13 de maio de 2007

Pétalas de rosas

Os sorrisos de uma flor
São uma dádiva generosa...
Basta só ver quantas pétalas
Nos oferece uma rosa.
Cada uma destas pétalas
Descobre-nos qual a vantagem
De estar atento ao que é belo
Durante esta nossa viagem!
Numa das pétalas, cheia de cor,
Eu vi o meu coração...
Ela me falou de amor,
De partilha e doação...!
Outra, em sua profundidade,
Tinha escrito: - simpatia...
E disse-me que a generosidade
Gerava sempre a alegria!
Uma tinha um grande rasgão
Que lhe fizera o granizo.
Falou-me da compreensão,
E do valor de um sorriso!
Com ternura e suavidade,
Outra exibia esta mensagem:
Quem tem boas amizades
Caminha com mais coragem!
Mais uma falou-me sobre a magia
Do bom humor e do romantismo...
E que a música e a poesia
Comunicam sempre o optimismo!
E assim, ao desfolhar uma simples flor,
Descobrimos tesouros de grande valor
Que nos ajudam a chegar a esta conclusão:
Até as coisas mais simples e banais
Nos ensinam a ser menos intlectuais,
E a usar mais e melhor o coração!
Rosa Leitão
OBRIGADO, LUÍS FILIPE.

12 de maio de 2007

Trânsito



Há pelo menos dois acidentes graves diários em Juba, o segundo tenente Benjamim Majok disse à Rádio Bakhita.
O álcool e as manobras perigosas são os responsáveis maiores pela sinistralidade na capital do Sul do Sudão.
O oficial da Polícia de Trânsito queixou-se que a sua força não tem viaturas e agentes suficientes para vigiar o tráfico. Conta apenas com um carro-patrulha e duas motos. Uma frota manifestamente insuficiente para patrulhar Juba e redondezas.
As carrinhas-taxis importadas do Uganda também são uma fonte de preocupação. Os veículos estão preparados para circular pela esquerda pelo que os passageiros saem para o meio da faixa de rodagem em vez de as portas darem para as bermas. Em Juba, circula-se pela direita.
O Segundo Tenente Majok disse também que quando veículos dos «grandes do Governo» se envolvem em acidentes, os donos não respeitam os procedimentos legais e «tiram» os carros e condutores da custódia da polícia de trânsito sem mais.
O trânsito em Juba cresce de dia para dia. A Praça da Liberdade foi transformada num mercado de viaturas em segunda mão, quase todas provenientes do Uganda e em menor escala da RD Congo.
Uma nota final. Em Juba segue-se uma lei especial de sinalização de mudança de direcção. Para indicar que pretende seguir em frente em cruzamentos e rotundas, o condutor liga os quatro piscas! Dois para a esquerda, dois para a direita e os quatro para a frente! Pois claro.

9 de maio de 2007

Electricidade

© JVieira

Os estúdios da Rádio Bakhita foram ontem ligados à rede pública e a estação funcionou pela primeira vez sem necessitar de recorrer ao gerador. Trata-se de um desenvolvimento importante para o futuro da Voz da Igreja em Juba, no Sul do Sudão.
Até ontem a Rádio Bakhita era alimentada por um sistema híbrido de energia solar e um gerador a gasóleo.
Agora aguarda-se que a electricidade pública chegue ao bairro de Kator, onde está instalado o transmissor, que também é alimentado por um gerador.
Quando o transmissor for ligado à rede pública, Rádio Bakhita vai alargar o período de emissão.
Desde 8 de Fevereiro que a estação-mãe da Rede Católica de Rádio do Sudão emite para Juba diariamente das 17h00 até às 21h00. O facto de necessitar de dois geradores para pôr no ar a programação diária tornava a emissão muito cara.
Por agora, a electricidade é de borla. O Governo do Sul do Sudão decidiu instalar um sistema de contadores com carregamentos pré-pagos, mas ainda não tem aparelhos disponíveis para os clientes.

7 de maio de 2007

Rose morreu

Rose, uma cabra preta e branca casada com Charles Tombe, do bairro de Hai Malakal, em Juba, morreu esta semana devido aos plásticos que ingeriu.
Rose casou há cerca de um ano em circunstâncias especiais.
O consorte foi apanhado pelo dono da cabra em flagrante prática sexual com a ruminante.
O sr. Alifi, o dono, depois de se recompor do choque, atou Tombe e chamou os anciãos da comunidade bari para resolverem o caso de abuso sexual da sua chiba.
O tribunal tradicional decretou que Charles Tombe tinha que pagar 15 mil dinars (75 dólares ao câmbio actual) de dote sr. Alifi e casar com a cabra «para lhe dar uma lição.»
Rose entretanto teve um cabrito há cerca de quatro meses não do marido Charles, mas de um bode não identificado.
O sr. Alifi disse que a cabra não tinha nome, mas durante o julgamento os anciães baris puseram-lhe o nome de Rose.
Rose tornou-se numa celebridade mundial. A sua história foi contada pelo The Juba Post. A BBC encarregou-se de lhe dar notoriedade global, tornando-se a sua uma das peças mais «picadas» na página on-line da prestigiada rádio britânica.

6 de maio de 2007

História sufi

Um padeiro queria conhecer Uways, e este foi à padaria disfarçado de mendigo. Começou a comer um pão, o padeiro espancou-o e atirou-o na rua.
- Louco! - disse um discípulo que chegava. - Não vê que expulsou o mestre que queria conhecer?
Arrependido, o padeiro perguntou o que podia fazer para que o perdoasse. Uways pediu que convidasse a ele e seus discípulos para comer.
O padeiro levou-os até um excelente restaurante, e pediu os pratos mais caros.
- Assim distinguimos o homem bom do homem mau – disse Uways para os discípulos, no meio do almoço. - Este homem é capaz de gastar dez moedas de ouro num banquete porque sou célebre, mas é incapaz de dar um pão para alimentar um mendigo com fome.


Paulo Coelho

5 de maio de 2007

Rádio Bakhita

Oyet Patrick © JVieira


NOVOS PASSOS

Bakhita Radio 91 FM deu ontem mais um passo importante na sua afirmação como estação local: começou a transmitir o serviço de notícias em árabe.
Durante a fase experimental, Bakhita começou por retransmitir os serviços noticiosos da Rádio Vaticano.
A partir de Fevereiro, além dos serviços da Vaticano, iniciou o seu boletim noticioso em inglês. O noticiário de cerca de 10 minutos cobre Juba através das reportagens dos seus jornalistas, e o Sudão e os países vizinhos usando a Internet como fonte de informação. Vai para o ar às 19h00 e 20h00.
O boletim em árabe é um sumário alargado das notícias em inglês e é transmitido às 19h30 e às 20h30.
Entretanto, desde a Páscoa que A Voz da Igreja em Juba transmite em directo. Trata-se de um programa de cerca de meia hora que mistura a apresentação da emissão do dia com música, notícias e curiosidades. Chama-se Bits & Pieces e é animado por Oyet Patrick.
Entretanto, estamos a estudar a possibilidade de construir um estúdio de raiz bem insonorizado e com espaço para podermos alargar a emissão ao vivo. Até agora, os programas da Rádio Bakhita são todos pré-gravados à excepção de Bits & Pieces, um processo que consome muito tempo.

Equilíbrio


4 de maio de 2007

LRA ASSINA DOCUMENTO DE PAZ

A delegação do Exército de Resistência do Senhor (LRA na sigla em inglês) para as conversações de paz com o governo ugandês assinou na noite de 2 de Maio em Juba, no Sul do Sudão, um documento importante sobre os princípios para a solução global dos problemas sociais e políticos da rebelião.
«As partes concordaram que os membros do LRA que o queiram e se qualifiquem, integrem as forças armadas nacionais e outras agências de segurança» e que «as crianças de combatentes mortos do LRA devem beneficiar juntamente com outras crianças afectadas pelo conflito da Educação Primária Universal e Educação e Formação Universal Pós-Primária», MISNA noticiou.
Ontem, o ambiente no Juba Raha Hotel onde as negociações decorrem, na capital da região semi-autónoma do Sul do Sudão, era de euforia contida e descontracção depois de uma semana de incertezas enquanto a delegação do LRA trabalhava no documento dois da agenda das conversações, que veio a assinar.
Martin Ojul, chefe da delegação do LRA, disse que as delegações iniciam agora o estudo do ponto número três: reconciliação e responsabilização.
Ojul explicou que uma delegação dos facilitadores das conversações vai viajar para a Holanda para se encontrar com juízes do Tribunal Penal Internacional (TPI).
O TPI passou mandados de captura contra Joseph Kony e mais quatro comandantes do LRA por crimes contra a humanidade.
A delegação vai propor ao TPI que o julgamento do LRA seja feito através da justiça tradicional, Ojul disse.
Joseph Kony afirmou que não assinará o tratado de paz com o governo ugandês se o TPI não anular os mandados de captura contra a liderança do LRA.
As conversações de Paz entre o LRA e o Governo do Uganda foram retomadas a 26 de Abril depois de um interregno de três meses.
Dr Riek Machar, vice-presidente do Sul do Sudão, é o mediador principal das negociações para pôr termo à rebelião do LRA que do Norte do Uganda se espalhou ao Sul do Sudão e ao Leste da RD Congo.
Em 21 anos fez mais de mais de 12 mil mortos, incluindo alguns missionários combonianos, e 1,5 milhões de deslocados. Cerca de 25 mil crianças foram raptadas para integrarem as fileiras dos rebeldes ugandeses e para servirem de escravas sexuais dos comandantes. Milhares foram mutilados.

3 de maio de 2007

Os dois cirurgiões

Um mecânico estava entretido a remover a cabeça do cilindro do motor de uma viatura quando viu à porta da garagem um cárdio-cirurgião famoso. O doutor estava à espera que alguém lhe verificasse o automóvel.
O mecânico gritou do fundo da garagem:
- Olá, doutor! Pode vir aqui um momento, por favor? É só um minutinho…
O famoso cliente, surpreendido pelo convite, dirigiu-se ao mecânico. Este endireitou-se, limpou as mãos ao desperdício e perguntou:
- Doutor, veja bem: também abro corações, tiro válvulas, limpo-as e afino-as, coloco peças novas... Quando termino o motor fica como novo! Então porquê é que o senhor ganha tanto dinheiro e eu tão pouco se fazemos basicamente a mesma coisa?

O cirurgião respondeu:
- Já tentou fazer tudo isso com o motor ligado?

Autor desconhecido

2 de maio de 2007

Dia Mundial da Liberdade de Imprensa


Meia centena de jornalistas participaram hoje em Juba num seminário formativo sobre Liberdade de Imprensa, Segurança de Jornalistas e impunidade para assinalar o décimo aniversário do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa.
«O Dia Mundial da Liberdade de Imprensa é uma advertência anual à comunidade internacional de que a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão são direitos fundamentais consignados na Declaração Universal dos Direitos Humanos», James Lemor, secretário da União de Jornalistas do Sul do Sudão afirmou num relatório sobre o desenvolvimento de meios de comunicação social independentes no Sul do Sudão
«Necessitamos de defender estes direitos porque são a pedra angular da democracia», James Lemor adiantou.
O Secretário queixou-se que a União de Jornalistas do Sul do Sudão tem passado por diversas dificuldades no relacionamento com as autoridades.
A União é acusada de representar os jornalistas de uma só região, o que não é manifestamente verdade. E denunciou que o governo regional e os governos estaduais interferem continuamente no trabalho dos profissionais da informação através de prisões arbitrárias e perseguição.
Jornalistas da televisão, rádios e jornais de Juba fizeram uma breve apresentação das respectivas empresas de comunicação. No debate que se seguiu sublinharam a necessidade de trabalharem em rede para baterem o muro de secretismo que as autoridades constroem.
O 10º Dia Mundial da Liberdade de Imprensa é assinalado em Juba no dia 3 de Maio com uma manifestação popular logo pela manhã. Ao fim do dia os jornalistas da capital dos sul do Sudão reúnem-se em convívio de confraternização na margem do Nilo Branco.

1 de maio de 2007

LRA - UGANDA

CONVERSAÇÕES EM BOM CAMINHO

As conversações de paz entre o governo do Uganda e o Exército de Resistência do Senhor (LRA em inglês), então bem caminhadas e não há motivo para preocupação, declarou o Conselheiro da Delegação de Paz do LRA.
O Dr. James Obita explicou que a delegação do LRA encontrou algumas inconsistências no ponto número dois da agenda das conversações e tem estado ocupada a preparar um texto para ser apresentado aos parceiros da delegação do Governo ugandês.
A delegação do LRA permaneceu durante alguns dias no hotel onde está hospedada em Juba. A sua ausência do local onde as conversações decorrem levantou dúvidas sobre as intenções dos rebeldes.
O Conselheiro da Delegação de paz do LRA disse que os delegados estão interessados no sucesso das negociações e explicou que os rebeldes necessitavam de algum tempo para elaborar o documento.
As conversações de paz para o norte do Uganda foram retomadas em Juba, capital da região semi-autónoma do Sul do Sudão, na quinta-feira, 26 de Abril, depois de um interregno de quatro meses.
Riek Machar, vice-presidente do governo do Sul do Sudão, é o negociador principal. Representantes da África do Sul, Moçambique, Quénia, RD Congo e Tanzânia, da sociedade civil e religiosa Acholi, da Pax Christi e da Comunidade de Santo Egídio, integram o grupo de mediação.
As conversações tinham sido iniciadas em Julho do ano passado para pôr termo a 20 anos de atrocidades, morte e destruição no Norte do Uganda, no Sul do Sudão e no leste da RD Congo.
As Nações Unidas calculam que cerca de 25,000 crianças foram raptadas pelo LRA desde 1987 para combaterem nas fileiras dos rebeldes ou serem escravas sexuais dos comandantes.
O governo Norte-Americano diz que pelo menos 12 mil pessoas foram mortas nos ataques e muitas mais pereceram de doenças e mal nutrição. Mais de um milhão e meio foram desalojados e vivem em campos de deslocados internos.

Arcebispo pede novos líderes

© JVieira

Dom Paulino Lukudu Loro, arcebispo de Juba, afirmou que os Sudaneses do Sul têm que procurar novos líderes que acalentem as aspirações de autodeterminação dos sulistas.
O Presidente da Conferência Episcopal Sudanesa disse durante um seminário da Comissão Justiça e Paz sobre recenseamento, eleições e referendo para a autodeterminação que a situação que se vive na região semi-autónoma do Sul do Sudão requer unidade de objectivos para todos os sulistas, especialmente durante o recenseamento nacional.
Arcebispo Lukudu Loro disse que «é lamentável que as massas do Sul do Sudão não estão a ser educadas adequadamente sobre o exercício vital do recenseamento nacional que deve preparar o caminho para um planeamento adequado das áreas marginalizadas do Sudão.»
O arcebispo de Juba desafiou a elite política do Sul do Sudão a defender as aspirações populares à separação do Norte em vez de as desencaminhar com as palavras vãs de Novo Sudão e tornar a unidade nacional atractiva para uma população que foi marginalizada durante 50 anos.
De acordo com a fita do tempo do CPA, o Acordo Compreensivo de Paz assinado entre o SPLA e o governo sudanês a 9 de Janeiro de 2005, o recenseamento nacional deveria estar pronto a 9 de Julho de 2007 para preparar os círculos e cadernos eleitorais para as eleições de 2008 e para o referendo sobre a autodeterminação do Sul em 2011 além de servir de instrumento para o orçamento do governo.
A Comissão de Recenseamento, contudo, prevê que a contagem geral dos habitantes do Sudão se inicie em Janeiro de 2008.
Entretanto, o escritório do Presidente da Comissão Regional de Recenseamento foi reduzido a cinzas no sábado passado. Pensa-se um curto-circuito esteve na origem do incêndio, que deflagrou depois de os funcionários da limpeza terem abandonado o espaço.

29 de abril de 2007

Pitão


Forte de Jesus

© JVieira

OS GRAFITOS DA SAUDADE

Os Portugueses construíram o Forte de Jesus em 1593 para controlar a entrada do porto da cidade-ilha de Mombaça e as rotas comerciais do Oceano Índico. Em 1698, depois de mais de dois anos de cerco, a fortaleza foi tomada pelos árabes.
Uma das atracções do Forte de Jesus são os grafitos que os marinheiros portugueses pintaram em duas paredes de uma caserna. Naquele tempo não havia latas de spay. Por isso, tiveram que se contentar com carvão e ocre.
Os desenhos «falam» do mar e da saudade. Mombaça ficava a seis meses de viagem de Lisboa. Um coração atrai a vista dos visitantes: suspiro por um amor distante. Uma mulher acena adeus das arcadas de um palácio. Há igrejas, um cruzeiro, um castelo. Um português raçudo desafia sete inimigos árabes chineses. E muitos navios: barcos, caravelas, naus, galeões. Há ainda dois peixes e um bicharoco que se parece com um camaleão.
Os desenhos foram restaurados em 1967 através de uma ajuda da Fundação Gulbenkian.

26 de abril de 2007

FC Porto global

Forte de Jesus - Mombaça Jovem queniano veste camisola do FCP © JVieira

Uganda

CONVERSAÇÕES DE PAZ

As conversações de paz entre o governo ugandês e o Exército de Resistência do Senhor (LRA em inglês) foram retomadas hoje em Juba sob a mediação de Joaquim Chiçano, ex-presidente de Moçambique e enviado especial da ONU para o Norte do Uganda e o Governo do Sul do Sudão.
O LRA sentou-se à mesa das negociações em Julho passado. As conversações foram interrompidas em Dezembro. Os rebeldes ugandeses alegaram razões de segurança e falta de confiança no mediador, Riek Machar, o vice-presidente do Sul do Sudão.
As conversações de paz são seguidas pela sociedade civil e religiosa ugandesa, por representantes de cinco países africanos e por enviados da Pax Christi e da African Peace Point.
Joseph Kony, o lídel do LRA encontra-se no seu refúgio na floresta da RD Congo. Os rebeldes intervêm no norte do Uganda e no Sul do Sudão e fizeram milhares de mortos em 21 anos de confrontos, além de empregarem crianças-soldados e obrigarem as meninas a serem escravas sexuais dos seus líderes.

Dias de paraíso




Mombaça © JVieira
Trago nos olhos o verde do mar, o azul do céu, os lagartos e as flores de todas as cores;
Trago nos ouvidos o falar do mar, o chilrear dos pássaros, o silêncio da noite de luar, o bailar dos coqueiros agitados pelo vento;
Trago no corpo o sabor a sal, o bronze do sol, a carícia cálida da noite e da água quente do Índico; Trago na boca o sabor doce de comidas temperadas com especiarias, a água fresca do coco, a textura da sua polpa doce;
Trago a memória de batalhas sem fim no Forte de Jesus, a saudade escrita com grafitos desenhados a carvão na parede da caserna, o desmoronamento de um império maior que si mesmo;
Trago no coração as conversas de praia com jovens sem grande futuro, que ganham umas moedas a vender porta-chaves de pau-preto, a trazer cerveja, meninas, rapazes, entretenimento para «muzungos» carentes e com dinheiro; o sorriso inocente das crianças; os olhos vivos de mulheres literalmente tapadas dos pés à cabeça;
Trago na alma o celebrar alegre de comunidades cristãs que festejam o Senhor da Vida;
Trago o agradecimento pelos dias de descanso, de lazer e de prazer, sentado junto ao mar a contemplar, a ler, a escrever, a nadar, a caminhar, a viver!

12 de abril de 2007

Até já

Mãe e filha (Amel) dinkas © JVieira

Durante uns dias estou no Quénia. Prometo voltar a postar logo que me seja possível. Abraço!

11 de abril de 2007

Mbeki visita Juba

Mbeki recebe insígnias sudanesas © JVieira

Thabo Mbeki completou uma visita de dias ao Sudão com uma breve passagem por Juba.
Em Cartum, o presidente da África do Sul pressionou o seu homólogo sudanês a aceitar uma força híbrida de paz para o martirizado Darfur.
As Nações Unidas querem enviar para o Oeste do Sudão 22 mil soldados da ONU e da União Africana, mas o Governo de Cartum continua a dizer que os 8 mil soldados mal equipados e mal treinados da União Africana chegam para pacificar um território do tamanho da França.
Mais de 200 mil pessoas morreram desde que os rebeldes do Darfur pegaram em armas contra o Governo em 2003 acusando Cartum de descriminar os agricultores não árabes do oeste do país.
O conflito deslocou mais de 2,5 milhões de pessoas e alastrou-se ao vizinho Chade.
Organismos internacionais de ajuda a operar no Darfur acusam as tropas sudanesas de usar a violação como arma de guerra contra as mulheres.
O presidente Mbeki chegou a Juba às 10 da manhã e foi recebido pelo presidente do Sul do Sudão, General Salva Kiir, no aeroporto internacional da cidade.
Depois da revista à guarda de honra e dos cumprimentos de boas-vindas, a caravana presidencial dirigiu-se para o Mausoléu de John Garangue, fundador do SPLA. Seguiu-se um breve encontro no salão do Conselho de Ministros.
O presidente Mbeki disse que veio a Juba para acompanhar o desenvolvimento do Sul do Sudão e verificar a implementação do Acordo Global de Paz.
Depois de um almoço rápido, o presidente da África do Sul voou para Paris por volta das 13h00.
A visita-relâmpago de Thabo Mbeki a Juba deixou muitos cidadãos descontentes. O serviço de propaganda do SPLM convocou os cidadãos para saudarem o presidente da África do Sul ao longo do percurso do aeroporto até à cidade.
A população respondeu em força, mas a caravana usou uma artéria nova em vias de conclusão que liga o aeroporto directamente aos ministérios enquanto que as pessoas se juntaram ao longo do percurso antigo.
A chuva intensa da noite limpou a terra que enchia os buracos do asfalto e a viagem seria incómoda para o ilustre visitante.
Os jubanos já estamos habituados a negociar as crateras que o tempo e a falta de manutenção escavaram na única artéria asfaltada da cidade.

10 de abril de 2007

Regresso às aulas

Alunos da St. Joseph Catholic Elementary School © JVieira

Os alunos do ensino básico do Sul do Sudão iniciaram hoje o novo ano lectivo depois de três meses de férias. As ruas e os recreios das escolas voltaram a encher-se de crianças com uniformes ainda impecáveis.
Pelas contas da UNICEF, 850 mil alunos estão matriculados no ensino básico do sul do Sudão. Trinta e quatro por cento são meninas. Dois recordes absolutos comparados com os 343 mil estudantes que frequentavam a escola primária durante os anos da guerra civil, quase todos rapazes, entre 1984 e 2005.
O novo ano lectivo traz novos desafios. A mudança de programas é um. Até ao ano passado, o árabe era a língua usada no ensino em todo o Sudão. A partir de agora, os professores do Sul do país passam a leccionar em inglês e nem todos estão suficientemente familiarizados com a língua de Shakespeare. Sobretudo os dos condados de Juba e de Terekeka, dois bastiões árabes durante os anos de conflito.
O outro desafio tem a ver com o orçamento para a educação. Apesar de o número de matrículas aumentar – e a UNICEF prevê que no fim do ano haja 1,6 milhões de estudantes nas escolas de ensino básico no sul do país – o dinheiro reservado para a educação baixou de 134 milhões em 2006 para 108 milhões de dólares em 2007, uma perda de 26 milhões de dólares. O exército recebeu mais de 500 milhões de dólares para gastar durante o corrente ano.
O analfabetismo é o inimigo número um do Sul do Sudão. Mais de 80 por cento da população são sabe ler nem escrever. Noventa por cento dos soldados do SPLA, o Exército de Libertação do Povo do Sudão, fazem parte desse grupo. Mas o Governo continua a apostar na defesa e … no partido. O SPLA também é SPLM (Movimento de Libertação do Povo do Sudão).

Vice-Presidente trava suicídio

Dr. Riek Machar, vice-presidente do governo do Sul do Sudão impediu uma ameaça de suicídio na manhã de ontem.
Um jovem desempregado escalou uma das antenas de transmissão da Southern Sudan Radio e ameaçou suicidar-se em protesto pela falta de trabalho.
Instigado pelos transeuntes a desistir da ideia e a descer, disse que só o faria se primeiro falasse com o presidente ou o vice-presidente do governo do Sul do Sudão.
O Dr. Machar dirigiu-se às antenas da rádio, na May Avenue, a espinha dorsal de Juba.
Através do megafone de um carro-patrulha pediu ao jovem que descesse a troco de uma promessa de emprego.
O jovem desceu da antena e o vice-presidente levou-o para o seu gabinete pondo termo à ameaça de suicido.
O desemprego é um dos grandes problemas de Juba. A vida na cidade é muito cara e nem toda a gente consegue trabalho devidamente remunerado.

9 de abril de 2007

Abrir aspas

A FELICIDADE EXIGE VALENTIA

Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes mas, não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo, e posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.

Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um "não". É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo...

Fernando Pessoa
Obrigado, Leopoldo

8 de abril de 2007

Vi o Senhor

© JVieira


Do Evangelho segundo São João (20, 1-18)
No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo logo de manhã, ainda escuro, e viu retirada a pedra que o tapava.
Correndo, foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo, o que Jesus amava, e disse-lhes: «O Senhor foi levado do túmulo e não sabemos onde o puseram.» Pedro saiu com o outro discípulo e foram ao túmulo. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo correu mais do que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Inclinou-se para observar e reparou que os panos de linho estavam espalmados no chão, mas não entrou. Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no túmulo e ficou admirado ao ver os panos de linho espalmados no chão, ao passo que o lenço que tivera em volta da cabeça não estava espalmado no chão juntamente com os panos de linho, mas de outro modo, enrolado noutra posição. Então, entrou também o outro discípulo, o que tinha chegado primeiro ao túmulo. Viu e começou a crer, pois ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos. A seguir, os discípulos regressaram a casa.
Maria estava junto ao túmulo, da parte de fora, a chorar. Sem parar de chorar, debruçou-se para dentro do túmulo,
e contemplou dois anjos vestidos de branco, sentados onde tinha estado o corpo de Jesus, um à cabeceira e o outro aos pés. Perguntaram-lhe: «Mulher, porque choras?» E ela respondeu: «Porque levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram.» Dito isto, voltou-se para trás e viu Jesus, de pé, mas não se dava conta que era Ele. E Jesus disse-lhe: «Mulher, porque choras? Quem procuras?» Ela, pensando que era o encarregado do horto, disse-lhe: «Senhor, se foste tu que o tiraste, diz-me onde o puseste, que eu vou buscá-lo.» Disse-lhe Jesus: «Maria!» Ela, aproximando-se, exclamou em hebraico: «Rabbuni!» - que quer dizer: «Mestre!» Jesus disse-lhe: «Não me detenhas, pois ainda não subi para o Pai; mas vai ter com os meus irmãos e diz-lhes: ‘Subo para o meu Pai, que é vosso Pai, para o meu Deus, que é vosso Deus.’» Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: «Vi o Senhor!» E contou o que Ele lhe tinha dito.

7 de abril de 2007

Páscoa Feliz

© JVieira

O pê de Páscoa é também o pê de Paz. Que a passagem do Ressuscitado na tua vida te encha da sua paz, da sua plenitude.

O ENCANTO DO CRUCIFICADO

O Darfur é uma província de morte no Oeste do Sudão. Mas também é lugar para um diálogo inter-religioso baseado no respeito mútuo como conta um missionário que lá vive.

«Eina! Olha quantas cruzes! E que bem alinhadas que estão ao longo de toda a igreja», exclamou Khalid, um aluno muçulmano durante uma visita de estudo à igreja paroquial de Nyala, no Sul do Darfur, surpreendido com a distribuição da via-sacra na parede da igreja.
Não havia cristãos entre os alunos. O que não me surpreende. A maioria dos católicos são desalojados e não têm dinheiro sequer para frequentar uma escola do estado quanto mais uma privada!
“Hoje trouxemos 195 alunos. A outra metade vem amanhã” – diz-me um dos professores. A visita honra o estabelecimento escolar e, ao mesmo tempo, é uma prova concreta de diálogo inter-religioso entre muçulmanos e cristãos.
O Gabriel – o catequista-chefe da paróquia – fez, no adro, uma apresentação geral da Biblia e da Igreja Católica. Depois os professores dividiram os alunos em quatro grupos para um encontro com o padre Emanuel Denima Darama dentro da igreja. É um comboniano congolês.
O padre Denima continuou a explicar as ideias principais do cristianismo. Os estudantes não o poupavam com perguntas. Um deles acabou por receber um raspanete do responsável: «Khalid, não me queiras deixar envergonhado neste lugar sagrado. Por favor, os comentários estúpidos são dispensados, e só se faz uma pergunta de cada vez.»
«Professor, não se preocupe; este aluno não está a ser malcriado; pelo contrário, está a pôr uma questão que toca o centro da fé cristã», atalhei.
O jovem, mais à vontade, exprimiu aquilo que lhe ia na alma: «Nós sabemos que a cruz é coisa de cristãos. Nunca duvidei da minha fé islâmica. Como muçulmano, sei que Jesus – Issa aleihi elsalam, a paz esteja com ele – não foi crucificado mas arrebatado directamente para o Paraíso. No entanto, neste momento acho-me confuso. O crucifixo que vejo à minha frente e em tamanho natural, faz-me muita impressão.»
A assembleia ficou em profundo silêncio, apreensiva. Talvez alguém quisesse comentar a opinião do colega. Mas ele, logo a seguir, arrematou: «Tenho ainda uma pergunta de curioso: aquela mesa ali, tão cuidadosa e lindamente coberta, para que serve, neste lugar sagrado?»
Enquanto Khalid falava, os pensamentos atravessavam a minha mente como relâmpagos. Seria este um dos momentos do «encanto» do Crucificado que, por vezes, sentimos através do seu Espírito?
Khalid não perguntou porque é que aquele homem se deixou pregar numa cruz. Eu tão pouco saberia responder-lhe. De facto, não tem mesmo explicação humana. Faz parte do insondável mistério de Deus que veio ter connosco, «rebaixando-se até à morte e morte de cruz». Coisa de que só o amor de Deus é capaz.
Mas a morte de Jesus é uma morte que gera Vida. Não será, talvez, de forma automática. Será mais uma caminhada lenta e provada. A Bíblia fala-nos da tolerância e da paciência de Deus, tema apreciado também pelo Islão. Um dos 99 atributos ou mais belos nomes de Deus escritos no Alcorão é precisamente «El Sabur», infinitamente paciente. Ninguém é excluído da Salvação oferecida por meio de Jesus Cristo crucificado. Mas não é próprio de Deus queimar etapas. O seu estilo preferido é não forçar o ritmo das suas criaturas. A seu tempo tudo acontecerá. Eu acredito nesse milagre.
Delicadamente ousei interromper o silêncio dos alunos que, acredito, era espaço habitado pelo Espírito Santo.
«Desculpem, permitam-me só uma observação a Khalid. O Issa que lês no Alcorão, chama-se Jesus no Evangelho. E agora vamos à pergunta curiosa sobre o que faz aquela mesa neste lugar sagrado.
«Aquela mesa é o lugar onde acontece a Morte e a Vida. À volta dela reunimo-nos para a refeição sagrada. Vós, no Islão, celebrais a festa do “Adha”, o sacrifício, na qual comeis a carne do cordeiro cujo sangue tem que ser derramado. E quando uma pessoa é morta violentamente vós usais a palavra “zabaha”, não é verdade? Essa palavra indica que o sangue escorreu até à última gota, certo? Se não for verdade, estejam à vontade e não tenham receio de me corrigir.
«Para nós, cristãos, Jesus substitui o cordeiro na Páscoa dos hebreus do Antigo Testamento. É Ele o Cordeiro da Páscoa cristã. Talvez, aos ouvidos dos muçulmanos estas palavras soam como blasfémia. Mas não vejo nenhum de vós tapar os ouvidos, que tomo como sinal de apreço e respeito. Obrigado!
«Na vossa bela língua árabe, esta mesa tem o nome de “mazbah”. Sabem sem dúvida do que trata. Sim, os cochichos ai no fundo da igreja, queremos ouvi-los. Ora venham lá essas achegas em voz alta!»
«Dá a ideia de matadouro ou matança. Lugar do sacrifício. Holocausto. Sabe a sangue», alguns alunos foram comentando.
«Obrigado. Aconteceu há dois mil anos: Jesus morreu no alto da cruz e ao terceiro dia ressuscitou. O altar – “mazbah” – representa o sacrifício, a oferta de Jesus e está intimamente ligado com este acontecimento e faz parte da mesma realidade. Sobre esta mesa faz-se a celebração da maior festa do cristianismo: a Páscoa, dia da Ressurreição de Jesus, que se repete cada domingo.
«Jesus oferece-se como “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. É o banquete da Páscoa que somos convidados a partilhar em refeição de comunhão. É a festa da Eucaristia, isto é, acção de graças pelas maravilhas que Deus fez e continua a fazer através da Morte e Ressurreição daquele Jesus que contemplamos ao olhar o Crucifixo.
«A expressão dos vossos olhos diz-me que não estais a acompanhar o meu pensamento. Mas não vos censuro por isso. Quem se atreveria? A lógica e a filosofia ajudam a chegar à fé. Mas neste caso concreto elas valem-nos de bem pouco. Aqui somos convidados a entrar no mistério da fé, cujo segredo reside em Deus. Ele criou-nos livres e deu a cada um a chave do próprio coração. É uma fechadura que só podemos abrir por dentro. Se deixarmos Deus entrar, Ele partilhará connosco os seus segredos. Para Ele não há distinção de raças e não lhe importa que O tratemos por Deus, Theos, God ou Allah, em latim, grego, inglês ou, árabe. Ou que lhe falemos com a voz silenciosa do coração. Se O deixarmos entrar, Ele passará de hospede a Senhor da nossa vida. E ensinar-nos-á os caminhos da fé; por vezes tão diferentes e até contraditórios.
«Deus sabe tirar partido das más escolhas dos seres humanos, em favor da Vida que Ele reservou desde sempre para as suas criaturas. Todas, a seu tempo e sem queimar etapas.»
Ao despedir-me de Khalid, disse-lhe a sós: «Não fiques a cismar na crucifixão. Deixa-te encantar pelo Crucificado! Para aqueles que O contemplam com olhos de fé, a sua morte gera Vida. Não é uma vida passageira e mesquinha mas de valor divino, como a d‘Ele. Condiz perfeitamente com o teu lindo nome, Khalid, eterno e glorioso.»


Feliz da Costa Martins
missionário comboniano
Nyala (Darfur – Sudão)

3 de abril de 2007

Lixo

O lixo que suja as ruas de Juba e põe em risco a saúde pública, continua a ser tratado como questão de estado e voltou a entrar na agenda do Conselho de Ministros.
O ministro da Informação disse no final do Conselho de Ministros que não era claro a quem competia limpar Juba da porcaria que se acumula juntos aos mercados, áreas residenciais e hotéis.
O Ministro Samson L Kwaje rematou que «Juba é a cidade mais suja do mundo.»
Juba encontra-se debaixo de três autoridades distintas de que é capital: condado, Estado de Central Equatoria e Governo do Sul do Sudão.

O executivo decidiu passar a bola ao Comissário de Juba, que opera sob as ordens do Governador do Estado de Central Equatoria.
O Governador, entretanto, decidiu privatizar a recolha e tratamento de lixo.
Será desta que Juba vai ter a cara lavada?

As chuvas aproximam-se e a cólera pode atacar de novo se entretanto a cidade não for limpa.

2 de abril de 2007

Refracções

© JVieira

Fico aqui
bebendo as tuas palavras,
sorrindo para elas
e elas para mim,
vejo nelas a vida
que brota
e deixo-me envolver
nessa Vida!
Olho o mundo através
do doce olhar,
que pões em cada palavra,
pressinto em cada uma,
o teu amor
a esse mundo,
e fazes dele a tua casa,
as tuas roupas são as pessoas
com que te cruzas,
e vais colorindo o mundo,
com as cores do teu coração,
que irradiam alegria, vida e amor!
Vejo as tuas mãos vazias,
mas o coração cheio,
aí tens o teu tesouro,
que vais dando,
e vais enchendo outros corações,
pela tua casa fora,
porque a tua casa é o mundo!
elsa sekeira
Shukran, Sabitayi

1 de abril de 2007

Mangas da discórdia

© JVieira

Kworijik Luri é uma pequena aldeia a uma dúzia de quilómetros atrás do aeroporto internacional de Juba.
Fica numa imensa planície com o horizonte a perder-se de vista.
Está relativamente perto de Juba, mas o clima é mais agradável e a vegetação muito diferente.
De entre as muitas espécies vegetais presentes na planura de Kworijik sobressaem as mangueiras: árvores enormes, imponentes, frondosas, carregadas de mangas maduras e saborosas. A primeira colheita deste ano. A segunda virá antes do Natal!
As árvores pertencem aos habitantes daquela zona, o povo Bari. Entretanto os Mundari – pastores nómadas – chegaram com as suas vacas e alimentam o gado com as mangas que não lhes pertencem.
Peter Moga Kenyi, um ancião, queixou-se, sentado debaixo de uma mangueira, que o que os Mundari fazem não está correcto: «Além de darem as mangas às vacas, batem nas nossas crianças.»
«Mas os Mundari têm armas e nós temos paus», concluiu resignado. E pediu que as autoridades interviessem para pôr termo à guerra das mangas.
As lutas intertribais pela posse da terra ou para roubar gado são uma fonte preocupante de insegurança no Sul do Sudão. O Governo tem em curso um programa de desarmamento da sociedade civil, mas é difícil convencer os detentores de armas a entregá-la pacificamente. E os que o fazem ficam em desvantagem em relação aos que ainda não desarmaram. Como os Bari em relação aos Mundari.

31 de março de 2007

Shukran, Gina

Gina despede-se das amiguitas © JVieira

Gina tem 30 anos e vive em Cartum. É amiga da directora da Rádio Bakhita. Aliás, consideram-se irmãs. Trabalharam juntas no Departamento de Comunicação Social da Arquidiocese de Cartum.
Formada em informática, estava desempregada há alguns meses. Por isso, decidiu vir para Juba para trabalhar dois meses como voluntária na Rádio Bakhita.
A morte inesperada do tio levou-a a regressar a casa uma semana antes do previsto e a deixar suspensos alguns projectos.
Gina dedicou-se incondicionalmente durante os dois meses que trabalhou para Bakhita 91 FM. Iniciou três programas: As Nossas Raízes - sobre provérbios e cultura africana, Pão Quotidiano – reflexões para uma vida melhor a partir de textos de Anthony de Mello, e Mulheres na Bíblia.

Gina é ponto de encontro de mundos diferentes: nas suas veias corre sangue arménio, do Darfur e da Etiópia.
Foi presa meia dúzia de vezes em Cartum por recusar a seguir as regras de traje islâmicas. «Sou cristã e não me podem obrigar a vestir como uma muçulmana», explica.
Gina, shukran! Obrigado pelo trabalho que fizeste e sobretudo pela alegria e vivacidade que trouxeste à Rádio Bakhita.
Rezamos para que o tio se encontre no regaço de Deus e por ti e pela tua família.

30 de março de 2007

Penumbra

Luar © JVieira

Juba está a meia-luz desde sábado. Os técnicos estavam a efectuar uma reparação eléctrica, trocaram os fios e zás: queimaram o transformador de terra, inutilizando a central eléctrica inaugurada a 9 de Janeiro.
Enquanto o novo transformador não chegar, a cidade de Juba é (mal) fornecida pela antiga central, explicou Ajoyi Magot Chol da Southern Sudan Electricity Corporation.
O engenheiro informou que lugares sensíveis como o Hospital Escolar de Juba (com mais de 500 camas), a estação elevatória da água e os ministérios estão a receber electricidade normalmente. O resto da cidade tem que ter paciência porque a luz gerada não chega para as encomendas.
Entretanto, o Director-Geral de Southern Sudan Electricity Corporation, Engenheiro Samuel Taban Yoze, assegurou que um técnico já se encontra a caminho de Juba para prover uma solução temporária até a peça chegar e que fornecimento de electricidade será normalizado no sábado.
O Engenheiro Taban atribuiu a culpa da falha técnica ao boicote dos empreiteiros estrangeiros e garante que os funcionários da corporação sabiam resolver o problema, mas não o fizeram para respeitar a garantia da obra.
A Southern Sudan Electricity Corporation é uma instituição interessante. Quando os combonianos requisitaram a ligação das suas instalações à rede pública, apresentaram uma factura de cerca de 2500 euros de pagamentos em atraso. Parece que os antigos inquilinos da Comboni House não pagavam a luz. Pedimos uma factura detalhada para verificarmos como calcularam a dívida. Informaram-nos que nesse caso tinham que vir ler o nosso velho contador!
Entretanto, uma empresa indiana continua atarefada a renovar a rede eléctrica da cidade substituindo postes e linhas.
O Governo do Sul do Sudão, por seu turno, está a planear algumas barragens no Nilo Branco para reforçar o fornecimento de electricidade.

28 de março de 2007

Prova de Matemática


O regresso

Quase 9000 deslocados internos regressaram ao Sul do Sudão desde Janeiro, informou a UNMIS, a Missão das Nações Unidas no Sudão.
O repatriamento de deslocados internos faz parte do Acordo Global de Paz (CPA na sigla em inglês), assinado em 9 de Janeiro de 2005 entre o Governo do Sul do Sudão e o SPLA, o Exército de Libertação do Povo Sudanês. É um exercício conjunto das Nações Unidas e dos governos do Sudão e do Sul do Sudão.
A UNMIS comunicou que, desde Janeiro, 8944 deslocados internos regressaram aos estados de Bahr el Ghazal Norte, Warrab, Blue Nile e Jonglei, todos no Norte do Sudão meridional.
Os novos retornados juntam-se a cerca de 850 mil deslocados internos e 102 mil refugiados que regressaram a casa e iniciaram a reintegração nas antigas comunidades desde 2005, altura em que a Segunda Guerra Civil do Sudão terminou. O conflito rebentou em 1984.

26 de março de 2007

Bodas de Ouro

Ir. Augusto Lopeta © Cecilia Sierra


Os Irmãos de São Martinho de Porres, uma congregação de Juba, celebraram ontem 50 anos. Os primeiros cinco elementos fizeram a profissão religiosa a 19 de Março de 1957, em Kit.
A estrela das bodas de ouro foi o irmão Augusto Lopeta, o único sobrevivente do primeiro grupo de irmãos.
O irmão Augusto tem mais de 80 anos, mas é senhor de uma vitalidade surpreendente. Pertence à etnia Toposa. Durante a missa em que renovou a sua consagração, além do hábito – batina branca e faixa azul – tinha na cabeça um chapéu decorado com penas de avestruz e empenhava um penacho, insígnias dos chefes da sua tribo. E tocava um pequeno corno de veado para marcar o ritmo dos cânticos. No fim da cerimónia, vestiu também a pele de leopardo.
Os Irmãos de São Martinho de Porres foram fundados em Kit, Juba pelo bispo Sisto Mazzoldi, missionário comboniano, em 1953.
Hoje são cerca de 50 e dedicam-se ao ensino, pastoral, e actividades sociais e técnicas. Estão presentes no Sudão e em Uganda.

24 de março de 2007

Nim

© JVieira
Juba é uma cidade verde, apesar do sol equatorial que a recoze. E o nim é a árvore que mais contribui para o ambiente aprazível da capital do Sul do Sudão. A mangueira, o tamarindo e outras árvores de fruto também são comuns, mas em pequenas quantidades e em locais privados.
O nim – Azadirachta indica – é uma planta originária da Índia e pertence à família do mogno. Cresce rapidamente e atinge entre dez e 15 metros de altura e o tronco pode ter mais de um metro de diâmetro. Resiste ao calor e à seca, dá-se em climas semi-áridos e adapta-se com facilidade a qualquer tipo de solo. Uma vez que ganha raízes não precisa de ser regada.
As folhas são perenes embora muitas caiam durante a canícula e alguns exemplares fiquem meio despidos. As flores, em cachos brancos, cheiram bem e fazem as delícias das abelhas. Os frutos têm o tamanho de uma azeitona. São cobertos por uma substância gelatinosa e têm uma fina pele verde-clara.
O nim é uma árvore resistente à seca que cresce facilmente em ambientes inóspitos. É muito útil pela sombra que a sua copa frondosa oferece e sobretudo pelas propriedades naturais. Os seus componentes químicos – sobretudo dos frutos – são usados como repelentes e pesticidas naturais, no controlo de pragas, em cosmética e na produção de medicamentos.
Na Índia, os galhos são usados para limpar os dentes e os rebentos cozinhados.
O tronco, duro e avermelhado, é usado para a produção de mobiliário e na construção de casas e de vedações porque resiste às térmitas.
O nim foi vítima de um atentado de bio-pirataria. A árvore não despertou muito interesse até que companhias químicas europeias e norte-americanas descobriram que os indianos a usavam para o controlo de pragas. Além de iniciarem o seu cultivo intensivo para produção de pesticidas naturais, patentearam os produtos e as respectivas técnicas de produção. O governo indiano protestou contra a patenteação de práticas nativas com mais de 2000 anos e ganhou o caso.

Ah! Além de guarnecer de verde e de sombra as ruas poeirentas e sujas de Juba, o nim também serve para parar viaturas desgovernadas.

23 de março de 2007

Anti-corrupção

O Governo do Sul do Sudão iniciou uma operação de limpeza interna contra a corrupção. O ministro das Finanças e o líder da orientação política e moral do SPLA estão sob prisão domiciliária desde o início da semana.
O ministro Arthur Akuen Chol está a ser investigado por supostas irregularidades na compra de veículos para o Governo. O seu ministério está em confusão total e o ministro tentou desviar a culpa pondo na rua os secretários de Estado. Estes por seu turno meteram um processo contra o ministro por difamação.
O Major-General Isaac Mamur é acusado de ter usado fundos do exército sem autorização, ter enviado uma centena de homens do seu exército privado para treino no Uganda, ter mais de oito seguranças pessoais e de estar envolvido na importação e venda ilegal de viaturas do Quénia.
A prisão do Comandante Mamur, o meu vizinho, trouxe alguma calma ao bairro de Amarat. Os seus soldados foram expulsos do quartel provisório atrás da nossa cozinha e o local encontra-se fortemente vigiado pela polícia militar.
As noites agora estão mais sossegadas! E também mais frescas porque choveu.

22 de março de 2007

Sudão

© JVieira


As primeiras fotos do Sul do Sudão já estão no «Foto-blogalerias» - JVieira.
Três albuns: Rádio Bakhita (claro está), Madi (festa de Natal da comunidade Madi em Juba) e Rostos (colecção de retratos).
Um obrigado ao meu compadre que além de alojar a minha gelria, tem a paciência de seleccionar e introduzir as fotos.

Organizações humanitárias

Em Fevereiro, havia 245 organizações humanitárias registadas a operar no Sul do Sudão: agências da ONU, organizações nacionais não governamentais, organizações internacionais não governamentais, organizações de base comunitária, organizações internacionais, organizações religiosas, Cruz Vermelha/Crescente Vermelho e outras.
Cobrem todo o tipo de áreas: educação, saúde, infância, crianças-soldados, terceira idade, desminagem, alimentação, gripe das aves, veterinária, meio ambiente, segurança, paz e reconciliação…
Em geral empregam gente muito jovem, entusiasta e generosa, mas com pouca experiência profissional; e pessoas de idade que fazem da ajuda ou cooperação internacional um modo de (bem) ganhar a vida e extremamente (pre)ocupadas com o progresso na carreira.
Ajudam as populações desfavorecidas, preparam alguns quadros, recuperam infra-estruturas, fornecem consultadoria. Ganham muito bem e em dólares. Também pagam bem, inflacionam a economia local e criam um mercado artificial.
Tendem a viver apartados da realidade social local. São altamente móveis, usam meios de comunicação sofisticados e quando «cheiram» algum problema, são os primeiros a partir para lugar seguro.
Um colega chama-lhes os maus samaritanos.

19 de março de 2007

Última hora

Grace and Patrick © JVieira


Rádio Bakhita continua as suas emissões diárias das 17h00 às 21h00. A equipa de apresentadores, jornalistas e produtores regista melhorias diárias. Os programas estão mais ágeis e as vozes mais confiantes.
O calor e o pó estão a fazer mossa no gerador que alimenta a estação. Estamos a tentar ligar os estúdios à rede pública. Mas é uma operação que requer muito dinheiro – dois postes de ferro usados custaram 350 euros – e doses massiças de paciência. O amanhã dos serviços de electricidade demora a chegar.
Entretanto, o gerador que alimenta o transmissor foi vandalizado por desconhecidos. Os estragos foram poucos e a emissão diária não foi afectada. Mas é um gesto que nos deixa perplexos até porque não se entende facilmente o seu significado.

16 de março de 2007

Inferno

O prazo de validade de José Impaciente da Silva expirou e o finado foi para o lado de lá da eternidade.
Chegou à porta do céu e bateu.
O anjo porteiro pediu-lhe os papéis:
- Tenho que iniciar o processo de avaliação! – explicou.
- E isso demora muito?
- Vai demorar um bocado. Tenho que analisar 85 anos de arquivos.
José Impaciente da Silva achou que não tinha tempo para esperar e decidiu apanhar o elevador para o Purgatório.
- Lá não serão tão rigorosos na triagem! Sempre é um lugar de passagem…
Chegado ao Purgatório bateu à porta.
O anjo recepcionista abre o postigo e pede os papéis.
- É para abrir o processo! - explicou.
- E isso demora muito?
- Um bocado. Tenho que analisar os arquivos de 85 anos.
José Impaciente da Silva perdeu a pachorra e decidiu tentar a sorte no Inferno.
Entrou no elevador e desceu para a cave do além.
Estranho, a porta está entreaberta e parece não ter anjo de guarda – pensou José Impaciente da Silva.
Com o pé empurrou a porta com cuidado e ficou espantado com o que viu: o Inferno não era um lugar escuro, esconso, esmagador como o pintavam. Era um lugar limpo, com flores, arejado.
Capeta aparece de repente e fitando o intruso, lança-lhe um olhar de fogo:
- Que está aqui a fazer? Quem lhe deu autorização para entrar?
- Vim ver como era o Inferno e estou admirado com a ordem, a limpeza, a decoração…
Capeta suspirou:
- Eh! O Inferno já não é o que era desde que chegaram as freiras…

15 de março de 2007

Salva Kiir em tela

Salva Kiir com Talbot Rice e o embaixador do Reino Unido no Sudão © JVieira

O retrato oficial do General Salva Kiir, primeiro vice-presidente do Sudão e presidente do governo do Sul do Sudão, foi ontem apresentado ao público durante a sessão do Conselho de Ministros.
O óleo sobre tela é de Alexander Talbot Rice, artista britânico de renome que, entre outras personalidades, imortalizou a Rainha de Inglaterra e o Príncipe consorte. O autor ofereceu a obra ao Sul do Sudão.
Luka Biong, ministro dos Assuntos Presidenciais, declarou que o retrato de Salva Kiir «é um meio muito artístico de simbolizar a liderança.»
O embaixador do Reino Unido em Cartum afirmou que o autor captou com precisão «a combinação de coragem, fortaleza e a sabedoria calma» que observou no presidente Kiir.
O Dr. Riek Machar, vice-presidente do governo do Sul do Sudão, disse que o quadro tem semelhanças com a Monalisa. «Estava do lado direito e o presidente olhava para mim. Mudei-me para o lado esquerdo e Salva Kiir continuava a olhar para mim.»
Eh! Big Brother is watching you, sir!

13 de março de 2007

Educação

© JVieira

A educação é um dos grandes desafios que o Governo do Sul do Sudão enfrenta. Vinte e um anos de guerra civil destruíram a rede escolar e paralisaram o sistema de ensino. As escolas estão em muito mau estado e os centros de formação de professores não funcionam. O ensino é assegurado por gente com a oitava classe e muitas vezes nm são pagos a tempo. Não admira portanto que num panorama destes 85 por cento da população seja analfabeta e só um quarto das crianças em idade escolar vá às aulas.
Entretanto, este ano o Governo está a implementar um novo currículo escolar. O programa árabe de Cartum dá lugar ao curso em inglês no Sul apesar de os professores dominarem com dificuldade a língua de Shakespeare.
A situação entre as fileiras do SPLA nã é melhor. O Major General Kuol Deim Kuol revelou que nove em cada dez soldados não sabem ler nem escrever. A tropa é recrutada nas zonas rurais onde as escolas não funcionam.
Em 2006, o SPLA reservou 250 mil euros para a educação de 70 mil soldados. Qualquer coisa como € 3,50 por cabeça. Com um orçamento destes não há curso de alfabetização que aguente.

12 de março de 2007

Ovos

© JVieira

O ovo cozido é um petisco que os habitantes de Juba não dispensam por nada. É um acepipe caro: um ovo cozido custa 50 dinares ou 50 piastras – na moeda velha ou na nova: qualquer coisa como 20 cêntimos.
Os ovos são caros, porque são importados do Uganda – como a maioria das coisas que se consome na cidade desde as batatas, tomates, galinha, peixe… à água engarrafada, refrigerantes, cerveja e uma série de bebidas «brancas» de proveniência duvidosa da marca Royal (vodka, whisky, gin).
Os ovos cozidos são vendidos por miúdos – e às vezes por miúdas – que calcorreiam as ruas da cidade com uma cartão na mão e uma saquita com sal ou montam banca em pontos estratégicos junto a hospitais, escritórios, paragens de transportes… Uma maneira de ganhar umas moedas e melhorar o orçamento caseiro.
O ovo cozido é muito apreciado, porque é considerado um alimento limpo e energético e de fácil utilização: é cozinhado dentro da própria embalagem e depois de descascado, basta juntar-lhe uma pitada de sal refinado. Apesar de em Juba já se terem registado alguns casos de gripe aviaria e o comércio de aves vivas ter sido interditado. Mas é preciso fazer pela vida que a morte é certa e tanto os ovos como a galinha são alimentos comuns na cidade. E os seus habitantes criam patos, galinholas e galinhas.

10 de março de 2007

Fósforo

By Ciekawzzdjecie

Mulher

Sou mulher
Toda a vida fiquei triste
Por ser mulher
Pensava que os homens
eram muito mais felizes,
As mulheres
são seres subestimados
Numa sociedade
Terrivelmente machista.

Por isso tornei-me guerreira,
Inconformada,
revoltada,
Não há homem
Que ponha um pé
á frente do meu,
Eu estarei sempre
na linha da frente
A lutar com as mesmas armas,
A mostrar aos homens
e ao mundo
Que podemos tanto quanto eles,
Que o mundo precisa
De acção, movimento
De corações de mulheres
Que amem,
Que sejam frágeis
Ou guerreiras
mas que lutem sempre!


DairHilail no Loucuras

9 de março de 2007

LRA

CHISSANO QUER SALVAR PAZ

Joaquim Chissano chefia uma delegação que se vai encontrar este fim-de-semana com Joseph Kony, o líder do LRA, o Exército de Resistência do Senhor, algures na fronteira entre o Sudão e a RD Congo.
A delegação pretende relançar as conversações de paz entre o governo ugandês e o LRA, suspensas em Dezembro passado.
O ex-presidente moçambicano, enviado especial da ONU, o vice-presidente do Gorverno do Sul do Sudão, Dr. Riak Machar, representantes dos governos do Uganda e do Quénia e membros da organização Africa Peace Point e outras individualidades vão tentar reatar o diálogo entre Joseph Kony e o Governo de Campala e estabelecer o lugar para o encontro.
Em princípio, Juba voltará a receber as delegações do LRA e das autoridades ugandesas. A mediação será assegurada por Joaquim Chissano em vez de Riak Machar e do Governo do Sul do Sudão.
Delegações do governo ugandês e dos rebeldes Acholis estiveram sentadas à mesa das negociações em Juba até Dezembro passado.
Riak Machar, vice-presidente do Governo do Sul do Sudão, e o arcebispo de Gulu, no Norte do Uganda, foram alguns dos mediadores do diálogo entre o Governo do Uganda e o LRA.
Depois do intervalo do Natal, os rebeldes recusaram-se a voltar a Juba por alegadas questões de segurança.
Omar Al Bashir, o presidente do Sudão, tinha ameaçado expulsar pela força os guerrilheiros acholis do sul do país onde têm algumas bases.
O LRA combate há duas décadas no norte do Uganda contra o regime de Campala.
Milhares de pessoas foram vítimas dos ataques dos rebeldes acholis que sistematicamente raptam crianças para combaterem nas suas fileiras ou para servirem de escravas sexuais dos seus líderes e destroem aldeias.
O Governo do Sul do Sudão tem um interresse importante no sucesso das conversações. As suas linhas de abastecimento passam pelo território de guerra do LRA.
O Exército de Resistência do Senhor é uma das causas da insegurança que se regista na região.

Dia da Mulher


© JVieira

Juba também celebrou o Dia Mundial da Mulher. A festa decorreu no estádio e juntou uma multidão considerável que aguentou com paciência sob o sol escaldante o já crónico atraso dos políticos. O evento estava marcado para as 9h00 mas os dignitários chegaram depois do meio-dia.
O Vice-Presidente do Sul do Sudão, Dr. Riak Machar, foi o convidado de honra das mulheres de Juba. Estavam presentes a ministra do Género, o ministro dos Assuntos Parlamentares e o representante do Governador de Central Equatoria.
«Acabar com a impunidade da violência contra as mulheres; violência é um crime e se tu violas uma mulher violas a sociedade» foi a frase de ordem da festa de Juba.
Um grupo de mulheres desfilou até ao estádio com camisolas 25% em apoio à política do governo que reserva um quarto dos assentos parlamentares para deputadas.
As forças militares e policiais femininas marcharam com garbo sobre a relva do estádio.
O representante do Governador do Estado de Central Equatoria propôs uma redução do horário de trabalho das mulheres das 8h00 às 14h00 ou, no máximo, até às 15h00.
Durante o seu discurso, o representante do governo estadual desancou forte e feio na Rádio Miraya pelos alertas constantes sobre o surto de cólera em Yei e Juba.
O governante denunciou que os alertas são parte de um plano para parar o regresso dos deslocados ao Sul depois de 21 anos de guerra.
A cólera é uma ameaça real e não uma mera questão política ou um boato para interferir com o repatriamento dos sulistas e manter baixos os números do recenseamento que se avizinha. Juba regista uma média de 30 novos casos por dia só no campo dos Médicos Sem Fronteiras.
A rádio Miraya foi montada pela ONU para preparar o referendo de 2011. Nesse ano os sulistas vão escolher entre a autodeterminação e a unidade do Sudão.
O Vice-presidente encerrou a celebração com um discurso em árabe e inglês. Saudou as mulheres pelo contributo que deram na luta pela libertação como mães, como viúvas e como mártires.
«Levantai-vos e lutai contra a ignorância e a pobreza; lutai pelos vossos direitos», exclamou o Dr. Machar. O Sul do Sudão tem uma taxa muito alta de analfabetismo. Mais de 87 por cento da população feminina nunca frequentou a escola.

8 de março de 2007

Cólera

Tratamento de lixo no Mercado de Custom - Juba © JVieira


Juba está outra vez sob a ameaça da cólera. Os Médicos Sem Fronteiras estão a receber em média 30 novos casos por dia no posto de emergência que montaram para apoiar as vítimas da epidemia no princípio do mês. Até ontem tinham registado uma vítima mortal.
Bakhita Radio está a difundir um alerta preparado pelos Médicos Sem Fronteira e pelo Ministério de Saúde do Governo de Central Equatoria com alguns conselhos de higiene e as medidas necessárias para combater a epidemia.
Os surtos de cólera são comuns na capital do Sul do Sudão. Juba não tem sistema de recolha e de tratamento de lixos urbanos nem distribuição de água potável.

O problema do lixo de Juba já foi a conselho de ministros. O Governo do Sul do Sudão preconiza a privatização dos serviços de limpeza para resolver a crise sanitária em que a cidade está mergulhada há mais de duas décadas.
A população de Juba está a aumentar de dia para dia e o lixo abandonado nos mercados, junto aos restaurantes e nas zonas residenciais é cada vez maior. A queima é uma das práticas a que os cidadãos recorrem para «tratar» o lixo.
Teme-se que com a chegada das chuvas dentro de um mês a situação venha a piorar substancialmnte.

7 de março de 2007

The beautiful game

Obrigado, Zizo!

«Os Lusíadas»

A professora pergunta ao aluno:
- Diz-me lá quem escreveu «Os Lusíadas»?
O aluno, a gaguejar, responde:
- Não sei, Sra. Professora, mas eu não fui.
E começa a chorar.
A professora, furiosa, diz-lhe:
- Pois então, de tarde, quero falar com o teu pai.
Em conversa com o pai, a professora faz-lhe queixa:
- Não percebo o seu filho. Perguntei-lhe quem escreveu «Os Lusíadas» e ele respondeu-me que não sabia, que não foi ele...
Diz o pai:
- Bem, ele não costuma ser mentiroso, se diz que não foi ele, é porque não foi. Já se fosse o irmão...
Irritada com tanta ignorância, a professora resolve ir para casa e, na passagem pelo posto local da GNR, diz-lhe o comandante:
- Parece que o dia não lhe correu muito bem...
- Pois não, imagine que perguntei a um aluno quem escreveu «Os Lusíadas» respondeu-me que não sabia, que não foi ele, e começou a chorar.
O comandante do posto:
- Não se preocupe. Chamamos cá o miúdo, damos-lhe um aperto, vai ver que ele confessa tudo!
Com os cabelos em pé, a professora chega a casa e encontra o marido sentado no sofá, a ler o jornal. Pergunta-lhe este:
- Então o dia correu bem?
- Ora, deixa-me cá ver. Hoje perguntei a um aluno quem escreveu «Os Lusíadas». Começou a gaguejar, que não sabia, que não tinha sido ele, e pôs-se a chorar. O pai diz-me que ele não costuma ser mentiroso. O comandante da GNR quer chamá-lo e obrigá-lo a confessar. Que hei-de fazer a isto?
O marido, confortando-a:
- Olha, esquece. Janta, dorme e amanhã tudo se resolve. Vais ver que se calhar foste tu e já não te lembras...!

Obrigado, Zezita!

6 de março de 2007

The Juba Post


The Juba Post já tem edição electrónica e pode ser folheado em www.thejubapost.com. Além da edição semanal, o sítio tem uma secção de oferta de emprego e de informações variadas.
O semanário independente é publicado em Juba e sai às quintas-feiras. Foi fundado em 2004 por jornalistas que se recusaram a trabalhar sob sensores.
O primeiro número saiu a 9 de Janeiro de 2005, dia em que foi assinado o Tratado Global de Paz entre Cartum e os rebeldes do SPLA.
The Juba Post é publicado em inglês. Tem a redacção em Juba e uma delegação em Cartum, onde é impresso.
O semanário de Juba pretende facilitar o desenvolvimento da sociedade civil, monitorizar a governação, promover a justiça e encorajar o diálogo Sul-Sul em questões de paz e reconciliação.
A partir de Abril vai ter uma escola de jornalismo.
O semanário é apoiado pela Noruegian Church Aid (Ajuda da Igreja da Noruega).

5 de março de 2007

A ponte

Desde que parte do tabuleiro que dá acesso a Juba ruiu sob o peso de um camião de cimento em Dezembro, atravessar o Nilo Branco tornou-se mais complicado. A circulação faz-se só por uma via para quem entra e para quem sai da cidade. A ponte não é muito comprida e apesar de intenso, o tráfico parece fácil de gerir. Excepto quando as autoridades entram em conflito!
O movimento de viaturas é controlado pela polícia de trânsito, mas a ponte é vigiada por soldados por ser um alvo militar. Meter polícias e tropas em exercício simultâneo de autoridade, é pedir confusão pela certa. Como ontem aconteceu!
Dirigia-me para Gumbo atrás de um camião. Parámos em frente do posto da polícia. O agente, fardado de branco, mandou-nos avançar. Espreitei pelo lado do camião para me certificar se a via estava livre. Não havia viaturas do outro lado.
Quase no final da travessia do rio, o camião à minha frente engrenou a marcha-atrás. E aparece um soldado esbaforido a esbracejar para recuarmos.
Quando regressei ao lugar do polícia de branco, perguntei-lhe qual era o problema. Furioso, explicou que um dos grandes da tropa decidiu atravessar a ponte e obrigou o trânsito a recuar para sua excelência passar.
Os militares em Juba são mesmo um desatino!

4 de março de 2007

Amor | Amizade

Um dia o Amor virou-se para a Amizade e perguntou:
- Para que existes tu se já existo eu?
A Amizade respondeu:
- Para repor um sorriso onde tu deixaste uma lágrima!
Obrigado, Margarida

Lua feiticeira


Esta noite a lua eclipsou-se. O fenómeno foi visível em Juba. O céu estava limpo e estrelado. Às duas da manhã a Lua cheia era um imenso disco laranja com uma pontinha amarela. Lindo de se ver!
Não fazia conta de me levantar para observar o fenómeno provocado pelo alinhamento da lua, da terra e do sol, com o planeta azul a cobrir o seu satélite com a sombra. Mas como não conseguia dormir, resolvi levantar-me e admirar o eclipse lunar. Valeu a pena.
Não sei se era do eclipse ou do calor, mas foi impossível dormir até às 4h00 da manhã. A vizinhança de Amarat, o bairro onde vivo, estava em festa em duas ou três frentes. Houve de tudo: música ao vivo, gravada, discursos, lengalengas que soavam a orações.

O meu colega alemão teve que colocar algodão nos ouvidos para poder ter algumas horas de sono e um hóspede disse que conseguiu descansar porque tomou três comprimidos para dormir.
Uma curiosidade: Amarat literalmente significa arranha-céu. Não sei de onde vem o nome: a casa mais alta é um modesto rés-do-chão e primeiro andar, ocupada por um dos comandantes do SPLA, o exército do Sul do Sudão.

Gumbo

© JVieira
Os Salesianos têm uma missão em Gumbo, a 15 quilómetros de Juba, na margem sul do Nilo Branco.
A paróquia, dedicada a São Vicente de Paulo, entrou em decadência nos anos noventa. O Exército de Resistência do Senhor (LRA), um grupo de guerrilha do Norte do Uganda com ligações ao Sudão, começou a atacar a área e os habitantes, da etnia Bari, trocaram Gumbo e pela segurança de Juba.
Hoje, Gumbo é uma pequena aldeia de palhotas baixas. A velha igreja está em ruínas e a comunidade reúne-se num pequeno salão numa planície de perder de vista, ressequida pelo sol abrasador.
Os salesianos querem construir uma escola, mas Gumbo ainda não é um lugar seguro. O último ataque do LRA aconteceu há dois meses. Depois disso, os guerrilheiros assinaram um cessar-fogo com o exército ugandês e iniciaram conversações de paz em Juba sob o patrocínio do Governo do Sul do Sudão. Entretanto, as conversações pararam e o período de tréguas acabou há dois dias.
Por enquanto, os missionários vivem em Juba e como o espaço para as celebrações é acanhado, estão a alargar as instalações provisórias.
Quando tenho saudades da Etiópia vou à missa a Gumbo. Não sei uma palavra de Bari, mas sinto-me em casa naquela comunidade.
A eucaristia em Gumbo é verdadeiramente um acontecimento. Os católicos de Juba são muito passivos durante as celebrações. As «despesas» da animação litúrgica ficam por conta do grupo coral.
Em Gumbo as pessoas cantam, batem palmas, com-celebram! A eucaristia é, de facto, uma festa de acção de graças. Sinto-me lá muito bem e regresso à outra margem do rio da vida com o coração a transbordar de paz – como hoje.

3 de março de 2007

Projecto Rádio Bakhita

Ir. Cecília Sierra em diálogo com Grace © JVieira

FORMAÇÃO DE RADIALISTAS

Bakhita Radio 91 FM, a Voz da Igreja, foi inaugurada a 8 de Fevereiro de 2007, em Juba, no Sul do Sudão. Trata-se da emissora-mãe da Rede Católica de Rádios do Sudão, montada pela família comboniana e oferecida à Conferência Episcopal. As revistas Audácia e Além-Mar lançaram um projecto para co-financiar a formação de radialistas de Bakhita Radio 91 FM, a Voz da Igreja.

A primeira e única emissora católica na história sudanesa iniciou as emissões experimentais na noite de Natal. Depois da inauguração, Bakhita Radio emite regularmente das 17h00 às 21h00. O período de emissão será alargado quando a rede eléctrica de Juba entrar em funcionamento.
A programação abre com a leitura do Evangelho do dia e uma reflexão. Juventude, acordo global de paz, evangelização, mulher, infância, informação e música religiosa e africana são alguns dos programas da grelha.
Os programas são pré-gravados em inglês e árabe. Bakhita Radio informa, ilumina e educa os ouvintes nas áreas humanas, sociais, religiosas, culturais e políticas com um cunho particular na construção da paz, cura de traumas e reconciliação. O Sul do Sudão acaba de sair de uma guerra civil de 21 anos.
Os funcionários da Bakhita Radio – quatro raparigas e nove rapazes – são jovens sudaneses que fazem formação enquanto produzem os programas diários. A guerra civil destruiu a estrutura de ensino superior.
Os programas de formação são orientados pelo pessoal comboniano da emissora: a irmã Cecilia Sierra, directora da estação, e o padre José Vieira, encarregado da informação.
A administração de Bakhita Radio pede a colaboração dos leitores da Audácia e da Além-Mar para co-financiar o programa de formação dos seus radialistas: material didáctico, alimentação, ajuda para transportes e incentivo mensal.
Com o projecto 2/2007 propomos colaborar com 5000 euros para o co-financiamento das acções formativas de Bakhita Radio, em Juba, no Sul do Sudão.

Para colaborar no projecto de Além-Mar e Audácia para a formação dos radialistas da Bakhita Radio, clique aqui!

1 de março de 2007

Abrir aspas

O PRANTO DA AREIA

Assim que chegou a Marrakesh, o missionário resolveu que passearia todas as manhãs pelo deserto que ficava nos limites da cidade. Na sua primeira caminhada, notou um homem deitado nas areias, com a mão acariciando o solo, e o ouvido colado na terra.
"É um louco", disse para si mesmo.
Mas a cena repetiu-se todos os dias, e passado um mês, intrigado com aquele comportamento estranho, ele resolveu dirigir-se ao estranho. Com muita dificuldade – já que ainda não falava árabe fluentemente – ajoelhou-se ao seu lado.
- O que estás a fazer?
- Faço companhia ao deserto, e o consolo por sua solidão e suas lágrimas.
- Não sabia que o deserto era capaz de chorar.
- Ele chora todos os dias, porque tem o sonho de tornar-se útil ao homem, e transformar-se num imenso jardim, onde se pudesse cultivar cereal, flores, e carneiros.
- Pois diga ao deserto que ele cumpre bem a sua missão – comentou o missionário. – Cada vez que caminho por aqui, entendo a verdadeira dimensão do ser humano, pois o seu espaço aberto me permite ver como somos pequenos diante de Deus.
"Quando olho as suas areias, imagino as milhões de pessoas no mundo, que foram criadas iguais, embora nem sempre o mundo seja justo com todos. As suas montanhas me ajudam a meditar. Ao ver o sol nascendo no horizonte, minha alma se enche de alegria, e me aproximo do Criador."
O missionário deixou o homem, e voltou para os seus afazeres diários. Qual foi sua surpresa, na manhã seguinte, ao encontra-lo no mesmo lugar, e na mesma posição.
- Você comentou com o deserto tudo que lhe disse? – perguntou.
O homem acenou afirmativamente com a cabeça.
- E mesmo assim ele continua chorando?
- Posso escutar cada um de seus soluços. Agora ele chora porque passou milhares de anos pensando que era completamente inútil, e desperdiçou todo este tempo blasfemando contra Deus e seu destino.
- Pois conte para ele que, apesar do ser humano ter uma vida muito mais curta, também passa muitos de seus dias pensando que é inútil. Raramente descobre a razão do seu destino, e acha que Deus foi injusto com ele. Quando chega o momento em que, finalmente, algum acontecimento lhe mostra o porque de ter nascido, acha que é muito tarde para mudar de vida, e continua sofrendo. E como o deserto, culpa-se pelo tempo que perdeu.
- Não sei se o deserto ouvirá – disse o homem. – Ele já está acostumado com a dor, e não consegue ver as coisas de outra maneira.
- Então vamos fazer aquilo que eu sempre faço quando sinto que as pessoas perderam a esperança. Vamos rezar.
Os dois ajoelharam-se e rezaram; um virou-se em direcção a Meca porque era muçulmano, o outro colocou as mãos juntas em prece, porque era católico. Rezaram cada um para o seu Deus, que sempre foi o mesmo Deus, embora as pessoas insistissem em chamá-lo por nomes diferentes.
No dia seguinte, quando o missionário retomou a sua caminhada matinal, o homem não estava mais lá. No lugar onde costumava abraçar a areia, o solo parecia molhado, já que uma pequena fonte tinha nascido. Nos meses que se seguiram, esta fonte cresceu, e os habitantes da cidade construíram um poço em torno dela.
Os beduínos chamam o lugar de "Poço das lágrimas do deserto". Dizem que todo aquele que beber de sua água, irá conseguir transformar o motivo do seu sofrimento, na razão da sua alegria; e terminará encontrando seu verdadeiro destino. "

Paulo Coelho
Shukran, Nyny

Juba

Nilo Branco © JVieira