24 de janeiro de 2007

Abrir aspas

PRESSÕES

Num momento em que o problema do esgotar de recursos - o ar, a água, a energia - se coloca com premência, há em Portugal um ministro que espelha a atitude da classe dominante, em que é manifesta a submissão aos interesses económicos.

1. O ministro do Ambiente fez, em entrevista ao PÚBLICO, na segunda-feira, uma declaração extraordinária. Disse Nunes Correia, a propósito do estado do ordenamento do território e da preservação do meio ambiente em Portugal e da atitude do Governo face a esta questão: «Só se deixa pressionar quem quer. Refuto totalmente que o Ministério do Ambiente esteja a ser pressionado. Eu poria a questão ao contrário. Eu penso que é o Ministério do Ambiente que está a exercer uma grande pressão sobre a economia e sobre os promotores para integrar preocupações ambientais em seus projectos. E em muitos casos, têm sido impostas alterações significativas aos projectos para que eles possam ser aprovados.»
É bom, é reconfortante mesmo, saber que Nunes Correia resiste a pressões. Já é mais preocupante o facto de ele dizer que não há pressões sobre o seu ministério. Será talvez o único que não as tem. Mas a resposta de Nunes Correia, dada no âmbito de um trabalho sobre as excepções que já foram abertas pelo poder político na preservação do meio ambiente, e a argumentação sobre a impossibilidade de não ceder aos interesses económicos, considerando que esses interesses são sinónimo de desenvolvimento, é sintomática de uma preocupante visão do mundo e da sociedade.
Um ministro que apresenta como glória o facto de o Ministério do Ambiente fazer pressão sobre os interesses económicos, ou seja, impor alguns limites à selvajaria da exploração ilimitada de recursos, em nome da economia e do lucro, é manifestamente um ministro que não percebe - ou não quer perceber sequer - o risco que a própria sociedade capitalista actual corre. Numa altura em que qualquer criança, com noções mínimas de inglês (cuja aprendizagem é obrigatória nas escolas) e com TV cabo em casa ou com acesso à Internet, conhece os problemas graves para o planeta que se colocam ao nível do meio ambiente e da sobrevivência do mundo tal como o conhecemos, num momento em que o problema do esgotar de recursos - o ar, a água, a energia - se coloca com premência, há em Portugal um ministro que espelha a atitude da classe dominante, em que é manifesta a submissão aos interesses económicos, em vez de se preocuparem com o que devia ser o motivo central de qualquer governação: as pessoas e o seu bem-estar num mundo habitável.
Mas Nunes Correia vangloria-se de resistir a pressões e de até bloquear alguns projectos, quando, na prática, as cedências têm sido múltiplas, isto num mundo em que os que pensam na sobrevivência do sistema capitalista estão a anos-luz desta atitude. Veja-se, por exemplo, a Alemanha, que tornou o Reno num rio onde de novo se pode nadar. Ou ponha-se os olhos na reconversão da fábrica da Bayer, em Leverkusen. Mas, claro que a Alemanha é aquele país esquisito, tal como os outros países esquisitos do Centro e do Norte da Europa, que se preocupa com coisas esquisitas e menores como os direitos dos cidadãos, o bem-estar das pessoas e a preservação do ambiente. Tudo supostas modernices. Nada que interesse aos governantes portugueses, para quem afinal - e apesar dos créditos e do currículo do primeiro-ministro - o desenvolvimento é tão-só a criação de condições para a obtenção de lucros empresariais, sem que haja grande responsabilização social das empresas. Elites dominantes que parecem nem sequer ter interiorizado que, para que o actual sistema capitalista não impluda, tem de se tornar sustentável e não apenas gerar lucro à custa da destruição da natureza. Para que ela um dia não acabe. A começar pelo ar que respiramos.

2. A primazia absoluta do lucro foi visível esta semana, em Portugal, numa outra situação: a divulgação dos dados sobre o não crescimento dos salários. Os trabalhadores recebem cada vez menos do que produzem e vêem-se confrontados com o não crescimento dos seus salários, em bom rigor com a diminuição dos mesmos em comparação com a taxa de inflação: metade dos trabalhadores por conta própria perdeu poder de compra e qualidade de vida. As consequências para as pessoas das opções económico-políticas de inspiração neoliberal atingiram mais de dois milhões de portugueses, divididos em 730 mil funcionários públicos e 1,3 milhões de empregados do sector privado.
Jean Jacques Rousseau respondeu à pergunta desafiadora da Academia de Dijon em 1754 «Qual é a origem da desigualdade entre os Homens? É justificada pela Lei natural?» (24 anos antes da Revolução Francesa...) com o seu Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens (1755). Nele defende que ela nem é resultante da vontade de Deus, nem da Natureza, nem consequência de nenhuma desigualdade natural dos seres humanos. Mas, sim - ó heresia das heresias -, da propriedade privada e da apropriação e exploração das riquezas da Terra.
É suficientemente conhecido que em Portugal tem aumentado a diferença entre ricos e pobres, ou seja, tem aumentado a desigualdade, processo aliás existente a nível mundial: hoje dois mil milhões de pessoas vivem com menos de um dólar por dia, metade da população mundial com cerca de dois dólares. Estudos científicos sobre a distribuição da riqueza e da pobreza são raros. Nem o FMI nem o Banco Mundial os fazem. De saudar, por isso, o estudo recente do World Institute for Development Economics Research (WIDER), da Universidade da ONU, em Helsínquia, em que, pela primeira vez, se analisa detalhadamente, para mais de 94 por cento da população mundial, a distribuição dos salários e riqueza e respectivo desenvolvimento até ao ano 2000.
«Só podemos distribuir o que primeiro produzimos.» Esta frase é já um lugar-comum entre os políticos e comentadores. Mas não será outro o nível de abordagem do problema? Por que não procurar aperfeiçoar o sistema capitalista, no sentido de uma mais justa redistribuição da riqueza? Será que o futuro para Portugal só pode passar pelo empobrecimento dos que ainda têm trabalho, pela exclusão dos que o perderam e pelo enriquecimento da classe dominante?

São José Almeida em «Público»

22 de janeiro de 2007

Darfur


© Fotos Lusa

ANTES QUE SEJA TARDE

«Assalam aleikum». Uma saudação apressada de duas palavras. Um «bom-dia» de alguém com o coração apertado pela angústia. Por isso passou em branco a lengalenga de perguntas e respostas acumuladas e repetidas sobre a vida, a saúde, a família com se cumprimenta nesta terra.
Veio do frio da noite, das estradas improvisadas no deserto-savana do Darfur. Convido-o a sentar-se, mas não dá conta da cadeira. Fica de pé, o turbante a envolver-lhe a cabeça, permitindo apenas ver-lhe os olhos que me falam de aflição e de muita esperança de viver. Destapou o rosto e, da sua boca, brotaram palavras de amargura.
«Não podemos aguentar mais. Já há muito que a nossa gente quer fugir desta terra maldita. As razias tornaram-se normais e frequentes. Em cada hora que passa há vidas que já não são. Muitas aldeias já deixaram de existir. Muitas vezes somos obrigados a conviver com o cheiro fétido dos corpos que nem sempre podemos sepultar. Agora já não há longe nem perto: os “janjauid” moram ao nosso lado. Violam as nossas mulheres e filhas; roubam o nosso gado. A nossa vida ou a nossa morte depende somente do bel-prazer desses malditos sanguinários».
Que fazer? Pronunciar palavras de consolação? De pesar? Escolhi o silêncio.
Daí a instantes, concluiu: «O meu nome é Makur». Homem já bem entrado nos cinquenta. Sultão, com longa experiência de comando na tribo dinka. Pela posição que ocupa, sabe que não pode chorar nem deve mostrar medo. Seria a sua derrota.
MaKur está em apuros. Não quer manifestar os seus verdadeiros sentimentos. Respira fundo para tomar coragem. O catequista Isak que o acompanha apercebe-se e não o quer deixar ficar mal. Com delicadeza e respeito pelo sultão, pega na palavra e continua o trágico discurso que, infelizmente, não é novo nem desconhecido para mim.
Muitos dos cidadãos da zona de Greida, onde Isak é o catequista responsável, já foram levados para o enorme campo de refugiados da área.
«Se temos de fugir, que seja em direcção à nossa terra, porque nós não somos de aqui e não temos nada a ver com os árabes» – diz Makur, agora mais calmo e sereno.
Makur e Isak representam uma lista sem fim de gente que vem de uma longa caminhada. A segunda guerra civil do Sudão matou dois milhões. E mudou a identidade aos sobrevivents. Passaram a chamar-se deslocados ou refugiados. Mais de cinco milhões. Errantes, sem eira nem beira.
Alguns deles encontram-se na vasta região do Darfur, numa vida que não é vida, vítimas da discriminação atroz por parte da população e das autoridades muçulmanas.
Finalmente, depois de 23 anos de guerra, chegou a tão suspirada paz. Voltar para o Sul é, pois, o anseio de quem de lá fugiu. Especialmente dos que se encontram no meio deste massacre infernal do Darfur. Chamar-lhe guerra é pouco. O que, desde há quatro anos, está a acontecer nesta zona do Oeste do Sudão é um verdadeiro genocídio.
Registo a expressão de Makur que me convida a olhá-lo de alto a baixo e diz, com tristeza: «Pensávamos poder regressar com calma e tão somente depois de ter enchido estes ossos, mas agora está difícil salvar mesmo os ossos!»
Os ossos ainda não se encheram, mas não há tempo a perder. Põem-se a caminho, antes que seja tarde demais. Não contam reconhecer a casa ou os haveres que deixaram no Sul. Porque já não existem. Tudo começará da estaca zero. Acreditam, porém, que é possível reconstruir a vida. Lá, onde há paz: em Juba, Wau, Bahr el Gazal, Rumbek, Torit... a querida «pátria» do Sul do Sudão.
Entretanto, o chão que piso, continua a ser o palco da morte e os campos de refugiados que se improvisaram passam bem da centena. Se Cartum quisesse… se o mundo quisesse… a palavra «genocídio» não existiria neste ponto do globo.
Todavia, há muita gente a rezar e a trabalhar para trazer de volta a felicidade que Deus sonhou para estes seus filhos e filhas. Não queremos o inferno no Darfur. A paz há-de vencer! «Inshá Allah!». Se Deus quiser!
Feliz da Costa Martins, missionário comboniano
Nyala (Darfur)

21 de janeiro de 2007

Bailarina

Obrigado, Helen.

Boa notícia

Os católicos que hoje foram à missa ouviram Jesus proclamar a sua declaração de missão: «O Espírito do Senhor está sobre mim,porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor » (Lucas 4, 18-19). Há quase 26 anos assumi este texto como a linha de fundo da minha vida no seguimento de Jesus, o Missionário do Pai.
Hoje saboreei este texto-missão de uma nova forma. Porque proclamo a boa notícia através das ondas da rádio e através da peparação de jovens sudaneses e sudanesas que dentro de cinco anos estão prontos para levar para a frente a rede FM que estamos a erguer. Eles também são transmissores da boa notícia!
Hoje ao almoço conheci um português que trabalha na formação judiciária dos quadros da justiça do Sul do Sudão. Já tenho com quem trocar dois dedos de conversa em português! Que bom.

20 de janeiro de 2007

19 de janeiro de 2007

Desde mi silencio

© J. Vieira

que el mundo gire sin mi impulso
esquivando los hoyos negros
y la galaxia encuentre su camino
a pesar de las sondas que la vigilan
observandola
observandolo todo
como yo miro por esta ventana
voces que gritan a calle abierta

si la tierra se desgrana sin mis pasos
no temas
ni me voy ni desaparezco
será que estoy llevando cartas
llenas de mi silencio.

Verteré el atardecer en su copa
lo prometo
para beberlo lento ante el fuego

con cada regreso.

18 de janeiro de 2007

A solo

© Patrick Taban

Hoje programei e dirigi pela primeira vez a emissão de Rádio Bakhita a solo. A Ir. Cecília Sierra, directora da estação, está doente. A bronquite asmática não se dá muito bem com o pó de Juba!
Como já tinha posto no ar alguns segmentos da emissão, estou familiarizado com os comandos e as rotinas do DJ Pro, o programa que usamos.
A emissão correu bem! Bem, quase, porque pus no ar o boletim informativo da Rádio Vaticano de ontem. Notícias recessas…
Para quem está há cerca de um mês em contacto com o mundo maravilhoso da rádio, não me saí mal. Aliás, estou admirado com a velocidade com que aprendi a manejar os programas de edição e emissão.
Por outro lado, a equipa da Rádio Bakhita está mais à vontade, tem mais experiência e começámos a produzir mais e melhor. Mabruk! Parabéns!
Já produzimos rubricas diárias com alguma qualidade: Alegria de viver, ideias e valores para a juventude; Testemunhos de vida: histórias que têm de ser contadas (biografias de pessoas e santos); Palavra de Deus para nós, hoje (evangelho do dia com uma reflexão); Um povo, muitas vozes: ideias e opiniões dos habitantes de Juba (vox pop); Jornada de paz: iniciativas para construir a paz e a reconciliação na linha do Acordo Global de Paz (à base de entrevistas no estúdio); Jovens e a vida: 101 perguntas e respostas; Conhece a tua fé: para construir a Igreja que Deus que sejamos.
Três elementos da equipa estão a frequentar em Cartum um curso intensivo de dois meses, organizado pela Rádio Miraya, a estação das Nações Unidas e «concorrente» da Bakhita em Juba. Miraya, em árabe, significa espelho.

17 de janeiro de 2007

Presente

Cheguei à tua porta,
Resolvi entrar,
Mesmo sem ser convidada,
Mas... tu tinhas partido,
Nas paredes
havia o cheiro da saudade,
que passou para mim,
mas como? Se eu nem te conhecia?
Voltei a sair,
Atrás de mim, fechei a porta,
Como que não entendendo...
Mas tu de imediato abriste uma janela,
Uma janela para a Vida,
E foi através dela que vi a tua amizade,
E eu recebi-a, com todo o carinho,
Não te entendia porém,
«a vida aqui também tem beleza»,
foi aí que vi que tudo é belo,
depende do nosso coração,
da nossa entrega,
e percebi que estás no mundo,
sem seres do mundo,
que a tua entrega,
não é a minha entrega,
mas hoje compreendo,
tudo o que me dizes,
e sim «Tudo é belo»,
como o é a nossa amizade,
que nada espera e tudo dá,
e toda a sua beleza é encerrada,
na distância,
que já não é distante,
porque se fez próxima!
Elsa Sequeira
Shukran, Nyny

16 de janeiro de 2007

Dias da rádio

© J. Vieira

Iraque

MORTE CONTINUA À SOLTA

Mais de 34 mil pessoas foram mortas e para cima de 36 mil ficaram feridas no Iraque durante o ano que passou. Os números são de um relatório das Nações Unidas e foram divulgados pela edição electrónica do Público.
Gianni Magazzeni, responsável pelo programa da ONU de ajuda ao Iraque, afirmou que 34.452 civis morreram e 36.685 ficaram feridos durante 2006.
O governo iraquiano apresenta cifras muito mais baixas. As autoridades de Bagdad calculam que as vítimas mortais andem pelos 12 mil.
Magazzeni explicou que os números do relatório das Nações Unidas foram compilados com informações obtidas junto do ministério iraquiano da Saúde, de unidades hospitalares e de agências.
O responsável pelo programa das Nações Unidas de ajuda ao Iraque acusou o governo iraquiano de não oferecer segurança à população e atribuiu parte da violência à actuação de milícias infiltradas na polícia e no exército.
«A situação é particularmente grave em Bagdad, onde a maioria das pessoas mortas e dos corpos não identificados encontrados quotidianamente revelam vestígios de tortura», sublinha o relatório das Nações Unidas.

15 de janeiro de 2007

Novo sinal de trânsito

Com um abraço para os meus amigos e amigas professores.
Obrigado, Miche.

Democracia frágil

A história tem contornos kafkianos, mas é verdadeira e caracteriza a espessura democrática de alguns dos actores do momento político que o no Sul do Sudão vive.

No início de Dezembro o Southern Eye publicou uma notícia a atribuir às milícias de Clement Wane alguma responsabilidade pela insegurança à volta de Juba.
As milícias, assanhadas com o teor da história, fizeram uma rusga ao The Juba Post. Levaram os jornalistas e visitantes que se encontravam na redacção e alguns transeuntes para o antigo palácio do governador, junto ao aeroporto. Foi preciso mais de uma hora e de muitas insistências dos prisioneiros para descobrirem que estavam a interrogar os jornalistas errados.
O The Juba Post é o único jornal publicado na capital do Sul do Sudão. É subsidiado pela Ajuda da Igreja Norueguesa e impresso em Cartum. O Southern Eye, afecto ao SPLM, é feito em Campala, no Uganda. Tem uma delegação em Yei, cidade a cerca de cem quilómetros de Juba.
Clement Wane é o Governador do estado de Central Equatoria. Foi indigitado por John Garang, o malogrado líder do SPLM/A. Recentemente aderiu ao partido que detém o poder no Sul do Sudão. Um dos problemas que Salva Kiir, o presidente do governo do Sul do Sudão, tem em mãos, é a sua substituição em Central Equatoria.

Cão e gato


14 de janeiro de 2007

Contraponto

SIM À VIDA, NÃO AO ABORTO

O essencial é dizer «sim» à vida e «não» ao que a banaliza: aos expedientes, aos subterfúgios, às jogadas políticas, às falsas soluções, às ideias feitas e aos preconceitos.

Saí de Portugal, em missão que me levou à África e à Ásia, nos começos da década de oitenta e volto agora. Tenho, por isso, alguma dificuldade em me situar. Por vezes parece-me que já não sou de casa, que não é esta a terra em que nasci, cresci, alberguei o sonho de um mundo diferente.
O país envelheceu. A minha geração parece desiludida, sem mais perspectivas que a reforma desejada. Os jovens afiguram-se algo indefinidos, a fugir de si mesmos e a refugiarem-se num mundo que me escapa. Entre alguns dos filhos dos meus colegas e amigos descubro uma geração queimada que não conseguiu singrar na escola e enfrenta agora a vida muito fragilizada.
Na paróquia onde nasci, o livro de registos que mais se abre é o dos mortos. O dos nascimentos permanece fechado e meia dúzia de páginas chegam para o ano inteiro. Apareceram os lares de idosos, que não existiam, e se enchem apenas inaugurados. Desapareceram as escolas, que existiam em cada aldeia como ponto de referência cultural e centro de transformação social, e agora deixam atrás de si uma ausência de futuro que inquieta.
Com a urbanização, as relações sociais transformaram-se. Os jovens casam-se mais tarde, os divórcios aumentam. A pessoa humana deixou de estar no centro da sociedade e, no lugar dela, outros valores se colocaram: o dinheiro, o poder, a aparência, a carreira, o prazer. Deixou de se ter um passado, de se sonhar um futuro, em nome do «aqui e agora», do «tudo e já» que caracteriza esta sociedade materialista que fechou a janela aos horizontes de transcendência.
Neste panorama cultural, quase suicida, a questão do aborto, com que agora nos confrontam, parece-me uma proposta de morte, num momento em que precisaríamos de propostas de vida, de iniciativas para inverter o plano inclinado em que o país se encontra, nesta fase de declínio demográfico e cultural. O mais absurdo é que seja o primeiro-ministro a apadrinhar uma proposta legislativa que liberaliza o aborto, é que seja o ministro da saúde a defender uma legislação que favorece a eliminação da vida – sem nada proporem, de novo, que a favoreça!
É triste que tudo isto aconteça precisamente quando a religião, o Cristianismo pela boca de responsáveis Católicos, reconhece que a questão do aborto na nossa sociedade não é uma questão religiosa, que desencadeie uma «guerra de religião», mas sim uma questão ética e moral. E que, como tal, deve ser enfrentada e resolvida fazendo apelo aos valores éticos e morais dos cidadãos.
Na peregrinação pelo mundo, que foi a minha vida missionária, andei muito. E aprendi mais: a falar por mim e a ir ao essencial. E o essencial é dizer «sim» à vida e «não» ao que a banaliza: aos expedientes, aos subterfúgios, às jogadas políticas, às falsas soluções, às ideias feitas e aos preconceitos. Não à «governamentalização» de uma questão que é moral e pertence à consciência dos cidadãos. Não à «partidarização» do aborto, que faz da vida instrumento de luta partidária, arma de arremesso no jogo dos interesses políticos – quando a vida deveria estar bem acima deles! Não à ambiguidade de uma legislação que, ao abrigo da despenalização desejável e do respeito pelos direitos da mulher, promove de facto a liberalização do aborto e o seu eventual uso como meio de controlo da natalidade. Sim a uma desejada legislação que dê benefícios à natalidade, encoraje as famílias numerosas, dê às mães o apoio que elas necessitam para terem a felicidade de bem conceber e dar à luz os seus filhos - e fugirem à infelicidade de os abortar.
Manuel Augusto Lopes Ferreira em «Além-Mar»

Mãe África

© J. Vieira

13 de janeiro de 2007

Mensageira do Amor

O mundo ainda estava adormecido
E o silêncio pairava nos corredores da vida,
Enquanto a neblina da noite,
Tentava equilibrar-se
Na linha invisível que a separa do dia.

E eu recebia em minhas mãos
Algo que nem sabia como lhe tocar,
Que nem era para mim...
Mas que era lindo!
De tão lindo que era,
Não conseguia segurar nas minhas mãos,
Poderia cair e quebrar-se,
Foi por isso que guardei,
No meu coração,
Para estar seguro,
Para estar amado!

Convidavas-me para ser mensageira,
Do Amor, e eu aceitei,
Não sem antes sentir que as lágrimas
Queriam brotar,
Sentia-as rolar pelo meu rosto
Ainda adormecido,
Mas não eram lágrimas de dor,
Porque por dentro eu sorria!

Ia dar o Amor a quem de direito,
Mas quando lhe toquei,
Vi que tinha crescido,
Era muito,
Era tanto, que ultrapassava
E em muito a mensagem inicial.
Que fazer com tanto Amor?

Fui colocando nas mãos de uma criança,
Todo esse Amor,
Mas já não cabia mais,
Pois ele tinha crescido,
Foi por isso que lhe disse,
Guarda esse, guarda-o bem, é para ti!
Este vou guarda-lo, fica para mim!
E sorrimos, um para o outro,
Como se esse sorriso
Fosse o próprio Amor!

Eu dei...mas recebi!
Obrigado!
Adorei ser mensageira do Amor!
Do teu Amor!
Que é lindo, muito lindo!
Que nos faz sentir amados,
Que nos faz sentir especiais,
Quando o amado és tu,
Quando o especial és tu!
E descobrir que o Amor bem guardado
Cresce e está sempre disponível!

Amor - Ódio


12 de janeiro de 2007

Pura magia

O amanhecer e o anoitecer são os momentos favoritos do meu dia-a-dia. Instantes de pura magia.
Normalmente, levanto-me por volta das 6h00 para estar a sós na capela antes da oração da manhã. Recarrego a «bateria» no silêncio profundo e ao mesmo tempo cheio de vida do amanhecer africano e acolho a Jesus que desperta no meu coração com a luz da aurora. É um espaço de paz, de tranquilidade e de ternura. Sinto a presença de Deus em mim, sinto os que me são mais queridos muito próximos e ouço o meu coração com uma nitidez maior. Caty, a nossa gata, costuma vir sentar-se no meu colo, quietinha.
A oração da manhã é rezada pelas comunidades masculina e feminina em conjunto sob uma palmeira e uma buganvília. É um espectáculo único sentir toda a criação a participar no nosso louvor da manhã: os pássaros com os seus cantos polifónicos, o sol que desperta, Caty, que brinca e nos distrai… Segue-se a missa e depois o pequeno-almoço.
E depois o trabalho na rádio – para a Ir. Cecília e para mim –, e na recuperação da nossa casa – para os meus colegas.
O anoitecer também tem a sua magia. A oração da tarde è às 16h45 e sinto a sua falta porque a emissão da Rádio Bakhita encerra às 19h00. Mas aprecio jantar devagar e ficar a conversar sobre o que se passou, o que lemos, o que vimos e ouvimos. Não temos televisão. Por isso, temos espaço e tempo para estar juntos e partilhar. Normalmente vamos para a cama por volta das 21h00.

10 de janeiro de 2007

TeleÁfrica

© J. Vieira
Cerca de 120 milhões de africanos possuem telemóvel. No passado, só os mais ricos tinham acesso à tecnologia e o telefone móvel era sinal de posição social. Entretanto, os aparelhos embarateceram e tornaram-se acessíveis ao cidadão comum.
A democratização do mercado dos telemóveis em África representa uma autêntica revolução nas comunicações, na mobilidade, na cidadania e na economia.
Os africanos usam o telemóvel para comunicar dentro do país e com o estrangeiro, convocar manifestações políticas, fazer negócios, efectuar pequenas transferências de dinheiro através de cartões pré-comprados. Os agricultores seguem a evolução dos preços do mercado através de SMS.
Só três por cento da África está coberto pela rede fixa de telefones. O serviço é caro e muitas vezes funciona mal. Hoje, 15 em cada 100 africanos têm telemóvel. No Oeste, há 110 telemóveis por cada 100 habitantes.

Abrir aspas

O MEU PRÓPRIO DEUS

Não tenho qualquer tipo de religião e confesso ser extremamente critica em relação às tomadas de posição das igrejas em relação a inúmeros problemas da sociedade actual.
Arrogantemente tenho o meu próprio Deus. Arrogantemente tenho uma religião que eu criei, na qual apenas eu acredito. Uma religião sem regras, nem cultos. Regras apenas as que imponho a mim própria e que, consciente de que sou um ser em constante evolução, me permito modificar sempre que a natural evolução do meu pensamento, e da minha vontade assim o determinarem.
Uma religião sem orações, sem rezas, sem sacrifícios, sem penalizações, sem bem e mal. Um Deus que sabe que lhe estou rezando cada dia que acordo viva.
Um Deus que sabe que lhe estou rezando cada vez que faço amor.
Um Deus que sabe que lhe estou rezando cada vez que choro.
Um Deus que sabe que o olho nos olhos, frente a frente, face a face. Um Deus que sabe que não me curvo nem me ajoelho. Mais facilmente me ajoelho para pecar que para rezar, e o meu Deus sabe-o.
Rezo-lhe vivendo.
Um Deus que me conhece e me ama como sou. Que me ajuda a ser mais e melhor. Que me ampara a cada queda. Que me lambe todas as feridas. Que me julga os erros ensinando-me que os erros não se julgam.
Uma religião que não tem caixa de esmolas, nem velas que acendem por um euro, nem milagres pagos com joelhos em ferida.
Uma religião que não tem santos, nem santas, nem igrejas, nem basílicas, nem catedrais, nem capelas, nem capelinhas, nem pecados, nem pecadores.
Tenho esta arrogância de ter o meu próprio Deus e a minha própria religião e não peço perdão por isso.
Isabel. Obrigado, Elsa

9 de janeiro de 2007

Dois anos de paz

Al-Bashir discursou ladeado por Salva Kiir




Juba celebrou com pompa e circunstância o segundo aniversário do Acordo Global de Paz (CPA na sigla em inglês), assinado a 9 de Janeiro de 2005, em Naivasha, no Quénia.
A capital do Sul do Sudão ganhou uma nova central eléctrica e um hotel, The Southern Sudan Hotel. A polícia recebeu uma nova frota de dezenas de viaturas.
O país também tem uma nova moeda a partir de hoje. A Libra sudanesa substitui o Dinar, «uma moeda muçulmana», declarou um dos bispos anglicanos de Juba ao repórter de Rádio Backita 91 FM. Uma libra equivale a 100 dinares. A nova moeda vale cerca de 50 cêntimos do dólar americano.
Omar al-Bashir passou o dia em Juba para tomar parte nas celebrações.
Os actos principais da comemoração decorreram no estádio de Juba.
O arcebispo católico e o xeque muçulmano abençoaram os festejos. Seguiram-se saudações, discursos, danças tradicionais e música marcial.
Os populares aderiram em força.
Salva Kiir, presidente do Sul do Sudão, no discurso que proferiu, denunciou as violações do CPA e a insegurança, sobretudo na ligação com o Uganda. E exigiu que os responsáveis pelo recente ataque às forças do SPLA em Malakal fossem entregues à justiça.
Al-Bashir, por seu turno, declarou que o Sul tem a autonomia para resolver os próprios problemas e que o Partido do Congresso, a que preside, não pode ser culpado por tudo. E terminou o discurso com dois sonoros aleluias!
A assinatura do CPA entre o Governo do Sudão e o SPLM/A pôs fim a mais de 20 anos de guerra civil e marca o roteiro que o país deve seguir até 2011, altura em que os sudaneses do sul devem escolher entre a autonomia ou a união com o Sudão.

8 de janeiro de 2007

Mês primeiro

Com a Directora da Rádio Bakhita, a Ir. Cecília, e Patrick, músico, locutor e produtor

Faz hoje um mês que aterrei em Juba. Achei estranha aquela luminosidade leitosa da bruma da manhã que me envolveu. Senti-me um pára-quedista que caiu num lugar estranho, sem referências. Uma África muito diferente, uma cidade a recompor-se de 20 anos de guerra. Pessoas com um sorriso lindo, mas de olhar triste, sofrido, violento mesmo. As cicatrizes da guerra estão por todo o lado.
Os primeiros dias foram de reajustamento psicológico e físico. Com a idade, a adaptação torna-se mais lenta e sofrida. Comecei verdadeiramente a sentir-me em casa desde o dia 31 de Janeiro, altura em que finalmente desfiz a mala. Agora, estou mais confortável com o calor, o pó, o ambiente, a cidade e a sua gente, os colegas e o trabalho.
E Rádio Bakhita continua a crescer. A fase experimental vai prolongar-se até 8 de Fevereiro com duas horas de emissão diária. Passámos de uma programação baseada na música para programas produzidos por nós sobre juventude, Acordo Global de Paz (CPA em inglês) – que amanhã celebra o segundo aniversário, sida, limpeza, entrevistas a individualidades civis e religiosas, programas sobre os temas de conversa nas ruas e mercados, uma reflexão sobre o evangelho do dia, etc. Em inglês e árabe de Juba, uma versão mais simples da língua. Às vezes nota-se algum amadorismo, mas estamos todos a aprender fazendo rádio.
Há ainda alguns problemas de ordem técnica. As condições de trabalho são precárias: os estúdios são dois contentores, quentes e mal insonorizados; por vezes o sistema eléctrico «cai» e é preciso reiniciar a emissão. Depois, os jovens colaboradores que estão em formação intensiva são pouco constantes: aparecem e desaparecem, chegam tarde…
Há ainda que nos familiarizarmos mais com os programas de edição e de emissão, uma aprendizagem que leva tempo e rodagem.
Olhando para trás, faço um balanço positivo do meu primeiro mês em Juba. As barreiras têm sido ultrapassadas com a colaboração e o esforço de todos. E Rádio Bakhita 91 é já uma marca conhecida na cidade.

7 de janeiro de 2007

Sabedorias

O MACACO AMBICIOSO

Uma tartaruga esperta engana um macaco e salva a vida. Moral desta fábula: a ambição desmedida só aproveita a quem sabe tirar partido da dos outros.

Ao amanhecer, um camponês foi para o seu campo trabalhar. Como de costume, ao aproximar-se o meio-dia, quis acender o fogo para assar nas brasas o inhame, o tubérculo de que se alimentavam os habitantes da sua aldeia. Para acender o fogo, começou a procurar ramos secos. Foi então que, ao mexer nas folhas secas, encontrou uma tartaruga. Apanhou-a com as mãos, levantou-a, olhou-a bem e, sem dizer nada, meteu-a na bolsa. Pensou para si: «Já tenho alguma coisa para comer com o inhame. A tartaruga viu-se assim apanhada numa ratoeira, mas não se deixou desanimar. Começou por perguntar ao camponês:
- Apanhaste-me para me matar?
- Sim, respondeu ele. - Era um homem de poucas palavras.
Pensas então matar-me para me comer?, perguntou ainda o animal.
- Certamente, disse-lhe o homem.
A tartaruga, então, calou-se e pôs-se a rir para si própria.
- Porque é que te estás a rir?, perguntou-lhe o homem.
Ela, como resposta, perguntou-lhe por sua vez com ar sério:
- Sabes como cozinhar-me de modo a que eu seja mesmo tenra?
- Não, respondeu-lhe o camponês.
- Estás a ver?!, disse-lhe ela, queres comer-me e nem sequer sabes como me hás-de cozinhar.
- Como é que o deverei fazer?, perguntou ele.
Então a tartaruga disse-lhe:
- Pegas em mim e, com a ajuda de uma corda, atas-me ao ramo de uma árvore durante algum tempo. Depois vais buscar água ao rio para me cozinhares na panela.
O camponês assim fez, como ela lhe tinha dito. Foi ao rio buscar água e deixou a tartaruga pendurada a dançar no ramo da árvore.
Enquanto o camponês estava no rio a apanhar água, um macaco visitou o seu campo e viu com surpresa a tartaruga a baloiçar no ramo da árvore. Perguntou-lhe, curioso:
- Cara amiga tartaruga, porque estás aí assim na árvore, a baloiçar dessa maneira? Aconteceu-te alguma coisa de extraordinário?
Ela respondeu-lhe:
- Tu não sabes? O camponês propôs-me em casamento a sua filha mais bonita, com a condição de que saiba dançar.
O macaco coçou o pescoço, e os seus olhos iluminaram-se.
De repente, começou a insultar a tartaruga.
- Estúpida és tu em me contar essa história! E dito isto, tirou a tartaruga da corda e atirou-a com força para o meio da floresta. Com a intenção de se casar com a filha do camponês, atou-se ele mesmo à corda.
Ao chegar, o camponês admirou-se de ver o macaco atado à corda à hora de preparar o seu almoço. E foi assim que o macaco, que tinha querido substituir a tartaruga para casar com a filha do camponês, acabou na panela em seu lugar.
Eis, comentam os anciãos na aldeia do camponês, a que coisa conduz uma ambição desmedida.
PAOLO VALENTE em «Além-Mar»

5 de janeiro de 2007

Folhas

Jardim Tropical de Lisboa © J. Vieira

Morte de Sadam

Na distante Multan, no Paquistão, um menino de nove anos morreu quando jogava um jogo macabro, imitando a "morte de Saddam".
A irmã, um ano mais velha, "ajudou-o" na brincadeira, pendurando-o da ventoinha de tecto - ao cenário mais parecido com o patíbulo onde Saddam foi enforcado, como se vê nas imagens que as televisões de todo o mundo transmitiram à saciedade.
Quando se apercebeu do que acontecia a seguir - as TV não mostram essa cena -, a menina gritou, desesperada, por socorro. Tarde de mais para Mubashar Paracha.
Em DN. Obrigado, Fernando.

Operação limpeza

Hoje Juba está mais bonita e asseada. O Governo mobilizou funcionários públicos e os cidadãos em geral para limparem a cidade.
O Ministro do Ambiente, em entrevista à Rádio Bakhita, reconheceu que o lixo é um problema grave em Juba. «Se não se fizer nada, dentro de dois anos teremos problemas de sáude sérios», alertou.
Fizeram-se fogueiras por todo o lado num auto-de-fé às folha secas, às ervas daninhas e às embalagens de plástico.
Uma auto-niveladora entrou em cena para «estirar» as ruas. Por uns tempos as costas vão agradecer!
Tudo isto porque na terça-feira, 9 de Janeiro, o país celebra o segundo aniversário dos acordos de paz entre o Governo sudanês e o SPLA. E Omar al-Bashir, o presidente da repúbolica, vai estar em Juba para as celebrações. Que apareça mais vezes!!!

4 de janeiro de 2007

Sul do Sudão


UNMIS ACUSADA DE ABUSO SEXUAL DE MENORES

Órgãos internacionais de informação acusam pessoal militar e civil da UNMIS, a força de manutenção de paz da ONU no Sul do Sudão, de actos de abuso sexual de menores.
Há cerca de um ano que em Juba se fala da exploração sexual de crianças e se aponta o dedo sobretudo aos militares do Bangladesh, que formam a força da UNMIS.
A denúncia foi confirmada por um alto quadro da Igreja católica. O sacerdote confrontou pessoalmente militares que frequentavam uma casa de prostituição. Alguns tropas alugavam casas na cidade para estarem mais à vontade.
Mary Kiden Kimbo, Ministra de Assuntos de Género, Segurança Social e Religião, convocou esta manhã os jornalistas para repudiar as notícias que vieram a público.
A senhora Kiden Kimbo começou por apresentar os passos dados pelo Governo do Sul do Sudão na protecção da infância e das mulheres. «As crianças são vulneráveis e nós queremos protegê-las», afirmou.
A Ministra encontrou-se com o comandante da UNMIS a quem exigiu um inquérito imediato sobre as alegações de mau comportamento sexual de subordinados seus. Os primeiros resultados devem vir a público no sábado e os capacetes azuis proibidos de frequentem lugares civis de diversão, informou.
«Ninguém deveria vir para introduzir maus hábitos na cultura do sul do Sudão», afirmou a Kiden Kimbo. «Não tolero pedófilos disfarçados de soldados da ONU».
A ONU tem uma presença muito forte em Juba. Dezenas de veículos com as letras UN (sigla das Nações Unidas em inglês) circulam pelas ruas da cidade. Pertencem à UNMIS, à polícia da UN e aos muitos organismos com representações na cidade depois do Acordo Global de Paz assinado pelo Governo do Sudão e pelo SPLM em Naivasha, Quénia, a 9 de Janeiro de 2005.
O Sudão do Sul acaba de sair de um conflito sangrento de 20 anos. A população está empobrecida e as crianças, sobretudo meninas, são presas fáceis de quem tem dinheiro e paga bem pelos serviços sexuais. «As pessoas são vulneráveis e o pessoal da ONU tem dinheiro», explicou Mary Kiden Kimbo. Aparentemente as meninas são levadas de moto das zonais residenciais para os locais de diversão dos militares.

3 de janeiro de 2007

Shukran, Marco!

Marco Camozzi é um radialista do Norte de Itália. Passou três semanas em Juba a preparar a parte electrónica dos estúdios da Rádio Bakhita e a introduzir o pessoal comboniano da estação ao funcionamento do software e das rotinas da produção de programas radiofónicos. Também ensinou a individuar e solucionar os problemas que entretanto foram aparecendo nos estúdios e na ligação com o transmissor. Marco é um técnico com larga experiência de instalação, manutenção e produção digital de rádio. Foi um óptimo formador e sobretudo um grande amigo. Hoje voou para Nairobi, Quénia, de regresso à Itália. Shukran, Marco! Obrigado! E nós começamos a trabalhar sem «rede», porque Marco já não está cá para resolver os contratempos que entretanto vão aparecer. Mas não há-de ser nada.

1 de janeiro de 2007

Reveillon em Juba

A minha primeira passagem de ano em Juba foi tranquila. As comunidades de Comboni House tiveram a visita de dois combonianos, um irmão e uma irmã, e de um jovem. Vieram de Gulu, Norte de Uganda.
Na comunidade masculina, jantámos uma esparguetada preparada pelo superior provincial. É italiano - já se ve! Depois dei uma saltada à UNDP para enviar os votos de feliz ano novo aos meus familiares e amigos.
Das 21h00 às 22h30 fizemos, na capela, uma celebração de acção de graças pelo ano de 2006. Cada participante individuou o que queria agradecer pelo lhe aconteceu durante o ano que terminou. Eu disse obrigado pela descoberta da blogosfera e pelos amigos virtuais e reais que fiz; pelos 25 anos de comboniano e pela vinda para Juba. Há um ano não sonhava com este lugar nem com este trabalho!
No fim da oração vimos um filme. As irmãs ofereceram as pipocas e a salada de fruta e os missionários as bebidas: refrigerantes e cerveja.
À meia-noite – mais ou menos – acolhemos 2007 com abraços, beijos e desejos de felicidade e de paz e … continuamos a ver o filme.
O reveillon terminou por volta da 1h30 para os que aguentaram a película até ao fim.

Feliz 2007

© J. Vieira

O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te favoreça! O Senhor volte para ti a sua face e te dê a paz!
Números 6, 24-26

31 de dezembro de 2006

Rostos da Rádio Bakhita

John Aurelio, Cecília Sierra (directora da Rádio Bakhita), Alex e Alberto (administrador e director técnico)

Elena Balatti (directora-geral da rede), Martin, Emmanuel e Betty

Patrick e Julie

José Vieira (director de informação), William e Ir. Paola Moggi (directora-geral indigitada da rede)

As emissões experimentais da Rádio Bakhita continuam com alguns sobressaltos. No dia 29 o sinal apagou-se a meio da transmissão. O transformador do receptor do sistema de ligação entre o estúdio e a antena queimou-se.
O transformador é uma peça pequena e barata que em Portugal se encontra em qualquer loja de material eléctrico. Aqui é muito difícil de encontrar. O técnico que montou o sistema, encontrou uma solução provisória, a partir de Itália via Internet, até mandar um transformador novo. Rádio Bakhita está de novo no ar. Hoje transmitiu em directo da Catedral a missa em árabe, seguida de música ligeira. À tarde a emissão prosseguiu normalmente.
Neste momento decorre a fase de preparação intensiva dos funcionários da estação depois da introdução da equipa comboniana aos programas de software e às rotinas de produção da rádio.
Se tudo correr bem e não houver «acidentes» graves pelo meio, a Rádio Bakhita inaugura as emissões regulares a 8 de Fevereiro, dia em que a Igreja celebra a memória da santa sudanesa.
A estação terá duas emissões diárias, a partir das sete da manhã e das sete da tarde. Além da música, vai ter dois blocos de notícias e programas informativos, religiosos e de serviço público.


30 de dezembro de 2006

Mil palavras

Mãe Madi © J. Vieira

É Natal!

Recentemente estive em Nampula. Pela manhã fui comprar o pão para o pequeno-almoço na padaria da rotunda do hospital. Um miúdo ofereceu-se para me guardar o carro. Disse-lhe que não era preciso, que só demorava um minuto. Ao sair, porém dei-lhe um pão. Era isso que ele desejava. Vieram logo outros. Disse-lhes que não dava mais. Entrei no carro e vi o pão que ofereci a ser fragmentado pelo rapaz para dar a todos os colegas. Todos meninos de rua que vivem aos bandos na cidade de Nampula. Não resisti ao testemunho. Desci de novo do carro, comprei mais pão e dei um a cada um, e, em primeiro lugar, ao que soube repartir o pão que tinha recebido antes: e é Natal!!!

P. Alberto Vieira, missionário comboniano em Iapala, arquidiocese de Nampula, no Norte de Moçambique

29 de dezembro de 2006

O Menino Jesus

Nesse tempo os Reis Magos ainda não existiam (ou sou eu que não me lembro deles) nem havia o costume de armar presépios com a vaca, o burro e o resto da companhia. Pelo menos na nossa casa. Deixava-se à noite o sapato («o sapatinho») na chaminé, ao lado dos fogareiros de petróleo, e na manhã seguinte ia-se ver o que o Menino Jesus lá teria deixado. Sim, naquele tempo era o Menino Jesus quem descia pela chaminé, não ficava deitado nas palhinhas, de umbigo ao léu, à espera de que os pastores lhe levassem o leite e o queijo, porque disto, sim, iria precisar para viver, não de ouro-incenso-e-mirra dos magos, que, como se sabe, só lhe trouxeram amargos de boca. O Menino Jesus daquela época ainda era um Menino Jesus que trabalhava, que se esforçava por ser útil à sociedade, enfim, um proletário como tantos outros. Em todo o caso, os mais pequenos da casa tínhamos as nossas dúvidas: custava a acreditar que o Menino Jesus estivesse disposto a emporcalhar a brancura da sua veste descendo e subindo toda a noite por paredes cobertas daquela fuligem negra e pegajosa que revestia o interior das chaminés.
José Saramago em «As Pequenas Memórias»

Caty

Olá! Chamo-me Caterina, Caty para os amigos! Sou a gata dos missionários combonianos de Juba. Gosto muito de colinho, sobretudo do do Hans e do Zé. E de apanhar ratos – que aqui são aos montes. E de distrair o pessoal durante a oração da amanhã e da tarde, debaixo da buganvília e da palmeira, no adro da pequena capela. Corro, roço-me nas pernas, brinco com o meu rabo ou com as ervas… Então com o gato-bebé das missionárias era uma festa. Mas o enfezado morreu. A irmã Doménica ficou muito triste, porque lhe dava todos os dias leitinho com uma seringa. Diz que morreu de hipotermia: a noite de Natal esteve fresca e o bichanito nunca recuperou. Pena. Mas tenho dois pretendentes: um gato preto e um branco-sujo, grandalhão. O Hans quer que eu engravide depressa para com os filhotes dar cabo das ratazanas que andam por aqui. Mas ainda sou novinha. Dizem que tenho quatro meses!

28 de dezembro de 2006

Refracções

SE ME PUDERES OUVIR

O poder ainda puro das tuas mãos
é mesmo agora o que mais me comove
descobrem devagar um destino que passa
e não passa por aqui

à mesa do café trocamos palavras
que trazem harmonias
tantas vezes negadas:
aquilo que nem ao vento sequer
segredamos

mas se hoje me puderes ouvir
recomeça, medita numa viagem longa
ou num amor
talvez o mais belo

José Tolentino Mendonça, em «Baldios».
Obrigado, Marujo!

O presente


Salva Kiir, o presidente do Sul do Sudão e primeiro vice-presidente da República do Sudão, é um católico praticante. Nos domingos em que está em Juba, costuma ir à catedral, no bairro de Kator, à missa das 11h00, em inglês, acompanhado pelo respectivo séquito.
Talvez por isso o Governo do Sul do Sudão (GoSS) decidiu oferecer à cinquentenária sé arcebispal de Juba um sistema de ar condicionado com o respectivo gerador industrial. Dá jeito num clima tropical como este com temperaturas acima dos 30ºC.
O que chama à atenção é que, juntamente com o ar condicionado, vieram também sete sofás para o bem-estar das altas individualidades. Até são confortáveis! Um senão: esqueceram-se de colocar uma máquina de café e outras bebidas para amenizar alguma homilia mais «secante». Porque as mesinhas já lá estão à frente dos sofás!

25 de dezembro de 2006

Natal em Juba

Presépio da Catedral de Juba © J. Vieira
O Natal em Juba tem uma marca jovem forte. Os mais novos estavam em maioria na assembleia que encheu a Catedral de Santa Teresinha, no bairro de Kator, para celebrar a Missa do Galo. E também eram sobretudo adolescentes e jovens e vestidas a preceito as largas centenas de fiéis que saíam da igreja paroquial de São José, quando regressávamos a casa depois das 2h30 da manhã.
Dom Paulino Lukudu, arcebispo de Juba, presidiu à Eucaristia da catedral em inglês e árabe. Um coro jovem deu brilho e movimento à celebração através dos cânticos em polifonia, tambores e palmas e do oscilar ritmado dos corpos.
A assembleia entrecortou com palmas, gritos e assobios a homilia do arcebispo, proferida em árabe.
A Missa de Natal demorou cerca de duas horas e foi transmitida em directo pela Rádio Bakhita. O arcebispo saudou com entusiasmo o início das emissões experimentais da emissora-mãe da Cadeia Católica de Rádio do Sudão e agradeceu aos institutos combonianos, representados pelos respectivos superiores provinciais e pelo vigário-geral do ramo masculino, este presente de Natal.
Na noite de Natal, as autoridades levantaram o recolher obrigatório em vigor das 22h00 às 5h00. As ruas de Juba estavam em festa com inúmeras motos e viaturas ligeiras a circular.
Rádio Bakhita 91 FM fez a primeira emissão contínua programada no sábado, 23 de Dezembro, com música e depoimentos recolhidos por repórteres nas ruas da cidade. No domingo voltou ao ar por volta das 22h30 com música de Natal e mensagens de dignitários católicos e do bispo anglicano de Juba. Hoje voltou a estar em directo da catedral com a missa em inglês depois de meia hora com canções alusivas à quadra natalícia.
As emissões experimentais têm corrido bem e servem sobretudo para a equipa técnica se familiarizar com as rotinas do estúdio e com o software. O sinal pode ser captado em boas condições num raio de mais de 30 quilómetros por um auditório de cerca de 500 mil ouvintes.

Natal seguro

Da ACA-M, Associação de Cidadãos Auto-Motorizados

24 de dezembro de 2006

Carta ao Menino Jesus

Meu querido Menino Jesus,
Quando era puto, ensinaram-me que és tu que trazes os presentes na noite de Natal. Depois apareceu esse velhote de barbas brancas vestido à Benfica – que mau gosto! – a distribuir as prendas. Não tenho nada contra ele, mas o pai-natal é cada um de nós, porque «é Natal quando cada um quiser».
O Natal é o teu dia de anos! Às vezes esquecemo-nos disso… Tem piada: fazes anos e dás os presentes. És bué fixe. Por isso é que resolvi escrever-te alguns pedidos.
Antes de mais, quero que abençoes a pessoa que está a ler esta carta. Sabes? Gosto muito dela. Enche-a da tua paz e deixa-lhe um 2007 cheio de bondade!
Depois, peço a tua bênção para as crianças do Mundo. O Evangelho conta que nasceste fora da cidade, entre os excluídos, e que foste refugiado no Egipto para escapar à violência invejosa de Herodes. Há milhões de menores traficados, escravizados, forçados a pegar em armas ou a entrar na prostituição. Nunca vão ser meninos! Cuida deles de uma forma especial. Sobretudo das crianças do Darfur, da Palestina, do Iraque que (sobre)vivem e crescem no meio da violência e da morte.
Recorda-te também das pessoas do Sul do Sudão. Andam ocupadas a reconstruir as vidas depois de 20 anos de guerra. Muitas sentem-se frustradas. Que ultrapassem o ódio e os desejos de vingança! E que os dirigentes usem os recursos humanos, económicos, naturais, sociais e culturais para o bem comum. Sabes? Aqui dizem que a sigla GoSS – Governo do Sul do Sudão em inglês – também quer dizer Government of Serf Service, Governo de Auto Abastecimento!
Abençoa a equipa que está a iniciar a Rede Católica de Rádio do Sudão. Ser boa notícia neste contexto é um desafio enorme. Dá-nos audácia e coragem. E um forte sentido de equipa.
Com a tua ajuda, que os vizinhos descubram que os amas através das missionárias e dos missionários que vivem no espaço chamado Comboni House.
Para mim, já me deste tanto que até tenho vergonha de te pedir mais. Deste-me esta vida linda, a minha família, os amigos, a família comboniana… Faz que me sinta feliz no calor e no pó desta cidade em ebulição. É pedir muito?
Ah! Não te preocupes. A minha casa não tem chaminé e eu não uso sapatos. Só sandálias! Por isso, deixa os presentes no corredor à porta do meu quarto!
Um xi-coração do teu mano Zé

23 de dezembro de 2006

Tira a mãozinha

Estavam um inglês, um alemão e um português num café quando o inglês diz aos outros:
- Esse que aí entrou é igualzinho ao Jesus Cristo.
- Pois, pois! - dizem os outros.
- Estou-vos a dizer. A barba, a túnica....
O inglês levanta-se, dirige-se ao homem e pergunta:
- Tu és Jesus Cristo, não é verdade?
- Eu? Que ideia!
- Eu acho que sim. Tu és Jesus Cristo.
- Já disse que não. Mas fala mais baixo.
- Eu sei que tu és Jesus Cristo
Tanto insiste que o homem lhe diz baixinho:
- Sou efectivamente Jesus Cristo mas fala baixo e não digas a senão isto fica aqui um pandemónio.
- Fiz uma lesão no joelho em pequeno. Cura-me.
- Milagres não. Tu vais contar aos teus amigos e eu passo a tarde a fazer milagres.
O inglês tanto insiste que Jesus Cristo põe-lhe a mão sobre o joelho e cura-o.
- Obrigado. Ficarei eternamente grato - agradece, emocionado, o inglês.
- Sim, sim. Não grites e vai-te embora. Não contes a ninguém.
O inglês, mal chegou à mesa, contou aos amigos. O alemão levantou-se logo e dirigiu-se a ele.
- O meu amigo disse-me que eras Jesus Cristo e que o curaste. Tenho um olho de vidro. Cura-me.
- Não sou nada Jesus Cristo. Fala baixo.
O alemão tanto insistiu que Jesus Cristo passou-lhe a mão pelos olhos e curou- o.
- Vai-te agora embora e não contes a ninguém.
Mas Jesus Cristo bem o viu a contar a história aos amigos e ficou à espera de ver o português ir ter com ele. O tempo foi passando e nada.
Mordido pela curiosidade dirigiu-se à mesa dos três amigos e, pondo a mão sobre o ombro do português, começou a perguntar:
- E tu, não queres que.....
O português levanta-se de um salto, afastando-se dele:
- Eh, tira as mãozinhas que eu estou de baixa!!!

Obrigado, Aniceto!

22 de dezembro de 2006

Darfur

O PRESÉPIO DE UTACH

Dezembro chegou. O dia 25 aproxima-se e a preparação do Natal não deixa ninguém desocupado. Mas não haverá luzinhas ou outro tipo de enfeites ou decorações. Vai ser uma coisa muito discreta. O «Natal das Luzes», certamente, não será tentação para nós, cristãos de Nyala. Simplesmente pelo facto de que a Igreja, neste canto do mundo, não tem o direito de existir, oficialmente. Mas vamos dando graças a Deus e optando por não dar nas vistas de quem tem a faca e o queijo na mão. A luzinha que brilha dentro de cada um de nós, essa ninguém a poderá apagar e não precisa de documentos dos soberanos deste mundo. Esta situação convida-nos a voltar a Belém da Judeia, onde há mais de dois mil nos atrás, aconteceu o verdadeiro presépio. «Natal sem Luzes». Sem luzes, mas não sem o esplendor e brilho daquele que é a Luz do mundo
Ai, acabou-se o alcatrão! Que remédio senão abrandar! É que o selim não é de estofo! Mais umas quantas pedaladas e já estou no «suq», o mercado. Hoje o desvio é obrigatório. A estrada principal é para as Forças Armadas que vão chegar. «Vêm trazer a paz ao Darfur» – anunciou a emissora nacional. Oxalá fosse verdade! Mas como podem trazer a paz, se nas mãos têm instrumentos de guerra?
Desço da bicicleta e sou mais um no meio da multidão que se move, acotovelando-se, à procura de viver. Lentamente, vou fazendo caminho por entre a densa massa humana. Aparelhos de rádio ecoam no ar com discursos a cruzarem-se com músicas variadas. Vendedores gritam o melhor e mais barato produto do mundo. Cestas e potes com sementes e especiarias embebedam a atmosfera com os seus cheiros misturados. De repente, a bicicleta empancou. É o brincalhão do Yohana, um dos membros do conselho paroquial. Agarrando a roda dianteira com a sua mãozona, sai-se com mais uma das suas gracinhas de costume: «Abuna - padre, e que tal se fizéssemos aqui a celebração da missa de Natal, no meio desta multidão?» Outras pessoas, que não conheço, cumprimentam-me e convidam a comprar na sua barraca. Sim, quase todos de religião muçulmana, pertencentes às muitas e variadas tribos darfurianas. Mas todos filhos de Deus que buscam a sua Luz.
Finalmente, livre do «suq», estou na direcção de Utach – o campo de refugiados mais próximo, mesmo à saída da cidade. Estendo o olhar ao longe: um mar de tendas brancas e azuis. À mediada que me aproximo e entro nas ruas desta «imensa aldeia» improvisada forçadamente pela guerra do Darfur, sinto, dentro de mim, que estou a pisar terra sagrada. «Natal sem Luzes». De bicicleta à mão, vou-me perdendo e encontrando em vielas todas tão iguais. Bandos de meninos vestidos de poeira, rodeados de moscas que procuram amizades. São crianças iguais às de todo o mundo. Brincam e correm, contentes, não sabendo como e porquê vieram aqui parar. Ao passar no meio delas, repetem-me o já conhecido refrão: «Khauaja (estrangeiro), okay, Khauaja, okay». Palavras que aprenderam e repetem quando vêem algum branco funcionário das organizações de ajuda humanitária.
De repente, vejo que tenho um traquina – o mais crescido entre eles – sentado no suporte da bicicleta. Deve saber quem eu sou, pois é a segunda vez que venho a este lugar. Mas, antes que eu interviesse, ele antecipou-se e disse: «É ali mais à frente».
Deixo-me guiar pelo meu novo amigo que fala num sotaque darfuriano muito carregado. O pequeno continua a dizer coisas que não entendo por completo, até que, finalmente, ouço que diz: «O meu nome é Khamis e tu és o abuna».
A notícia deve ter passado de tenda em tenda. Muita gente aproxima-se para ver o espectáculo do Khamis que conquistou o selim e o abuna que empurra a bicicleta… Mas logo dou conta que o verdadeiro espectáculo é outro: pensam que vim distribuir alimentos. E ao verem-me de mãos vazias, a desilusão aparece marcada nos seus rostos. A minha dor aumenta porque não lhes posso valer.
Mais uma rua. E outra. Num salto, o Khamis, pôs-se no chão e convidou-me a entrar: «A casa de Deus é aqui.»
Era uma tenda maior que as outras onde estavam mais de meia centena de pessoas de todas as idades. Cantavam e rezavam guiados pelo catequista Joseph que dirigia o encontro de oração. Ouvi o meu amigo Khamis chamar mãe a uma senhora ainda jovem. Dei-lhe os parabéns por ter um filho tão esperto. E ela, entre soluços, contou a história daquela que foi a mãe do Khamis. Maria era o seu nome. Fora morta a tiro pelos «Janjaweed», as milícias árabes apoiadas pelo Governo, quando fugia da sua casa em chamas que esses mesmos homens sanguinários tinham incendiado. Levanto os olhos e vejo braços que se vão erguendo. Percebi então que muitos dos presentes eram dessa mesma aldeia. Ao meu lado, um jovem acrescentou, tristemente: «Famílias inteiras foram mortas nessa mesma hora, ali, com a Maria; os seus corpos ficaram espalhados no chão». E, a custo, concluiu: «Fugimos sem os ter podido sepultar; que Deus nos perdoe.»
O encontro está para acabar. Alguém lembra que se faça um presépio. Chovem ideias. Será um presépio vivo. Aquela tenda-casa de Deus representará o acampamento de Utach, abraçando todo o Darfur e o mundo inteiro. Não vão trazer bonequinhos nem figuras de fora. «No dia 25 nós estaremos aqui» – disseram com determinação. Sim, acredito e estou certo de que eles farão uma linda representação. Eles mesmos vão ser o presépio. «Natal sem Luzes» onde abunda a simplicidade e o brilho da fé que ilumina e conduz à salvação.
À tardinha, de regresso a casa, as duas rodas pediam mais velocidade, mas os pedais não tinham culpa. Parte de mim estava ainda no acampamento que há pouco tinha deixado. Aquele presépio não vai morrer. Não haverá «janjaweed» que o mate. Estará sempre vivo. O Filho de Deus veio montar a sua tenda no meio do seu povo. Deus connosco. Emanuel. A sua Luz brilhará para sempre! Gloria a Deus no Céu e paz na terra…
Feliz da Costa Martins
Missionário Comboniano

Natal Madi




A comunidade Madi celebrou o Natal com uma festa, ontem à tarde. O evento decorreu junto à igreja que o grupo usa, atrás da Praça da Paz.
Os participantes entretiveram-se com uma mistura de feijão-frade com sésamo enquanto esperavam. A festa estava marcada para as 15h00, mas começou às 17h30.
A comemoração principiou com uma celebração da palavra, presidida pelo vigário-geral de Juba, padre Thomas Iga. O grupo de jovens executou algumas canções, acompanhadas por instrumentos tradicionais de cordas.
Depois vieram as saudações e discursos em árabe de Juba. As duas representantes dos Madis no parlamento do Sul do Sudão, em Juba, e do Sudão, em Cartum, também falaram à assembleia. Mulheres Madi executaram algumas danças típicas. No fim, houve comida para todos: primeiro para as crianças, depois para os adultos e, por fim, para os jovens: pão, manteiga de amendoim, carne, peixe fumado, batata-doce e inhame, regada com água engarrafada, importada do Uganda.
Os Madis vivem entre o Sudão e o Uganda. Cerca de 20 mil refugiaram-se em Juba durante a guerra civil sudanesa ou para escapar aos ataques do LRA (Exército de Resistência do Senhor), que opera no Norte do Uganda a partir de bases no Sudão e na RD Congo.

18 de dezembro de 2006

Estúdio 1 está pronto

Estúdios da Rádio Bakhita e antena de ligação ao transmissor © J. Vieira


O técnico e o irmão Alberto dão por terminado o trabalho de montagem do Estúdio 1 © J. Vieira

Prova de som © J. Vieira



17 de dezembro de 2006

Rádio Bakhita no ar

A irmã Paola, futura directora-geral do projecto, e Marco, o técnico italiano, testam a ligação entre o estúdio e o transmissor © J. Vieira


O transmissor e a antena ficam instalados na torre da catedral de Juba © J. Vieira

A Rádio Bakhita, a Voz da Igreja Católica em Juba, esteve ontem, 16 de Dezembro, cerca de 10 minutos no ar para testar a antena, o transmissor e a ligação entre o estúdio e o transmissor. A experiência correu bem. O som estéreo é de excelente qualidade.
Dois técnicos italianos estão a ultimar a parte electrónica do projecto. As transmissões experimentais começam no dia de Natal.
A Rádio Bakhita transmite na frequência de 91.00 Khz.
A irmã Josefina Bakhita é a primeira santa sudanesa.

Alta tensão

Na sexta-feira, 15 de Dezembro, por volta das 10h00, um grupo de soldados do SPLA (Exército de Libertação do Povo do Sudão na sigla em inglês), vindo de fora da cidade, começou a disparar para o ar no Mercado de Customs, na cidade de Juba. Os soldados protestavam contra a falta de pagamento dos ordenados. Pelo menos um civil foi morto durante o levantamento.
O tiroteio colocou a capital do Sul do Sudão em estado de pânico: os habitantes corriam de um lado para o outro sem saber bem o que se passava, os alunos fugiam das escolas, o comércio fechou, os transportes públicos desapareceram de circulação, as quatro estações de rádio que transmitem em FM na cidade foram silenciadas durante mais de 24 horas.
Quando perguntei a um jovem o que se passava, respondeu: «Este lugar está em perigo». Mas não sabia de que tipo de perigo se tratava.
As autoridades impuseram o recolher obrigatório a partir das 19h00. Tropas fortemente armadas patrulhavam as ruas. Havia soldados em posição de combate junto ao aeroporto, aos quartéis mais importantes e à sede do Governo do Sul do Sudão. Mesmo assim, a noite de sexta para sábado foi marcada por tiroteio cerrado sobretudo na zona do Mercado de Customs, o espaço comercial aberto mais frequentado da cidade.
A tranquilidade regressou ontem à tarde e a cidade voltou à azáfama habitual embora o recolher obrigatório ainda vigore.
Vinte anos de guerra civil – Juba foi sujeita a ataques constantes do SPLA, mas manteve-se sempre nas mãos do Governo – deixaram as pessoas muito traumatizadas. O som da guerra faz reviver velhos traumas e medos recalcados.

16 de dezembro de 2006

Olá, Juba!

O pequeno bimotor a hélice de 19 lugares levantou voo do aeroporto Wilson, em Nairobi, às 8h30 de 8 de Dezembro. Nunca tinha viajado num avião tão pequeno e tão baixo. A princípio senti algum desconforto e claustrofobia. Mas a viagem acabou por correr bem.
O verde luxuriante da planície queniana foi dando lugar ao castanho semi-desértico e mais acidentado à medida que o voo de cerca de duas horas se aproximava do seu termo.
O Nilo Branco saudou-nos, espreguiçado e majestoso, vindo do Uganda a caminho de Cartum onde se junta com o seu irmão etíope, o Nilo Azul.
O Aeroporto Internacional de Juba é uma aerogare modesta e acanhada onde tudo é manual. Mas funciona. Os polícias da alfândega são zelosos e abrem toda a bagagem.
Juba, a capital do Sul do Sudão, parece uma aldeia enorme que cresceu desmesuradamente e rebenta pelas costuras. As casas são baixas. As ruas, quase todas de terra, estão cheias de viaturas oficiais do Governo e da ONU, de organizações não governamentais e de particulares. E de muitos motociclos, a última moda.
Há pó por todo o lado. Os nim, as árvores do deserto, dão um toque de verdura e de sombra na paisagem ressequida.
A cidade tem diversos mercados e muitas lojas cheias de produtos essenciais. Os negociantes árabes abastecem-se sobretudo em Cartum. Os outros importam do Uganda, do Quénia, da China. Os preços são sujeitos a negociações.
A vida é bastante cara devido à presença maciça de organizações estrangeiras. Uma refeição simples (dois panados, um punhado de arroz, umas rodelas de tomate e uma cerveja) custa mais de cinco euros num restaurante barato.
Brevemente a cidade terá luz eléctrica pública. Os técnicos andam a montar as linhas. Os cartões SIM para telemóveis são difíceis de encontrar. O Sul do Sudão não tem serviço postal.
Duas comunidades combonianas partilham o mesmo espaço perto do aeroporto. Os edifícios estão a ser recuperados. Em 1992, os missionários estrangeiros foram obrigados a deixar Juba «por questões de segurança». As instalações foram ocupadas até há cerca de um ano por duas congregações locais.
A comunidade masculina é formada por dois irmãos (um alemão e um espanhol) e dois padres (um mexicano e eu) mais a Cathy, a gatita brincalhona e mimada. A comunidade feminina tem cinco irmãs: duas italianas, uma mexicana, uma eritreia – que conheci na Etiópia – e uma sudanesa.
O dia começa cedo! Levanto-me às 6h00. Às 6h40 rezamos as laudes sentados no adro da capela. Os pássaros participam na oração com o chilrear alegre. Segue-se a missa, o pequeno-almoço e o trabalho. O almoço, às 12h15, é preparado por uma cozinheira sudanesa. Às 18h40 voltamos a juntar-nos para a oração da tarde. Depois jantamos o que cozinharmos ou os restos do almoço.
Como não há televisão, ficamos a conversar até às 21h00. Depois vamos para a cama.
A equipa instaladora da Cadeia Católica de Rádio do Sudão é formada por duas combonianas (a directora-geral do projecto e a directora da estação de Juba) e dois combonianos (o administrador e eu, director de informação). Esta semana chegam dois técnicos da Itália para colocar a estação de Juba a funcionar. Outra irmã, que ensina comunicação social em Nairobi, juntar-se-á ao grupo em Março.A estação de Juba já tem nome. Chama-se Rádio Bakhita, a voz da Igreja Católica. A irmã Josefina Bakhita é a primeira santa sudanesa. Por enquanto vai operar a partir de instalações provisórias. Dentro de um ano deverá ter estúdios próprios e um centro de formação para preparar radialistas, jornalistas e administradores para toda a cadeia: a estação-mãe, em Juba, e as rádios locais das outras sete dioceses do Sul. Vão emitir em inglês, árabe e em algumas línguas locais. Parte da emissão será feita a partir de Juba. A Rádio Bakhita inicia as emissões experimentais no Natal. Dois técnicos italianos estão a inspeccionar os estúdios e a montar o transmissor e a antena.

7 de dezembro de 2006

Nairobi

Nairobi acorda cedo. Às seis da manhã as ruas da capital queniana estão engarrafadas de tráfico e os passeios cheios de gente apressada. Vão para mais um dia de trabalho ou à procura dele.
A cidade tem quase de cinco milhões de habitantes. Três e meio vivem nos bairros de lata que a abraçam. Só o de Kibera tem um milhão de moradores. Um cubículo minúsculo sem água nem electricidade custa quatro euros de renda por mês.
Trinta por cento dos habitantes da capital estão desempregados. A maioria ganha cerca de oitenta cêntimos por dia. Sem quaisquer direitos.
Nairobi vem da palavra massai nailobi e significa água fresca e limpa. Antes de os Ingleses chegarem era o lugar onde os massais, o povo da região, davam de beber ao gado.
O centro da cidade é muito cosmopolita. Tem alguns arranha-céus de arquitectura arrojada. As avenidas são largas e tem uma extensa área verde. Cafés e centros comerciais modernos e agradáveis. E as jacarandás continuam em flor!
Hoje fui-me registar na Embaixada. Além de tratar dos papéis, tive oportunidade de cumprimentar o embaixador. Simpático e interessado.
Amanhã de manhã apanho o avião para Juba. O aparelho é pequeno e cada passageiro só pode levar 20 quilos de bagagem. O que não é fundamental fica em Nairobi à espera de uma boleia futura. Como as duas garrafas de vinho do porto.O FCP está de parabéns por se qualificar para a fase seguinte da Liga dos Campeões. Foi pena que o SLB não tivesse segurado o golão do Nelson!

6 de dezembro de 2006

Kivuli

Kizito Sezana com Joseph, o utente mais recente de Kivuli © J. Vieira


UMA SOMBRA ACOLHEDORA
Ontem visitei o Centro Kivuli para fazer uma reportagem fotográfica que me encomendaram. Confesso que fiquei emocionado com o que encontrei.
Kivuli é um oásis a rebentar de vida no seio do imenso e difícil bairro-de-lata de Raruta. Fica nos arrabaldes de Nairobi e acolhe cerca de 60 meninos da rua, dos três-quatro aos 18 anos. A instituição além do alojamento, também dá educação e uma profissão aos internos.
Além disso, cerca de 500 utentes usam diariamente diversas valências do centro: posto médico, farmácia, escola de computadores, carpintaria, serralharia, escultura, artesanato, corte e costura, dança, ginásio, campo de jogos, sala de estudo. O centro distribui comida e água e tem acompanhamento de VIH positivos.
O Kivuli – e mais três centros gémeos noutros tantos bairros problemáticos à volta de Nairobi – saiu do coração do padre Kizito Sesana como resposta ao número crescente de meninos da rua dos bairros à volta da capital.
O padre Kizito é um missionário comboniano italiano. Veio para a capital do Quénia há cerca de 20 anos para fundar a revista New People. Também está por detrás da Waumini, a rádio da Conferência Episcopal queniana. A estação emite 24 horas por dia em inglês e swahilli, a língua franca do Quénia. O
padre Kizito assina a coluna mensal «Ventos do Sul» na revista Além-Mar e escreveu alguns livros. Fundou o movimento leigo Koinonia e dirige a Shalom House também em Nairobi, além de outras actividades pastorais e sociais. Um verdadeiro leão de bem-fazer. Kivuli significa sombra em swahilli.

5 de dezembro de 2006

Darfur

"Daily Nation", Nairobi

Retrato

VELENTINO VALENTÃO

Valentino Fabris tem 85 anos, mas aparenta pouco mais de 70 e poucos. Nasceu no Norte de Itália. É irmão missionário comboniano desde 1942 e chegou ao Sudão sete anos depois. E por cá tem permanecido excepto durante meia dúzia de anos em que esteve na Itália e nos Estados Unidos.
Em meio século de estada no Sudão, ensinou em várias escolas técnicas tanto em Cartum como no Sul do país e dedicou-se à construção de igrejas, escolas, residências para missionários e outras estruturas.
Apesar da idade, mantém-se activo na casa de acolhimento em Nairobi. E para a semana volta ao sul do Sudão para supervisionar a construção de mais uma igreja.
Arguto, franco e atento, diz que a vida missionária só faz sentido se os missionários amarem as pessoas. E que, mais do que ensinar devoções, os missionários devem formar homens, cristãos honestos com um papel activo na reconstrução do país.
Um valentão este Valentino.

4 de dezembro de 2006

Primeiro encontro

Ontem encontrei-me pela primeira vez com a minha nova família. Os Sudaneses do Sul, refugiados em Nairobi, celebram juntos a missa uma vez por mês. Uma maneira de se manterem unidos e conviverem. Gostei da música: bastante tranquila e polifónica. E da homilia: o padre fez uma ligação muito forte entre as leituras da Bíblia e a experiência de exílio dos sudaneses.
No final da celebração, o represente do Governo Regional do Sul do Sudão em Cartum despiu o fato da oficialidade e falou dos confrontos de Malakal. O SPLA está a tentar ultrapassar rapidamente o que é entendido como uma provocação do Governo sudanês. O líder do ataque às forças do SPLA escapou de avião para Cartum.
Outro assunto abordado foi o do recenseamento urgente da população do Sul do Sudão em preparação para o referendo de 2011, altura em que os sulistas vão optar pela auto-determinação ou se mantêm parte do Sudão. Os sulistas precisam de um documento de identificação para participarem na consulta.
De tarde, estive numa festa de anos. Os sudaneses são gente alegre, alta, bastante negra e muito expressiva. Um colega moçambicano diz que parecem galinhas quando estão a conversar tal é a algazarra que fazem. Cada interveniente repete a última frase do seu interlocutor. «Consequência da oralidade da cultura», explicou o colega. E gostam muito de cerveja.
A aldeia global tem destas coisas: no sábado, pude seguir em directo ao derby tripeiro e assistir à vitória do FC Porto sobre o Boavista. Milagre da sociedade da comunicação. Com um pequeno senão: Nairobi está três fusos horários à frente de Lisboa e a partida terminou à 1h15 da manhã. Mas valeu a pena!

2 de dezembro de 2006

África minha

JAMBO!

É sempre uma festa voltar ao regaço primordial da humanidade, a Mãe África. Esta luminosidade, o horizonte profundo, o cheiro da terra molhada, o fervilhar da vida estão inscritos na memória genética colectiva e fazem-me sentir em casa cada vez que regresso ao continente que nos serviu de berço.
A viagem foi longa (11 horas ao todo), mas agradável. A Kenya Airways ainda mantém um bom serviço a bordo desde a comida (boa) aos filmes (alguns estão a ser exibidos nos cinemas em Portugal) e à simpatia da equipagem.
Fico uma semana em Nairobi para tratar dos documentos necessários para me legalizar no Quénia, junto do Governo Regional do Sul do Sudão e na embaixada portuguesa. E para me ambientar.
Sinto-me bem nesta comunidade de acolhimento para os missionários combonianos que trabalham no Sul do Sudão. Encontrei seis colegas: três sudaneses e três europeus. E uma gata chamada Pussy. As conversas à mesa são muito interessantes e os colegas pessoas alegres e grandes contadores de estórias. Ajudam-me a (con)viver com as saudades que trago no meu coração. E são tantas!...
Em princípio, dia 8 devo voar para Juba. E acompanhar o vigário-geral (que vem de Roma) e o superior provincial numa visita a algumas das comunidades. Vamos viajar por ar (com o avião da ONU), por água e por terra. Uma introdução interessante em perspectiva!
Nairobi é uma cidade verde e muito britânica. As jacarandás estão em flor. Um espectáculo! Como Lisboa em Maio. E chove muito… As ruas, com alguns buracos, estão apinhadas de gente. Muitos vivem em bairros de lata à volta da cidade. Há bastante desemprego e, consequentemente, alguma violência e insegurança. Por isso, algumas ruas foram transformadas em condomínios fechados como medida de segurança.
A Internet funciona, mas é tão lenta que se torna desesperante. De vez em quando há cortes de electricidade.
No Sul do Sudão, aparentemente o serviço postal ainda não está organizado. Por enquanto, fui aconselhado a usar a caixa postal da casa de acolhimento, em Nairobi. Em Juba, as Nações Unidas facilitam o acesso à Internet e o telefone também funciona às vezes.
Os acordos de paz entre o SPLA/M (Movimento/Exército de Libertação do Povo do Sudão na sigla em inglês) e o Governo de Cartum foram testados nestes dias em Malakal. Milícias - consideradas próximas do Governo - atacaram forças do SPLA e depois refugiaram-se num quartel do exército sudanês. Os recontros fizeram mais de 300 mortos.