está a ser dificultado pelas chuvas e que o seu governo tolera um pequeno atraso na retirada das forças sudanesas dos territórios do Sul.
A segurança nas zonas problemáticas de Abyei, Montanhas Núbias, Blue Nile e Unity entre outras
devia passar para as Unidades Integradas Conjuntas, formadas por tropas do norte e do Sul do país. Essa força já foi constituída, mas não está operacional.

9 de julho de 2007

Darfur

© Lusa

AGENTES HUMANITÁRIOS SOB VIOLÊNCIA CRESCENTE

Os agentes humanitários operam no Darfur sob condições de violência crescente e em Junho a situação piorou dramaticamente, indica o relatório sobre segurança de uma agência caritativa presente na província ocidental do Sudão.
Durante o mês passado, foram registados 30 incidentes classificados de sérios e bandidos armados e milícias lançam ataques violentos diários contra organizações não governamentais, escreve o diário londrino «The Independent». No ano passado a média era de 10 ataques por mês.
O relatório denuncia que duas pessoas foram mortas e cinco feridas durante os ataques, 28 agentes humanitários sequestrados e 35 viaturas roubadas, baleadas ou sequestradas.
Em 2006, o Governo de Cartum assinou o Acordo de Paz para o Darfur com uma facção rebelde. O acordo, contudo, não parou a violência. Pelo contrário, o conflito piorou. No último ano mais de meio milhão de Darfurianos procurou refúgio em campos de deslocados internos. Os campos atingiram a lotação máxima, mas os deslocados continuam a chegar diariamente, agências humanitárias alertam.
No Darfur, há cerca de 14 mil agentes humanitários a trabalhar para mais de 80 agências internacionais de ajuda, a maior operação humanitária jamais montada pela ONU.

8 de julho de 2007

Deslocados

O seminário de Alokulu, no norte do Uganda, funciona num campo de deslocados pela rebelião de 20 anos do Exército de Resistência do Senhor (LRA).
A casa de formação alberga 126 seminaristas. Muitos candidatos foram rejeitados por falta de espaço.
O padre Cosmas Alule é o reitor da instituição. Conta que muita gente o pressiona para mudar o seminário do campo de refugiados para um local «mais conveniente e seguro.»
O reitor crê que é bom tanto para os seminaristas como para os deslocados estarem juntos. Por isso, quer manter o seminário onde está.
«Não vamos abandonar os que sofrem; queremos ser solidários com o povo», o padre Alule explicou. «Os futuros padres devem partilhar a vida da gente comum e dar testemunho de Cristo na situação presente».
O seminário de Alokulu fica na arquidiocese de Gulu, mas recebe seminaristas de todo o Uganda.

Mil encantos

© JVieira

6 de julho de 2007

Darfur

NAÇÕES UNIDAS E UNIÃO AFRICANA ORGANIZAM CONFERÊNCIA

As Nações Unidas (ONU) e a União Africana (UA) estão a organizar uma conferência internacional para avaliar o novo plano de paz para o Darfur que devia levar a uma nova fase de negociações com todas as forças envolvidas no conflito.
Radhia Achouri, porta-voz da Missão das Nações Unidas no Sudão (UNMIS) revelou antes de ontem em Cartum que a conferência decorre em Tripoli, Líbia, a 15 e 16 de Julho sob a presidência conjunta da ONU e UA.
Treze países foram convidados para a conferência: Chade, Egipto, Eritreia, os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (Estados Unidos, China, França, Rússia e Grã-bretanha), Canadá, Holanda, Noruega, Líbia e, claro, o Sudão.
A União Europeia e a Liga Árabe também foram convidadas.
Entretanto, a ONU e a UA destacaram a Eritreia e o Governo autónomo do Sul do Sudão como possíveis mediadores para as futuras negociações de paz no Darfur entre os rebeldes e Cartum.
Em Maio do ano passado o governo do Sudão assinou o Acordo de Paz do Darfur (DPA) com uma facção do Exército de Libertação do Sudão (SLA) em Abuja, Nigéria. O DPA não trouxe paz ao Darfur. Pelo contrário, a oposição a Cartum passou de dois movimentos (SLA e JEM) para uma dúzia de grupos e facções.

5 de julho de 2007

Estradas

O Director-Geral do Ministério dos Transportes e Estradas foi o convidado do programa Juba Sunrise desta manhã.
Jacob Marial Maker foi literalmente bombardeado com telefonemas dos ouvistes a protestar sobre o estado das ruas da cidade, os trabalhos de reparação mal feitos e descontinuados, a inexistência de drenagem correcta, a reparação da ponte de Juba prometida em Março e ainda não cumprida.
O programa foi um sucesso. Tivemos que desligar o telefone algumas vezes para o Director Geral poder responder às questões do auditório de Bakhita Radio.
As ruas de Juba são um problema difícil de resolver. Vinte e um anos de guerra e a falta de manutenção transformaram as artérias da capital numa autêntica picada africana.
O Governo prometeu alcatroar os 60 quilómetros das vias de Juba. Um quilómetro de betuminoso custa um milhão de dólares. A recuperação e asfaltamento das ruas da cidade custa 65 milhões. Muito dinheiro.
Espera-se que o novo ministro empossado há dois dias traga novo vigor ao ministério para dar algum respiro aos condutores e à mecânica das viaturas que circulam na capital do Sul.

4 de julho de 2007

Publicidade

© JVieira

As ruas de Juba foram recentemente engalanadas com placas gigantes de publicidade.
Sabões e leite em pó são as vedetas do novo formato publicitário induzidas por sorrisos lindos de jovens simpáticas.
Tudo bastante básico, pode-se argumentar. Mas o poder de compra dos jubanos é limitado e o dinheiro mal chega para o essencial. Juba tem a fama - e o proveito - de ser uma ds cidades mais caras do mundo. Quase tudo é importado.
A capital do sul do Sudão já contava com muita informação urbana em dimensões mais modestas: identificação de edifício e de serviços públicos, anúncios relacionados com a prevenção de malária e da sida, publicidade a hotéis, companhias aéreas, etc. As placas gigantes dão-lhe um ar mais urbano e moderno!

3 de julho de 2007

Remodelação

Tenente-General Salva Kiir © JVieira

Salva Kiir, presidente do Governo semi-autónomo do Sul do Sudão (GoSS em inglês) substituiu seis dos seus ministros na noite de 2 de Julho numa remodelação há muito esperada e desejada.
As substituições mais importantes registaram-se nas pastas da Habitação, Terra e Utilidades Públicas e dos Transportes e Estradas.
O primeiro ministério era acumulado pelo vice-presidente Dr. Riek Machar Teny-Dourghon, que assim vê o seu poder bastante diminuído. O Dr. Machar é também o negociador chefe das conversações de paz entre o Exército de Resistência do Senhor (LRA) e o governo ugandês.
Rebecca Nyandeng De Mabior, a viúva do fundador do SPLA, há muito que era contestada pela fraca prestação à frente do ministério dos Transportes e Estradas. Sobretudo em Juba, onde as ruas se encontram em péssimo estado. Mamã Rebecca é agora Conselheira Presidencial para Questões do Género e dos Direitos Humanos.
O ministério das Finanças e Planeamento económico passa a ter ministro próprio. O ex-titular do ministério está a ser investigado por alegada corrupção e foi substituído interinamente pelo detentor da pasta dos Assuntos Parlamentares que volta a tempo inteiro ao seu ministério.
O cargo das Finanças e Planeamento Económico, entregue a Kuol Athian Mawien, é um dos postos mais quentes do GoSS. O governo está com problemas sérios de liquidez. O orçamento para 2007 tem como entrada única a percentagem da exploração do petróleo. O governo central está a passar ao GoSS cerca de 60 por cento do total orçamentado e o dinheiro não chega para pagar aos militares (que gastam cerca de 40 por cento do orçamento), professores, fornecedores…
Os novos ministros da Habitação, Terra e Utilidades Públicas, dos Assuntos do Conselho de Ministros, dos Transportes e Estradas, das Finanças e de Planeamento Económico, do Trabalho, Serviço Público e Recursos Humanos, dos Assuntos do SPLA, a pasta da Defesa, e da Saúde foram empossados na manhã de 3 de Julho.

2 de julho de 2007

Refracções

© JVieira

INQUIETUDE

Porto seguro eu fui
Mar profundo para muitos
Tempestades acalmei
Recolhi todos os frutos

Saudades para matar
Satisfatórios encontros
Inquietudes a granel
Traições e desencontros

Flecha sem alvo sou
Desejo que não se apaga
Implacável inquietude
Ninguém que me satisfaça
Elvis

1 de julho de 2007

Mil palavras

.
Juba: margens do Nilo Branco ao amanhecer © JVieira

Uganda

O ACORDO DOS ERRES

As delegações do Governo Ugandês e do LRA (Exército de Resistência do Senhor em inglês) assinaram na noite de sexta-feira no Hotel Juba Raha o Acordo de Responsabilidade e Reconciliação.
O documento levou dois meses a ser negociado. Trata dos princípios de responsabilização pelas atrocidades cometidas pelas partes durante os 21 anos de guerra civil no Norte do Uganda em tribunais tradicionais e nacionais e dos mecanismos de reconciliação e de reparação às vítimas do conflito.
O conflito deslocou um milhão e meio de pessoas no norte do Uganda e no Sul do Sudão e fez 12 mil mortos. 25 mil crianças foram raptadas para servirem de soldados ou escravas sexuais, muitos mutilados e inúmeras aldeias saqueadas e queimadas.
O Capitão Varijiba Hoko, porta-voz da delegação ugandesa, disse que a assinatura do terceiro documento da agenda das negociações de paz é um acontecimento importante no processo de paz.
As duas delegações têm agora um mês para propor meios práticos para implementar os acordos assinados, o porta-voz do LRA, Godphrey Ayoo explicou.
O ambiente no salão do hotel onde decorrem as negociações era de euforia e as duas delegações acabaram a cantar juntas o hino nacional ugandês e a dar vivas à república. Uma atitude muito diferente dos primeiros encontros em que os delegados se ignoravam mutuamente.
As partes voltam à mesa das negociações no fim do mês para negociarem os pontos quatro e cinco da agenda das conversações: cessar-fogo e desarmamento, desmobilização e reintegração.

28 de junho de 2007

Darfur

AS PROMESSAS DE PARIS

A Conferência Internacional sobre o Darfur, que decorreu em Paris a 25 de Junho, terminou com uma mão cheia de promessas e pouco mais.
A comunidade internacional prometeu redobrar esforços para pôr termo ao conflito que começou em Fevereiro de 2003 e já fez mais de 200 mil vítimas e para cima de dois milhões de deslocados e refugiados.
Condoleezza Rice, a Secretária de Estado norte-americana, voltou a ameaçar o Sudão, com novas sanções caso Cartum não permita dentro de emio ano o estabelecimento de uma força híbrida das Nações Unidas (ONU) e da União Africana (UA) para parar com o genocídio no oeste sudanês.
O enviado especial da China ao Sudão afirmou que o presidente sudanês «está pronto para negocial a qualquer hora e em qualquer lugar.»
O ministro francês dos negócios estrangeiros, Bernard Kouchne, defendeu a importância de uma solução política para o conflito e anunciou que em Setembro um «grupo de contacto alargado» vai-se encontrar à margem da Assembleia Geral da ONU para discutir o Darfur.
A França pôs de lado 10 milhões de euros para apoiar a Missão da União Africana no Sudão (AMIS em inglês). A Espanha prometeu 5 milhões de euros para a força híbrida ONU/UA e outro tanto em ajuda humanitária. A União Europeia reservou mais 31 milhões de euros para ajudar os darfurianos.
O presidente francês, Nicolas Sarkozy, afirmou no final da conferêcia que «como seres humanos e políticos, devemos resolver a crise do Darfur. O silêncio mata. Temos que mobilizar a comunidade internacional para dizer “Basta!”».

27 de junho de 2007

Refracções

Parque da Paz – Almada © JVieira

ENCONTRAR-ME

Perco-me no mundo
Para a seguir me encontrar
Voltar
A ser
Emergir de mim própria
Quedo-me no silêncio,
Perco a noção do tempo
Que fiz e desfiz
Como um tapete
Que vou tecendo
Com as cores
Do meu ser
Um dia azul
Outro negro carregado
E faço e desfaço
Um dia coloco pérolas
No outro destroços
Perco e encontro-me
Esvazio e encho-me
De mim,
De mim...
Porque tudo começa
E se prolonga no dedilhar
Silencioso
Da penumbra de nós
Quando cai o véu
E vemos claramente
Onde estamos,
Quem somos
E porquê...

25 de junho de 2007

Higiene «pública»

© JVieira

Esta semana, o clero da arquidiocese de Juba está em retiro. O Vigário-geral pediu-me que celebrasse a missa das 7h00 na catedral.
Kator, o bairro da sé, fica a um quarto de hora de carro da Casa Comboni, em Amarat. As ruas são estilo picada africana mas é u
ma experiência interessante ver Juba a acordar!
Esta manhã fui surpreendido por uma moda original: os jubanos gostam de escovar os dentes - e a língua - na rua e muitos andam com a escova de dentes na boca. Até um motociclista!
Vê-se que levam a sério a higiene oral. E têm sorrisos muito bonitos e brancos.

Ah! A elegante escova de dentes substituiu os tradicionais pauzinhos que os miúdos vendem pelas ruas da cidade. Mais um modo de ganhar umas piastras em crise.

23 de junho de 2007

Ambiente

© JVieira

O Sudão não viverá em paz duradoira se o país não responder urgentemente aos desafios da degradação ambiental ampla e acelerada, revela um estudo do Programa Ambiental das Nações Unidas (UNEP).
O UNEP publicou ontem um extenso documento de 354 páginas intitulado «Sudão: Avaliação Ambiental Pós Conflito».
O estudo individualiza a degradação do meio ambiente como uma das raízes para décadas de guerra no maior país africano.
As preocupações maiores são a degradação dos solos, desflorestação, desertificação e o avanço do deserto em direcção ao sul 2,5 quilómetros por ano. Nos últimos 40 anos o deserto cresceu 100 quilómetros.
O processo de desertificação está relacionado com o aumento espectacular dos rebanhos de 27 milhões de cabeças de gado para as actuais 135 milhões.
O documento do UNEP também revela o efeito das mudanças climáticas no Sudão. As chuvas são mais irregulares e escassas nos estados de Cordofão e Darfur.

22 de junho de 2007

O cachorro e a pantera

Um dia, num safari, um cachorrinho começa a brincar entretido a caçar borboletas e quando se dá conta já está muito longe do grupo da expedição.
Nisto vê bem perto uma pantera a correr na sua direcção. Ao perceber que a pantera o vai devorar, pensa rapidamente no que fazer. Vê os ossos de um animal morto e põe-se a mordê-los. Então, quando a pantera está quase a atacá-lo, o cachorrinho diz:
"Ah, estava deliciosa esta pantera que acabo de comer!"
A pantera pára bruscamente e desaparece apavorada pensando:
"Que cachorro corajoso! Por pouco não me comia também!"
Um macaco que estava numa árvore perto e assistiu à cena, vai a correr atrás da pantera para lhe contar como foi enganada pelo cachorro.
Então, a pantera furiosa diz:
"Maldito cachorro! Agora vamos ver quem come quem!"
"Depressa!" - disse o macaco. - "Vamos alcançá-lo...”
O cachorrinho vê que a pantera vem de novo atrás dele com o macaco às cavalitas…
"O que faço agora?"
O cachorrinho, em vez de fugir, senta-se de costas para a pantera como se a não visse e, quando esta está quase a atacá-lo, diz:
"Raios partam o maldito macaco! Há meia hora que mandei trazer-me outra pantera e ele ainda não voltou!"

Moral da história:"Em momentos de crise, a imaginação é mais importante que o conhecimento"
Autor desconhecido

21 de junho de 2007

Tráfico


O tráfico de seres humanos continua a crescer na África oriental.
O LRA (Exército de Resistência do Senhor na sigla em inglês) raptou 25 a 30 mil crianças durante os 20 anos de guerra no Norte do Uganda. Muitas acabaram no Sudão e na RD Congo, revelou um secretário de estado do governo ugandês.
O Gabinete das Nações Unidas para as Drogas e Crime (UNODC) afirma que mulheres e meninas são as grandes vítimas do tráfico de seres humanos. Muitas são obrigadas a entrar na prostituição e outras formas de exploração sexual.
Os homens traficados acabam a trabalhar na agricultura industrial, minas pedreiras e outras condições de trabalho perigosas.
Meninas e meninos são usados na indústria têxtil, pesca e agricultura.
O tráfico de seres humanos é uma forma de crime organizado que gera por ano 32 mil milhões de dólares. O director do UNODC, Jeffrey Avina, diz que cerca de 2,7 milhões de pessoas são traficados por ano em 127 países.
Estes dados foram revelados durante a primeira conferência regional contra o tráfico de seres humanos na África oriental a decorrer em Campala, a capital do Uganda.
Chefes da polícia, agentes da emigração e trabalhadores humanitários do Burundi, Ruanda, Tanzânia, Quénia, Uganda, Jibuti, Somália, Eritreia, Etiópia, Sudão e Seicheles participam na conferência. O evento faz parte da Inicitiva Global para Lutar contra Tráfico de Pessoas, lançada pela ONU em Março de 2007.

Paris

LÍDERES MUNDIAIS DISCUTEM DARFUR

Líderes mundiais incluindo Estados Unidos, China, Rússia e Japão, vão reunir com representantes da ONU e da União Europeia em Paris na segunda-feira para discutir a situação no Darfur, anunciou o ministério francês dos negócios estrangeiros.
Representantes dos Estados Unidos, Grã-bretanha, Canadá, Dinamarca, Egipto, Alemanha, Itália, Holanda, Noruega, Portugal e Suécia confirmaram a participação na Conferência de Paris.
A União Africana e o Sudão muito provavelmente ficam de fora em protesto por não serem previamente consultados sobre a iniciativa.
O encontro é organizado pelo recém-eleito presidente francês, Nicolas Sarkozy. Pretende juntar todos os países envolvidos no conflito do Darfur juntamente com a China para discutir uma solução política e questões humanitárias e de segurança, explicou a agência AFP.

20 de junho de 2007

Viajar

© JVieira

A UNICEF organizou um seminário sobre comunicação para radialistas e funcionários do Governo e convidou-me a apresentar o tópico Escrita Jornalística.
O seminário decorreu em Yei, uma pequena cidade verde a 169 km a sul de Juba, próxima da fronteira da RD Congo.
A minha apresentação correu bem, mas o mais interessante foi a viagem de regresso.

Para Yei fui com a UNICEF. Como tinha pressa de regressar a Juba para cobrir a visita do Eng. António Guterres, tive que utilizar os transportes públicos.
O «autocarro» era uma carrinha Hiace. Normalmente leva nove pessoas. Mas a que usei está «adaptada» para transportar 15 em cinco filas de três passageiros! Devidamente apertados e com a bagagem nos joelhos.
A estrada é de terra batida e esburacada qb. Atravessa uma paisagem variada: desde os mangueirais de Yei, aos campos de milho e de batata doce, palmares, campos de minas, o aterro «informal» onde parte do lixo de Juba vai parar...
As pontes, na maioria artesanais, estão em muito mau estado com grandes buracos feitos pelos veículos pesados que transportam do Uganda e do Congo os produtos que mantêm Juba!
Aqui e além carcaças de veículos civis e militares testemunham a guerra que terminou em 2005 com o Tratado Compreensivo de Paz entre o SPLA e o Governo de Cartum.
O trajecto Yei-Juba levou quase seis horas a percorrer com uma paragem de 45 minutos numa zona onde decorriam actividades de desminagem.
Cheguei a Juba a tempo de participar na conferência de imprensa do Eng. Guterres. Mas tenho a impressão que os órgãos internos estavam todos fora do sítio de tão chocalhado que fui!

E tive que tomar uma «boda-boda», a motorizada-táxi para chegar a casa. Mas o piloto foi impecável: super-cuidadoso e simpático. Mereceu o euro que tive que pagar!

Refugiados

Eng. Guterres cumprimenta funcionária do ACNUR à chegada a Juba © JVieira

O Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), Eng. António Guterres, revelou ontem Juba que o número de refugiados está próximo dos dez milhões.
Conflitos novos ou agravados no Darfur, Somália, Palestina, Líbano, Iraque e Afeganistão estão por detrás do aumento, o Eng. Guterres explicou.
O ACNUR encontrou-se com os jornalistas no aeroporto de Juba depois de ter acompanhado um grupo de refugiados sudaneses que regressou do Uganda para Kajo Keji.
O Eng. Guterres preside hoje às celebrações do Dia Internacional do Refugiado em Juba.

16 de junho de 2007

Infância Sudanesa

Meninas de Kworijik, Central Equatoria © JVieira
A UNICEF calcula que haja no Sudão cerca de 10 mil crianças-soldado;
A ONU diz que 21 dos 26 estados sudaneses estão minados e têm munições por explodir pondo em risco a vida das crianças;
Investigações recentes indicam que 42 por cento dos casamentos são de crianças com menos de 18 anos;
Só 39 por cento das crianças são registadas ao nascer;
No norte do Sudão quase 70 por cento das meninas e mulheres são vítimas de mutilação genital feminina;
No ano passado, em média dois bebés eram abandonados por dia em Cartum;
Noventa por cento dos casos registados no Centro da polícia para Mães e Crianças estão relacionados com ofensas sexuais ou relacionadas com a questão feminina;
A UNICEF calcula que pelo menos metade das crianças sudanesas praticam alguma forma de trabalho.
Hoje celebra-se o Dia da Criança Africana.

14 de junho de 2007

Darfur

KI-MOON APALUDE SIM DO SUDÃO
À FORÇA DE PAZ PARA O DARFUR


O Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, classificou de «marco histórico» o sim do Sudão ao envio de uma força híbrida de paz da ONU e da União Africana (UA) para o Darfur.
O Sudão aceitou na terça-feira em Adis Abeba o envio de uma força híbrida de paz formada por 17 a 19 mil soldados e polícias da ONU e da UA para substituir a força de paz africana que tem sido incapaz de pôr termo à violência que consome a província ocidental sudanesa desde 2003.
Contudo, funcionários da ONU reconhecem que as estruturas de comando e a captação rápida de forças para a missão de paz são desafios importantes.
O Secretário de Estado do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Sudão, Dr. Mutrif Sideek, explicou que a afirmação de que o governo Sudanês mudou de opinião rejeitando a força híbrida e aceitando-a agora é uma «inverdade».
«O Governo sudanês desde o ano passado que acolheu as fases sucessivas até chegar ao estádio da operação híbrida», o Dr Sideek afirmou ontem em Khartoum numa conferência de imprensa.
O acordo assinado em Adis Abeba entrega o comando das operações diárias à União Africana e o comando global da força híbrida às Nações Unidas. Contudo, o documento não esclarece como o comando conjunto ONU-UA vai funcionar na realidade.
Entretanto, o Presidente George W. Bush anunciou ontem que os Estados Unidos vão endurecer as sanções contra o Sudão apesar de Cartum ter aceitado a força híbrida para o Darfur.
Discursando via satélite no Encontro Anual da Convenção Baptista do Sul, o presidente Bush disse que Condoleezza Rice, encarregada dos negócios estrangeirtos norte-americanos, estava a estudar com os aliados a preparação de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU para alargar o embargo de armas ao Sudão e fechar o espaço aéreo do Darfur a voos militares sudaneses.
O Governo de Cartum tem praticado um autêntico jogo de yo-yo sobre o estabelecimento de uma força híbrida de manutenção de paz no Darfur.
O conflito no Darfur estalou em 2003 e já matou mais de 200 mil pessoas. Mais de dois milhões de darfurianos tiveram que abandonar as suas casas.

Viva!

Um encontro imediato de terceiro grau com uma mosquita Anopheles manteve-me cinco dias afastado do blogue. É verdade: acabo de curar a primeira malária sudanesa. Nada que se compare com a (única) crise de paludismo que tive na Etiópia. Mandou-me para o hospital durante quatro dias! Este foi um episódio menor apesar dos inconvenientes. E o tratamento evoluiu muito: o Cuarten é um medicamento que debela a crise sem grandes custos para o organismo hospedeiro.
Durante esta ausência forçada, o DN Gente publicou o meu perfil na secção Portugueses. O artigo foi escrito pela Helena Tecedeiro depois de uma longa conversa telefónica.
O Sudan Radio Service está a desenvolver uma semana de formação para o pessoal da Rádio Bakhita. Um curso prático que começou com a avaliação de alguns dos programas produzidos pela casa para determinar as fraquezas do grupo de trabalho. O curso cobre aperfeiçoamento de técnicas de entrevista, locução, gravação e edição de programas e código odontológico.
O programa matutino Juba Sunrise continua a crescer em qualidade e participação. A dupla Nyero Alex e Oyet Patrick está mais entrosada e os dois radialistas mais incisivos no desenvolvimento dos temas. Os últimos foram Darfur, moralidade e tribalismo. Os ouvintes estão a interagir cada vez mais através de telefonemas.
Como não há bela sem senão, o fornecimento de energia eléctrica ao transmissor é muito errático e a emissão tem sofrido alguns cortes diários, apanhando «nas covas» o técnico que opera o gerador até o sistema de ligação automático chegar de Nairobi. A companhia da electricidade de Juba continua a expandir a rede e às vezes tem necessidade de proceder a cortes temporários. Outras vezes são meio permanentes como o que demorou todo um fim de semana, porque a central ficou sem gasóleo. Acontece a quem se esquece de controlar stocks.

Estamos todos a aprender!

8 de junho de 2007

Juba Sunrise

Alex e Patrick © JVieira

Rádio Bakhita começou hoje a sua emissão matutina. O programa, transmitido em directo, das 7h00 às 10h00, chama-se Juba Sunrise (nascer do Sol em Juba) e é animado pelo jornalista Nyero Alex e pelo apresentador e técnico de emissão Oyet Patrick.
Juba Sunrise tem o formato de um magazine, misturando música com notícias e comentários. Os ouvintes participam através do telefone.
A primeira emissão experimental foi um sucesso. A carta aberta dos sudaneses que trabalham na ONG Save the Children UK ao Governo do Sul do Sudão a denunciar descriminação por parte do pessoal estrangeiro e a sugestão do Presidente da Zâmbia, Levy Mwanawasa, aos membros do G8 para criarem leis que facilitem o «repatriamento» de dinheiros da ajuda internacional desviados pelas elites africanas para contas pessoais nos bancos ocidentais, foram os temas principais.

6 de junho de 2007

Olhos no Darfur


Amnestia Internacional (AI) lança hoje o sítio Eyes on Darfur – Olhos no Darfur – para publicar fotografias das atrocidades cometidas na oeste do Sudão.
As fotos tiradas por um satélite de alta resolução documentam os crimes que o Governo sudanês nega.
Eyes on Darfur usa tecnologia de ponta para proteger os direitos humanos. Os observadores podem «vigiar» e proteger 12 aldeias altamente vulneráveis do Darfur que ainda estão intactas.

G8

By Gado in «Daily Nation»

5 de junho de 2007

O meu popó

© JVieira

Mais um passo

O transmissor de Rádio Bakhita foi esta tarde finalmente ligado à rede pública de electricidade de Juba.
A ligação vai possibilitar o alargamento de emissão e o seu embaratecimento. Desde 8 de Fevereiro que a 91 FM A Voz da Igreja, transmite diariamente das 17h00 até às 21h00. Os estúdios e o transmissor eram alimentados por dois geradores a diesel.
O novo período de emissão vai ser prolongado até às 22h00 em emissão programada e termina às 9h00 da manhã seguinte em programação automática com música e «jingles».
Sudan Radio Service, Serviço de Rádio Sudão, vai orientar um curso intensivo para o pessoal da Rádio Bakhita em técnicas de gravação, locução e entrevistas na próxima semana.
O Serviço de Rádio Sudão transmite para o Sudão em onda curta a partir do Quénia. É patrocinado pela USAID, a organização de ajuda internacional do Governo norte-americano.

4 de junho de 2007

Uma cultura de partilha

No dia 3 de Dezembro de 2003, Deus dava-me a graça de voltar à Etiópia, pela segunda vez. Regressava ao mesmo povo de quem me tinha despedido há nove anos. Era o povo Sidamo, no Sul da Etiópia. A missão de Teticha, iniciada pelos Missionários Combonianos em 1974, era novamente o meu destino.
À volta da missão, crescia um grupo de pessoas eternamente dependentes das «esmolas» dos missionários, pessoas a quem os familiares negavam os gestos de solidariedade próprios da sua cultura.
Comecei por interpelar alguns líderes na área do ensino, da saúde e doutros sectores sociais. Eram jovens que se sentiam agradecidos à missão por lhes ter dado a possibilidade de crescer na vida, não só a nível cristão como também a nível humano. Com eles, começámos a projectar a criação de dois grupos: o grupo da Assistência aos Pobres e o grupo dos Trabalhadores Católicos. Através deles, deveria passar a ajuda aos necessitados e o apoio aos estudantes.
Na primeira sexta-feira de cada mês, ao celebrar o Coração de Jesus, a comunidade fazia um grande ofertório para os pobres. Alguns trabalhadores começaram a oferecer parte do seu salário para os mais carenciados. A Asteri Dubale, agradecida pelo seu primeiro emprego como assistente social, entregou parte do seu primeiro salário para os pobres. E o Lema Lalimo, engenheiro agrónomo, ao ser eleito para coordenar o grupo de Assistência aos Pobres, começou o seu serviço oferecendo o salário de um mês para o fundo dos pobres.
Entretanto, a morte do meu pai, no passado mês de Novembro, trouxe-me a Portugal. Pensava voltar à Etiópia após duas ou três semanas, mas questões de saúde acabaram por adiar o meu regresso. Encontrando-me em Viseu, para tratamento médico, recebi no mês de Março uma carta emocionante do catequista Samuel Fena, em nome de toda a comunidade cristã de Teticha:
«Querido Abba Ivo,
A notícia da tua doença apanhou-nos como um relâmpago. Não queríamos acreditar. Ao sabermos da tua situação, juntámo-nos todos, como de costume, na primeira sexta-feira do mês, para pedirmos ao Coração de Jesus que te curasse. Estamos confiantes que Ele nos vai ouvir e tu vais voltar novamente para o meio de nós. Decidimos fazer o ofertório para ti. Recolhemos 700 birr. É uma pequena ajuda dos irmãos que deixaste em Teticha para pagares os medicamentos que, com a graça de Deus, te hão-de trazer a cura.»
Este gesto deixou-me emocionado. Setecentos birre, corresponde a setenta euros, mas para aquelas pessoas é muito… É o equivalente a mais de três salários mensais.
Quero olhar para estes setenta euros como Jesus olhou para as duas moedinhas que a viúva pobre deitou no cofre do tesouro de Jerusalém.

Padre Ivo do Vale, Missionário Comboniano
Versão integral do artigo em «Além-Mar»

3 de junho de 2007

Domingo


Como adoro as manhãs preguiçosas de domingo.
Adoro acordar devagar, deixar que os ouvidos se habituem calmamente ao cantar dos pássaros, ao eco das vozes, ao rumor dos motores, aos sons da vida que me envolvem.
Adoro caminhar lentamente pelo terreiro da missão, admirar a luz pálida da manhã, as cores das buganvílias, das acácias encarnadas e de outras flores. As lagartixas e outros répteis vestidos de multicores.
Adoro sentar-me na capela e rezar com calma a liturgia dominical. Às vezes com a Cati ao colo.
Adoro participar na Eucaristia paroquial, sentir o ritmo dos cânticos, a força da Palavra, a solidariedade da oração conjunta.
Adoro o almoço simples num restaurante barato, tempo de dois dedos de conversa despreocupada com os colegas.
Adoro a manhã do domingo porque a tarde é como todos os outros dias: a escrever notícias e tratar sons na Rádio Bakhita.

2 de junho de 2007

Sanções

O presidente do Governo semi-autónomo do Sul do Sudão, General Salva Kiir, afirmou que «as sanções [impostas pelos Estados Unidos ao Sudão] não resolvem os problemas do Darfur.»
O Genral Kiir fez esta afirmação em Oslo, na quinta-feira, no final de uma visita de dois dias à Noruega.
O presidente do Sul do Sudão afirmou que as sanções que o Presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, ondenou na terça-feira contra 30 companhias sudanesas e três particulares prejudicam o Sul do Sudão. Algumas das companhias sancionadas estão relacionadas com a indústria da extração do petróleo.
«Vai haver um impacte na população civil porque se as sanções vão em profundidade na base económica, afectarão as pessoas», disse o genral Kiir. «O Sul do Sudão vai ser atingido em primeiro lugar, porque as suas entradas vêm exclusivamente [da extracção] do petróleo.»

De facto, a única entrada no orçamento do governo do Sul do Sudão por enquanto é a sua quota parte dos proventos da exloração do crude no Sul do país.
O Governo do Sul do Sudão em dois anos de funcionamento ainda não tem em funconamento algum mecanismo de recolha geral de taxas.

1 de junho de 2007

Darfur

O MILAGRE DA PAZ

Aquando do massacre em Timor, os Portugueses uniram-se, quiseram e aconteceu algo que ainda hoje parece um milagre. No Sudão, o milagre não seria menor se Ibtissam pudesse cumprir o seu nome e voltasse a ser puro Sorriso num Darfur onde todos tivessem direito à vida e à paz.

Awad tem uns 30 anos. Casou com Ibtissam (Sorriso). Têm um filhote, Bahkit, e são do Darfur – a casa dos Fur –, a província ocidental do Sudão. Viviam em Khur el Bashar, perto de El Fashir. Os janjauid, as milícias árabes, atacaram a aldeia: casas queimadas, mulheres violadas, dezenas de mortos, gado roubado. Os sobreviventes refugiaram-se em Manauachi.
Três meses depois decidiram voltar. Pensavam que o furacão de morte tinha passado. Mas enganaram-se. Os ginetes – é este o significado de janjauid em árabe – voltaram montados em camelos e cavalos para secar a aldeia da sua gente. Khur el Bashar significa torrente do homem. Três anos depois do último ataque é um leito seco sem vivalma.
Awad é agricultor como a maioria dos muçulmanos negros do Darfur. «Trabalhava nos campos, sempre tive o suficiente para a minha família e para os meus pais. Agora vivo no campo de deslocados de Dereje. Todos os dias vou a Nyala à procura de trabalho. Mas não é fácil. A cidade está cheia de desempregados como eu. Vêm dos campos de Dereje e de Kalma. A minha mulher cuida do menino e trabalha na Organização de Beneficência. Ganha alguns dinares», diz. «Mas a maioria dos deslocados limita-se a ficar no campo, por fraqueza, doença ou pela idade.»

Um genocídio regional

A guerra civil do Darfur começou em Fevereiro de 2003. Rebeldes do Exército de Libertação do Sudão (SLA), e mais tarde o Movimento de Justiça e Igualdade (JEM) – as siglas correspondem aos nomes em inglês –, pegaram em armas contra Cartum, acusando o Governo do Sudão de discriminar os agricultores negros em favor dos pastores árabes.
O Governo de Omar el Bashir respondeu com as milícias janjauid. Em quatro anos, mais de 200 mil pessoas morreram, 2,5 milhões foram deslocados e quatro milhões carecem de ajuda. Cerca de 1500 aldeias foram apagadas do mapa.
O genocídio alastrou ao Chade e à República Centro-Africana. Os janjauid atacam além-fronteiras e começaram a matar árabes. Nos desertos inóspitos do Leste do Chade vivem 235 mil refugiados sudaneses e 140 mil deslocados internos chadianos. Todos fogem da limpeza étnica dos janjauid.

A táctica de Bashir

As Nações Unidas montaram no Darfur uma vasta operação humanitária. Catorze mil funcionários tentam aliviar as necessidades de quatro milhões de vítimas do conflito. A sua acção, contudo, é limitada pela insegurança.
A União Africana (UA) destacou 7000 homens para a região. A Missão da UA no Sudão (AMIS em inglês) está no Darfur desde Junho de 2004, mas é incapaz de travar a matança dos janjauid. Os soldados são poucos, mal armados e mal treinados.
Kofi Annan, ex-secretário-geral das Nações Unidas, propôs reforçar a AMIS com uma força híbrida de 23 mil capacetes azuis da ONU e soldados da UA. Omar el Bashir não aceita. Nega que haja violações no Darfur, diz que «no Sudão somos todos negros», que as vítimas dos «confrontos tribais» não passam os 9000, que o contingente africano chega para patrulhar uma área do tamanho da França. Depois de muita pressão internacional, apenas aceitou que 3000 polícias e militares da ONU dêem apoio técnico à AMIS.

Uma guerra muito suja

O Conselho dos Direitos Humanos da ONU enviou uma missão ao Darfur em Fevereiro passado. Os delegados escreveram que a situação do Darfur é «caracterizada pela violação sistemática e brutal dos direitos humanos e infracções graves da lei humanitária internacional».
E continuam: «A matriz principal [do conflito] é uma campanha violenta de contra-rebelião levada a cabo pelo Governo do Sudão em concerto com os janjauid; as milícias alvejam sobretudo civis.»
O relatório denuncia constantes atentados de todo o tipo contra os direitos humanos das populações: assassínios, torturas, violações, deslocações forçadas e prisões arbitrárias. A ONU acusa as forças armadas do Sudão de atacar alvos civis com aviões e veículos pintados com as insígnias da AMIS.

O xadrez dos interesses

Há vastos interesses em jogo no tabuleiro do Darfur. Os Estados Unidos denunciaram o genocídio, mas limitam-se a fazer ameaças. Isto porque o Sudão se tornou uma fonte importante de informação acerca dos movimentos dos terroristas e um aliado na luta norte-americana contra o terrorismo internacional.
A China, por seu turno, protege Cartum das sanções no Conselho de Segurança da ONU com o seu direito de veto. A razão é ainda mais óbvia: o Sudão é o seu maior fornecedor de petróleo e um parceiro económico importante. Entretanto, a Líbia e a Eritreia querem vigiar a fronteira entre o Chade e o Sudão; a Liga Árabe e o Egipto tentam manter o diálogo entre El Bashir e Ban Ki-moon, o secretário-geral da ONU.
O Governo semiautónomo do Sul do Sudão criou uma missão especial para o Darfur e pretende organizar uma cimeira com todas as forças rebeldes. Até porque a comunidade internacional tem centrado as suas atenções no Oeste do Sudão, e o Sul, que há tão pouco tempo saiu de uma violenta, demolidora e longa guerra civil, não está a receber as ajudas nem os investimentos que esperava. Decisivos para a sua reconstrução e para a construção de um futuro de paz, principalmente quando no horizonte se perfila um referendo sobre a sua autonomia.

O acordo da Rolls Royce

O governo de Al Bashir divide para reinar, diz que sim hoje e que não amanhã e só se sentará à mesa das negociações se a tal for forçado por uma diplomacia musculada que recorra a medidas punitivas concretas.
Especialistas defendem que a presença de uma força híbrida de 23 mil soldados no Darfur não é suficiente, que tem de ser complementada pelo congelamento das contas sudanesas no estrangeiro, a interdição do espaço aéreo do Darfur, a limitação das viagens dos líderes sudaneses ao exterior – e, para pressionar a China, nada sensível a violações dos direitos humanos, aproveitar a proximidade das Olimpíadas de Pequim de 2008, tão importantes para a imagem que a liderança chinesa quer dar ao mundo, para pôr termo ao genocídio.
Cabe à União Europeia (UE) liderar uma ofensiva diplomática que force Cartum a encontrar uma solução política para o Darfur através de um Acordo Compreensivo de Paz entre todas as partes envolvidas, como aconteceu com a guerra civil no Sul do Sudão. O Acordo de Paz assinado entre Cartum e uma facção do SLA a 5 de Maio de 2006 morreu à nascença. Neste caso, fora a Rolls Royce a abrir caminho: a empresa britânica, que fornecia motores à indústria petrolífera sudanesa, suspendeu todas as actividades no país como forma de protesto pelo que se passa no Darfur.

O papel de Portugal

Se uma só empresa pode tanto, uma comunidade internacional decidida e unida poderá muitíssimo mais. Mas não só a diplomacia, as organizações internacionais e humanitárias, os governos ou os actores económicos têm um papel a desempenhar. Cabe à sociedade civil europeia, fazendo jus às tradições humanistas de uma Europa de matriz cristã, pressionar os políticos e os decisores para que estes deixem as meias-medidas e as meias-tintas e se decidam de vez a pôr termo ao genocídio no Oeste do Sudão. Na hora em que Portugal assume a presidência da UE, os Portugueses e o seu Governo têm uma responsabilidade acrescida.
Aquando do massacre em Timor, os Portugueses uniram-se, quiseram e aconteceu algo que ainda hoje, apesar de todas as vicissitudes, parece um milagre. No Sudão, o milagre não seria menor se Ibtissam pudesse cumprir o seu nome e voltasse a ser puro Sorriso num Darfur onde todos tivessem direito à vida e à paz.

Texto escrito para as revistas da MissãoPress