30 de dezembro de 2007

NATAL


O Natal deste ano foi uma longa celebração.
No dia 24, depois do jantar – um jantar normal – as duas comunidades reunimo-nos na capela para uma hora de oração com alguns amigos. Um momento tranquilo. Fomos guiados por um «powerpoint» que preparei com a Ir. Cecília, a directora da rádio. Acolhemos Jesus, recordámos outros natais em latitudes diferentes, rezamos pelas nossas famílias, pelo Sul do Sudão, pela paz.
Depois da oração, fizemos uma ceia de Natal na casa das irmãs. A Ir. Sandra fez um bolo – é uma óptima doceira –, a Ir. Domenica fez torrão de umas sementes locais, a Ir. Cecilia preparou «piña colada», as outras irmãs prepararam diferentes acepipes. A ceia foi um espaço de convívio e fraternidade. Houve também troca de presentes. O Menino Jesus foi bom para comigo: trouxe-me uma garrafa de tinto alentejano (Vinha do Monte). Como é que ele sabe que eu gosto da «pomada» alentejana?
Depois da ceia fomos à Missa do Galo: à paróquia ou à Sé. Eu fui à Sé com dois irmãos e desfrutei daquela hora e meia de oração comunitária, a meia-luz. Senti-me mesmo bem. Respirava uma serenidade e uma paz indizíveis.
De regresso a casa, encontrámos as ruas de Juba cheias de gente nova, vestidos para a festa, a passear na escuridão. Um fenómeno que também se repete na Páscoa. As as motorizadas a zumbir por todo o lado! Com pequenos choques de permeio.
No dia 25, a Ir. Cecília e eu fomos convidados a participar na festa de Natal da Selma – uma algarvia – e do Marc (australiano). Fomos depois do trabalho – porque a Rádio Bakhita não fecha!!! – e conhecemos gente interessante que trabalha para a ONU ou com ONG.
No dia seguinte, Skye – a correspondente da Reuters – convidou-nos para panquecas. Uma hora bem passada a conversar com novos amigos.
No dia 28 o pessoal da arquidiocese de Juba juntou-se com o arcebispo para o piquenique do Natal.
O sítio – Rejaf – é encantador: um bosque de mangueiras junto ao Nilo Branco.
O piquenique foi uma mistura de convívio, discursos, jogos, almoço…
O arcebispo Paolino Lukudu Loro disse que gostava que o pessoal da arquidiocese se sentisse feliz. Também revelou que o processo de paz que o Sul do Sudão está a viver é um desafio grande para a Igreja: alguns padres, irmãos e irmãs abandonaram o apostolado para trabalharem para o Governo ou organismos humanitários.
No fim do piquenique fez-se a geminação de comunidades – a comunidade gémea dos combonianos é um padre americano Maryknoll que vive do outro lado da rua e que celebra a missa e toma o pequeno almoço connosco – e foram eleitos os amigos do ano. A minha amiga chama-se Ir. Georgina Nyayath e pertence a uma congregação local.
Ah! Descobri que é seguro nadar no Nilo em Rejaf. Um padre que trabalhou na paróquia, disse-me que costumava nadar lá, que os crocodilos não chegam àquela parte. Já tenho onde passar as manhãs de sexta-feira, o meu dia de folga.
Rejaf – uma missão construída pelos combonianos nos anos trinta – fica a 14 quilómetros de Juba na outra margem do Nilo Branco.

25 de dezembro de 2007

EU, MENINA... E ELE

© JVieira

Eu, menina, sentado na calçada sob um sol envergonhado, observava a movimentação das pessoas em volta e tentava compreender o que ocorria.
– Que é o Natal? – indagava-me, em silêncio.
Eu, menina, ouvira falar que aquele era o dia em que o Menino Jesus, vinha deixar-nos as prendas... mas como poderia uma criança acabada de nascerfazer isso?
Perguntava-me eu em silêncio... e pensei que nessa noite não iria dormir. Ficaria ali ao relento esperando o Menino Jesus... e os meus presentes...
Até o podia ajudar! Como conseguiria Ele com tantos presentes, sim porque os miúdos são uns chatinhos, a pedir tanta coisa...
E eu, menina, concluía que não deveria ser isso o Natal.
Talvez fosse um dia especial, em que as pessoas abraçassem seus familiares e fossem mais cordiais umas com as outras. Talvez fosse o dia da fraternidade e do perdão.
– Mas, então por quê eu, aqui sentada, não recebo sequer um sorriso, e as pessoas correm apressadas de um lado para o outro, cheias de sacos e saquinhos, embrulhos e embrulhinhos – inquiria-me, perplexa.
– E por que trabalha a polícia no Natal?
E eu, menina, entendia que não devia ser assim...
Imaginava que talvez o Natal fosse um dia mágico em que as pessoas enchiam as igrejas em busca de Deus.
– Então, porque não saem de lá melhores do que entraram? – debatia-me, na ânsia de compreender aquela ocasião enigmática.
Via risos, mas eram gargalhadas que escondiam tanta tristeza e ódio, tanta amargura e sofrimento...
E eu, menina, mergulhada em tão profundas reflexões, vi aproximar-se um homem. Era um belo homem. Não era gordo nem magro, tão alto quanto baixo, nem branco nem preto, nem pardo, amarelo ou vermelho.
Era apenas um homem com olhos cor de ternura e um sorriso em forma de carinho que, numa voz com tom de afago, saudou-me:
– Olá, menina!
– Olá! – respondi, meio tímida. Achava impossível que alguém conseguisse ver-me ali, no meio da correria em que andavam...
E, num quase êxtase de admiração, vi-o acomodar-se a meu lado, na calçada, sob o sol envergonhado.
Eu, menina, na naturalidade de menina, aceitei-o como amigo num olhar. E atirei-lhe a pergunta que me inquietava e entristecia:
– O que é o Natal?
Ele, sorrindo ainda mais, respondeu-me, sereno:
– É o meu aniversário!
– O que dizes? O teu Aniversário? Então e o que andas por aqui a fazer? Porque não estás em casa onde estão os teus familiares?
– Essa – falou-me, apontando a multidão que corria – é a minha família.
Eu, menina, não compreendi.
– Também tu fazes parte da minha família... – acrescentou, aumentando a confusão.
– Não te conheço! – rebati.
– É por que nunca te falaram de mim. Mas eu conheço-te. E amo-te...
Estremeciam-me de emoção aquelas palavras, na minha fragilidade de menina.
– Deves estar triste! – comentei. – Estás só no dia do teu aniversário...
– Neste momento estou contigo! – respondeu-me, meneando a cabeça negativamente.
E conversamos. Uma conversa de poucas palavras, muito silêncio, muitos olhares e um inefável transbordar de sentimentos, naquela prece que fazia arder o coração e a própria alma.
O sol entregou o céu às estrelas.
E conversamos. Eu, menina, e Ele.
E Ele falava-me, e eu amava-o. E eu absorvia-o. E eu sentia-o.
Eu, menina: cordas. Ele: artista. E fez-se a melodia entre nós!...
E eu, menina, sorri...
Quando a noite cedeu vez à madrugada, enquanto piscavam as luzes que adornavam as casas, Ele ergueu-se e pressenti que era a despedida. Suspirava, de alma renovada.
Abracei-o pela cintura, dizendo:
– Toma o meu presente... Feliz aniversário!
Ergueu-me no ar, com seus braços fortes-fracos, tão fortes quanto a paz, e disse-me:
– Presenteia-me compartilhando este abraço com a minha família, que também é tua... Ama-os com respeito. Respeita-os com ternura. Sê terno com carinho. Acaricia-os com justeza. Julga-os com amor... E tem um feliz Natal!
Porque não quisesse vê-lo ir-se embora, saí a correr pela rua. Abandonei-o, levando-o para sempre no mais íntimo do coração. Fui em busca de braços que aceitassem os meus...
E eu, menina, nunca mais o vi. Mas aquele Amigo da noite de Natal: Jesus... ficou sempre o MEU AMIGO!
E eu, menina, sorri...

24 de dezembro de 2007

BOAS FESTAS

Moses Wanjiuki © JVieira

Esta é a voz do meu amado; ei-lo aí, que já vem.
O meu amado fala e me diz: «Levanta-te, meu amor, e vem. O tempo de cantar chega. Levanta-te, meu amor, e vem. Mostra-me a tua face, faz-me ouvir a tua voz, porque a tua voz é doce, e a tua face graciosa.»
Cântico dos Cânticos, 2, 8. 10. 12b. 13-14)

Neste Natal Jesus convida-te a ires até Ele, porque és @ seu/sua amad@. Aceita o desafio e vai! Acolhe-o e ama-o no teu próximo!
Feliz Natal cheio da ternura de Deus-Menino.

22 de dezembro de 2007

SUL DO SUDÃO EM NÚMEROS

Os resultados de um levantamento-piloto de 100 famílias do Sul do Sudão – dez agregados por estado – apresentam uma imagem chocante da saúde na região.
102 crianças morrem em cada 1000 partos.
13,5 por cento das crianças do Sul do Sudão morrem antes de chagarem aos cinco anos.
2,7 por cento das crianças estão totalmente imunizadas através de vacinas.
32,98 por cento da população sofre de mal nutrição.
2054 mulheres morrem em cada 100 mil partos, a taxa de mortalidade maternal mais elevada do mundo.
Em média cada família está a cerca de 45 minutos de um ponto de água.
13,1 por cento da população tem acesso a água tratada.
16 por cento das crianças frequentam a escola primária e 1,9 por cento completam-na.
16,7 por cento das mulheres casam antes dos 15 anos e 40,7 por cento antes dos 18.
42,4 por centos dos homens são polígamos.

ANGEL CORAZÓN

© JVieira

The Angel of the Lord was sent to me!
She does not have wings
but her heart flies
and makes mine fly too
with her inspiration and radiance
in a hug of wonderment and belonging.
I called my Angel Corazón.
I was living aloft
and God sent Corazón
to pull me down
with the gravity of her pro–vocations
and the weight of her suffered wisdom.
We built our holy ground
by the mighty river
and there we share our lives
over a beer.
We have walked hand in hand,
heart in heart,
the path of disclosure and acceptance,
of vulnerability.
My Angel awakened my tenderness,
rekindled my endearment and attention,
warmed up my heart,
brought me peace and self-acceptance.
My Corazón made me present
and available
and I became an Angel too.
I love Corazón,
my guardian Angel and my Sister.
Yet, my Angel is not mine.
She has other hearts to tender
and I am thankful for that too.
Angel Corazón,

Amorcito,
is God’s blessing
and his loving gift.
Shukran!
Cheers, Great Mate!
Cheers, Compañera.


Bishoftu - Ethiopia, December 14, 2007
Tahesas 4, 2000 ALH

LEITURAS

JESUS DE NAZARÉ

Bento XVI apresenta no primeiro volume «Jesus de Nazaré» a sua «busca pessoal pelo rosto do Senhor.»
O Papa escreve que Jesus é importante porque trouxe Deus.
Pegando nas narrativas evangélicas e cruzando-as com outros textos bíblicos através do método de exegese canónica, Bento XVI aborda alguns temas fundamentais da vida de Jesus: baptismo, tentações, Evangelho do Reino de Deus, Sermão da Montanha, o Pai-nosso, discípulos, a mensagem das parábolas, as imagens principais do Evangelho de João, a confissão de Pedro e a transfiguração e finalmente, a identidade de Jesus.
O livro cruza textos, debate opiniões, explora questões relevantes de outros saberes sobre o mistério de Jesus.
Apesar de ser de leitura algo difícil – não é fácil a um teólogo abordar questões de técnicas exegese – a obra é uma reflexão preciosa sobre o Jesus histórico.

Aguarda-se agora o segundo volume que, entre outros assuntos, promete abordar as narrativas da infância de Jesus.

19 de dezembro de 2007

ETIÓPIA

Missa em rito etíope © JVieira

Os 12 dias que passei na Etiópia foram de uma bênção. Revi amigos, revisitei lugares que me dizem muito, descansei, rezei e regressei retemperado.
A primeira impressão ao chegar a Adis Abeba é que a cidade se tornou num enorme estaleiro tantas são as obras de vulto em construção: edifícios, bairros sociais, fábricas, ruas… Uma diferença abissal da realidade que encontrei em 1993. Nessa altura, a capital da Etiópia era uma cidade decrépita feita de zinco enferrujado e com as ruas todas esburacadas.
E o serviço público também melhorou muito. Antes para renovar a carta de condução etíope precisava de uma manhã de guiché em guiché. Era sempre um problema encontrar a pasta com os meus documentos, porque não é fácil transcrever nomes estrangeiros em caracteres amáricos. Agora está tudo informatizado e em meia hora tinha o documento renovado de novo na mão!
O retiro foi uma experiência rica. Durante uma semana os 13 participantes convivemos com os textos de Isaac de Nínive, um monge do século VII.
O tema do retiro foi a luta que cada um de nós trava para viver a vocação cristã e nos transformarmos em epifania do Amor de Deus para quem connosco convive.
A frase que mais me marcou foi a definição de contemplação: não é êxtase mas «instasys», uma jornada ao mais profundo de nós mesmos – onde Deus habita – e não fora de nós. Uma intuiçaõ interessante.
O local do retiro – Galilee Centre – é um lugar especial junto ao lago Babu Gaya, cheio de flores e pássaros exóticos. Aí fez muitos retiros, encontros profundos com a minha realidade pessoal e com outras pessoas – que recordei!
Em Babu Gaya, assisti a um fenómeno curioso: uma manhã muitos peixes nadavam à tona da água de barriga para cima. Foi a bênção para os pescadores de ocasião: apanhavam «tellapia» à mão cheia.
Pensei que alguém detonou alguma carga explosiva no lago para atordoar os peixes. Mas um vizinho explicou que uma vez por ano os peixes vêm à tona por causa do frio!
Uma explicação que não satisfez os meus colegas de natação. Nessa tarde nadei sozinho, porque os três padres e a irmã que me acompanhavam ao banho diário, recearam que tivessem posto algum produto no lago para apanhar os peixes.
O retiro foi também um contacto novo com a tradição litúrgica ortodoxa. No Sul do país – onde trabalhei como missionário durante quase oito anos – usamos a liturgia latina traduzida na língua local. A missa (dia sim dia não) e a oração da tarde eram celebradas no rito etíope em inglês. Uma linguagem bem diferente, colorida e cheia de incenso e de pedidos de perdão pelos pecados.
Como não há desertos sem oásis, duas noites fui beber uma cerveja com uma missionária e um missionário meus amigos. A minha estada era curta e foi a única maneira de celebrarmos a amizade e trocarmos informação sobre o que temos feito.
Em Adis Abeba, participei na festa de 60 anos de vida missionária da Ir. Bona, uma comboniana italiana que se repartiu pelo Líbano, Israel e o povo sidama da Etiópia. Uma mulher cheia de energia – apesar dos 87 anos – e com um sorriso acolhedor.
Ah! Para quem está habituado ao calor e ao pó, na Etiópia fazia bastante frio em Dezembro. Quando cheguei ao aeroporto, às oito da noite, as pessoas vestidas com casacões pesados ficavam a olhar para mim intrigadas porque vinha com uma T-shirt fina e chinelos. Mas não sentia o frio, porque o corpo ainda estava cheio do calor de Juba.
Contudo, a primeira coisa que fiz quando cheguei a Galilee Centre foi ir ao mercado local comprar uma camisola. Como a língua da área pertence à família oromo, desenrasquei-me com o guji que ainda recordo. As pessoas achavam castiço um estrangeiro falar oromo e não saber palavra de amarico – a língua comum na Etiópia.
Agora estou de volta a Juba. Mais descansado e recauchutado para continuar a enfrentar os desafios que o projecto da rádio nos continua a colocar – sobretudo a fidelização dos jornalistas que trabalham comigo!
Mas é mesmo bom estar de volta a casa!

5 de dezembro de 2007

ATÉ JÁ


Lago Babu Gaya Debre Zeit Etiópia © JVieira

Durante os próximos 12 dias estou no lago Babo Gaya (o ancião do cachibo), na Etiópia, em retiro. Retomarei as postagens logo que regressar a Juba. Obrigado pela visita. Também rezo por si!

AMOR | DOR

Também o « sim » ao amor é fonte de sofrimento, porque o amor exige sempre expropriações do meu eu, nas quais me deixo podar e ferir. O amor não pode de modo algum existir sem esta renúncia mesmo dolorosa a mim mesmo, senão torna-se puro egoísmo, anulando-se deste modo a si próprio enquanto tal.
Bento XVI em «Spe Salvi», Nº 38

2 de dezembro de 2007

AMOR

Não é a ciência que redime o homem. O homem é redimido pelo amor. Isto vale já no âmbito deste mundo. Quando alguém experimenta na sua vida um grande amor, conhece um momento de «redenção» que dá um sentido novo à sua vida. Mas, rapidamente se dará conta também de que o amor que lhe foi dado não resolve, por si só, o problema da sua vida. É um amor que permanece frágil. Pode ser destruído pela morte. O ser humano necessita do amor incondicionado. Precisa daquela certeza que o faz exclamar: «Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor» (Rom 8,38-39). Se existe este amor absoluto com a sua certeza absoluta, então – e somente então – o homem está «redimido», independentemente do que lhe possa acontecer naquela circunstância. É isto o que se entende, quando afirmamos: Jesus Cristo «redimiu-nos». Através d'Ele tornamo-nos seguros de Deus – de um Deus que não constitui uma remota «causa primeira» do mundo, porque o seu Filho unigénito fez-Se homem e d'Ele pode cada um dizer: «Vivo na fé do Filho de Deus, que me amou e Se entregou a Si mesmo por mim» (Gal 2,20).
Bento XVI em «Spe Salvi», nº 26

30 de novembro de 2007

Santa Bakhita


UM MODELO DE ESPERANÇA

Santa Bakhita é um exemplo moderno de esperança e um modelo de encontro com Deus, escreveu o Papa na sua última encíclica.
Bento XVI afirma na carta encíclica «
Spe Salvi» - «Na esperança fomos salvos», publicada hoje no Vaticano, que Santa Bakhita é um exemplo contemporâneo de vida cristã.
«Josefina
Bakhita, uma africana canonizada pelo Papa João Paulo II [o] exemplo de uma santa da nossa época pode, de certo modo, ajudar-nos a entender o que significa encontrar pela primeira vez e realmente este Deus», escreve o Papa.
Bento XVI faz um breve resumo da vida de Santa Bakhita para explicar como a escrava do Darfur se tornou em santa e exemplo de esperança.
O papa escreve que quando Bakhita foi para Itália, descobriu em Jesus um novo patrão, que a libertou e ela sentiu necessidade de partilhar a sua experiência através de algumas missões em que participou.
«A libertação recebida através do encontro com o Deus de Jesus Cristo, sentia que devia estendê-la, tinha de ser dada também a outros, ao maior número possível de pessoas», explica Bento XVI.
E conclui o Papa: «A esperança, que nascera para ela e a « redimira », não podia guardá-la para si; esta esperança devia chegar a muitos, chegar a todos.»
A encíclica «Spe Salvi» foi publicada hoje em oito línguas: latim, português, inglês, italiano, alemão, espanhol, polaco e francês.
O documento está dividido em 50 parágrafos e tem 40 citações.
«Spe Salvi» é a segunda carta encíclica publicada por Bento XVI. Há dois anos o papa tinha escrito «Deus Charitas Est», Deus é amor.

22 de novembro de 2007

HOSPITAL DO SENHOR

Fui ao Hospital do Senhor fazer um check-up de rotina e constatei que estava doente.
Quando Jesus mediu a minha pressão, verificou que estava em baixa de TERNURA.
Ao medir a temperatura, registrou 40º de EGOISMO.
Fiz um eletrocardiograma e foi diagnosticado que precisava de uma PONTE de AMOR, pois a minha veia estava bloqueada e não estava a abastecer o meu CORAÇÃO VAZIO.
Passei pela ortopedia, pois estava com dificuldade de andar lado a lado com o meu irmão, e não consegui abraçá-lo por ter fracturado o braço ao tropeçar na minha VAIDADE.
Constatou-se Miopia, pois não conseguia enxergar além das APARÊNCIAS.
Queixei-me de não poder ouví-lo e diagnosticou bloqueio em decorrência das PALAVRAS VAZIAS do dia-a-dia.
Obrigado SENHOR, por não me teres cobrado a consulta, pela tua grande MISERICÓRDIA. Prometo, ao sair daqui, somente usar Remédios Naturais, que me indicaste e que estão no receituário do TEU EVANGELHO.
Vou tomar, diariamente, ao levantar, CHÁ DE AGRADECIMENTO; ao chegar ao trabalho vou beber uma colher de sopa de BOM-DIA e, de hora em hora, um comprimido de PACIÊNCIA com um copo de HUMILDADE.
Ao chegar a casa, SENHOR, vou tomar diariamente uma injeção de AMOR e ao deitar duas cápsulas de CONSCIÊNCIA TRANQUILA.
Agindo assim, tenho a certeza que não ficarei mais doente e todos os dias serão de CONFRATERNIZAÇÃO E SOLIDARIEDADE.
Prometo prolongar este tratamento preventivo por toda a minha vida, para que, quando me chamares, que seja por MORTE NATURAL.
Obrigado, Senhor !!!

Obrigado, Anabela

NOME


21 de novembro de 2007

ALTA TEMPERATURA

O presidente do Sudão, Omar Hassan al-Bashir, pediu às Popular Defense Forces (PDF, as Forças de Defesa Popular) no sábado para treinarem «mujahideen» (combatentes muçulmanos) «não por causa da guerra, mas para estarem preparados para qualquer eventualidade.»
As PDF são milícias pró-Cartum que praticaram crimes contra civis (massacres e violações em massa) durante a guerra civil que terminou em 2005.
Pagan Amun, Secetário-Geral do Sudan People’s Liberation Movement (SPLM, Movimento de Libertação do Povo do Sudão, no poder no Sul do Sudão) respondeu à letra e disse que o SPLA (as forças armadas do sul) se encontra em mobilização geral e que está 100 vezes mais forte.
O duelo - até agora de palavras - entre os dois parceiros principais do governo de unidade nacional está a atingir proporções assustadoras desde que o SPLM abandonou o Governo Nacional em Outubro como protesto pela não implementação do Acordo Global de Paz (CPA na sigla inlesa).
Desta vez, o pomo da discórdia é o enclave de Abyei. A área, rica em petróleo, devia pertencer ao sul, de acordo com as conclusões da Comissão de Fronteiras de Abyei.
Os árabes não querem largar mão do petróleo de Abyei e de outras zonas de fronteira que continuam a ser ocupadas pelas forças armadas do norte, em violação flagrante do CPA.

15 de novembro de 2007

ABRAÇO

© JVieira

De repente me deu vontade de um abraço...
Uma vontade de entrelaço,
de proximidade...
de amizade, sei lá...
Talvez um aconchego,
que enfatize a vida e amenize as dores,
Deu vontade de poder rever saudade
de um abraço.
Só sei que me deu
vontade desse abraço.
Vinicius de Moraes

14 de novembro de 2007

DARFUR

GRUPOS ADEREM AO PROCESS DE UNIFICAÇÃO EM JUBA

Quatro grupos rebeldes do Darfur e seis indivíduos decidiram unificar-se sob a designação Sudan Liberation Movement/Army.
Na terça-feira, Sudan Liberation Movement/Army, Justice and Equality Movement – Field Revolutionary Command, Democratic Popular Front e Sudanese Revolutionary Front assinaram em Juba a «Carta de Unificação».
Numa nota à imprensa, nove líderes dos quatro grupos signatários dizem que os grupos vão-se unificar sob a designação Sudan Liberation Movement/Army, estabelecer uma comissão especial para iniciar e conduzir o processo de unificação e dissolver todas as organizações existente.
Hoje, seis dirigentes da facção A-Khamis do Sudan Liberation Movement/Army decidiram abandonar todos os seus títulos políticos e militares e unirem-se ao processo de unificação entre os grupos do Darfur a decorrer em Juba, no Sul do Sudão.
«[Nós acreditamos] que na unidade está a nossa força porque a unidade é a base para qualquer actividade política, social, humanitária e de desenvolvimento», os signatários escreveram numa nota distribuída à imprensa esta tarde.
O documento condena «mortes em massa, violações e genocídio perpetrados pelo Governo do National Congress Party dirigido por El-Bashir.»
O processo de unificação de Juba, mediado pelo Movimento de Libertação do Povo do Sul do Sudão (SPLM na sigla inglesa), pretende unir as muitas facções do Darfur antes de as conversações de paz recomeçarem na cidade Líbia de Sirte, em Dezembro.

7 de novembro de 2007

REFRACÇÕES


A CRIANÇA QUE VIA ESTRELAS

Era noite! Estava cansada de mais um dia de aulas, estudo, agitação e rotinas. Fiz os deveres, fui ao computador e apressei-me para ir para a cama. Tomei banho, lavei os dentes e vesti-me.
Já na cama, fechei os olhos e rapidamente se apagaram em mim todos os pensamentos.
Entrei num mundo, o meu mundo.
Tudo era claro. Ao longe via um fundo coberto de cores calmas: amarelo, cor-de-rosa bebé, azul bebé, cor-de-laranja.
Existia também uma quantidade infinita de flores e plantas nunca vistas. Talvez fossem plantas imaginárias que criamos no âmbito de uma ilusão!
De repente – e para meu espanto – encontrei uma criança que olhava o céu e em pleno dia dizia ver as estrelas.
Reparei também que estava rodeada de lindas borboletas que pareciam fazê-la voar.
Pensei: mas se este é um sitio meu que faz esta criança de pele clara e com a cara coberta de pintinhas aqui? Depressa afastei este pensamento e desatei a falar com ela. Estranhamente não tive curiosidade de saber quem era. Falámos de sonhos e de medos. Que pensamentos tão controversos, mas que nos elucidaram tanto.
– Fala de ti!, pedi.
– Pouco tenho a falar… Sabes bem que me conheces!
Fiquei intrigada com esta resposta, mas nem liguei muito. Afinal era uma criança e o que me poderia ensinar ela?
Como em sufoco ela diz-me:
– Na verdade estou aqui, porque existem coisas das quais já não te lembras. São passado mas constituem o teu presente e farão parte do teu futuro. Lembras-te do dia em que entraste para a escola e daquilo que sentiste; do orgulho que por tempos tiveste e voltaste a ter pelo teu pai; da alegria que exibiste quando soubeste que ias ter o teu primeiro primo; do que sentiste no primeiro dia no 5.º ano ao conhecer uma das pessoas mais importantes da tua vida; do que sentias de todas as vezes que chegavas a casa e Ela estava à tua espera; do orgulho que exibes pela tua mãe; de quão feliz o teu tio te faz; de quando chamaste pela primeira vez mana àquela que vês como melhor amiga; do dia em que te uniste firmemente à Cátia e à Ana; da leveza que sentes ao ouvir as músicas daqueles que bem conheces e que tanto te identificas; da adrenalina que sentes ao entrar no Estádio; do orgulho, esperança e vontade que sentes perto dos teus novos amigos; de todos aqueles que NOS fazem felizes próxima ou afastadamente…
Foi aqui que a interrompi!
– Nós? Mas afinal quem és tu?
– Eu? Sou a relação entre ti e os teus pensamentos mais puros, que a certo momento te viu sem eira nem beira e decidiu falar-te daquilo que eras, daquilo que era, daquilo que és, daquilo que sou, daquilo que fomos e daquilo que somos. Lembras-te do dia em que conseguiste ver as estrelas?
Foi então que percebi que as crianças são o relógio do mundo e quando já não há rumo possível, elas resolvem o problema acendendo a luz.
Carla Pereira

3 de novembro de 2007

SKYE

© JVieira

Skye Wheeler é a correspondente da Reuters no Sul do Sudão.
Nasceu no Quénia de um casal inglês.
É formada em filosofia, deu aulas de inglês durante algum tempo nas montanhas Nubas, Sudão, e acabou por se render ao jornalismo.
Skye é a minha jornalista favorita em Juba. Pela dedicação e pelo profissionalismo com que investiga e a escreve as suas histórias. E têm sido muitas distribuídas pela Reuters e pelo portal Gurtong que gere.
Usava uma mobilete para se deslocar, desafiando o pó, os buracos, o calor, a chuva.
Um dia o motor parou, cansado. Comprou uma mota, a mítica «Senke» que é montada a RD Congo e que enxameia as ruas de Juba.
Dois ou três dias depois fomos ao aeroporto cobrir a chegada de dois ministros de uma reunião importante da Etiópia. Durante a conferência de imprensa, roubaram-lhe a «Senke». Teve que gastar mais 700 dólares para comprar outra. Chama-lhe Mula. Uma mula obediente. Caiu algumas vezes com a mobilete, mas tem-se dado bem com a Mula.
Skye e eu somos os únicos jornalistas estrangeiros em Juba. Por isso, estabeleceu-se entre nós alguma cumplicidade que deu origem a uma bonita amizade. Partilhamos informações, contactos, alertas. Quando nos encontramos na cobertura de algum acontecimento, enquanto esperamos costumamos conversar sobre o que vivemos, o que sentimos, o que vimos. E a gente aqui espera mesmo. As conferências de imprensa costumam começar com uma ou mais horas de atraso.
O último encontro do presidente do governo do Sul do Sudão, Gen. Salva Kiir Myardit, com os jornalistas então foi o máximo.
Convocaram-nos para estarmos às 11h00 no ministério da Informação. Quando lá chegámos, disseram que a conferência de imprensa seria às 14h30 no Home and Way, o lugar mais chique de Juba.
Entretanto, um funcionário da presidência apareceu com um aviso público para ser divulgado pela rádio a dizer que a conferência estava marcada para a Assembleia Legislativa. Lá informaram-nos que seria às 17h00, mas que tínhamos que estar sentados no parlamento às 16h30.
Salva Kiir acabou por fazer uma curta declaração eram quase sete da tarde a dizer que o Sul não ia voltar à guerra com o Norte e que a actual crise política se havia de resolver quando os árabes decidissem começar a cumprir à risca o Acordo Compreensivo de Paz.
Estivemos todo o dia «presos» ao presidente para saber que as coisas se mantinham como estavam!

30 de outubro de 2007

WORLD MISSION


COMBONIANO PORTUGUÊS PREMIADO NAS FILIPINAS

O padre José Rebelo, 46 anos, dos Missionários Combonianos, foi premiado esta semana com um dos Catholic Mass Media Awards (Prémio dos média católicos), das Filipinas, atribuído pela fundação com o mesmo nome uma das instituições mais prestigiadas do país. Entre 800 candidatos - um recorde de participação -, incluindo os principais jornais, rádios e televisões do país, a «World Mission», dirigida por José Rebelo, recebeu o prémio de melhor revista.
A publicação imprime actualmente 9500 exemplares e foi fundada em 1989 por um outro português, o padre Manuel Augusto Ferreira, que dirige agora a «Além-Mar», a revista dos combonianos portugueses.
«O prémio reconhece o trabalho feito na remodelação gráfica e de conteúdos da revista», feita nos últimos dois anos, explica José Rebelo ao PÚBLICO. «Em cada número procuramos transmitir a paixão pela missão universal que nos anima. As Filipinas, apesar de ser um país considerado católico, ainda não se rendeu à ideia de missão além-fronteiras. Tudo é visto em chave caseira.» Daí que o galardão seja sobretudo «importante na medida em que pode abrir algumas portas e facilitar a tarefa de divulgação da revista.»
José Rebelo esteve já como missionário no Traansval entre 1991 e 96, antes de regressar a Portugal para dirigir a «Além-Mar», até 2004 (distinguida com o prémio dos Direitos Humanos sob a sua direcção). Em 2005 foi para director da «World Mission».
Manuel Augusto Ferreira disse ao PÚBLICO que o galardão é um «reconhecimento do lugar e da importância que a «World Mission» conquistou no contexto da Igreja Católica na Ásia". E acrescenta: «Não obstante as dificuldades, afirmou-se como uma revista missionária de qualidade nas Filipinas e noutros ambientes eclesiais asiáticos de língua inglesa.»
António Marujo em «PÚBLICO»
Parabéns, Zé! Força.

23 de outubro de 2007

CHEGADA II

As emoções dos últimos dias foram complicadas de gerir.
Em menos de uma semana a redacção da Rádio Bakhita ficou vazia. O editor-adjunto desapareceu sem deixar rasto. Depois, o segundo jornalista trocou a caça das notícias por um curso de contabilidade numa universalidade ugandesa. O terceiro, um estagiário, termina o contrato no fim do mês. É boa pessoa, generoso e cheio de boa vontade, mas não foi «talhado» para jornalista.
Resultado: dez meses depois de ter chegado a Juba volto à estaca zero. Melhor: à estaca um porque safa-se um jornalista partilhado com o «Juba Post» que começou a trabalhar esta semana. Tem muitas dificuldades com o formato radiofónico e com os programas de tratamento de som. Mas há-de vingar.
Esta sucessão de perdas provocou em mim um sentimento de impotência muito forte. Pela primeira vez na vida sinto que não tenho nenhum controlo sobre o que estou a fazer.
A irmã com quem trabalho foi expressiva: «Joe, bem-vindo! Finalmente chegaste ao Sudão. Podes começar!»
O comentário pode parecer surrealista, mas tem alguma verdade: tenho vivido no Sudão com os afectos na Etiópia. Agora que bati fundo – e à custa de lágrimas – finalmente aterrei! Sinto que pertenço aqui!
Outra irmã tentou consolar-me: «Não te preocupes: O Sudão é assim. Não há fidelidades. As pessoas habitaram-se a sobreviver.»
Mas custa aceitar que o tempo, a energia e os afectos investidos nestes três colaboradores – e em mais três sou quatro que entretanto ficaram pelo caminho – acabe assim! É a vida no Sudão.
É também o meu segundo começo. Um recomeço com mais humanismo e menos profissionalismo.