30 de novembro de 2006

Blogosfera

© J. Vieira
A RITA É UM AMOR
A Rita tem um blogue que se chama Rita-Jaalala, Rita-Amor. Agora percebo porque queria saber como se dizia amor em Guji, a língua do Sul da Etiópia que falo. E é do amor que escreve e partilha. E dos desamores. Porque tudo é parte da vida e a sabedoria está no integrar tudo para não haver fios soltos, nós desatados. Parabéns, sobrinha. Adoro ler os teus textos e também te amo muito mesmo. Continaumos à distância de um endereço electrónico, tá?

Partir

Desfazer ordens antigas de cinco anos. O quarto parece um poço sem fundo: onde meti tanta coisa?
Fazer malas. Atender mensagens de ternura e amizade.
Uma confusão de coisas para deitar fora, de sentimentos contraditórios: alegria e lágrimas.
Cada vez que parto morro um bocadinho. Mas a morte gera vida e a chegada, amanhã, às 7h15 a Nairobi, é o início de um (re)nascimento, um novo começo cheio de promessa e de ilusão.
É essa a minha oração no momento que digo obrigado e até já.
Sei que Deus está comigo e que os meus familiares e amigos também. O vosso carinho é a minha força.
Obrigado e até já, então! E façam-me o favor de serem felizes. Eu vou tentar fazer o mesmo em Juba, no Sul do Sudão.

29 de novembro de 2006

Retrato

Joasia © J. Vieira

COISAS TUAS

Levo coisas tuas
Para poder estar contigo
Na distância.
Para nunca te perder a companhia,
Mesmo não estando.
Levo gravado o teu gesto,
O pranto, o riso, e
(Ora inocente, ora picante)
O teu sorriso,
Que é a tua expressão,
O teu maior encanto.
E levo um objecto,
Teu pertence,
Como se o espaço tivesse autoridade
E o tempo nos afastasse…

Como se fosse preciso…

Margarida Faro em «Tantas mãos, a mesma Primavera»
(Oficina do Livro, 2005)
Este poema é dedicado a todas as pessoas que têm um lugar especial no meu coração e que levo comigo para o Sudão. Porque estamos todos à distância de um afecto. E no coração cabe o mundo todo.

Sabedorias

A MULHER E OS TRÊS HOMENS

Uma mulher saiu de sua casa e viu três homens com longas barbas brancas sentados em frente do seu quintal. Não os reconheceu.
Disse: «Acho que não os conheço, mas devem estar com fome. Por favor entrem e comam alguma coisa.»
«O homem da casa está?», perguntaram.
«Não, está fora.»
«Então não podemos entrar», responderam.
À noite, quando o marido chegou, contou-lhe o que aconteceu.
«Vai, diz que já estou em casa e convida-os a entrar.»
A mulher saiu e convidou-os.
«Não podemos entrar juntos», responderam.
«Porquê?»
Um dos velhos tomou a palavra: «O seu nome é Fartura». E apontou um dos seus amigos. Depois, indicando o outro, continuou: «Ele é o Sucesso. E eu sou o Amor». E completou: «Agora vá e decida com o seu marido qual de nós querem em vossa casa.»
A mulher entrou e contou ao marido o que fora dito. Ele ficou entusiasmado e disse: «Que bom! Neste caso, vamos convidar Fartura. Deixa-o vir e encher nossa casa de fartura.»
A esposa discordou: «Querido, por quê não convidamos Sucesso?»
A cunhada ouviu do outro canto da casa. E apresentou a sua sugestão: «Não seria melhor convidar Amor? A nossa casa então estaria cheia de amor.»
«Vamos pelo conselho da nossa cunhada!», disse o marido à esposa. «Vai lá fora e chama o Amor para ser nosso convidado.»
A mulher saiu e perguntou: «Qual de vocês é Amor? Por favor, entre e seja nosso convidado.»
O Amor levantou-se e entrou em casa. Fartura e Sucesso seguiram-no.
Surpreendida, a mulher perguntou-lhes: «Apenas convidei o Amor! Por quê entraram também vocês?»
Os velhos responderam: «Se convidasse Fartura ou Sucesso, os outros dois esperariam aqui fora, mas como convidou o Amor, onde ele for, nós iremos com ele. Porque, onde há Amor, há também Fartura e Sucesso!»
Obrigado, Fernando

28 de novembro de 2006

Aldeia global

Se a população da Terra fosse reduzida à dimensão de uma pequena cidade de 100 pessoas, poderia observar-se a seguinte distribuição:
57 Asiáticos
21 Europeus
14 Americanos (norte e sul)
8 Africanos
52 mulheres
48 homens
70 pessoas de côr
30 caucasianos
89 heterossexuais
11 homossexuais
6 pessoas seriam donas de 59% de toda a riqueza e todos eles seriam dos Estados Unidos da América
80 pessoas viveriam em más condições
70 não teriam recebido qualquer instrução escolar
50 passariam fome
1 morreria
2 nasceriam
1 teria um computador
1 (apenas um) teria instrução escolar superior.

Quando olhas para o mundo nesta perspectiva, consegues perceber a realnecessidade de solidariedade, compreensão e educação?

Retratos

Mulher guineense © J. Vieira


Ancião etíope © J. Vieira

Símbolos


Parece uma águia, mas não é. O símbolo dos Estados Unidos é, de facto, um pigargo. Trata-se de uma ave de rapina, parente distante do abutre africano. Não caça, mas saqueia as presas de outras aves. É famoso por roubar a «pesca» da águia pesqueira. Thomas Jefferson preferia ver o peru nas insígnias da jovem América. Para ele, o pigargo era um «cobarde lamentável, que tem por hábito fugir de pássaros do tamanho de um pardal». Ironias da história: o símbolo adequa-se mais à realidade de hoje que à de ontem.

27 de novembro de 2006

Retratos

Matilde © J. Vieira

Despedidas

O director espiritual disse-me, na Etiópia, há meia dúzia de anos, que, para dizer olá, primeiro é preciso dizer adeus.
Tenho-me dedicado a ritualizar as despedidas desde o princípio de Outubro. Adoro curtir a presença dos familiares e amigos – e são tantos. E as despedidas têm de ser saboreadas com calma e parcimónia! Porque cada pessoa é única e merece uma atenção especial.
Cada partida é uma pequena morte e cada chegada um renascimento.
Nos adeuses há saudades e lágrimas. Há rostos que muito dificilmente voltarei a ver. Pela idade ou pelos novos rumos de vida. Mas também abraços quentes e muita troca de energia: sinto as pilhas recarregadas e estou pronto para dizer olá à vida em Juba. Pronto para partir. E tranquilo. Porque sinto uma solidariedade de afectos enorme. Que agradeço e retribuo.

Deus

José Luis Cortés, em «Um Deus chamado Abba» (Estrela Polar, 2006)

Sabedorias


A ÁRVORE INÚTIL

HuiTzu disse a Chuang:
Tenho uma grande árvore,
Que se chama «Malcheirosa».
Seu tronco é tão torto
É tão cheio de nós
Que ninguém pode tirar dela uma só tábua.
Os galhos são tão retorcidos
Que você não consegue cortá-los
De modo a que seja úteis.

Lá está ela à beira da estrada.
Carpinteiro nenhum a olhará.
Eis o seu ensinamento –
Grande e inútil.

Respondeu-lhe Chuang Tzu:
Já viu o gato do mato
Agachado, espreitando a sua presa -,
Pula assim, e assim,
Para cima e para baixo, e por fim
Cai na armadilha.

Mas o iaque, já viu?
Poderoso qual trovão
Mantém-se com sua força.
Grande? Claro que sim,
Mas não sabe pegar ratos!

Assim, a sua árvore inútil. Inútil?
Plante-a então em terreno baldio
Sozinha
E caminhe a esmo, em torno dela,
Descanse à sua sombra;
Nenhum machado ou decreto proclamará o seu fim.
Ninguém jamais a abaterá.
Inútil? Que me importa!


Thomas Merton, em «A Via de Chuang Tzu»

26 de novembro de 2006

I Only Ask Of God



I only ask of God
He won't let me be indifferent to the suffering
That the very dried up death doesn't find me
Empty and without having given my everything
I only ask of God
He won't let me be indifferent to the wars
It is a big mon
I only ask of God
He won't let me be indifferent to the suffering
That the very dried up death doesn't find me
Empty and without having given my everything
I only ask of God
He won't let me be indifferent to the wars
It is a big monster which treads hard
On the poor innocence of people
It is a big monster which treads hard
On the poor innocence of people
People... people... people
I only ask of God
He won't let me be indifferent to the injustice
That they do not slap my other cheek
After a claw has scratched my whole body
I only ask of God
He won't let me be indifferent to the wars
It is a big monster which treads hard
On the poor innocence of people
It is a big monster which treads hard
On the poor innocence of people
People... people... people
Solo le pido a Dios
Que la guerra no me sea indiferente
Es un monstro grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente
Es un monstro grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente
People... people... people

25 de novembro de 2006

Retratos

Cristina Isabel © J. Vieira

Abrir aspas

© J. Vieira
ANSIEDADE

Os medos de épocas remotas, as repressões morais e religiosas, as idealizações e as paixões impossíveis do romantismo, o vazio e a náusea existencialista, a cultura do eu, do consumismo e da solidão modernos deram, a pouco e pouco, lugar ao stress e à ansiedade das sociedades contemporâneas. Este facto prende-se, sobretudo, com o novo tipo de pressões a que somos sujeitos, com as novas concepções de vida e com a rápida evolução dos conceitos, que se tornaram cada vez mais flexíveis.
O espectro das perspectivas com que encaramos os objectivos de vida, o mundo e as relações, alargou-se consideravelmente. Tudo pode ser observado e analisado por inúmeros lados, descobrimos novas ligações entre as coisas, as nossas memórias e os laços afectivos são cada vez mais aprofundados. O sentido da vida perde-se no meio de tantas batalhas, os medos multiplicam-se, cresce a sensação de que não vamos conseguir sobreviver com tantas imposições. Falta-nos o tempo, a energia, o ânimo, a despreocupação, a satisfação e a segurança. Tudo isto nos tira a paz e o sossego, o sono, a saúde e o bom-senso para agir com lucidez.
Ana Vieira de Castro, em XIS

24 de novembro de 2006

Alqueva

Refracções

© J. Vieira

PARA DUAS FOTOGRAFIAS
DE NENNI GLOCK
COM O TEJO AO FUNDO

1.
- Antes de haver pontes
o rio era de ouro, e prata e âmbar, e desse ouro
contaram-me
se fez um ceptro de um rei.
E dos canaviais
contaram-me
se faziam as melhores penas que em Roma se escrevia

- Antes de haver pontes
o rio era das sereias, dos tritões e dos heróis, e por aqui
contaram-me
se escondeu Aquiles, fugido de Tróia, e aqui
o encontrou Ulisses no meio de cavalos voadores e éguas velozes
que só o sopro dos ventos emprenhava

- A mim contaram-me apenas que o barco acostou ao anoitecer
e eu pedi à minha mãe que ela me levasse mas ela não levou.
Para quê
explicou mais tarde
o caixão já tinha fechado e eu não ia poder ver
o rosto do meu pai

2.
Chegaram os monstros sem avisar
e já nem se vestem de preto
Assim seria fácil reconhecê-los
tentar fugir a tempo
avisar os incautos

Os monstros têm cores suaves
e bocas enormes
avançam sem ruídos
ferida aberta na paisagem das águas

As bocas dos monstros engolem o rio
as pontes
as margens
o mundo

Os monstros não deixam
rasto

Depois de os monstros passarem até há quem não acredite
que um dia eles existiram
.


Alice Vieira

Tranquilidade

23 de novembro de 2006

O rato e o gato

O ratinho estava na toca, encurralado pelo gato, que, do lado de fora, miava:
- MIAU, MIAU, MIAU.
O tempo passava e o gato miava.
Depois de várias horas, e já com muita fome, ouviu:
- AU! AU! AU!
Então deduziu: se há cão lá fora, o gato foi-se embora. Correu, disparado, em busca de comida. Nem saiu bem da toca e o gato: «NHAQUE!»
Inconformado, já na boca do gato, perguntou:
- Fogo, gato! Que é isto?
- Meu filho, neste mundo globalizado, quem não fala pelo menos dois idiomas morre à fome! – respondeu o felino.
Obrigado, Ju!

A minha cidade


Juba vai ser a minha cidade a partir de Dezembro e, muito provavelmente, pelos próximos dois anos.
A capital regional do Sul do Sudão fica na margem ao Nilo Branco e tem mais de 150 mil habitantes.
Encontra-se em plena reconstrução depois de 20 anos de guerra civil entre o SPLA (Exército de Libertação do Povo do Sudão na sigla em inglês – que agora é Movimento) e as tropas de Cartum. Mais de dois milhões de civis morreram e quatro milhões foram deslocados pelos combates.
O tratado de paz de Naivasha, assinado em 1 de Janeiro de 2005 entre o SPLA e o Governo sudanês, inaugurou uma nova forma de relacionamento entre Cartum e Juba através da partilha de poderes. O Governo Regional tem autonomia e os sulistas podem, em 2011, optar pela auto-determinação através de um referendo.
O Sul do Sudão é rico em petróleo.
Juba fica a 1700 quilómetros de Cartum, junto à fronteira com o Quénia, Uganda e RD Congo. A Ethiopian voa três vezes por semana de Adis-Abeba para Juba.

22 de novembro de 2006