30 de janeiro de 2014

MISSIONÁRIOS ABANDONAM LEER

Missão de Leer

A equipa missionária que se encontrava em Leer, no Sudão do Sul, abandonou a missão e refugiou-se na floresta com outros deslocados devido à aproximação das tropas do Governo.

Um missionário escreveu numa mensagem electrónica enviada às 8h52, hora local, que não era seguro permanecer na missão.

Ele explicou que rebeldes do Darfur lideravam o ataque das forças do governo a Leer, a cidade natal de Riek Machar Teny, o líder dos históricos que opõem a linha autocrática do Presidente Salva Kiir Mayardit.

«Não respeitam ninguém,» acrescentou.

«Estamos a fugir para o lugar onde o P. Stephen e duas irmãs combonianas já se encontram» na floresta com outros deslocados, informou, levando os veículos e alguma comida.

As tropas do governo atacaram Mirmir, a 21 km de Leer, e saquearam o mercado.

Por outro lado, polícia, soldados e civis saquearam as organizações não governamentais em Leer, incluído o hospital que teve que evacuar 30 pacientes que estão sendo tratados no meio do mato.

Só respeitaram a missão.

«É muito triste ver o povo a quem servimos e procuramos ajudar saquearem o que lhes é oferecido como ajuda. Leer está praticamente deserta, poucas pessoas se movimentam. O povo fugiu para o mato», desabafa o missionário.

No Domingo os missionários celebraram em cinco localidades diferentes onde o povo está refugiado no mato.

As forças do governo e da oposição continuam a violar o cessar-fogo que assinaram a 23 de Janeiro em Adis Abeba, a capital etíope.

A luta pelo poder no seio do partido que lidera o Sudão do Sul desde 2005 regionalizou-se ao envolver tropas do Uganda e agora rebeldes do Darfur que ajudam o exército a retomar o controlo das cidades ocupadas pelas forças de oposição.

29 de janeiro de 2014

OS ELEFANTES

Salva Kiir Mayardit | Riek  Machar Teny

 O Sudão do Sul voltou a descer aos infernos da guerra depois de oito anos de paz: 700 mil deslocados e mais de dez mil mortos é o resultado de uma luta pelo poder com contornos étnicos.

Diz um ditado africano que quando dois elefantes lutam, o capim é que sofre. Esta era a triste realidade dos sul-sudaneses no virar de ano. A violência estalou a 15 de Dezembro em Juba quando soldados das etnias Dinca e Nuer, da Guarda Republicana, se envolveram em confrontos violentos. O conflito galgou os quartéis e transformou-se numa verdadeira caça ao nuer nos bairros populares da capital. De Juba, a violência étnica alastrou a três Estados com populações mistas de dincas e nueres, os dois grupos étnicos maioritários no Sudão do Sul com um historial de confrontos, incluindo a chacina de 2000 dincas por milícias nueres em 1991, em Bor, a capital de Jonglei.

O rastilho da violência começou a arder em Fevereiro de 2013 durante uma reunião do Bureau Político do SPLM, o partido que detém o poder no Sudão do Sul desde a assinatura de paz com o Sudão, em Janeiro de 2005. Da agenda constava a discussão da Constituição, Programa, Código de Disciplina e Regras e Regulamentos do partido. Mas tudo mudou quando o vice-presidente, Riek Machar, o secretário-geral, Pagam Amum, e Rebecca Nyandeng, viúva de John Garang, o fundador do partido, disseram que iam disputar a liderança do SPLM na Convenção Nacional de Maio. Os pretendentes estavam convencidos, como a maioria dos analistas, que o presidente Salva Kiir, uma personalidade cinzenta, não ia concorrer às eleições de 2015. Mas Kiir, talvez mal aconselhado pelo círculo de interesses que se move à sua volta, decidiu manter-se no poder e começou a manobrar para acantonar os históricos do partido que contestavam a linha autoritária que estava a impor ao SPLM. Em finais de Julho, demitiu o Governo em bloco e destituiu o vice-presidente Machar, que durante a guerra civil tinha alinhado por algum tempo com Cartum depois de um desacordo com Garang.

Kiir também destituiu os órgãos políticos do partido alegando que a sua validade tinha caducado com o adiamento da Convenção Nacional. Entretanto, convocou o Conselho de Libertação Nacional em meados de Dezembro, passando por cima do Bureau Político que estatutariamente é o órgão que prepara a agenda do Conselho.

Os confrontos entre tropas dincas e nueres da Guarda Republicana aconteceram no final do Conselho, a 15 de Dezembro. Para a maioria dos analistas, tratou-se de uma rixa entre soldados por causa de uma ordem de desarmamento dada pelo presidente. Kiir apareceu na TV vestido de general – apesar de ter deixado as Forças Armadas para se candidatar à presidência em 2010 – e acusou Machar de ter tentado derrubá-lo com o apoio de uma dúzia de ex-ministros e outras figuras cimeiras do SPLM, usando a oportunidade para mandar prender os históricos que lhe faziam sombra.

Os confrontos alastraram-se a mais três Estados numa deriva étnica entre Nueres e Dincas, que para o bispo católico Paride Taban, vice-presidente da Comissão Nacional de Reconciliação, são tribos primas e vizinhas, instrumentalizadas pelos políticos. Os confrontos registam já dez mil mortos.

A Igreja e a comunidade internacional foram rápidas a exigir a Kiir e Machar que abandonassem a via da violência e remetessem a luta pelo poder para dentro dos órgãos do partido. A Missão da ONU para o Sudão do Sul dobrou o número de capacetes azuis de seis para 12 mil para proteger os cerca de 700 mil civis, deslocados internos, que se refugiaram nas bases da missão, nos adros das igrejas, nas ilhas do Nilo Branco e nos Estados e países vizinhos.


O processo nacional de reconciliação pós-independência, já de si muito complicado, encontrou agora novas dificuldades que vão adiar ainda mais a construção de uma identidade nacional supratribal. E o espectro de uma guerra civil paira sobre o Sudão do Sul, três anos depois da independência.

28 de janeiro de 2014

EMERGÊNCIA SUDÃO DO SUL

O comboniano padre Gregor Bogdong acompanha deslocados em Old Fangak

Os Missionários Combonianos no Sudão do Sul lançaram um apelo em favor das pessoas afetadas pela luta pelo poder por parte de duas fações do SPLM, o partido que governa o Sudão do Sul desde a assinatura de paz entre o Governo de Cartum e os rebeldes sulistas.

O conflito armado que começou a 15 de Dezembro fez pelo menos dez mil mortos e afetou cerca de 700 mil pessoas. Os dados mais recentes da ONU indicam que há 575,500 deslocados internos e 112,200 refugiaram-se nos países vizinhos. Organizações humanitárias ajudaram cerca de 251,000 deslocados.

O padre Daniele Moschetti, superior provincial dos Missionários Combonianos no Sudão do Sul, lançou um apelo em favor dos deslocados pela violência política pedindo orações pela paz no país e ajuda financeira.

«Pedimos que rezem pelo povo do Sudão do Sul e por nós todos. Se têm a possibilidade de partilhar a vossa solidariedade com o povo do Sudão do Sul, são muito bem-vindos», o padre Danielle escreveu aos dirigentes dos Missionários Combonianos presentes na África, Ásia, Américas e Europa.

As missões combonianas de Leer e Old Fangak entre o povo nuer, foram afetadas pela crise violenta. Ambas estão a acolher deslocados que veem na igreja um santuário protetor. Outros deixaram Leer com medo de represálias e guardaram os parcos haveres na missão confiando que as tropas leais ao Presidente Salva Kiir Mayardit respeitem a Igreja.

Leer é a cidade natal de Riek Machar Teny, o ex-vice presidente que lidera a oposição ao governo de Kiir.
As missionárias e missionários combonianos permaneceram em Leer em solidariedade com o povo com quem vivem apesar de o pessoal estrangeiro ao serviço de organizações não governamentais em Leer ter sido evacuado para Juba.

Old Fangak, uma missão remota e relativamente segura a que se chega por barco ou por avioneta, acolhe um número considerável de deslocados que fugiram dos combates sangrentos de Malakal, Phom, Bor e Bentiu.

Negociadores representantes de Kiir e Machar assinaram em Adis Abeba, Etiópia, um cessar-fogo a semana passada mas ambas as partes estão a violar o acordo de acordo com fontes no terreno.


Ofertas para a «Emergência Sudão do Sul» podem ser encaminhadas através das comunidades dos Missionários Combonianos e da Editorial Além-Mar.

23 de janeiro de 2014

ORAÇÃO PELA PAZ NA UCRÂNIA


Devido à situação que a Ucrânia está a viver atualmente vimos, por este meio, pedir a sua oração e da Comunidade de que é responsável, pela paz no nosso país de origem.

Desde há dois meses que o povo ucraniano se tem vindo a manifestar no sentido de reivindicar a paz e o respeito pelos direitos humanos, sociais, culturais e religiosos, que permitam a promoção de uma vida melhor na Ucrânia.

Contudo, destas manifestações de paz não tem surtido resultados positivos, visto o governo se mostrar completamente surdo e indiferente às reivindicações do povo ucraniano expressas nas manifestações. A única coisa que o governo tem feito, até ao presente, foi ordenar uma repressão violenta das forças policiais e de segurança contra os cidadãos ucranianos, tendo já, vitimado 5 cidadãos.

Devido a estes acontecimentos e havendo em Portugal uma grande Comunidade Ucraniana, partilhando não apenas o espaço geográfico comum mas, acima de tudo, uma pertença aos valores universais do Cristianismo, atendendo a esta comum partilha de fé em Cristo, é com extremo respeito que vimos pedir-lhe, em nome da Capelania e do povo ucraniano, alguma iniciativa de oração e comunhão com a Comunidade Ucraniana residente em Portugal, nestes dias que queremos que sejam de oração pela PAZ na Ucrânia.

Os cristãos, mais do que nunca, devem ter plena consciência da sua identidade histórica, e devem procurar viver uma fidelidade radical aos ensinamentos do Evangelho, expressos em valores como a paz, a caridade e a denúncia de situações de opressão e de injustiça. Por isso, para além da sua preciosa oração, pedimos para que seja divulgado este nosso pedido de oração, junto das comunidades paroquiais, comunidades de vida consagrada e movimentos eclesiais, de modo a que seja promovida uma corrente de oração que reflita uma verdadeira comunhão entre a Igreja de Portugal e da Ucrânia e, assim, unidos pela oração poderemos ser denúncia desta situação opressiva e injusta que fustiga o povo ucraniano.

Agradecemos, desde já, a atenção dispensada. Estamos ao dispor para qualquer esclarecimento adicional.

Com os mais respeitosos cumprimentos. Em união com Cristo, em nome do qual servimos e somos.

Pela Capelania dos Imigrantes Ucranianos Católicos de Rito Bizantino em Portugal

Pe. Ivan Hudz
Coordenador Nacional

22.01.2014 Évora

«NÃO DEIXEMOS QUE NOS ROUBEM A ALEGRIA DA EVANGELIZAÇÃO»

©SAmado

Reclamar a alegria de sermos missionários aqui e agora é dos desafios mas importantes que temos à nossa frente como província e como indivíduos. Os missionários italianos que iniciaram a fundação em Portugal eram gente alegre – apesar das dificuldades inerentes a cada começo e dos problemas com a língua – e ainda são recordados por esse testemunho de gente simpática e de bem com a vida. E nós, os seus descendentes?

As canseiras apostólicas, a idade, as doenças, as desilusões da vida, a inércia, a acédia podem ter diluído o entusiamo e a alegria de sermos missionários de Jesus através da animação missionária da Igreja em Portugal e do serviço de formação e de outros encargos dentro da província e do Instituto. É normal. Por isso, temos que acolher cada dia a exortação de Paulo ao seu amigo Timóteo: «Recomendo que reacendas o dom de Deus que se encontra em ti» (2Tm 1:6).

A exortação apostólica Evangelii gaudium (EG) ou A alegria do Evangelho que o Papa Francisco escreveu em obediência aos padres sinodais que participaram na xiii Assembleia-Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos sobre «A nova evangelização para a transmissão da fé cristã» que teve lugar no Vaticano entre 7 e 28 de outubro de 2012 pode servir de pano de fundo para esta reclamação da nossa alegria.

O Papa Francisco escreveu que «o grande risco do mundo atual, com a sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho. […] Muitos caem nele [risco], transformando-se em pessoas ressentidas, queixosas, sem vida» (EG 2). O sublinhado é meu.
Felizmente que esta experiência não é um beco sem saída e ultrapassa-se facilmente com o renovar do encontro pessoal com Jesus Cristo (EG 3) e o regresso ao outro.

Gostava de usar a parte segunda «Tentações dos agentes pastorais» (EG 76 a 109) do Capítulo ii «Na crise do compromisso comunitário» para desbravar caminhos que nos levem de novo à alegria.

A alegria é uma palavra transversal à Bíblia e um frequente habitante das suas páginas. Para mim a afirmação mais inspiradora encontra-se em Neemias 8. Os trolhas encarregados das obras de restauração do Templo de Jerusalém desenterraram dos escombros o Livro da Lei de Moisés e o sacerdote Esdras organizou uma mega celebração da Palavra junto à Porta das Águas. Um número de levitas leu e explicou o Livro durante um dia inteiro e criou uma grande comoção na multidão que não arredou pé. O governador Neemias no fim disse ao povo para preparar um bom jantar, bem regado com vinho doce e partilhado com os pobres porque «este é um dia grande, consagrado a Deus; não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é a nossa força» (Ne 8:10).

Talvez será por isso que o povo na sua sabedoria milenar cunhou o ditado «um santo triste é um triste santo.»

O Papa Francisco, em «Tentações dos agentes pastorais», convida-nos a dizer não à acédia egoísta, ao pessimismo estéril, ao mundanismo espiritual e à guerra entre nós e sim a uma espiritualidade missionária e às relações novas geradas por Jesus Cristo. E lança sete desafios fundamentais: «Não nos deixemos roubar o entusiasmo missionário» (80); «não deixemos que nos roubem a alegria da evangelização» (83) – que usei como título desta reflexão; «não deixemos que nos roubem a esperança» (86); «não deixemos que nos roubem a comunidade» (92); «não deixemos que nos roubem o Evangelho» (97); «não deixemos que nos roubem o amor fraterno» (101); e «não deixemos que nos roubem a força missionária» (109).
Ora aqui está: o entusiasmo missionário, a esperança, a comunidade, a fraternidade, a força missionária e o Evangelho são os percursos com os quais podemos reclamar a alegria de sermos missionários.


GLOBALIZAÇÃO DO INDIVIDUALISMO

O Papa Francisco recorda que a cultura globalizada em que vivemos é o desafio fundamental que enfrentamos (EG 76). E ajunta: «O individualismo pós-moderno e globalizado favorece um estilo de vida que debilita o desenvolvimento e a estabilidade dos vínculos entre as pessoas» (EG 67).

De pessoas sociais e solidárias passamos a indivíduos solitários. Recordo na minha infância a prática de «dar a mão» com a qual os lavradores se entreajudavam desde a sementeira até à colheita organizando um calendário de vessadas, apanha da batata, esfolha do milho, vindima e apanha da azeitona e na gestão das águas comuns de levadas e tanques. O trabalho era animado com cantares ao desafio. Certamente que éramos mais pobres mas também mais felizes.

A urbanização juntou as pessoas em grandes aglomerados junto ao litoral ao mesmo tempo que as isolou. Passou-se da sociedade do nós à do eu com a exaltação do individualismo selvagem.

O Papa chama-lhe acédia egoísta. A acédia é uma palavra grega de tradução difícil: os mestres espirituais chamavam-lhe o demónio do meio-dia ou do meridiano. Tem a ver com preguiça, torpor, moleza espiritual, exaustão, apatia, melancolia, até mesmo depressão. Kathleen Norris escreveu Acedia & Me: A Marriage, Monks, and a Writer's Life, uma investigação muito interessante sobre esse tema.

O Papa Francisco caracteriza a acédia e os seus efeitos: «as pessoas sentem imperiosamente necessidade de preservar os seus espaços de autonomia, como se uma tarefa de evangelização fosse um veneno perigoso e não uma resposta alegre ao amor de Deus que nos convoca para a missão e nos torna completos e fecundos. Alguns resistem a provar até ao fundo o gosto da missão e acabam mergulhados numa acédia paralisadora» (EG 81).
E diz que as pessoas sentem-se exaustas não por excesso de trabalho, mas «nas atividades mal vividas, sem as motivações adequadas, sem uma espiritualidade que impregne a ação e a torne desejável» (EG 82), juntando o irrealismo, o imediatismo, o sucesso e a vaidade como outros elementos que ajudam à «acédia pastoral» e geram o «pragmatismo cinzento da vida», «mesquinhez», «psicologia do túmulo», «tristeza melosa, sem esperança que se apodera do coração como «o mais precioso elixir do demónio”», «escuridão e cansaço interior» (Cfr EG 83).

PESSIMISMO DERROTISTA
Outra das tentações que nos pode afetar sobremaneira é o pessimismo derrotista. Volto a citar o Papa Francisco: «Uma das tentações mais sérias que sufoca o fervor e a ousadia é a sensação de derrota que nos transforma em pessimistas lamurientos e desencantados com cara de vinagre» (EG 85).

Para vencer é preciso acreditar. Se partimos para uma atividade a pensar que não vai dar, não vai dar mesmo. Apesar de muitas vezes as situações pastorais em que estamos envolvidos na animação da Igreja local, na formação de futuros combonianos e nos diversos serviços provinciais e pastorais pareçam difíceis, não são impossíveis: não nos devem intimidar ou derrotar porque «o mau espírito da derrota é irmão da tentação de separar prematuramente o trigo do joio, resultado de uma desconfiança ansiosa e egocêntrica» (EG 85) como escreveu Francisco.

Vivemos numa sociedade «espiritualmente desertificada» em que o projeto comum é construído à margem de Deus negando as raízes cristãs da sociedade e da cultura. Lembro-me que quando visitei o Subiaco em 2003 – fazia parte das visitas guiadas dos capitulares – registei o sentimento que estava a contemplar uma das nascentes do grande caudal do génio europeu. Foi nas escarpas rochosas do monte Subiaco que Bento de Núrcia (480-547) sentiu a inspiração do ora et labora e deu corpo ao projeto beneditino que revolucionou a cultura e a agricultura na Europa e em Portugal.

É verdade que vivemos emersos num deserto espiritual mas uma das grandes descobertas do povo de Israel durante o êxodo de quarenta anos por uma sucessão de desertos é que Deus também se encontra no deserto e caminha com o seu povo. Por isso o autor do Deuteronómio escreve: «Eu vos conduzi durante quarenta anos pelo deserto, mas as roupas que vestíeis não se gastaram, e o calçado não se rompeu nos vossos pés» (Dt 29:4) e ainda: «A tua roupa não envelheceu sobre ti e os teus pés não incharam durante esses quarenta anos» (Dt 8:4).

O deserto é o lugar da tentação e do demónio – Jesus foi levado para o deserto para ser tentado pelo diabo (Mt 4:19) –, mas também é o lugar do encontro amoroso e sedutor com Deus: «É assim que a vou seduzir: ao deserto a conduzirei, para lhe falar ao coração» (Os 2:16).

Nas palavras do Papa Francisco - que por sua vez cita o Papa Bento xvi - o deserto abre novos horizontes: «É precisamente a partir da experiência deste deserto, deste vazio, que podemos redescobrir a alegria de crer, a sua importância vital para nós, homens e mulheres. No deserto, é possível redescobrir o valor daquilo que é essencial para a vida; assim sendo, no mundo de hoje, há inúmeros sinais da sede de Deus, do sentido último da vida, ainda que muitas vezes expressos implícita ou negativamente. E, no deserto, existe sobretudo a necessidade de pessoas de fé que, com suas próprias vidas, indiquem o caminho para a Terra Prometida, mantendo assim viva a esperança» (EG 86).

No novo êxodo, Deus caminha connosco para nos libertar das novas escravidões: tráfico de pessoas, droga, corrupção, fundamentalismo religioso, egoísmo económico que só vê o lucro e não respeita a terra e os seus ciclos de regeneração … para nomear alguns dos males que afetam o mundo de hoje, para nos abrir à solidariedade da partilha e da acolhida. Porque «somos pessoas-cântaro para dar de beber aos outros» (EG 86).

Um cântaro vazio ou furado não dá de beber a ninguém… Para darmos de beber aos outros temos primeiro de ir-nos encher à fonte da vida: «quem beber da água que Eu lhe der, nunca mais terá sede: a água que Eu lhe der há-de tornar-se nele em fonte de água que dá a vida eterna» (Jo 4:14).


REGRESSO AO OUTRO

A solução para os desafios do individualismo e do pessimismo passam pelo regresso ao outro!
Precisamos de uma espiritualidade de resistência cultural que nos sustente no remar contra a corrente, uma espiritualidade missionária que nos devolva o abraço e o encontro, redescobrindo a mística do viver juntos: «Neste tempo em que as redes e demais instrumentos da comunicação humana alcançaram progressos inauditos, sentimos o desafio de descobrir e transmitir a «mística» de viver juntos, misturar-nos, encontrar-nos, dar o braço, apoiar-nos, participar nesta maré um pouco caótica que pode transformar-se numa verdadeira experiência de fraternidade, numa caravana solidária, numa peregrinação sagrada» (EG 87).

Demos uma olhadela à Regra de Vida: «O encontro pessoal com Cristo é o momento decisivo da vocação do missionário» (RV 21.1). No princípio da nossa vocação está o encontro pessoal com Cristo que ganha espessura e consistência através dos muitos encontros de que é tecida a nossa vida. A relação comprometida com Deus deve levar-nos a uma relação comprometida com os outros através de dinâmicas de comunhão e serviço (cf. EG 91).

Como Jeremias, temos que escolher o lado positivo da realidade: «Vejo o ramo da amendoeira», respondeu o profeta a Deus que lhe perguntou o que via (Jr 1:11). Ele podia ter dito que via a chuva que não parava de cair no inverno palestiniano, a humidade a agarrar-se-lhe aos ossos, a lama pegada nos seus pés. Mas preferiu fixar a amendoeira que anunciava a primavera com os seus rebentos.

Os ingleses têm um ditado interessante: Há sempre uma linha de prata numa nuvem negra. Cabe-nos eleger onde fixar o olhar: na positividade ou na negatividade da vida. Um olhar positivo alimenta a esperança.

Depois vivemos numa sociedade cardíaca e neurótica em que se «só estou bem onde não estou», como cantava António Variações. Para dar saúde ao nosso coração temos que aprender «a encontrar os demais com a atitude adequada, que é valorizá-los e aceitá-los como companheiros de estrada, sem resistências interiores. Melhor ainda, trata-se de aprender a descobrir Jesus no rosto dos outros, na sua voz, nas suas reivindicações; e aprender também a sofrer, num abraço com Jesus crucificado, quando recebemos agressões injustas ou ingratidões, sem nos cansarmos jamais de optar pela fraternidade» (EG 91).

Temos de aprender de Jesus que é manso e humilde de coração para encontrar alívio para o nosso espírito (Mt 11:29) ou, como escreveu S. Inácio de Antioquia aos Tralianos, «preciso da mansidão para vencer o Príncipe do mundo.»

Estamos treinados a adorar Jesus na Eucaristia. Temos que aprender a ver a sua presença real nos outros, a começar pelos confrades com quem vivemos e passando pelos pobres e mais abandonados.


MUNDANISMO ESPIRITUAL

O Papa Francisco é useiro e vezeiro na denúncia do carreirismo eclesial sobretudo na cúria vaticana. Falou disso várias vezes e em circunstâncias diferentes e não surpreende que o tema emerja na sua exortação apostólica. Ele denuncia a busca da glória humana e do bem-estar espiritual (EG 93) muitas vezes disfarçados atrás das aparências da religiosidade e do amor à Igreja. E diz que o gnosticismo - «uma fé fechada no subjetivismo, onde apenas interessa uma determinada experiência ou uma série de raciocínios e conhecimentos que supostamente confortam e iluminam, mas, em última instância, a pessoa fica enclausurada na imanência da sua própria razão ou dos seus sentimentos» (EG 94) – e o «neoplagianismo autorreferencial e prometeico» que vem do complexo de superioridade estão por detrás de um «elitismo narcisista e autoritário» que consome as energias a controlar em vez de abrir caminhos à graça de Deus.

Ele avisa: «Quem caiu neste mundanismo olha de cima e de longe, rejeita a profecia dos irmãos, desqualifica quem o questiona, faz ressaltar constantemente os erros alheios e vive obcecado pela aparência» (EG 97). É um comportamento humano normal atacar o mensageiro quando não se gosta da mensagem.

O papa argentino recorda que o centro da Igreja é o Evangelho enraizado na vida das pessoas e não as liturgias exibicionistas, a doutrina ou o prestígio eclesial.

O Papa situa a origem dos conflitos interpessoais na busca do poder, prestígio, prazer e segurança económica (EG 98).


COMUNIDADE SANADORA

As Regras de 1871 descrevem a congregação como cenáculo de apóstolos. Recordemos o texto original: «Este Instituto torna-se, pois, como um pequeno cenáculo de apóstolos para a África, um ponto luminoso que envia até ao centro da Nigrícia tantos raios quantos os solícitos e virtuosos missionários que saem do seu seio. E estes raios, que juntos resplandecem e aquecem, revelam necessariamente a natureza do centro de onde procedem» (Escritos 2648). Um confrade nosso no Sudão do Sul insurgia-se contra esta imagem da comunidade comboniana que apodava de ultrapassada e esvaziada de sentido nos dias de hoje. Mas eu acredito que o ícone continua válido! E noto que os raios resplandecem e aquecem quando estão juntos!
Kate Daniel escreveu que voltamos para casa para cada um para sermos curados e aclamados. A comunidade é o espaço de cura, perdão e reconciliação e também o lugar para o testemunho de comunhão fraterna, «que se torna fascinante e resplandecente» para um mundo marcado pela guerra, pela violência e «por um generalizado individualismo que divide os seres humanos e põe-nos uns contra os outros visando o próprio bem-estar» (EG 99).

O Papa Francisco escreve na sua simplicidade desarmante e profunda que «sair de si mesmo para se unir aos outros faz bem» (EG 87).

Ele recorda que «o modo de nos relacionarmos com os outros que, em vez de nos adoecer, nos cura é uma fraternidade mística, contemplativa, que sabe ver a grandeza sagrada do próximo, que sabe descobrir Deus em cada ser humano, que sabe tolerar as moléstias da convivência agarrando-se ao amor de Deus, que sabe abrir o coração ao amor divino para procurar a felicidade dos outros como a procura o seu Pai bom» (EG 92) e exorta a que não deixemos que nos roubem a comunidade.

Fraternidade mística, contemplativa que sabe ver a grandeza sagrada do outro.

A oração de intercessão também tem uma dimensão muito especial no processo de reconciliação que é fundamental para a vida comunitária. Tiago escreve: «Rezai uns pelos outros para que sareis» (Tg 5;16).

Recordo-me que quando chegamos a Lisboa em finais de 1985 o Mota e eu tínhamos muitos problemas com o P. Carlos Sobrinho que Deus tem. Era o superior da comunidade e comportava-se connosco como um padre-mestre ressabido, chato, crítico… A princípio custava-me aturá-lo e uma vez até fui bastante rude com ele. Um ano, fomos os dois fazer o retiro anual à Buraca com o clero diocesano e ele veio confessar-se a mim. Percebi as suas dificuldades e as suas lutas e… comecei a rezar por ele. A nossa relação mudou como da noite para o dia. Já não o via como um padre-mestre azedo, mas como um irmão que fazia um grande esforço para ultrapassar os limites de um carácter colérico.


OUTROS DESAFIOS

O Papa Francisco termina a secção sobre as tentações dos agentes de pastorais com oito parágrafos sob o título «Outros desafios eclesiais» em que aborda as questões dos leigo, das mulheres e dos jovens na Igreja (EG 102-108).

São temas genéricos, mas que nos podem dar algumas pistas indicativas na nossa relação com as Irmãs Missionárias Combonianas, Seculares, Leigos Missionários Combonianos, colaboradores, empregados, benfeitores, familiares e amigos e repensar o espaço que têm na nossa vida apostólica e pessoal.

O Papa escreve que «a formação dos leigos e a evangelização das categorias profissionais e intelectuais constituem um importante desafio pastoral» (EG 102). E eu acrescentaria que a formação é uma dimensão a descobrir na nossa animação missionária.
A animação missionária é parte integrante da missão comboniana e a formação dos leigos para a missão deveria ser um elemento importante desse ministério. A formação dos leigos e o seu envolvimento na atividade missionária é uma maneira concreta de os ajudarmos a viverem o compromisso batismal que faz de nós todos missionários. O Papa escreve que «em virtude do Batismo recebido, cada membro do povo de Deus tornou-se discípulo missionário» (EG 120).
A participação dos leigos na animação missionária deve ir para além do vender livros, distribuir envelopes e fazer assinaturas. Eles também devem ser atores dessa forma de evangelização sem precisarem de vestir albas, porque isso é uma forma de clericalização do laicado. Algumas comunidades têm uma experiência interessante com o envolvimento dos leigos na animação missionária que deviam ser inspiradoras.
O Papa Francisco também faz uma reflecção interessante sobre o tema incontornável do lugar da mulher na Igreja escrevendo que «o génio feminino é necessário em todas as expressões da vida social» (EG 103). Um tema que deveríamos ter em conta no nosso ministério.
Finalmente, o Papa argentino nota que a pastoral juvenil sofreu um abanão importante com «o impacto das mudanças sociais» (EG 105). A quem o dizes – pensamos nós e pensam sobretudo os colegas que trabalham no sector da pastoral vocacional.
Noto em alguns de nós uma certa ansiedade em relação à falta de vocações. A sobrevivência do homo combonianus parece estar ameaçada. Acho que como congregação nunca reflectimos tanto na formação como resposta a essa ameaça. Mas este período de «vacas magras» de vocações não nos deveria tirar o sono e deixar-nos à beira de um ataque de nervos. Porque a vocações é um dom de Deus! E também um mistério. A história da Igreja está cheia de ciclos de recessão e expansão vocacionais. Em vez de lamentarmos os insucessos deveríamos repensá-los juntos para descobrir novos modos e espaços de pastoral vocacional juvenil.
Vivemos numa cultura «pós-cristã» em que a fé está enfraquecida e os índices de natalidade são muito baixos. Sem bebés não há missionários! Por outro lado, os jovens de hoje levam muito mais tempo a amadurecer e preferem compromissos a prazo. Há uma nítida mudança epocal na juventude e o Papa pede que aprendamos «a falar-lhes na linguagem que eles entendem» (EG 105).
Os jovens de hoje não são uma geração rasca: talvez andem à rasca por causa de uma escola que os formata em vez de os educar para a vida e pela falta de saídas de emprego. Mas continuam generosos e solidários, «aderindo a várias formas de militância e voluntariado» (EG 106). Basta ver a disponibilidade para ajudarem no Banco Alimentar – umas das grandes iniciativas de sucesso nos nossos dias – e o uso das redes sociais para campanhas de solidariedade e denúncia.
Seguindo as indicações do papa argentino, temos de encontrar os jovens onde eles estão: nos movimentos e associações, os novos espaços das agregações (EG 105) e eu ajuntaria na universidade para além da paróquia e da escola.
Há uma afirmação do Papa que eu gostaria de reter: a escassez de vocações «fica-se a dever à falta de ardor apostólico contagioso nas comunidades, pelo que estas não entusiasmam nem fascinam. Onde há vida, fervor, paixão de levar Cristo aos outros, surgem vocações genuínas. Mesmo em paróquias onde os sacerdotes não são muito disponíveis nem alegres, é a vida fraterna e fervorosa da comunidade que desperta o desejo de se consagrar inteiramente a Deus e à evangelização, especialmente se essa comunidade vivente reza insistentemente pelas vocações e tem a coragem de propor aos seus jovens um caminho de especial consagração» (EG 107). O Papa está a falar das comunidades em geral, mas temos que examinar até que ponto as comunidades combonianos se reveem neste diagnóstico.
O «vinde e vereis» (Jo 1:39) era importante para Jesus como método de pastoral vocacional e continua a ser importante para nós, hoje! Para as nossas comunidades serem contagiantes e fascinarem os jovens de hoje temos que recuperar a alegria de ser missionários aqui e tornar-nos e às nossas comunidades espaços de hospitalidade, encontro, de experiência de fraternidade e de Deus.

Termino com o último parágrafo desta secção: «Os desafios existem para ser superados. Sejamos realistas, mas sem perder a alegria, a audácia e a dedicação cheia de esperança. Não deixemos que nos roubem a força missionária!» (EG 109). Como costumava a dizer a uma amiga minha que me repetia sem sessar «é difícil», «é difícil mas não é impossível!» Nós temos recursos interiores e comunitários necessários para dar a volta à situação e viver com generosidade a vocação de missionários do Evangelho da Alegria, uma alegria cordial que ninguém nos poderá tirar (Jo 16:22)!

22 de janeiro de 2014

LEER MENOS TENSA

Oi. Paz para vocês.

Escrevo-lhes com mais notícias da missão de Leer, no Sudão do Sul..

Primeiramente, quero dizer que as missionárias e os missionários combonianos na missão de Leer, juntamente com os hóspedes de Bentiu e Mayon, estamos todos bem.

Em segundo lugar, desejo agradecer a todas as pessoas pela solidariedade e orações.

Em terceiro lugar, informo-lhes que a situação em Leer está muito menos tensa e voltando aos poucos ao normal. Tem permanecida tranquila desde a noite passada, mas não parece que já esteja tudo calmo como antes.

Nesta manhã, depois da missa, eu e duas irmãs combonianas saímos par ver um pouco como estava a situação. 

Fomos ao hospital de Leer. Encontramos alguns pacientes tratados pelos poucos médicos locais. Os Médicos Sem Fronteiras (MSF) estrangeiros  foram evacuados ontem. Os pacientes ficaram muito contentes ao nos ver. 

O hospital confirmou que um de seus veículos foi levado por soldados, um dos quais tinha sido tratado no mesmo hospital e que agora se encontra preso. Aparentemente queria o carro para fugir. Na fuga o carro capotou mas ninguém se feriu. Este e outros veículos estão sobre cuidados do comissário. 

Nós também visitamos um grupo de comerciantes de Darfur, Sudão. Eles ficaram felizes com a nossa visita. Confirmaram-nos que o mercado foi saqueado, levaram tudo, mas eles estão bem. Um Nuer e um comerciante darfuriano teriam sido mortos durante os saques. Durante a noite algumas casas teriam sido saqueadas também. Cumprimentamos o comissário que nos assegurou que a situação se normaliza.

A informação de que as tropas do governo teriam avançado rumo a nossa área e que teriam alcançado a região dos poços de petróleo parece ter sido inventada para criar pânico e fuga de maneira que pudessem saquear o mercado. Isto explicaria os tiros durante a noite que fizeram com que o povo deixasse a cidade. 

De facto, o último tiro que escutamos foi por volta das 9h00 da noite de ontem. Àquela hora o mercado já tinha sido saqueado. Isto nos faz pensar que se tivéssemos deixado a missão muito provavelmente teria sido saqueada também, pois saquearam no quintal vizinho onde não havia ninguém.

Agora, depois dos saques no mercado, além das questões de insegurança, enfrentamos insegurança alimentar. Leer era a única cidade do estado que fornecia alimentos. Com os saques fica mais difícil encontrar comida.

Finalmente, reafirmo que estamos bem e nos sentimos mais confiantes. Esperamos e rezamos para que um acordo de paz seja logo assinado e efectivado de maneira que os conflitos cessem e a vida por aqui volte ao normal.

No momento não temos informações sobre a capital Bentiu, onde as forças do governo e a dos rebeldes se concentram.

Unidos em oração. Fiquem com Deus.

Fr. Raimundo Rocha, missionário comboniano em Leer, Sudão do Sul

21 de janeiro de 2014

TENSÃO AUMENTA EM LEER

Leer no dia de Natal
Caros amigos e amigas, muita paz.

Os conflitos no Sudão do Sul voltam a criar tensão e transtornos na missão de Leer. Tudo tinha ficado mais calmo em Leer desde a semana passada. Porém, na noite desta segunda-feira se podia escutar tiros em várias partes da cidade durante toda a noite.

 Por volta da meia-noite e mais tarde por volta das duas da manhã alguns jovens vieram nos informar que as tropas do governo tinham avançado bastante rumo a Leer e que estariam nos campos de petróleo de Rier/Tharjath a 70 quilómetros de Leer. Os tiros seriam para informar a população (também para provocar caos, fuga e saques).

A partir da meia-noite o povo começou a deixar Leer rumo a vilas e lugares remotos mais seguros com medo de que as tropas do governo pudessem chegar a Leer e haver confrontos com os ‘rebeldes’.

Sinceramente não sei qual dos dois grupos é pior. Chegam até nós notícias de horrores provocados pelas tropas.

A cidade está quase deserta. Há informações de que o mercado teria sido saqueado e que indivíduos armados (possivelmente soldados) estariam assaltando o povo em fuga.

Às 4h00 da manhã alguns catequistas vieram nos informar sobre o que estava acontecendo e que estariam também em fuga.

 Às 5h30 tivemos uma reunião de emergência entre nós missionários. Discutimos a situação e resolvemos ficar na missão.

Às 7h00 celebramos a Eucaristia em meio à tensão, mas com muita fé. Ainda se podia ouvir tiros, mas não era nenhum ataque.

Um tanque e mais alguns veículos militares chegaram a Leer.

Fui visitar o hospital e os pacientes tinham sido levados para a casa dos médicos dos MSF. Alguns também fugiram, os mais graves permanecem.

Soldados levaram dois carros dos MSF à força. A equipe de médicos evacuou em dois aviões dos MSF.

É provável que os soldados ‘rebeldes’ levem os outros carros e saquearão o hospital. As violências e abusos são cometidos principalmente pelos soldados.

Não nos fizeram nada, estamos bem, mas apreensivos. A rede de telefone funciona muito mal. Ainda temos internet e dois telefones-satélite.

Fora de Leer, na Etiópia, as delegações que negociam o acordo de paz conseguiram elaborar um rascunho do acordo que teria agradado ao presidente, mas ainda não o assinaram, portanto os conflitos continuam.

Lamentamos profundamente pelo povo que não tem mais para onde fugir nem o que levar, sobretudo idosos e crianças.

Continuemos rezando pela paz e fim dos conflitos. Tentarei lhes manter informados, se puder.

Fiquem com Deus e muito axé.

Pe. Raimundo Rocha, Missionário Comboniano em Leer, Sudão do Sul

19 de janeiro de 2014

ESPERANÇA DE PAZ

Negociações de paz em Adis-Abeba © MLomayat
Caros amigos e amigas, muita paz.

Escrevo a vocês com mais notícias sobre a situação no Sudão do Sul. Mais uma vez, quero em nome do nosso povo, agradecer a todos vocês pelas orações e manifestações de solidariedade para com o povo sul-sudanês e para connosco missionários e missionárias presentes no Sudão do Sul.

Em segundo lugar, reafirmo que estamos ‘bem’ aqui na missão de Leer. Já passamos por momentos um tanto difíceis, tensos, mas agora a situação está mais calma em Leer.

Em terceiro lugar, desejo brevemente descrever a situação no geral. Hoje faz mais de um mês desde que os conflitos começaram em Juba na noite do dia 15 de Dezembro de 2013 a partir de uma confusão entre a guarda presidencial e outras forças. O que se desenrolou depois revela uma trágica briga por poder entre as principais autoridades. O exército se dividiu entre as forças insurgentes leais ao vice-presidente deposto e as tropas do governo, envolvendo principalmente as duas maiores tribos do país.

Juba, a capital do Sudão do Sul, hoje está mais calma. Muita gente deixou a cidade, mas concentra milhares que se refugiam nas bases da ONU.

Os conflitos no entanto se espalharam por outras regiões e hoje afetam sete dos dez estados, sobretudo nas regiões central e leste do país. Tudo isso tem um grande custo, sobretudo humano. Além da destruição das poucas estruturas públicas (e algumas privadas), muita gente perdeu a vida, quase todas pessoas inocentes. Não se sabe ao certo sobre o número de mortos, mas são milhares. Fala-se em chacina, massacre, estupros, assaltos e outras graves violações dos direitos humanos.

Estima-se que o número de pessoas que fugiram de suas cidades por causa dos conflitos passe dos 470 mil. A maioria delas estão nas bases da ONU, escondidas no mato ou em cidades onde não há conflitos. Muitos se refugiaram em países vizinhos. Isso gerou uma crise humanitária enorme. Há pouca comida, água, remédio e abrigo.

É incrível a forma rápida como chegam armas e munição e é muito triste e revoltante a forma lenta como chegam alimentos, remédios e proteção. Tem sempre alguns poucos que lucram com as guerras e conflitos.

Bor, capital do estado de Jonglei, foi a primeira a ser dominada pelas tropas dissidentes. Hoje, sob domínio do governo, é uma cidade ‘fantasma’ e destruída. Várias vezes passou das mãos dos ‘rebeldes’ para as do governo.

Malakal, capital de Upper Nile e da nossa diocese, foi a segunda a ser dominada. Hoje está nas mãos dos ‘rebeldes’ e parcialmente destruída. Domingo passado um barco com mais de 200 pessoas em fuga naufragou no Rio Nilo. Todas morreram. Um segundo barco sofreu um acidente.

Bentiu, capital de Unity, nosso estado, está nas mãos do governo. É outra cidade ‘fantasma’e destruída. A população fugiu. Milhares vieram para Leer, a maioria caminhando. Homens, mulheres, crianças, idosos, doentes caminharam 130 km até Leer e outras localidades em busca de proteção e alimentos. Muitos ainda estão na estrada. Muita gente foi assaltada no caminho. As tropas ‘rebeldes’ retornaram de Leer para Bentiu com muitos jovens recrutados para retomarem a cidade. A mesma ação os ‘rebeldes’ pretendem fazer em Bor.

Em quarto lugar, desejo descrever como estamos em Leer. A cidade continua isolada. Isso, de certa forma, garante ‘segurança’. Tropas externas não chegam facilmente. Também não haveriam razões para um ataque em Leer. O maior momento de tensão foi quando as tropas do governo tomaram Bentiu dos ‘rebeldes’ e o povo, junto com algumas tropas ‘rebeldes’, fugiram para Leer. Ainda há muitos soldados em Leer. Com medo de um ataque, muita gente de Leer fugiu com seus rebanhos para um lugar mais seguro. Agora começam a retornar a Leer. O que nos traz insegurança e preocupação é a presença de muitos soldados e civis com armas.

As ONGs que operam em nosso estado evacuaram. Permaneceram somente os Médicos Sem Fronteiras e a Cruz Vermelha, além da ONU com algumas forças de sua missão de paz. Nós, missionários Combonianos e Combonianas, também resolvemos ficar.

As dependências das ONGs e até da ONU em Bentiu foram violadas e saqueadas. Alguns veículos de particulares e das ONGs foram tomados à força por soldados ou por civis armados. Na última quarta-feira, dia 15 de janeiro, três soldados e um comandante entraram nas dependências da missão e queriam levar os carros da igreja. Conseguimos convencê-los de não os levar. Foram às dependências das freiras e queriam levar o carro delas. Chegaram a ameaçar uma irmã comboniana com um galho para dar-lhe uma surra. Conseguimos intervir e acalmá-los até que nos deixaram. Ninguém se machucou. Foi o único assédio e animosidade que sofremos nesses conflitos.

Em situações como a que vivemos não existe lei. Além da insegurança que se instalou, enfrentamos também a crise da insegurança alimentar. Os que fugiam para Leer precisam de comida e no mercado existe pouca e além disso é muito cara. Os refugiados se cadastram com a Cruz Vermelha, mas infelizmente tem chegado pouco alimento. A fome que já existia onde o povo comia só uma vez por dia, agora aumenta e tem gente que nem comida para um dia tem.

A nossa paróquia acolheu algumas famílias e estamos procurando a melhor forma de ajudá-los. O hospital de Leer (MSF) está cheio e continua recebendo pacientes feridos de outras cidades. São trazidos pelos aviões da Cruz Vermelha e dos Médicos Sem Fronteiras (MSF).

Em quinto lugar, queria dizer que nem tudo é tragédia. Existe muita solidariedade entre o povo. Em todas as casas e quintais tem gente. A hospitalidade do povo Nuer é incrível. Uma viúva com família grande acolhe 15 pessoas em sua casa. Confia na Divina Providência para manter esse povo todo. Muita gente é acolhida ao longo dos 130km de caminhada. Às vezes é suficiente um copo de água e uma dormida. A fé e a esperança também são grandes. E assim são muitos pequenos milagres.

Escuta-se muitas estórias tristes, mas também sobre muita ação solidária. Não é preciso muitas palavras. O amor fala mais alto concretamente. Além disso, a boa notícia que lhes queria comunicar é que neste último sábado (18/01/2014) as delegações que negociam o acordo de paz na Etiópia conseguiram assinar um acordo de paz que foi aceito pelo presidente. Com isso se espera que os combates se encerrem para permitir mais negociações. Queira Deus que esse acordo inicial seja cumprido por ambas as partes e não haja mais mortes e destruição. Deus seja louvado por isso.

No entanto, é preciso continuar rezando. Muita coisa precisa mudar para que haja paz definitiva. O acordo para o cessar-fogo, porém, nos traz esperança de paz e um pouco de tranquilidade. Continuem com as orações pela paz e reconciliação. Muita gente reza por nós e connosco e já se sente e vê os frutos das orações.

Fiquem com Deus e muito axé.
Pe. Raimundo Rocha, Missionário Comboniano em Leer, Sudão do Sul

15 de janeiro de 2014

BISPO LANÇA CRUZADA DE ORAÇÕES PELA PAZ NO SUDÃO DO SUL

Dom Eduardo Hiiboro Kussala, Bispo de Tombura-Yambio

O Bispo Católico de Tombura-Yambio iniciou uma cruzada de 21 dias de orações intensivas pela paz no Sudão do Sul.

Há um mês que o mais jovem país se vê envolvido num conflito político com derivas tribais que já matou mais de 10 mil pessoas e deslocou outras 500 mil.

Dom Eduardo Hiiboro Kussala escreveu uma carta aos fiéis de Tombura-Yambio, uma diocese na fronteira com a RDCongo, a 9 de Junho, dizendo que os sul-sudaneses já sofreram mais do que a sua conta os horrores da guerra que desde 1955 já matou mais de 4,5 milhões de pessoas.

O bispo diz que o conflito que se alastrou a quatro estados do Sudão do Sul desde 15 de Dezembro com «desenvolvimentos dramáticos» tem-lhe causado muitas preocupações e sofrimento.

Por isso, lançou uma iniciativa de 21 dias de oração intensiva pela preservação da paz e da justiça entre 12 de Janeiro e 2 de Fevereiro acompanhada por três sextas-feiras de jejum.

«Sabemos que a situação humanitária em três ou quatro dos nossos estados se agravou. Usemos este tempo para mobilizar os produtos equivalentes ao valor do nosso jejum para os necessitados. Esses produtos devem ser trazidos para as nossas paróquias no domingo. Eu peço e encorajo os nossos fiéis e homens e mulheres de boa vontade para que apoiem o exercício do jejum pela paz para os necessitados trazendo comida para a missa e para bancos e armazéns alimentares », indicou o bispo.

Dom Hiiboro pediu às partes em conflito «para escutarem a voz da própria consciência, não se fecharem somente nos seus próprios interesses, mas olharem para cada um como irmãos e irmãs e decidida e corajosamente sigam o caminho do encontro, diálogo, perdão e negociação para ultrapassar o conflito cego.»


A diocese começou a cruzada de oração e jejum pela paz com meio dia de recoleção a 11 de Janeiro na cidade de Yambio, capital do estado da Equatória Ocidental.

12 de janeiro de 2014

Sudão do Sul: MISSIONÁRIOS EM ALERTA

Missionários em Leer: Ir. Nicola, P. Yacob e P. Raimundo com P. Christian (de Old Fangak)

Caros amigos e amigas, muita paz.

Escrevo a vocês com mais notícias sobre a situação no Sudão do Sul. Primeiramente, quero agradecer a todos vocês pelas orações e manifestação de solidariedade para com o povo sul-sudanês e para connosco missionários no Sudão do Sul. Em segundo lugar, quero dizer que estamos ‘bem’ na missão de Leer, mas bastante preocupados porque a situação parece piorar. No geral, a situação não vai muito bem. Chega a 200 mil desabrigados e refugiados. Acredita-se que o número de mortos chega a milhares.

Em Juba, capital do país, a situação é relativamente tranquila. Em Malakal, capital da nossa Diocese, as tropas do governo estão no controle, mas volta a ter conflitos. Em Bor, capital do vizinho estado de Jonglei, os rebeldes estão no controle e pode haver mais conflitos. As tropas do governo estão agora no controle de Bentiu, a capital do nosso estado, mas isso não significa paz.

Com medo dos confrontos entre as tropas, o povo teve que fugir de Bentiu. A cidade foi saqueada e destruída. Centenas de pessoas vieram para Leer em carros, mas a maioria a pé (130km). Muitos foram assaltados no caminho. Há uma situação de insegurança quase generalizada. Muitos soldados foram trazidos feridos para o hospital de Leer. Não sabemos quantos morreram nos combates.

Enquanto Leer recebia centenas de pessoas fugindo de Bentiu, muita gente deixava Leer em fuga para povoados ou outros lugares mais ‘seguros’ por medo de um possível ataque em Leer. De facto, tivemos na missa de hoje metade do povo que costuma vir e metade deles era gente que veio de Bentiu. Muitos soldados chegaram a Leer também. Os dois padres de Mayom e um de Rubkona vieram para nossa missão. O padre de Bentiu foi para Juba.

A situação que era relativamente calma ficou tensa e temerosa em Leer. O clima é de guerra e insegurança. O medo e a tristeza no rosto das pessoas são quase palpáveis. O mercado de Leer continua fechado por medo de saques. Se saquearem o mercado vai faltar comida e não tem como chegar mais alimentos porque estamos isolados.

Nós missionários fizemos uma reunião de emergência para saber o que fazer, se ficamos ou se deixamos a missão. Consultamos os catequistas e o comissário, autoridade local que funciona como prefeito, e nos disseram que não há perigo de as tropas virem a Leer para um ataque, mas se houver perigo nos informarão em tempo. Leer é a cidade natal do líder dos rebeldes, o vice-presidente deposto.

A nossa decisão por enquanto é de ficar na missão de Leer, mas estamos em alerta e monitorando a situação. Se for preciso, deixaremos a missão e iremos para Juba num avião de resgate. Essa é uma decisão muito dolorosa, ter que partir e deixar o nosso povo. Porém, as suas vidas, assim como as nossas, são preciosas e não podemos arriscar demais. É também dolorido saber que a missão pode ser saqueada. Tudo aqui é difícil de se conseguir e de construir. Foram anos de trabalho. Isso gera angústia. A nossa esperança é que a situação se acalme e tudo volte ao normal.

Porém, as negociações de paz na Etiópia avançam muito devagar. A nossa proteção e esperança estão mesmo em Deus. Por isso, intensificamos nossas orações por paz e reconciliação com o povo da missão. O mundo todo reza por nós e conosco. Convidamos vocês a fazerem o mesmo. Espero poder escrever com boas notícias na próxima vez.

Fiquem com Deus. 

Pe. Raimundo Rocha, Missionário Comboniano em Leer, Sudão do Sul

11 de janeiro de 2014

SANTOS e PECADORES

 Terekeka: celebração da missa © JVieira

VIVI OS ÚLTIMOS SETE ANOS no Sudão do Sul, o país mais novo do mundo. Integrei uma equipa de Missionárias e Missionários Combonianos encarregada de estabelecer a Rede de Rádios Católica: nove estações locais mais direcção e redacção central e um centro de produção de programas.

Foi uma experiência de trabalho única e também uma experiência de Igreja casta meretrix, casta prostituta, de santos e pecadores, pedindo emprestada a afirmação a Santo Ambrósio de Milão. Uma igreja que nos manteve um ano sob os radares antes de aceitar a nossa colaboração pastoral. Queriam saber ao que vínhamos já que os Sudãos são a terra santa dos combonianos e por vezes comportaram-se como donos e senhores da igreja até que em 1964 Cartum expulsou todos os missionários cristãos do Sul! Em 1993, o regime de Al Bashir repetiu a dose: levou para Cartum os missionários que trabalhavam no Sul e recusou-se a dar-lhes novos vistos de residência pelo que tiveram de abandonar o país.

1. Igreja mártir

A Igreja do Sudão do Sul é uma igreja mártir. Quatro padres foram assassinados durante a 1ª guerra civil entre Agosto de 1955 e Março de 1972: Arkangelo Ali, diocesano, em Rumbek, pelas forças da ordem a 21 de Julho de 1965; Barnaba Deng, comboniano, a 23 de Agosto de 1965, em Wau, pelas forças da ordem; Saturnino Ohure, diocesano, em Kitgum-Uganda a 27 de Janeiro de 1967; e Leopold Anywar, diocesano, em Kitgum-Uganda em 1968. O crime? Opuseram a arabização do sul e a aplicação da charia, lei muçulmana.

Durante a 2ª Guerra civil (1983- Janeiro de 2005) um número indeterminado de catequistas e leigos desapareceram da Casa Branca em Juba, o quartel da secreta sudanesa no Sul, e de outros postos de tortura e morte, e alguns padres foram presos e torturados por operem mais uma vez o processo de arabização e islamização do Sul que é negro e cristão ou segue a religião tradicional.

2. Igreja mãe

A Igreja manteve-se ao lado do povo e cuidou dele durante quase 50 anos de guerra:
  • Animava a gente a acreditar num futuro melhor e a aguentar o terror da guerra, da doença, da fome e da deslocação. Mais de dois milhões foram mortos e quatro milhões deslocados pelos combates para Cartum, Uganda, Quénia e Canadá, EUA, Reino Unido, Austrália;
  • Organizava orações ecuménicas pela paz, envolvendo também muçulmanos;
  • Mantinha escolas e centros de saúde abertos sobretudo nas áreas libertadas e procurava e distribuía comida;
  • Os dois arcebispos de Juba, um católico e outro anglicano, tinham um acordo: um deles tinha que estar na cidade quando o outro tinha que viajar por algum motivo;
  • Promoveu o diálogo sul-sul para procurar a reconciliação entre fações desavindas e senhores da guerra;
  • Manteve a questão do Sudão do Sul na agenda internacional através de um incessante trabalho de advocacia nos fóruns internacionais e eclesiais;
  • Propôs a ideia do referendo para a autodeterminação através da campanha «Deixem o meu povo escolher.»

3. Igreja à procura

O Arcebispo Católico Paolino Lukudu Loro de Juba disse que a geração que guiou a Igreja durante os longos anos da guerra devia passar o testemunho, mas só o bispo Paride Taban de Torit o o fez, reformando-se aos 69 anos, na véspera do acordo de paz, para começar uma experiência inovadora: a Aldeia da Paz da Santíssima Trindade em Kuron: uma aldeia que recebe gente de tribos que se digladiam por causa do gado e fazem a paz através da agricultura e do desporto «para construir um oásis de paz onde as comunidades vivem em harmonia total explorando o seu potencial total para transformar as sua vidas/aldeias.»

Com a paz, a torneira das ajudas fechou e os bispos foram obrigados a buscar novos financiamentos para reconstruir as finanças incluindo contratos sem grande futuro com investidores chineses: eles constroem, exploram por 15 a 20 anos, pagam uma pequena renda, e depois passam a propriedade à igreja pronta para a demolição.

Os bispos formam uma conferência episcopal incapaz de tomar e implementar decisões rápidas: a mudança do secretário-geral da conferência levou dois anos a concretizar… E no Sul do Sudão estão mais preocupados com a sua autonomia do Sudão que ajudar aquela Igreja perseguida pela regime e que tanto fez para receber os deslocados do Sul durante os anos 80 e 90.

Os Bispos governam a igreja como chefes tradicionais e não prestam contas a ninguém. Quando o membro de uma ONG católica alemã visitou o Sudão do Sul para verificar como alguns bispos estavam a usar o dinheiro que tinham pedido para projetos concretos, um dos purpurados questionou: «Quem é o senhor para me perguntar isso?»

A Igreja denuncia a corrupção, o tribalismo e nepotismo, cancros que comem o tecido social do Sudão do Sul, mas que ao mesmo tempo não é transparente com a sua administração e não investiga os casos de corrupção… Na escola secundária Daniel Comboni sumiram uns 10 mil Euros das matrículas em oito meses em 2009 e a administração diocesana não se preocupou em descobrir como ou para onde o dinheiro foi…

4. Igreja viva

A Igreja continua à procura do seu caminho no tempo de paz mas continua viva:
  • Organizou um programa especial 101 Dias de Oração pele Paz para preparar o referendo de autodeterminação a 9 de Janeiro de 2011. O Programa correu de 21 de Setembro de 2010 – Dia Internacional da Paz – a 1 de Janeiro de 2011 – Dia Mundial da Paz. Envolveu também outras igrejas e além de oração, procissões, um dia de jejum, também incluiu plantação de árvores, campanhas de limpeza…
  • Os bispos católicos e protestantes e o Conselho das Igrejas continuaram a preparar mensagens para guiar as pessoas durante os momentos críticos do referendo, independência, durante os confrontos que mergulharam o país no medo a partir de 15 de Dezembro…
  •  Deu protecção a milhares de pessoas que se refugiaram nos seus adros durante os confrontos étnicos das últimas semanas.
  • O poder político pediu aos dirigentes religiosos – cristãos e muçulmanos – que liderassem o tão necessário projeto de reconciliação nacional e confiou-lhes a iniciativa apesar de nem sempre colocar o dinheiro onde tem a boca…
5. Igreja mestra

Na Etiópia, com o povo Guji, aprendi a evocar Deus como pai e mãe, avô e avó, bisavô, o que nos deu à luz, uma experiência que me ajudou a viver Deus como o Antepassado comum.

No Sudão do Sul, aprendi a rezar Allah Kareem – Deus é generoso: uma evocação muito comum em árabe.

Sim, Deus é generoso através das pessoas que nos envia – em Juba fiz amizades muito lindas e profundas até com gente fora dos círculos eclesiais – e pela experiência profissional de um jornalista a narrar o dia-a-dia de um país em construção.

Aprendi a apreciar as missas longas – pelo menos de duas horas – e vividas intensamente até ao suor e quase à exaustão no cantar e dançar, debaixo dos pés de manga, das árvores nim, nas capelas simples da periferia da capital, especialmente nos meus sítios preferidos: Mori, na outra margem do rio, e Walawalang, por detrás do aeroporto junto ao canal, onde me deram um nome novo: Tombe, o primogénito, por tentar aprender a ler a língua Bari para celebrar a missa. Tenho saudades dessas experiências da presença palpável da energia de Deus presente no seu povo.

7. Igreja minha

Uma amiga enfermeira canadiana que trabalhou três anos como voluntária na Etiópia e com quem mantinha conversações interessantes sobre homossexualidade, divórcio, aborto e outros temas quentes, um dia perguntou-me: «Joe, todas essas patranhas cometidas pelo pessoal do Vaticano nunca te tentaram a deixar o ministério?»

«A minha própria experiência de pecado ajuda-me a entender o pecado dos outros», foi a resposta que lhe dei.

A mesma atitude mantenho hoje: com a Igreja e como a Igreja sou casto e prostituto, Santo e pecador: o ying e yang da minha experiência cristã.

(Testemunho para ciclo de debates «Uma Igreja despojada» na paróquia de Santa Isabel - Lisboa)

8 de janeiro de 2014

SUDÃO DO SUL: MAIS NOTÍCIAS

Caros amigos e amigas, muita paz.

Volto a lhes escrever com mais notícias sobre a situação conflituosa em que vive o Sudão do Sul. Já são 22 dias de conflitos.

Tudo começou no dia 15 de dezembro em Juba. A situação em Juba é relativamente calma. Os conflitos diminuíram por lá. Porém, muita gente foge da cidade por medo de um possível ataque das tropas rebeldes que querem tomar a capital. Muitos se refugiam nos países vizinhos.

O conflito espalhou-se pelo resto do país. Seis dos dez estados foram atingidos.

No meio dessa crise política e briga por poder fica cada vez mais acentuado um conflito tribal entre as duas maiores tribos do país, Dinka e Nuer. Ao todo são 64 tribos: nem todo o mundo está envolvido nesse conflito, mas todo o mundo é vítima. 

É difícil saber o número de mortos, seguramente mais de mil. São quase 200 mil refugiados, pessoas que foram obrigadas a fugir de suas casas para não serem mortas. Entre elas muitas crianças, mulheres e idosos.

A situação começa a piorar na nossa região que está sob domínio dos rebeldes. A capital da nossa diocese, Malakal, ficou bastante danificada depois dos conflitos. As tropas do governo conseguiram retomar a cidade. A capital de outro estado – Bor - ainda está nas mãos dos rebeldes. A capital de nosso estado – Bentiu - também em poder dos rebeldes. São três cidades estratégicas e que ficam na região rica em petróleo.

A cidade mais próxima de Bentiu é Mayom. Lá houve combate, destruição e morte. As tropas do governo avançam para Bentiu e a população foge. Pode haver confrontos a qualquer momento. A população civil se refugia nas bases da ONU, foge para cidades vizinhas ou se esconde no mato.

Leer fica a 130 quilómetros de Bentiu. Muitos carros trazendo muita gente chegaram hoje a Leer. Nossa casa e a das irmãs Combonianas acolheram três padres e outras pessoas. A paróquia de Leer se prepara para acolher quem não tem para onde ir. O mercado de Leer continua fechado por medo de saque. Com isso logo mais poderá faltar alimento.

Continuamos isolados. A única saída é por ar em aviões pequenos. A saída pelo rio Nilo está bloqueada pelas tropas rebeldes e a única estrada em que se pode trafegar leva a Bentiu onde possivelmente haverá combates.

O hospital de Leer, dirigido pelos Médicos Sem Fronteiras, continua a receber pacientes feridos trazidos de avião.

A situação fica cada vez mais difícil e dramática para a população civil inocente.

Enquanto isso, desde domingo, seguem as conversações de paz na Etiópia, mas até agora não se produziu nenhum resultado. Os conflitos continuam e não se sabe até quando.

Em Leer não há conflitos e achamos que não haverá, porém o clima é tenso e temeroso. Vamos continuar na missão ao lado do povo. Estamos bem. Nossa proteção vem de Deus. Os telefones funcionam muito mal. Comunicamo-nos mais por internet.

No meio de tudo isso a gente ver sinais bonitos de esperança e solidariedade. A igreja continua com sua missão conciliadora e reconciliadora, embora seja difícil nesse momento, presta grande ajuda humanitária e espiritual, como também na mediação dos conflitos. Não se cansa de convocar para uma intensa campanha de oração pela paz e reconciliação. Através disso também se faz denúncia.

Continuem rezando por nós, sobretudo para quem se ver obrigado a dormir no frio, com fome e sede e sem saber o que pode acontecer amanhã.

Que a paz de Deus e seu Espírito nos traga o dom da reconciliação.

Muito axé, paz e justiça para todos os povos. Continuem com Deus.

P. Raimundo Rocha
Missionário Comboniano
Leer, Sudão do Sul


ORAÇÃO PELA PAZ NO SUDÃO DO SUL

Deus de amor e misericórdia,
Vós criastes pessoas de cada clã,
tribo e nacionalidade.
É vossa vontade que todos os povos possam
viver em paz, harmonia e unidade.
Somos todos irmãs e irmãos.
Pedimos-vos perdão pelas vezes
que não vivemos em paz.
Curai as nossas feridas e ajudai-nos
a reconciliar-nos uns com os outros.
Nós também rezamos pelos nossos líderes.
Concedei-lhes a sabedoria divina
e ajudai-os a promover o respeito,
a paz, o amor, a unidade, a justiça
e a verdadeira reconciliação
para que cada clã e tribo no Sudão do Sul
possa viver em paz e harmonia.
Nós vos pedimos por Jesus Cristo Nosso Senhor.
Amém.


5 de janeiro de 2014

MÁRIO ROSSIGNOLI


O Irmão Comboniano Mário Rossignoli faleceu hoje em Verona, Itália com 81 anos de idade.

Vivemos alguns anos juntos em Juba, no Sudão do Sul, até Mário ter de ir para Itália em 2010, devido a problemas de saúde. Era cardíaco e o calor sufocante de Juba dificultava-lhe a respiração. Uma vez encontrei-o às duas da manhã na varanda em grande aflição.

O Mário queria ser padre, mas aconselharam-no a ser irmão. Viveu a vida missionária entre o Uganda e o Sudão do Sul sobretudo com o povo mad’i que vive dos dois lados da fronteira e a quem amava de um modo especial.

Era irmão mas gostava de ensinar catequese. Nos últimos anos aprendeu a usar o computador e a Internet para distribuir todas as semanas um comentário às leituras de domingo, que preparava com esmero.

Recebi o último texto na sexta. Era sobre a Epifania que celebrámos hoje. O Mário escreveu: «Nós mantemos os nossos corações abertos para descobrir o caminho da generosidade em obras de caridade e pedimos a Maria a coragem para o seguir.»

O Mário tinha um grande amor a Nossa Senhora. Quando soube da minha eleição, esccreveu-me a dar os parabéns. Disse que gostaria de visitar Fátima. Eu respondi que tinha todo o gosto de o receber em Lisboa e de o levar a Fátima e a outros sítios em Portugal.

O nosso reencontro fica para o Paraíso!


Obrigado, Mário, pela tua dedicação à missão, à Palavra de Deus, e ao povo Mad’i. Que o Senhor te tenha no seu abraço terno e misericordioso. Quando passar por Fátima, vou dizer olá à Mãe por ti.