13 de julho de 2007

Darfur

© Lusa
VIDAS REAIS

Samia Ramadan, 5 anos. Chora e pergunta todos os dias pelos irmãos que foram mortos pelos janjauid em Buram.

Zinat Abdu, 3 anos, diz que a casa onde vive agora é muito pobre comparada com aquela em que vivia em Bulbul e que no campo de refugiados de Kalma não tem ovelhas nem cabras para guardar e brincar… nem leite.

Abd el Wahab e a Raqui, 7 ou 8 anos, trabalham com e como os adultos à entrada do campo refugiados de Kalma a fazer tijolos: «Quero trabalhar aqui, fazer e vender muitos tijolos para fazer uma casa para mim e meus avós.» Os seus pais e resto da família foram mortos pelos janjauid.

Ramadan estava prestes a casar com Leila quando vieram os janjauid… Destruíram, queimaram e levaram-lhe a querida noiva que nunca mais chegou a ver. Depois de dois anos Leila ainda estará viva? Talvez escrava?

Abdu e Hachim bateram à porta da missão de Nyala era quase meia-noite. Afoitei-me e fui abrir. «Pedimos protecção por esta noite», dizem. Quase que falam ao mesmo tempo e têm pressa de entrar. «Os amigos dos jaunjauid sabem que estamos aqui na cidade». Abdu e Hachim fugiram de Greida onde se luta há 4 dias. Apareceu uma alma amiga que lhes deu guarida e protecção porque sabia o perigo que tanto eles como eu corríamos. Na manhã seguinte partiram para o sul. São sulistas e cristãos

Jamal viu-me à entrada do seu campo de refugiados em Kalma e perguntou: «Porque não multiplicais os esforços sanitários aqui? Falta de tudo, mas ao menos se houvesse algumas latrinas haveria muito menos risco de infecções e cólera…» É perigoso parar à entrada de um destes campos, eu sei. Mas eu queria ouvir alguém, falar, partilhar esperanças, pobrezas e riquezas. Que as há. De uma e outra parte. Num e noutro sentido.


P. Feliz Martins,
Missionário Comboniano no Darfur

12 de julho de 2007

Darfur

DIPLOMACIA DO GATO E DO RATO

A Secretária de Estado Norte-Americana disse ontem que é tempo de acabar com a diplomacia do gato e do rato do Sudão sobre o Darfur.
«Temos que nos manter resolutos para acabar com o sofrimento e a violência no Darfur. Já morreram pessoas de mais, demasiadas mulheres foram violadas, demasiadas crianças foram separadas das suas famílias», Condoleezza Rice disse aos participantes de uma reunião conjunta da Organização dos Estados Americanos e da União Africana em Washington DC.
«Não podemos deixar o Governo do Sudão continuar este jogo da diplomacia do gato e do rato, prometendo e depois negando. É nossa responsabilidade como nações de princípios, como democracias de princípios, obrigar o Sudão a prestar contas», a Dr.ª Rice advertiu.
Entretanto, Grã-bretanha, França e Gana prepararam o esboço de uma resolução sobre a força híbrida de paz da ONU e da União Africana para o Darfur.
A força vai chamar-se UNAMID e terá cerca de 26 mil elementos entre militares, polícias e civis. Deverá estar operacional do início de 2008 e terá um mandato inicial de um ano.

11 de julho de 2007

Parabéns

© JVieira
Parabéns, Anabela! A vida é um dom maravilhoso. Vive-a!

Lei antipiada



Este mundo está um lugar cada vez mais perigoso. Parece que dizer uma piada já só vai ser permitido entre as paredes de nossa casa – e é se elas estiverem devidamente insonorizadas, não vá o vizinho de baixo ou o de cima ou o do lado sentir-se ofendido.
Imaginem a gente a contar a última do Benfica, e logo o Ernesto, do 5.º esquerdo a bater-nos à porta prometendo queixa na Polícia, porque é sócio do "glorioso", daqueles que até tiveram direito a kit quando se inscreveram, e não admite que se brinque com coisas sérias.
Ou então a gente a contar o último trambolhão que deu para dentro de uma das muitas crateras que infestam os passeios da cidade, chamando nomes ao senhor presidente da câmara (presente e passado) e logo a D. Adelaide do 3.º, que tem uma cunhada que é prima de um afilhado da sogra de um motorista da CML, a avisar-nos que já enviou queixa para quem de direito e que em breve estaremos a ser chamados para declarações, a que se seguirá um processo disciplinar tendo em vista o nosso despedimento de qualquer coisa, de quê ao certo ainda não sabe, mas qualquer coisa, o que é preciso é sermos despedidos, depois se verá de quê.
Perante este descalabro é urgente tomar medidas para que este clima de desconfiança se resolva de uma vez por todas.
Por exemplo à semelhança daqueles guetos que se vão criando por aí para os viciados em tabaco, devia criar-se, em todos os cafés, bares, restaurantes, discotecas e afins, zonas para os viciados em piadolas contra o Governo.
Também nos transportes públicos, evidentemente, haveria áreas demarcadas para os desgraçados que não conseguissem estar mais de cinco minutos sem insultar o ministro da Saúde, e cinco segundos sem desancar na ministra da Educação.
Piadas contra o Sócrates, essas, só apresentando atestado médico, garantindo tratar-se de doença incurável – e para esses arranjava-se salas de chuto devidamente assistidas, em que cada um podia chutar piada atrás de piada até que a metadona começasse a surtir efeito.
Para além de nos proteger a todos desta verdadeira ameaça para a saúde pública, a lei antipiada ainda tinha a vantagem de criar postos de trabalho lado a lado com os fiscais da Emel, por exemplo, andaria o fiscal das piadas à cata de qualquer gargalhada mais dúbia que levasse à imediata detenção do prevaricador – caso não se encontrasse em local permitido por lei.
Por isso, aqui ofereço estas sugestões a todos os candidatos às próximas eleições de dia 15. Isto sem querer intrometer-me em assuntos partidários, claro, não vá o meu vizinho do rés-do-chão, que é mórmon e não vota, pressionar o administrador do condomínio a expulsar-me por estar a agredir as suas convicções...

Alice Vieira, Escritora
Obrigado, Zezita, por esta pérola da Alice

10 de julho de 2007

9 de Julho


9 de Julho representa uma espécie de ponte do Rubicão no Acordo Compreensivo de Paz (CPA) assinado entre o Governo Sudanês e o Exército de Libertação do Povo Sudanês (SPLA) a 9 de Janeiro de 2005.
O CPA impõe que a 9 de Julho de 2007 o V Censo Geral do Sudão esteja completo e o Exército Sudanês tenha retirado dos territórios abaixo da linha de divisão de 1 de Janeiro de 1956 entre o Norte e o Sul do Sudão e as forças do SPLA acima dessa linha.
O 9 de Janeiro passou, o Censo foi adiado para Janeiro - insha Allah - e as Forças Armadas Sudanesas recusam-se a abandonar os campos de petróleo do Sul do Sudão.
O porta-voz das Forças Armadas Sudanesas, Osman al-Aghbash, declarou ao jornal dos militares que 3000 tropas vão permanecer nas áreas de extração de crude depois do 9 de Julho.
Por seu turno, o SPLA continua nas Montanhas Núbias e no Estado de Blue Nile, a norte da linha de fronteira.
Dr. Samson Kuaje, Ministro da Informação do Governo do Sul do Sudão, explicou que o movimento de tropas está a ser dificultado pelas chuvas e que o seu governo tolera um pequeno atraso na retirada das forças sudanesas dos territórios do Sul.
A segurança nas zonas problemáticas de Abyei, Montanhas Núbias, Blue Nile e Unity entre outras
devia passar para as Unidades Integradas Conjuntas, formadas por tropas do norte e do Sul do país. Essa força já foi constituída, mas não está operacional.

9 de julho de 2007

Darfur

© Lusa

AGENTES HUMANITÁRIOS SOB VIOLÊNCIA CRESCENTE

Os agentes humanitários operam no Darfur sob condições de violência crescente e em Junho a situação piorou dramaticamente, indica o relatório sobre segurança de uma agência caritativa presente na província ocidental do Sudão.
Durante o mês passado, foram registados 30 incidentes classificados de sérios e bandidos armados e milícias lançam ataques violentos diários contra organizações não governamentais, escreve o diário londrino «The Independent». No ano passado a média era de 10 ataques por mês.
O relatório denuncia que duas pessoas foram mortas e cinco feridas durante os ataques, 28 agentes humanitários sequestrados e 35 viaturas roubadas, baleadas ou sequestradas.
Em 2006, o Governo de Cartum assinou o Acordo de Paz para o Darfur com uma facção rebelde. O acordo, contudo, não parou a violência. Pelo contrário, o conflito piorou. No último ano mais de meio milhão de Darfurianos procurou refúgio em campos de deslocados internos. Os campos atingiram a lotação máxima, mas os deslocados continuam a chegar diariamente, agências humanitárias alertam.
No Darfur, há cerca de 14 mil agentes humanitários a trabalhar para mais de 80 agências internacionais de ajuda, a maior operação humanitária jamais montada pela ONU.

8 de julho de 2007

Deslocados

O seminário de Alokulu, no norte do Uganda, funciona num campo de deslocados pela rebelião de 20 anos do Exército de Resistência do Senhor (LRA).
A casa de formação alberga 126 seminaristas. Muitos candidatos foram rejeitados por falta de espaço.
O padre Cosmas Alule é o reitor da instituição. Conta que muita gente o pressiona para mudar o seminário do campo de refugiados para um local «mais conveniente e seguro.»
O reitor crê que é bom tanto para os seminaristas como para os deslocados estarem juntos. Por isso, quer manter o seminário onde está.
«Não vamos abandonar os que sofrem; queremos ser solidários com o povo», o padre Alule explicou. «Os futuros padres devem partilhar a vida da gente comum e dar testemunho de Cristo na situação presente».
O seminário de Alokulu fica na arquidiocese de Gulu, mas recebe seminaristas de todo o Uganda.

Mil encantos

© JVieira

6 de julho de 2007

Darfur

NAÇÕES UNIDAS E UNIÃO AFRICANA ORGANIZAM CONFERÊNCIA

As Nações Unidas (ONU) e a União Africana (UA) estão a organizar uma conferência internacional para avaliar o novo plano de paz para o Darfur que devia levar a uma nova fase de negociações com todas as forças envolvidas no conflito.
Radhia Achouri, porta-voz da Missão das Nações Unidas no Sudão (UNMIS) revelou antes de ontem em Cartum que a conferência decorre em Tripoli, Líbia, a 15 e 16 de Julho sob a presidência conjunta da ONU e UA.
Treze países foram convidados para a conferência: Chade, Egipto, Eritreia, os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (Estados Unidos, China, França, Rússia e Grã-bretanha), Canadá, Holanda, Noruega, Líbia e, claro, o Sudão.
A União Europeia e a Liga Árabe também foram convidadas.
Entretanto, a ONU e a UA destacaram a Eritreia e o Governo autónomo do Sul do Sudão como possíveis mediadores para as futuras negociações de paz no Darfur entre os rebeldes e Cartum.
Em Maio do ano passado o governo do Sudão assinou o Acordo de Paz do Darfur (DPA) com uma facção do Exército de Libertação do Sudão (SLA) em Abuja, Nigéria. O DPA não trouxe paz ao Darfur. Pelo contrário, a oposição a Cartum passou de dois movimentos (SLA e JEM) para uma dúzia de grupos e facções.

5 de julho de 2007

Estradas

O Director-Geral do Ministério dos Transportes e Estradas foi o convidado do programa Juba Sunrise desta manhã.
Jacob Marial Maker foi literalmente bombardeado com telefonemas dos ouvistes a protestar sobre o estado das ruas da cidade, os trabalhos de reparação mal feitos e descontinuados, a inexistência de drenagem correcta, a reparação da ponte de Juba prometida em Março e ainda não cumprida.
O programa foi um sucesso. Tivemos que desligar o telefone algumas vezes para o Director Geral poder responder às questões do auditório de Bakhita Radio.
As ruas de Juba são um problema difícil de resolver. Vinte e um anos de guerra e a falta de manutenção transformaram as artérias da capital numa autêntica picada africana.
O Governo prometeu alcatroar os 60 quilómetros das vias de Juba. Um quilómetro de betuminoso custa um milhão de dólares. A recuperação e asfaltamento das ruas da cidade custa 65 milhões. Muito dinheiro.
Espera-se que o novo ministro empossado há dois dias traga novo vigor ao ministério para dar algum respiro aos condutores e à mecânica das viaturas que circulam na capital do Sul.

4 de julho de 2007

Publicidade

© JVieira

As ruas de Juba foram recentemente engalanadas com placas gigantes de publicidade.
Sabões e leite em pó são as vedetas do novo formato publicitário induzidas por sorrisos lindos de jovens simpáticas.
Tudo bastante básico, pode-se argumentar. Mas o poder de compra dos jubanos é limitado e o dinheiro mal chega para o essencial. Juba tem a fama - e o proveito - de ser uma ds cidades mais caras do mundo. Quase tudo é importado.
A capital do sul do Sudão já contava com muita informação urbana em dimensões mais modestas: identificação de edifício e de serviços públicos, anúncios relacionados com a prevenção de malária e da sida, publicidade a hotéis, companhias aéreas, etc. As placas gigantes dão-lhe um ar mais urbano e moderno!

3 de julho de 2007

Remodelação

Tenente-General Salva Kiir © JVieira

Salva Kiir, presidente do Governo semi-autónomo do Sul do Sudão (GoSS em inglês) substituiu seis dos seus ministros na noite de 2 de Julho numa remodelação há muito esperada e desejada.
As substituições mais importantes registaram-se nas pastas da Habitação, Terra e Utilidades Públicas e dos Transportes e Estradas.
O primeiro ministério era acumulado pelo vice-presidente Dr. Riek Machar Teny-Dourghon, que assim vê o seu poder bastante diminuído. O Dr. Machar é também o negociador chefe das conversações de paz entre o Exército de Resistência do Senhor (LRA) e o governo ugandês.
Rebecca Nyandeng De Mabior, a viúva do fundador do SPLA, há muito que era contestada pela fraca prestação à frente do ministério dos Transportes e Estradas. Sobretudo em Juba, onde as ruas se encontram em péssimo estado. Mamã Rebecca é agora Conselheira Presidencial para Questões do Género e dos Direitos Humanos.
O ministério das Finanças e Planeamento económico passa a ter ministro próprio. O ex-titular do ministério está a ser investigado por alegada corrupção e foi substituído interinamente pelo detentor da pasta dos Assuntos Parlamentares que volta a tempo inteiro ao seu ministério.
O cargo das Finanças e Planeamento Económico, entregue a Kuol Athian Mawien, é um dos postos mais quentes do GoSS. O governo está com problemas sérios de liquidez. O orçamento para 2007 tem como entrada única a percentagem da exploração do petróleo. O governo central está a passar ao GoSS cerca de 60 por cento do total orçamentado e o dinheiro não chega para pagar aos militares (que gastam cerca de 40 por cento do orçamento), professores, fornecedores…
Os novos ministros da Habitação, Terra e Utilidades Públicas, dos Assuntos do Conselho de Ministros, dos Transportes e Estradas, das Finanças e de Planeamento Económico, do Trabalho, Serviço Público e Recursos Humanos, dos Assuntos do SPLA, a pasta da Defesa, e da Saúde foram empossados na manhã de 3 de Julho.

2 de julho de 2007

Refracções

© JVieira

INQUIETUDE

Porto seguro eu fui
Mar profundo para muitos
Tempestades acalmei
Recolhi todos os frutos

Saudades para matar
Satisfatórios encontros
Inquietudes a granel
Traições e desencontros

Flecha sem alvo sou
Desejo que não se apaga
Implacável inquietude
Ninguém que me satisfaça
Elvis

1 de julho de 2007

Mil palavras

.
Juba: margens do Nilo Branco ao amanhecer © JVieira

Uganda

O ACORDO DOS ERRES

As delegações do Governo Ugandês e do LRA (Exército de Resistência do Senhor em inglês) assinaram na noite de sexta-feira no Hotel Juba Raha o Acordo de Responsabilidade e Reconciliação.
O documento levou dois meses a ser negociado. Trata dos princípios de responsabilização pelas atrocidades cometidas pelas partes durante os 21 anos de guerra civil no Norte do Uganda em tribunais tradicionais e nacionais e dos mecanismos de reconciliação e de reparação às vítimas do conflito.
O conflito deslocou um milhão e meio de pessoas no norte do Uganda e no Sul do Sudão e fez 12 mil mortos. 25 mil crianças foram raptadas para servirem de soldados ou escravas sexuais, muitos mutilados e inúmeras aldeias saqueadas e queimadas.
O Capitão Varijiba Hoko, porta-voz da delegação ugandesa, disse que a assinatura do terceiro documento da agenda das negociações de paz é um acontecimento importante no processo de paz.
As duas delegações têm agora um mês para propor meios práticos para implementar os acordos assinados, o porta-voz do LRA, Godphrey Ayoo explicou.
O ambiente no salão do hotel onde decorrem as negociações era de euforia e as duas delegações acabaram a cantar juntas o hino nacional ugandês e a dar vivas à república. Uma atitude muito diferente dos primeiros encontros em que os delegados se ignoravam mutuamente.
As partes voltam à mesa das negociações no fim do mês para negociarem os pontos quatro e cinco da agenda das conversações: cessar-fogo e desarmamento, desmobilização e reintegração.

28 de junho de 2007

Darfur

AS PROMESSAS DE PARIS

A Conferência Internacional sobre o Darfur, que decorreu em Paris a 25 de Junho, terminou com uma mão cheia de promessas e pouco mais.
A comunidade internacional prometeu redobrar esforços para pôr termo ao conflito que começou em Fevereiro de 2003 e já fez mais de 200 mil vítimas e para cima de dois milhões de deslocados e refugiados.
Condoleezza Rice, a Secretária de Estado norte-americana, voltou a ameaçar o Sudão, com novas sanções caso Cartum não permita dentro de emio ano o estabelecimento de uma força híbrida das Nações Unidas (ONU) e da União Africana (UA) para parar com o genocídio no oeste sudanês.
O enviado especial da China ao Sudão afirmou que o presidente sudanês «está pronto para negocial a qualquer hora e em qualquer lugar.»
O ministro francês dos negócios estrangeiros, Bernard Kouchne, defendeu a importância de uma solução política para o conflito e anunciou que em Setembro um «grupo de contacto alargado» vai-se encontrar à margem da Assembleia Geral da ONU para discutir o Darfur.
A França pôs de lado 10 milhões de euros para apoiar a Missão da União Africana no Sudão (AMIS em inglês). A Espanha prometeu 5 milhões de euros para a força híbrida ONU/UA e outro tanto em ajuda humanitária. A União Europeia reservou mais 31 milhões de euros para ajudar os darfurianos.
O presidente francês, Nicolas Sarkozy, afirmou no final da conferêcia que «como seres humanos e políticos, devemos resolver a crise do Darfur. O silêncio mata. Temos que mobilizar a comunidade internacional para dizer “Basta!”».

27 de junho de 2007

Refracções

Parque da Paz – Almada © JVieira

ENCONTRAR-ME

Perco-me no mundo
Para a seguir me encontrar
Voltar
A ser
Emergir de mim própria
Quedo-me no silêncio,
Perco a noção do tempo
Que fiz e desfiz
Como um tapete
Que vou tecendo
Com as cores
Do meu ser
Um dia azul
Outro negro carregado
E faço e desfaço
Um dia coloco pérolas
No outro destroços
Perco e encontro-me
Esvazio e encho-me
De mim,
De mim...
Porque tudo começa
E se prolonga no dedilhar
Silencioso
Da penumbra de nós
Quando cai o véu
E vemos claramente
Onde estamos,
Quem somos
E porquê...

25 de junho de 2007

Higiene «pública»

© JVieira

Esta semana, o clero da arquidiocese de Juba está em retiro. O Vigário-geral pediu-me que celebrasse a missa das 7h00 na catedral.
Kator, o bairro da sé, fica a um quarto de hora de carro da Casa Comboni, em Amarat. As ruas são estilo picada africana mas é u
ma experiência interessante ver Juba a acordar!
Esta manhã fui surpreendido por uma moda original: os jubanos gostam de escovar os dentes - e a língua - na rua e muitos andam com a escova de dentes na boca. Até um motociclista!
Vê-se que levam a sério a higiene oral. E têm sorrisos muito bonitos e brancos.

Ah! A elegante escova de dentes substituiu os tradicionais pauzinhos que os miúdos vendem pelas ruas da cidade. Mais um modo de ganhar umas piastras em crise.

23 de junho de 2007

Ambiente

© JVieira

O Sudão não viverá em paz duradoira se o país não responder urgentemente aos desafios da degradação ambiental ampla e acelerada, revela um estudo do Programa Ambiental das Nações Unidas (UNEP).
O UNEP publicou ontem um extenso documento de 354 páginas intitulado «Sudão: Avaliação Ambiental Pós Conflito».
O estudo individualiza a degradação do meio ambiente como uma das raízes para décadas de guerra no maior país africano.
As preocupações maiores são a degradação dos solos, desflorestação, desertificação e o avanço do deserto em direcção ao sul 2,5 quilómetros por ano. Nos últimos 40 anos o deserto cresceu 100 quilómetros.
O processo de desertificação está relacionado com o aumento espectacular dos rebanhos de 27 milhões de cabeças de gado para as actuais 135 milhões.
O documento do UNEP também revela o efeito das mudanças climáticas no Sudão. As chuvas são mais irregulares e escassas nos estados de Cordofão e Darfur.

22 de junho de 2007

O cachorro e a pantera

Um dia, num safari, um cachorrinho começa a brincar entretido a caçar borboletas e quando se dá conta já está muito longe do grupo da expedição.
Nisto vê bem perto uma pantera a correr na sua direcção. Ao perceber que a pantera o vai devorar, pensa rapidamente no que fazer. Vê os ossos de um animal morto e põe-se a mordê-los. Então, quando a pantera está quase a atacá-lo, o cachorrinho diz:
"Ah, estava deliciosa esta pantera que acabo de comer!"
A pantera pára bruscamente e desaparece apavorada pensando:
"Que cachorro corajoso! Por pouco não me comia também!"
Um macaco que estava numa árvore perto e assistiu à cena, vai a correr atrás da pantera para lhe contar como foi enganada pelo cachorro.
Então, a pantera furiosa diz:
"Maldito cachorro! Agora vamos ver quem come quem!"
"Depressa!" - disse o macaco. - "Vamos alcançá-lo...”
O cachorrinho vê que a pantera vem de novo atrás dele com o macaco às cavalitas…
"O que faço agora?"
O cachorrinho, em vez de fugir, senta-se de costas para a pantera como se a não visse e, quando esta está quase a atacá-lo, diz:
"Raios partam o maldito macaco! Há meia hora que mandei trazer-me outra pantera e ele ainda não voltou!"

Moral da história:"Em momentos de crise, a imaginação é mais importante que o conhecimento"
Autor desconhecido

21 de junho de 2007

Tráfico


O tráfico de seres humanos continua a crescer na África oriental.
O LRA (Exército de Resistência do Senhor na sigla em inglês) raptou 25 a 30 mil crianças durante os 20 anos de guerra no Norte do Uganda. Muitas acabaram no Sudão e na RD Congo, revelou um secretário de estado do governo ugandês.
O Gabinete das Nações Unidas para as Drogas e Crime (UNODC) afirma que mulheres e meninas são as grandes vítimas do tráfico de seres humanos. Muitas são obrigadas a entrar na prostituição e outras formas de exploração sexual.
Os homens traficados acabam a trabalhar na agricultura industrial, minas pedreiras e outras condições de trabalho perigosas.
Meninas e meninos são usados na indústria têxtil, pesca e agricultura.
O tráfico de seres humanos é uma forma de crime organizado que gera por ano 32 mil milhões de dólares. O director do UNODC, Jeffrey Avina, diz que cerca de 2,7 milhões de pessoas são traficados por ano em 127 países.
Estes dados foram revelados durante a primeira conferência regional contra o tráfico de seres humanos na África oriental a decorrer em Campala, a capital do Uganda.
Chefes da polícia, agentes da emigração e trabalhadores humanitários do Burundi, Ruanda, Tanzânia, Quénia, Uganda, Jibuti, Somália, Eritreia, Etiópia, Sudão e Seicheles participam na conferência. O evento faz parte da Inicitiva Global para Lutar contra Tráfico de Pessoas, lançada pela ONU em Março de 2007.

Paris

LÍDERES MUNDIAIS DISCUTEM DARFUR

Líderes mundiais incluindo Estados Unidos, China, Rússia e Japão, vão reunir com representantes da ONU e da União Europeia em Paris na segunda-feira para discutir a situação no Darfur, anunciou o ministério francês dos negócios estrangeiros.
Representantes dos Estados Unidos, Grã-bretanha, Canadá, Dinamarca, Egipto, Alemanha, Itália, Holanda, Noruega, Portugal e Suécia confirmaram a participação na Conferência de Paris.
A União Africana e o Sudão muito provavelmente ficam de fora em protesto por não serem previamente consultados sobre a iniciativa.
O encontro é organizado pelo recém-eleito presidente francês, Nicolas Sarkozy. Pretende juntar todos os países envolvidos no conflito do Darfur juntamente com a China para discutir uma solução política e questões humanitárias e de segurança, explicou a agência AFP.

20 de junho de 2007

Viajar

© JVieira

A UNICEF organizou um seminário sobre comunicação para radialistas e funcionários do Governo e convidou-me a apresentar o tópico Escrita Jornalística.
O seminário decorreu em Yei, uma pequena cidade verde a 169 km a sul de Juba, próxima da fronteira da RD Congo.
A minha apresentação correu bem, mas o mais interessante foi a viagem de regresso.

Para Yei fui com a UNICEF. Como tinha pressa de regressar a Juba para cobrir a visita do Eng. António Guterres, tive que utilizar os transportes públicos.
O «autocarro» era uma carrinha Hiace. Normalmente leva nove pessoas. Mas a que usei está «adaptada» para transportar 15 em cinco filas de três passageiros! Devidamente apertados e com a bagagem nos joelhos.
A estrada é de terra batida e esburacada qb. Atravessa uma paisagem variada: desde os mangueirais de Yei, aos campos de milho e de batata doce, palmares, campos de minas, o aterro «informal» onde parte do lixo de Juba vai parar...
As pontes, na maioria artesanais, estão em muito mau estado com grandes buracos feitos pelos veículos pesados que transportam do Uganda e do Congo os produtos que mantêm Juba!
Aqui e além carcaças de veículos civis e militares testemunham a guerra que terminou em 2005 com o Tratado Compreensivo de Paz entre o SPLA e o Governo de Cartum.
O trajecto Yei-Juba levou quase seis horas a percorrer com uma paragem de 45 minutos numa zona onde decorriam actividades de desminagem.
Cheguei a Juba a tempo de participar na conferência de imprensa do Eng. Guterres. Mas tenho a impressão que os órgãos internos estavam todos fora do sítio de tão chocalhado que fui!

E tive que tomar uma «boda-boda», a motorizada-táxi para chegar a casa. Mas o piloto foi impecável: super-cuidadoso e simpático. Mereceu o euro que tive que pagar!

Refugiados

Eng. Guterres cumprimenta funcionária do ACNUR à chegada a Juba © JVieira

O Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), Eng. António Guterres, revelou ontem Juba que o número de refugiados está próximo dos dez milhões.
Conflitos novos ou agravados no Darfur, Somália, Palestina, Líbano, Iraque e Afeganistão estão por detrás do aumento, o Eng. Guterres explicou.
O ACNUR encontrou-se com os jornalistas no aeroporto de Juba depois de ter acompanhado um grupo de refugiados sudaneses que regressou do Uganda para Kajo Keji.
O Eng. Guterres preside hoje às celebrações do Dia Internacional do Refugiado em Juba.

16 de junho de 2007

Infância Sudanesa

Meninas de Kworijik, Central Equatoria © JVieira
A UNICEF calcula que haja no Sudão cerca de 10 mil crianças-soldado;
A ONU diz que 21 dos 26 estados sudaneses estão minados e têm munições por explodir pondo em risco a vida das crianças;
Investigações recentes indicam que 42 por cento dos casamentos são de crianças com menos de 18 anos;
Só 39 por cento das crianças são registadas ao nascer;
No norte do Sudão quase 70 por cento das meninas e mulheres são vítimas de mutilação genital feminina;
No ano passado, em média dois bebés eram abandonados por dia em Cartum;
Noventa por cento dos casos registados no Centro da polícia para Mães e Crianças estão relacionados com ofensas sexuais ou relacionadas com a questão feminina;
A UNICEF calcula que pelo menos metade das crianças sudanesas praticam alguma forma de trabalho.
Hoje celebra-se o Dia da Criança Africana.

14 de junho de 2007

Darfur

KI-MOON APALUDE SIM DO SUDÃO
À FORÇA DE PAZ PARA O DARFUR


O Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, classificou de «marco histórico» o sim do Sudão ao envio de uma força híbrida de paz da ONU e da União Africana (UA) para o Darfur.
O Sudão aceitou na terça-feira em Adis Abeba o envio de uma força híbrida de paz formada por 17 a 19 mil soldados e polícias da ONU e da UA para substituir a força de paz africana que tem sido incapaz de pôr termo à violência que consome a província ocidental sudanesa desde 2003.
Contudo, funcionários da ONU reconhecem que as estruturas de comando e a captação rápida de forças para a missão de paz são desafios importantes.
O Secretário de Estado do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Sudão, Dr. Mutrif Sideek, explicou que a afirmação de que o governo Sudanês mudou de opinião rejeitando a força híbrida e aceitando-a agora é uma «inverdade».
«O Governo sudanês desde o ano passado que acolheu as fases sucessivas até chegar ao estádio da operação híbrida», o Dr Sideek afirmou ontem em Khartoum numa conferência de imprensa.
O acordo assinado em Adis Abeba entrega o comando das operações diárias à União Africana e o comando global da força híbrida às Nações Unidas. Contudo, o documento não esclarece como o comando conjunto ONU-UA vai funcionar na realidade.
Entretanto, o Presidente George W. Bush anunciou ontem que os Estados Unidos vão endurecer as sanções contra o Sudão apesar de Cartum ter aceitado a força híbrida para o Darfur.
Discursando via satélite no Encontro Anual da Convenção Baptista do Sul, o presidente Bush disse que Condoleezza Rice, encarregada dos negócios estrangeirtos norte-americanos, estava a estudar com os aliados a preparação de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU para alargar o embargo de armas ao Sudão e fechar o espaço aéreo do Darfur a voos militares sudaneses.
O Governo de Cartum tem praticado um autêntico jogo de yo-yo sobre o estabelecimento de uma força híbrida de manutenção de paz no Darfur.
O conflito no Darfur estalou em 2003 e já matou mais de 200 mil pessoas. Mais de dois milhões de darfurianos tiveram que abandonar as suas casas.

Viva!

Um encontro imediato de terceiro grau com uma mosquita Anopheles manteve-me cinco dias afastado do blogue. É verdade: acabo de curar a primeira malária sudanesa. Nada que se compare com a (única) crise de paludismo que tive na Etiópia. Mandou-me para o hospital durante quatro dias! Este foi um episódio menor apesar dos inconvenientes. E o tratamento evoluiu muito: o Cuarten é um medicamento que debela a crise sem grandes custos para o organismo hospedeiro.
Durante esta ausência forçada, o DN Gente publicou o meu perfil na secção Portugueses. O artigo foi escrito pela Helena Tecedeiro depois de uma longa conversa telefónica.
O Sudan Radio Service está a desenvolver uma semana de formação para o pessoal da Rádio Bakhita. Um curso prático que começou com a avaliação de alguns dos programas produzidos pela casa para determinar as fraquezas do grupo de trabalho. O curso cobre aperfeiçoamento de técnicas de entrevista, locução, gravação e edição de programas e código odontológico.
O programa matutino Juba Sunrise continua a crescer em qualidade e participação. A dupla Nyero Alex e Oyet Patrick está mais entrosada e os dois radialistas mais incisivos no desenvolvimento dos temas. Os últimos foram Darfur, moralidade e tribalismo. Os ouvintes estão a interagir cada vez mais através de telefonemas.
Como não há bela sem senão, o fornecimento de energia eléctrica ao transmissor é muito errático e a emissão tem sofrido alguns cortes diários, apanhando «nas covas» o técnico que opera o gerador até o sistema de ligação automático chegar de Nairobi. A companhia da electricidade de Juba continua a expandir a rede e às vezes tem necessidade de proceder a cortes temporários. Outras vezes são meio permanentes como o que demorou todo um fim de semana, porque a central ficou sem gasóleo. Acontece a quem se esquece de controlar stocks.

Estamos todos a aprender!

8 de junho de 2007

Juba Sunrise

Alex e Patrick © JVieira

Rádio Bakhita começou hoje a sua emissão matutina. O programa, transmitido em directo, das 7h00 às 10h00, chama-se Juba Sunrise (nascer do Sol em Juba) e é animado pelo jornalista Nyero Alex e pelo apresentador e técnico de emissão Oyet Patrick.
Juba Sunrise tem o formato de um magazine, misturando música com notícias e comentários. Os ouvintes participam através do telefone.
A primeira emissão experimental foi um sucesso. A carta aberta dos sudaneses que trabalham na ONG Save the Children UK ao Governo do Sul do Sudão a denunciar descriminação por parte do pessoal estrangeiro e a sugestão do Presidente da Zâmbia, Levy Mwanawasa, aos membros do G8 para criarem leis que facilitem o «repatriamento» de dinheiros da ajuda internacional desviados pelas elites africanas para contas pessoais nos bancos ocidentais, foram os temas principais.

6 de junho de 2007

Olhos no Darfur


Amnestia Internacional (AI) lança hoje o sítio Eyes on Darfur – Olhos no Darfur – para publicar fotografias das atrocidades cometidas na oeste do Sudão.
As fotos tiradas por um satélite de alta resolução documentam os crimes que o Governo sudanês nega.
Eyes on Darfur usa tecnologia de ponta para proteger os direitos humanos. Os observadores podem «vigiar» e proteger 12 aldeias altamente vulneráveis do Darfur que ainda estão intactas.

G8

By Gado in «Daily Nation»

5 de junho de 2007

O meu popó

© JVieira

Mais um passo

O transmissor de Rádio Bakhita foi esta tarde finalmente ligado à rede pública de electricidade de Juba.
A ligação vai possibilitar o alargamento de emissão e o seu embaratecimento. Desde 8 de Fevereiro que a 91 FM A Voz da Igreja, transmite diariamente das 17h00 até às 21h00. Os estúdios e o transmissor eram alimentados por dois geradores a diesel.
O novo período de emissão vai ser prolongado até às 22h00 em emissão programada e termina às 9h00 da manhã seguinte em programação automática com música e «jingles».
Sudan Radio Service, Serviço de Rádio Sudão, vai orientar um curso intensivo para o pessoal da Rádio Bakhita em técnicas de gravação, locução e entrevistas na próxima semana.
O Serviço de Rádio Sudão transmite para o Sudão em onda curta a partir do Quénia. É patrocinado pela USAID, a organização de ajuda internacional do Governo norte-americano.

4 de junho de 2007

Uma cultura de partilha

No dia 3 de Dezembro de 2003, Deus dava-me a graça de voltar à Etiópia, pela segunda vez. Regressava ao mesmo povo de quem me tinha despedido há nove anos. Era o povo Sidamo, no Sul da Etiópia. A missão de Teticha, iniciada pelos Missionários Combonianos em 1974, era novamente o meu destino.
À volta da missão, crescia um grupo de pessoas eternamente dependentes das «esmolas» dos missionários, pessoas a quem os familiares negavam os gestos de solidariedade próprios da sua cultura.
Comecei por interpelar alguns líderes na área do ensino, da saúde e doutros sectores sociais. Eram jovens que se sentiam agradecidos à missão por lhes ter dado a possibilidade de crescer na vida, não só a nível cristão como também a nível humano. Com eles, começámos a projectar a criação de dois grupos: o grupo da Assistência aos Pobres e o grupo dos Trabalhadores Católicos. Através deles, deveria passar a ajuda aos necessitados e o apoio aos estudantes.
Na primeira sexta-feira de cada mês, ao celebrar o Coração de Jesus, a comunidade fazia um grande ofertório para os pobres. Alguns trabalhadores começaram a oferecer parte do seu salário para os mais carenciados. A Asteri Dubale, agradecida pelo seu primeiro emprego como assistente social, entregou parte do seu primeiro salário para os pobres. E o Lema Lalimo, engenheiro agrónomo, ao ser eleito para coordenar o grupo de Assistência aos Pobres, começou o seu serviço oferecendo o salário de um mês para o fundo dos pobres.
Entretanto, a morte do meu pai, no passado mês de Novembro, trouxe-me a Portugal. Pensava voltar à Etiópia após duas ou três semanas, mas questões de saúde acabaram por adiar o meu regresso. Encontrando-me em Viseu, para tratamento médico, recebi no mês de Março uma carta emocionante do catequista Samuel Fena, em nome de toda a comunidade cristã de Teticha:
«Querido Abba Ivo,
A notícia da tua doença apanhou-nos como um relâmpago. Não queríamos acreditar. Ao sabermos da tua situação, juntámo-nos todos, como de costume, na primeira sexta-feira do mês, para pedirmos ao Coração de Jesus que te curasse. Estamos confiantes que Ele nos vai ouvir e tu vais voltar novamente para o meio de nós. Decidimos fazer o ofertório para ti. Recolhemos 700 birr. É uma pequena ajuda dos irmãos que deixaste em Teticha para pagares os medicamentos que, com a graça de Deus, te hão-de trazer a cura.»
Este gesto deixou-me emocionado. Setecentos birre, corresponde a setenta euros, mas para aquelas pessoas é muito… É o equivalente a mais de três salários mensais.
Quero olhar para estes setenta euros como Jesus olhou para as duas moedinhas que a viúva pobre deitou no cofre do tesouro de Jerusalém.

Padre Ivo do Vale, Missionário Comboniano
Versão integral do artigo em «Além-Mar»

3 de junho de 2007

Domingo


Como adoro as manhãs preguiçosas de domingo.
Adoro acordar devagar, deixar que os ouvidos se habituem calmamente ao cantar dos pássaros, ao eco das vozes, ao rumor dos motores, aos sons da vida que me envolvem.
Adoro caminhar lentamente pelo terreiro da missão, admirar a luz pálida da manhã, as cores das buganvílias, das acácias encarnadas e de outras flores. As lagartixas e outros répteis vestidos de multicores.
Adoro sentar-me na capela e rezar com calma a liturgia dominical. Às vezes com a Cati ao colo.
Adoro participar na Eucaristia paroquial, sentir o ritmo dos cânticos, a força da Palavra, a solidariedade da oração conjunta.
Adoro o almoço simples num restaurante barato, tempo de dois dedos de conversa despreocupada com os colegas.
Adoro a manhã do domingo porque a tarde é como todos os outros dias: a escrever notícias e tratar sons na Rádio Bakhita.

2 de junho de 2007

Sanções

O presidente do Governo semi-autónomo do Sul do Sudão, General Salva Kiir, afirmou que «as sanções [impostas pelos Estados Unidos ao Sudão] não resolvem os problemas do Darfur.»
O Genral Kiir fez esta afirmação em Oslo, na quinta-feira, no final de uma visita de dois dias à Noruega.
O presidente do Sul do Sudão afirmou que as sanções que o Presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, ondenou na terça-feira contra 30 companhias sudanesas e três particulares prejudicam o Sul do Sudão. Algumas das companhias sancionadas estão relacionadas com a indústria da extração do petróleo.
«Vai haver um impacte na população civil porque se as sanções vão em profundidade na base económica, afectarão as pessoas», disse o genral Kiir. «O Sul do Sudão vai ser atingido em primeiro lugar, porque as suas entradas vêm exclusivamente [da extracção] do petróleo.»

De facto, a única entrada no orçamento do governo do Sul do Sudão por enquanto é a sua quota parte dos proventos da exloração do crude no Sul do país.
O Governo do Sul do Sudão em dois anos de funcionamento ainda não tem em funconamento algum mecanismo de recolha geral de taxas.

1 de junho de 2007

Darfur

O MILAGRE DA PAZ

Aquando do massacre em Timor, os Portugueses uniram-se, quiseram e aconteceu algo que ainda hoje parece um milagre. No Sudão, o milagre não seria menor se Ibtissam pudesse cumprir o seu nome e voltasse a ser puro Sorriso num Darfur onde todos tivessem direito à vida e à paz.

Awad tem uns 30 anos. Casou com Ibtissam (Sorriso). Têm um filhote, Bahkit, e são do Darfur – a casa dos Fur –, a província ocidental do Sudão. Viviam em Khur el Bashar, perto de El Fashir. Os janjauid, as milícias árabes, atacaram a aldeia: casas queimadas, mulheres violadas, dezenas de mortos, gado roubado. Os sobreviventes refugiaram-se em Manauachi.
Três meses depois decidiram voltar. Pensavam que o furacão de morte tinha passado. Mas enganaram-se. Os ginetes – é este o significado de janjauid em árabe – voltaram montados em camelos e cavalos para secar a aldeia da sua gente. Khur el Bashar significa torrente do homem. Três anos depois do último ataque é um leito seco sem vivalma.
Awad é agricultor como a maioria dos muçulmanos negros do Darfur. «Trabalhava nos campos, sempre tive o suficiente para a minha família e para os meus pais. Agora vivo no campo de deslocados de Dereje. Todos os dias vou a Nyala à procura de trabalho. Mas não é fácil. A cidade está cheia de desempregados como eu. Vêm dos campos de Dereje e de Kalma. A minha mulher cuida do menino e trabalha na Organização de Beneficência. Ganha alguns dinares», diz. «Mas a maioria dos deslocados limita-se a ficar no campo, por fraqueza, doença ou pela idade.»

Um genocídio regional

A guerra civil do Darfur começou em Fevereiro de 2003. Rebeldes do Exército de Libertação do Sudão (SLA), e mais tarde o Movimento de Justiça e Igualdade (JEM) – as siglas correspondem aos nomes em inglês –, pegaram em armas contra Cartum, acusando o Governo do Sudão de discriminar os agricultores negros em favor dos pastores árabes.
O Governo de Omar el Bashir respondeu com as milícias janjauid. Em quatro anos, mais de 200 mil pessoas morreram, 2,5 milhões foram deslocados e quatro milhões carecem de ajuda. Cerca de 1500 aldeias foram apagadas do mapa.
O genocídio alastrou ao Chade e à República Centro-Africana. Os janjauid atacam além-fronteiras e começaram a matar árabes. Nos desertos inóspitos do Leste do Chade vivem 235 mil refugiados sudaneses e 140 mil deslocados internos chadianos. Todos fogem da limpeza étnica dos janjauid.

A táctica de Bashir

As Nações Unidas montaram no Darfur uma vasta operação humanitária. Catorze mil funcionários tentam aliviar as necessidades de quatro milhões de vítimas do conflito. A sua acção, contudo, é limitada pela insegurança.
A União Africana (UA) destacou 7000 homens para a região. A Missão da UA no Sudão (AMIS em inglês) está no Darfur desde Junho de 2004, mas é incapaz de travar a matança dos janjauid. Os soldados são poucos, mal armados e mal treinados.
Kofi Annan, ex-secretário-geral das Nações Unidas, propôs reforçar a AMIS com uma força híbrida de 23 mil capacetes azuis da ONU e soldados da UA. Omar el Bashir não aceita. Nega que haja violações no Darfur, diz que «no Sudão somos todos negros», que as vítimas dos «confrontos tribais» não passam os 9000, que o contingente africano chega para patrulhar uma área do tamanho da França. Depois de muita pressão internacional, apenas aceitou que 3000 polícias e militares da ONU dêem apoio técnico à AMIS.

Uma guerra muito suja

O Conselho dos Direitos Humanos da ONU enviou uma missão ao Darfur em Fevereiro passado. Os delegados escreveram que a situação do Darfur é «caracterizada pela violação sistemática e brutal dos direitos humanos e infracções graves da lei humanitária internacional».
E continuam: «A matriz principal [do conflito] é uma campanha violenta de contra-rebelião levada a cabo pelo Governo do Sudão em concerto com os janjauid; as milícias alvejam sobretudo civis.»
O relatório denuncia constantes atentados de todo o tipo contra os direitos humanos das populações: assassínios, torturas, violações, deslocações forçadas e prisões arbitrárias. A ONU acusa as forças armadas do Sudão de atacar alvos civis com aviões e veículos pintados com as insígnias da AMIS.

O xadrez dos interesses

Há vastos interesses em jogo no tabuleiro do Darfur. Os Estados Unidos denunciaram o genocídio, mas limitam-se a fazer ameaças. Isto porque o Sudão se tornou uma fonte importante de informação acerca dos movimentos dos terroristas e um aliado na luta norte-americana contra o terrorismo internacional.
A China, por seu turno, protege Cartum das sanções no Conselho de Segurança da ONU com o seu direito de veto. A razão é ainda mais óbvia: o Sudão é o seu maior fornecedor de petróleo e um parceiro económico importante. Entretanto, a Líbia e a Eritreia querem vigiar a fronteira entre o Chade e o Sudão; a Liga Árabe e o Egipto tentam manter o diálogo entre El Bashir e Ban Ki-moon, o secretário-geral da ONU.
O Governo semiautónomo do Sul do Sudão criou uma missão especial para o Darfur e pretende organizar uma cimeira com todas as forças rebeldes. Até porque a comunidade internacional tem centrado as suas atenções no Oeste do Sudão, e o Sul, que há tão pouco tempo saiu de uma violenta, demolidora e longa guerra civil, não está a receber as ajudas nem os investimentos que esperava. Decisivos para a sua reconstrução e para a construção de um futuro de paz, principalmente quando no horizonte se perfila um referendo sobre a sua autonomia.

O acordo da Rolls Royce

O governo de Al Bashir divide para reinar, diz que sim hoje e que não amanhã e só se sentará à mesa das negociações se a tal for forçado por uma diplomacia musculada que recorra a medidas punitivas concretas.
Especialistas defendem que a presença de uma força híbrida de 23 mil soldados no Darfur não é suficiente, que tem de ser complementada pelo congelamento das contas sudanesas no estrangeiro, a interdição do espaço aéreo do Darfur, a limitação das viagens dos líderes sudaneses ao exterior – e, para pressionar a China, nada sensível a violações dos direitos humanos, aproveitar a proximidade das Olimpíadas de Pequim de 2008, tão importantes para a imagem que a liderança chinesa quer dar ao mundo, para pôr termo ao genocídio.
Cabe à União Europeia (UE) liderar uma ofensiva diplomática que force Cartum a encontrar uma solução política para o Darfur através de um Acordo Compreensivo de Paz entre todas as partes envolvidas, como aconteceu com a guerra civil no Sul do Sudão. O Acordo de Paz assinado entre Cartum e uma facção do SLA a 5 de Maio de 2006 morreu à nascença. Neste caso, fora a Rolls Royce a abrir caminho: a empresa britânica, que fornecia motores à indústria petrolífera sudanesa, suspendeu todas as actividades no país como forma de protesto pelo que se passa no Darfur.

O papel de Portugal

Se uma só empresa pode tanto, uma comunidade internacional decidida e unida poderá muitíssimo mais. Mas não só a diplomacia, as organizações internacionais e humanitárias, os governos ou os actores económicos têm um papel a desempenhar. Cabe à sociedade civil europeia, fazendo jus às tradições humanistas de uma Europa de matriz cristã, pressionar os políticos e os decisores para que estes deixem as meias-medidas e as meias-tintas e se decidam de vez a pôr termo ao genocídio no Oeste do Sudão. Na hora em que Portugal assume a presidência da UE, os Portugueses e o seu Governo têm uma responsabilidade acrescida.
Aquando do massacre em Timor, os Portugueses uniram-se, quiseram e aconteceu algo que ainda hoje, apesar de todas as vicissitudes, parece um milagre. No Sudão, o milagre não seria menor se Ibtissam pudesse cumprir o seu nome e voltasse a ser puro Sorriso num Darfur onde todos tivessem direito à vida e à paz.

Texto escrito para as revistas da MissãoPress

29 de maio de 2007

Ligados

© JVieira

Rádio Bakhita está ligada ao mundo através da Internet via satélite desde esta tarde. Uma novidade assinalável que me vai salvar muito tempo. Até agora tinha que ir todos os dias aos serviços da ONU para baixar notícias e correio. Agora já o posso fazer de «casa». Mas vou ter saudades. Conheci muita gente interessante tanto na UNDP como na UNOCHA.

25 de maio de 2007

A VIDA BEIJOU A MORTE

© LUSA

- Há mortos e feridos em Bulbul. Há mortos e feridos em Khur el Bachar.
Quisera enganar-me, mas estas e outras passam a ser notícias de rotina no Darfur.
Os comentários na rua terminam com um encolher de ombros que diz muito:
- Que posso fazer? Os soldados da paz da União Africana andam por aí aos montes. Ainda agora aqui passaram duas furgonetas de caixa aberta cheias; armados até aos dentes. Em Bulbul e Khur el Bachar seria necessária a sua presença. Mas não. Andam por aqui a passear no mercado da cidade, a atrapalhar quem quer fazer vida...’
Levanto os olhos para a cruz. Vejo a morte que resiste e não quer morrer:
- Pai, porque me abandonaste?
Palavras ‘escandalosas’ na boca daquele que é o Filho de Deus?!
Tiveste mesmo que morrer desse jeito?! Tocaste o fundo do que é o mais baixo e vergonhoso do último dos seres humanos. Mas desse mesmo quiseste ser irmão. E o seu coração reviveu quando dos teus lábios moribundos ouviu o derradeiro testemunho:
-Tudo está consumado.
Sim, mesmo tudo. Em obediência ao plano de amor que te levou à morte de cruz. Essa cruz que vamos homenagear de aqui a uns momentos. Um beijo, um olhar a dizer shukran (obrigado), uma genuflexão. Aceita, Senhor, este gesto meu e destes irmãos e irmãs de Nyala. Não estamos aqui para fazer conspiração de vingança à maneira humana. Também não queremos anunciar ao mundo o luto pela tua morte. É o nosso agradecimento que te vimos trazer. Hoje, de maneira muito especial, com todos os redimidos do mundo inteiro. Hoje, dia da Grande Sexta-Feira, a tradução literal do árabe para a Sexta-Feira Santa.
Quando penso na sua morte Ele não está morto. Vive e eu vivo com Ele. Vive e vivem com Ele os 200 mil caídos na guerra do Darfur e os seus 2 milhões e meio de refugiados que tentam agarrar-se à vida.
O José de Arimateia não se enfadou comigo quando lhe pedi para entrar e ficar no sepulcro com Jesus. Oportunidade única para um velório muito particular. Por um amigo que deu a vida por mim. Estar ao pé dele. Isso é tudo.
As trevas não têm fim e a solidão aumenta. Penso que já é Sábado. O silêncio é sepulcral! Morte verdadeira e não fingida. Finalmente, a Luz e a Vida explodiram nas trevas da noite e da morte. Ah, sim, é o primeiro dia da semana. Tentei registar a hora exacta, mas o tempo não existe. Só há eternidade. Não ouso perguntar quem rolou a grande pedra que tapava o sepulcro. Que importa!? Sei que Ele ressuscitou e isto é tudo!
A vida beijou a morte e abriu-lhe as portas da eternidade feliz. Cruz, morte, sepulcro, ressurreição... pertencem ‘à mesma realidade. É Grande e é Santa aquela Sexta-Feira, pois é irmã do Domingo de Páscoa.
Cantemos Aleluias! As nossas vozes já não podem destoar. O Senhor Ressuscitado está presente e vai afinando, connosco, as cordas da eterna melodia.
Feliz Martins,
Missionário Comboniano em Nyala, Sul do Darfur (Sudão)

24 de maio de 2007

Ludopédia

© JVieira


Ontem fui à bola com os homens da Rádio Bakhita. As mulheres, nada interessadas em apreciar 22 murcões a correr atrás do esférico, no final da emissão foram para casa.
O primeiro «estádio» em que tentámos entrar, para as bandas do aeroporto, tinha a lotação esgotada meia hora antes da final da liga dos campeões começar.
Decidimos tentar a sorte noutro «recinto» junto ao rio. O campo parecia um estádio a sério, com bilheteiras e penetras. Entrada: uma libra sudanesa, qualquer coisa como 40 cêntimos. Bilhetes da UEFA não havia! Só as notas dos espectadores!
As «bancadas» estavam compostas, mas ainda havia alguns lugares livres. E cerveja à venda em garrafas de meio litro que é a medida homologada por estas bandas.
O rectângulo de jogo era um modesto televisor doméstico, mas deu para seguir as incidências do AC Milan contra o Liverpool apesar de alguns cortes na ligação satélite. Plasma por aqui só no sangue!
A maioria dos espectadores estava com os ingleses, mas, com o desenrolar da partida, os adeptos italianos começaram a perder a vergonha e a apoiar a sua equipa.
Eu era mais pela equipa de arbitragem, que esteve muito bem embora tardasse a meter na ordem os caceteiros de serviço, a começar por um tal Gatuzzo!
A partida decorreu tranquila sob o luar e debaixo de frondosas mangueiras. No fim, os italianos levaram o «caneco» para casa – o sétimo – e mereceram foram tão menos perdulários que os seus adversários. A equipa de arbitragem contentou-se com a medalha da ordem.

23 de maio de 2007

Refracções

© JVieira

«Lá no fundo, todos nós sabemos que o que importa nesta vida, mais do que ganhar sozinho é ajudar os outros a vencer, mesmo que isso signifique diminuir os nossos passos... Procure ser uma pessoa de valor, em vez de procurar ser uma pessoa de sucesso. O sucesso é consequência.»
Albert Einstein

19 de maio de 2007

Apelo por Abdelrhman e Ahmed

Abdelrhman Zakaria Mohamed e Ahmed Abdullah Suleiman, ambos de 16 anos, foram condenados à morte pelo Tribunal Penal de Nyala, capital do Sul do Darfur no dia 3 de Maio.
Abdelrhman Zakaria Mohamed foi condenado por «assassínio» e «roubo». Ahmed Abdullah Suleiman foi considerado «cúmplice». O advogado dos dois adolescentes apresentou recurso em Nyala a 15 de Maio.
Abdelrhman Zakaria Mohamed é acusado de ter assaltado a 28 de Fevereiro uma casa em Alwhad perto de Nyala armado com uma faca. Um morador deu o alarme e três vizinhos vieram em seu auxílio. Na luta que se seguiu, o assaltante apunhalou dois indivíduos. Um veio a falecer.
Abdelrhman foi entregue à polícia e denunciou o seu amigo Ahmed como cúmplice.

Os dois adolescentes foram transferidos para a prisão de Shalla, en Al Fashir, capital do norte do Darfur.
A República do Sudão ratificou a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança que não permite a execução de alguém que tenha cometido uma ofensa com menos de 18 anos.
O apelo, em inglês, expressa preocupação pelas duas crianças; recorda que segundo o direito internacional devem estar numa prisão para menores e serem julgados por um tribunal de menores; de acordo com as convenções ratificadas pelo Sudão quem cometer um crime antes dos 18 anos não pode ser condenado à morte; que @ subscritor/a é contra a pena de morte por ser uma violação do direito à vida e não ter efeitos dissuasores.
Não se esqueça de assinar e colocar o país onde vive.
Shukran! Obrigado

Um abraço
Zé Vieira

Por favor, copie e envie este apelo ao Ministro da Justiça (
info@sudanjudiciary.org) com cópia ao Conselho Sudanês de Direitos Humanos (human_rights_sudan@hotmail.com)

To
Mr Muhammad Ali al-Maradhi
Minister of Justice and Attorney General
Ministry of Justice
Khartoum
Sudan

Copy to
Dr Abdel Moneim Osman Taha
Rapporteur, Advisory Council for Human Rights
Khartoum
Sudan

Dear Minister
I write to you to express my concern for Abdelrhman Zakaria Mohamed and Ahmed Abdullah Suleiman. They are two children condemned to death and detained in Shalla Prision, Al Fashir, waiting for their appeal to be heard in Nyala Criminal Court.
Abdelrhman Zakaria Mohamed and Ahmed Abdullah Suleiman are 16 years old. According to international law they are still children and they should only be held in juvenile offenders’ institutions and only tried in a juvenile court with full protection of their rights as children.
The use of death penalty against child offenders - people who were under 18 at the time of the crime - is prohibited under international law. The Geneva Conventions, the International Covenant on Civil and Political Rights (ICCPR) and the Convention on the Rights of the Child (CRC), all have provisions exempting this age group from execution.
Sudan ratified the UN Convention on the Rights of the Child on 3 August 1990 and is party to the International Covenant on Civil and Political Rights (ICCPR). Under the terms of these treaties, Sudan has undertaken not to execute anyone for an offence committed whilst under 18 years of age.
I am opposed to the death penalty which is a violation of the right to life and has been shown to have no deterrent effect.
Yours respectfully

Núvem passageita

© JVieira

18 de maio de 2007

Adão e Eva

Um dia, no Jardim do Éden, Eva disse a Deus:
-Deus, tenho um problema!
-Qual é o teu problema, Eva?
-Deus, sei que me criaste e me deste este maravilhoso jardim e todos estes maravilhosos animais e esta serpente tão graciosa, mas... não sou feliz.
-Por quê, Eva? - disse a voz lá de cima.
-Deus, estou sozinha e não aguento comer mais maçãs.
-Bem, Eva, nesse caso tenho uma solução. Criarei um homem para ti...
-O que é um homem, Deus?
-Um homem será uma criatura defeituosa, com muitos atributos negativos. Mentiroso, arrogante, vaidoso. Em resumo, fará da tua vida um inferno. Mas, será maior, mais rápido, e vai caçar e matar animais para ti. Terá um aspecto estúpido, quando ficar excitado. Mas, para que não te queixes, criá-lo-ei com o objectivo de satisfazer as tuas necessidades físicas. Será patético e sentirá prazer em coisas infantis, como lutar e dar pontapés numa bola. Não será muito inteligente e vai precisar do teu conselho para pensar adequadamente.
-Parece óptimo! - disse Eva com um sorriso irónico.
-Porém...
-Qual é o problema, Deus?
-Bem... Irás tê-lo com uma condição.
-Qual, meu Deus?
-Como te disse, será orgulhoso, arrogante e egocêntrico... Assim, terás que deixar que ele acredite que eu o fiz primeiro!

Obrigado, Margarida,
pela versão feminina do primeiro capítulo de Génesis

17 de maio de 2007

Térmitas


© JVieira

As primeiras chuvas tiram da terra as térmitas que ganham asas para acasalarem e formarem novas colónias. Se não tiverem o azar de acabar num refogado gostoso.
As térmitas de Juba começaram a sair antes de ontem à noite, voando em direcção a pontos luminosos. Um espectáculo impar de milhares de asas a baterem e a caírem ao chão para responderem ao chamamento da natureza.
John, o nosso guarda-nocturno, chama petisco às térmitas. Era vê-lo em grande azáfama a meter na bacia com água as também (erradamente) chamadas «formigas brancas» atraídas – e traídas – pela lâmpada externa do bloco onde durmo.
As térmitas – os brasileiros chamam-lhe cupim – pertencem à família dos louva-a-deus e das baratas. As mais de 2800 espécies vivem sobretudo nas zonas tropicais. Adoram celulose e, por isso, causa graves prejuízos em habitações e mobiliário.

14 de maio de 2007

Petróleo

O último relatório da Energy Information Administration norte-americana (EIA), publicado no final do mês passado, revelou três pontos importantes sobre a exploração de petróleo no Sudão.
As reservas de crude sudanesas, de cinco mil milhões de barris, subiram dez vezes em relação à previsão da EIA no ano passado.
O Japão é o maior importador de petróleo sudanês e não a China como comummente se pensava. O relatório da EIA revela que o Japão importa 124 mil barris diários de crude sudanês enquanto os chineses se ficam pelos 90 mil.
O consumo de crude doméstico passou de cerca de 30 mil barris de crude por dia em 1999 para 98 000 no ano passado.
O Livro Anual de Estatísticas da BP, por seu turno, coloca as reservas de petróleo sudanês em 6,6 mil milhões de barris.
O Sudão ocupa o quinto lugar entre os produtores de petróleo africano depois da Líbia, Nigéria, Argélia e Angola.
O genocídio do Darfur também está relacionado com a exploração do petróleo. A província ocidental sudanesa tem importantes reservas de crude nas suas entranhas e a China é um dos países com concessão de exploração de «ouro negro» no Darfur.
Sunday na roupa tradicional Bari © JVieira

13 de maio de 2007

Pétalas de rosas

Os sorrisos de uma flor
São uma dádiva generosa...
Basta só ver quantas pétalas
Nos oferece uma rosa.
Cada uma destas pétalas
Descobre-nos qual a vantagem
De estar atento ao que é belo
Durante esta nossa viagem!
Numa das pétalas, cheia de cor,
Eu vi o meu coração...
Ela me falou de amor,
De partilha e doação...!
Outra, em sua profundidade,
Tinha escrito: - simpatia...
E disse-me que a generosidade
Gerava sempre a alegria!
Uma tinha um grande rasgão
Que lhe fizera o granizo.
Falou-me da compreensão,
E do valor de um sorriso!
Com ternura e suavidade,
Outra exibia esta mensagem:
Quem tem boas amizades
Caminha com mais coragem!
Mais uma falou-me sobre a magia
Do bom humor e do romantismo...
E que a música e a poesia
Comunicam sempre o optimismo!
E assim, ao desfolhar uma simples flor,
Descobrimos tesouros de grande valor
Que nos ajudam a chegar a esta conclusão:
Até as coisas mais simples e banais
Nos ensinam a ser menos intlectuais,
E a usar mais e melhor o coração!
Rosa Leitão
OBRIGADO, LUÍS FILIPE.

12 de maio de 2007

Trânsito



Há pelo menos dois acidentes graves diários em Juba, o segundo tenente Benjamim Majok disse à Rádio Bakhita.
O álcool e as manobras perigosas são os responsáveis maiores pela sinistralidade na capital do Sul do Sudão.
O oficial da Polícia de Trânsito queixou-se que a sua força não tem viaturas e agentes suficientes para vigiar o tráfico. Conta apenas com um carro-patrulha e duas motos. Uma frota manifestamente insuficiente para patrulhar Juba e redondezas.
As carrinhas-taxis importadas do Uganda também são uma fonte de preocupação. Os veículos estão preparados para circular pela esquerda pelo que os passageiros saem para o meio da faixa de rodagem em vez de as portas darem para as bermas. Em Juba, circula-se pela direita.
O Segundo Tenente Majok disse também que quando veículos dos «grandes do Governo» se envolvem em acidentes, os donos não respeitam os procedimentos legais e «tiram» os carros e condutores da custódia da polícia de trânsito sem mais.
O trânsito em Juba cresce de dia para dia. A Praça da Liberdade foi transformada num mercado de viaturas em segunda mão, quase todas provenientes do Uganda e em menor escala da RD Congo.
Uma nota final. Em Juba segue-se uma lei especial de sinalização de mudança de direcção. Para indicar que pretende seguir em frente em cruzamentos e rotundas, o condutor liga os quatro piscas! Dois para a esquerda, dois para a direita e os quatro para a frente! Pois claro.

9 de maio de 2007

Electricidade

© JVieira

Os estúdios da Rádio Bakhita foram ontem ligados à rede pública e a estação funcionou pela primeira vez sem necessitar de recorrer ao gerador. Trata-se de um desenvolvimento importante para o futuro da Voz da Igreja em Juba, no Sul do Sudão.
Até ontem a Rádio Bakhita era alimentada por um sistema híbrido de energia solar e um gerador a gasóleo.
Agora aguarda-se que a electricidade pública chegue ao bairro de Kator, onde está instalado o transmissor, que também é alimentado por um gerador.
Quando o transmissor for ligado à rede pública, Rádio Bakhita vai alargar o período de emissão.
Desde 8 de Fevereiro que a estação-mãe da Rede Católica de Rádio do Sudão emite para Juba diariamente das 17h00 até às 21h00. O facto de necessitar de dois geradores para pôr no ar a programação diária tornava a emissão muito cara.
Por agora, a electricidade é de borla. O Governo do Sul do Sudão decidiu instalar um sistema de contadores com carregamentos pré-pagos, mas ainda não tem aparelhos disponíveis para os clientes.

7 de maio de 2007

Rose morreu

Rose, uma cabra preta e branca casada com Charles Tombe, do bairro de Hai Malakal, em Juba, morreu esta semana devido aos plásticos que ingeriu.
Rose casou há cerca de um ano em circunstâncias especiais.
O consorte foi apanhado pelo dono da cabra em flagrante prática sexual com a ruminante.
O sr. Alifi, o dono, depois de se recompor do choque, atou Tombe e chamou os anciãos da comunidade bari para resolverem o caso de abuso sexual da sua chiba.
O tribunal tradicional decretou que Charles Tombe tinha que pagar 15 mil dinars (75 dólares ao câmbio actual) de dote sr. Alifi e casar com a cabra «para lhe dar uma lição.»
Rose entretanto teve um cabrito há cerca de quatro meses não do marido Charles, mas de um bode não identificado.
O sr. Alifi disse que a cabra não tinha nome, mas durante o julgamento os anciães baris puseram-lhe o nome de Rose.
Rose tornou-se numa celebridade mundial. A sua história foi contada pelo The Juba Post. A BBC encarregou-se de lhe dar notoriedade global, tornando-se a sua uma das peças mais «picadas» na página on-line da prestigiada rádio britânica.

6 de maio de 2007

História sufi

Um padeiro queria conhecer Uways, e este foi à padaria disfarçado de mendigo. Começou a comer um pão, o padeiro espancou-o e atirou-o na rua.
- Louco! - disse um discípulo que chegava. - Não vê que expulsou o mestre que queria conhecer?
Arrependido, o padeiro perguntou o que podia fazer para que o perdoasse. Uways pediu que convidasse a ele e seus discípulos para comer.
O padeiro levou-os até um excelente restaurante, e pediu os pratos mais caros.
- Assim distinguimos o homem bom do homem mau – disse Uways para os discípulos, no meio do almoço. - Este homem é capaz de gastar dez moedas de ouro num banquete porque sou célebre, mas é incapaz de dar um pão para alimentar um mendigo com fome.


Paulo Coelho

5 de maio de 2007

Rádio Bakhita

Oyet Patrick © JVieira


NOVOS PASSOS

Bakhita Radio 91 FM deu ontem mais um passo importante na sua afirmação como estação local: começou a transmitir o serviço de notícias em árabe.
Durante a fase experimental, Bakhita começou por retransmitir os serviços noticiosos da Rádio Vaticano.
A partir de Fevereiro, além dos serviços da Vaticano, iniciou o seu boletim noticioso em inglês. O noticiário de cerca de 10 minutos cobre Juba através das reportagens dos seus jornalistas, e o Sudão e os países vizinhos usando a Internet como fonte de informação. Vai para o ar às 19h00 e 20h00.
O boletim em árabe é um sumário alargado das notícias em inglês e é transmitido às 19h30 e às 20h30.
Entretanto, desde a Páscoa que A Voz da Igreja em Juba transmite em directo. Trata-se de um programa de cerca de meia hora que mistura a apresentação da emissão do dia com música, notícias e curiosidades. Chama-se Bits & Pieces e é animado por Oyet Patrick.
Entretanto, estamos a estudar a possibilidade de construir um estúdio de raiz bem insonorizado e com espaço para podermos alargar a emissão ao vivo. Até agora, os programas da Rádio Bakhita são todos pré-gravados à excepção de Bits & Pieces, um processo que consome muito tempo.

Equilíbrio


4 de maio de 2007

LRA ASSINA DOCUMENTO DE PAZ

A delegação do Exército de Resistência do Senhor (LRA na sigla em inglês) para as conversações de paz com o governo ugandês assinou na noite de 2 de Maio em Juba, no Sul do Sudão, um documento importante sobre os princípios para a solução global dos problemas sociais e políticos da rebelião.
«As partes concordaram que os membros do LRA que o queiram e se qualifiquem, integrem as forças armadas nacionais e outras agências de segurança» e que «as crianças de combatentes mortos do LRA devem beneficiar juntamente com outras crianças afectadas pelo conflito da Educação Primária Universal e Educação e Formação Universal Pós-Primária», MISNA noticiou.
Ontem, o ambiente no Juba Raha Hotel onde as negociações decorrem, na capital da região semi-autónoma do Sul do Sudão, era de euforia contida e descontracção depois de uma semana de incertezas enquanto a delegação do LRA trabalhava no documento dois da agenda das conversações, que veio a assinar.
Martin Ojul, chefe da delegação do LRA, disse que as delegações iniciam agora o estudo do ponto número três: reconciliação e responsabilização.
Ojul explicou que uma delegação dos facilitadores das conversações vai viajar para a Holanda para se encontrar com juízes do Tribunal Penal Internacional (TPI).
O TPI passou mandados de captura contra Joseph Kony e mais quatro comandantes do LRA por crimes contra a humanidade.
A delegação vai propor ao TPI que o julgamento do LRA seja feito através da justiça tradicional, Ojul disse.
Joseph Kony afirmou que não assinará o tratado de paz com o governo ugandês se o TPI não anular os mandados de captura contra a liderança do LRA.
As conversações de Paz entre o LRA e o Governo do Uganda foram retomadas a 26 de Abril depois de um interregno de três meses.
Dr Riek Machar, vice-presidente do Sul do Sudão, é o mediador principal das negociações para pôr termo à rebelião do LRA que do Norte do Uganda se espalhou ao Sul do Sudão e ao Leste da RD Congo.
Em 21 anos fez mais de mais de 12 mil mortos, incluindo alguns missionários combonianos, e 1,5 milhões de deslocados. Cerca de 25 mil crianças foram raptadas para integrarem as fileiras dos rebeldes ugandeses e para servirem de escravas sexuais dos comandantes. Milhares foram mutilados.

3 de maio de 2007

Os dois cirurgiões

Um mecânico estava entretido a remover a cabeça do cilindro do motor de uma viatura quando viu à porta da garagem um cárdio-cirurgião famoso. O doutor estava à espera que alguém lhe verificasse o automóvel.
O mecânico gritou do fundo da garagem:
- Olá, doutor! Pode vir aqui um momento, por favor? É só um minutinho…
O famoso cliente, surpreendido pelo convite, dirigiu-se ao mecânico. Este endireitou-se, limpou as mãos ao desperdício e perguntou:
- Doutor, veja bem: também abro corações, tiro válvulas, limpo-as e afino-as, coloco peças novas... Quando termino o motor fica como novo! Então porquê é que o senhor ganha tanto dinheiro e eu tão pouco se fazemos basicamente a mesma coisa?

O cirurgião respondeu:
- Já tentou fazer tudo isso com o motor ligado?

Autor desconhecido

2 de maio de 2007

Dia Mundial da Liberdade de Imprensa


Meia centena de jornalistas participaram hoje em Juba num seminário formativo sobre Liberdade de Imprensa, Segurança de Jornalistas e impunidade para assinalar o décimo aniversário do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa.
«O Dia Mundial da Liberdade de Imprensa é uma advertência anual à comunidade internacional de que a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão são direitos fundamentais consignados na Declaração Universal dos Direitos Humanos», James Lemor, secretário da União de Jornalistas do Sul do Sudão afirmou num relatório sobre o desenvolvimento de meios de comunicação social independentes no Sul do Sudão
«Necessitamos de defender estes direitos porque são a pedra angular da democracia», James Lemor adiantou.
O Secretário queixou-se que a União de Jornalistas do Sul do Sudão tem passado por diversas dificuldades no relacionamento com as autoridades.
A União é acusada de representar os jornalistas de uma só região, o que não é manifestamente verdade. E denunciou que o governo regional e os governos estaduais interferem continuamente no trabalho dos profissionais da informação através de prisões arbitrárias e perseguição.
Jornalistas da televisão, rádios e jornais de Juba fizeram uma breve apresentação das respectivas empresas de comunicação. No debate que se seguiu sublinharam a necessidade de trabalharem em rede para baterem o muro de secretismo que as autoridades constroem.
O 10º Dia Mundial da Liberdade de Imprensa é assinalado em Juba no dia 3 de Maio com uma manifestação popular logo pela manhã. Ao fim do dia os jornalistas da capital dos sul do Sudão reúnem-se em convívio de confraternização na margem do Nilo Branco.

1 de maio de 2007

LRA - UGANDA

CONVERSAÇÕES EM BOM CAMINHO

As conversações de paz entre o governo do Uganda e o Exército de Resistência do Senhor (LRA em inglês), então bem caminhadas e não há motivo para preocupação, declarou o Conselheiro da Delegação de Paz do LRA.
O Dr. James Obita explicou que a delegação do LRA encontrou algumas inconsistências no ponto número dois da agenda das conversações e tem estado ocupada a preparar um texto para ser apresentado aos parceiros da delegação do Governo ugandês.
A delegação do LRA permaneceu durante alguns dias no hotel onde está hospedada em Juba. A sua ausência do local onde as conversações decorrem levantou dúvidas sobre as intenções dos rebeldes.
O Conselheiro da Delegação de paz do LRA disse que os delegados estão interessados no sucesso das negociações e explicou que os rebeldes necessitavam de algum tempo para elaborar o documento.
As conversações de paz para o norte do Uganda foram retomadas em Juba, capital da região semi-autónoma do Sul do Sudão, na quinta-feira, 26 de Abril, depois de um interregno de quatro meses.
Riek Machar, vice-presidente do governo do Sul do Sudão, é o negociador principal. Representantes da África do Sul, Moçambique, Quénia, RD Congo e Tanzânia, da sociedade civil e religiosa Acholi, da Pax Christi e da Comunidade de Santo Egídio, integram o grupo de mediação.
As conversações tinham sido iniciadas em Julho do ano passado para pôr termo a 20 anos de atrocidades, morte e destruição no Norte do Uganda, no Sul do Sudão e no leste da RD Congo.
As Nações Unidas calculam que cerca de 25,000 crianças foram raptadas pelo LRA desde 1987 para combaterem nas fileiras dos rebeldes ou serem escravas sexuais dos comandantes.
O governo Norte-Americano diz que pelo menos 12 mil pessoas foram mortas nos ataques e muitas mais pereceram de doenças e mal nutrição. Mais de um milhão e meio foram desalojados e vivem em campos de deslocados internos.

Arcebispo pede novos líderes

© JVieira

Dom Paulino Lukudu Loro, arcebispo de Juba, afirmou que os Sudaneses do Sul têm que procurar novos líderes que acalentem as aspirações de autodeterminação dos sulistas.
O Presidente da Conferência Episcopal Sudanesa disse durante um seminário da Comissão Justiça e Paz sobre recenseamento, eleições e referendo para a autodeterminação que a situação que se vive na região semi-autónoma do Sul do Sudão requer unidade de objectivos para todos os sulistas, especialmente durante o recenseamento nacional.
Arcebispo Lukudu Loro disse que «é lamentável que as massas do Sul do Sudão não estão a ser educadas adequadamente sobre o exercício vital do recenseamento nacional que deve preparar o caminho para um planeamento adequado das áreas marginalizadas do Sudão.»
O arcebispo de Juba desafiou a elite política do Sul do Sudão a defender as aspirações populares à separação do Norte em vez de as desencaminhar com as palavras vãs de Novo Sudão e tornar a unidade nacional atractiva para uma população que foi marginalizada durante 50 anos.
De acordo com a fita do tempo do CPA, o Acordo Compreensivo de Paz assinado entre o SPLA e o governo sudanês a 9 de Janeiro de 2005, o recenseamento nacional deveria estar pronto a 9 de Julho de 2007 para preparar os círculos e cadernos eleitorais para as eleições de 2008 e para o referendo sobre a autodeterminação do Sul em 2011 além de servir de instrumento para o orçamento do governo.
A Comissão de Recenseamento, contudo, prevê que a contagem geral dos habitantes do Sudão se inicie em Janeiro de 2008.
Entretanto, o escritório do Presidente da Comissão Regional de Recenseamento foi reduzido a cinzas no sábado passado. Pensa-se um curto-circuito esteve na origem do incêndio, que deflagrou depois de os funcionários da limpeza terem abandonado o espaço.