2 de julho de 2006

Até breve


Até breve! E boas férias.

Obrigada


Senhor,
obrigada
por tudo e por nada!
Apenas obrigada
pelo marulhar das ondas,
pelo rumor do vento,
pelo pensamento,
pela chuva na vidraça,
pelo calor na pele,
pelo momento que passa,
pelo amor que vivo,
pelo segredo que escutas,
pelo consolo que me dás,
pelo sorriso dos filhos,
pela bondade dos amigos,
pela harmonia da música,
pelo chão que piso.
Obrigada, Senhor,
pelo teu amor!

Fátima Pinto Ferreira em «São Judas Iscariores»

1 de julho de 2006

Leituras

CONVERSAS COM O ESPELHO

As crónicas de Faíza Hayat são por onde começo invariavelmente cada sábado a leitura da Xis – Ideias para Pensar.
A sua escrita cativa-me: flúi como um rio de muitos afluentes e é ponto de encontro do oriente e do ocidente, da tradição com a modernidade.
Gosto da atenção que dispensa ao quotidiano, aos pequenos nadas que realmente fazem o dia-a-dia, à profundidade da análise, à lucidez do olhar.
Uma coluna que não dispenso.
Mercedes Sosa - Gracias a La Vida

Obrigado à vida que está em ti e em mim!

Férias

RESPIRA

Tenho um amigo que, quando começo a «stressar», me repete, invariavelmente: «Respira!»

Pois é! Passamos o ano a correr para a escola, para as actividades desportivas, para a catequese, para os computadores, para as consolas dos videojogos, para casa. Uma estafa!
Agora, por magia, estão pela frente dois meses de férias, sem aulas, sem a pressão de horários a cumprir. Depois de um ano de «stress», é o tempo de, finalmente, respirar!
As férias são isso mesmo: um tempo para respirar fundo e fazer aquelas coisas para as quais, tantas vezes, não há tempo.
Respirar é encher os pulmões de ar puro, seja no campo, na montanha ou na praia! Respirar é parar para contemplar a beleza que existe à nossa volta: na natureza, no nascer e no pôr-do-sol, no mar, nas pessoas.
Respirar é deixar de lado o computador e os jogos que nos fecham no quarto num ambiente mais virtual que real, em ligação com todo o mundo e completamente sós. Respirar é dar mais tempo às conversas, aos jogos, aos passeios com os amigos.
Respirar é, também, ler um bom livro, ouvir alguma música diferente daquela que trazemos no MP3, dedicar-nos à pintura, a escrever – a Alice Vieira está sempre à espera de trabalhos dos nossos jovens audaciosos!
O descanso é muito importante na nossa vida. Até Deus descansou no sétimo dia, depois de passar seis a criar o mundo, e quis que descansássemos. O problema é que o descanso se transformou na indústria do lazer. E, depois dos excessos do lazer, acabamos por ficar muito mais cansados e «stressados» e a precisar de férias para descansar das férias! Uff!...
Vá lá: respira! Descansa e usa o teu tempo com criatividade.

30 de junho de 2006

Ser poeta é

© J. Vieira
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!


Florbela Espanca
月亮代表我的心

Américas

O INSUSTENTÁVEL PESO DA POBREZA

Dos cerca de 550 milhões de sul-americanos, 220 milhões são pobres e uns 100 milhões sobrevivem com menos de 80 cêntimos por dia.

A América, com 42 milhões de quilómetros quadrados e quase 900 milhões de habitantes, é o segundo continente em termos de área e de população e o primeiro em peso económico, geopolítico e religioso. Foi buscar o nome a Américo Vespúcio (1454-1512), navegador florentino que serviu as coroas de Espanha e Portugal na exploração marítima do Novo Mundo. A divisão norte (Canadá e Estados Unidos) – sul (os restantes países) é geográfica, mas também política, económica e cultural. Os países do Norte, anglófonos – com excepção da província canadiana do Quebeque, que preserva o francês como língua de referência –, trataram o Sul, que fala espanhol e português, como reserva económica estratégica.
As grandes multinacionais, da banana, da soja, da criação de gado, ocuparam sempre enormes extensões da América Latina, em prejuízo da população local, das florestas e da biodiversidade da região. O Sul do continente é usado como linha de montagem de larga escala para as indústrias norte-americanas. A indústria farmacêutica e o negócio da biogenética têm tentando por sua vez apropriar-se dos segredos medicinais dos povos indígenas, através de um sistema de patentização de espécies com valor comercial.
Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos impunham os dirigentes – frequentemente incompetentes autocratas militares – da maioria dos países do Sul do continente. Com a queda do Muro de Berlim, abateu também o intervencionismo norte-americano, a democracia alastrou e foi-se consolidando, processo que desencadeou um fenómeno político interessante: enquanto o Canadá e os EUA viraram à direita, o eleitorado dos países latinos tem vindo a escolher partidos da esquerda para os governar. A luta contra o terrorismo passou a ser a prioridade dos Estados Unidos e a parceria especial com a América Latina – que George W. Bush anunciou no início do seu mandato – foi relegada para segundo plano. Consequentemente, a criação de uma zona de comércio livre à escala do continente vai perdendo peso, a favor de parcerias regionais mais favoráveis às economias mais pobres.
A democracia, ainda que assuma formas variadas e mais ou menos (im)perfeitas, existe, mas o Sul do continente continua a ser flagelado pela pobreza e pelas grandes desigualdades, consequência do neoliberalismo. Um terço da sua população (mais de 150 milhões de pessoas) vive em bairros-de-lata sem as mínimas condições, autênticos viveiros de pobreza e violência. Dos cerca de 550 milhões de sul-americanos, 220 milhões são pobres e uns 100 milhões sobrevivem com menos de 80 cêntimos por dia. Não é de estranhar que muitos optem por arriscar tudo – mesmo a vida – para tentarem assegurar a sobrevivência nas abastadas sociedades do Norte. Que fazem tudo para os deter: o Canadá pôs-se a expulsar imigrantes e os EUA projectam um muro de três mil quilómetros para fortificarem a sua fronteira.
A nível eclesial, as Américas têm uma grande importância. A maioria dos católicos vive lá e a Igreja, especialmente a latino-americana, foi palco de experiências pastorais inovadoras, como as comunidades eclesiais de base e a inculturação teológica. Em Maio de 2007, vai realizar-se a 5.ª Conferência Geral do Episcopado da América Latina e Caraíbas no Santuário da Aparecida, no Brasil. Será uma oportunidade para reflectir sobre a realidade e o futuro da Igreja latino-americana numa altura em que os seus países se tornam cada vez mais conscientes da identidade histórica e da dignidade nacional. E, também, do insustentável peso da pobreza.

Mil palavras

Templo de Diana – Évora © J. Vieira

Gaza

«CHUVA DE VERÃO»

A 25 de Junho um grupo de combatentes palestinianos atacou um posto militar israelita e raptou o cabo Gilad Shalit para o trocar por 95 mulheres e 313 menores de 18 anos detidos nas prisões israelitas.
A ousadia palestiniana representou uma afronta séria ao todo poderoso exército de Israel que, para resgatar o militar raptado, pôs em marcha a operação «Chuva de Verão».
As tropas israelitas cercaram o Sul de Gaza, junto à fronteira com o Egipto, por terra, ar e água. Os bombardeamentos não param e os aviões F16 cortam frequentemente a barreira do som num acto de intimidação. E destruíram infraestruturas importantes como algumas pontes e três centrais eléctricas, deixando 600 mil às escuras. Até o campo de futebol da Universidade Islâmica de Gaza foi transformado numa imensa cratera por um míssil.
As tropas israelitas também prenderam 64 individualidades do Hamas, o partido palestiniano no poder. Entre os presos contam-se oito ministros, 20 deputados, vários autarcas e outros políticos.
A lei internacional proíbe a punição colectiva da população civil, mas o Estado de Israel continua a usar a força brutal da superioridade militar contra os cidadãos palestinianos. Um crime contra a humanidade que as grandes potências deixam passar em claro.
Será que Israel esqueceu o Holocausto? Será que por ter sofrido a «Shoa», se sente no direito de castigar populações indefesas só porque é mais forte?
As Escrituras Hebraicas, o Antigo Testamento, quando falam do tratamento que os judeus devem dar aos estrangeiros que vivem no seu país, recordam: «Lembra-te que também foste estrangeiro!». Hoje diria: «Lembra-te que também foste vítima do mais forte!»

29 de junho de 2006

Abrir aspas

(...) O que me inveja não são esses jovens, esses fintabolistas, todos cheios de vigor. O que eu invejo, doutor, é quando o jogador cai no chão e se enrola e rebola a exibir bem alto as suas queixas. A dor dele faz parar o mundo. Um mundo cheio de dores verdadeiras pára perante a dor falsa de um futebolista. As minhas mágoas que são tantas e tão verdadeiras e nenhum árbitro manda parar a vida para me atender, reboladinho que estou por dentro, rasteirado que fui pelos outros. Se a vida fosse um relvado, quantos penalties eu já tinha marcado contra o destino?
Mia Couto em «O fio das Missangas»
Obrigado, Albino

Suicídio lento

Imprensa

JORNAIS GRATUITOS EM ALTA

Os jornais de distribuição gratuita ultrapassaram a barreira dos 150 mil exemplares diários, revela a Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragem (APCT).
O Metro, um ano após o lançamento, regista uma circulação média de 154 717 exemplares e o Destak, que começou a ser publicado em 2001, 153 390.
Quanto aos diários pagos, todos registaram quebras de edição durante o primeiro trimestre de 2006. O Correio da Manhã está a tirar 119 413 exemplares, o JN 99 989, o Público fica-se pelos 46 119, o 24 Horas baixou para os 42 878 e o DN queda-se nos 36 305.
Os jornais gratuitos são feitos de maneira que o leitor em meia hora de viagem possa informar-se sobre os temas principais da actualidade e fique equipado para os discutir com colegas ao chegar ao trabalho. E estão a alterar os hábitos de leitura dos Portugueses. Para melhor.

Emagrecimento



Em ADITAL

28 de junho de 2006

Say It's Possible

Tudo é possível! Basta crer e... lutar

Portugal no seu melhor

Além-Mar

ESPECIAL
AMÉRICAS 2006

A Além-Mar de Julho apresenta um número especial sobre a América: um continente a dois tempos. São tais as diferenças, os contrastes e as desigualdades, que à América se chama habitualmente Américas. Num período particular da sua história, um guia especial ajuda-o a conhecer os 35 países e 15 territórios que a(s) integram.
Outros artigos:
Américas: Populismos de esquerda, radicalismos de direita. A sul, somam-se as vitórias da esquerda e alastra o populismo. A norte, reina o radicalismo mais conservador. Entre Hugo Chávez e George W. Bush, o contraste não podia ser maior. Os extremos tocam-se. Embora, por enquanto, ainda não se choquem.
Igreja: Estancar a evasão de fiéis. Comunidades eclesiais de base, movimentos apostólicos, pastorais sociais, congregações religiosas, paróquias e dioceses preparam mais uma Conferência Episcopal Latino-Americana, a realizar em Maio de 2007. Isto num momento em que a evasão de fiéis se torna preocupante.
Indígenas: A força dos pequenos. O 5.º Encontro Continental de Teologia Índia, que reuniu em Manaus, em plena Amazónia brasileira, quase duas centenas de participantes vindos de 15 países, terminou com uma mensagem dirigida a todo o mundo: «A força dos pequenos está na sua união.»

Armas ligeiras


ARMAS DE DESTRUIÇÃO DE MASSAS

«Num mundo inundado por armas ligeiras estima-se que um quarto dos quatro biliões de dólares proveniente da venda global de armamento é ilegal. Essas armas são fáceis de comprar, usar, transportar, esconder. A sua proliferação contínua piora conflitos, provoca ondas de refugiados, risca leis e expande uma cultura de violência e impunidade», denunciou Kofi Annan, secretário-geral da ONU, quando abria, a 26 de Junho, em Nova Iorque, a Conferência Mundial sobre o Comércio de Armamento. O evento reúne 2000 delegados de governos, ONG e da sociedade civil e termina a 7 de Julho.
A ONU calcula que haja 640 milhões de armas ligeiras em circulação por todo o mundo, responsáveis por pelo menos 1000 vítimas por dia. «Estas armas podem ser ligeiras mas provocam a destruição de massas», alertou Annan.
A Coligação «Control Arms», uma rede de 600 ONG criada em 2003, entregou ao Secretário-geral da ONU uma foto-petição com os rostos de um milhão de cidadãos de 160 países exigindo um controlo mais rigoroso do comércio de armas.
Em Portugal, a Comissão Nacional Justiça e Paz está a animar uma campanha «Por uma sociedade segura e livre de armas». Depois de cinco sessões de audição pública, está a organizar um festival juvenil sobre o mesmo tema.

27 de junho de 2006

War and love

LIBERDADE

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada.
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por Dom Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca....
Fernando Pessoa, Obra Poética