1 de abril de 2007

Mangas da discórdia

© JVieira

Kworijik Luri é uma pequena aldeia a uma dúzia de quilómetros atrás do aeroporto internacional de Juba.
Fica numa imensa planície com o horizonte a perder-se de vista.
Está relativamente perto de Juba, mas o clima é mais agradável e a vegetação muito diferente.
De entre as muitas espécies vegetais presentes na planura de Kworijik sobressaem as mangueiras: árvores enormes, imponentes, frondosas, carregadas de mangas maduras e saborosas. A primeira colheita deste ano. A segunda virá antes do Natal!
As árvores pertencem aos habitantes daquela zona, o povo Bari. Entretanto os Mundari – pastores nómadas – chegaram com as suas vacas e alimentam o gado com as mangas que não lhes pertencem.
Peter Moga Kenyi, um ancião, queixou-se, sentado debaixo de uma mangueira, que o que os Mundari fazem não está correcto: «Além de darem as mangas às vacas, batem nas nossas crianças.»
«Mas os Mundari têm armas e nós temos paus», concluiu resignado. E pediu que as autoridades interviessem para pôr termo à guerra das mangas.
As lutas intertribais pela posse da terra ou para roubar gado são uma fonte preocupante de insegurança no Sul do Sudão. O Governo tem em curso um programa de desarmamento da sociedade civil, mas é difícil convencer os detentores de armas a entregá-la pacificamente. E os que o fazem ficam em desvantagem em relação aos que ainda não desarmaram. Como os Bari em relação aos Mundari.

31 de março de 2007

Shukran, Gina

Gina despede-se das amiguitas © JVieira

Gina tem 30 anos e vive em Cartum. É amiga da directora da Rádio Bakhita. Aliás, consideram-se irmãs. Trabalharam juntas no Departamento de Comunicação Social da Arquidiocese de Cartum.
Formada em informática, estava desempregada há alguns meses. Por isso, decidiu vir para Juba para trabalhar dois meses como voluntária na Rádio Bakhita.
A morte inesperada do tio levou-a a regressar a casa uma semana antes do previsto e a deixar suspensos alguns projectos.
Gina dedicou-se incondicionalmente durante os dois meses que trabalhou para Bakhita 91 FM. Iniciou três programas: As Nossas Raízes - sobre provérbios e cultura africana, Pão Quotidiano – reflexões para uma vida melhor a partir de textos de Anthony de Mello, e Mulheres na Bíblia.

Gina é ponto de encontro de mundos diferentes: nas suas veias corre sangue arménio, do Darfur e da Etiópia.
Foi presa meia dúzia de vezes em Cartum por recusar a seguir as regras de traje islâmicas. «Sou cristã e não me podem obrigar a vestir como uma muçulmana», explica.
Gina, shukran! Obrigado pelo trabalho que fizeste e sobretudo pela alegria e vivacidade que trouxeste à Rádio Bakhita.
Rezamos para que o tio se encontre no regaço de Deus e por ti e pela tua família.

30 de março de 2007

Penumbra

Luar © JVieira

Juba está a meia-luz desde sábado. Os técnicos estavam a efectuar uma reparação eléctrica, trocaram os fios e zás: queimaram o transformador de terra, inutilizando a central eléctrica inaugurada a 9 de Janeiro.
Enquanto o novo transformador não chegar, a cidade de Juba é (mal) fornecida pela antiga central, explicou Ajoyi Magot Chol da Southern Sudan Electricity Corporation.
O engenheiro informou que lugares sensíveis como o Hospital Escolar de Juba (com mais de 500 camas), a estação elevatória da água e os ministérios estão a receber electricidade normalmente. O resto da cidade tem que ter paciência porque a luz gerada não chega para as encomendas.
Entretanto, o Director-Geral de Southern Sudan Electricity Corporation, Engenheiro Samuel Taban Yoze, assegurou que um técnico já se encontra a caminho de Juba para prover uma solução temporária até a peça chegar e que fornecimento de electricidade será normalizado no sábado.
O Engenheiro Taban atribuiu a culpa da falha técnica ao boicote dos empreiteiros estrangeiros e garante que os funcionários da corporação sabiam resolver o problema, mas não o fizeram para respeitar a garantia da obra.
A Southern Sudan Electricity Corporation é uma instituição interessante. Quando os combonianos requisitaram a ligação das suas instalações à rede pública, apresentaram uma factura de cerca de 2500 euros de pagamentos em atraso. Parece que os antigos inquilinos da Comboni House não pagavam a luz. Pedimos uma factura detalhada para verificarmos como calcularam a dívida. Informaram-nos que nesse caso tinham que vir ler o nosso velho contador!
Entretanto, uma empresa indiana continua atarefada a renovar a rede eléctrica da cidade substituindo postes e linhas.
O Governo do Sul do Sudão, por seu turno, está a planear algumas barragens no Nilo Branco para reforçar o fornecimento de electricidade.

28 de março de 2007

Prova de Matemática


O regresso

Quase 9000 deslocados internos regressaram ao Sul do Sudão desde Janeiro, informou a UNMIS, a Missão das Nações Unidas no Sudão.
O repatriamento de deslocados internos faz parte do Acordo Global de Paz (CPA na sigla em inglês), assinado em 9 de Janeiro de 2005 entre o Governo do Sul do Sudão e o SPLA, o Exército de Libertação do Povo Sudanês. É um exercício conjunto das Nações Unidas e dos governos do Sudão e do Sul do Sudão.
A UNMIS comunicou que, desde Janeiro, 8944 deslocados internos regressaram aos estados de Bahr el Ghazal Norte, Warrab, Blue Nile e Jonglei, todos no Norte do Sudão meridional.
Os novos retornados juntam-se a cerca de 850 mil deslocados internos e 102 mil refugiados que regressaram a casa e iniciaram a reintegração nas antigas comunidades desde 2005, altura em que a Segunda Guerra Civil do Sudão terminou. O conflito rebentou em 1984.

26 de março de 2007

Bodas de Ouro

Ir. Augusto Lopeta © Cecilia Sierra


Os Irmãos de São Martinho de Porres, uma congregação de Juba, celebraram ontem 50 anos. Os primeiros cinco elementos fizeram a profissão religiosa a 19 de Março de 1957, em Kit.
A estrela das bodas de ouro foi o irmão Augusto Lopeta, o único sobrevivente do primeiro grupo de irmãos.
O irmão Augusto tem mais de 80 anos, mas é senhor de uma vitalidade surpreendente. Pertence à etnia Toposa. Durante a missa em que renovou a sua consagração, além do hábito – batina branca e faixa azul – tinha na cabeça um chapéu decorado com penas de avestruz e empenhava um penacho, insígnias dos chefes da sua tribo. E tocava um pequeno corno de veado para marcar o ritmo dos cânticos. No fim da cerimónia, vestiu também a pele de leopardo.
Os Irmãos de São Martinho de Porres foram fundados em Kit, Juba pelo bispo Sisto Mazzoldi, missionário comboniano, em 1953.
Hoje são cerca de 50 e dedicam-se ao ensino, pastoral, e actividades sociais e técnicas. Estão presentes no Sudão e em Uganda.

24 de março de 2007

Nim

© JVieira
Juba é uma cidade verde, apesar do sol equatorial que a recoze. E o nim é a árvore que mais contribui para o ambiente aprazível da capital do Sul do Sudão. A mangueira, o tamarindo e outras árvores de fruto também são comuns, mas em pequenas quantidades e em locais privados.
O nim – Azadirachta indica – é uma planta originária da Índia e pertence à família do mogno. Cresce rapidamente e atinge entre dez e 15 metros de altura e o tronco pode ter mais de um metro de diâmetro. Resiste ao calor e à seca, dá-se em climas semi-áridos e adapta-se com facilidade a qualquer tipo de solo. Uma vez que ganha raízes não precisa de ser regada.
As folhas são perenes embora muitas caiam durante a canícula e alguns exemplares fiquem meio despidos. As flores, em cachos brancos, cheiram bem e fazem as delícias das abelhas. Os frutos têm o tamanho de uma azeitona. São cobertos por uma substância gelatinosa e têm uma fina pele verde-clara.
O nim é uma árvore resistente à seca que cresce facilmente em ambientes inóspitos. É muito útil pela sombra que a sua copa frondosa oferece e sobretudo pelas propriedades naturais. Os seus componentes químicos – sobretudo dos frutos – são usados como repelentes e pesticidas naturais, no controlo de pragas, em cosmética e na produção de medicamentos.
Na Índia, os galhos são usados para limpar os dentes e os rebentos cozinhados.
O tronco, duro e avermelhado, é usado para a produção de mobiliário e na construção de casas e de vedações porque resiste às térmitas.
O nim foi vítima de um atentado de bio-pirataria. A árvore não despertou muito interesse até que companhias químicas europeias e norte-americanas descobriram que os indianos a usavam para o controlo de pragas. Além de iniciarem o seu cultivo intensivo para produção de pesticidas naturais, patentearam os produtos e as respectivas técnicas de produção. O governo indiano protestou contra a patenteação de práticas nativas com mais de 2000 anos e ganhou o caso.

Ah! Além de guarnecer de verde e de sombra as ruas poeirentas e sujas de Juba, o nim também serve para parar viaturas desgovernadas.

23 de março de 2007

Anti-corrupção

O Governo do Sul do Sudão iniciou uma operação de limpeza interna contra a corrupção. O ministro das Finanças e o líder da orientação política e moral do SPLA estão sob prisão domiciliária desde o início da semana.
O ministro Arthur Akuen Chol está a ser investigado por supostas irregularidades na compra de veículos para o Governo. O seu ministério está em confusão total e o ministro tentou desviar a culpa pondo na rua os secretários de Estado. Estes por seu turno meteram um processo contra o ministro por difamação.
O Major-General Isaac Mamur é acusado de ter usado fundos do exército sem autorização, ter enviado uma centena de homens do seu exército privado para treino no Uganda, ter mais de oito seguranças pessoais e de estar envolvido na importação e venda ilegal de viaturas do Quénia.
A prisão do Comandante Mamur, o meu vizinho, trouxe alguma calma ao bairro de Amarat. Os seus soldados foram expulsos do quartel provisório atrás da nossa cozinha e o local encontra-se fortemente vigiado pela polícia militar.
As noites agora estão mais sossegadas! E também mais frescas porque choveu.

22 de março de 2007

Sudão

© JVieira


As primeiras fotos do Sul do Sudão já estão no «Foto-blogalerias» - JVieira.
Três albuns: Rádio Bakhita (claro está), Madi (festa de Natal da comunidade Madi em Juba) e Rostos (colecção de retratos).
Um obrigado ao meu compadre que além de alojar a minha gelria, tem a paciência de seleccionar e introduzir as fotos.

Organizações humanitárias

Em Fevereiro, havia 245 organizações humanitárias registadas a operar no Sul do Sudão: agências da ONU, organizações nacionais não governamentais, organizações internacionais não governamentais, organizações de base comunitária, organizações internacionais, organizações religiosas, Cruz Vermelha/Crescente Vermelho e outras.
Cobrem todo o tipo de áreas: educação, saúde, infância, crianças-soldados, terceira idade, desminagem, alimentação, gripe das aves, veterinária, meio ambiente, segurança, paz e reconciliação…
Em geral empregam gente muito jovem, entusiasta e generosa, mas com pouca experiência profissional; e pessoas de idade que fazem da ajuda ou cooperação internacional um modo de (bem) ganhar a vida e extremamente (pre)ocupadas com o progresso na carreira.
Ajudam as populações desfavorecidas, preparam alguns quadros, recuperam infra-estruturas, fornecem consultadoria. Ganham muito bem e em dólares. Também pagam bem, inflacionam a economia local e criam um mercado artificial.
Tendem a viver apartados da realidade social local. São altamente móveis, usam meios de comunicação sofisticados e quando «cheiram» algum problema, são os primeiros a partir para lugar seguro.
Um colega chama-lhes os maus samaritanos.

19 de março de 2007

Última hora

Grace and Patrick © JVieira


Rádio Bakhita continua as suas emissões diárias das 17h00 às 21h00. A equipa de apresentadores, jornalistas e produtores regista melhorias diárias. Os programas estão mais ágeis e as vozes mais confiantes.
O calor e o pó estão a fazer mossa no gerador que alimenta a estação. Estamos a tentar ligar os estúdios à rede pública. Mas é uma operação que requer muito dinheiro – dois postes de ferro usados custaram 350 euros – e doses massiças de paciência. O amanhã dos serviços de electricidade demora a chegar.
Entretanto, o gerador que alimenta o transmissor foi vandalizado por desconhecidos. Os estragos foram poucos e a emissão diária não foi afectada. Mas é um gesto que nos deixa perplexos até porque não se entende facilmente o seu significado.

16 de março de 2007

Inferno

O prazo de validade de José Impaciente da Silva expirou e o finado foi para o lado de lá da eternidade.
Chegou à porta do céu e bateu.
O anjo porteiro pediu-lhe os papéis:
- Tenho que iniciar o processo de avaliação! – explicou.
- E isso demora muito?
- Vai demorar um bocado. Tenho que analisar 85 anos de arquivos.
José Impaciente da Silva achou que não tinha tempo para esperar e decidiu apanhar o elevador para o Purgatório.
- Lá não serão tão rigorosos na triagem! Sempre é um lugar de passagem…
Chegado ao Purgatório bateu à porta.
O anjo recepcionista abre o postigo e pede os papéis.
- É para abrir o processo! - explicou.
- E isso demora muito?
- Um bocado. Tenho que analisar os arquivos de 85 anos.
José Impaciente da Silva perdeu a pachorra e decidiu tentar a sorte no Inferno.
Entrou no elevador e desceu para a cave do além.
Estranho, a porta está entreaberta e parece não ter anjo de guarda – pensou José Impaciente da Silva.
Com o pé empurrou a porta com cuidado e ficou espantado com o que viu: o Inferno não era um lugar escuro, esconso, esmagador como o pintavam. Era um lugar limpo, com flores, arejado.
Capeta aparece de repente e fitando o intruso, lança-lhe um olhar de fogo:
- Que está aqui a fazer? Quem lhe deu autorização para entrar?
- Vim ver como era o Inferno e estou admirado com a ordem, a limpeza, a decoração…
Capeta suspirou:
- Eh! O Inferno já não é o que era desde que chegaram as freiras…

15 de março de 2007

Salva Kiir em tela

Salva Kiir com Talbot Rice e o embaixador do Reino Unido no Sudão © JVieira

O retrato oficial do General Salva Kiir, primeiro vice-presidente do Sudão e presidente do governo do Sul do Sudão, foi ontem apresentado ao público durante a sessão do Conselho de Ministros.
O óleo sobre tela é de Alexander Talbot Rice, artista britânico de renome que, entre outras personalidades, imortalizou a Rainha de Inglaterra e o Príncipe consorte. O autor ofereceu a obra ao Sul do Sudão.
Luka Biong, ministro dos Assuntos Presidenciais, declarou que o retrato de Salva Kiir «é um meio muito artístico de simbolizar a liderança.»
O embaixador do Reino Unido em Cartum afirmou que o autor captou com precisão «a combinação de coragem, fortaleza e a sabedoria calma» que observou no presidente Kiir.
O Dr. Riek Machar, vice-presidente do governo do Sul do Sudão, disse que o quadro tem semelhanças com a Monalisa. «Estava do lado direito e o presidente olhava para mim. Mudei-me para o lado esquerdo e Salva Kiir continuava a olhar para mim.»
Eh! Big Brother is watching you, sir!

13 de março de 2007

Educação

© JVieira

A educação é um dos grandes desafios que o Governo do Sul do Sudão enfrenta. Vinte e um anos de guerra civil destruíram a rede escolar e paralisaram o sistema de ensino. As escolas estão em muito mau estado e os centros de formação de professores não funcionam. O ensino é assegurado por gente com a oitava classe e muitas vezes nm são pagos a tempo. Não admira portanto que num panorama destes 85 por cento da população seja analfabeta e só um quarto das crianças em idade escolar vá às aulas.
Entretanto, este ano o Governo está a implementar um novo currículo escolar. O programa árabe de Cartum dá lugar ao curso em inglês no Sul apesar de os professores dominarem com dificuldade a língua de Shakespeare.
A situação entre as fileiras do SPLA nã é melhor. O Major General Kuol Deim Kuol revelou que nove em cada dez soldados não sabem ler nem escrever. A tropa é recrutada nas zonas rurais onde as escolas não funcionam.
Em 2006, o SPLA reservou 250 mil euros para a educação de 70 mil soldados. Qualquer coisa como € 3,50 por cabeça. Com um orçamento destes não há curso de alfabetização que aguente.

12 de março de 2007

Ovos

© JVieira

O ovo cozido é um petisco que os habitantes de Juba não dispensam por nada. É um acepipe caro: um ovo cozido custa 50 dinares ou 50 piastras – na moeda velha ou na nova: qualquer coisa como 20 cêntimos.
Os ovos são caros, porque são importados do Uganda – como a maioria das coisas que se consome na cidade desde as batatas, tomates, galinha, peixe… à água engarrafada, refrigerantes, cerveja e uma série de bebidas «brancas» de proveniência duvidosa da marca Royal (vodka, whisky, gin).
Os ovos cozidos são vendidos por miúdos – e às vezes por miúdas – que calcorreiam as ruas da cidade com uma cartão na mão e uma saquita com sal ou montam banca em pontos estratégicos junto a hospitais, escritórios, paragens de transportes… Uma maneira de ganhar umas moedas e melhorar o orçamento caseiro.
O ovo cozido é muito apreciado, porque é considerado um alimento limpo e energético e de fácil utilização: é cozinhado dentro da própria embalagem e depois de descascado, basta juntar-lhe uma pitada de sal refinado. Apesar de em Juba já se terem registado alguns casos de gripe aviaria e o comércio de aves vivas ter sido interditado. Mas é preciso fazer pela vida que a morte é certa e tanto os ovos como a galinha são alimentos comuns na cidade. E os seus habitantes criam patos, galinholas e galinhas.

10 de março de 2007

Fósforo

By Ciekawzzdjecie

Mulher

Sou mulher
Toda a vida fiquei triste
Por ser mulher
Pensava que os homens
eram muito mais felizes,
As mulheres
são seres subestimados
Numa sociedade
Terrivelmente machista.

Por isso tornei-me guerreira,
Inconformada,
revoltada,
Não há homem
Que ponha um pé
á frente do meu,
Eu estarei sempre
na linha da frente
A lutar com as mesmas armas,
A mostrar aos homens
e ao mundo
Que podemos tanto quanto eles,
Que o mundo precisa
De acção, movimento
De corações de mulheres
Que amem,
Que sejam frágeis
Ou guerreiras
mas que lutem sempre!


DairHilail no Loucuras

9 de março de 2007

LRA

CHISSANO QUER SALVAR PAZ

Joaquim Chissano chefia uma delegação que se vai encontrar este fim-de-semana com Joseph Kony, o líder do LRA, o Exército de Resistência do Senhor, algures na fronteira entre o Sudão e a RD Congo.
A delegação pretende relançar as conversações de paz entre o governo ugandês e o LRA, suspensas em Dezembro passado.
O ex-presidente moçambicano, enviado especial da ONU, o vice-presidente do Gorverno do Sul do Sudão, Dr. Riak Machar, representantes dos governos do Uganda e do Quénia e membros da organização Africa Peace Point e outras individualidades vão tentar reatar o diálogo entre Joseph Kony e o Governo de Campala e estabelecer o lugar para o encontro.
Em princípio, Juba voltará a receber as delegações do LRA e das autoridades ugandesas. A mediação será assegurada por Joaquim Chissano em vez de Riak Machar e do Governo do Sul do Sudão.
Delegações do governo ugandês e dos rebeldes Acholis estiveram sentadas à mesa das negociações em Juba até Dezembro passado.
Riak Machar, vice-presidente do Governo do Sul do Sudão, e o arcebispo de Gulu, no Norte do Uganda, foram alguns dos mediadores do diálogo entre o Governo do Uganda e o LRA.
Depois do intervalo do Natal, os rebeldes recusaram-se a voltar a Juba por alegadas questões de segurança.
Omar Al Bashir, o presidente do Sudão, tinha ameaçado expulsar pela força os guerrilheiros acholis do sul do país onde têm algumas bases.
O LRA combate há duas décadas no norte do Uganda contra o regime de Campala.
Milhares de pessoas foram vítimas dos ataques dos rebeldes acholis que sistematicamente raptam crianças para combaterem nas suas fileiras ou para servirem de escravas sexuais dos seus líderes e destroem aldeias.
O Governo do Sul do Sudão tem um interresse importante no sucesso das conversações. As suas linhas de abastecimento passam pelo território de guerra do LRA.
O Exército de Resistência do Senhor é uma das causas da insegurança que se regista na região.

Dia da Mulher


© JVieira

Juba também celebrou o Dia Mundial da Mulher. A festa decorreu no estádio e juntou uma multidão considerável que aguentou com paciência sob o sol escaldante o já crónico atraso dos políticos. O evento estava marcado para as 9h00 mas os dignitários chegaram depois do meio-dia.
O Vice-Presidente do Sul do Sudão, Dr. Riak Machar, foi o convidado de honra das mulheres de Juba. Estavam presentes a ministra do Género, o ministro dos Assuntos Parlamentares e o representante do Governador de Central Equatoria.
«Acabar com a impunidade da violência contra as mulheres; violência é um crime e se tu violas uma mulher violas a sociedade» foi a frase de ordem da festa de Juba.
Um grupo de mulheres desfilou até ao estádio com camisolas 25% em apoio à política do governo que reserva um quarto dos assentos parlamentares para deputadas.
As forças militares e policiais femininas marcharam com garbo sobre a relva do estádio.
O representante do Governador do Estado de Central Equatoria propôs uma redução do horário de trabalho das mulheres das 8h00 às 14h00 ou, no máximo, até às 15h00.
Durante o seu discurso, o representante do governo estadual desancou forte e feio na Rádio Miraya pelos alertas constantes sobre o surto de cólera em Yei e Juba.
O governante denunciou que os alertas são parte de um plano para parar o regresso dos deslocados ao Sul depois de 21 anos de guerra.
A cólera é uma ameaça real e não uma mera questão política ou um boato para interferir com o repatriamento dos sulistas e manter baixos os números do recenseamento que se avizinha. Juba regista uma média de 30 novos casos por dia só no campo dos Médicos Sem Fronteiras.
A rádio Miraya foi montada pela ONU para preparar o referendo de 2011. Nesse ano os sulistas vão escolher entre a autodeterminação e a unidade do Sudão.
O Vice-presidente encerrou a celebração com um discurso em árabe e inglês. Saudou as mulheres pelo contributo que deram na luta pela libertação como mães, como viúvas e como mártires.
«Levantai-vos e lutai contra a ignorância e a pobreza; lutai pelos vossos direitos», exclamou o Dr. Machar. O Sul do Sudão tem uma taxa muito alta de analfabetismo. Mais de 87 por cento da população feminina nunca frequentou a escola.

8 de março de 2007

Cólera

Tratamento de lixo no Mercado de Custom - Juba © JVieira


Juba está outra vez sob a ameaça da cólera. Os Médicos Sem Fronteiras estão a receber em média 30 novos casos por dia no posto de emergência que montaram para apoiar as vítimas da epidemia no princípio do mês. Até ontem tinham registado uma vítima mortal.
Bakhita Radio está a difundir um alerta preparado pelos Médicos Sem Fronteira e pelo Ministério de Saúde do Governo de Central Equatoria com alguns conselhos de higiene e as medidas necessárias para combater a epidemia.
Os surtos de cólera são comuns na capital do Sul do Sudão. Juba não tem sistema de recolha e de tratamento de lixos urbanos nem distribuição de água potável.

O problema do lixo de Juba já foi a conselho de ministros. O Governo do Sul do Sudão preconiza a privatização dos serviços de limpeza para resolver a crise sanitária em que a cidade está mergulhada há mais de duas décadas.
A população de Juba está a aumentar de dia para dia e o lixo abandonado nos mercados, junto aos restaurantes e nas zonas residenciais é cada vez maior. A queima é uma das práticas a que os cidadãos recorrem para «tratar» o lixo.
Teme-se que com a chegada das chuvas dentro de um mês a situação venha a piorar substancialmnte.

7 de março de 2007

The beautiful game

Obrigado, Zizo!

«Os Lusíadas»

A professora pergunta ao aluno:
- Diz-me lá quem escreveu «Os Lusíadas»?
O aluno, a gaguejar, responde:
- Não sei, Sra. Professora, mas eu não fui.
E começa a chorar.
A professora, furiosa, diz-lhe:
- Pois então, de tarde, quero falar com o teu pai.
Em conversa com o pai, a professora faz-lhe queixa:
- Não percebo o seu filho. Perguntei-lhe quem escreveu «Os Lusíadas» e ele respondeu-me que não sabia, que não foi ele...
Diz o pai:
- Bem, ele não costuma ser mentiroso, se diz que não foi ele, é porque não foi. Já se fosse o irmão...
Irritada com tanta ignorância, a professora resolve ir para casa e, na passagem pelo posto local da GNR, diz-lhe o comandante:
- Parece que o dia não lhe correu muito bem...
- Pois não, imagine que perguntei a um aluno quem escreveu «Os Lusíadas» respondeu-me que não sabia, que não foi ele, e começou a chorar.
O comandante do posto:
- Não se preocupe. Chamamos cá o miúdo, damos-lhe um aperto, vai ver que ele confessa tudo!
Com os cabelos em pé, a professora chega a casa e encontra o marido sentado no sofá, a ler o jornal. Pergunta-lhe este:
- Então o dia correu bem?
- Ora, deixa-me cá ver. Hoje perguntei a um aluno quem escreveu «Os Lusíadas». Começou a gaguejar, que não sabia, que não tinha sido ele, e pôs-se a chorar. O pai diz-me que ele não costuma ser mentiroso. O comandante da GNR quer chamá-lo e obrigá-lo a confessar. Que hei-de fazer a isto?
O marido, confortando-a:
- Olha, esquece. Janta, dorme e amanhã tudo se resolve. Vais ver que se calhar foste tu e já não te lembras...!

Obrigado, Zezita!

6 de março de 2007

The Juba Post


The Juba Post já tem edição electrónica e pode ser folheado em www.thejubapost.com. Além da edição semanal, o sítio tem uma secção de oferta de emprego e de informações variadas.
O semanário independente é publicado em Juba e sai às quintas-feiras. Foi fundado em 2004 por jornalistas que se recusaram a trabalhar sob sensores.
O primeiro número saiu a 9 de Janeiro de 2005, dia em que foi assinado o Tratado Global de Paz entre Cartum e os rebeldes do SPLA.
The Juba Post é publicado em inglês. Tem a redacção em Juba e uma delegação em Cartum, onde é impresso.
O semanário de Juba pretende facilitar o desenvolvimento da sociedade civil, monitorizar a governação, promover a justiça e encorajar o diálogo Sul-Sul em questões de paz e reconciliação.
A partir de Abril vai ter uma escola de jornalismo.
O semanário é apoiado pela Noruegian Church Aid (Ajuda da Igreja da Noruega).

5 de março de 2007

A ponte

Desde que parte do tabuleiro que dá acesso a Juba ruiu sob o peso de um camião de cimento em Dezembro, atravessar o Nilo Branco tornou-se mais complicado. A circulação faz-se só por uma via para quem entra e para quem sai da cidade. A ponte não é muito comprida e apesar de intenso, o tráfico parece fácil de gerir. Excepto quando as autoridades entram em conflito!
O movimento de viaturas é controlado pela polícia de trânsito, mas a ponte é vigiada por soldados por ser um alvo militar. Meter polícias e tropas em exercício simultâneo de autoridade, é pedir confusão pela certa. Como ontem aconteceu!
Dirigia-me para Gumbo atrás de um camião. Parámos em frente do posto da polícia. O agente, fardado de branco, mandou-nos avançar. Espreitei pelo lado do camião para me certificar se a via estava livre. Não havia viaturas do outro lado.
Quase no final da travessia do rio, o camião à minha frente engrenou a marcha-atrás. E aparece um soldado esbaforido a esbracejar para recuarmos.
Quando regressei ao lugar do polícia de branco, perguntei-lhe qual era o problema. Furioso, explicou que um dos grandes da tropa decidiu atravessar a ponte e obrigou o trânsito a recuar para sua excelência passar.
Os militares em Juba são mesmo um desatino!

4 de março de 2007

Amor | Amizade

Um dia o Amor virou-se para a Amizade e perguntou:
- Para que existes tu se já existo eu?
A Amizade respondeu:
- Para repor um sorriso onde tu deixaste uma lágrima!
Obrigado, Margarida

Lua feiticeira


Esta noite a lua eclipsou-se. O fenómeno foi visível em Juba. O céu estava limpo e estrelado. Às duas da manhã a Lua cheia era um imenso disco laranja com uma pontinha amarela. Lindo de se ver!
Não fazia conta de me levantar para observar o fenómeno provocado pelo alinhamento da lua, da terra e do sol, com o planeta azul a cobrir o seu satélite com a sombra. Mas como não conseguia dormir, resolvi levantar-me e admirar o eclipse lunar. Valeu a pena.
Não sei se era do eclipse ou do calor, mas foi impossível dormir até às 4h00 da manhã. A vizinhança de Amarat, o bairro onde vivo, estava em festa em duas ou três frentes. Houve de tudo: música ao vivo, gravada, discursos, lengalengas que soavam a orações.

O meu colega alemão teve que colocar algodão nos ouvidos para poder ter algumas horas de sono e um hóspede disse que conseguiu descansar porque tomou três comprimidos para dormir.
Uma curiosidade: Amarat literalmente significa arranha-céu. Não sei de onde vem o nome: a casa mais alta é um modesto rés-do-chão e primeiro andar, ocupada por um dos comandantes do SPLA, o exército do Sul do Sudão.

Gumbo

© JVieira
Os Salesianos têm uma missão em Gumbo, a 15 quilómetros de Juba, na margem sul do Nilo Branco.
A paróquia, dedicada a São Vicente de Paulo, entrou em decadência nos anos noventa. O Exército de Resistência do Senhor (LRA), um grupo de guerrilha do Norte do Uganda com ligações ao Sudão, começou a atacar a área e os habitantes, da etnia Bari, trocaram Gumbo e pela segurança de Juba.
Hoje, Gumbo é uma pequena aldeia de palhotas baixas. A velha igreja está em ruínas e a comunidade reúne-se num pequeno salão numa planície de perder de vista, ressequida pelo sol abrasador.
Os salesianos querem construir uma escola, mas Gumbo ainda não é um lugar seguro. O último ataque do LRA aconteceu há dois meses. Depois disso, os guerrilheiros assinaram um cessar-fogo com o exército ugandês e iniciaram conversações de paz em Juba sob o patrocínio do Governo do Sul do Sudão. Entretanto, as conversações pararam e o período de tréguas acabou há dois dias.
Por enquanto, os missionários vivem em Juba e como o espaço para as celebrações é acanhado, estão a alargar as instalações provisórias.
Quando tenho saudades da Etiópia vou à missa a Gumbo. Não sei uma palavra de Bari, mas sinto-me em casa naquela comunidade.
A eucaristia em Gumbo é verdadeiramente um acontecimento. Os católicos de Juba são muito passivos durante as celebrações. As «despesas» da animação litúrgica ficam por conta do grupo coral.
Em Gumbo as pessoas cantam, batem palmas, com-celebram! A eucaristia é, de facto, uma festa de acção de graças. Sinto-me lá muito bem e regresso à outra margem do rio da vida com o coração a transbordar de paz – como hoje.

3 de março de 2007

Projecto Rádio Bakhita

Ir. Cecília Sierra em diálogo com Grace © JVieira

FORMAÇÃO DE RADIALISTAS

Bakhita Radio 91 FM, a Voz da Igreja, foi inaugurada a 8 de Fevereiro de 2007, em Juba, no Sul do Sudão. Trata-se da emissora-mãe da Rede Católica de Rádios do Sudão, montada pela família comboniana e oferecida à Conferência Episcopal. As revistas Audácia e Além-Mar lançaram um projecto para co-financiar a formação de radialistas de Bakhita Radio 91 FM, a Voz da Igreja.

A primeira e única emissora católica na história sudanesa iniciou as emissões experimentais na noite de Natal. Depois da inauguração, Bakhita Radio emite regularmente das 17h00 às 21h00. O período de emissão será alargado quando a rede eléctrica de Juba entrar em funcionamento.
A programação abre com a leitura do Evangelho do dia e uma reflexão. Juventude, acordo global de paz, evangelização, mulher, infância, informação e música religiosa e africana são alguns dos programas da grelha.
Os programas são pré-gravados em inglês e árabe. Bakhita Radio informa, ilumina e educa os ouvintes nas áreas humanas, sociais, religiosas, culturais e políticas com um cunho particular na construção da paz, cura de traumas e reconciliação. O Sul do Sudão acaba de sair de uma guerra civil de 21 anos.
Os funcionários da Bakhita Radio – quatro raparigas e nove rapazes – são jovens sudaneses que fazem formação enquanto produzem os programas diários. A guerra civil destruiu a estrutura de ensino superior.
Os programas de formação são orientados pelo pessoal comboniano da emissora: a irmã Cecilia Sierra, directora da estação, e o padre José Vieira, encarregado da informação.
A administração de Bakhita Radio pede a colaboração dos leitores da Audácia e da Além-Mar para co-financiar o programa de formação dos seus radialistas: material didáctico, alimentação, ajuda para transportes e incentivo mensal.
Com o projecto 2/2007 propomos colaborar com 5000 euros para o co-financiamento das acções formativas de Bakhita Radio, em Juba, no Sul do Sudão.

Para colaborar no projecto de Além-Mar e Audácia para a formação dos radialistas da Bakhita Radio, clique aqui!

1 de março de 2007

Abrir aspas

O PRANTO DA AREIA

Assim que chegou a Marrakesh, o missionário resolveu que passearia todas as manhãs pelo deserto que ficava nos limites da cidade. Na sua primeira caminhada, notou um homem deitado nas areias, com a mão acariciando o solo, e o ouvido colado na terra.
"É um louco", disse para si mesmo.
Mas a cena repetiu-se todos os dias, e passado um mês, intrigado com aquele comportamento estranho, ele resolveu dirigir-se ao estranho. Com muita dificuldade – já que ainda não falava árabe fluentemente – ajoelhou-se ao seu lado.
- O que estás a fazer?
- Faço companhia ao deserto, e o consolo por sua solidão e suas lágrimas.
- Não sabia que o deserto era capaz de chorar.
- Ele chora todos os dias, porque tem o sonho de tornar-se útil ao homem, e transformar-se num imenso jardim, onde se pudesse cultivar cereal, flores, e carneiros.
- Pois diga ao deserto que ele cumpre bem a sua missão – comentou o missionário. – Cada vez que caminho por aqui, entendo a verdadeira dimensão do ser humano, pois o seu espaço aberto me permite ver como somos pequenos diante de Deus.
"Quando olho as suas areias, imagino as milhões de pessoas no mundo, que foram criadas iguais, embora nem sempre o mundo seja justo com todos. As suas montanhas me ajudam a meditar. Ao ver o sol nascendo no horizonte, minha alma se enche de alegria, e me aproximo do Criador."
O missionário deixou o homem, e voltou para os seus afazeres diários. Qual foi sua surpresa, na manhã seguinte, ao encontra-lo no mesmo lugar, e na mesma posição.
- Você comentou com o deserto tudo que lhe disse? – perguntou.
O homem acenou afirmativamente com a cabeça.
- E mesmo assim ele continua chorando?
- Posso escutar cada um de seus soluços. Agora ele chora porque passou milhares de anos pensando que era completamente inútil, e desperdiçou todo este tempo blasfemando contra Deus e seu destino.
- Pois conte para ele que, apesar do ser humano ter uma vida muito mais curta, também passa muitos de seus dias pensando que é inútil. Raramente descobre a razão do seu destino, e acha que Deus foi injusto com ele. Quando chega o momento em que, finalmente, algum acontecimento lhe mostra o porque de ter nascido, acha que é muito tarde para mudar de vida, e continua sofrendo. E como o deserto, culpa-se pelo tempo que perdeu.
- Não sei se o deserto ouvirá – disse o homem. – Ele já está acostumado com a dor, e não consegue ver as coisas de outra maneira.
- Então vamos fazer aquilo que eu sempre faço quando sinto que as pessoas perderam a esperança. Vamos rezar.
Os dois ajoelharam-se e rezaram; um virou-se em direcção a Meca porque era muçulmano, o outro colocou as mãos juntas em prece, porque era católico. Rezaram cada um para o seu Deus, que sempre foi o mesmo Deus, embora as pessoas insistissem em chamá-lo por nomes diferentes.
No dia seguinte, quando o missionário retomou a sua caminhada matinal, o homem não estava mais lá. No lugar onde costumava abraçar a areia, o solo parecia molhado, já que uma pequena fonte tinha nascido. Nos meses que se seguiram, esta fonte cresceu, e os habitantes da cidade construíram um poço em torno dela.
Os beduínos chamam o lugar de "Poço das lágrimas do deserto". Dizem que todo aquele que beber de sua água, irá conseguir transformar o motivo do seu sofrimento, na razão da sua alegria; e terminará encontrando seu verdadeiro destino. "

Paulo Coelho
Shukran, Nyny

Juba

Nilo Branco © JVieira

28 de fevereiro de 2007

Hora sudanesa

Quando era miúdo, achava piada à maneira como a minha avó falava das horas: para ela, havia o meio-dia novo (12h00) e o meio-dia velho (13h00).
Em Juba, descobri outro conceito diferente do tempo: a hora sudanesa.
Explico.
Ontem fui convocado para uma conferência de imprensa que o Dr. Riek Machar, Vice-Presidente do Sul do Sudão, iria dar às 17h00 sobre o desarmamento da sociedade civil.
Às 17h00 estava eu no Sunflower Inn, junto ao Nilo Branco para a referida conferência com outros camaradas da imprensa, rádio e televisão. Mas o agendado encontro com a comunicação social - «com a matilha das hienas», como gracejava a correspondente da Reuters - só aconteceu às 19h50!
Foi agradável estar ali junto ao Nilo Branco, com uma garrafa de água fresca - estava em serviço! - a contemplar o entardecer, a ver as barcaças chegarem de Kosti carregadas de mercadorias, trocar impressões sobre Juba, os seus problemas e a sua história, sobre a actividade jornalística com a música de Bob Marley em fundo. Mas tinha tanto que fazer!
Quando me lamentei com a correspondente da Reuters que assim não dava, ela, que chegou depois das 18h00, respondeu: «Quem te manda ser burro? Não conheces a hora sudanesa?»
De facto, aqui é normal começar qualquer acto com uma ou mais horas de atraso. É a hora sudanesa, pois claro! Por isso é que um colega da Rádio Sul do Sudão, comentou resignado: «O jornalista deve ser a pessoa mais paciente do mundo».
«Senão não apanha nada», concluí!

27 de fevereiro de 2007

A centopeia

Um fulano vivia sozinho e, por isso, achou que a sua vida melhoraria bastante se tivesse um animalzinho de estimação por companhia.
Foi a uma loja de animais e disse ao empregado que queria um bichinho mas fora do comum. Ele era especial.
Depois de alguma discussão, chegaram à conclusão que deveria ter uma centopeia por companhia. A centopeia é mesmo um bichinho de estimação fora do comum: tão pequeno e logo com 100 pés!!!
A centopeia veio dentro de uma caixinha branca, a sua nova casinha...
O centopário levou a caixinha para casa, arranjou um bom lugar para a colocar e achou que a melhor recepção que podia fazer à nova companhia era levá-la a tomar uma cervejinha...
- Gostavas de ir comigo ao bar da esquina tomar uma cerveja?
A pergunta ficou sem resposta.
Meio chateado, esperou um pouco e perguntou de novo:
- Que tal ires comigo tomar uma cervejinha, hei?
Silêncio da nova amiguinha...
Esperou mais um pouco, pensando e repensando sobre o que estava a acontecer. Chegou-se à caixinha branca e gritou:
- EI, Ó SURDA!!! QUERES IR OU NÃO COMIGO AO BAR DA ESQUINA TOMAR UMA CERVEJA?
Uma vozinha veio lá de dentro da caixinha:
- Calma que não sou surda! Estou a calçar os sapatos.
Esta é gira, Ju!

26 de fevereiro de 2007

Realpolitk

O Conselho Provisório Nacional do SPLM reuniu-se em Yei, de 8 a 12 de Fevereiro, para debater a transformação do Movimento de Libertação do Povo Sudanês em partido político.
A decisão mais bombástica foi a transferência da sede nacional do SPLM de Juba para … Cartum. O SPLM assume-se como partido nacional, defensor da unidade do país e pronto para disputar as eleições com o Congress Party, do presidente Al Bashir.
«Não temos medo da concorrência. Temos a confiança do povo», declarou Pagan Amum, secretário-geral do Sector Sul do SPLM.
O SPLM iniciou uma ronda de contactos com partidos da oposição sudanesa para partilhar as conclusões da reunião do politburo em Yei. Pagum Amum já se encontrou com a liderança da NDA (Aliança Democrática Nacional) e do Partido Umma para «promover paz e democracia no Sudão».
Dr. Abdal-Nebi Ali Ahmed, presidente do Umma, declarou querer trabalhar com o SPLM «para resolver os problemas do país.»
A mudança da sede nacional do SPLM de Juba para Cartum é um acontecimento extraordinário na história do movimento que lutou contra Cartum durante 21 anos pela autodeterminação e mais um sintoma das suas tensões internas. Há quem defenda a independência total do Norte – o referendo de 2011 será para sancionar a autodeterminação – e quem prefira manter o status quo de unidade nacional com algum grau de independência e acesso aos rendimentos do petróleo para o sul.
Em 2008 o Sudão vai votar para o Parlamento nacional e para o do Sul do Sudão. O SPLM espera vencer as eleições e governar o país.
Por outro lado, o SPLM decidiu entrar no mundo dos negócios para gerar receitas próprias. O presidente Salva Kiir nomeou um comité para «desenvolver recursos financeiros do SPLM, identificar as oportunidades de investimento credíveis para esses recursos, e preparar planos para administrar e desenvolver esses recursos e para executar esses planos», enuncia o decreto presidencial.

25 de fevereiro de 2007

José

Não sou o único português em Juba nem o primeiro a chegar à capital do Sul do Sudão. Antes de mim veio outro José, Lopes de sobrenome, que trabalha na formação da magistratura, patrocinado pela União Europeia. É da zona de Coimbra
A maneira como nos conhecemos foi atípica.
Passo a contar!
A nossa cozinheira descansa ao domingo. Por isso, normalmente vamos almoçar fora. E variamos de restaurante de acordo com o que nos apetece. Normalmente vamos ao Safari comer fígado ou peixe frito. Quando queremos frango, vamos uma espécie de tasca na estrada nova para o Aeroporto. Come-se bem, mas com as mãos: frango e pão e um molho picante. Pois claro, estamos em África.
Naquele domingo fomos ao Café de Paris comer uma piza. Um lugar mais chique, dirigido por um jovem do Burindi. Tínhamos uma visita do Uganda e queríamos ser bons anfitriões.
A piza – muito cara – estava uma maravilha.
No fim, disse em inglês alto e em bom som:
- No meu país dizemos: Comi como um padre!
Um «kawaja» de meia idade, que estava entretido a dedilhar o portátil na mesa ao lado, levantou a cabeça e perguntou também em inglês:
- Desculpe: de onde é?
- De Portugal!
- Bem me parecia. Eu também!
E assim nos encontrámos.

Refracções

© JVieira

CAMINHA

Caminha!
Só te peço que caminhes
Que continues
Ainda que não entendas…
Caminha!
Os teus passos
Ninguém os entende,
Indicam-te outro caminho,
Querem fazer prevalecer
As suas vontades
Sobre a tua.
Não deixes,
Dá-lhes só uma resposta:
Caminha!
Não esperes que te entendam,
Ninguém o fará.
Críticas? Muitas,
Mas mesmo assim continua,
Caminha!
Quando já não tiveres forças,
O cansaço se apoderar de ti,
E o suor descer sobre o teu rosto,
Não pares,
Caminha.
Porque há aqueles que caminham
E não sabem onde vão.
Mas tu, sim!
Sabes onde te leva o teu
Caminhar!

24 de fevereiro de 2007

Vizinhos

© JVieira


Nas traseiras de Comboni House, onde vivo, havia uma pequena praça. Havia, porque o espaço se transformou em quartel «informal» da segurança pessoal de Oboto Mamur, um dos cinco comandantes do SPLA, que é nosso vizinho.
O comandante Oboto Mamur veio de Torit, perto da fronteira com o Uganda, e pertence à etnia lotuko. Tem cerca de uma centena de homens no seu exército pessoal.
«Quando se chega a um determinado posto não se pode confiar em ninguém», explicou-me um sudanês.
Os homens do comandante Mamur não são grande vizinhança. Fizeram a «casa-de-banho» junto à nossa vedação e temos que aguentar o cheiro e a cena diária do banho «semi-público». Além disso, às vezes disparam durante a noite e têm o hábito de ouvir música em altos brados até tarde.
Os arbustos da nossa vedação também sofrem cada vez que varrem a improvisada parada. Um hóspede sudanês uma vez repreendeu os militares por estarem a danificar os arbustos. «São dos kawaja», dos estrangeiros – responderam. Ambiente sofre!
O que mais me choca é o caldo de violência em que esses militares vivem. Na parada da manhã, durante o nosso pequeno-almoço e diante da janela do refeitório, assistimos, sem querer, ao espectáculo horrível da punição dos faltosos. O castigo mais violento é o espancamento. Os culpados deitam-se no chão e são vergastados repetidas vezes.
Os soldados depois vingam-se da humilhação na população civil. No domingo, um homem foi amarrado e deitado no chão e maltratado durante bastante tempo até que o deixaram ir. Quando estava a uma distância segura começou a apedrejar os captores.
Um dos factores de insegurança no sul do Sudão são precisamente os exércitos privados dos comandantes locais e Juba é uma cidade altamente militarizada. As suas ruas são cruzadas constantemente por viaturas militares e da polícia: da UNMIS, do SPLA, das Forças Armadas Sudanesas, das diversas polícias (ONU, trânsito e outras forças). E, pelos vistos, das seguranças privadas dos muitos comandantes e chefes locais.

23 de fevereiro de 2007

22 de fevereiro de 2007

Sabedorias

O CAÇADOR QUE FALOU DE MAIS

Pela boca morre o peixe, diz-se entre nós. Esta fábula do Benim vai um pouco mais longe: quem fala sem pensar bem no que diz pode causar muito dano a si e aos outros.

Era tempo de escassez, como muitas vezes acontece em África, onde a fome e a sede visitam com frequência as aldeias. Um dia, de manhã cedo, apenas o galo cantou pela primeira vez, Koumba, o caçador, juntou as suas flechas e o seu arco e embrenhou-se pela floresta à procura de caça. Andou durante muito tempo, até o Sol nascer, mas de caça nem o rasto…
Koumba não se deixou vencer e continuou a sua busca durante o dia, até ao pôr do Sol. Estava a ficar desanimado por ter de regressar à aldeia de mãos a abanar, quando de repente deparou com o sapo Ponta, que tecia algodão enquanto guardava o seu campo de milho. Uma coisa nunca vista: um sapo tecedor que cultivava um campo de milho!
O caçador aproximou-se devagar, com prudência, para cumprimentar o sapo. Ponta mostrou-se muito cordial e convidou-o a sentar-se e a comer uma espiga de milho, que entretanto ele mesmo acabara de assar nas brasas. O caçador comeu com gosto. Era tempo de escassez e há muito que não comia milho tão saboroso.
Quando Koumba se levantou, para regressar a sua casa, Ponta recomendou-lhe:
– Do que viste, não deves contar nada a ninguém. Recorda-te: «A boca de um homem pode dar-lhe a vida ou causar-lhe a morte!»
Koumba tranquilizou-o:
– Não te preocupes, não sou uma pessoa que dá com a língua nos dentes! E pôs-se a caminho para regressar à aldeia.
Mas o que tinha visto era de tal maneira extraordinário que, apenas chegou à aldeia, se esqueceu da promessa e foi direito à casa do rei, não descansando enquanto não lhe contou tudo:
– Meu rei, disse-lhe, não imaginas o que me aconteceu: andava à caça na floresta quando descobri numa clareira um grande campo de milho onde as plantas cresciam apesar da seca. E o mais surpreendente é que o dono do campo era um sapo fiador!
– Um sapo fiador a guardar o seu campo de milho?! Não pode ser verdade, disse o rei, isso é coisa que tu inventaste.
– Não, insistiu Koumba, não se trata de um sonho. Vi o sapo com os meus olhos e comi as espigas do seu campo! Se não acreditas, meu rei, eu posso mostrar-te o campo, se tiveres a bondade de me seguir pela floresta.
Como na aldeia reinava a fome, o rei decidiu seguir Koumba à descoberta do campo de milho. Se se trata de uma mentira, sentenciou o rei, vais arrepender-te: farei de ti meu escravo.
Koumba, acompanhado pelo rei e pelos seus homens a cavalo, embrenhou-se de novo pela floresta, seguindo o caminho que tinha feito no dia anterior e chegou finalmente à clareira onde tinha descoberto o campo de milho e o seu insólito cultivador. Mas de Ponta e do seu campo de milho nem rasto!
– Devo ter-me enganado no caminho – confessou Koumba. – Vamos por este outro carreiro.
Caminharam até ao cair do Sol sem encontrar o campo de milho. O rei perdeu a paciência:
– Koumba, como pudeste mentir ao teu rei e inventar uma história destas em tempo de escassez?! Pagarás por isso e, a partir de hoje, tu e a tua família sereis meus escravos!
Só então Koumba se lembrou das palavras que Ponta lhe tinha dito ao despedir-se: «A boca de um homem pode dar-lhe a vida ou causar-lhe a morte!» Mas era tarde de mais. Conta-se que Koumba e a sua família foram os primeiros escravos daquela aldeia. Por isso, ensina-se que é bom ser-se discreto porque quem fala sem pensar bem no que diz pode causar muito dano a si e aos outros.
Paolo Valente em «Além-Mar»

20 de fevereiro de 2007

Código feminino

Afinal Daniel Awet não anda só preocupado com o cruzar dos ciclistas com militares. O Governador do Lakes State também decretou um código de conduta para mulheres.
No Lakes State, no coração do Sul do Sudão, elas não podem vestir calças, não podem usar óculos escuros, não podem vestir blusas ou T-shirts justas, não podem mostrar o umbiguinho e… acima de tudo, não podem andar de bicicleta. Pois claro!
Descobri todas estas proibições quando comentava com um padre de Rumbek a notícia do The Juba Post sobre o código do ciclista.
Para o referido clérigo, a fonte da legislação restritiva sobre bicicletas - e mulheres - no Lakes State não é o Governador, mas sim o chefe da segurança do estado. O homem tem mesmo um problema freudiano com os velocípedes.
Aqui fica a suposta correcção para que conste.

Carnaval

Estás linda, Ju!

19 de fevereiro de 2007

Código do ciclista

Daniel Awet, Governador do Lakes State, decretou que homens-ciclistas, ao cruzarem-se com militares ,devem desmontar o velocípede em sinal de respeito.
The Juba Post noticiou que dois seguranças privados não respeitaram a lei e viram as respectivas bicicletas confiscadas na cidade de Rumbek. Salvou-os do aperto a intervenção da UNMIS, a Missão das Nações Unidas no Sudão.O semanário de Juba conta ainda que os soldados do SPLA se divertem a derrubar ciclistas. Viajam em pick-ups em alta velocidade – alguns com metralhadoras pesada montadas na parte de trás – e atingem os velocipedistas com canas de bambu
.

18 de fevereiro de 2007

Bicicletas

No Kosovo quem não tem bicicleta não vê futebol!
Obrigado, Rebelo

VIRTUAL

Entrei apressado e com muita fome no restaurante. Escolhi uma mesa bem afastada do movimento, porque queria aproveitar os poucos minutos que dispunha naquele dia, para comer e acertar alguns «bugs» de programação num sistema que estava a desenvolver, além de planear a minha viagem de férias, coisa que há tempos que não sei o que são.
Pedi um filete de salmão com alcaparras em manteiga, uma salada e um sumo de laranja. Afinal de contas fome é fome, mas regime é regime não é?
Abri o meu portátil e apanhei um susto com aquela voz baixinha atrás de mim:
- Senhor, não tem umas moedinhas?
- Não tenho, menino. Só uma moedinha para comprar um pão.
- Tá bem, eu compro um.
Para variar, a minha caixa de entrada está cheia de e-mail. Fico distraído a ver poesias, as formatações lindas, rindo com as piadas malucas. «Ah! Essa música leva-me até Londres e às boas lembranças de tempos áureos.»
- Senhor, peça para colocar manteiga ou queijo.
Percebo nessa altura que o menino tinha ficado ali.
- Okey. Vou pedir, mas depois deixas-me trabalhar, estou muito ocupado, está bem?
Chega a minha refeição e com ela o meu mal-estar. Faço o pedido do menino, e o empregado pergunta-me se quero que mande o menino ir embora. O peso na consciência, impedem-me de o dizer. Digo que está tudo bem. Deixe-o ficar. Que traga o pão e, mais uma refeição decente para ele.
Então sentou-se à minha frente e perguntou:
- Senhor o que está fazer?
- Estou a ler uns e-mails.
- O que são e-mails?
- São mensagens electrónicas mandadas por pessoas via Internet - sabia que ele não ia entender nada, mas, a título de livrar-me de questionários desses -. É como se fosse uma carta, só que via Internet.
- Senhor, você tem Internet?
- Tenho, sim! É essencial no mundo de hoje.
- O que é Internet?
- É um local no computador, onde podemos ver e ouvir muitas coisas, notícias, músicas, conhecer pessoas, ler, escrever, sonhar, trabalhar, aprender. Tem de tudo no mundo virtual.
- E o que é virtual?
Resolvo dar uma explicação simplificada, sabendo com certeza que ele pouco vai entender e deixar-me-ia almoçar, sem culpas.
- Virtual é um local que imaginamos, algo que não podemos tocar, apanhar, pegar... É lá que criamos um monte de coisas que gostaríamos de fazer. Criamos as nossas fantasias, transformamos o mundo em quase como queríamos que fosse.
- Que bom isso. Gostei!
- Menino, entendeste o significado da palavra virtual?
- Sim, também vivo neste mundo virtual.
- Tens computador?! – exclamo.
- Não, mas o meu mundo também é vivido dessa maneira... virtual. A minha mãe fica todo o dia fora, chega muito tarde. Quase não a vejo, enquanto eu fico a cuidar do meu irmão pequeno que vive a chorar de fome e eu dou-lhe água para ele pensar que é sopa. A minha irmã mais velha sai todo dia também, diz que vai vender o corpo, mas não entendo, porque ela volta sempre com o corpo. O meu pai está na cadeia há muito tempo, mas imagino sempre a nossa família toda junta em casa, muita comida, muitos brinquedos de natal e eu a estudar na escola para vir a ser um médico um dia. Isto é virtual, não é senhor?
Fechei o portátil, mas não fui a tempo de impedir que as lágrimas caíssem sobre o teclado. Esperei que o menino acabasse de literalmente "devorar" o prato dele, paguei, e dei-lhe o troco, que me retribuiu com um dos mais belos e sinceros sorrisos que já recebi na vida e com um «Bigado senhor, você é muito simpático!».
Ali, naquele instante, tive a maior prova do virtualismo insensato em que vivemos todos os dias, enquanto a realidade cruel nos rodeia de verdade e fazemos de conta que não percebemos
!
Obrigado, Fernando

16 de fevereiro de 2007

Orçamento

© JVieira


O Governo do Sul do Sudão aprovou o orçamento para 2007. Dos mais de 1,5 mil milhões de dólares disponíveis para as despesas de Estado, 550 milhões vão para o SPLA (sigla em inglês do Exército de Libertação do Povo do Sudão), o exército sulista. O ministro tinha pedido 750 milhões. Habitação, Terras e Serviços Públicos foi o segundo ministério mais beneficiado seguido da Educação.
O SPLA gasta 40 por cento do total do orçamento. A segurança é uma das questões mais delicadas do Sul do Sudão. Por causa dos ataques do LRA (o Exército de Resistência do Senhor, os rebeldes do vizinho Uganda), por causa das lutas inter-tribais, e por causa do Norte.
O Juba Post noticiou que duas empresas de defesa norte-americanas estão a treinar o SPLA. Alguns observadores estão afirmam que se a implementação do CPA (Tratado Global de Paz) continuar a ser boicotada por Cartum, dentro de dois anos o Sul proclama a independência unilateral. E os americanos querem reconquistar o acesso aos poços de petróleo do Sul, que perderam para os Chineses, quando implementaram o boicote ao regime de Al Bashir e deixaram o Sudão.

15 de fevereiro de 2007

Perucas







© JVieira
As perucas são um adereço de sucesso em Juba. Por cerca de 10 euros, as jubanas podem ostentar cabeleiras fartas, frisadas ou encaracoladas, curtas ou longas, em tons vermelhos, azuis, roxos, louros ou castanhos. Confesso que às vezes me distraio a apreciar os mais variados penteados quando celebro na paróquia!
T
odos os dias, de manhã, quando vou para a Rádio Bakhita, cruzo-me com uma jovem de ar místico que usa na cabeça um autêntico «ninho de cegonha» em tons castanhos estilo rasta!
A peruca, apesar de ser muito «in», também tem os seus inconvenientes. Em conversa com uma amiga que abandonou o uso do referido «capacho», descobri que o artefacto além de pesado, é extremamente quente. O que não é um dado irrelevante num clima equatorial como o de Juba onde o mercúrio facilmente passa a barreira dos 40 graus!
Para quem não se quer submeter à «tortura» da peruca sintética há a alternativa dos alongamentos, com traças de todas as cores e comprimentos.

Vida: um intervalo

Obrigado, Kikas

13 de fevereiro de 2007

World Press Photo 2006



Spencer Platt ganhou o prémio Foto do Ano do World Press Photo 2006.
A imagem vencedora foi tirada no Sul de Beirute. Jovens da classe alta passeiam-se num descapotável numa parte da cidade bombardeada pela aviação israelita.
O retrato foi feito a 15 de Agosto de 2006, primeiro dia do cessar-fogo entre o Hezbollah, o Partido de Deus, que controla o Sul do Líbano, e Israel.
Spencer Platt é norte-americano e trabalha para a agência Getty Images. Vai receber 10 mill euros de prémio numa cerimónia em Amesterdão, na capital da Holanda, a 22 de Abril.
O júri internacional premiou mais 58 fotógrafos, repartidos por dez categorias de entre 78.083 imagens enviadas a concurso por 4460 profissionais.
O Prémio World Press Photo foi criado, em 1955, pela União dos Foto-Jornalistas Holandeses para dar uma dimensão internacional para o seu concurso anual.

12 de fevereiro de 2007

Refracções

UMBRÍO POR LA PENA

Umbrío por la pena, casi bruno,
porque la pena tizna cuando estalla
donde yo no me hallo, no se halla
hombre más apenado que ninguno.

Pena con pena y pena desayuno,
pena es mi paz y pena mi batalla,
perro que ni me deja ni se calla,
siempre a su dueño fiel, pero importuno.

Cardos, penas me oponen su corona,
cardos, penas me azuzan sus leopardos
y no me dejan bueno hueso alguno.

No podrá con la pena mi persona
circundada de penas y de cardos:
¡cuánto penar para morirse uno!

Miguel Hernández (1910 - 1942)

10 de fevereiro de 2007

Rádio Bakhita







© JVieira
ABERTURA OFICIAL

Rádio Bakhita 91 FM foi oficialmente inaugurada em Juba a 8 de Fevereiro de 2007, dia em que a Igreja celebra a memória de Santa Josefina Bakhita.
A inauguração começou cedo pela manhã. Denis Dramalo, chefe supremo do Condado de Juba, executou uma bênção tradicional com o sangue de um boi imolado par marcar a ocasião.
A cerimónia principal decorreu ao entardecer. O Arcebispo de Juba, Dom Paolino Lukudu Loro, cortou a fita e abençoou as instalações da Rádio Bakhita. Foi acompanhado pelos ministros das Estruturas Físicas, em representação do Governador, e da Cultura e Informação do Governo do Estado de Central Equatoria, P. Moses Hamungole, director do departamento de comunicação da AMECEA, pessoal eclesiástico e mais de 150 convidados.
Os coros árabe e inglês da paróquia de S. José abrilhantaram em conjunto a cerimónia. O evento terminou com um jantar volante oferecido aos participantes.
Durante os discursos, o P. Moses Humungole sublinhou que a Rádio Bakhita é importante «para divulgar a mensagem de justiça, reconciliação e paz em Juba e arredores».
Joseph Lasu Gale, ministro de Cultura e Informação do Governo de Central Equatoria, disse que «a Bakhita vai ser a rádio-líder [em Juba]. Vai contar a verdade às pessoas». E acrescentou: «Esta rádio veio como um dom de Deus e é consequência do CPA», o Acordo Global de Paz.
O CPA foi assinado entre o Governo do Sudão e o SPLA a 9 de Janeiro de 2005 em Naivasha, Quénia.
Elikaia Aligo, representante do Governador de Central Equatoria e ministro das Estruturas Físicas, sublinhou que «espera que a Rádio Bakhita se envolva em todos os aspectos da vida do nosso estado», que seja «uma voz muito forte que denuncia o que está errado.»
O Arcebispo Paolino Lukudu, a concluir, notou que «a Rádio Bakhita não pode ser como as outras rádios. É a voz da Igreja. Séria, diferente, tem que proclamar a verdade, falar da Bíblia». «Tem que ser uma rádio de salvação», rematou.
A abertura oficial da Rádio Bakhita marca o início das suas emissões regulares. Desde 24 de Dezembro que transmitia duas horas por dia. A partir de agora está no ar todos os dias das 17h00 às 21h00.

8 de fevereiro de 2007

Carta aberta

A Igreja celebra hoje, 8 de Fevereiro, a memória de Santa Josefina Bakhita (Darfur - Sudão, 1869; Schio - Itália, 1947). Um missionário comboniano a trabalhar no Darfur escreveu-lhe.

Querida amiga Bakhita,
Aqui estou, de novo. Sinto-me bem a falar contigo. É maravilhoso sentir a tua presença quando me sinto só. Às vezes estou como que encurralado no tão pequeno raio de acção que me é permitido. Excepto quando vou a Bileil, a 14 quilómetros, celebrar a eucaristia para os refugiados. E ainda assim, tudo depende do humor dos soldados de turno nos três pontos de controlo que encontramos no caminho.
Quando penso em ti, há outra pessoa que se faz, naturalmente, bem-vinda, porque é de casa. Refiro-me a Daniel Comboni. Será mesmo que não te tenhas encontrado com ele nas tuas aventuras de escrava aqui no Darfur, Cordofão ou mesmo em Cartum? Creio não ser absurdo pensar que ele só não te arrancou da escravidão por mera casualidade. Sabes que Daniel Comboni sempre lutou pelo direito natural da liberdade do ser humano. Ele sabia do tratado da abolição da escravatura em 1856. Mas na Africa Central – dizia com tristeza – tinha ficado só no papel. Por isso, o comprar escravos para os libertar ficou a ser parte da sua missão. Coisa que ele fez, sobretudo nas terras do Cordofão, por onde tu, Bakhita caminhaste com pés de sangue pelos espinhos da savana ou pedregulhos e areias nuas do deserto.
De todos os modos, vós os dois, agora, sois os santos protectores do Sudão. Mas parece que não vos preocupais nada com a situação do vosso país e desta nossa Igreja que tanto sofre. Não, não digo que a prioridade seja que se convertam ao Cristianismo. Mas porquê esta guerra com tantos mortos e refugiados? Que fazes ai regalada e feliz no Paraíso, sem te preocupares pela tua gente do Darfur? Não tens vergonha? De que estás à espera?
Querida amiga Bakhita, está a chegar o dia 8, a tua festa litúrgica. A tua tribo daju – já me vieram dizer – também vai estar bem representada aqui na grande celebração. São muçulmanos… Mas a igreja não fecha as portas a quem vem festejar com respeito, paz e alegria. Vês como todos – maometanos e cristãos – te querem bem? Mas, muito certamente, esperam algo de ti: que sejas a sua intercessora junto de Deus. São interesseiros? Deixa que o sejam, desta vez. Não posso admitir que deixes morrer tantos amigos teus conterrâneos do Darfur! A tua querida aldeia também já foi evacuada! São muitos os daju que tiveram que fugir e encontrar abrigo no campo de refugiados de Dreige, mesmo pertinho de Algoznei.
Porquê? Mistério do Deus em quem, firmemente, creio! Sou uma simples criatura e não me arrogo a saber os segredos do Altíssimo! Mas tu e Comboni, aí bem junto do Deus três vezes Santo, podereis saber tudo. Eu, por mim, posso adivinhar a resposta. Sei, como teologia certa, que ninguém pode culpar Deus pelos males deste mundo. Quem pensa diferentemente é adepto da teologia barata do egoísmo que, infelizmente, reina em muitas cabeças que se prezam de bem pensantes. A culpa das guerras e de outros males paralelos, não haja dúvida, é só nossa, dos interesses políticos e mesquinhos dos humanos. Mas, mais verdade ainda – e deixa que o diga em voz alta – é que Deus não pode senão amar os seus filhos e filhas. «Deus é amor» é uma verdade que nunca poderá mudar. Ou Deus deixa de ser Deus!
Bakhita, sei que nos queres bem. Quem sou eu para dar lições aos santos protectores do Sudão? Perdão, mas eu insisto: o favor e a graça que queremos peças ao «Patrã»” – como tu O chamavas – é urgente. O teu Darfur precisa desse milagre!
Feliz da Costa Martins
Missionário no Darfur

7 de fevereiro de 2007

Inauguração

Bakhita Radio 91 FM © JVieira

Bakhita Radio 91 FM, a Voz da Igreja, inicia as emissões regulares a 8 de Fevereiro, dia em que a Igreja celebra a memória de Santa Josefina Bakhita, a primeira – e até agora única – santa sudanesa.
As emissões regulares vão ser inauguradas com alguma pompa e circunstância.
Manhã cedo, um chefe local vai imolar um boi e abençoar as instalações da rádio com o sangue.
A cerimónia oficial decorre a partir das 17h00. Foram convidados o arcebispo de Juba, Dom Paolino Lukudu, os ministros da Informação, Rádio e Televisão e das Telecomunicações e Serviços Postais e a ministra do Género e dos Assuntos Religiosos do Governo do Sul do Sudão, o Governador de Central Equatoria, representantes da UNMIS e de outros organismos da ONU, os directores das rádios da cidade e do Juba Post e membros da Igreja local.
Depois da bênção das instalações pelo arcebispo de Juba, seguem-se os discursos de algumas individualidades. A celebração termina com um jantar.
O grupo coral árabe da paróquia de São José abrilhanta as cerimónias que vão ser radiodifundidas em directo.
Bakhita Radio 91 FM está a transmitir em fase experimental duas horas por tarde desde o dia 24 de Dezembro. A partir do dia 8 de Fevereiro, a emissão regular inicia às 17h00 e termina às 21h00. Quando o sistema de electricidade pública funcionar em pleno, a emissão diária terá também um período matinal.
Neste momento, para manter a emissão no ar são precisos dois geradores a gasóleo, um para o estúdio e outro para o transmissor.
Bakhita Radio 91 FM é a estação-mãe da Rede Católica de Rádio do Sudão. A cadeia terá mais sete emissoras (uma por cada diocese do Sul do Sudão) e um centro de formação para jornalistas, radialistas e administradores.
A Rede Católica de Rádio do Sudão é uma iniciativa conjunta dos Institutos Combonianos para marcar a canonização de São Daniel Comboni, o seu fundador, e pertence à Conferência Episcopal dos Bispos Sudaneses.

5 de fevereiro de 2007

4 de fevereiro de 2007

Deslumbres

© JVieira
HE ANDADO MUCHOS CAMINOS

He andado muchos caminos,
he abierto muchas veredas;
he navegado en cien mares,
y atracado en cien riberas.´
En todas partes he visto
caravanas de tristeza,
soberbios y melancólicos
borrachos de sangre negra,
y pendantones al paño
que miran, callan, y piensan
que saben, porque no beben
el vino de las tabernas.
Mala gente que camina
y va apestando la tierra...
Y en todas partes he visto
gentes que danzan o juegan,
cuando pueden,
y laboran sus cuatro palmos de tierra.
Nunca, si llegan a un sitio,
preguntan adónde llegan.
Cuando caminan,
cabalgan a lomos de mula vieja,
y no conocen la prisa
ni aún en los días de fiesta.
Donde hay vino, beben vino;
donde no hay vino, agua fresca.
Son buenas gentes que viven,
laboran, pasan y sueñan,
y en un día como tantos,
descansan bajo la tierra.

António Machado
em "Soledades, galerías y otros poemas"

3 de fevereiro de 2007

Clima

© JVieira

TERRA ESTÁ A AQUECER

A Terra está a aquecer e até ao final do século a temperatura média deve subir entre 1,8 e 4 graus centígrados. O aquecimento global vai fazer subir o nível dos mares até mais de meio metro e provocar grandes secas e vagas de calor.
O alerta foi lançado pelos 500 membros do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC). Os especialistas em alterações climáticas que integram o IPCC atribuem o aquecimento global a factores naturais e sobretudo à actividade humana. As concentrações de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, sublinham, nunca foi tão elevada desde há 650 mil anos.A subida do mercúrio nos termómetros vai fazer subir os oceanos e provocar episódios meteorológicos extremos como vagas de calor, episódios de seca e precipitações intensas. Estes fenómenos poderão causar cerca de 200 milhões de refugiados climáticos até ao fim do século devido à submersão de zonas ribeirinhas e a desertificação.
É altura de os políticos assumirem a sério as resoluções do Protocolo de Quioto se querem proteger o futuro da vida no Planeta. Uma opção que passa pela mudança dos paradigmas de bem-estar e de desenvolvimento sustentado.O IPCC foi criado em 1988 pelas Nações Unidas.

2 de fevereiro de 2007

Compras

© J. Vieira

O Sudão tem uma nova moeda desde 9 de Janeiro. A libra sudanesa substitui o dinar desde o dia do segundo aniversário do Acordo Global de Paz entre o Governo de Cartum e o Exército de Libertação do Povo do Sudão (SPLA).
Esta é a terceira mudança de moeda nos últimos 15 anos. O dinar sudanês substituiu a libra sudanesa em 1992, três ano depois de Al Bashir tomar conta do poder. Mas a gente continua a fazer as contas em libras velhas – que tinham mais um zero – embora paguem com dinares.
Se antes ir às compras exigia alguma ginástica mental, agora a situação piorou «muito bem».
Explico! Um quilo de carne de vaca custa no mercado de Juba Velha 1000 dinares, cerca de 3,50 euros. Quando pergunto o preço da carne, o vendedor tanto pode responder 1000 como 10 mil. Nunca fala em dinars ou libras velhas. Por isso, é preciso esclarecer em que moeda está a fazer as contas e começar a discutir o preço.
Agora entrou em cena a libra nova que tem menos dois zeros em relação ao dinar e três relativamente à libra velha.
Quando se pergunta o preço de um qualquer produto, vamos ter que fazer mais contas de cabeça e descobrir se se trata de libras velhas, dinares ou libras novas! E ter atenção ao troco, porque o dinar e a libra vão coexistir durante seis meses!
Outro exemplo. No domingo à noite, quando cheguei da rádio, não havia água. Liguei o gerador para pôr a bomba a funcionar. Mas havia pouco gasóleo no depósito e tive que ir ao posto de abastecimento. Foi a primeira vez que comprei combustível. A bomba do gasóleo marcava 22 dinar (menos de 10 cêntimos) por litro. Os quarenta litros que comprei custavam 880 dinares. Paguei com uma nota de 1000 dinares e fiquei à espera do troco. O funcionário pôs-se a olhar para mim e pediu mais 8000 dinares. Eu respondi: «Mas a bomba diz que são só 880!». Que não, que o litro são 220 dinares e não 22 como constava no marcador electrónico da bomba! Confuso? Também eu. Tive que lhe passar mais oito notas, porque ela estava certo e o marcador da bomba errado! E o facto de não saber árabe para além do obrigado, desculpe, parabéns, bom-dia e okay, dificulta ainda mais as «relações comerciais» em Juba.
Ah! O dinar – palavra árabe – está na origem do nosso dinheiro! E como tem impressa uma pequena oração em árabe, os cristãos chamam-lhe dinheiro muçulmano.

1 de fevereiro de 2007

Refracções


MISSÃO

Missão é partir,
Caminhar, deixar tudo, sair de si,
Quebrar a crosta do egoísmo
Que nos fecha no nosso eu.
É parar de dar a volta ao redor de nós mesmos
Como se fossemos o centro do mundo e da vida;
É não se deixar bloquear
Nos problemas do mundo a que pertencemos:
A humanidade é maior.
Missão é sempre partir,
Mas não devorar quilómetros.
É sobretudo abrir-se aos outros como irmãos,
Descobri-los e encontrá-los.
E, se para encontrá-los e amá-los
É preciso atravessar os mares e voar lá nos céus,
Então, missão é partir até aos confins do mundo.